Nos templos da crise: O desemprego leva mais brasileiros às igrejas

Na paróquia Nossa Senhora das Graças, em Santo André (SP), a cena nas quintas-feiras é habitual: uma fila de fiéis com a carteira de trabalho em punho à espera de uma gota de água benta. Na missa dos desempregados, que lota a paróquia, alguns levam mais de um documento para pedir ajuda a Deus para familiares sem emprego. É a hora em que o padre Vanderlei Ribeiro benze as carteiras em branco, que simbolizam a pior face da crise econômica que o Brasil enfrenta. Os olhos de fé se fecham, e filas e filas se alinham em direção ao altar.

O designer gráfico Anderson Prates, 38 anos, é um dos 9 milhões de brasileiros sem carteira assinada e um dos fiéis que busca na fé uma chance de recomeçar. Anderson perdeu o emprego no início do ano passado depois de passar por um problema de saúde e ter síndrome de pânico. Apesar de fazer parte de uma família católica, ele não frequentava missas. Foi à igreja de Santo Expedito, na região Central de São Paulo, onde entregou uma carta ao santo para alcançar a graça e reconquistar o emprego. “A partir daquele momento, comecei a aumentar minha fé e ir à missa sempre que posso.”, conta.

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Anderson não é o único. A escalada da crise econômica tem levado fiéis a recorrerem à fé em busca de uma nova oportunidade. A taxa de desemprego aumentou, o consumo caiu e as dívidas aumentaram. No cenário desalentador e, sem perspectiva, a procura por um auxílio divino tem sido uma opção cada vez mais recorrente. “A cultura brasileira é mais aberta para a espiritualidade do que as demais”, diz Rodrigo Franklin, professor de ciências de religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

“É natural buscar a religião quando há uma crise. Quando o País está em uma situação econômica mais favorável, há uma tendência de estabilização ou de diminuição no número de fiéis que frequentam cultos.” A crise econômica chegou às igrejas, independentemente das religiões, de duas formas: diminuiu a receita com a redução do dízimo e da queda na venda de artigos religiosos e aumentou a circulação de pessoas nos templos em busca do apoio de Deus para conseguir trabalho.

O padre Waldecir Gonzaga, doutor em Sagrada Família, professor de Teologia no Instituto Superior das Ciências Religiosas e da Pontifícia Universidade Católica (PUC), ambos no Rio de Janeiro, calcula que a procura por missas aumentou cerca de 500%. “Eu celebrava missas para seis pessoas nas favelas de Cerro-Corá e Guararapes (no Cosme Velho, zona sul carioca). Hoje são 40, mais ou menos”, diz ele, para exemplificar sua estimativa. Em Manaus, a gerente de vendas Jucileide Maciel, da livraria Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), contou que a redução do dízimo acarretou queda de 99% no investimento em publicidade e fez o negócio despencar.

“Pela primeira vez, nós estamos dando descontos acima de 20%.” Em Belo Horizonte, o culto Bom Samaritano, da Igreja Batista da Lagoinha, lota de fiéis atrás da palavra de Deus e também do mural com as ofertas de emprego do site VagaZ, parceiro da entidade religiosa. Em todo o Brasil o fenômeno se repete: pessoas buscam a solução divina para a falta de emprego e excesso de problemas financeiros. O pastor mineiro Eduardo Oliveira, responsável pelo culto Bom Samaritano, em Belo Horizonte, afirma que “as pessoas até podem ir à igreja para procurar emprego, mas é a palavra de Deus que ajuda a passar pela crise, aguentar a tempestade junto com a família.”

Do lado evangélico, a Igreja Universal do Reino de Deus também tem recebido novos visitantes. “Muitas pessoas estão ingressando na Igreja agora por conta desse problema”, diz Jadson Santos, bispo da Universal, autor do livro “50 Tons Para o Sucesso”. “Esse sofrimento está estampado no semblante daqueles que estão sendo afetados pela crise, principalmente pelo desemprego.” Segundo o bispo, as pessoas que chegam pela primeira vez à Universal se queixam por não ter condições de manter a família e pagar suas dívidas. A mesma cena da fila para benzer a carteira de trabalho se repete nas missas do Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo.

Brasileiros viajaram de longe para levar o documento para receber água benta no final do ano passado, quando a crise se agravava. Em 1º de maio, Dia do Trabalho, católicos preocupados com a onda de desemprego apelaram a São José Operário, padroeiro dos trabalhadores, e outros santos. A tendência é que, neste ano, as igrejas recebam ainda mais brasileiros em busca de alento para a crise. 

Com informações da IstoÉ
Foto: Grace Beahm/Pool/Reuters