A força da fé e o diálogo: por Hamdullah Ozturk

 
Em cada época da história, houve diversas relações entre os seres humanos de diferentes crenças. Podemos dividir estas relações em dois períodos, antes e depois do século XIX.
 
No período antes do século XIX, as religiões e os Estados tinham se unido. Portanto, as relações entre os Estados determinavam as relações entre as religiões, ou entre os religiosos, também. Assim como a realização de puro diálogo inter-religioso era difícil por causa das relações interestatais que se referiam aos benefícios dos Estados.
 
Os Estados se beneficiavam das religiões e atribuíam aspectos sagrados a suas guerras, para justificá-las. Assim, as religiões se tornaram fonte de motivação para os povos que batalhavam uns com os outros, ou seja, uma das mais importantes dinâmicas das guerras.      
 
Após o descobrimento da América, indivíduos de diversas crenças e culturas imigraram para esse novo continente. Para muitas que lá chegaram, a liberdade religiosa era um pilar essencial, por terem sido perseguidos em seus próprios países. Essa procura de viver a fé livremente tornou inevitável o diálogo entre seguidores de diferentes religiões. Por esta razão, a partir do século XIX muitas fundações de diálogo inter-religioso foram inauguradas nos Estados Unidos. Assim, pela primeira vez no mundo, os valores fundamentais de um país foram formulados em torno do princípio da convivência das diferentes religiões e culturas.
 
Nos últimos 150 anos, desconsiderando alguns casos particulares, muitos países adotaram o laicismo e o secularismo. Os religiosos começaram a se manifestar e viver sua fé livre da pressão estatal. Esta transformação livrou as religiões de serem motivos de guerras sagradas. Bem como ofereceu aos religiosos a oportunidade de mostrar a força da fé para a construção da paz permanente.
 
O diálogo inter-religioso é um dos elementos fundamentais mais efetivos para suprir a busca da humanidade pela paz, justiça e proteção dos direitos humanos. De fato, a fé é uma força muito influente sobre seres humanos e, por meio dela, pode-se adquirir resultados positivos pelo bem dos valores comuns da humanidade.  
 
Por esta razão, vamos responder às questões de “O que o diálogo é? ” e “O que não é?”, começando por “O que não é o diálogo?”
 
a) O diálogo não é missão de divulgar ou converter outros a sua religião.
b) Da mesma forma, o diálogo não é um processo longo de divulgação de religião, que requererá paciência e reverência, para vencer como um ganho religioso.
c) E, por último, o diálogo não é um processo de aproximar as religiões e fundar outra religião.       
 
O diálogo inter-religioso é um trabalho para representantes de diferentes religiões se conhecerem e entenderem uns aos outros. Nesse diálogo, as conversas cara a cara são de plena importância. O Islã teve seu início há apenas 1400 anos. As religiões como Cristianismo, Judaísmo, Budismo, entre outras, têm uma história bem mais antiga. Durante esta história antiga, muitos receios e preconceitos foram criados, referindo-se a diversas ocorrências tanto positivas quanto negativas. Portanto, vencer esses receios e preconceitos e conhecer os outros, de maneira real, é possível apenas por meio de conversas e encontros cara a cara e, sem dúvida, com trabalhos sinceramente realizados.
 
No processo de diálogo, aceitar o outro da maneira como ele é, e respeitá-lo são pontos muito importantes. O livro sagrado do Islã, o Corão, aponta a importância de as diversidades se conhecerem. Os indivíduos se conhecem melhor enquanto interagem com outros. Assim como os religiosos conhecem sua fé, de melhor maneira, enquanto aprendem a religião e a fé dos outros.
 
Aqueles que trabalham com o diálogo observam que as religiões têm pontos em comum, em seus fundamentos, bem como têm diferenças. E isso, depois de um processo de conhecimento e confiança, abre caminhos para criar projetos de combate aos problemas como terrorismo, desigualdade e uso de drogas, entre outros. A globalização tornou inevitável nos apresentarmos corretamente. A maneira de conseguir isso está ligada ao conhecimento correto dos outros.
 
Fonte: Carta Capital
Foto: Grafite do artista Bueno Caos
(a figura mostra a boa vontade de dois religiosos em conhecer a fé um do outro)