Na Indonésia, mesquita e igreja promovem a amizade em meio a tensões

 
No lado arborizado da rua na capital da Indonésia há uma antiga igreja protestante da época colonial com bancos de madeira rústicos, vitrais e um órgão de tubos antigo, encostado em uma grande parede atrás do altar.
 
Do outro lado da rua, existe uma moderna mesquita com 9.290 metros quadrados. Seus imponentes arcos nas entradas abrem para o espaço de oração cavernoso com as paredes cobertas com tapetes vermelhos.
 
 
Apesar das crenças diferentes, as duas casas de culto são vizinhas amigáveis, solícitas e um exemplo de pluralismo na nação com a maior população muçulmana do mundo, em uma época de medos intensificados em relação à intolerância religiosa.
 
"Nós nos respeitamos. Se não ofendermos outras pessoas, então também seremos respeitados", declarou Nur Alam, imã na Mesquita Sunda Kelapa, que foi inaugurada em 1971.
 
Atravessando a rua, Adriaan Pitoy é pastor na Igreja de São Paulo, que foi construída em 1936, quando o país ainda estava sob a administração colonial holandesa. "Nossa relação é apenas uma das atitudes positiva que tomamos. Também vamos a outras mesquitas para promover o diálogo. Nossa relação com os amigos ao lado é normal", afirmou, referindo-se aos vizinhos na mesquita.
 
 
Para as duas casas, o “normal” significa a partilha de vagas de estacionamento durante os respectivos cultos que mais lotam: a oração de sexta-feira na mesquita, a missa dominical na igreja. Eles também realizam sessões de diálogo inter-religioso e até mesmo torneios de vôlei. Durante o Ramadã, o mês de jejum sagrado dos muçulmanos, a equipe da Igreja de São Paulo, alguns dos quais são muçulmanos, transportam caixas de alimentos para a mesquita para que os praticantes possam interromper o jejum.
 
Este tipo de harmonia religiosa entre vizinhos com crenças distintas é evidente não apenas em Jacarta, mas em todo o arquipélago indonésio. Cerca de 90 por cento das 260 milhões de habitantes da Indonésia se identificam como muçulmanos, mas o país também tem populações cristãs, hindus, budistas e confucionistas; são pequenas, mas influentes.
 
Contudo, essas relações amistosas são ofuscadas com regularidade por notícias internacionais e meios de comunicação que abordam a intolerância racial e os medos em relação à "islamização" da Indonésia.
 
Nos últimos anos, houve centenas de casos de grupos islâmicos radicais que assediaram, atacaram e em alguns casos até mesmo mataram pessoas de minorias religiosas, incluindo cristãos, muçulmanos xiitas e membros do movimento islâmico Ahmadis, além de forçar o fechamento de centenas de igrejas e outras casas de culto em todo o país.
 
Ainda há o terrorismo doméstico na Indonésia, que remonta ao ano de 2000 e inclui vários atentados e ataques em Jacarta e na ilha resort de Bali por células terroristas que prometeram lealdade à al-Qaeda ou ao Estado Islâmico (EI).
 
"As ações desses grupos radicais e as ameaças do EI, ou de indonésios militantes voltando da Síria, são uma ameaça à cooperação inter-religiosa na Indonésia", disse Theophilus Bela, ex-presidente do fórum de comunicação cristã em Jacarta, que por anos documentou todos os ataques e ações discriminatórias contra as igrejas do país.
 
Um desafio recente para a harmonia religiosa pode ser encontrado em uma esquina não muito longe da Igreja de São Paulo e da Mesquita Sunda Kelapa: em uma avenida, ao lado de um parque público, encontra-se a residência oficial do governador de Jacarta.
 
Basuki Tjahaja Purnama teoricamente viveria ali. Mas no momento ele está na prisão, cumprindo pena de dois anos por blasfemar contra o Islã em um caso que gerou violentas marchas nas ruas de Jacarta por parte de grupos radicais islâmicos. Eles exigiam que Basuki fosse processado ou linchado por citar um verso do Alcorão que avisa aos muçulmanos para se colocarem contra a aliança com cristãos e judeus.
 
O governador, um cristão, posteriormente sofreu uma derrota de virada nas últimas eleições, em abril deste ano. Algumas semanas mais tarde, foi condenado por um tribunal em Jacarta e imediatamente transferido para uma prisão de segurança-máxima, para o deleite dos grupos radicais islâmicos que se reuniram em frente ao tribunal.
 
O julgamento e a prisão de Basuki chocaram grande parte do país, em particular as comunidades religiosas minoritárias.
 
Apesar do caso e da retroalimentação de tensões entre muçulmanos e cristãos, tanto Nur quanto Pitoy dizem que o episódio envolvendo Basuki foi mais político do que religioso. Afirmam também que não se preocupam com um possível fim da longa tradição pluralista da Indonésia.
 
"Os indonésios sabem que os conflitos entre grupos religiosos têm ocorrido, mas na verdade sabemos que não é só por causa da fé religiosa, mas talvez também por motivos políticos, econômicos ou algo assim. Às vezes é difícil diferenciar a política da religião – especialmente na Indonésia”, contou Pitoy.
 
Em agosto, a Christian Solidarity Worldwide, organização de direitos humanos fundada no Reino Unido, divulgou um relatório dizendo que a tradição secular da Indonésia quanto ao pluralismo religioso está "sob grave ameaça". A reputação do país de possuir uma maioria muçulmana moderada e democrática, que protege a liberdade de religião, está prejudicada.
 
O relatório também pontuou que algumas comunidades cristãs temem por sua segurança.
 
"Há uma sensação generalizada de que são cidadãos de segunda classe em seu próprio país", contou Benedict Rogers, líder da equipe da organização na seção do sudeste asiático.
 
Em resposta à queda de Basuki, que costumava assistir às missa de domingo na Igreja de São Paulo, o Presidente da Indonésia, Joko Widodo, um dos seus principais aliados políticos, estabeleceu uma força tarefa especial para reforçar a ideologia do país, conhecida como Pancasila, que consagra o pluralismo.
 
Apesar do caso Basuki, ataques violentos contra minorias religiosas têm diminuído substancialmente nos últimos cinco anos. O Instituto Setara da Democracia e Paz, uma organização não governamental em Jacarta, registrou apenas 93 ataques neste ano, até agosto, se comparado aos 264 ataques no ano de 2012.
 
"Mas o número de casos de blasfêmia relatados à polícia por causa das mídias sociais, por causa do que as pessoas comentam no Facebook têm ocorrido com maior frequência agora", disse Bonar Tigor Naipospos, vice-presidente do Conselho Executivo do Instituto Setara.
 
Nur e Pitoy disseram que o problema central da Indonésia em relação à religião não é a intolerância, mas a falta de educação e compreensão entre a população. Menos da metade de todos os indonésios completou o ensino fundamental, de acordo com o Departamento de Estatística do governo.
 
"A Indonésia tem uma maioria muçulmana, temos que aceitar isso. Mas a classe baixa tem um conhecimento muito parco sobre o Islã. É por isso que, se você quer saber sobre a essência do Islã, que é paz e tolerância, você precisa estudar o Alcorão", pontuou Nur.
 
Quando questionado se achava que a intolerância religiosa está crescendo na Indonésia, Pitoy, o pastor da Igreja de São Paulo, disse: "Acho que não".
 
"Os problemas são a pobreza e a concretização da justiça social", disse ele sobre os desafios da igreja. "Também, é muito importante ter uma base comum, e nós temos nossa Constituição e a Pancasila”.
 
Texto: Joe Cochrane/The New York Times
Foto: Reprodução