Reforma liderada por Martinho Lutero deu origem a outras igrejas

 
 
O órgão de tubos é tocado todos os domingos antes do culto na Igreja Evangélica de Confissão Luterana Martin Luther, que fica na Avenida Rio Branco, na região central de São Paulo. É para este lugar que a dona de casa Adélia Christmann vem quase todos os finais de semana, desde a década de 1990. Educada em uma família luterana, ela diz que não se imagina em outra religião: "Pela liberdade que a igreja dá na fé da gente, sabe? Não é uma igreja que obriga a nada, o acolhimento, as pessoas, todo o contexto que a igreja luterana concede e faz com seus membros".
 
Dona Adélia e a catedral fazem parte uma história que começou na Alemanha, na cidade de Wittenberg. Foi lá, no dia 31 de outubro de 1517, que Martinho Lutero, um monge católico descontente com os abusos da igreja, decidiu fazer um manifesto. Publicou 95 teses que sugeriam mudanças profundas no catolicismo.
 
Um dos principais pontos é que a Bíblia deveria ser a base da doutrina, o que rejeitava parte das tradições da igreja. Lutero pregava que só a fé em Deus salva as pessoas, o que eliminava, entre outras coisas, a necessidade de se confessar a um padre.
 
Lutero tinha, ainda, outras reivindicações. Ele queria que a Bíblia e as missas deixassem de ser em latim, língua que poucos conheciam. Também acreditava que a veneração de santos e imagens deveria ser proibida. Além disso, criticava a venda de indulgências e as altas taxas que a igreja cobrava das pessoas.
 
Essas ideias logo encontraram seguidores entre padres e freiras da Alemanha. O professor Wagner Sanchez, do Departamento de Ciência da Religião da PUC de São Paulo, explica que a intenção, em princípio, era reformar a Igreja Católica. Não criar uma nova igreja. No entanto, o movimento ganhou força.
 
"O que ele queria era fazer aquilo que ele chamava de reformar a igreja. Ele era padre, um teólogo muito bem preparado, mas ao mesmo tempo uma pessoa muito angustiada com a situação que a igreja vivia. O que a gente sabe hoje é que Lutero não queria criar uma outra igreja, mas reformar a igreja. O que aconteceu é que aquelas pessoas que aderiram à Lutero acabaram conduzindo aquilo que se chamou de movimento de reforma e que levou à criação de uma outra igreja na Alemanha, depois em outros países também", disse Sanchez.
 
A Igreja Católica reagiu e criou o Movimento de Contrarreforma para reafirmar a fé católica e impedir o avanço de protestantes. Lutero foi excomungado e houve guerras e conflitos entre os grupos. A situação começou a mudar na década de 1960, quando o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II que primou, sobretudo, para o diálogo ecumênico (entre cristãos de diferentes igrejas). De acordo com o professor Cláudio Ribeiro, teólogo da Universidade Metodista de São Paulo, hoje as duas igrejas buscam o diálogo e a paz.
 
"Passados 500 anos, tanto do lado luterano, quanto do lado da Igreja Católica Romana, dedicaram vários esforços para que isso fosse superado", afirma Ribeiro. Prova disso é o documento Do conflito à Comunhão, relatório escrito em conjunto pela Comissão Luterana/Católico-Romana para a Unidade - texto essencial para quem quer compreender como católicos e protestantes podem caminhar juntos, unidos na diversidade.
 
As igrejas que surgiram depois da Reforma Protestante foram muitas: não apenas as luteranas, mas as de tendências calvinistas (como a Presbiteriana e a Congregação Cristã no Brasil), episcopais, congregacionais, metodistas, restauracionistas, entre outras, incluindo as pentecostais (como as Assembleias de Deus).
 
Texto: CBN (com adaptações)
Foto: Igreja Luterana da Argentina