“No Brasil, há corpo mole em relação ao Papa Francisco, mas não discordância pública”

 
 
Desde o momento em que Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome de Francisco para seu papado, em 2013, mandou um recado ao mundo. A Igreja Católica, que nos últimos anos havia sido comandada por João Paulo II e Bento XVI, sairia de dentro de si mesma e se abriria para o mundo. Concretamente, isso tem significado ter um Papa que sorri, faz piadas, carrega seus próprios pertences, veste o que há de mais simples – um verdadeiro desafio, quando falamos de um armário recheado de coroas e panos suntuosos –, mas também negocia acordos de paz, como no caso da intermediação que fez entre as FARC e Governo colombiano, e não se furta de tocar em temas delicados para a Igreja como divórcio, homossexualidade e machismo.
 
Nesta terça-feira, 16, inicia mais uma de suas viagens internacionais, desta vez ao Chile e Peru, onde não deve se furtar a entrar em questões delicadas, como a defesa do meio ambiente e dos índios mapuche. Tanta movimentação, contudo, tem causado divergências dentro da Igreja e já há setores abertamente contrários ao papado atual. Para o padre e historiador brasileiro José Oscar Beozzo, coordenador geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Ceseep), grande parte deste descontentamento parte de grupos que ainda não digeriram o Concílico Vaticano II, que nos anos 1960 reformou uma série de diretrizes e instituições católicas.
 
Na entrevista abaixo, Beozzo fala sobre o legado, do qual se sente próximo, que o Papa Francisco está construindo, comenta as divisões da Igreja e fala sobre como elas se refletem no Brasil.
 
Pergunta. O Papa Francisco tem encontrado resistência constante de certo grupos dentro da Igreja Católica. O seu papado está tão fora do script assim?
 
Resposta. Não. Depois da aposentadoria do Bento XVI, nos nove dias em que os cardeais se reúnem para fazer um balanço da Igreja e traçar o perfil do novo Papa, o Bergoglio apresentou uma Igreja extrovertida, que deixava de lado o ensimesmamento dos dois últimos papados para abraçar o grito dos pobres. Logo de saída, ele escolher o nome Francisco, o que nunca ninguém havia ousado, também é significativo. Francisco é um ícone de importância imensa na Igreja católica e nas outras Igrejas também. Quando o Papa estava pregando a cruzada, Francisco foi ver o sultão e dizer que tinha que haver uma agenda de paz entre muçulmanos e cristãos. Não à toa, ao longo dos 700 anos em que a história da Palestina foi revirada de todas as formas possíveis, os franciscanos continuam lá. Nunca foram expulsos. Essa sempre foi a agenda do Papa Francisco, uma agenda de paz, perdão, reconciliação, misericórdia. Só assumir o nome Francisco já é um programa. Quando se apresentou ao mundo, ele abençoou o povo e pediu para que o povo também o abençoasse.
 
P. Mesmo assim, ele tem sido descrito como um outsider em reportagens que tratam das dissidências internas da Igreja.
 
R. Ele é um outsider? O João Paulo II também era um outsider. Ele foi o primeiro papa não italiano depois de quatro séculos. O último havia sido Adriano XVI, que era holandês, durante o tempo de Carlos V [Adriano XVI morreu em setembro de 1523]. A eleição de João Paulo II já quebrou uma tradição que refletia, um pouco, esse processo de internacionalização da Igreja, que começou com o Papa João XXIII na época do Concílio Vaticano II. De repente, ficou claro que a Igreja não era uma cozinha italiana, mas que estava implantada nos vários continentes com um profundo deslocamento de fiéis. A África, por exemplo, significava apenas 1% dos católicos no começo do século XX, hoje representa 18%. A Europa tinha 75% dos católicos do mundo no começo do século XIX, hoje tem 23%. A Europa representava três quartos da Igreja e hoje é menos de um quarto. Só que esse deslocamento da Igreja, representado pela figura do Papa polonês João Paulo II, não se converteu em um deslocamento da agenda. E, durante o papado de Bento XVI, houve até uma exasperação no sentido de construir uma agenda apenas europeia.
 
P. E essa mudança de agenda era algo ansiado?
 
R. Depois do João Paulo II havia um movimento da Igreja que pedia que ela fosse mais aberta e muitos dos votos começaram a ir para o cardeal Martini, de Milão, que é um biblista e jesuíta. Mas ele logo disse que tinha uma ponte de safena, saúde frágil e que era melhor que a Igreja não dependesse de um Papa com problemas de saúde. Nesse momento, o Bergoglio teve 45 votos. Pouca gente fala disso, mas lá atrás, no momento final, ficaram Bergoglio e Ratzinger. Só que, na época, o Ratzinger tinha muito mais poder e visibilidade.
 
P. Há um movimento contrário ao dos dois últimos papados, então?
 
R. Sim. Um exemplo é que logo no início, o Papa Francisco disse que antes de Papa, era bispo de Roma. Como bispo, a obrigação dele é visitar as prisões, o hospital das crianças, as escolas, as paróquias da cidade. Isso já tinha mudado, mas foi o Papa Francisco quem falou explicitamente isso na apresentação. Ele recoloca a ordem das coisas. Essa agenda havia sido interrompida. No Concílio Vaticano II, há afirmação de que as igrejas são as dioceses e que ali está a totalidade da Igreja. Uma Igreja Universal, então, não é uma coisa abstrata, mas a comunhão dessas igrejas locais. Ele tem feito muitos gestos nessa direção. E isso acaba sendo conflitivo, pois toda a agenda de João Paulo II e Bento XVI foi no sentido de retomar a centralização do poder em Roma. Ele quebra isso e gera insatisfação.
 
P. O papado de Francisco representa retorno ao Concílio?
 
R. Sim, e muito da insatisfação que tem aparecido dentro da Igreja é por isso. Uma ideia que o Papa Francisco retoma é a do discurso de abertura do Concílio, quando o Papa João XXIII dizia que a Igreja nunca tinha deixado de apresentar sua doutrina, mas que uma coisa é a doutrina e outra é a apresentação dela. Em cada momento da história, segundo ele, essa doutrina precisava ser repensada para que fosse encontrada a maneira adequada e as melhores palavras para torná-la compreensível. Para Bento XVI, a última palavra sempre foi a doutrina e, por isso, ela não precisava ser repensada. Para o Papa Francisco, a última palavra é pastoral, é a relação com as pessoas, o cuidado para que a pessoa possa viver e encontrar luz e caminho. Lembro dessa suprema máxima: Salus Animarum Suprema Lex, ou seja, a salvação das almas é a suprema lei da Igreja. Para os opositores do Papa, como o bispo norte-americano Burke, isso é relativismo, pois a doutrina é a última palavra.
 
P. E por que nos dois últimos papados ocorreu esse movimento de afastamento do Concílio?
 
R. Não foi apenas na Igreja Católica, mas em todas as outras. Houve uma volta para dentro de si mesmo, para a liturgia. O Papa está na contramão do mundo. Falando contra o neoliberalismo e lavando os pés, em seu primeiro lava-pés, não dos cônegos, mas de rapazes e moças presos, inclusive de uma muçulmana. Isso gera perplexidade, mas também gera aplauso. Hoje ele tem mais resistência de certos setores de dentro da Igreja, que foram educados em um espírito de muita liturgia, muito canônico, do que no mundo.
 
P. E dentro do Brasil, como estão essas divisões?
 
R. Há um setor pequeno na Igreja brasileira que não aceitou as mudanças do Vaticano II. Durante o Concílio, havia em Roma uma articulação conservadora e o secretário desse grupo era o brasileiro Dom Geraldo de Proença Sigaud, arcebispo de Diamantina. Além dele, havia o Dom Antonio Castro Maia, bispo de Campos dos Goytacazes, que fez 34 intervenções durante o Concílio. Eles eram lideranças episcopais do movimento Tradição, Família e Propriedade [organização civil que apoio a ditadura militar no Brasil]. Havia outros que não concordavam com as mudanças, mas que depois acabaram aceitando, entre outras coisas estabelecidas, que deveriam, por exemplo, rezar a missa em português e não mais em latim. O Castro Maia não aceitou e acabou se separando da Igreja e passou para a fraternidade Pio X, que reúne os conservadores que não aceitaram o Concílio. Desse grupo, que durante o papado de Bento XVI, foi reintegrado à Igreja, há uma ala que entrou em conflito aberto com o Papa Francisco. Mas é algo pequeno e localizado.
 
P. E as dissidências se limitam a isso?
 
R. O Papa é o Papa e, por mais que haja discordâncias, não há no Brasil um bispo que levantou bandeira contra o Francisco. Há nos Estados Unidos, na Itália, na França, mas aqui não. O que há, acredito, é certo corpo mole: deixa passar, pois o papado não vai durar para sempre. É claro que há dissidências, mas elas não são ditas publicamente. Se você pegar todos os bispos do Brasil, que são 485, os nomeados pelo Francisco são 16%. 84% ainda são bispos da época do Bento XVI e João Paulo II. Se você pega só os que estão em exercício, porque há uns 140 que são eméritos, um quarto, ou 25% são bispos nomeados pelo Francisco. 75% são formados em outro tempo e foram escolhidos para implementar uma determinada linha teológica diferente da atual.
 
P. E como você interpreta o fato de ele não ter voltado ao Brasil para os 300 anos de Nossa Senhora de Aparecida quando, em 2013, disse que viria?
 
R. Há duas coisas. Primeiro, ele não costuma repetir visitas e o Brasil foi o primeiro país que ele visitou. Em 14 de março foi escolhido Papa e, em junho, já estava aqui para a Jornada Internacional da Juventude. Tem isso, mas acredito que ele não veio por causa do impeachment, ou melhor dizendo, do golpe parlamentar, e da situação política brasileira. Ele tomou muita distância disso. Do mesmo modo que não foi ainda à Argentina, apesar de ser argentino. O presidente Macri tem uma agenda neoliberal com a qual o Papa Francisco não concorda. Não dá para excluir essas interpretações.
 
P. Se ele puxou a Igreja para outro lado tanto, não é de esperar que o próximo Papa seja alguém de linha completamente oposta?
 
R. Quanto tempo seu papado vai durar? Ele pode ter mais um, dois anos de papado, porque é bem provável que ele renuncie, já que deixou claro, algumas vezes, que o Bento XVI abriu um caminho institucional possível. Que ele prefere a renúncia do que definhar na cadeira de Papa. E o que virá depois? Eu tenho impressão que a tendência, é que depois do Francisco, depois desse terremoto, o plano seja colocar alguém mais moderado, mas acho impossível uma volta à linha do Bento XVI. Seria um trauma muito grande dentro da Igreja. Provavelmente será escolhido um Papa de centro, porque os consensos também precisam ser encontrados. De qualquer jeito, marcas estão sendo deixadas. Um dos casos mais conhecidos é o do Haiti. O país nunca teve cardeal e, no lugar do arcebispo de Porto Príncipe, o Papa Francisco nomeou como cardeal um bispo lá do interior. É como se você pegasse um bispo de registro e transformasse em cardeal. Ele é do interior? É. Mas se bateu contra a discriminação dos haitianos na República Dominicana. E é isso que importa para o Para Francisco.
 
Fonte: El País
Foto: CESEEP/Reprodução