Grande Concílio: mensagem final reitera a unidade ortodoxa

Os trabalhos do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa foram selados pela concelebração dos 10 primazes sob a presidência do patriarca ecumênico na Igreja dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo em Chania. A liturgia foi caracterizada por um grande temor reverencial e por solenidades dignas da tradição bizantina da qual a Igreja Ortodoxa se orgulha de ser a herdeira e a continuadora.

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A reportagem é de Ioannis Maragós, publicada no sítio Settimana News, 29-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Durante a liturgia foi lida a "Mensagem do Santo e Grande Concílio ao povo ortodoxo e a todas as pessoas de boa vontade", da qual oferecemos uma síntese.

1) A prioridade absoluta do Santo e Grande Concílio foi a proclamação e a manifestação da unidade da Igreja Ortodoxa, fundada sobre a Eucaristia e a sucessão apostólica dos bispos. A unidade é realidade presente, mas é necessário que ela seja reforçada continuamente para trazer novos frutos. A Igreja una, santa, católica e apostólica é uma sociedade-comunhão divino-humana, antecipação e experiência vital das realidades últimas dentro da Eucaristia. A Igreja Ortodoxa manifesta a sua unidade e a sua catolicidade no Sínodo. A sinodalidade inspira a organização, o modo de decidir e determinar o próprio caminho. As Igrejas ortodoxas autocéfalas não são uma confederação de Igrejas, mas a Igreja una, santa, católica e apostólica.

2) A Igreja não cessa de rezar e de se esforçar para dar testemunho aos que estão perto e aos que estão longe. É a re-evangelização do povo de Deus que vive dentro das modernas sociedades secularizadas, assim como a evangelização daqueles que ainda não conheceram Cristo.

3) A Igreja tem o dever de dar testemunho da verdade e dá importância particular ao diálogo com os cristãos heterodoxos, a fim de que tomem conhecimento da tradição ortodoxa na sua genuinidade e inteireza. Os diálogos realizados não devem, por razão alguma, envolver compromissos.

4) "As explosões de fundamentalismo observadas dentro de várias religiões representam uma expressão de religiosidade mórbida. Um diálogo inter-religioso sóbrio ajuda significativamente a promover a confiança, a paz e a reconciliação mútuas." A Igreja Ortodoxa condena inequivocamente a propagação da violência militar, as perseguições, as expulsões e o assassinato de membros das comunidades religiosas, a coerção para mudar de credo religioso, o tráfico de refugiados, os sequestros, as torturas, as abomináveis execuções. Além disso, denuncia a destruição de igrejas, de símbolos religiosos e de monumentos das civilizações passadas. Em particular, expressa a sua angústia e preocupação com a situação dos cristãos e de todas as minorias perseguidas no Oriente Médio e em outros lugares, e declara que o seu direito de viver na própria pátria como cidadãos de igual dignidade com os outros é inviolável.

5) A secularização contemporânea promove a autonomia da pessoa em relação a Cristo e à influência espiritual da Igreja, identificando arbitrariamente o conservadorismo com a Igreja. A civilização ocidental, porém, traz a marca indelével da contribuição do cristianismo ao longo de toda a sua história.

6) Na abordagem moderna do matrimônio, a Igreja Ortodoxa considera indestrutível a relação de amor entre o homem e a mulher, "um grande mistério de Cristo e da Igreja". Ao estilo de vida dos fiéis, ele recomenda "ascese" e "abstinência", que "não diz respeito apenas à vida monástica. O ethos ascético é uma característica da vida cristã em todas as suas manifestações".

7) Quanto às relações entre fé cristã e ciências positivas, a Igreja Ortodoxa evita pôr tudo sob a tutela da pesquisa científica e não toma uma posição sobre questões científicas. Ela agradece a Deus que deu aos cientistas o carisma de descobrir dimensões desconhecidas na criação. Portanto, "o conhecimento científico, por mais rapidamente que possa estar avançando, não motiva por si só a vontade do homem, nem fornece respostas para sérias questões morais e existenciais, e à busca do sentido da vida e do mundo. Essas questões demandam uma abordagem espiritual, que a Igreja Ortodoxa tenta providenciar mediante uma bioética fundada na ética de Cristo e no ensinamento patrístico. Junto com o seu respeito pela liberdade da investigação científica, a Igreja Ortodoxa, ao mesmo tempo, aponta para os perigos escondidos em certas conquistas científicas e enfatiza a dignidade do homem e o seu destino divino".

8) A atual crise ecológica se deve a causas espirituais e morais. O homem deve tomar consciência de que é curador e administrador, e não proprietário da criação.

9) Diante do nivelamento rumo a uma homogeneidade impessoal, que é promovido de inúmeras maneiras, a Ortodoxia proclama e promove o respeito pela personalidade própria e distinta dos indivíduos e dos povos.

10) A Igreja Ortodoxa não interfere na política. A sua palavra continua sendo discreta, mas autônoma e profética como intervenção voltada a promover a dignidade do homem. A Igreja Ortodoxa, ao lado dos direitos humanos – que o defendem das ingerências e dos abusos do Estado –, reconhece a existência de deveres tanto para os cidadãos quanto para os políticos. Para todos é necessário a autocrítica. O direito à liberdade religiosa não se limita apenas ao exercício dos deveres religiosos da pessoa, mas se estende até incluir o ensino público da religião.

11) "A Igreja Ortodoxa se dirige aos jovens, que buscam de uma plenitude de vida repleta de liberdade, justiça, criatividade e também amor. Ela os convida a se unirem conscientemente à Igreja d'Aquele que é a Verdade e a Vida. (…) Os jovens não são apenas o futuro, mas também a dinâmica e o presente criativo da Igreja, tanto em nível local quanto em nível mundial."

12) "O Santo e Grande Concílio abriu o nosso horizonte ao mundo contemporâneo diverso e multifacetado. Ele enfatizou a nossa responsabilidade no espaço e no tempo, sempre com a perspectiva da eternidade."

Alguns dados conciliares

* Os participantes do Santo e Grande Concílio foram 156 bispos e não 290 como anunciado. Isso se deveu ao fato de que nem todas as Igrejas participantes tinham, na sua delegação, 25 bispos, ou seja, o primaz da Igreja mais 24 bispos. Polônia, Chipre, República Tcheca e Eslováquia tinham menos.

* A Igreja da Rússia espera os textos oficiais e definitivos para avaliá-los e, depois, se expressar.

* Alguns observam que as Igrejas ausentes somam a maioria dos fiéis representados.

* Alguns sites especializados relatam informações segundo as quais alguns bispos da Igreja da Grécia, do Chipre e da Sérvia não assinaram alguns textos finais.

* O Patriarcado de Moscou se prepara para avaliar os textos sinodais na reunião de julho do seu Santo Sínodo.

* Já o arcebispo Iov (Jó), responsável pela Sala de Imprensa do Concílio, quando perguntado por um jornalista russo, havia respondido que todas as decisões tomadas envolvem todas as Igrejas ortodoxas, incluindo também aquelas que não estavam presentes. E continuou: "Você vem de uma democracia, onde todos podem votar. Ora, alguns optam por não votar. Por acaso isso significa que eles não vivem em uma democracia?".

* O segundo responsável pelo Departamento de Relações Eclesiais Exteriores do Patriarcado de Moscou, Nicolai Balasof, aproveitou a oportunidade para lembrar que Moscou estava escutando. E comentou: "Entendo o esforço destes dias, mas estabelecer uma analogia entre um Sínodo da Igreja e um procedimento democrático não é oportuno nem adequado. Na Igreja, desde os tempos antigos, nunca houve democracia e nunca haverá". E concluiu que a democracia é uma regra da convivência humana, enquanto a força da Igreja provém de Deus. "Se os cânones da Igreja fossem examinados de acordo com os esquemas democráticos, surgiriam grandes perplexidades e embaraços. Por exemplo, nós não ordenamos mulheres bispas, e isso não é nada democrático. Assim como não é democrático permanecer no exercício da autoridade de forma vitalícia. Os mecanismos eclesiásticos são totalmente diferentes. No nível dos bispos, por força da 'homofonia', exige-se um comum acordo."

Fonte: ihu.unisinos.br
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