Ecumenismo: uma doutrina relutante entre pessoas feridas na fé

 
 
 
"Que sejam um" (Jo. 17,21)
 
Jesus, na sua última ceia, elevou ao Pai uma suplicante oração: "Pai, que eles sejam um, como nós somos um...para que o mundo creia que tu me enviaste".
 
A união entre os discípulos de Jesus Cristo é uma marca distintiva da caridade que gera a fraternidade e testemunha ao mundo o amor de Deus por todos os seres humanos. Na comunidade dos discípulos deve haver um só coração e uma só alma.
 
O pecado gera a desconfiança, a rivalidade, o medo, o ódio e enfim a busca de vingança entre os seres humanos: é a trágica realidade representada pela “Torre de Babel” (Gn. 11,1-9). Jesus veio a este mundo para reconduzir a si todas as coisas, para congregar todas as filhas e os filhos de Deus dispersos, abrindo a única via capaz de levar os seres humanos à plenitude da vida, e esta via passa pela superação das nossas divisões, sejam elas de nível cultural, racial, econômico, político ou mesmo religioso.
 
Para os cristãos, chamados a ser sinal do Reino de Deus no mundo, o estar divididos entre si, não pode deixar de ser um escândalo para aqueles que não creem em Jesus Cristo. Por motivo das nossas divisões, o nosso anúncio do Evangelho aparece doente, enfraquecido e desorientado. Aquilo que deveria ser luz tornou-se, ao longo da história, chegando até os nossos dias, elemento de disputas intermináveis, de “verdades” sempre mais refinadas, complicadas e secundárias que impedem a busca da Única Verdade que é Cristo, de excomunhões históricas e condenações mútuas (Cisma do Oriente em 1054, entre as Igrejas de Constantinopla e Roma), de preconceitos produtores de acusações infundadas, de medo e de desconfiança.
 
O Papa João XXIII, a partir de sua experiência como diplomata eclesiástico na Turquia, conheceu de perto as Igrejas Ortodoxas e também as Antigas Igrejas Orientais. Este fato o levou a preocupar-se, especialmente, com esta difícil divisão da Igreja de Cristo, sobretudo porque tal divisão teve como causa motivos mais políticos que dogmáticos. A busca de promover uma maior unidade entre os cristãos foi uma das motivações que animou o Concílio Vaticano II (1962) desde o seu início. Como marco histórico, da parte da Igreja Católica, foi à postura do Papa João XXIII em convidar, dentre outros, a Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia a participar do Concílio Vaticano II, como observador. Na época, o Patriarca era: Sua Santidade Moran Mor Ignatius Jacoub III (1957-1980), que designou para participar destas Seções do Concílio Vaticano II, seu Secretário Patriarcal, que posteriormente, veio a sucedê-lo na Sé Petrina de Antioquia, o Patriarca Zakka I, Iwas (1980-2014). O Papa Paulo VI, seguindo o caminho aberto por João XXIII, empenhou-se também no diálogo com o mundo cristão protestante, com os hebreus e os muçulmanos.
 
A esta busca de reaproximar os discípulos de Cristo dispersos, dá-se o nome de ECUMENISMO. O Concílio emanou um Decreto sobre o ecumenismo cristão, chamado: Unitatis Redintegratio - UR (21-11-64); e uma Declaração sobre o diálogo com as religiões não cristãs, intitulado: Nostra Astate - NA (28-10-65). O Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos publicou um Diretório para a Aplicação dos Princípios e Normas sobre o Ecumenismo (nr. 132).
 
Depois do Concílio, foram promulgados vários documentos da Santa Sé e de várias Conferências Episcopais sobre o Ecumenismo, mas, sobretudo, foram dados passos concretos na busca do diálogo entre as grandes denominações cristãs. Digno de nota foram os vários encontros promovidos em Malta para o diálogo entre católicos e luteranos. Estes encontros, além de esclarecer uma série de mútuos preconceitos que as duas comunidades nutriam uma no que toca a outra, abriram a estrada para a recentíssima declaração conjunta de Católicos e Luteranos sobre a Justificação: Declaração conjunta sobre a doutrina da Justificação (31-10-99).
 
Os Papas Paulo VI e João Paulo II promoveram muitos encontros com chefes das grandes denominações cristãs e não cristãs em vista de um diálogo de comunhão e de mútuas relações. Recordemos o encontro de Paulo VI com o Patriarca Atenágoras e com o chefe da Igreja Anglicana; os vários encontros de João Paulo II com os Patriarcas Ortodoxos, os encontros Ecumênicos pela Paz, bem como aqueles com as comunidades hebraicas e muçulmanas.
 
Sobre as Antigas Igrejas Orientais, destaca-se a Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, onde o Papa Paulo VI e o Patriarca Ignatius Jacoub III, assinaram uma Declaração Conjunta (1971); e reafirmado a Declaração Comum, entre o Papa João Paulo II e o Patriarca Ignatius Zakka I, Iwas (1984); o Papa Francisco I e o Patriarca Ignatius Aphrem II (2015), ratificam tal Declaração Comum para ambas as igrejas.
 
No Brasil, através do CONIC, houve um Ato do Reconhecimento Mútuo da Administração do Sacramento do Batismo entre Igrejas-Membro do CONIC (2007).
Em particular, em Brasília temos o Grupo Ecumênico de Brasília – GEB que desenvolve diversas iniciativas de caráter ecumênico para estreitar laços comuns de comunhão e participação.
 
O Ecumenismo passa por vários passos. O primeiro deles é o mútuo respeito, a compreensão dos vários pontos de vista, e a busca de uma hierarquização das Verdades fundamentais da fé. Outro elemento importante é aquele da mútua ajuda no que se refere à promoção da dignidade humana, tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica – CFE 2000 e posteriormente, de outras Campanhas da Fraternidade Ecumênicas, cedidas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da Igreja Católica ao Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) – CFE: 2005 – 2010 – 2015. A caridade de Cristo nos une mais do que as nossas doutrinas, muitas vezes ocasião de divisões e mal-entendidos, por isso um campo privilegiado de diálogo é aquele que nos une no serviço aos mais necessitados e marginalizados.
 
Empenhemo-nos na busca do diálogo e da concórdia entre os cristãos, de modo que possamos ser um só rebanho guiado pelo único pastor: Jesus Cristo, morto e ressuscitado, único mediador entre nós e o Pai.

Texto: Monge Isaac Souza, Igreja Sírian Ortodoxa de Antioquia (ISOA)
Foto: Acervo Pessoal