Rebatismo no Jordão: uma reflexão de Oneide Bobsin

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Não farei considerações a respeito do rebatismo, hoje tão comum no Brasil. Pessoas batizadas numa igreja tradicional, após a conversão ao mundo evangélico, que inclui Igrejas como a Assembleia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus, passam por um novo batismo. O fato chama a atenção pelo viés político. Enquanto o Senado brasileiro votava a adissibilidade do processo de impedimento da presidente Dilma, eleita pelo povo, lá no rio Jordão, em Israel, o pastor Everaldo, derrotado fragorosamente nas últimas eleições, rebatizou o católico Bolsonaro, que recentemente dedicou o seu voto ao torturador coronel Carlos Ustra, em sessão da Câmara Federal.

A questão do rebatismo seria um assunto íntimo dele, se não fosse publicado no YouTube, que o vincula à política. Logo, sendo um assunto público, é passível de avaliação no campo político. E para quem leva a sério o Batismo cabe a pergunta que nos reporta para a vida e obra de Jesus, em nome do quem se batiza. No rito exposto no YouTube, Bolsonaro se compromete a crer na obra do Cristo. Nisto não há novidade para os cristãos.

A novidade se torna contraditória e absurda quando lembramos que Jesus, também batizado no Jordão, foi torturado por militares da época, a mando do império. Antes de sofrer sob a cruz que carregava, foi preso pela guarda. Tudo aconteceu sem que houvesse uma acusação contra Jesus. Por três vezes Pilatos disse que não via crime em Jesus. Mas as lideranças do povo pediam a morte dele e a soltura do bandido Barrabás. Vemos que a pessoa cristã segue um torturado e morto na cruz, por Deus ressuscitado. Aqui se estabelece a contradição: ser batizado em nome deste Jesus e defender a tortura e torturadores. Evidente que o absurdo já havia se estabelecido no final da vida de Jesus. Ele havia curado enfermos, surdos e mudos, incluído os doentes, alimentado multidões famintas, perdoado pecados, libertado presos, etc. Tudo como sinal de um Novo Reino. Então, por sua obra de amor, foi condenado à tortura e à morte.

Independente da dimensão pessoal do rito, que não cabe a mim julgar neste espaço público, permito-me olhar para este ato do Jordão como subordinação das igrejas à política; política esta exercida contra os Direitos Humanos e contra o próprio Cristo que se deu sem tomar a vida de ninguém. No batismo de Jesus uma voz veio do céu dizendo que Ele era o seu filho amado, em quem o divino se comprazia. Desta vez, a voz silenciou.

Oneide Bobsin é doutor em Ciências da Religião e professor da Faculdades EST
Publicado originalmente no Jornal Vale do Sinos