70 anos do CMI: entrevista o pastor Rudolf von Sinner

 
Luterano, doutor em Teologia pela Universidade de Basiléia, Suíça, da qual também recebeu o Prêmio Amerbach pela tese de destaque, e professor da Faculdades EST, Rudolf participou, no último mês, das comemorações pelos 70 anos do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Em entrevista para o CONIC, ele avalia a participação do Papa Francisco no evento e, também, reflete um pouco sobre ecumenismo.
 
“Importa aprender a conviver. Ser curioso no bom sentido, fazer perguntas antes de ‘carimbar’ respostas. Temos, sim, diferenças, às vezes profundas. Não podemos nem devemos negá-las. Porém, antes de rejeitar uma posição e, muito menos, uma pessoa, devemos reconhecer a seriedade da fé que ela quer viver e as razões pelo qual o faz”, declara.
 
Leia a entrevista na íntegra.
 
1) O Sr. foi participar das comemorações dos 70 anos do CMI a convite de quem?
 
Participei como moderador da Comissão de Educação e Formação Ecumênica do CMI. A moderadora e os moderadores das quatro comissões permanentes – Fé e Ordem, Missão Mundial e Evangelização, Igrejas em Assuntos Internacionais e a nossa – são sempre convidada e convidados para participar da reunião do Comitê Central, na condição de assessora e assessores. Para mim, foi a primeira vez desde que assumi, em 2014, que pude participar. Um grande privilégio, considerando que foi logo na festa dos 70 anos.
 
2) Lá, também estava o pastor Walter Altmann, que também é da IECLB. É possível afirmar que a IECLB "respira" ecumenismo?
 
A IECLB já nasceu ecumênica. Historicamente, incorporou fieis de origem reformada (calvinista ou zwingliana), luterana e unida. Em sua constituição, no art. 5º, ela se afirma como de “natureza ecumênica”, o que “se expressa pelo vínculo de fé com as igrejas no mundo que confessam Jesus Cristo como único Senhor e Salvador”. Esta formulação reflete a chamada “base” de fé do CMI, condição mínima para ser igreja-membro deste Conselho. A IECLB se vinculou praticamente ao ser criada, como Federação Sinodal, em 1949, ao CMI, tornando-se membro em 1950. Ou seja: a IECLB não é ecumênica apesar de, mas precisamente por ser luterana. Consequentemente, vem participando, até hoje, das mais importante agremiações ecumênicas no país, no continente e no mundo. Sou o terceiro catedrático de ecumenismo na Faculdades EST, sendo que meu predecessor imediato foi o eminente Pastor Gottfried Brakemeier, quem chegou a ser presidente da IECLB, reitor da EST, presidente do CONIC e da Federação Luterana Mundial. A existência desta cátedra é outro aspecto que demonstra o compromisso da IECLB com o ecumenismo. O Pastor Walter Altmann também foi presidente da IECLB, presidente do Conselho Latino-americano de Igrejas (CLAI) e moderador do Comitê Central do CMI de 2006 a 2013, além de outros cargos ecumênicos. Diga-se de passagem que o ecumenismo não é exclusividade do catedrático; perpassa toda EST e se constituiu como perspectiva do colegiado, mesmo que possamos ter diferentes ênfases.
 
3) Qual balanço o Sr. faz da integração entre membros de diferentes igrejas representadas lá durante as comemorações?
 
Em nível pessoal, foi intenso e muito gratificante. Reencontrei muitas pessoas que já conheci, algumas há décadas. Participei, em 1995, de um encontro de Fé e Ordem com jovens teólogas e teólogas. Destes, um hoje é patriarca da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, outra é moderadora da importante Comissão de Fé e Ordem do CMI, outro é bispo católico do local que foi anfitrião da visita do Papa: Genebra. São trajetórias construídas que incluem o compromisso ecumênico de uma ou outra forma, durante os quais aprendemos muito umas das outras. Outras pessoas conheci há menos tempo: um estudo bíblico de Atos 2, em conjunção com Joel 2, foi proferido por uma jovem teóloga indígena de Aotearoa (nome Maori) – Nova Zelândia em perspectiva indígena e pós-colonial. Ela é membro da “minha” comissão acima referida; fiquei muito orgulhoso. O CMI preza muito pela presença de mulheres, jovens, indígenas, pessoas com deficiências e investe muito para que estes grupos muitas vezes invisibilizadas em nossas igrejas tenham efetiva participação. Mais outras pessoas encontrei pela primeira vez. Os encontros, as conversas, as celebrações litúrgicas, o clima de festa foi muito enriquecedor.
 
Em nível dos debates formais, foi tenso em vários momentos. Até documentos que pareciam tranquilos, como aquele sobre diaconia ecumênica, fizeram surtir discussões às vezes fortes, questionando conteúdo e processo. Importa dizer que o ecumenismo nunca anda em linha reta – há avanços e retrocessos e às vezes se volta a assuntos já tratados e, supostamente, resolvidos anteriormente. Há os e as “ecumenistas profissionais” que sabem o que querem e sabem articular-se bem, enquanto há também novatas e novatos que têm dificuldade de absorver o estilo CMI. Nem todas e todos estão de acordo com o vigente estilo democrático do tipo anglo-saxão nos debates, mesmo que tenha sido abrandado pelo sistema de consenso adotado há alguns anos. São muitos documentos que não precisam apenas de leitura, mas de imaginação como chegaram a ser como são – foram muitas mãos que, ao longo de meses, às vezes anos, mexeram neles. Especialmente entre ortodoxos e protestantes as diferenças teológicas e organizacionais são profundas, o que não impede amizades e respeito mútuo, até momentos importantes de aprendizagem, mas dificulta avanços mais consistentes e fixados em documentos para continuarem valendo. Ao mesmo tempo, não podemos esquecer que há um enorme crescimento e uma grande diversificação do cristianismo em continentes como África e América Latina, o que se reflete, mais e mais, também no Conselho – embora a maioria destas igrejas não seja membro do CMI. Este representa, hoje, com suas 350 igrejas-membro cerca de 25% do cristianismo mundial – o que já não é pouco, mas é apenas uma parcela. A igreja católica, que representa metade do cristianismo no mundo, não é membro do CMI, mas colabora em várias frentes, especialmente na Comissão de Fé e Ordem. E há ainda outros 25%, cerca de 500 milhões de pessoas cristãs que representam igrejas independentes.
 
4) Como avalia a participação do Papa Francisco no evento?
 
Naturalmente, a expectativa foi grande. Diria que foi uma presença de grande poder simbólico. Estive a cinco metros do Papa quando entrou na capela. Primeiro me assustei um pouco – um homem aparentando fragilidade. Ninguém pode desejar a ninguém ter uma agenda tão repleta, complexa e desafiadora como ele, e é compreensível que isto seja cansativo e que a saúde fique debilitada. No entanto, ao tomar a palavra em sua homilia, sua contínua energia ficou visível. Foi simples, mas significativo, baseado completamente na Bíblia e nos desafios de hoje, afirmando que precisamos continuar a “caminhar, orar e trabalhar juntos”, que foi o lema do encontro. Uma mensagem profundamente evangélica. Disse, entre outras, que “o ecumenismo pôs-nos em movimento segundo a vontade de Jesus e poderá avançar se, caminhando sob a guia do Espírito, recusar toda a reclusão autorreferencial” e que caminhar assim acarreta um “prejuízo” aos olhos do mundo, pois “escolher ser de Jesus antes de Apolo ou de Cefas (cf. 1 Cor 1,12) [...] escolher em nome do Evangelho o irmão antes que a si mesmo” não dá ganho no sentido comum de lucro. No entanto, “produz fruto na vinha do Senhor”. Palavras extremamente significativas num âmbito ecumênico! Ao contrário de Paulo VI, quem, ao visitar o CMI em 1969, disse: “Caros irmãos em Cristo: nosso nome é Pedro”, este Papa não fez nenhuma questão de fazer constar qualquer pretensão específica dele ou de sua igreja. Focou na base comum – o Evangelho – e na missão comum, na proclamação da boa nova e no cuidar das pessoas necessitadas, não por último as pessoas migrantes e refugiadas. Já na volta a Roma, o Papa falou para as e os jornalistas que o acompanharam: foi um encontro muito significativo, com um diálogo “profundo” e “humano”, que o deixou “contente”, e foi verdadeiramente ecumênico, sendo que não pode haver ecumenismo com proselitismo! Um sinal importante. 
 
Depois da oração, tomou tempo para encontrar pessoas com deficiências, abençoando-as, pedindo orações por ele próprio de uma ministra em cadeira de rodas, e deu especial atenção a uma criança com câncer, visível por sua cabeça raspada. Encontrou-se brevemente com uma delegação das igrejas norte-coreanas, outra presença muito significativa e inédita numa reunião do CMI. Esta comunhão de igrejas tem sido e continua sendo instrumental na aproximação das igrejas e dos países, não por último das duas Coreias.
 
5) Há quem diga que a presença do Papa lá pode significar "um salto de qualidade" na caminhada ecumênica mundial. Você concorda?
 
De certa forma, sim – nem tanto por avanços substanciais, mas pela afirmação da caminhada e pela parceria que o Papa, como o grande pastor que é, desenhou com sua visita e simplicidade evangélica. Autodesignou-se “peregrino em busca da unidade e de paz” e agradeceu “a Deus porque aqui vos encontrei a vós, irmãos e irmãs já a caminho”. É uma caminhada em pé de igualdade. Ele próprio falou de uma “primavera ecumênica”. Temos que ver o que isto vai significar no detalhe, mas o tom é muito promissor.
 
6) No Brasil, ecumenismo muitas vezes é visto com desconfiança. Como fazer as pessoas entenderem o real sentido de "ser ecumênico"?
 
Em primeiro lugar importa aprender a conviver. Ser curioso no bom sentido, fazer perguntas antes de “carimbar” respostas. Temos, sim, diferenças, às vezes profundas. Não podemos nem devemos negá-las. Porém, antes de rejeitar uma posição e, muito menos, uma pessoa, devemos reconhecer a seriedade da fé que ela quer viver e as razões pelo qual o faz. Na minha experiência, a leitura bíblica em conjunto, o estudo da teologia em conjunto ajuda muito para querermos, em primeiro lugar, aprender. Depois importa também a ação em conjunto, pois nosso país precisa de forças que cooperem e que não dividam ainda mais um país já tanto dividido e polarizado. Precisamos buscar o bem comum. Mais do que tolerância, trata-se de respeito para com a outra, o outro. Muito antes de conhecer e discutir um conceito de ecumenismo, é realmente preciso “ser ecumênico”, procurar viver sua fé em Cristo com seriedade, profundidade, disposição ao serviço e profundo amor para com o próximo. 
 
7) Em sua opinião, como seria um mundo onde o ecumenismo não mais existisse?
 
Lembremo-nos que “ecumenismo” vem do grego oikoumene, “a (terra) habitada”, ou seja, significa o próprio mundo. Eliminar o ecumenismo seria eliminar o próprio mundo. O movimento ecumênico, ao lado da outros tantos movimentos, religiosos ou não, procura tornar este mundo mais habitável, fomentar a convivência, a paz com justiça. Uma humanidade, e mais ainda, uma igreja cristã que não busque contribuir para com esta finalidade, se autodestrói e perde sua razão de ser. Temos que resistir a isto e procurar construir, sempre.