A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) comemorou, em maio deste ano, 30 anos de ministério ordenado das mulheres: diaconato, presbiterado e episcopado. A primeira mulher ordenada na Igreja foi a reverenda Carmen Etel Gomes. A partir dessa transposição de barreira da exclusão de gênero para a ordenação feminina, outras irmãs foram reconhecidas em seus dons e em no valioso serviço para toda a Igreja. Hoje, as mulheres já são uma grande força dentro da denominação.
 
 
Para aprofundar um pouco mais sobre essa bonita experiência, o CONIC foi falar com a reverenda Carmen em uma entrevista pra lá de interessante. Leia e opine, em nossa caixa de comentários bem abaixo do texto, o que você pensa acerca deste tema. Boa leitura!
 
Reverenda Carmen, como foi, naquela época, a reação dos seus pares, já que 30 anos atrás a resistência a este tipo de iniciativa ainda era muito forte?
 
Nós, mulheres, vivemos momentos de preconceitos e descriminação até os dias de hoje. Em boa parte isso ocorre por conta de uma cultura patriarcal. O pecado do sexismo está sempre presente na nossa sociedade e, também, em nossas comunidades. Na década de 80, esse preconceito era ainda mais acentuado, e foi aí que começamos a trabalhar em outra linguagem, a da práxis, muito presente em nossos ministérios. Falamos de novas teologias e de formação de consciência de uma fé política! Isso incomodou a muitos, as autoridades locais nas cidades onde eu atendia me colocaram rótulo como “padre vermelho”, afinal, sempre que uma voz profética se levanta e essa voz for a favor dos últimos, indefesos, pobres, marginalizados, as consequências serão perseguição, difamação, calúnias, etc.
 
Você diria que hoje, na IEAB, há plena igualdade de gênero no tocante ao governo da Igreja?
 
Não há igualdade de gênero não. Nas instâncias de poder ainda não somos lembradas. Há uma discussão hoje sobre o Ministério ao Episcopado. Para mim, é triste celebrar trinta de ordenação feminina na IEAB e não ter uma mulher bispa.
 
Há muitos perfis de mulheres para serem escolhidas bispas: doutoras, mestres, pastoras, deãs, capelães, sábias conselheiras, ótimas administradoras, profetas do Reino na busca de justiça e da igualdade. Se uma dessas mulheres – mesmo tendo uma ótima bagagem teológica, bíblica, pastoral – concorrsse com um homem, não ganhariam a eleição. Não por falta de capacidade, mas devido ao patriarcado arraigado nas comunidades e na sociedade!
 
É por isso que a luta continua. Queremos ter na Câmara dos Bispos mulheres e homens, pois a contribuição de uma Igreja com uma visão holística seria maior, o serviço seria abraçado com mais rapidez, as comunidades e dioceses ganhariam com esse novo olhar a serviço das Missões! A ética seria uma prioridade e a justiça e a paz um desafio voltado para a sociedade em parcerias com outros grupos.
 
Há denominações em que a ordenação feminina passa longe. Por quê?
 
E um tema polêmico, ainda em especial em Igrejas como a Católica Romana. A invisibilidade da mulher é presente no altar. Embora esta aumentando o número de Ministras da eucaristia, coroinhas, biblistas, etc.
 
Há interpretações de textos da Bíblia justificando essa ideia de que mulher não pode ser sacerdotisa. Embora exista a riqueza de muitos livros escritos e publicados por mulheres teólogas no Brasil e na América Latina, ainda persiste um silêncio em relação à ordenação de “padres” sacerdotisas.
 
A Bíblia, nessas Igrejas, ainda é lida como se só fosse escrita por homens, embora tenhamos textos bíblicos de presença e participação proeminente da mulher. Mesmo tendo na Bíblia um forte andrôcentrismo, se consegue, com a hermenêutica feminista, descobrir que Deus se apresenta na história da libertação usando as mulheres desde o início da caminhada do Êxodo.
 
O que a mulher ordenada tem a contribuir (acrescentar) às igrejas?
 
Eu acredito no ministério feminino, sobretudo quando você sai das quatro paredes da Igreja e vai para a missão. A Missão de Deus no envia para outros ministérios, e trazemos uma rica contribuição quando estamos abertos a aprender na caminhada, junto das bases.  Estar junto na caminhada com o povo, com as mulheres, com os jovens que estão vivendo situações de riscos, com idosos que são abandonados, com órfãos e sem terra, isso tudo marca a diferença nas nossas vidas e nas de nossas comunidades.
 
Viver a Missão com–paixão! Seria uma contribuição não somente das mulheres, mas dos homens vocacionados, que deixam tudo para trás no seguimento do Cristo que Vive no meio dos excluídos, dos sem-terra, dos moradores de rua, dos mendigos, das prostitutas.
 
A profecia que é carregada com as mulheres vocacionadas contribui para uma Igreja Profética, aberta solidária, acolhedora em todos os sentidos!
 
Contribuímos quando somos vozes proféticas de denúncia dessa violência que estamos vivendo hoje, e  anunciamos a busca da construção de uma cultura pela Paz!
 
A mulher pode contribuir, e muito, com a questão da prevenção e do enfrentamento da Violência de Gênero. Nos setores acadêmicos, já temos um quadro de mulheres preparadas para formar novas lideranças que tenham, no saber teológico, uma ferramenta que leve ao compromisso de uma práxis junto aos últimos e desesperados do sistema.
 
As mulheres ordenadas ainda ajudam na construção de uma nova teologia. A Teologia Feminista de Ivoni Gebara contribuiu para que eu e muitas colegas despertássemos para o compromisso de uma Igreja comprometida com o povo sofredor! A Hermenêutica de Fiorenza ajudou-nos a trabalhar com grupos de mulheres, libertando a mulher do seu silêncio e desafiando na busca de justiça para a vida! A Hermenêutica Feminista nos abriu os olhos para que nos apropriássemos dos “textos”, tornando-os como luzes para a caminhada de hoje.
 
A nova linguagem para nos relacionarmos com Deus contribuiu para os cultos se tornarem mais verdadeiros, e incluiu a mulher como Imagem e semelhança do Criador. Não mais deixamos que essa linguagem patriarcal de Deus Pai, Juiz e Patriarca fosse a única imagem para Deus. Essa imagem de um Deus Pai justifica que o Pai é Deus.
 
Mas passamos a usar imagens de Deus Mãe, Justo, um Deus que amamenta, que cuida e educa, que gera, que pare!
 
A linguagem patriarcal que se refere a Deus nas nossas liturgias é instrumento de condicionamento sutil que age pra fragilizar o sentimento de dignidade, de poder e de autoestima da mulher. Essa imagem de Deus Pai introjetada só tem contribuído para que a sociedade continue oprimindo a mulher, permitindo que os mecanismos de opressão contra esta pareçam corretos e adequados.
 
Gostaria de acrescentar algo?
 
Agradecer ao CONIC pela entrevista e desejar para a pastora Romi, mulher de luta e garra, que continue sendo para nós, mulheres Anglicanas, sempre um apoio nesta caminhada! Um exemplo de mulher de fé, e de compromisso com a justiça e com a paz!
 
Agradecer a todas as colegas da IECLB e metodistas que foram parceiras e modelos para meu ministério. Aprendi muito com elas, nas caminhadas com o CONIC lá nas décadas de 80 e 90. Todas me ajudaram a abrir os olhos e a lutar contra o sexismo. E a todos os homens, “parceiros do bem”, como dizem as músicas do Xico Esvael, que nos ajudam a quebrar o sexismo e nos fortalecem para a luta de uma sociedade de Iguais!