O que diz a Bíblia sobre os refugiados? Por Alberto Ares (SJ)

Foto de Yannis Behrakis registrada em Lesbos, Grécia, em setembro de 2016
 
Já são mais de 232 milhões de migrantes no mundo (o que poderia ser o quinto país mais povoado do planeta). Mais de 65 milhões são pessoas que foram forçadas a abandonar seus lares por causa de conflitos armados, pela violência generalizada ou por desastres naturais. Deste número, 21 milhões são refugiados, 38 milhões são migrantes internos e 3,2 milhões são pessoas que solicitam asilo em outros países.
 
O Mediterrâneo virou o maior cemitério mundial, onde somente em 2016 mais de 5 mil migrantes perderam a vida. A Síria é o país que gera o maior número de refugiados, seguida por: Afeganistão, Somália e Sudão do Sul.
 
No caderno especial em espanhol “Hijos e hijas de un peregrino – Hacia una teología das migraciones” (“Filhos e filhas de um peregrino, uma teologia das migrações”), Alberto Ares aprofunda as raízes bíblicas para iluminar a realidade dos refugiados.
 
Alberto Ares é um jesuíta espanhol pesquisador das migrações. Ele acompanha comunidades migrantes em várias partes do mundo. Atualmente, é delegado do Departamento Social dos jesuítas na Espanha e pesquisador associado ao Instituto de Estudos sobre Migrações da Universidade Pontifícia de Comillas, em Madri.
 
A Bíblia e os refugiados
 
Na Bíblia, é possível encontrar realidades de movimentos, experiências migratórias, de exílio, de acolhida e hospitalidade, em que se inserem as experiências fundadoras do povo eleito. Ares começa citando: “meu pai era um arameu prestes a morrer, que desceu ao Egito com um punhado de gente para ali viverem como forasteiros” (Deuteronômio 26,5).
 
O Novo Testamento, em que o próprio Jesus se apresenta como um migrante, “dá um destaque especial na acolhida e na fraternidade, no universalismo e na vida apostólica em movimento, que desbrava fronteiras”.
 
Ares lembra como o Antigo Testamento une doutrina e práxis sobre as migrações e as pessoas em movimento. Por um lado, juntamente com os órfãos e as viúvas, os migrantes constituem a trilogia típica do mundo dos marginalizados em Israel. Deus pede um tratamento digno e respeito e atenção especiais a essas pessoas. O autor relembra algumas citações bíblicas sobre os movimentos migratórios:
 
– “Meu pai era um arameu prestes a morrer, que desceu ao Egito com um punhado de gente para ali viverem como forasteiros” (Deuteronômio, 26);
 
– “Também não oprimirás o estrangeiro; pois vós conheceis o coração do estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito” (Êxodo 23:9);
 
– Não os oprimireis” (Levítico 19, 34);
 
– “Não os explorareis” (Deuteronômio 23,16);
 
– “Não violarás o direito do estrangeiro” (Deuteronômio 24,17);
 
– “Maldito o que viola o direito do estrangeiro” (Deuteronômio 27, 19);
 
– “Esteja ele entre vós como um compatriota, e tu o amarás como a ti mesmo” (Levítico 19,34);
 
Novo Testamento: Jesus, o imigrante
 
Um dos elementos centrais do Novo Testamento, sob o ponto de vista da realidade migratória, é o fato de o próprio Jesus se apresentar como um migrante. Mateus mostra a infância de Jesus e a Sagrada Família sob uma primeira e cruel experiência de imigração forçada. Por outro lado, o Evangelho de Lucas narra o nascimento de Jesus fora da cidade, “pois não havia lugar para eles na hospedaria”. Veja as citações lembradas pelo jesuíta Ares:
 
– “E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lucas, 2);
 
– “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João, 1);
 
– “Era peregrino e me acolhestes” (Mateus, 25);
 
– “O bom samaritano” (Lucas, 10);
 
– “Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas, 3).
 
Fonte: Aleteia
Foto: REUTERS/Yannis Behrakis