Católicos e luteranos: Curar a memória, testemunhar Jesus Cristo

Munique (RV) – A Conferência Episcopal Católica alemã (DBK) e o Conselho da Igreja Protestante na Alemanha (EKD) apresentaram em Munique, no dia 16 de setembro, um novo documento ecumênico conjunto intitulado “Curar a memória, testemunhar Jesus Cristo”.
 
O texto de 92 páginas, fruto de um trabalho iniciado em 2012 - e que ao menos em parte tem como precursor o documento “Do Conflito à Comunhão”, publicado em 2013 pelo Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos e pela Federação Luterana Mundial  - foi apresentado com satisfação pelos dois respectivos Presidentes, o  Cardeal Reinhard Marx e seu colega Bispo (Landesbischof)  Heinrich Bedford-Strohm, que reiteraram a intenção de recordar conjuntamente o aniversário de “um grande evento ecumênico”, em referência aos 500 anos da Reforma Protestante.
 
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Purificação da memória
 
O título do documento sintetiza toda a ação de caráter cultural e pedagógico implementado na África do Sul com o fim do apartheid, explicaram os representantes das duas Igrejas na apresentação do documento. “Cura, restauração, ou se quisermos, purificação”, entendido quer como referência às recíprocas feridas destes 500 anos, quer a todos os passos do caminho ecumênico pós-conciliar não ainda concluídos, mas sobretudo não sempre conhecido e não assimilado plenamente no tecido conectivo das respectivas comunidades.
 
“Palavra comum”
 
Sinteticamente, o documento poderia ser definido como “uma Palavra comum”, disseram o Cardeal Marx e Dom Heinrich.  Comum porque representa a base teológica para as celebrações que ganharão corpo neste outono em diversas localidades de toda a Alemanha e se concluirão em 31 de outubro de 2017, aniversário da publicação das famosas “teses” por Lutero e considerada, de fato, o início da Reforma Protestante.
 
De fato, já é grande a expectativa para o evento conjunto previsto para Hildesheim, na Baixa-Saxônia, em 17 de março próximo, véspera do II Domingo da Quaresma. Católicos e luteranos também escreveram diversas orações para uso comum nas diversas iniciativas ao longo das celebrações.
 
Vontade de perdoar e olhar para o futuro
 
Depois de uma série de aniversários caracterizados por acusações recíprocas, “desta vez será diferente”, prometem o Cardeal Marx e Dom Heinrich no Prefácio. “Será um momento extraordinário para as nossas comunidades. Depois de séculos de fechamentos, hoje existe a vontade de perdoar e olhar para o futuro”, completam.
 
Conflito enraizado na memória coletiva
 
O texto apresenta um preciso panorama do ponto de vista histórico em relação ao “acontecimento” envolvendo Lutero, um acontecimento assumido dentro da igreja Católica a nível político (cfr. Dieta de Worms, 1521) e ligada às guerras de religiões que ensanguentaram a Europa antes e depois dele. Conflito tão “profundamente enraizado na memória coletiva”, cujo impacto histórico chega até os nossos dias, mesmo que “com o Vaticano II tenha se iniciado a respirar um novo ar”.
 
Cultura da memória
 
A primeira parte do texto é dedicada à “cultura da memória”, com uma descrição das diversas perspectivas e recíprocas feridas do passado e sucessivamente um olhar sobre os passos realizados pelo movimento ecumênico, sem negligenciar as numerosas questões ainda abertas, como a da Eucaristia, mas tudo numa perspectiva de grande esperança para o futuro: “é necessário resistir à tentação de tomar a própria identidade como medida teológica”.
 
Precisamente sobre isto concentrou-se grande parte da apresentação do documento em Munique. “Aquele de 2017 será o primeiro aniversário na história celebrado conjuntamente por parte de duas Igrejas separadas”, repetiram com satisfação os dois bispos.
 
Mas o documento não para por aí. Em linha com toda uma obra de reavaliação e estima pela figura de Lutero (cfr as palavras do Papa Francisco na coletiva de imprensa no voo de retorno da Armênia: “as suas intenções não eram erradas, era um reformador”, ou o recente texto do Cardeal Kasper, “Martinho Lutero, uma perspectiva ecumênica”, Queriniana, 2016), o Cardeal Marx sublinhou:
 
“Como católicos, podemos reconhecer com todas honestidade que a sua intenção era a de renovar a Igreja Católica, não fundar outra. Queria chamar a atenção ao Deus clemente e misericordiosos e despertar as pessoas de seu tempo”.
 
“É necessário admitir com toda sinceridade que os conflitos do passado, hoje aparecem um tanto vergonhosos”, acrescentou por sua vez o Bispo Heinrich.
 
Tratar conjuntamente os acontecimentos do passado
 
“Os preconceitos por tantos anos enraizados nas nossas Igrejas poderiam constituir um obstáculo à reunificação - explica o Presidente dos Bispos Católicos alemães – por isto é tão necessário  tratar juntos os acontecimentos do passado e pedir perdão a Deus hoje. Estou seguro de que o processo espiritual da cura da memória e a recíproca reconciliação permitirá de aproximarmo-nos com sinceridade e compreendermo-nos um ao outro nas respectivas posições. Se pode dizer que uma ferida está curada, somente se, tocando-a, a cicatriz não faz mais mal...”.
 
Cura da memória
 
O processo de “cura da memória” representa uma parte essencial das iniciativas conjuntas pré-dispostas pela EKD e pela Conferência Episcopal alemã, para recordar o aniversário de 2017, um processo que, por vontade das Igrejas, não deverá estar limitado dentro dos dois grupos, mas chegar à sociedade para assumir a conotação de uma “autêntica reconciliação” de toda sociedade alemã.
 
Peregrinação à Terra Santa
 
No contexto das orações comuns, assume um papel relevante a peregrinação conjunta entre os membros dos dois Conselhos de Presidência que se realizará de 16 a 22 de outubro próximo à Terra Santa, local da origem da única fé em Jesus Cristo.

Fonte: Rádio Vaticano
Foto: Reprodução