Massacre dos sem-terra em quedas do Iguaçu (PR) é denunciado à ONU

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Denúncias relacionadas ao massacre de trabalhadores rurais sem terra no Paraná foram enviadas à Organização das Nações Unidades (ONU), na última quarta-feira (13).

Encaminhado pela Terra de Direitos, o documento relata irregularidades na investigação dos acontecimentos ocorridos em Quedas do Iguaçu, a partir do dia 7 de abril, quando trabalhadores rurais sem-terra foram vítimas de uma emboscada promovida pela Polícia Militar do Paraná e seguranças particulares da empresa Araupel. Na ocasião foram assassinados Vilmar Bordim (44) e Leonir Orback (25). Outros sete trabalhadores ficaram gravemente feridos.

A emboscada aconteceu quando 25 trabalhadores circulavam de caminhão, a cerca de 6 km de distância do acampamento Dom Tomás Balduíno – dentro do perímetro da área decretada pública pela justiça – quando foram surpreendidos pelos policias e seguranças entrincheirados.

Por quase duas horas a área foi isolada pela PM, impedindo o acesso de familiares, socorro aos feridos bem como acesso de qualquer pessoa que quisesse documentar a cena do crime. A sociedade civil e os movimentos sociais apontam que a polícia militar está agindo de forma a incriminar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Após pedido da Terra de Direitos e de outras organizações, o Ministério da Justiça determinou abertura de Inquérito Policial pela Policia Federal.

HOMENAGENS

No dia 9 de abril o CONIC foi representado pelo reverendo anglicano Luiz Carlos Gabas durante no Ato em Solidariedade ao MST e aos mortos e feridos do Acampamento D. Tomás. Leia, abaixo, o relato dele.

A concentração na Praça São Pedro, em Quedas do Iguaçu, reuniu em torno de 5.000 pessoas: acampados e assentados de varias regiões do Paraná, também militantes do MST de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, sindicalistas, a senadora Gleisi Hoffmann, deputados estaduais e federais de vários estados do Brasil, a representante da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, o presidente do Conselho Nacional de Defensores dos Direitos Humanos, o representante da organização Terra de Direitos, o Coordenador Nacional e o Superintendente do Incra no Paraná, o assessor agrário do Governo do Paraná, lideranças religiosas e de outras organizações.

Falei em nome do CONIC e da IEAB [Igreja Episcopal Anglicana do Brasil] dizendo que somos e continuaremos parceiros do MST e de outros Movimentos Sociais na luta pela Reforma Agrária, pela produção de alimentos orgânicos, por moradia, saúde, educação e na construção de uma sociedade justa e fraterna. Ressaltei a importância da resistência e da continuidade da luta, embora a perversa aliança do Governo do Paraná (Casa Civil, Polícia Militar, Polícia Civil, etc.), da Assembleia Legislativa, das Prefeituras e Câmaras Municipais, das organizações classistas do campo e das cidades (indústria, comércio, agronegócio, etc.), de lideranças religiosas e dos meios de comunicação que querem silenciar e criminalizar os Movimentos Sociais.

Disse ainda da nossa solidariedade para com os familiares dos que morreram ou foram feridos durante a emboscada patrocinada pela Polícia Militar do Paraná e Seguranças da Araupel. Lembrei que diante da violência jamais podemos nos acovardar, e que ela deve enfrentada para podermos construir uma sociedade onde todas as pessoas possam viver em paz. Ressaltei que as mortes dos que tombaram na luta pela terra não foram em vão, São sementes que gerarão novos companheiros e companheiras de caminhada e luta.

Foi feita a leitura integral da nota do CONIC, e foram citadas as Igrejas que o compõem.

INFORMES GERAIS

Palavras do comandante à tropa da Polícia Militar, horas antes do Ato, na mesma Praça São Pedro: “Lembrem-se soldados... Vocês foram formados para a guerra... Ajam sem medo... Não é um movimentozinho que vai nos intimidar...”

Na Assembleia Legislativa do Paraná, em Câmaras Municipais, nos Meios de Comunicação e Redes Sociais há uma intensa campanha de ódio e criminalização do MST. Deputados querem instalar uma CPI. Houve tentativa de uma moção de apoio de parte dos vereadores de Cascavel à PM.

Por determinação do Ministro da Justiça as investigações do ocorrido em Quedas do Iguaçu ficam sob a responsabilidade da Polícia Federal, e sob o comando do Delegado Chefe de Cascavel.

O GAECO, sob a coordenação do Ministério Público também entrou no caso. Dificilmente, haveria imparcialidade por parte das Polícias Militar e Civil do Paraná nas investigações.

Darci Frigo do Conselho Nacional de Defensores dos Direitos Humanos sinalizou as evidências de execuções dos sem terra pela Polícia Militar e Seguranças da Araupel. Há um áudio de um PM que pode ajudar nesse sentido. Os mortos e feridos receberam balaços pelas costas enquanto tentavam se proteger. Por duas horas os feridos não puderam ser atendidos. As ambulâncias foram impedidas pela PM de chegar ao local. Houve violação do cenário. Os mortos foram retirados do meio da mata.

Ontem, ouvi de advogados que acompanham o caso de que provavelmente o Vilmar tenha levado um primeiro tiro pelas costas ao correr para a mata e depois um segundo tiro na cabeça à queima roupa quando tentava se segurar em uma árvore.

Henrique, um dos feridos, recebeu alta do Hospital Universitário de Cascavel e foi levado à carceragem da 15ª Delegacia de Cascavel. Os médicos atestaram que por mais de trinta dias não poderá pisar no chão por causa do tiro na perna, mesmo assim está recolhido em meio a mais de outros quase quinhentos presos. O cadeião foi construído para abrigar apenas 132 presos. Os Advogados já entraram com um pedido de prisão domiciliar.

Pedro, o outro ferido, continua no Hospital São Lucas de Cascavel. Passou por cirurgia. Também está em regime de prisão. Sem a presença de Advogado a Delegada Civil de Cascavel colheu seu depoimento, gravado em áudio em que ele afirma que um sem terra deu o primeiro tiro. Logicamente entendemos que sob pressão as pessoas acabam falando o que querem que elas falem. Os Advogados vão tentar invalidar tal depoimento. Ao receber alta deve ir também para a 15ª Delegacia.

Ontem de manhã, aconteceu uma reunião em Quedas do Iguaçu com a presença do Ouvidor Agrário Nacional, representantes do Incra, Assessor Agrário do Paraná e Advogados da Araupel. A empresa apresentou a proposta de permanência dos acampados do MST nas áreas ocupadas, desde que liberassem a entrada de tratores, caminhões e funcionários. Ainda não conversei com lideranças para saber a posição do Movimento.

Temos informação de que Policiais e Seguranças da Araupel continuam intimidando as famílias acampadas. Há um clima de medo generalizado.

O INCRA se comprometeu em acelerar os processos de Reforma Agrária em todo o Paraná, principalmente na região de Quedas do Iguaçu.

Com informações do Brasil 247
Foto: acervo Luiz Carlos Gabas