A segunda-feira 17 de abril marcou um ano da aprovação da abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Para lembrar a data, a Plataforma Pela Reforma do Sistema Político, vinculada ao Inesc - Instituto de Estudos Socioeconômicos, realizou o debate 'A Democracia que queremos', organizado a partir dos olhares da população negra, dos povos indígenas, mulheres e defensores do Estado Laico. A atividade aconteceu no Auditório do Museu Nacional da República, em Brasília.

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Estiveram presentes Lucia Xavier, integrante do Criola e Articulação de Mulheres Negras do Brasil (Amnb), Paulo Rubem Santiago, professor da Universidade Federal de Pernambuco, Sônia Guajajara, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e Romi Bencke, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC). Na coordenação dos debates, Carmen Silva, da SOS Corpo e Articulação de Mulheres Brasileiras.

Partindo do princípio de que é urgente uma maior representação dos vários povos, matizes e gêneros que constituem a população Brasileira, o debate procurou evidenciar que aquilo que se discutia antes do impeachment ser consumado já pode ser sentido por uma grande parcela do povo brasileiro. Além da retirada de direitos, as novas revelações da operação Lava Jato mostram que a articulação para afastar a presidenta Dilma tinha o objetivo de blindar e proteger esquemas de corrupção de integrantes do governo Temer.

Representação e participação populares

Lucia Xavier foi direta: "queremos uma Democracia onde o homem branco não seja o centro do processo", afirmando que "o movimento negro tem a agenda política mais antiga do País". Citando as levas de negras e negros escravizados trazidos à força para o Brasil, ela destacou que "desde o nosso primeiro ancestral brasileiro lutamos por liberdade, por respeito e por oportunidades". Lucia disse, ainda, que o "debate sobre a questão racial é um termômetro, pois fala sobre representação, classe social e educação".

Para o professor Paulo Rubem, os "governos democráticos e populares eleitos a partir de 2002 não foram capazes de abalar as oligarquias brasileiras presentes no Congresso Nacional". Ex-deputado federal, Rubem lembrou das grandes mobilizações populares para a inserção de direitos e garantias sociais na Constituição Federal de 1988. Entretanto, "a disputa entre Economia e Democracia foi gradativamente desequilibrada", com favorecimento paras as elites financeiras que hoje retiram direitos da população.

A 'Constituição Cidadã' veio com o objetivo de remover todo o entulho autoritário legado pela Ditadura Militar e "os povos indígenas acreditaram nos dispositivos voltados para as suas demandas", contou Sônia Guajajara. Hoje ela lamenta o enfraquecimento de órgãos como a Funai, cujo presidente afirmou que "índio não pode ficar parado no tempo", o que mostra a total falta de entendimento da questão indígena pelo gestor. Sônia também disse que "precisamos unificar a luta, afinal somos todos indígenas", aludindo à miscigenação que caracteriza a população brasileira.

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O forte protagonismo político de integrantes de congregações religiosas também foi discutido na atividade. "Há um ano uma presidenta legitimamente eleita foi deposta em nome de Deus", lembrou Romi Bencke. Para ela, no Brasil "nota-se uma instrumentalização da Política pela Religião e vice-versa", afirmando que o "fundamentalismo e o conservadorismo não andam isolados." A liberdade religiosa não deve ser confundida com a promoção religiosa. "A Religião não pode ser absoluta, somente em consonância com os Direitos Humanos", arrematou.

Desafios para a expansão da Democracia

Para os debatedores, uma representação popular mais fidedigna àquilo desejado pela população só será possível com reformas estruturantes e uma profunda mudança do sistema político. "Estamos em um momento em que as questões voltam ao solo fértil do debate para que possamos traduzir para o povo as consequências dessas reformas empreendidas pelo governo Temer", comemorou o Professor Paulo Rubem.

A despeito de sua religiosidade, o povo brasileiro não é misericordioso, acredita Romi Bencke. "Existe mais espaço para o ódio do que para a compaixão, basta perceber a permanência da intolerância religiosa em nossa sociedade, em especial àquelas de matriz africana, que perpassa pelo racismo", disse. Romi acredita que a crítica à Religião é importante para relembrar o vínculo entre Religião e Poder, "pois sempre que este vínculo existiu os seus resultados foram complicados."

"Uma mesa composta por cinco pessoas, sendo quatro mulheres e um homem, já é um avanço nesse Brasil de homens brancos de Michel Temer", brincou Sônia Guajajara. "Hoje o ódio é incitado por figuras públicas, parlamentares, que não se envergonham de manifestarem todo o seu preconceito", aludindo à naturalidade com que são desferidos ataques a contingentes populacionais inteiros, e não somente às minorias, historicamente marginalizadas.

Um novo pacto em que toda a riqueza do País seja distribuída, como o acesso à terra, educação e oportunidades, é fundamental para que sejam diminuídas as distorções entre a população, acredita Lucia Xavier. "Queremos compartilhar, mostrar nossa capacidade de construir os pilares da sociedade. Enquanto mulheres negras não forem parte do processo, viveremos em uma Democracia Branca. E vocês não sabem o tanto que ela é ruim", finalizou.

Fonte: Mídia Ninja
Fotos: Reprodução