
| Brasília (DF) recebe seminário sobre a Questão Palestina |
| Sex, 17 de Agosto de 2012 14:57 |
Um ato de solidariedade. Assim pôde ser definido o “Seminário Nacional dos Movimentos Populares Sobre a Questão Palestina”, realizado em Brasília, nesta quinta-feira, 16 de agosto. O evento, realizado no campus de uma universidade local, reuniu representantes dos movimentos populares, pensadores, estudantes, formadores de opinião e simpatizantes da causa Palestina.
Um dos objetivos do Seminário foi apoiar os anseios do povo palestino, que luta por reconhecimento em órgãos internacionais e, sobretudo, pela soberania de seu território. Vale lembrar que movimentos ecumênicos no mundo inteiro têm dado apoio a esta luta.
Sobre o assunto, o CONIC falou com Nancy Cardoso, pastora metodista, secretária de publicações do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos), integrante do PIEF (Palestine and Israel Ecumenical Forum), do WCC (World Council of Churches) e do Peace for Life, além de agente de formação da CPT (Comissão Pastoral da Terra).
Qual a importância de se debater a Questão Palestina?
A ocupação ilegal da Palestina pelo Estado de Israel revela a cara mais explícita do antigo colonialismo, e combina novas formas de neo-colonialismo. Interesses externos mobilizam a política interna, no que pode ser considerado, também, um ponto avançado de controle do ocidente sobre o oriente. O modelo de interpretação que me parece mais adequado é o do regime Apartheid, na África do Sul. Como na África do Sul, os assentamentos israelenses na Palestina expulsam a população nativa, isso pra não citar que todas as formas políticas de defesa de território utilizadas pela população palestina vêm sendo considerada terrorista, e os mais básicos direitos humanos não são reconhecidos. Isso demonstra o caráter persistente do colonialismo europeu do século passado, articulado com as tecnologias de controle de território modernizadas do ocidente sobre o oriente, fazendo da Palestina um ponto de inflexão geopolítico delicado e explosivo, com poucas chances de resolução.
O governo israelense dá ouvido a esses fóruns?
Não. O Estado de Israel não reconhece a legitimidade das demandas Palestinas, nem os processos das resoluções internacionais de órgãos de diplomacia, nem as interlocuções de outros Estados e muito menos as iniciativas de movimentos internacionalistas de solidariedade que são constantemente criminalizados.
Qual a posição do governo brasileiro?
O governo brasileiro tem uma posição ambivalente: apoia firmemente o reconhecimento do Estado Palestino, vota a favor das demandas Palestinas nos organismos internacionais e faz esforços de relações bilaterais no campo econômico e cultural com a Palestina, inclusive recebendo refugiados/as. Por outro lado, não tem uma política clara de apoio e fortalecimento destas comunidades refugiadas, deixando a desejar na criação de condições objetivas. E, o pior, mantém acordos econômicos e militares com Israel, em especial na área de armamentos e de tecnologia de segurança. Vale lembrar que a indústria militar de Israel tem intensificado sua presença na América Latina. Empresas como Elbit Systems e Rafael, por exemplo, entraram no mercado e adquiriram subsidiárias no Brasil. Neste sentido, o Brasil acaba participando do fornecimento de armas que o Exército israelense usa para o assassinato de civis e para fazer “execuções extrajudiciais” de palestinos/as. Uma dessas empresas deu a licença para a Taurus produzir os seus rifles Tavor no Brasil. Assim, o Brasil ainda hospeda, recebe e investe em empresas que contrariam todas as normas do direito internacional, uma vez que promovem a ocupação ilegal e desenvolvem tecnologias de controle e opressão da população palestina.
Você acha que o Brasil deveria se posicionar de forma mais firme? Por quê?
Considerando a resposta anterior, devemos exigir que o a política externa brasileira reúna seus esforços, e discipline as relações econômicas e militares a partir de seu posicionamento positivo quanto ao reconhecimento do Estado Palestino e sua soberania sob seu território, de acordo com os tratados internacionais.
De que maneira você entende que os movimentos sociais podem fazer a diferença?
No ano passado, movimentos sociais e pastorais articulados pela Via Campesina e CUT organizaram o I Encontro Nacional de Solidariedade com a Palestina, na Escola Floresta Fernandes, do MST, em São Paulo. Esta reunião articulou e fortaleceu diversas iniciativas isoladas, e criou as condições para a convocação do Fórum Social Mundial Palestina Livre, que acontecerá em Porto Alegre (RS), de 28 de novembro a 1º de dezembro deste ano. Estes esforços aproximam as lutas no Brasil e as lutas na Palestina, e podem criar um processo de convencimento necessário para uma postura política do Brasil mais firme e mais conseqüente. A realização do Fórum Social Mundial Palestina Livre deve reunir movimentos populares internacionalistas, movimentos de base e governos (locais, estadual e federal) neste sentido. Muitos grupos de direitos humanos em Israel e de rabinos em prol dos direitos humanos também têm demonstrado as possibilidades reais dos processos de luta a partir das bases sociais.
E no caso do CONIC, um conselho de igrejas, como ele pode ajudar?
As igrejas cristãs da Palestina lançaram um chamado às igrejas em todo o mundo através do documento Kairós Palestina (clique aqui para baixar). Este documento expressa como a comunidade cristã palestina se entende na atual conjuntura irmanada a todos os/as palestinos/as nas situações de dominação, espoliação e violência. Este documento é um chamado à solidariedade e uma conclamação para que todas as igrejas, no nosso caso as igrejas no Brasil, se juntem no testemunho e no compromisso aos sofrimentos e esperanças do povo Palestino. Seria muito importante que o CONIC organizasse uma resposta das igrejas brasileiras a este documento. Seria nosso Kairós Brasil em diálogo ao Kairós Palestina. Esta resposta exigiria de nós o discernimento da fé, o desprendimento do senso comum dos fundamentalismos cristãos sobre a “terra santa” e uma participação ativa nas muitas formas de solidariedade junto aos movimentos sociais e a comunidade internacional na afirmação da PAZ JUSTA como mecanismo de resolução do conflito.
Foto: Iberê Lopes / Portal Vermelho
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