Casa comum, espaço de diálogo e dignidade: também aos indígenas

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“Está chegando o tempo de Deus destruir quem destrói a terra. Se você quiser viver no planeta, tem que aprender a cultivar e preservar, desde agora e para as futuras gerações. Cacique Kauíxe – Com. Sol Nascente (Manaus/AM)
 
Neste ano de 2016 estamos, como pessoas cristãs e cidadãs, motivadas a vivenciar o período da quaresma no convívio e partilha ecumênica. O convite é para uma caminhada de libertação pessoal, comunitário e social, de reflexão e oração comunitária sobre a responsabilidade da Casa Comum, que é todas as pessoas. A Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) 2016 quer provocar a reflexão de duas dimensões básicas para a subsistência da vida a um só tempo: o cuidado com a criação e a luta pela justiça. O objetivo é promover processos de diálogo que contribuam para a reflexão crítica dos modelos de desenvolvimento que têm orientado as percepções de política e a economia na atualidade. Os temas serão abordados a partir de um problema específico que atinge o meio ambiente e a vida dos todos os seres vivos, que é a fragilidade e a ausência, em diferentes lugares, dos serviços de saneamento básico em nosso país.
 
Desde a primeira Campanha da Fraternidade Ecumênica, em 2000, as igrejas membro do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC se comprometem por um mundo inclusivo e digno a todas as pessoas, sem exceção. Naquela oportunidade o tema para reflexão, oração conjunta e desafio foi: “Dignidade humana e paz: Novo milênio sem exclusão”. Neste ano o tema é: “Casa comum, nossa responsabilidade”, que evidencia que a promoção da justiça, da inclusão e da dignidade fazem parte da responsabilidade da pessoa cristã, independente a quem se beneficie. O lugar que Deus nos colocou serve a todos seres vivos, é a casa comum.
 
Desta forma, a CFE 2016 também apresenta e inclui o olhar das comunidades e povos indígenas de como está o cuidado com a Casa Comum. A questão do saneamento, do cuidado com a água, da destinação do lixo, do esgotamento sanitário impacta o meio ambiente, tanto para nossa sociedade como para as comunidades indígenas. Afinal, vivemos e dividimos as mesmas condições.
 
As comunidades e povos indígenas sofreram mudanças no seu modo de ser e de vida. A realidade atual se distingue, e muito, das condições e ambiente do passado. O desafio é manter a autonomia, autodeterminação, conhecimentos e o modo de relação com o meio ambiente tradicional, com uma nova realidade, definida pelo modelo de urbanização ocidental. Este modelo sempre caracterizou às comunidades e povos indígenas a concentração populacional, a redução dos espaços geográficos, a escolarização e mudança dos modelos de saneamento (acesso a água, destinação do ‘lixo’, esgotamento, produção e hábitos alimentares, entre outros).
 
Mesmo que que se garante, através das leis do Brasil e de organização internacionais Organização das Nações Unida; Organização Internacional do Trabalho), o direito de acesso e de usufruir dos serviços sociais e de saúde, respeitado a própria relação espiritual com as terras, territórios, águas, mares e outros recursos que as comunidades e povos indígenas tenham tradicionalmente possuídos ou ocupado, assumindo as responsabilidades sobre estes para as gerações futuras, há situações de degradação ao meio ambiente e à dignidade humana aos indígenas.
 
As comunidades indígenas da Terra Indígena Guarita (Tenente Portela, Redentora e Erval Seco/RS) e da Terra Indígena Inhacorá (São Valério do Sul), que dividem a casa comum que constitui também a região do Sínodo Noroeste Riograndense, também carecem da responsabilidade com o saneamento e dignidade humana. A realidade da urbanização, através da concentração populacional, é evidente. Estas comunidades indígenas, formadas por membros dos povos Kaingang e Guarani, que são dos povos mais populosos e tradicionais do Brasil, carecem do diálogo e busca de dignidade na questão do saneamento. Estas comunidades sofrem com a falta de abastecimento de água (diversas localidades ficam desabastecidas da água com frequência, inclusive escolas e postos de saúde, sendo motivo para manifestações e denúncias públicas); oferta de habitações condizentes; envenenamento do solo, riachos, fontes d’água; coleta do lixo (realizada com irregularidade; ou inexistente em alguns lugares).
 
A questão do saneamento também se reflete nas condições dos acampamentos indígenas, que grupos e famílias realizam em diversas cidades da região do sínodo e da região sul do Brasil. Os grupos e famílias indígenas, que se deslocam para coletar material ou para comercializar os artesanatos que produzem, geralmente não possuem as condições de saneamento desejável. Enfrentam problemas de acesso à água e condições sanitárias. Além, das situações de vulnerabilidade social, sendo alvos de preconceito e discriminação, como já ocorrido em diversas cidades e localidades da região, inclusive com agressão física. Fato recente, evidenciado pela morte da criança kaingang Vítor, que foi degolada em Imbituba/SC, onde sua família estava acampada para comercializar artesanato no período de veraneio.
 
Somos desafiados a perceber que não somos os únicos ocupantes desta casa. Pelo contrário, dividimos esta casa com outros seres vivos, outras pessoas, que também querem “ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”. A dignidade de vida e o diálogo são responsabilidade de todas pessoas que habitam a Casa Comum.

Colaboração:
 
Noeli T. Falcade
Assessora COMIN/IECLB
 
P. Ms. Sandro Luckmann
Assessor COMIN/IECLB
 
Foto: Marisa Cauduro/Folhapress