Relato de experiência com a CFE 2016 - Caravana Socioambiental

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Por: João Francisco dos Santos Esvael (Xico Esvael)
 
No espírito da CFE 2016 e na qualidade de responsável pelo CONIC no estado da Paraíba, participei da “Caravana sócio ambiental”. Esta iniciativa, coordenada pelos bispos do Regional NE 2 da Igreja Católica Apostólica Romana, contou com a participação, além dos bispos, de lideranças das Pastorais Sociais; Instituições de Ensino Superior, reitores (as), professores (as) e alunos (as); pastores evangélicos e Organizações vinculadas aos Movimentos Sociais e jornalistas, com acompanhamento técnico de profissionais e membros do Governo Federal.
 
Objetivos da Caravana
 
a) Colaborar no processo de debate sobre a integração das bacias valorizando as iniciativas de um sistema de produção adaptado e valorizando o trabalho e as ações das Comunidades Tradicionais;
b) Lutar pela democratização da terra com assentamentos de reforma agrária ao longo dos canais, para intensificar os sistemas e produção baseados nos princípios agro ecológicos e a partir dos saberes destas Comunidades;
c) Garantir a soberania e segurança alimentar com a produção de alimentos saudáveis e sem agrotóxicos;
d) Comprometer as Instituições de Ensino, pesquisa e extensão com as demandas dos povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares;
e) Garantir que as águas da integração sejam prioritariamente para o consumo humano, dessedentação animal e, caso haja excedente, seja utilizado na produção de alimentos saudáveis ao longo dos canais;
f) Mobilizar a sociedade na perspectiva do controle social, garantindo uma gestão participativa e manutenção permanente da infraestrutura e investimentos sociais;
g) Fazer com que a igreja, atenta aos apelos do Evangelho, torne-se instrumento da justiça e, na concretização de um mundo de paz, de igualdade de direitos, zele pela Casa Comum, presente de Deus para todos nós.

A Fé e o Pé na estrada
 
A caravana teve início no dia 29 de fevereiro de 2016, com a Celebração da Palavra, ao lado da parede da Barragem Engº Armando Ribeiro Gonçalves, em Itajá (RN). Após esse ato a Caravana rumou para a Barragem de Oiticica, em Jucurutu-RN, onde dialogou com a Comunidade e representantes de órgãos públicos e a seguir visitou às obras.
 
Chegada na Paraíba
 
Após deslocamento e almoço em Caicó-RN, a caravana rumou para a cidade de Cajazeiras-PB onde encontrou-se com a delegação vinda da Paraíba da qual fiz parte. Realizou-se uma Missa na Catedral, presidida pelo Bispo Diocesano de Caicó, Dom Antônio Carlos Cruz, e concelebrada pelos demais bispos e padres presentes na comitiva. A homilia foi proferida pelo Bispo da Diocese de Mossoró, Dom Mariano Manzana. Em sua fala, ele destacou o programa de cisternas, que permitiu que famílias pobres pudessem armazenar água. “A Igreja está em luta junto ao povo, em busca de soluções para esta problemática da água. Sabemos que a saída para vencer esta situação é a união entre todos”, frisou. Ao final do primeiro dia, o Arcebispo Metropolitano de Natal, Dom Jaime Vieira Rocha, avaliou de forma positiva os trabalhos. “Saímos cedinho de Natal, com destino à Barragem Armando Ribeiro Gonçalves, em Itajá. Depois, visitamos as obras da Barragem de Oiticica, em Jucurutu, que já está 35% concluída. Também tivemos a oportunidade de um momento de convívio com as famílias da Comunidade de Barra de Santana, que neste momento está sendo afetada pela construção das obras da Barragem, principalmente do ponto de vista jurídico e patrimonial, uma vez que a comunidade será inundada com a conclusão das obras da Oiticica.
 
Cajazeiras
 
Acolhidos pela comunidade cajazeirense e pelo Administrador Diocesano, Monsenhor Agripino Ferreira de Assis, os caravaneiros participaram da celebração da missa, na Catedral Diocesana, presidida pelo Bispo de Caicó, Dom Antônio Carlos.
 
Na homilia, feita pelo Bispo de Mossoró, Dom Mariano Manzana, ele citou o Profeta Naaman, de uma das leituras da celebração. “Por isso, como aquela terra de Naaman, queremos colocar aqui a longa tradição importante de cooperação entre a Igreja, que sempre viveu na pele o sofrimento de seu povo, e os órgãos do governo, para juntos encontrarem aquela solução que o profeta Eliseu colocou para Naaman”, disse.
 
Dom Mariano lembrou o primeiro encontro dos bispos do Nordeste, organizado por Dom Hélder Câmara, em Campina Grande-PB, em 1956, e o segundo, realizado em Natal-RN, no ano de 1969. “Sem dúvida, o problema da seca é muito grande e nenhuma solução, sozinha, pode resolver”, destacou. Ele citou programas como a Bolsa Família que, segundo disse, nestes quatro anos de seca permitiu o povo viver. Também destacou outro programa de convivência com o Semiárido Brasileiro. “É muito bonito o programa das cisternas. Elas permitiram que o pobre tivesse um instrumento para guardar água”.
 
Barragem Engº Ávidos que levará água do São Francisco para o Rio Grande do Norte
 
No dia 1º de março a Caravana Socioambiental fez sua primeira parada na barragem Engenheiro Ávidos / Boqueirão, no município de São José das Piranhas-PB. É uma obra construída pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), em 1932, com capacidade para armazenar mais de 100 milhões de metros cúbicos e que está com apenas 6% da capacidade. O Boqueirão, como é popularmente conhecido, é uma das barragens que receberão água do projeto de interligação de bacias do rio São Francisco.
 
Osvaldo Garcia, Secretário de Infraestrutura Hídrica do Ministério da Integração Nacional, explanou a respeito de como o Boqueirão será utilizado para a interligação das bacias. “Ele está inserido no processo da revitalização dos 24 reservatórios que receberão água do São Francisco. Aqui deve chegar aproximadamente 6 metros cúbicos por segundo, no final de linha. Uma parte ficará para uso do Estado da Paraíba e outra parte seguira para o Rio Grande do Norte”, explicou.
 
Vila Produtiva Rural Cacaré
 
No segundo dia, a caravana deslocou-se para a Vila Produtiva Rural Cacaré (ainda não habitada. Com 120 casas), em São José de Piranhas (PB).
 
Reservatório Jati
 
Depois, o grupo seguiu para o Ceará onde visitou o Reservatório Jati, no município de Jati. Neste local os técnicos explicaram as obras do Eixo Norte do Projeto São Francisco, e Vila Produtiva Rural Retiro, na cidade de Penaforte.
 
Este reservatório está sendo construído para receber as águas do São Francisco.  Deste reservatório partirá o canal que levará a água para os estados do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Com capacidade para receber 28 milhões de metros cúbicos de água, o reservatório está com 85% das obras concluídas.
 
A previsão do Ministério da Integração é de que a água do São Francisco chegue a Jati até julho do próximo ano. No diálogo realizado, mais uma vez, entre representantes de instituições e movimentos populares ligados a questões sociais, (bispos, professores e representantes dos governos municipais, estaduais e federais, houve um certo ceticismo quanto ao prazo apresentado pelos técnicos para a conclusão das obras. Também foram enfatizadas questões relacionadas com o custo benefício, caso da observação realizada por Dom Antônio Carlos Cruz, bispo de Caicó: “Não sou engenheiro, mas tenho a impressão de que a obra não estará pronta até lá, para receber as águas. Porém, está claro que uma obra com uma grandiosidade dessas também tem problemas. Nessa hora, precisamos ver o custo-benefício. Entre os prejuízos que se tem numa construção com essas e o grande benefício, que é atingir as famílias, as regiões marcadas pela seca, com certeza o benefício vai ser maior”.
 
Vila Produtiva Rural Retiro
 
A Caravana encerrou suas atividades do segundo dia na Vila Produtiva Rural Retiro, no município de Penaforte (CE), que conta com 30 casas, já habitadas. Os terrenos possuem meio hectare (500m2) e uma casa construída de 100m2, além de um lote produtivo de, no mínimo, 5 hectares, com uma parte irrigada. Há famílias que, além de plantarem, possuem até vaca. Tivemos a oportunidade de visitar algumas famílias, que já utilizam o terreno da casa para o cultivo de verduras e frutas. Pessoalmente conversei com o sr.José, um dos moradores, e perguntei a ele se tinha valido a pena a mudança, (sua antiga moradia foi atingida para a construção da barragem e o canal de transposição), o sr. José afirmou que: “Sua família foi muito beneficiada, pois a terra é fértil e as casas construídas são espaçosas e de excelente qualidade”, Podemos constatar a veracidade das afirmações, pois tivemos a oportunidade de entrar nas casas e ver a amplitude dos lotes. Segundo Antônio Taveira, natural de Salgueiro (PE), e presidente da associação da Vila de Retiro, esta iniciativa das vilas produtivas tem sido positiva. “Para a gente, tem sido maravilhoso. Estamos aqui há seis meses. É um processo de adaptação, mas temos o acompanhamento do governo. Aqui é uma comunidade, mas vivemos como em um meio urbano”, diz. Quando as obras de integração das bacias do Rio São Francisco, estiverem concluídas, será possível a ampliação da produção. Atualmente, o cultivo é feito dentro do território das casas.
 
Após, os caravaneiros puderem relatar as experiências vividas ao longo do dia e participar da celebração da Palavra.
 
Na avaliação do Arcebispo Metropolitano de Natal, Dom Jaime Vieira Rocha, essas ações confirmam que esta iniciativa tem sido produtiva. “Tudo isso é positivo, porque nos traz uma ideia concreta do que seja o projeto do Rio São Francisco. Nós estamos vendo concretamente o que é o projeto. Não só a parte física, mas também uma dimensão socioambiental, com a construção dessas agrovilas”.
 
Rumo às águas do Velho Chico
 
Na quarta-feira (3/2), pela manhã, em Salgueiro-PE, o secretário de Infraestrutura Hídrica do MI, Osvaldo Garcia, fez uma apresentação sobre o projeto, quando alertou os presentes para a importância da utilização consciente da água e da responsabilidade sobre o empreendimento. Após rumamos para a primeira Estação de Bombeamento (EBI-1) do Eixo Norte do Projeto de Integração do Rio São Francisco, no município de Cabrobó (PE). A magnitude deste empreendimento causou forte impressão aos integrantes da Caravana.
 
Missa de encerramento da Caravana
 
Na manhã da quinta-feira (03), foi servido café da manhã para todos os participantes da comitiva e a seguir foi celebrada uma missa, no auditório do Salgueiro Plaza Hotel, em ação de graças pelo encerramento da “Caravana Socioambiental em Visita às Obras de Integração de Bacias com o Rio São Francisco”. Com a presença de autoridades públicas, prefeitos, representantes do Ministério da Integração Nacional, povos quilombolas e assentados impactados pelas obras da transposição.
 
Um dos pontos altos da Celebração foi a execução da canção “Asa Branca” (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira). Durante a celebração, Dom Magnus, bispo de Salgueiro, ao falar sobre a importância da obra de transposição do Rio São Francisco, mencionou o hino do nordestino, a música “Asa Branca”, para falar sobre a esperança do povo de ver estas terras prosperarem. Entre outras palavras ressaltou que: “É difícil compreender porque o nosso Nordeste, cantado em verso e prosa a sua seca, o seu sofrimento e a sua esperança, ainda continua tão seco. Nós precisamos ter uma sensibilidade imensa para com esta terra. Que nós como cristãos possamos ter esta sensibilidade para com este chão, para com esta terra. Que as águas possam nos levar pelas nascentes da vida. Vamos voar para a liberdade e não para as grandes cidades. Preferimos cantar uma asa branca que voou, mas que espera voltar para o cântico da esperança. Vamos esperar a volta da asa branca”.