60 anos Misereor: 1958 – 2018. Por Regina Reinart

 
Poderiam-me dizer: “Jesus nunca mandou um guia para elaboração de projeto com objetivos, indicadores e atividades, não obrigou nunca ninguém a passar por uma avaliação externa e certamente nunca deu acesso das suas contas a auditores, então não tinha relatórios financeiros, nem relatórios de atividades muito menos relatórios descritivos no final de semestres ou do triênio do seu projeto.” Têm toda razão, concordo plenamente.
 
Mas Jesus era coordenador, consultor, animador e avaliador. Ele organizou oficinas de captação de recursos, seminário de formação nos Direitos Humanos e empoderou Maria Madalena e as outras mulheres. Jesus em si era uma agência de ajuda.
 
Foi Jesus que inspirou o Cardeal José Frings da Colônia, Alemanha, no ano de 1958, exatamente 60 anos atrás, de começar com esta, como ele disse: “Aventura no Espírito Santo!” Fundou Misereor para combater a fome no mundo e “trabalhar a cabeça” e formar a consciência dos poderosos, daqueles com o poder de decisão no mundo político.
 
Se fosse hoje: que tipo de agência o Cardeal Frings fundaria? Chamaria uma equipe igual nós aqui hoje, pergunto? Será? Esta equipe deveria ter ambientalistas, ecônomos, pedagogos, etnólogos, feministas-mulheres e feministas-homens, e enfim, pessoas atingidas por barragens, mulheres na situação da prostituição, jovens vítimas de tráfico humano, trabalhadores que sofrem de trabalho escravo, camponeses e indígenas, quilombolas e geraizeiras etc. A equipe teria pessoas jovens, adultas e de idade mais avançada, pessoas com deficiência física e doenças mentais. Esta equipe deveria ter especialistas na comunicação, na internet, mídia social etc. 
 
Somente para fazer lembrar o quanto que a área de comunicação mudou durante estas seis décadas: em 1958 não tinha internet, a carta de recomendação do bispo demorou para chegar até Alemanha. A discussão sobre indicadores foi mínimo (ai que saudades daqueles tempos!) e até o dinheiro caiu na caixa, bom, outros 500. Nem sei como realmente funcionou. Outro dia li uma proposta de um projeto do CIMI de 1978, 40 anos atrás, teve 3 páginas e foi aprovado!
 
Talvez a agência continuasse chamar-se Misereor, inspirado no Marcos 8 (“tenha compaixão desta gente porque não tem o que comer”), esta compaixão ainda é muito precisa, esta misericórdia com as pessoas com fome físico, mas também com fome de justiça, de igualdade, de segurança, de liberdade, de responsabilidade pela criação e os seus elementos água e terra, enfim, fome de um mundo melhor. Que discussão teríamos sobre “o modelo de desenvolvimento”?
 
Talvez o versículo do profeta Miquéias 6,8 – para mim o resumo de todo compromisso cristão - fosse a inspiração na fundação da Misereor hoje: “praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus.”
 
Será que Misereor tem alcances para registrar, temos histórias de conquistas? Vamos recordar as conquistas da Misereor, as quais talvez nem fossem mais tão presentes no cotidiano, mas foram muito significativas:
 
- no ano de 1983, onze anos antes do Nelson Mandela se tornar presidente na África do Sul (1994), Misereor realizou a CF contra o Apartheid com o tema “Quero ser gente” (“Ich will Mensch sein”) e fomos criticados e desafiados bruscamente pelo ministro da Bavária - levamos uma bronca forte da qual se fala até hoje. Durante a CF 2014 em prol da Uganda lutamos pela igualdade de gênero e defendemos abertamente os direitos das pessoas LGBT, isso sendo a agência católica! São histórias que raramente são contadas. 
 
Misereor caminha cotidianamente com as vítimas de terremotos (entre muitos no Haiti onde a nossa querida Dra. Zilda Neumann-Arns deu a própria vida), vítimas de seca e de enchentes, de guerras e de despejos, vítimas de conflitos sobre recursos naturais com a indústria de celulares e carros, vítimas de massacres e de grandes projetos, e famílias de vítimas de homicídios. Estamos ao lado dos familiares de massacres nos cárceres e nas aldeias indígenas. Aqui no Brasil lembramo-nos hoje do povo Gamela e dos povos dos GeK, nos simpatizamos com os pequenos agricultores de Colniza, através dos nossos parceiros - todos eles e elas fazem parte da “massa Misereor”, e agradecemos também, com profunda admiração os 07 ativistas da greve de fome.
 
Cá no Brasil, Misereor não somente realizou a CF 2016 junto com CONIC, o CGG em SP e a CPT Pará, mas sim, fomos à rua nas grandes cidades contra os megaeventos da Copa e das Olimpíadas. Estivemos presentes na Bahia com D. Luiz Cappio na sua luta contra a transposição do Rio S. Francisco. A crise da água já foi centro da CF 1996, com o lema “cada gota conta”.
 
O que significa “cooperação internacional”? Misereor não quer ser uma caixa eletrônica, nunca fomos e nunca seremos só caixa católica para pessoas católicas. Somos uma agência ecumência e interreligiosa e todos os inter que podem imaginar. 
 
Misereor dialoga com Berlim, Bruxelas, Genebra, Washington e Roma. Não me canso de dizer que estamos juntos e juntas, que queremos andar “a segunda milha”, que queremos “deixar as 99 ovelhas e ir atrás da ovelha desaparecida” como os muitos casos no México. Misereor é justamente isso: lutamos contra a corrupção em prol da transparência, lutamos pelo comércio justo e consumo responsável, promovemos a vida plena no sentido de bem-viver. Conviver com a urbanização no mundo, garantir a biodiversidade e lutar contra o agronegócio, isso é Misereor. Sim, Misereor incomoda os sistemas corruptos como diz o canto “viemos para incomodar, com a fé e união nossos passos um dia vão chegar”.
 
Confio, que “com a fé e união nossos passos um dia vão chegar”, vamos vencer sim. Vamos usar esta chance do Sínodo para a Amazônia. Vamos por estes nossos assuntos dentro deste Sínodo. Vamos mostrar que a criatividade latinoamericano leva as nossas Igrejas e os nossos povos a uma mesa redonda, a ministérios tanto para homem quanto para nós mulheres, a um amanhã verdadeiramente digno, livre e lindo. E vamos fazer o nosso Sínodo para Amazônia aqui na América Latina mesmo antes, durante e depois do Sínodo em Roma e através da Amazônia com todos os biomas. Vamos desde já trilhar o caminho. O Sínodo já está fazendo parte de nossa pauta na Alemanha, o documento foi traduzido e trouxe para vocês. Este Sínodo é apenas um começo. Tenho certeza, se o Papa fosse peixe, ele chamaria um Sínodo para os Oceanos.
 
Esta festa do nosso aniversário não seria uma festa sem abraços da nossa liderança. Trago um abraço muito querido do nosso Diretor Geral, o presidente Mons. Firmino Spiegel, dos Diretores Gerentes Dr. Martin Bröckelmann-Simon e Thomas Antkowiak e dos chefes do Departamento da América-Latina e Caribe, Malte Reshöft e Betina Beate. Saudações calorosíssimas da minha equipe regional Brasil que no espírito está aqui presente. Aliás, minha equipe está com ciúmes. Uns dias atrás falei que com a Almute desta nossa festa que manda um abraço imenso. Ela partilhou comigo um e-mail do Dom Leonardo Steiner de três anos atrás. Almute escreveu: “quero organizar a minha próxima viagem ao Brasil, quando poderia me receber junto com o Stefan?” A resposta do Dom Leonardo foi bem curta: “Estarei em Brasília. É só indicar o dia”! Esta prontidão, esta abertura, esta simplicidade bela é algo fantástica que Brasil tem. Mantenham isso, por favor, pois cativa cada coração!
 
Uma festa de aniversário não seria uma festa sem palavras de agradecimentos.
 
Nosso profundo agradecimento aos mais 160 parceiros com mais de 230 projetos com um volume de 2018 de 52 milhões de Reais. Agradecimentos aos nossos C´s (como eu os chamo): CAIS, CNBB, CIMI, CPT, CPP, Caritas, CRB, e todos os outros C’s, as Pastorais indispensáveis e as ONGs, e Movimentos e etc. Nosso profundo agradecimento às pessoas na administração destes projetos pois sofrem conosco e com nossas exigências, mas saibam que este seu suor assegura o nosso caminho em conjunto. Agradecemos pelas muitas e muitas mensagens de notícias, pelas notas públicas das organizações e pelo compromisso que vocês mostram no cotidiano. Agradecemos pela disponibilidade de acolher a gente aqui e pelo esforço que fazem durante as visitas na sede em Aachen ou nos escritórios em Munique e Berlim onde em total atuam cerca de 330 pessoas. 
 
Agradecemos às pessoas e grupos doadores que permitem a Misereor a apoiar mais de 3.000 projetos em 90 países. 
 
Agradecemos às pessoas que se dedicaram e deram a própria vida e o seu esforço, sendo entre muitas o nosso querido Dom Luciano Mendes, a nossa Ir. Dorothy Stang e o nosso Pe. Josimo Tavares. Pedimos que os grandes teólogos José Comblin e João Batista Libânio intercedam por nós. 
 
Agradecemos às outras agências, pois é uma alegria imensa caminhar e trabalhar junto com elas nos nossos países de atuação. Quero mencionar Adveniat, PPM, KMW (a Obra da Infância Missionária), Caritas Internacional, as agências de CIDSE e etc.
 
Ao Centro de Assessoria e Apoio a Iniciativas Sociais – CAIS, a Ir. Delci Franzen,  Adriano Martins, Gracileia Lima, e todos os Assessores, nossa profunda gratidão. O nosso Danke schön ao Stefan Kramer, nossa instância de diálogo e enlace, que faz toda diferença para nós aqui e que graças a ele através da CNBB recebeu o estabelecimento e o apoio estrutural, agradecemos à Riva, secretária do Stefan. Ao CAIS e ao Stefan o nosso grande agradecimento pela constante comunicação, pelo trabalho no chão e pela franqueza, gentileza e ternura que tenham conosco na sede da Misereor em Aachen.
 
Termino com um convite: queremos refundar e reinventar Misereor. Amanhã nos seus momentos quietinhos contemplem um pouco o seu momento Misereor. Em que momento vocês identificaram o chamado para esta “Aventura no Espírito Santo” como Frings o chamou? E em que consiste este seu chamado Misereor e este trabalho pioneiro hoje. Pensando numa metáfora da “Aventura no Espírito Santo”, me veio a idéia que Misereor deve ser como perfume. Perfume não artificial, mas sim, um perfume natural que faz bem e leva o astral, um perfume orgânico que inspira e acalma, que cria um ambiente onde podemos ser nós mesmos. E que sendo no Brasil, mantenha este espírito de hospitalidade. “É só indicar o dia!”
 
Como diz aquela bela canção: 
Fica sempre, um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas,
nas mãos que sabem ser generosas.
Dar do pouco que se tem ao que tem menos ainda,
enriquece o doador, faz sua alma ainda mais linda.
Dar ao próximo alegria, parece coisa tão singela, 
aos olhos de Deus, porém, é das artes a mais bela. 
 
Texto: Misereor / Regina Reinart
Foto: Arte enviada pelo CONIC para compor o painel comemorativo de Misereor
Arte: Laura Gomes