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Oriente Médio: CONIC entrevista o professor Reginaldo Nasser

O Oriente Médio é, sem dúvidas, uma região fascinante. Berço de civilizações importantes, o local protagonizou o surgimento de movimentos religiosos que marcariam a história da humanidade. Judaísmo, cristianismo e islamismo, por exemplo, nasceram nessa região. Juntas, essas vertentes religiosas trouxeram ensinamentos de concórdia, paz e respeito, influenciando incontáveis gerações.

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Na atualidade, contudo, os países da região estão envolvidos em muitos conflitos. E há um indicativo de que essas confrontações possam se aprofundar mais, vide questões como: guerra contra minorias xiitas no Iêmen; escavações israelenses próximas à mesquita de Al-Aqsa; situação não resolvida dos curdos; disputas pelo poder na Síria; maior influência do Irã no vizinho Iraque, entre outros.

Para falar um pouco sobre a região e algumas perspectivas, o CONIC conversou, por e-mail, com o professor Reginaldo Nasser, mestre em Ciência Política (Unicamp) e doutor em Ciências Sociais (PUC-SP), atual chefe do Departamento de Relações Internacionais da PUC-SP e professor do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).

Confira:

CONIC: O Oriente Médio está, na atualidade, mergulhado em sérios conflitos: Síria, Iêmen, Iraque. É possível traçar uma causa comum para isso?

Reginaldo: Há várias causas que acabam convergindo para a ocorrência frequente de conflitos na região. Há questões específicas que envolvem cada um desses países. A guerra civil na Síria veio na sequência das revoltas populares contra a ditadura do governo Assad; no Iêmen, em decorrência da disputa pelo governo entre dois grupos políticos, um apoiado pelo Irã e outro pela Arábia Saudita; já o Iraque mergulhou num prolongado conflito armado em decorrência da ação militar dos EUA e Inglaterra. A causa comum é o intervencionismo de grandes potencias (EUA, França, Inglaterra e Rússia) e potencias regionais como Turquia, Irã e Arábia Saudita atuando diretamente ou indiretamente.

CONIC: Síria e Iraque são países importantes para a história do cristianismo, bem como do judaísmo e do islamismo. Qual o impacto dessas guerras para a perda de patrimônios históricos da humanidade?

Reginaldo: Qualquer que seja o conflito armado a perda de patrimônios históricos é sempre significativo, mas nada comparado com a perda de vidas humanas e com o deslocamento forçado de milhões de pessoas.

CONIC: Sobre a questão Palestina, que também gera conflitos de tempos em tempos, por que não se consegue um acordo de paz? A quem interessa esse constante estado bélico?

Reginaldo: Não se pode nunca perder de vista a origem concreta do conflito que foi a apropriação das terras palestinas por parte do Estado de Israel e a consequente expulsão dos palestinos. Trata-se de um processo de colonização que, de tempos em tempos, atinge picos de violência, mas a violência faz parte do cotidiano. A paz só poderá ser alcançada se houver desocupação de território. Como qualquer lugar do mundo, o povo palestino tem direito a ter seu Estado.

CONIC: Recentemente, o Brasil aprovou a Lei Antiterrorismo (13.260/2016). Acha que isso pode ter algum impacto para a comunidade árabe brasileira, sobretudo aos que professam a fé islâmica?

Reginaldo: A Lei Antiterrorismo atinge a todos nós, independentemente da origem étnica ou religiosa. Trata-se de uma lei que tem por objetivo coibir e dissuadir movimentos sociais retirando as mínimas garantias de liberdade de expressão. Claro que em tempos de islamofobia, um grupo poderá ser mais atingido do que outros. Algumas pessoas foram presas sem direito a defesa por supostamente serem simpatizantes de um grupo terrorista (ainda não há informações concretas sobre isso), durante a realização das Olimpíadas. Ao mesmo tempo, tratava-se com naturalidade ou até mesmo com certa condescendência, a atuação das milícias em territórios do Rio de Janeiro.

CONIC: Nos países de maioria islâmica, vemos crescer muitas iniciativas em prol dos direitos civis. Ao mesmo tempo, há um recrudescimento do fundamentalismo. Como fechar essa equação? Em outras palavras, qual será o horizonte para isso? Vencerá quem mais grita ou quem mais dialoga?

Reginaldo: Não é apenas o fundamentalismo islâmico que atinge os direitos humanos, mas todo e qualquer fundamentalismo que cresce em todos os lugares do mundo, como EUA, França e mesmo no Brasil. Trata-se, na verdade, de discutirmos mais os regimes políticos e menos as religiões. Veja por exemplo o caso do Egito. Após a destituição do presidente Hosni Mubarak no contexto das revoltas árabes, houve eleições e a Irmandade Mulçumana chegou ao poder. Esse, por sua vez, foi destituído por um golpe militar, sob o argumento de que o fundamentalismo islâmico estaria no poder. O atual regime militar egípcio é secular e dos que mais aviltam os direitos civis e conta com o apoio das chamadas democracias ocidentais.

CONIC: Por fim, quais alternativas você vislumbra para que, numa era tão obtusa quanto a nossa, consigamos superar conflitos e acolher o outro como irmão/ã?

Reginaldo: Creio que está mais do que demonstrado que as formas democráticas mais avançadas, isto é, que incorpore as dimensões políticas, econômicas e culturais em sua radicalidade é a meta que devemos buscar sempre.

Foto: Acervo pessoal