Justiça quero, e não sacrifício (Mt 9.13) – Pelo fim da cultura do estupro

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Programa de Gênero e Religião da Faculdades EST

Nos últimos dias temos acompanhado a repercussão do crime do qual foi vítima uma adolescente no Rio de Janeiro. Aos 16 anos de idade ela foi vitimada por mais de 30 homens que cometeram estupro contra ela. Embora as palavras possam parecer fortes e, cada vez que são pronunciadas, violentem mais uma vez essa menina e todas as outras mulheres vítimas de violência ou com medo de serem a próxima, é preciso dizê-lo: enquanto do ponto de vista da lei se trata de um crime, do ponto de vista da teologia e da igreja se trata de um pecado cometido contra ela, contra todas as mulheres e toda a humanidade e contra Deus, que diz: Justiça quero, e não sacrifícios (Mateus 9.13).

A repercussão do caso gerou uma ampla reação e discussão, mobilizando principalmente grupos de mulheres e de defensoras e defensores de seus direitos. Surgiram campanhas e manifestações espontâneas em vários lugares e em diversos meios, denunciando a cultura do estupro e todas as formas de violência contra as mulheres. Infelizmente, entre essas manifestações também se contaram posicionamentos que perpetuam essa mesma cultura, buscando culpabilizar a vítima e justificar o injustificável. Dentre esses, alguns, inclusive, apelando para argumentos pseudo religiosos que tanto questionam a legitimidade da vítima quanto oferecem a adesão a uma instituição ou grupo religioso como forma de superação dessa realidade. Ora, como se a violência contra as mulheres não estivesse presente em nossas igrejas e não fossem elas e suas teologias, muitas vezes, que legitimassem esses mesmos atos.

Nesse sentido, como espaço que promove o ensino e a pesquisa sobre gênero e religião, tanto na instituição quanto para além dela, nos sentimos desafias a erguer nossa voz juntamente com tantas outras para denunciar tais injustiças que se materializam no sacrifício dos corpos de tantas mulheres todos os dias. Há décadas as teologias feministas têm denunciado uma teologia do sacrifício que, aplicada diferentemente para homens e mulheres, justifica atos de violência praticados contra mulheres como sofrimento justo a ser recompensado em uma outra vida. Esse tipo de teologia contraria a mensagem evangélica trazida por Jesus: eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância (João 10.10) e condiciona a graça e a justiça de Deus destinada a todas as pessoas como efeito de terem sido criadas à imagem e semelhança de Deus. Os sacrifícios e torturas a que milhares de mulheres são submetidas cotidianamente através de atos extremos como o estupro ou de práticas desumanizantes consideradas inocentes e que configuram a cultura do estupro atentam contra a vontade de Deus e a sua justiça.

Não podemos deixar de denunciar todo o sistema que permite que esse tipo de cultura e esse tipo de teologia se mantenham intactos. Nossas relações interpessoais e institucionais são marcadas por estruturas patriarcais que reproduzem as desigualdades de gênero, as quais se manifestam como violência e, muitas vezes, são aceitas como naturalizadas. No momento de crise política que vivemos em nosso país, não podemos deixar de relacionar o ataque às práticas democráticas em diversos âmbitos com o ataque e o retrocesso no campo dos direitos das mulheres. A misoginia que tem marcado os processos políticos vividos e as práticas políticas em âmbito governamental, restringindo legislações e políticas públicas de promoção da igualdade de gênero e proteção dos direitos das mulheres, é a mesma revelada no aumento de feminicídios e de outras formas de violência contra as mulheres em intensidade e frequência. Precisamos de novas relações que estejam pautadas pela justiça de gênero, pois não se coloca remendo de pano novo em roupa velha (Mateus 9.16).

Como sinal desse compromisso com a justiça de gênero nossa instituição adotou, em 2015, uma Política de Justiça de Gênero[1], seguindo a proposta da Federação Luterana Mundial que adotou documento semelhante em 2013 e tantas outras iniciativas em âmbito teológico e eclesiástico.[2] Esse ato é também resultado de uma caminhada de 25 anos da Cátedra de Teologia Feminista na Faculdades EST, agora assumida pelo Programa de Gênero e Religião, reafirmando através do ensino e da pesquisa a dignidade das mulheres e a necessidade do engajamento firme dos homens para a superação das relações injustas de gênero.

Como espaço de reflexão teológica que busca incidir na prática da Igreja da sociedade conclamamos todas as igrejas e grupos religiosos, em especial aos grupos de mulheres nesses espaços, para que se manifestem em solidariedade a todas as mulheres vítimas de violência e sejam espaços seguros e de acolhimento para essas mesmas vítimas, na esperança de que as pessoas que choram, serão consoladas (Mateus 5.4)!

[1] Disponível em: http://periodicos.est.edu.br/index.php/genero/article/view/2490.

[2] Veja o material “As igrejas dizem não à violência contra as mulheres” da Federação Luterana Mundial, disponível em: http://www3.est.edu.br/biblioteca/ebooks/Igrejas%20dizem%20nao%20a%20violencia.pdf; e material produzido pela Coordenação de Gênero da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil “Estudos sobre gênero”, disponível em: http://www.luteranos.com.br/conteudo/estudos-sobre-genero.