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Em briga de marido e mulher, por favor, metam a colher

 
Casados há cinco anos, a advogada Tatiane Spitzner e o biólogo Luís Felipe Manvailer saíram de casa para comemorar o aniversário dele, na noite de 21 de julho. A esposa pega uma mensagem de outra mulher no celular dele e os dois começam a discutir. Voltam para casa lá pelas duas e meia da manhã.
 
A briga não para. Vizinhos escutam as discussões, ouvem a mulher dizer que vai pular da sacada, e pedidos de socorro dela. Em seguida, escutam um barulho, “como se fosse uma batida de carro”. Luís Felipe desce até a frente do prédio e, segundo testemunhas, diz “o que você fez, meu amor?”. Recolhe o corpo, leva a esposa morta até o apartamento, e foge com o carro dela.
 
Na última sexta 3, os vídeos daquela madrugada vazaram na internet. Tatiane apanhou do marido ainda dentro do carro, antes de entrar no prédio, e, na sequência, tomou um golpe que a deixou desacordada no chão da garagem. Luís Felipe chuta a esposa, que acorda e corre do marido. No elevador, tenta, sem sucesso, descer no térreo e escapar das agressões. Violentamente, Luís Felipe a empurra de volta e a obriga a sair de lá quando chegam ao quarto andar.
 
A violência toda foi filmada. Vizinhos escutaram gritos e pedidos de socorro. Então, por que ninguém fez nada? O porteiro não viu as imagens em tempo real? Não escutou a gritaria no térreo? Ninguém pensou em intervir, tocar a campainha? Quando a polícia chegou, Tatiane já estava morta – o corpo tinha até sido levado de volta ao apartamento.
 
A sociedade (todos nós) se omite, ignorando “brigas de casais”, por achar que esses desentendimentos fazem parte da vida privada dos dois. Enquanto isso, a cada sete segundos uma brasileira é vítima de violência física, segundo a pesquisa Relógios da Violência, do Instituto Maria da Penha.  Metade (54%) dos brasileiros conhece ao menos uma mulher que já foi agredida pelo companheiro. Em 2016, foram 58 mil registros desse tipo captados pelos dados do Ligue 180, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres.
 
"Os dados revelam que a violência de gênero não é um problema pontual. É um problema grande. A maioria dos feminicídios é pelas mãos do companheiro ou do ex. O assassinato é o último estágio, e por isso tentamos atacar o problema antes de ele chegar às últimas consequências", conta Aline Silveira, designer e uma das co-criadoras do aplicativo "Mete a Colher", que busca auxiliar mulheres vítimas de violência.
 
Antes de chegar ao fim, familiares e amigos contam que Tatiane vivia um relacionamento abusivo há tempos. Em mensagens trocadas com uma amiga, a advogada contou que o marido tinha um “ódio mortal dela” e que havia “mudado completamente” muito depois de começar a tomar anabolizantes. A irmã, que estava com o casal no bar, contou que Tatiane queria o divórcio.
 
Não é fácil se dar conta do que é um relacionamento abusivo, principalmente quando envolve a sua história – o amor apaga algumas cenas de violência e faz acreditar nas promessas de melhora do parceiro. Para alertar outras mulheres, a família de Tatiane criou as páginas TodosPorTatiane, no Facebook e Instagram. E já tem dado resultado. Segundo um dos posts, uma psicóloga próxima à família disse ter escutado histórias de várias pacientes que perceberam ser vítimas de violência depois de assistir aos vídeos de Tatiane.  
 
A polícia investiga se Tatiane morreu antes, ainda no apartamento, depois da queda. Luís Felipe segue preso como suspeito pela morte de Tatiane. Os advogados dele ainda insistem na história de quem formavam uma família de comercial de margarina. Os vídeos e a família dela contam uma versão bem diferente.
 
Em caso de flagrante de violência, você pode chamar imediatamente a polícia pelo 190. Se souber de agressões constantes, mesmo que a própria vítima ainda não tenha denunciado, é possível alertar sobre o caso pelo Disque Mulher (180). Pelo 180, não é aberta uma chamada de emergência e, portanto, a polícia não aparece imediatamente - só quando acionada pelo 190.
 
Fonte: Carta Capital
Imagem: A Tribuna / App Mete a Colher