IHU Online: A purificação calvinista do cristianismo

 
 
O calvinismo não pode se reduzir apenas à predestinação, diz o biógrafo francês de Calvino, Bernard Cottret. Em entrevista especial à IHU On-Line, por e-mail, ele explica também em que medida essa religião pode ser considerada uma reação ao protestantismo e ao catolicismo. “A purificação calvinista do cristianismo consiste em extirpar impiedosamente a idolatria, incluindo a liturgia. Praticamente não há arte sacra calvinista – quando há evidentemente uma arte sacra luterana, anglicana, para não falar da arte sacra católica, e do estilo jesuíta”.  Em sua opinião, um bom calvinista não deveria dizer-se “calvinista”, já que “em sua origem, o calvinismo é uma invenção de luteranos da segunda ou terceira geração, hostis à teologia de Calvino, em particular sobre as questões eucarísticas”.
 
Cottret é professor da Universidade de Versailles – Saint-Quentin e membro do Instituto Universitário da França. É autor de, entre outros, Calvin. Biographie (2ª. Ed. Paris: Payot, 1999).
 
Confira a entrevista.
 
IHU On-Line - Em que medida Calvino teria sido para a língua francesa o que Lutero  foi para a língua alemã – uma figura quase paternal?
 
Bernard Cottret - Calvino e Lutero ocupam situações inversas: Lutero é percebido pelos alemães de todas as confissões como o fundador de seu idioma. Sua tradução da Bíblia é uma grande data na história da língua alemã e é o estabelecimento do Hoch Deutsch [alemão clássico]. Calvino, por sua vez, não traduziu a Bíblia, deixando este cuidado a seu primo Olivétan  e fazendo o prefácio dessa obra. Porém e, sobretudo, o protestantismo sempre foi minoria na França, enquanto é percebido como majoritário no espaço germânico, ou, mais em geral, em toda a Europa.
 
IHU On-Line - Por que Calvino é um “filósofo pré-cartesiano”? Poderia comentar essa afirmação?
 
Bernard Cottret - Meus próprios trabalhos, após meu artigo publicado nos Annales ESC até minha recente edição do Tratado das relíquias (Traité des reliquess. Paris: Éditions de Paris, 2008)¸ passando por minha biografia do reformador (reeditada na França em 2009) tiveram por objetivo dar a Calvino seu merecido lugar na tradição intelectual francesa. Por sua reflexão sobre a língua, por sua semiótica exigente, Calvino iniciou os trabalhos de um Saussure,  por exemplo, distinguindo bem o significante do significado. Toda sua doutrina eucarística pretende ver, nas espécies, simples significantes, recusando que lhe seja votado um culto julgado idolátrico. É o que implica o recurso às figuras da retórica e, em particular, a definição do sacramento como “metonímia”, e não como metáfora. A recusa da transubstanciação tomista é, sob este título, ligada a uma concepção gramatical. Tive ocasião de falar há uns trinta anos sobre essas coisas com Michel de Certeau,  que me encorajara a prosseguir.
 
Ora, isso me levou a tomar distância em relação ao maravilhoso livro de Michel Foucault  sobre As palavras e as coisas — uma arqueologia das ciências humanas (3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1985), que atribui a Descartes  uma dissociação entre a realidade e as aparências “enganadoras” que, a meu ver, encontra-se em Calvino. Eis como eu o situaria agora no nominalismo medieval.
 
IHU On-Line - O que faz a diferença do empreendimento de Calvino e de Lutero de “purificar” o cristianismo?
 
Bernard Cottret - Lutero, em sua concepção do sacramento, permanece ligado à substância. Nele, fala-se de consubstanciação a propósito da Santa Ceia, e o pão e o vinho coexistem com o corpo e o sangue do Salvador. Para Calvino, isso não tem sentido; ele muda radicalmente de perspectiva por sua teoria do signo. A purificação calvinista do cristianismo consiste em extirpar impiedosamente a idolatria, incluindo a liturgia. Praticamente não há arte sacra calvinista – quando há evidentemente uma arte sacra luterana, anglicana, para não dizer da arte sacra católica, e do estilo jesuíta. 
 
IHU On-Line - Quais são os pontos de proximidade e de ruptura que o senhor destacaria entre estes dois reformadores?
 
Bernard Cottret - Lutero e Calvino têm, ao mesmo tempo, teologias próximas por sua afirmação da justificação pela fé ou sua recusa do sacrifício da missa, mas também dessemelhanças. É, pois, falso reduzir, como se faz com frequência, o calvinismo somente à predestinação.
 
IHU On-Line - Quais são as influências do “Calvino jurista” no “Calvino teólogo”? A austeridade de seu pensamento seria explicada por esta diferença?
 
Bernard Cottret - Calvino é jurista onde Lutero e os outros receberam uma formação clássica de teólogos católicos. Isso induz diversas características notáveis que eu destaquei em minha biografia: 
 
1) Calvino permanece profundamente laico;
2) Ele jamais recebeu consagração pastoral, enquanto Lutero e os outros são antigos padres;
3) De maneira igualmente essencial, ele recusa dissociar a Lei e a Graça, a Torah  e o Evangelho. De onde provém, sem dúvida, o filo-semitismo notável de diversos reformadores, no qual Lutero se mostra funcionalmente antijudaico.
 
IHU On-Line - Em que medida o calvinismo é uma reação ao protestantismo e ao catolicismo?
 
Bernard Cottret - O calvinismo é uma construção dogmática que eu distinguiria da fé viva de Calvino. Muitos protestantes calvinistas preferem dizerem-se reformados para não incorrer na censura de idolatria. Um bom calvinista não deveria dizer-se “calvinista”, e, em sua origem, o calvinismo é uma invenção de luteranos da segunda ou terceira geração, hostis à teologia de Calvino, em particular sobre as questões eucarísticas. Calvino em todo o caso não queria ser calvinista, como, de resto, Marx  não queria ser marxista... Eu, aliás, trabalho atualmente sobre Marx, e constato que sua teoria do fetichismo é de inspiração tão amplamente bíblica quanto hegeliana.
 
IHU On-Line - O calvinismo foi uma segunda fase do protestantismo?
 
Bernard Cottret - Embora ele tenha aparecido historicamente após Lutero, Calvino promoveu uma teologia profundamente original, e é difícil falar de uma segunda fase ou de um aprofundamento. É fundamentalmente outra tradição cultural, ligada ao humanismo francês – pista que eu explorei em minha biografia.
 
IHU On-Line - Qual é a atualidade de Calvino 500 anos após seu nascimento?
 
Bernard Cottret - Há dez anos escrevi um pequeno livro sobre o Renascimento, chamado La Renaissance 1492-1598. Civilisation Et Barbarie (Paris: Éditions de Paris, 2000 - O Renascimento 1492-1598. Civilização e barbárie). Ali eu falava de Calvino, de Lutero, mas também de Inácio de Loyola  e de alguns outros. Para mim, existe uma atualidade da história, da história enquanto tal, da história em geral. Mas, a tarefa do historiador parece-me ser a de sempre descartar o anacronismo, e eu desconfio de expressões como “a atualidade de Calvino”. No fundo, e para retomar Calvino sobre este ponto, sua atualidade se dá no aspecto do olhar ou da fé. Não existe atualidade em si de Calvino, de Marx ou de Jesus, mas continua a permanente exigência de uma renovação interior. Ou, para empregar outra palavra, de uma reforma sempre ativa. Ecclesia reformata semper reformanda.
 
Fonte: IHU On-Line