“Hoje, há uma grade convergência. Nos aproximamos uns dos outros, mas não conseguimos superar a barreira final. Sinto muitíssimo, mas esta é uma questão que não pode ser forçada demais”, afirmou o Cardeal Walter Kasper em entrevista para Ecumenical News International (ENI), em Stuttgart, Alemanha, durante a 11 Assembleia da Federação Luterana Mundial (FLM). O carderal, que se aposentou no dia 1 de julho. Kasper, com 77 anos, tornou-se presidente do Conselho Pontífice para a Promoção da Unidade Cristã em 2001; nos dois anos anteriores havia servido o mesmo conselho como secretário. Natural da Alemanha, Kasper foi professor de teologia em Münster e Tübingen, e foi bispo de Stuttgart de 1989 a 1999. Depois de se tornar secretário do conselho pela unidade no Vaticano, ele participou da assinatura, em 31 de outubro de 1999, Dia da Reforma, da “Declaração Conjunta acerca da Doutrina da Justificação” entre a Igreja Católica Romana e a FLM. Este documento teve como objetivo superar condenações, feitas no século XVI, entre o papado e o reformador Martin Lutero e seus seguidores. Entretanto, partilhar a Eucaristia, ou Santa Ceia, o sacramento central cristão que celebra a última refeição de Jesus com seus discípulos, permanece sendo um ponto de contenção. A doutrina católica impede os protestantes, na maioria das situações, de receber a eucaristia de padres católicos, e diz que católicos não devem participar da mesma em igrejas protestantes. “Sei que o problema existe, nas famílias e entre bons amigos e parceiros”, disse Kasper. “Mas não posso simplesmente me sobrepor a toda doutrina existente. Acho, no entanto, que conseguimos conquistar algumas coisas. Talvez não o consenso esperado, mas uma convergência”. As palavras de Kasper foram um eco às do presidente da FLM, Mark S. Hanson, dos Estados Unidos, que disse, em uma das coletivas de imprensa, que o compromisso luterano com o ecumenismo não vai terminar enquanto os luteranos não puderem partilhar a Eucaristia com outras igrejas. “Precisamos continuar o diálogo sobre as questões teológicas que ainda nos impedem de partilhar a Eucaristia”, afirmou Hanson. O presidente da FLM foi perguntado se vislumbraria o dia em que um casal, no qual um dos membros é católico e o outro é luterano, poderia partilhar a comunhão sob a benção das duas igrejas. Hanson respondeu que são os leigos nas igrejas que estão guiando e sustentando esse debate, e que reconhece o “ecumenismo de raiz” que está bem vivo entre as pessoas leigas. Em seu discurso oficial à assembléia, Kasper avaliou que “ao longo dos últimos anos temos colhido frutos do diálogo. Fiquei mais que surpreso ao ver uma colheita tão farta, e que conseguimos alcançar muito mais do que jamais sonhamos. Não houve inverno ecumênico algum”. Kasper reconheceu que há uma ampla agenda inacabada, que deveria ser mais uma razão para buscar a unidade. “Não podemos mais continuar apegados às nossas diferenças”, disse aos delegados. Em sua entrevista a ENI, o ex-secretario do Vaticano sublinhou que o diálogo e o debate devem continuar. “É igual para os dois lados. É preciso ter paciência e ser impaciente ao mesmo tempo”, acrescentou com um sorriso. "Pensei que seria mais fácil me engajar em discussões ecumênicas, visto que havia experimentado a divisão na terra da Reforma", disse. Em 1517, Martin Lutero afixou suas 95 teses à porta da igreja do castelo do Wittenberg, dando início à cisma com a Igreja Católica Romana. “A Reforma começou na Alemanha. Estamos na sua origem e, por isso, a Reforma e as relações com os evangélicos luteranos são uma preocupação para nós, porque isso nos dividiu por muitos séculos. E ainda hoje divide famílias”, afirmou Kasper. Ele lembrou que estudou e depois ensinou teologia em universidades da Alemanha em que havia sempre duas faculdades, uma para os protestantes e outra para os católicos. “Então, as relações ecumênicas eram parte de nossa vida. Temos muitos amigos protestantes. Fui bispo numa diocese em que metade era protestante e a outra metade era católica. É uma realidade normal para nós, e acredito que nos ajuda a entender o outro ângulo e a entender a urgência de trabalhar pela unidade e comunhão.” Em sua entrevista em Stuttgart, Kasper reconheceu que algumas alas da Igreja Católica Romana têm dificuldade em lidar com tais desenvolvimentos ecumênicos, mas disse que contava com o apoio tanto de João Paulo II como de Bento XVI. Recapitulando o que já foi alcançado em termos de progresso ecumênico na última década, Kasper disse que não teria sido possível sem a amizade de suas contrapartes de outras tradições. Ele disse que uma amizade profunda se desenvolveu entre ele e o Rev. Ishmael Noko, o secretario geral da FLM. A amizade pessoal e as relações pessoais são fundamentais para o trabalho ecumênico e para o trabalho pastoral, pois sem relações pessoais, sem amizades pessoais e confiança, não se pode fazer nada; esta é a base de tudo. Então, quando há amizade, se há confiança, também podemos falar das diferenças e também podemos alcançar resultados positivos, afirmou Kasper o cardeal. Ao apresentar Kasper aos delegados da assembléia, Noko disse: “você encarna em sua alma o espírito do ecumenismo. Você tem sido um encorajador, quando os obstáculos pareciam intransponíveis, e uma pessoa que diz a verdade sempre”.  |