‘O Diário de Anne Frank’ ganha versão em quadrinhos

No mesmo ano em que passeatas racistas ocorreram nos EUA, com arroubos de antissemitismo, Anne Frank (1929-45) voltará às prateleiras. Seu diário, um dos registros mais conhecidos do Holocausto, será transformado em história em quadrinhos.
 
O livro foi apresentado em Paris no início do mês, 70 anos após a publicação do original. O gibi será lançado em 50 países. No Brasil, o título será distribuído a partir do dia 2 de outubro pela editora Record.
 
A adaptação foi feita por dois israelenses, o ilustrador David Polonsky e o cineasta Ari Folman. A dupla já havia trabalhado junta no filme “Valsa com Bashir” (2008), sobre a guerra no Líbano.
 
Folman, um filho de sobreviventes do Holocausto, trabalha simultaneamente em uma adaptação do diário para um filme de animação.
 
A dupla inicialmente rejeitou a oferta de trabalhar com o clássico de Anne Frank, a partir do qual tantos outros produtos culturais já tinham sido lançados, como filmes, mangás e musicais.
 
Polonsky e Folman foram convencidos mais tarde pela importância da história. Os últimos sobreviventes do Holocausto vêm morrendo e, com eles, seus relatos. Mas o antissemitismo persiste.
 
 
A alemã Anne Frank testemunhou a ocupação nazista da Holanda durante a Segunda Guerra (1939-1945).
 
Naquela década, judeus foram detidos, enviados a campos de concentração e sistematicamente assassinados —fuzilados, cremados, asfixiados em câmaras de gás (“talvez seja o modo mais rápido de morrer”, ela escreveu). Estima-se que 6 milhões de judeus tenham sido mortos.
 
Anne Frank viveu essa história de 1942 a 1944, escondida com a família no anexo de um apartamento em Amsterdã, confidenciando a um diário ao qual chamava de Kitty (“você será minha melhor amiga, como nunca tive na vida”). Estão ali os detalhes banais de seu cotidiano, como as brigas com a irmã, mas o livro registra também as angústias de uma garota vivendo a violência do nazismo.
 
Anne Frank dorme mal, e sonha em repetidas noites com o futuro nas mãos do regime de Adolf Hitler. Sua família foi capturada em 1944, e ela morreu em abril de 1945, no campo de concentração de Bergen-Belsen, Alemanha.
 
O texto foi descoberto, editado e lançado em 1947 por Otto, seu pai e único sobrevivente da família, que criou uma fundação com o nome da filha. Ativa ainda hoje, a fundação, aprovou a adaptação do diário aos quadrinhos. Em outras ocasiões, a entidade recusou sua chancela por preocupação com a fidelidade histórica de novas versões.
 
Não são abundantes as boas adaptações literárias para gibis, e neste caso havia o agravante de se tratar de um diário, formato pouco visual. Mas a HQ de “Diário de Anne Frank” faz jus ao original.
 
O texto foi reduzido pelos artistas israelenses e transformado em ilustrações, mas não perdeu o frescor da perspectiva de uma criança — ela tinha 15 anos ao morrer — diante das atrocidades que marcaram o século 20.
 
Ao jantar, Anne Frank ouve a notícia de que uma princesa, Juliana, espera um bebê e se imagina no meio de uma fanfarra. As ilustrações acompanham o sonho.
 
Mas, na cama, “os maus pensamentos se insinuam”, ela escreve. E os artistas desenham Anne Frank deitada em cima de um Exército enquanto um trem e um furgão passam carregando detentos, engolidos pela fumaça.
 
Com informações da Folha de S. Paulo
Foto: Reprodução / AFP