"Saia daqui!" - Brasil nem sempre é cordial com quem chega

 
 
Mohamed Ali, refugiado sírio residente no Brasil há três anos, foi hostilizado e agredido verbalmente em Copacabana, região nobre do Rio de Janeiro, onde trabalha vendendo esfihas e doces típicos.
 
Em vídeo publicado nas redes sociais é possível ver um homem exaltado que grita repetidas vezes "sai do meu País!", ostentando dois pedaços de madeira nas mãos e ameaçando o refugiado. "O nosso país tá sendo invadido por esses homens bombas, que matam crianças", diz, em discurso xenofóbico.
 
No Brasil, xenofobia é crime tipificado na lei 9.459, de 1997. Seu primeiro artigo diz: serão punidos, na forma desta lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
 
"Vim com amor, porque os amigos sempre diziam que o Brasil aceita muito outras culturas e religiões e as pessoas são amáveis e todos os refugiados procuram paz. Não sou terrorista, se eu fosse, eu não estaria aqui, estaria lá lutando como eles fazem", afirma Ali, agradecendo a todos que o defenderam.
 
Apesar da fama de "cordial" e de receber bem imigrantes, o aumento das denúncias mostra um lado triste do Brasil. Entre 2014 e 2015, os casos aumentaram 633%, pulando de 45 para 333 registros recebidos pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, via plataforma Disque 100. Na Justiça, quase não há registros de denúncias que prosseguiram ou de xenófobos punidos.
 
Olhando os dados de 2015 mais de perto, vê-se que os principais alvos de preconceito são os refugiados. As principais vítimas são haitianos (26,8%), depois pessoas de origem árabe ou de religião muçulmana (15,45%).
 
Três vezes agredido pelo "crime" de ser imigrante
 
Em Chapecó (SC), o haitiano Malko Joseph foi agredido pela terceira. Essas agressões escancaram a xenofobia crescente de muitos brasileiros. A última agressão aconteceu nesta terça-feira (6), quando Malko Joseph caminhava pela avenida Getúlio Vargas, Centro do município.
 
O rapaz procurou as redes sociais para falar sobre o fato. Em seu perfil no Facebook, Malko contou o que um homem chegou de bicicleta e disse a ele palavras agressivas, como por exemplo: “preto sujo”, “aqui não é sua terra”, “preto fedido”, “macaco perdido”. O agressor também teria dito que ele estaria roubando emprego dos brasileiros.
 
Malko disse que não reagiu às agressões, mas o indivíduo pegou uma corrente com cadeado e passou a lhe agredir fisicamente, deixando ferimentos nas pernas e braços. Segundo a vítima, é a quinta vez que ele é alvo de racismo no Brasil “Duas vezes em Porto Alegre, três em Chapecó”, sendo que três, dessas cinco ocorrências, resultaram em agressão.
 
Malko Joseph disse ainda que realizou o boletim de ocorrência na quando sofreu as agressões em Porto Alegre e em Chapecó, porém nada foi feito até o momento.
 
O país das contradições
 
Os fenômenos do racismo e da xenofobia no Brasil deveriam ser exceções. Sim, pois o país foi (e ainda é) imensamente povoado por imigrantes de todas as origens, religiosas, culturais e étnicas: judeus, árabes, asiáticos, europeus, africanos (que vieram forçados no período da escravidão), entre outros. Com tanta diversidade étnica, como ser racista? Enquanto os bárbaros bradam contra quem chega, tudo o que os imigrantes e refugiados esperam é encontrar acolhida e contribuir com o Brasil. 
 
CONIC com informações do El País, Carta Capital e ClicRDC
Foto: AFP