O Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) emitiu uma nota pública defendendo valores democráticos. "Neste momento crítico para a democracia brasileira, o CEBI não poderia, em hipótese alguma, declarar apoio a propostas militaristas, moralistas e ditatoriais", diz um dos trechos do documento. Assinada pela Direção Nacional da entidade, a carta também afirma ser "inconcebível alguém que lê a Bíblia à serviço da vida optar por um governo ditatorial, antidemocrático e contrário aos Direitos Humanos".
 
A seguir, veja um trecho da nota:
 
Estimados/as caminhantes do Evangelho e as/os que ousam lutar por construir uma sociedade justa, igualitária e, de acordo com as antigas tradições, numa terra distante dos males. O Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI) vem através desta nota declarar publicamente sua posição em nosso cenário político e de eleições em que, se coloca para cada cidadão, a condição de optar por um governo militarista, moralista e ditatorial ou por um governo democrático, sócio popular e participativo.
 
Foi de acordo com o Evangelho e com a Leitura Popular da Bíblia que o CEBI cultivou, nos quarenta anos de sua história, uma leitura à serviço da vida e em defesa dos pobres. E neste momento crítico para a democracia brasileira, o CEBI não poderia, em hipótese alguma, declarar apoio a propostas militaristas, moralistas e ditatoriais. Não esqueçamos que o CEBI nasceu “pobre e sem palácios”, seguindo o sopro do vento novo ao colocar a Bíblia na defesa e na contramão de práticas sociais, políticas, econômicas e religiosas que oprimem e matam a vida e a dignidade.
 
Por que dizemos NÃO para um governo militarista, moralista e ditatorial? Por que dizemos SIM para a proposta de um governo popular, democrático e participativo? Por que quem lê a Bíblia à serviço da Vida e na defesa da vida digna, não vota em Jair Bolsonaro. E mesmo reconhecendo os erros e as corrupções praticadas por políticos que compuseram os governos e o congresso federal nos últimos 30 anos, precisamos entender que foi nesse governo que tivemos abertura para fiscalizar e punir os envolvidos, mesmo os que ocupavam cargos dentro do governo. Precisamos fortalecer a democracia através da integridade das instituições públicas, e não alimentar o culto a um juiz celebridade que flerta com os poderes mais podres e sujos do país.
 
Para conferir a íntegra, CLIQUE AQUI e leia diretamente no site do CEBI.
 
Imagem: Reprodução

 
Pastorais Sociais, Pastorais do Campo e outras entidades da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tornaram pública nesta segunda-feira a nota pública “Democracia: mudança com Justiça e Paz”. O texto destaca a importância da defesa para preservação do Estado Democrático, frente a conjuntura política do país, levando em conta o 2° turno das eleições presidenciais no dia 28 de outubro.
 
“Nosso Brasil pode ter divergências, porém sem ódio. Há necessidade do crescimento da economia com diminuição da desigualdade. Com base nestes valores, temos o dever fraterno de alertar a todos os nossos concidadãos e concidadãs, para que sua escolha no 2º turno contemple os princípios aqui defendidos e o candidato que os representa, integrante de uma ampla frente democrática pluripartidária, para assegurar um futuro de Justiça e de Paz para o Brasil”.
 
O documento ressalta os princípios que norteiam a Constituição Federal nos últimos trinta anos, completados neste mês de outubro, emblematicamente. Os constituintes objetivaram instituir “um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias”, evidencia a nota.
 
Confira a nota na íntegra:
 
DEMOCRACIA: MUDANÇA COM JUSTIÇA E PAZ
 
Há trinta anos a Constituição Federal entrou em vigor. Os constituintes objetivaram instituir “um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias”.
 
No processo eleitoral em curso, um movimento antidemocrático fere estes valores supremos assegurados pela Constituição e apela ao ódio e à violência, colocando o povo contra o povo. Demoniza seus opositores, classifica-os de comunistas e bolivarianos, menospreza a população do Nordeste brasileiro e tenta semear o ódio e o medo. Esta atitude já se concretiza por meio de agressões e assassinato contra os que manifestam posições divergentes.
 
A Constituição sai ferida com esta intolerância que nega a diversidade do povo brasileiro, estimula preconceitos e incentiva o conflito social. Estes candidatos e seus seguidores, que pregam a tortura e a pena de morte, sustentam que as mulheres podem ter menos direitos que os homens, usam de violência contra a população LGBT, discriminam negros, índios e quilombolas com insultos, racismo e xenofobia. Em resumo, atacam a democracia pelo desprezo dos seus valores republicanos.
 
O candidato deste movimento quer se valer de eleições democráticas em sentido contrário para dar legalidade e legitimidade a um governo que pretende militarizar as instituições, garantir impunidade aos abusos policiais, armar a população civil e reduzir ou cortar programas de direitos humanos e sociais. Em poucas palavras, é o abandono do Estado Democrático de Direito.
 
O Brasil é um país de desigualdades sociais profundas em que os ricos estão cada vez mais ricos à custa dos pobres cada vez mais pobres. Estes candidatos antidemocráticos atendem às imposições do sistema financeiro e da política neoliberal que atacam direitos sociais, ambientais e o patrimônio do país. As possíveis consequências deste programa são: o fim do décimo terceiro salário, a diminuição do Bolsa Família, a extinção das cotas nas universidades e a privatização sumária das estatais. Na verdade, tais medidas constituem a intensificação do Governo Temer, que está produzindo desemprego, sofrimento e abandono da população.
 
Tais políticas, já receberam veemente condenação do reconhecido líder mundial, o Papa Francisco: “Assim como o mandamento ‘não matar’ põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Esta economia mata.” (Evangelii Gaudium, 53).
 
Este movimento apoia um candidato que pretende ser um político novo, salvador da pátria, que está no Congresso há quase trinta anos, trocou de partido oito vezes e não aprovou um projeto sequer para melhorar as condições de vida do nosso povo, votando contra todas as políticas sociais que beneficiariam os trabalhadores e trabalhadoras, principalmente, os mais pobres.
 
Por tudo isso, nós, integrantes de organizações da sociedade civil, portadores da convicção da inafastável dignidade da pessoa humana, fundamento dos direitos humanos, não podemos nos omitir. Respeitamos todos aqueles que, por motivos variados, tenham votado no 1º turno sem atentar para estes valores, mas queremos dialogar francamente com todos. A possibilidade de se instalar um governo como esse movimento deseja, retoma o passado de ditadura já superado.
 
Nosso Brasil pode ter divergências, porém sem ódio. Há necessidade do crescimento da economia com diminuição da desigualdade. Com base nestes valores, temos o dever fraterno de alertar a todos os nossos concidadãos e concidadãs, para que sua escolha no 2º turno contemple os princípios aqui defendidos e o candidato que os representa, integrante de uma ampla frente democrática pluripartidária, para assegurar um futuro de Justiça e de Paz para o Brasil.
 
Cáritas Brasileira
CBJP – Comissão Brasileira Justiça e Paz
CCB – Centro Cultural de Brasília
CIMI – Conselho Indigenista Missionário
CJP-DF – Comissão Justiça e Paz de Brasília
CNLB – Conselho Nacional do Laicato do Brasil
CPT – Comissão Pastoral da Terra
CRB – Conferência dos Religiosos do Brasil
FMCJS – Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social
OLMA – Observatório De Justiça Socioambiental Luciano Mendes De Almeida
Pastoral Carcerária Nacional
Pastoral da Mulher Marginalizada
Pastoral Operária
SPM – Serviço Pastoral do Migrante
 
Fonte: Cimi
Foto: Guilherme Cavalli/Cimi

 
"Bem-aventuradas as pessoas que sofrem perseguição por causa da justiça,
porque delas é o reino dos céus" (Mateus 5,10)
 
A CESE busca inspiração no texto das bem-aventuranças para conclamar todas as pessoas de fé, quer atuem ou não juntos/as aos movimentos sociais, a refletirem e se posicionarem diante do quadro político atual.
 
O que estamos vivenciando com a sofreguidão que invade as redes sociais e fustiga mentes e corações com manifestações de ódio e intolerâncias o processo eleitoral, não pode estar dissociado do mal-estar que acomete a humanidade. Ela que se move entre tantas crises no meio da globalização – financeira, energética e ambiental, desemboca numa crise humanitária e civilizatória com levas de migrantes humilhados/as, colocando em xeque as bases da Declaração Universal dos Direitos Humanos duramente construída sobre os escombros da última Grande Guerra. Nós e metade da humanidade que ainda buscávamos tardiamente a afirmação dos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais, vivemos agora o rebaixamento de direitos civis e políticos sob o tacão das medidas de exceção – um fascismo social que, como ‘pau de aroeira’, fustiga até consolidadas democracias dos chamados países centrais.
 
Como em muitos momentos da nossa história em que o país apontava para um desenvolvimento próprio e menos desigualdade, o mote do combate à corrupção surge como explicação rasteira à legítima explicitação dos conflitos, criando caldo político-cultural mal direcionado de indignação popular em meio a operações que aprofundaram a crise econômica e um enorme exército de desempregados. Como no resto do mundo, os/as trabalhadores/as enfrentam dramática mutação em sua estrutura de classe – dispersa e precarizada – de que se valem as contrarreformas do capital para impor sujeição e maior exploração.
 
Queremos, junto com a sociedade civil organizada, superar o mais rápido possível essa sensação de medo, de insegurança pública e social, de misoginia, racismo, intolerância religiosa e preconceitos de gênero. De descrença nas instituições e na política, decorrentes da situação de desemprego e falta de horizontes, especialmente para parcelas de nossa juventude que passa a desprezar a institucionalidade e buscar saídas aventureiras marcadas pela violência e toda sorte de intolerância com a diversidade de valores das pessoas e de suas crenças. Devemos estar atentos/as para superar a criação de clima beligerante por parte de qualquer grupamento social ou de dentro das instituições que compõem o Estado Brasileiro.
 
Estamos convencidos/as que a falência da política é uma espécie de morte da democracia, bem como a busca insana de ‘salvadores/as da pátria’ que afrontam as instituições sem preocupar-se com a vida democrática e a legítima disputa no campo das ideias. Não por acaso, grupos e movimentos sociais, a opinião pública e a mídia internacional acompanham com vivo interesse e preocupação os destinos do Brasil que será decidido no próximo 28 de outubro. O que está em jogo é o futuro de nossa democracia diante das medidas que cada vez mais desfiguram a Constituição de 88, quando novas identidades coletivas foram reconhecidos/as.
 
Para a CESE e o movimento ecumênico, o encaminhamento das crises econômica, social e ambiental são inseparáveis da luta por direitos, da retomada das políticas públicas inclusivas para atender as condições dignas de vida das amplas parcelas que foram historicamente excluídas. É com esse espírito de confiança nas instituições e na democracia que a CESE convida as igrejas, movimentos sociais e todas as pessoas de boa fé a exercerem sua cidadania ativa neste histórico 28 de outubro. Vamos para as urnas com consciência!
 
#ComFéSemFascismo
CESE – COORDENADORIA ECUMÊNICA DE SERVIÇO

 
O Ministério do Trabalho divulgou uma versão atualizada da chamada “lista suja” do trabalho escravo, que reúne empregadores que submeteram funcionários a condições análogas à de escravo.
 
O documento denunciou 209 empresas pela prática do crime e ainda revelou que, entre 2005 e este ano, 2.879 funcionários foram submetidos por seus empregadores a exercer atividades laborativas sob condições degradantes e desumanas.
 
A nova lista traz tanto empregadores do espaço urbano como da zona rural. A lista oficial será divulgada apenas no final do ano, mas o governo federal já apontou características comuns entre as vítimas, como a baixa escolaridade e o fato de estarem inseridas em bolsões de pobreza.
 
De acordo com a Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conaete), jornada exaustiva é todo expediente que, por circunstâncias de intensidade, frequência ou desgaste, cause prejuízos à saúde física ou mental do trabalhador, que, vulnerável, tem sua vontade anulada e sua dignidade atingida.
 
Já as condições degradantes de trabalho são aquelas em que o desprezo à dignidade da pessoa humana se instaura pela violação de direitos fundamentais do trabalhador, em especial os referentes a higiene, saúde, segurança, moradia, repouso, alimentação ou outros relacionados a direitos da personalidade.
 
Clique aqui e veja a lista completa.
 
Fonte: Observatório do Terceiro Setor
Foto: Reprodução

 
O Papa Francisco proclamou santos duas das figuras mais importantes da Igreja Católica no século XX: o Papa Paulo VI, cujo pontificado foi de 1963 a 1978, e Oscar Romero, arcebispo de El Salvador assassinado em 1980. Os dois foram canonizados neste domingo (14) em uma grande cerimônia na Praça de São Pedro, no Vaticano.
 
A cerimônia contou com dezenas de milhares de peregrinos, entre eles cerca de 5 mil salvadorenhos e alguns presidentes. Os presidentes de El Salvador, Salvador Sánchez Cerén; Panamá, Juan Carlos Varela; do Chile, Sebastián Piñera; e da Itália, Sergio Matarella, assim como a rainha Sofia da Espanha estavam entre os participantes do ato solene.
 
"Declaramos e consideramos santos Paulo VI e Oscar Arnulfo Romero Galdámez", declarou Francisco em latim, na cerimônia em que também canonizou os religiosos Francisco Spinelli, Vicente Romano, María Catalina Kasper, a Nazaria Ignacia de Santa Teresa de Jesus e o leigo Núncio Sulprizio.
 
Na cerimônia, o Papa usou como vestes litúrgicas o cíngulo com sangue que Romero usava na cintura no dia de seu assassinato, bem como a casula (veste litúrgica) de Paulo VI.
 
O Papa Paulo VI é lembrado por ter presidido as sessões finais do Segundo Concílio Vaticano, reuniões que abriram a Igreja Católica para o mundo, e por ter conduzido a implementação de suas reformas modernizadoras.
 
Também é conhecido pela encíclica Humane Vitae (Sobre a Vida Humana), na qual eternizou a proibição católica a métodos contraceptivos artificiais, como pílula anticoncepcional, em 1968.
 
Paulo se tornou Papa em 1963 após a morte do papa João XXIII. Passou boa parte da carreira no serviço diplomático do Vaticano, antes de se tornar cardeal de Milão. Ele morreu em 1978 e foi beatificado em 2014, após o primeiro milagre atribuído a ele.
 
O milagre atribuído pela Congregação para a Causa de Todos os Santos a Paulo VI foi a cura de um feto de uma doença supostamente irreversível.
 
Este é o terceiro papa que Francisco converte em santo depois de João XXIII (1958-1963) e João Paulo II (1978-2005).
 
Romero, que foi arcebispo de San Salvador, é reverenciado em seu país como herói nacional e defensor dos pobres, da paz e da justiça.
 
Ele denunciava publicamente a repressão da ditadura militar de El Salvador no início da guerra civil do país, entre 1980 e 1992, e foi assassinado quando celebrava uma missa em 1980. Seu assassinato foi um dos mais chocantes do longo conflito. Ninguém nunca foi julgado por sua morte.
 
Francisco, o primeiro papa latino-americano, reconheceu Romero como "mártir da Igreja" em 2014, e o colocou no caminho da santidade em 2015, dizendo ao beatificá-lo que ele havia sido assassinado "por ódio à fé".
 
Em San Salvador, outras milhares de pessoas assistiram à cerimônia de canonização em telões instalados na catedral da cidade em que fica seu túmulo.
 
Com informações do G1
Foto: Filippo Monteforte / AFP

 
O Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), organização da sociedade civil que há 39 anos atua na defesa dos direitos humanos, na promoção da cidadania e no fortalecimento da participação popular, vem a público reafirmar seu compromisso com a democracia - que já não é plenamente exercida e sofre graves ameaças em nosso país - e repudiar a violência física e simbólica com as quais se tem atacado os direitos humanos, civis, políticos, sociais, e, sobretudo, as pessoas que os defendem.
 
Tais violências incentivam e corroboram a intolerância, já tão grave no Brasil: país com mais mortes violentas de LGBT no mundo; 5º em número de feminicídios; que mais mata indígenas na América Latina; onde a taxa de homicídios de pessoas negras é o dobro das não negras; e onde há mais assassinatos de ativistas de direitos humanos e ambientalistas no mundo.
 
Neste momento decisivo para o país, nos posicionamos em favor de um Brasil que respeita as diferenças, defende as liberdades civis e políticas, bem como promova os direitos humanos e sociais, sem os quais é impossível o aprimoramento da nossa recente e frágil democracia.
 
Fonte: Inesc

 
A experiência da prática de espiritualidade da igreja cristã na história tem demonstrado um esforço da grande parte do povo de Deus em buscar uma espiritualidade individualista marcada pelo reducionismo que aponta para uma relação Deus-homem/mulher. Como igreja, nossa história é pontuada pelo esforço pessoal em uma relação individual com Deus na linha unicamente vertical em detrimento de um encontro com o outro, em uma perspectiva comunitária na dimensão de um novo horizonte. Um cenário que se caracteriza pelo individualismo religioso, sem perspectivas de uma vida comunitária que acolhe, compartilha e encarna na vida o evangelho libertador de Jesus de Nazaré.
 
As palavras de Jesus no Evangelho de Marcos nos animam na busca de uma nova espiritualidade. Jesus exalta o amor como o maior mandamento que transcende toda a lei o os profetas. É na força do amor que o ódio, a opressão, a divisão e a exclusão são superados. Jesus desafia seus discípulos e discípulas à prática do amor que é supremo, que vence as barreiras do preconceito e do individualismo.
 
“Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes”. (Mc.12:30,31)
 
O mandamento de Jesus supera em muito a espiritualidade dos religiosos de sua época. A prática de amar a Deus e ao próximo é um rompimento radical com a velha doutrina do pensamento judaico/fundamentalista que obrigava as pessoas a amar apenas os seus pares e odiar os inimigos. Jesus desconstrói essa doutrina e aponta para o amor incondicional e verdadeiro, com base na liberdade (Lc.6.27-36). Jesus ensina que amar a Deus implica diretamente em amar o nosso próximo que pode ser também nosso inimigo. Não pode haver uma dicotomia pois os dois mandamentos se completam em um (v.30). Quem pratica o amor o faz com liberdade, não espera nada em troca, não impõe condições e limites, apenas ama a todos, assim como Jesus nos amou.
 
A maneira concreta para uma práxis da espiritualidade cristã completa-se quando temos um encontro com Deus e com o nosso próximo. Uma nova espiritualidade que vai muito além do cumprimento de códigos, ritos e dogmas estabelecidos pelo sistema religioso. Uma nova vida que é demonstrada na caminhada com as pessoas, principalmente com o pobre. Esta nova espiritualidade deve ser vivenciada em nós nos mais diversos lugares. No bairro onde moramos, na família, no trabalho, na sala de aula, nas comunidades periféricas onde atuamos e nos encontros onde expressamos a nossa fé. É nos diversos encontros da vida que se manifesta essa espiritualidade libertadora que acolhe, compartilha, que é misericordiosa e fraterna, que desfruta da liberdade de amar a todos/as.
 
Uma espiritualidade libertadora celebra e exalta a vida. Valoriza as pessoas e reconhece o seu grande valor como ser humano. Esta foi vivida intensamente por Jesus de Nazaré. Por isso, Jesus preferiu caminhar com o povo em vez de centralizar suas energias no templo. Jesus foi para a Galileia e lá iniciou sua caminhada de libertação. Um lugar de esquecidos, de diversidade e desafios libertários. Para Jesus, a vida estava acima de todas as observâncias da lei e do seu rigoroso cumprimento, e por esta razão, convida as pessoas a aprender com ele sobre mansidão, humildade, amor e libertação da opressão (Mt.11.30). Uma caminhada a partir do povo, de baixo para cima, da Galileia para Jerusalém, centro do poder.
 
Os que se ajuntam para o seguimento de Jesus, são em sua maioria do grupo dos oprimidos. São os camponeses, os doentes, os leprosos, as prostitutas, os possuídos por espíritos malignos, as mulheres pobres, as crianças, escravos e empregados do baixo escalão do estado, como no caso dos coletores de impostos e soldados que estavam a serviço de Roma. A ala dos excluídos, vítimas da opressão dos poderes do estado e da religião compões o grupo dos seguidores do caminho. Essa nova espiritualidade de libertação e amor, construída longe do templo e de seu controle sobre as pessoas, caracteriza uma revolução da parte de Jesus em um contexto de exclusão aos mais pobres. É a chegada do reino de Deus, que aponta para uma nova esperança.
 
A igreja cristã de hoje tem buscado viver a espiritualidade, e não são poucas as formas e entendimentos. Ir ao templo, orar, ler a bíblia e buscar o poder de Deus para resolver questões pessoais são algumas das diversas formas de espiritualidade hoje. Mas qual espiritualidade Jesus nos ensinou e viveu? Nos diversos encontros da vida, quem temos encontrado? Nossa caminhada está seguindo os passos do seguimento de Jesus de Nazaré, que caminhou com os pobres vítima da opressão? Estamos acolhendo a todos/as para a construção de uma nova espiritualidade libertadora?
 
Fonte: CEBI
Texto: Marcos Aurélio, para o projeto Voz Popular
Imagem: Reprodução

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