As ânsias do Espírito e o movimento ecumênico

Há uma ecumenicidade latente nos corredores seminarísticos protestantes, cuja efervescência vai se diluindo na passagem para os corredores paroquiais.

Tento trabalhar uma percepção de Rubem Alves levantada no livro Dogmatismo e Tolerância, segundo a qual grande parte dos alunos e alunas formado(a)s nos seminários protestantes são liberais em seu tempo de formação teológica e quando vão paras as igrejas experimentam uma recaída conservadora.

Para Rubem a organização institucional do protestantismo é tal que inibe, na fonte, o fluxo de ideias novas. Essa mesma lógica explica o isolamento do pensamento teológico europeu, mantido sob rígida quarentena – em certo sentido, até hoje – nas igrejas do protestantismo histórico como as presbiterianas, da qual sou membro.

Inibe o fluxo do novo, as ânsias do Espírito, na forte expressão de Jether Pereira Ramalho, para quem o repertório de significantes ecumênicos é um dos mais lindos e inspiradores sinais dos tempos. É um processo, um movimento rico e desafiador que jamais poderá ser reduzido às suas expressões institucionalizadas, embora importantes e significativas. E não é monopólio de nenhum grupo e muito menos uma simples estratégia eclesiástica.

É, no limite, um processo de conversão e abertura às surpreendentes formas e lugares da presença e atuação da Ruah Javeh. Trata-se de uma atitude ecumênica que passa pelas camadas institucionais, mas vai além delas. Trata-se, como dizia um antigo folheto do CONIC, de um movimento de saída dos interlocutores do isolamento, da desconfiança, para uma atmosfera de mais simpatia, estima e respeito.

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Por isso Rubem Alves vai dizer no Dogmatismo e Tolerância, que “os fundamentos do ecumenismo” só possam advir a partir do colapso dos critérios institucionais e doutrinários na definição da comunidade cristã. Dado o perigo da redução do registro institucional como poder político da afirmação de uma ortodoxia, corre-se o risco perene de um ecumenismo reduzido a negociação entre corpos eclesiásticos.

Naquele momento Rubem referia-se ao impacto exercido pelas comunidades eclesiais de base, na segunda metade dos anos setenta, ecoando a afirmação do Pe Comblin que escrevera: Não se trata de modificar, nem de melhorar as instituições existentes: foi o que se fez nos últimos cinquenta anos sem resultado. Trata-se de substituir instituições obsoletas por outras mais adequadas à evolução contemporânea das metrópoles. (Comblin, in Alves, p.53)

Àquele momento, Rubem identificava dois discursos distintos que tentavam dar conta das ânsias do Espírito pela via das nascentes comunidades eclesiais de base. O primeiro seria o discurso da reforma, ou seja, as comunidades de base seriam expressões novas de uma realidade institucional eterna. O segundo discurso seria o da ruptura, que entende que a igreja só se preserva por um constante processo de morte e ressurreição das formas institucionais para que as marcas da comunidade cristã em seu dinamismo e potência criadoras possam advir.

Tais marcas dizem respeito a qualidade de vida que a comunidade crista é capaz de produzir no mundo: A marca do amor em sua abertura à concretude das relações humanas; a marca do perdão e não a performance dos débitos e créditos que alimenta a contabilidade do mal e reduz a igreja a um simples moralismo; a liberdade: a vida não é cópia de princípios morais abstratos e, por último, uma espécie de mundaneidade cristã: sal e luz nas dores, angustias e alegrias de um tempo.

Curioso, registrava Rubem Alves, que ambos, os corpos eclesiais e as comunidades, tenham os olhos voltados para os mesmos universos simbólicos. Mas, enquanto a instituição afirma as cristalizações que passado afirmou, a comunidade quer criar novas significações, reverberando uma dialética que já está presente na tradição biblica: Israel como Estado, de um lado, e o remanescente, a semente santa, de outro. O sacerdote, produzindo funcionalidades institucionais e o profeta apontando disfuncionalidades. O sacerdote privilegiando o que já é o profeta anelando o que está por vir.

Zwinglio Mota Dias tem afirmado com frequência que o ecumenismo espelha a dialética das instituições eclesiais que tendem a cristalizar e reproduzir experiencias passadas e os movimentos que surtem no interior procurando caminhos para a atualização da fé dada aos santos. (Mota Dias, 2017)

É interessante notar que todos os organismos ecumênicos nascidos desde a segunda metade do século passado brotaram do interior de diversos corpos eclesiásticos, como expressões das ânsias do Espírito. A CEB (Confederação Evangélica do Brasil), o CEI (Centro Ecumênico de Informação) que mais tarde faria nascer o CEDI (Centro Ecumênico de Documentação e Informação, a CESE (Coordenadoria Ecumênica do Serviço), o CEBI (Centro de Estudos bíblicos), o CESEP (Centro Ecumênico de Serviços à evangelização e Educação popular, o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs) são alguns destes organismos.

E aqui chamo a atenção do CONIC como uma espécie e organismo borderline, não no sentido psicológico, obviamente, mas como um significante para expressar as ânsias do Espírito em sua dinâmica fronteiriça, corajosa; a vida na tensão criativa do avanço e recuo, da reforma e da ruptura, na tensa sustentação do embate entre o sacerdotal e o profético. Abra-se a página do CONIC na Rede e está lá estampada a polifonia boenhoeferiana: 1. Direitos humanos e democracia no Brasil – violações e retrocessos. 2. Igrejas reformadas assinam testemunho em Wittenberg...

No primeiro texto que escrevi para esta mesa eu faço um convite a trazermos à lume a história desses organismos ecumênicos, filhos rejeitados de diversas matrizes eclesiais. Que sonhos sonharam, que respostas históricas deram às ânsias do Espírito? Quais foram suas estratégias de sobrevivência e sua presença marginal nos sulcos protestantes. Como se apresentam hoje? Quais suas linhas de continuidade? Como se apresentam na cena ecumênica contemporânea?

A minha homenagem aos que ousaram e ousam caminhar nas bordas para serem fieis às ânsias do Espírito. Para esses, ficam alguns pontos do Sermão da Montanha do Ecumenismo e diálogo inter-religioso, segundo a pena do teólogo católico Paulo Cesar Botas. Tais pontos me vem à memória pelos seguintes fragmentos: Bem-Aventurado(a) sejas quando afrontares incompreensões de tua própria comunidade ou de outros por causa da tua fidelidade à Verdade / Bem aventurado(a)s sejas quando dialogares com outro como se estivesses a ouvir o próprio Deus / Bem aventurado(a) sejas quando confiares no outro, como confias em mim.
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Fontes bibliográficas:

Rubem Alves. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: Loyola, 2004
José Ricardo Ramalho (org). Uma presença no tempo: a vida de Jether Ramalho. São Leopoldo: Oikos, 2010.
Zwinglio Mota Dias. Para a reinvenção do protestantismo reformado no Brasil. São Paulo: Fonte Editorial, 2017.

Texto: Edson Fernando de Almeida, professor do Seminário Batista do Rio de Janeiro
Foto: Reprodução da internet