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O carpinteiro José e os info-operários - por Dado Galvão

 
Todos os anos, no dia 1 de maio, cristãos de todas as partes relembram os exemplos da missão de José Operário, esposo de Maria de Nazaré e pai adotivo do menino Jesus, (cf. Mt 1, 19-23). É no Dia do Trabalhador - como muitos países denominam - que operários de várias partes do mundo aproveitam para realizar manifestações públicas em defesa de relações trabalhistas mais humanas.
 
É na condição de operário que José, ensinou ao menino Jesus o oficio de ser carpinteiro, (cf. Mc 6, 3), na região da Galileia, zona norte da disputada metrópole Jerusalém. Podemos até refletir na imagem do menino carpinteiro, os milhares de jovens brasileiros, que ainda não tiveram a oportunidade do primeiro emprego.
 
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em pesquisa divulgada em março de 2019, são 13,1 milhões de pessoas desempregadas no Brasil. O número representa mais 892 mil pessoas desocupadas no país.
 
Na moderna Carpintaria da Sagrada Família, que aqui imaginamos em um exercício de fé, José, sobre o olhar atento de Jesus, recebe operários da indústria e dos serviços, estes dos serviços, os mais assíduos frequentadores do local. Seres humanos da era dos smartphones, tablets e aplicativos, “Infoproletários” ou info-operários, motoristas de aplicativos, operadores de telemarketing, geradores de conteúdos para redes sociais.
 
O repórter Marcelo Canellas produziu reportagem exibida em abril de 2019, pelo programa Fantástico, da Rede Globo, que revela informações de pesquisas sobre novas doenças que estão atingindo os info-operários. Ansiedade, síndrome do pânico, agressividade, insegurança, perda de sentido do trabalho, depressão, por muitas vezes José, ouve dos frequentadores da carpintaria que tudo isto começou com a revolução digital e a era dos smartphones.
 
Durante trinta anos, o Grupo de Pesquisa Metamorfoses do Mundo do Trabalho da Universidade de Campinas (UNICAMP) acompanhou as mudanças que a tecnologia provocou no perfil dos empregos. Em 1989, um ano depois da chegada da internet no Brasil, segundo o SENAI, havia 7,7 milhões de pessoas, 12,3% dos trabalhadores (nas indústrias). 11,9 milhões de pessoas, 19,1% dos trabalhadores (no setor de serviços).
 
Em 2017, segundo o SENAI, 9,6 milhões de pessoas, 9,2% dos trabalhadores (nas indústrias). 26 milhões de pessoas, 24,9% dos trabalhadores (no setor de serviços), ou seja, na indústria um crescimento discreto na abertura de vagas de trabalho, enquanto o setor de serviços foi turbinado pela revolução digital.   
 
A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) celebra, em 2019, mais uma campanha da fraternidade (CF), com o tema “Fraternidade e Políticas Públicas” e o lema “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (cf. Is 1,27). É simplesmente a comunhão entre tema e lema da (CF) 2019 que responderá a muitas inquietações ouvidas por José, em sua carpintaria.
 
“Refletir sobre Políticas Públicas é importante para entender a maneira pela qual elas atingem a vida cotidiana, o que pode ser feito para melhor formatá-las e quais as possibilidades de se aprimorar sua fiscalização”, este é um dos itens do capítulo “ver” do texto base da (CF) 2019.
 
É preciso criar mecanismos, políticas públicas e previdenciárias que protejam operários tradicionais e info-operários, dialogando com o passado, presente e futuro via participação cidadã (de todos nós, igreja ou não), motivados pela fraternidade e respeito à dignidade do ser humano na busca de direitos e justiça nas relações trabalhistas, econômicas e tecnológicas.
 
Animados no exemplo de José, o pretérito operário carpinteiro, hoje, como muitos Josés, atingidos pelo desemprego, navegam ciberneticamente para não estarem desocupados, sempre conectados em busca de prover o sustento da família, lutando para não perder a dignidade com esperança em dias melhores, seguem impulsionados pela fé. São José info-operário, rogai por nós!
 
Nenhuma política pode negar a primazia do trabalho” - Dom Guilherme Werlang, bispo católico de Lages em Santa Catarina
 
DadoGalvão é cineasta documentarista, bacharel em administração de Marketing, pela FTC, especialista em fotografia pela UNIARA, estudante de teologia da UNINTER, agente da Pastoral Carcerária da Diocese de Jequié/BA.
 
Imagem: Tarsila do Amaral – Operários, com adaptações