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Como a Alemanha usa as escolas contra mentiras sobre o nazismo

 
O recente episódio em que um grupo de brasileiros que não acreditam no Holocausto contestou um vídeo publicado no Facebook pela Embaixada da Alemanha em Brasília colocou luz sobre uma necessidade que o governo alemão já elegeu há décadas como prioridade nas políticas públicas: garantir que a verdade sobre a história do nazismo não seja perdida entre mentiras e boatos espalhados tanto entre adultos quanto crianças.
 
O genocídio de cerca de seis milhões de judeus conduzido pelo regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial é um dos episódios mais sombrios da História. Por isso, na Alemanha, o Holocausto não é visto apenas como um fato histórico comum; tal abordagem se reflete, inclusive, na maneira e na frequência com que o tema é tratado em sala de aula.
 
Quando estavam na 9ª série e tinham 15 anos, os alunos berlinenses Willy Hanewald e Franz Kloth tiveram as primeiras aulas sobre o Holocausto. Seus professores de História apresentaram o tema em sala de aula e, posteriormente, organizaram excursões a memorais.
 
Willy, que estuda numa escola pública, foi com sua turma ao campo de concentração Sachsenhausen, localizado nos arredores de Berlim. Já a escola privada onde Franz estudava organizou uma viagem a Auschwitz, na Polônia.
 
"A excursão foi uma experiência muito mais marcante do que a abordagem em sala de aula. Acho que é impossível compreender profundamente a dimensão do Holocausto sem nunca ter estado num campo de concentração", diz Willy, de 17 anos.
 
Franz, de 18 anos, teve a mesma impressão que o colega e destacou outra experiência que o marcou: uma palestra de um sobrevivente do Holocausto. "Essas atividades são importantes, pois somente imagens em preto e branco não são suficientes para compreender completamente o que aconteceu", ressalta.
 
Os dois jovens fazem parte do Comitê de Alunos de Berlim que defende a implementação da obrigatoriedade da visita a campos de concentração financiada pelo governo no currículo escolar - o que atualmente não acontece. "Vivemos atualmente um período cultural muito frágil, precisamos sempre relembrar o que aconteceu e como aconteceu para isso nunca voltar a acontecer", diz Franz.
 
Contra equívocos e falta de informação
 
No episódio recente, um grupo de brasileiros que contestam a existência do Holocausto rebateram nas redes sociais o vídeo da embaixada alemã, alegando que as informações publicadas ali eram inverídicas e que o nazismo seria uma ideologia criada pela esquerda.
 
Nas escolas da Alemanha, a abordagem pedagógica sobre esse capítulo histórico procura promover uma reflexão crítica sobre o passado e a sociedade, além de buscar evitar que esses crimes voltem a ocorrer no futuro.
 
 
"O ensino sobre o Holocausto lembra as pessoas dos perigos que elas mesmas estão vulneráveis se expostas a propaganda intolerante, preconceitos, injustiças, humilhação e violência potencial", afirma Peter Carrier, coordenador de um projeto de pesquisa da Unesco sobre o Holocausto na educação, promovido pelo Instituto alemão Georg Eckert.
 
Atualmente, o Holocausto faz parte da grade curricular na 9ª ou 10ª série, quando os alunos têm cerca de 15 anos. "A tematização do Holocausto e do Nazismo é uma parte obrigatória no currículo de História em todos os Estados da Alemanha", afirma Detlef Pech, professor de pedagogia na Universidade Humboldt de Berlim.
 
Apesar de a política educacional na Alemanha caber aos governos estaduais, a Conferência de Secretários de Educação, órgão nacional que faz recomendações sobre o ensino, começou a sugerir na década de 1960 uma abordagem mais profunda sobre o Holocausto em sala de aula.
 
Os professores têm liberdade para desenvolver diversas atividades pedagógicas sobre o tema, entre as quais estão visitas a memorais. Porém, essas atividades não são obrigatórias e sua realização depende exclusivamente da vontade e do empenho dos educadores.
 
Controvérsia e resistência
 
O modelo pedagógico atual é resultado de um debate público que floresceu no fim da década de 1970 na Alemanha Ocidental, com a exibição da série americana Holocausto, que retratou a história do genocídio a partir da perspectiva de uma família de judeus alemães e contou com a participação de Meryl Streep e James Woods.
 
Além de contribuir para o debate sobre o tema em sala de aula, a exibição da série introduziu o termo Holocausto no país. Até então, o episódio era tratado como perseguição e morte de judeus. Essa discussão pública também impulsionou mudanças na abordagem pedagógica sobre o tema.
 
"Foi um processo que começou no fim da década de 1970 com a adoção da perspectiva das vítimas nos livros escolares. Esse processo, porém, variou bastante entre os Estados e dependeu muito dos governos que tinham na época", afirma a historiadora Juliane Wetzel, do Centro para Pesquisa Antissemita da Universidade Tecnológica de Berlim.
 
Segundo Peter Carrier, há duas maneiras principais de contextualizar o tema em escolas: no âmbito de sistemas políticos num bloco classificado como "Democracia e Ditadura", como ocorre em Berlim; ou no âmbito de regimes políticos históricos chamado de "Nacional-Socialismo", como no Estado de Hessen.
 
Formação do professor e desafios
 
A transformação na visão de ensino sobre o Holocausto ao longo das últimas décadas refletiu ainda em mudanças na formação dos professores. Atualmente, diversos cursos extracurriculares para educadores sobre a abordagem pedagógica do tema são oferecidos por, entre outros, memoriais e instituições de ensino.
 
Ao longo deste processo de adoção desta visão mais crítica, porém, nem sempre essa abordagem fluiu perfeitamente. Wetzel conta que, no passado, houve casos de exageros cometidos por professores, que acabaram culpando e chocando alunos com os horrores do Holocausto, o que levou alguns jovens a não querer mais tocar no tema.
 
Além destes percalços, essa transformação pedagógica enfrentou ainda, desde o início, resistências de conservadores de direita, que argumentavam contra a cultura de memória alegando que o tema é passado e um ponto final deveria ser colocado na questão.
 
Atualmente, com o avanço de populistas de direita, que possuem representantes em 14 das 16 assembleias estaduais e também no Parlamento alemão, essa abordagem tem sido colocada novamente em dúvida por esse grupo.
 
Em junho, o líder do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), Alexander Gauland, minimizou o nazismo. "Hitler e os nacional-socialistas não foram mais do que um cocô de pássaro em mil anos de uma história alemã de sucesso", disse. Outro integrante da legenda, Björn Höcke chegou a chamar o Memorial aos Judeus Mortos da Europa, localizado em Berlim, de "monumento da vergonha".
 
Diante dessas tentativa de minimizar o passado, para muitos educadores essa visão de ensino se faz mais necessária do que nunca. "O Holocausto é um ponto central da história da Alemanha, numa época em que a Alemanha trouxe muita desgraça para o mundo. O significado central deste período não deve ser subestimado. As ameaças da democracia e o que ocorre com o fim democracia também são aspectos importantes", destaca Tobias Funk, diretor na Conferência de Secretários de Educação.
 
Carrier ressalta que o ensino sobre o Holocausto é importante para lembrar as pessoas dos perigos aos quais elas estão vulneráveis.
 
Já Wetzel destaca que o conhecimento sobre esse passado é fundamental para o entendimento de debates e decisões políticas atuais da Alemanha. A pesquisadora acrescenta ainda que a compreensão sobre o Holocausto, o nazismo e o assassinato de minorias praticados nesta época pode ajudar a desenvolver empatia por temas atuais, como a crise migratória e os refugiados que vieram para o país.
 
O avanço da extrema-direita e a divulgação de notícias falsas representam, no entanto, um desafio para educadores. "Os professores precisam aprender como ajudar os jovens a não acreditar em tudo que leem na mídia e a questionar", afirma Carrier. Para isso, memoriais oferecem excelentes materiais didáticos, muitos disponíveis na internet.
 
Para Wetzel, a abordagem pedagógica sobre Holocausto é um processo em constante transformação. "A cada nova geração, a abordagem e transmissão desse tema aos jovens deve ser repensada. Atualmente, ela é mais histórica, mas não deve ser tratada como o Império Romano, por exemplo. A responsabilidade alemã deve ser deixada clara, porém, sem sobrecarregar os alunos e sem declará-los culpados", avalia a pesquisadora.
 
Texto: Clarissa Neher
De Berlim para a BBC News Brasil
Foto 1: GETTY IMAGES | Foto 2: AFP/GETTY