Derrubar muros, construir pontes: por Magali do Nascimento Cunha

 
 
Ainda no clima das tantas reflexões relacionadas aos 500 anos da Reforma Protestante, celebrados no dia 31 de outubro, vale recordar um forte desafio: como compreender e conviver com a diversidade de igrejas e grupos? Como lidar com as tantas manifestações de segregação e intolerância da parte de evangélicos, contra evangélicos e entre evangélicos mesmos?
 
Religiões são a representação da busca do ser humano pelo sagrado, pelo transcendente, mas são projetos humanos, que refletem características humanas. Apesar de defender e apresentar imagens do sagrado como amor, compaixão, misericórdia, como projetos humanos, as religiões são também marcadas por manifestações de exclusivismo (apropriação de uma compreensão como única verdade), competição, disputa de poder, desprezo à dimensão da alteridade, negação do diálogo.
 
Entre os cristãos, o protestantismo assentado na perspectiva da liberdade e cujo governo é descentralizado (diferente do catolicismo), acaba por tornar possível a profusão de diferentes denominações e se configura em um grande mosaico de igrejas e vertentes.
 
É preciso reconhecer ser um direito que grupos tenham a liberdade de se articular para expressar e viver a sua fé. Entretanto, o que é negativo para a história da humanidade é a construção de muros, a rejeição e a competição entre os diferentes segmentos religiosos.
 
Um dos movimentos protestantes mais significativos do século XX, nasce de seres humanos sensíveis a esta realidade, inspirados nos ventos dos humanismos que sopravam entre cristãos no século XIX. Estes ventos levaram estes  a retornar às bases cristãs do respeito, da misericórdia, do diálogo, do entendimento.
 
Em especial, inspiravam-se no trecho do Evangelho de João, na Bíblia, que traz uma oração de Jesus de Nazaré. Nela, Jesus pede a Deus por seus seguidores daquele presente e do futuro: “Que eles sejam um para que o mundo creia que tu me enviaste”. 
 
Surge então o movimento ecumênico, alicerçado no respeito às diferenças, na superação das tensões em torno de divergências e na busca de diálogo, na comunhão e na cooperação entre os diferentes cristãos e as distintas religiões em ações em prol da paz e da justiça. A ênfase no relacionamento entre os diferentes grupos passa a se assentar nas bases da fé que unem e não no que divide.
 
O termo ecumenismo vem do grego oikoumene (ecumene), que quer dizer “mundo habitado”, “casa comum”.  Recupera-se com ele a compreensão de fé sobre a casa de todos, o mundo criado por Deus que precisa ser cuidado, para que os indivíduos e tudo o mais que nele existe vivam de acordo com o projeto do Criador baseado em harmonia, comunhão, justiça e paz.
 
O movimento ecumênico e o princípio do ecumenismo brotaram de ações de protestantes que se uniam em muitas frentes desde o século XIX: movimentos de jovens, de missionários, de educadores, de mulheres, de pacifistas, de grupos que atuavam na restauração de cidadãos e povos nas situações de guerra, de quem se unia em torno de práticas de oração e de estudo da Bíblia. Gente sensível que enfatizava os elementos do Cristianismo, que chamavam à aproximação e à cooperação incondicionais em nome da justiça e da paz.
 
O ecumenismo passa a se configurar numa diversidade enorme de experiências espalhadas pelo mundo. Entre elas o Conselho Mundial de Igrejas, que surge no ano de 1948, a partir da fusão de uma série de movimentos consolidados, e encontra-se, quase 70 anos depois, em plena atividade.  
 
No Brasil, além dos movimentos estudantis cristãos desde os anos 1920, a Confederação Evangélica do Brasil, fundada em 1934, marcou a história do protestantismo no País. Foi marcada por atividades como o Setor de Responsabilidade Social da Igreja (Departamento de Estudos), o Departamento de Ação Social (com o importante trabalho relacionado à imigração), o Departamento da Mocidade (Juventude), prestação de serviços à mídia (para uma digna cobertura das atividades das igrejas evangélicas), entre outras.
 
A ditadura civil-militar, imposta ao País em 1964, teve ação repressiva devastadora sobre os organismos ecumênicos brasileiros. Lideranças foram perseguidas, presas, torturadas, mortas, exiladas. Os ideais cristãos calcados na justiça e na paz sobreviveram à custa de muita perseverança em tornos do princípio do ecumenismo e de ações subversivas. Isto tornou possível que o movimento ecumênico brasileiro continue vivo na forma de muitas organizações de igrejas, de jovens, de promoção humana, de estudos.
 
É fato que há muita suspeita e reação ao ecumenismo por conta de exclusivismos, de competição e de indiferença com as possibilidades de encontro e cooperação, que predominam entre os segmentos evangélicos. É sempre importante, porém, lembrar que entre estes há muita gente sensível ao desafio de se derrubar muros e construir pontes, que aproximem não apenas cristãos e outros grupos religiosos, mas também as outras tantas parcelas de um mundo cada vez mais dividido.
 
Fonte: Carta Capital