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Jornalista critica cobertura de imprensa brasileira sobre refugiados

A imprensa brasileira não tem tratado o tema da migração e do refúgio com a seriedade que merece e com as devidas informações que a sociedade espera.
 
Os imigrantes e os refugiados são vistos e descritos pelos jornais a partir de preconceitos alimentados nos profissionais e nas empresas quando a tarefa é escrever sobre o assunto. “Os estrangeiros são ‘fulanizados’. A cobertura é sazonal e ocasional, dependente de mortes, de afundamento de um barco. Quando o tema é tratado assim com contagem de mortos, uma contagem de vítimas, não estamos tratando o assunto com a seriedade, com complexidade que isso exige”.
 
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Este é ponto de vista do professor Luiz Cláudio Ferreira em entrevista feita pela assessoria scalabriniana de comunicação de São Paulo, por ocasião do encontro internacional da Comissão Scalabriniana de Comunicação, de 22 a 25 de setembro passado, em Jundiaí (SP).
 
Durante o evento, o jornalista fez uma análise da migração vista pelos grandes meios de comunicação nacionais. Luiz Cláudio é mestre em comunicação e doutorando em literatura. Atualmente, é professor de jornalismo do Centro Universitário de Brasília (UniCeub) e editor da Empresa Brasil de Comunicação.
 
Qual tema o senhor trabalhou com o grupo?
 
Luiz Cláudio - Conversamos sobre as possibilidades que a comunicação institucional tem no âmbito de cenários que não são cobertos pela mídia tradicional na medida e da forma que a sociedade precisaria.  Discutimos sobre as importantes contribuições que a Congregação tem a oferecer para a sociedade e como pode colaborar com a situação dos imigrantes. Neste sentido, a comunicação é ferramenta estratégica desse trabalho. Entendo que é uma excelente ideia que a congregação de vocês possa ter uma agência de notícias.
 
E quais seriam essas contribuições que as religiosas scalabrinianas podem dar ao tema da comunicação e da migração hoje?
 
Luiz Cláudio - São contribuições fundamentais para que possamos primeiro, democratizar mais a comunicação sobre este tema da migração e do refúgio, que tem sido tratado apenas como se fosse crise e não da forma humana que necessariamente deveria ser evidenciado pela grande mídia. Se as instituições conseguirem se comunicar com a sociedade não só mudará a visão da grande mídia como também  poderá pautar de novo o assunto na agenda social.  
 
Por que, a seu ver, a imprensa tem preferido tratar de forma negativa a situação da migração e do refúgio?
 
Luiz Cláudio - Conversamos sobre o tratamento que os grandes portais e os maiores veículos brasileiros tem dado à imigração no Brasil. Sempre esse tema tem sido tratado como crise migratória. Esse termo crise migratória podemos considerá-lo como superficial e errado porque imigração sempre houve e sempre terá. Estamos em um mundo sem fronteiras. Há sim, por parte da mídia um preconceito de diversos gêneros tanto homem x mulher, quanto de etnia, cor e credo que estão criando estigmas dentro do discurso jornalístico. Estes surgem tanto a partir das empresas quanto dos profissionais. Daí a grande importância dos profissionais da Congregação de colaborar com o conteúdo que tem sido levado à sociedade.
 
O senhor acha que essa ideia da congregação de investir num alto serviço de comunicação à sociedade é o melhor caminho para tratar do tema da migração nos Meios de Comunicação?
 
Luiz Cláudio - A ideia da criação de um espaço web que trate de assuntos de migração é genial e é o que a sociedade espera e precisa porque não está bem informada a cerca desses temas que são caros a todos nós. Todos somos filhos de imigrantes e o assunto não tem sido tratado da melhor forma, então ao meu ver, falta protagonismo e humanização dos conteúdos. Atualmente esse tema tem sido tratado, podemos adjetivar, como uma espécie de “fulanização”, isto é, são sazonais, são ocasionais, dependem de uma morte, do afundamento de um barco.  E quando o tema é tratado assim, com contagem de mortos, uma contagem de vítimas, não estamos tratando o assunto com a seriedade, com complexidade que isso exige.
 
Para as religiosas que trabalham com os imigrantes, seria necessário o aprendizado de uma análise crítica das notícias que são divulgadas pelos grandes meios?
 
Luiz Cláudio - É fundamental não só para as religiosas scalabrinianas, mas para todos os cidadãos. Observar de que forma temos sido bem ou mal informados sobre este tema. Devemos, sim, olhar com criticidade para os veículos de comunicação de massa, para os veículos alternativos e verificar nós, como cidadãos, como religiosos consagrados ou não, o que mais precisaríamos saber sobre aquele tema e não estamos sendo contemplados? É fundamental que quando assistimos ou ouvimos algo, que nos deparemos com uma visão muito mais crítica e saibamos de que forma podemos colaborar com aquele conteúdo. Não adianta acusar que o conteúdo não está sendo bem coberto mas devemos como instituição ou mesmo com cidadãos, participar da comunicação que é feita, no caso do jornalismo.
 
Como o senhor avalia as colocações do presidente interino, Michel Temer sobre este tema, na Assembleia da ONU?
 
Luiz Cláudio - A forma como o presidente Temer tratou a imigração e o refúgio beirou falsidade porque ele não tinha os números corretos sobre migração, sobre refugiados, foi muito mal assessorado a respeito e isso pautou a mídia de uma forma muito ruim. Ainda bem que alguns veículos verificaram que estava errado, que havia alguma informação errada de uma fonte oficial que é, no caso, o presidente da República e conseguiram corrigir. O governo não deve ser o protagonista único também por esse motivo, pois ele não detém todas as informações.
 
Petra Laszlo, que passou rasteira no refugiado e chutou outros, afeta a moral dos jornalistas em exercício?
 
Luiz Cláudio - Muito triste. A gente fica envergonhado quando acontece isso e entende, também, o viés das informações porque o problema pode estar na formação profissional ou mesmo na formação de cidadão, de quem está chegando no mercado para honrar essa maravilhosa profissão que é do jornalismo. Temos uma missão social importantíssima que já está clara para todos que a seguem e não podemos nos desatrelar da nossa função social como primeira das missões nossas. É lamentável quando isso acontece e ficamos envergonhados  e ficamos nos perguntando o porquê os conteúdos estão saindo desse jeito, porquê somos preconceituosos, racistas, homofóbicos.

Fonte: Rosinha Martins / MSCS
Foto: Reprodução