Igreja Sírian Ortodoxa: Encíclica Patriarcal para a Quaresma de 2018

 
 
O patriarca Moran Mor Ignatius Aphrem II, autoridade máxima na Igreja Sírian Ortodoxa de Antioquia - igreja-membro do CONIC - escreveu aos seus fiéis a Encíclica Patriarcal para a Quaresma de 2018. No documento, que no site da Igreja também pode ser conferido em idioma aramaico, inglês e árabe, o patriarca afirma que o período quaresmal é propício para que, entre outras coisas, meditemos sobre a fidelidade de Deus para com todos. "A maior manifestação da sua fidelidade é mostrada na Cruz onde a salvação e a remissão dos pecados foi dada", afirma.
 
Confira a íntegra do documento:
 
ENCÍCLICA PATRIARCAL PARA A QUARESMA DE 2018
 
Em nome do auto existente, sempiterno, de necessária existência...
O Todo poderoso,
Ignatius Afrem II, Patriarca da Santa Sé de Antioquia e de todo o Oriente, 
Sumo Pontífice da 
IGREJA SÍRIAN ORTODOXA
Em todo o mundo.
 
Estendemos nossas bênçãos apostólicas, orações benévolas e saudações aos nossos irmãos, Sua Beatitude Mor Baselios Thomaz I, Católico da Índia, Suas Eminências os Metropolitas, nossos filhos espirituais, os reverendíssimos Cura-epíscopos, reverendos padres, monges, freiras, diáconos e diaconisas e a todo o abençoado povo Siríaco Ortodoxo em todo o mundo. Que a Divina Providência os cinja através da intercessão da Virgem Maria, Mãe de Deus e São Pedro o chefe dos Apóstolos e todos os mártires e Santos, Amem.
 
“Porque poderosa foi para nós a Sua bondade, e eterna permanece a fidelidade do Senhor” (Sl. 116: 2)
 
Amados em Cristo,
 
No início desta Quaresma caminhemos nos passos do Senhor e afastemo-nos para nosso deserto espiritual buscando a solidão e pensemos no objetivo da missão de nossas vidas. Quando meditamos sobre a fidelidade de Deus para conosco e a salvação a nós oferecida, “vamos além das coisas e lutamos pelo Reino de Deus e sua Justiça” (Mt. 6:33, Lc 12:31), lembrando suas palavras vivificadoras: “nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. (Mt. 4:4)
 
Quão grande é a Quaresma! É “a arma contra o malvado, um escudo que recebe as flechas do adversário” (Afraates, Demonstração 3). Na Quaresma preparamo-nos para encontrar o Crucificado no Gólgota afim de reverenciá-Lo na Santa Cruz e ponderar sobre Sua Paixão Salvadora, “para que possamos morrer com Ele e com Ele viver” (II Tim 2: 11). Por isso podemos proclamar com o profeta Davi: “Seu amor firme, Senhor, aos céus eleva-se a vossa clemencia, às nuvens a vossa fidelidade, a vossa justiça é como as montanhas de Deus, os vossos juízos como o mar profundo” (Sl. 35: 6-7).
 
Amados, nesta Quaresma, meditemos a fidelidade do Senhor para conosco, “que guarda fidelidade para sempre” (Sl. 145: 6), e “uma fidelidade firmaste nos céus eternamente de geração a geração, porque Ele nunca será falso à sua fidelidade” (Sl. 88: 2, Sl. 118: 90) e “Ele permanece fiel, não pode negar a si mesmo”. (II Tim. 2: 13)
 
A fidelidade do “Deus fiel revela-se quando Ele mesmo guarda o seu pacto. E a sua misericórdia àqueles que o amam e guardam os seus preceitos até mil gerações”. (Dt. 7: 9, Sl. 110: 5) “Cumpre sua promessa firme que não há de retratar” (Sl. 131: 11). Certamente, a maior manifestação da sua fidelidade é mostrada na Cruz onde a salvação e a remissão dos pecados foi dada, porque Deus é “fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda iniquidade”. (I Jo. 1: 9)
 
Voltemo-nos para a longa história da humanidade com nossos sucessos e falhas, bondades e maldades, fidelidades e infidelidades, para aprendermos lições indispensáveis que nos ajudam nesta nossa jornada terrena; caminhando sem culpa nos paços do Senhor com cuidado e fidelidade.
 
O Senhor mesmo fala do cuidado e da fidelidade numa série de parábolas começando com a parábola do servo fiel, depois das virgens, dos talentos até chegar ao grande dia do julgamento, quando “os fiéis virtuosos entrarão para a vida eterna e os maus seguirão para a danação eterna” (Mt. 24 e 25).
 
Temos, portanto, de “levar uma vida que agrada a Deus e siga seus preceitos para que possamos crescer e aproximarmo-nos da santificação” (I Tes. 4: 1 – 2) e “não nos tornemos negligentes, mas diligentes da proclamação da palavra de Deus fielmente” (Jer. 23: 28) recusando ”conduzir com artificio nem com adulteração a palavra de Deus, mas recomendando-nos na manifestação da verdade” (II Cor 4: 2)
 
Contemplemos hoje o sofrimento da Igreja no Oriente Médio, a Igreja que indubitavelmente é a serva do Evangelho e a testemunha fiel na pregação da Boa Nova em todo o mundo, onde, nos deparamos, com o verdadeiro cristão, Santo Estevão, o chefe dos diáconos e protomártir, que “seguiu os ensinamentos do Senhor, perdoou as ofensas dos seus apedrejadores, permanecendo fiel até a morte alcançando a coroa da vida”. (At. 7, Apc. 2: 10)
 
Nós vos convidamos, amados e queridos membros da Igreja na Terra Natal a “preservar-vos até o fim” (Mt. 24: 12). “Sentimos convosco e dividimos a vossa dor e sofrimento na esperança de rejubilarmos logo convosco” (Rom. 12: 15). “Rogamos a Deus abreviar estes dias” (Mt. 24: 22) e “enxugar toda lágrima dos vossos olhos” (Apc. 21: 4) a fim de que a paz e a segurança possam retornar aos nossos países do Oriente Médio, especialmente no Iraque e na Síria, a Terra dos nossos ancestrais. Oramos, também, pelo retorno dos dois arcebispos sequestrados de Alepo, Suas Eminências Boulos Yazigi e Mor Gregorios Youhanon Ibrahim que pagaram um preço por sua fidelidade e cuidado dos seus rebanhos sacrificando sua própria liberdade.
 
Assim, também, olhamos para a nossa Igreja na diáspora, enquanto cresce e multiplica-se rapidamente devido à imigração dos seus filhos perseguidos, reconhecemos que a Igreja enfrenta perseguições de diferentes maneiras em diferentes países. São tremendos os desafios encarados pela Igreja no seu esforço em permanecer fiel ao seu Deus e aos seus ensinamentos. No entanto, temos heróis da fé que podem inspirar os fiéis na sua luta espiritual Temos José que permaneceu fiel ao seu Deus na terra do Egito, recusando-se em seguir adiante, mas permanecer no reto caminho testemunhando abertamente: “como logo poderei eu cometer um tão grande crime, e pecar contra o meu Deus” (Gen. 39: 9) e “o Senhor Deus fê-lo crescer na terra da sua pobreza” (Gen. 41: 52).
 
Vemos também o profeta Daniel “se mantendo fiel ao seu Deus na terra do cativeiro e observando seu jejum” (Dan. 1: 8). “Ele superou os ministros do reino por ser virtuoso e fiel, recusando-se a abandonar a adoração do seu Deus e adorar o rei Dario. O Senhor recompensou sua fidelidade salvando-o da cova dos leões, fazendo-o prosperar abundantemente” (Dan. 6). Por isso vos apressamos amados membros da Igreja na diáspora a “andar honestamente na trilha do Senhor, lutando vigorosamente contra o pecado, mantendo vossos próprios corpos em santidade e honra” (I Tes. 4: 1 – 4), “assim não sereis escravos nem pelo dinheiro, nem poder ou materiais mundanos, ou hábitos estranhos, mas, permanecer firmes na fé da Igreja e na sua Santa Tradição, mantendo o amor incendiário nos teus corações para com Deus e o vosso próximo, para que possais vir a ser testemunhas aos olhos daqueles que estão fora da Igreja” (I Tes. 4 – 112). “Sede como a luz no mundo que prefere as trevas à claridade e o sal na terra onde o sal perdeu a sua força”. (Mt. 5: 13 -16, Jo. 3: 19)
 
Quão grande é a fidelidade e a lealdade da nossa Igreja na Índia onde por muitos séculos permaneceu fiel e firme na sua lealdade ao Santo Trono de São Pedro. Esta relação se fortificou pela fidelidade e incansável esforço dos grandes padres da Igreja como o Maferiono São Basílio Shukrallah que visitou a Índia no século dezoito e enfrentou perseguição e prisão. Mesmo assim, permaneceu fiel à sua missão e encorajou os membros da Igreja a permanecerem firmes na fé ortodoxa. Ordenou os padres e diáconos a edificar igrejas fortalecendo assim seus vínculos à Santa Sé de Antioquia.
 
Hoje, vós, filhos amados na Índia são perseguidos por sua lealdade e fidelidade à Santa Sé Petrina de Antioquia. Convocamos todos a confiar que: “a tribulação produz paciência, e, a paciência produz experiência, e, a experiência produz esperança, e, a esperança não nos frustra” (Rom. 5: 4 – 5). Esperamos que o Senhor nos ajudará a encontrar um fim para o problema da Igreja para a glória do Seu nome e a paz possa reinar novamente na nossa Igreja na Índia.
 
Neste caso, não podemos negligenciar a pequena, mas, significante igreja que está em cada família; contemplamos a Virgem Maria, Mãe de Deus e José a quem foi confiado por Deus seu Único Filho, e, “eles protegeram-no de todo mal” (Mt. 2: 13 – 21) e “criaram-no conforme as leis do Senhor” (Lc. 2: 21 – 51).
 
Apelamos a todos os casais fiéis, a respeitar fielmente seus votos matrimoniais e “se sujeitarem uns aos outros como ao Senhor” (Ef. 5: 21) capacitando-se a representar o ícone de Cristo e a Igreja no mundo, também, recomendamos aos pais e mães a criar fielmente seus filhos, ensinando-lhes os princípios da fé desde a tenra infância. Eles os protegerão das doutrinas estranhas, hábitos corrompidos, educando-os a permanecer fiéis na sua fé, e, ensinando-os a observar o jejum e o amor à oração e serem honestos e amorosos, “para que sejam santos em toda sua conduta, porque Deus que os chamou é Santo” (I Par. 1: 15).
 
Persuadimos também, as crianças a renunciar ao mundo e às coisas do mundo, “cumprindo a vontade de Deus e viver para sempre” (I Jo. 15 e 17). Assim a família proclama junta “porque eu e a minha casa havemos de servir ao Senhor”. (Jos. 24: 15)
 
Amados padres das várias ordens, monges, freiras, diáconos, que São Severo o Grande (Mor Sewerios) seja o modelo de fidelidade para todos nós, uma vez que estamos comemorando o jubileu de 1500 anos do seu exílio no Egito. Ele tenazmente agarrou-se à fé ortodoxa e cuidou da Igreja de Antioquia administrando-a por vinte anos desde o seu exílio no Egito. “Nós vos exortamos preservar este tesouro bom a vós confiado” (I Tim. 1: 14). “Possam os sacerdotes serem ministro de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus”. (I Cor. 4: 1 – 2)
 
Cuidar de suas paróquias preservando os mandamentos e as doutrinas da Igreja. Sejam os monges e freiras fiéis aos seus votos monásticos buscando continuamente a santidade e perfeição. Os diáconos “possam conservar o mistério da fé com uma consciência pura”. (I Tim. 3: 9)
 
Amados,
 
No início desta Quaresma [que na ISOA inicia em 19 de fevereiro] exortamos permanecerem fiéis à oração e o jejum, assim como na leitura das Escrituras especialmente escolhidas pela Igreja para este santo período. Recomendamos serem fiéis à caridade, lembrando “a viúva que depositou tudo que tinha no gazofilácio do templo” (Mt. 20: 28, Lc. 21: 1 – 4). Encorajamos-vos à caridade e a mostrar amor a todos os povos para que possam ser o reflexo da imagem do Bom Mestre “que veio servir e não ser servido” (Mt. 20: 28, Mc. 10:45). Eis como São Jacob de Serug (Mor Yacoub DaSrug) descreve o Deus Servidor em um de seus poemas:
 
O médico desceu e andou na terra, curou os enfermos e afastou as doenças,
Curou as feridas e expulsou os maus espíritos, expulsou os demônios,
Curou os transtornados; limpou o leproso; abriu os olhos do cego e deu saúde boa aos doentes.
Transformou água em vinho bom que o povo bebeu,
Multiplicou os pães para as multidões no local ermo satisfazendo milhares.
Com sua vestimenta curou a hemoroíssa; deu vida à samaritana que encontrou.
Expulsou o demônio da filha da mulher canaanita e perdoou os pecados da mulher pecadora que veio até Ele.
Ele quis, e o leproso ficou limpo da sua impureza,
Com lama abriu os olhos do cego que viu a luz; curou o mudo e cego da possessão,
Ressuscitou a menina jovem da morte retornando-a para seu pai,
Chamou Lázaro depois de estar putrefato e ele saiu do túmulo.
 
(Canto 29, Ed. 2017)
 
O Senhor aceite o vosso jejum, arrependimento, orações e caridade. Que Ele vos torne dignos de celebrar a alegre Festa da Ressurreição e tenha misericórdia das almas dos fiéis falecidos pela intercessão da Virgem Maria, Mãe de Deus, São Pedro o chefe dos apóstolos, São Severo de Antioquia e os demais mártires e santos.
 
Deus vos abençoe.