O Pacote do Veneno foi aprovado nesta segunda-feira (25), por 18 votos a 9, na comissão especial criada para analisar os 29 projetos de lei apensados ao PL 6.299/02, que revoga a atual Lei dos Agrotóxicos. A votação ocorreu em sessão tumultuada, iniciada com mais de duas horas de atraso, com acesso proibido da população e até de assessores parlamentares. O argumento da presidenta da comissão, a ruralista Tereza Cristina (DEM-MS), foi a segurança.
 
O pacote foi votado depois de mais de três horas de obstruções e requerimentos apresentados por deputados do PT, PCdoB, Psol e PSB, na tentativa de retirada do substitutivo até que fossem realizados mais debates. Tensa do início ao fim, a sessão teve bate-boca e provocações por parte dos ruralistas em diversas ocasiões.  
 
Entre as principais mudanças propostas está o registro e autorização temporária. Ou seja, se em 24 meses o pedido de um novo agrotóxico não tiver sido analisado e aprovado no país, poderá ser usado desde que tenha sido aprovado em outros países. Isso causa grande preocupação de especialistas, porque entre essas substâncias podem estar aquelas com ingredientes causadores de câncer, malformações e outras alterações graves.
 
O pacote cria uma comissão formada por nomes indicados pelo Ministério da Agricultura para acelerar o processo de registro, a exemplo do que já acontece com os transgênicos, aprovados pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Isso é preocupante por causa da falta de rigor na CTNBio, que aprova pedidos de novos organismos geneticamente modificados mesmo sem a apresentação de testes de segurança à saúde e ao meio ambiente. Além disso, tira a Anvisa e o Ibama do processo de avaliação e reavaliação dos agrotóxicos – o que os defensores do pacote negam.
 
A decisão da maioria da comissão, composta por ruralistas que argumentam somente a necessidade de mais rapidez na aprovação de "produtos mais modernos, já que no Brasil a liberação demora de 8 a 10 anos", contraria recomendações de cinco relatores da Organização das Nações Unidas (ONU), que enviou carta de alerta ao governo brasileiro. Para os relatores, o pacote ameaça direitos fundamentais do povo brasileiro, como os direitos à saúde, ao alimento e água segura e ao meio ambiente equilibrado.
 
Entidades nacionais de renome internacional, como o Instituto Nacional do Câncer (Inca) e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), vinculados ao Ministério da Saúde, também publicaram nota de advertência. São contrários também a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Ibama, o Ministério Público Federal e Ministério Público do Trabalho, as maiores instâncias do controle social na área de saúde, meio ambiente, nutrição e direitos humanos e os cientistas brasileiros, por meio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), entre mais de 270 entidades, associações e coletivos. 
 
Entre todas elas, há um consenso: o pacote vai aumentar a utilização de agrotóxicos no país, que é o maior consumidor mundial desses produtos desde 2008. E com isso haverá muito mais casos de contaminação ambiental, intoxicação dos trabalhadores na agricultura e das fábricas desses produtos e comida com muito mais veneno na mesa daqueles que não podem comprar alimentos orgânicos.
 
Fonte: Rede Brasil Atual
Foto: Reprodução / Embrapa

 
A geração que nos sucede receberá um legado ameaçador, que são os graves problemas ambientais que afligem o nosso planeta. Muito embora devamos ser críticos em relação ao tom catastrófico e apocalíptico com que organizações ambientalistas costumam se pronunciar sobre o futuro do planeta e de seus habitantes, existe pouca dúvida de que a crise é, de fato, real. Poluição dos rios, dos mares e do ar, desmatamento, redução da camada de ozônio, não só a ameaça, mas a extinção de espécies animais, aquecimento global – são apenas alguns dos itens na pauta de ambientalistas, governos e religiosos. Essas preocupações têm a ver com a sobrevivência da raça humana num planeta cujas reservas estão sendo exauridas a passos largos.
 
Acredito que exista uma relação inseparável entre os conceitos de “cosmovisão” e “ecologia”. O primeiro, como Solano tem mostrado claramente em posts anteriores, é uma maneira peculiar de entender nossa relação com Deus, com o próximo e com o mundo; e o segundo é o estudo das interações dos seres vivos entre si e com o meio-ambiente. Em outras palavras, aquilo que acreditamos acerca de nós mesmos, de Deus e do mundo onde vivemos determinará nossas decisões quanto ao nosso planeta.
 
O Cristianismo tem promovido através dos séculos uma cosmovisão coerente e abrangente que tem interagido com a ciência e o progresso. Estudiosos têm reconhecido a necessidade de uma base religiosa na área da ecologia. “A ecologia humana é profundamente condicionada pelas crenças sobre nossa natureza e nosso destino – isto é, pela religião”. [1]
 
É um fato que encontramos entre os grandes poluidores do planeta alguns países que nasceram sob a égide do Cristianismo. Tal constatação não invalida os ensinamentos bíblicos sobre o cuidado com a natureza. No máximo, sugerem que esses ensinamentos não permearam suficientemente a cultura e a mentalidade dessas sociedades. Ou ainda, que os referenciais cristãos, que num passado distante foram adotados por elas, são agora rejeitados ou distorcidos, no todo ou em parte, em nome dos interesses econômicos.
 
Os seguintes pontos tirados da fé cristã reformada podem servir de base para a formação de uma mentalidade ecológica cristã.
 
1) O mundo foi criado por Deus. “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gênesis 1.1). O mundo é obra de suas mãos, mesmo que não saibamos, em termos científicos, a maneira pela qual a sua Palavra trouxe todas as coisas à existência. A origem divina de tudo o que existe não significa que nosso planeta é uma extensão de Deus ou muito menos que mereça nossa adoração. Significa que ele merece nosso respeito e nosso cuidado, como o lar que Deus preparou para nós e os demais seres vivos. Significa também que Deus é o soberano Senhor da criação, como disse Davi, rei de Israel, muito tempo atrás: “Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam” (Salmo 24.1).
 
2) O mundo foi criado bom. “E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gênesis 1.31a). “Muito bom” é o veredito do Criador sobre a natureza. Ela foi declarada boa tanto pelo seu valor intrínseco quanto por sua perfeita adequação às necessidades humanas. Isso difere da visão do antigo dualismo entre matéria e espírito, que equiparava a matéria à desordem. De acordo com essa visão, a matéria é má e pecaminosa. Perspectivas que têm uma visão negativa do mundo físico ou que o separam da sua origem transcendente dificilmente podem nos dar alguma esperança de achar soluções racionais e abrangentes para nossos problemas ambientais.
 
3) O mundo funciona de acordo com leis e princípios estabelecidos por Deus. A convicção fundamental da ciência é que o mundo funciona de acordo com leis e princípios regulares e constantes e, portanto, previsíveis. Essa base é dádiva da visão cristã de que o mundo foi criado de forma ordenada por um único Deus, um Deus de ordem, e não por vários deuses ambíguos, contraditórios, incoerentes e caprichosos, a partir da matéria caótica, como acreditam alguns. Foram cientistas com as convicções acima, no todo ou em parte, que lançaram as bases da moderna ciência e da tecnologia, como os astrônomos Kepler e Galileu, os químicos Paracelso e Van Helmont, os físicos Newton e Boyle e os biólogos Ray, Lineu e Cuvier, para citar alguns. Somente com esses referenciais podemos entender o funcionamento do meio-ambiente, do mundo e seus recursos, perceber os desastres que estamos causando por violarmos essas leis e prever soluções.
 
4) O ser humano é único. De acordo com o Cristianismo, o ser humano foi criado por Deus juntamente com a natureza e os demais seres vivos. Nesse sentido, é parte integrante dela. Todavia, ele foi feito de forma única, à imagem e semelhança de Deus, o que o distingue do restante da criação. A imagem de Deus implica, entre outras coisas, que o ser humano foi dotado de inteligência e, portanto, pode interpretar as leis do mundo e prover os meios de preservá-lo. Em algumas cosmovisões o ser humano, a natureza e Deus estão em níveis idênticos e fazem parte de uma mesma substância, o que torna impossível ao ser humano transcender a natureza para poder analisá-la, dominá-la e ajudá-la.
 
5) O ser humano é mordomo da criação. “Tomou o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar” (Gênesis 2.15). Deus o colocou no mundo como seu gerente e lhe deu alguns mandatos: cuidar da criação, de onde tiraria seu sustento, protegê-la e preservá-la, conhecê-la, estudá-la, para assim conhecer melhor a si mesmo e a Deus. O ser humano é o mordomo de Deus. Não é o soberano senhor, dono e déspota, mas o responsável diante de Deus pelo emprego correto dos recursos naturais, pelo seu próprio desenvolvimento de forma sustentável e pela preservação dos demais seres vivos.
 
6) Vivemos num mundo afetado pelo pecado. De acordo com a Bíblia, quando o ser humano colocado no jardim se revoltou contra o Criador, precipitou no caos a si mesmo e a criação pela qual era responsável. “Maldita é a terra por tua causa” (Gênesis 3.17) foi a sentença do Criador ao ser humano, agora sujeito à morte, a retornar ao pó de onde fora tirado. Tensões se estabeleceram entre Deus e o ser humano, entre o ser humano e seus semelhantes, e entre o ser humano e a natureza. A crise que vivemos hoje se deve a estas tensões:
 
- Separado espiritualmente de Deus, o ser humano perdeu a referência da sua existência e da relação criatura-Criador. Essa última perda, em especial, afetou profundamente a sua maneira de ver o mundo, que ele ora agride e exaure, ora venera e teme como a um deus.
 
- Vivendo em tensão emocional em relação aos seus semelhantes, o indivíduo dedica-se a buscar seus próprios interesses, mesmo que à custa do próximo. A exploração egoísta e desenfreada dos recursos naturais é feita sem levar em consideração que os mesmos faltarão à próxima geração.
 
- Em tensão com a natureza, o ser humano a explora, agride e exaure, em nome do poder, do lucro e do progresso. O meio ambiente é para ele somente um bem de consumo.
 
Diante do exposto, entendemos que os problemas ambientais são primeiramente de origem moral e espiritual. Entendemos ainda que a solução passa pela transformação interior das pessoas, uma mudança de mentalidade com relação a Deus, ao próximo e à natureza. Em suma, é esse o apelo e o chamado do Evangelho.
 
Uma abordagem ecológica que tenha os fundamentos acima como referência poderá escapar dos extremos de algumas perspectivas populares:
 
1) Uma visão mística, em que o ser humano não mais é entendido como mordomo de Deus encarregado de cuidar, desenvolver e usar a natureza com sabedoria. Ao contrário, é entendido como servo dela, com a obrigação de preservá-la, como se ela fosse sagrada e como se o ser humano devesse manter uma atitude de adoração para com ela. Essa visão impede o uso inteligente e racional dos recursos naturais, a busca de soluções para os graves problemas humanos e o desenvolvimento do ser humano em geral.
 
2) Uma visão sentimentalista da natureza, que tem como ideal a vida rural. Por mais atraente que tal visão seja, ela não faz justiça à vocação e à responsabilidade do ser humano. O progresso do ser humano, conforme a Bíblia, é do jardim para cidade, e não necessariamente de volta para o campo. Essa visão, à semelhança da anterior, impede que o ser humano explore com sabedoria e responsabilidade os enormes recursos naturais à sua disposição e que podem promover seu progresso e bem-estar, e isso sem a depredação da natureza.
 
3) Uma visão antropocêntrica, que coloca o ser humano no centro e recorre a soluções tecnológicas para a crise ecológica que, além de serem extremamente caras, acabam mantendo a atitude de desprezo para com o meio-ambiente. Essa visão tende a agravar a crise e a lançar o ser humano cegamente no caminho da autodestruição.
 
Cremos que a fé cristã-reformada provê as premissas epistemológicas, morais, espirituais e éticas para que possamos lutar pelo meio ambiente e em prol do nosso planeta, fazendo ecologia de forma coerente e integral.
 
[1] Lynn White Jr., “The Historical Roots of Our Ecological Crisis”, In: Science, vol. 155, pp. 1203-1207, 10 de março de 1967.
 
Texto originalmente publicado no blog do autor
Foto: Pixabay

 
Pope Francis joined the general secretary of the World Council of Churches (WCC) and the moderator of its Central Committee at an ecumenical meeting during his landmark 21 June visit to the WCC to celebrate its 70th anniversary at an ecumenical meeting in Geneva.
 
WCC general secretary Rev. Dr Olav Fykse Tveit said, “This day is a landmark. We will not stop here. We will continue, we can do much more together for those who need us.”
 
The Pope began the visit by joining in prayers in the chapel of the Ecumenical Centre in Geneva after flying in from Rome and then visiting the Ecumenical Institute at Bossey, which is involved with theological formation.
 
In the afternoon Pope Francis again visited the Ecumenical Centre, where the WCC does much of its work. There he spoke along with Tveit and Dr Agnes Abuom, moderator of the Central Committee, an important WCC governing body.
 
“Here I would like to reaffirm that the Catholic Church acknowledges the special importance of the work carried out by the Faith and Order Commission and desires to keep contributing to that work through the participation of highly qualified theologians,” said Pope Francis.
 
“The quest of Faith and Order for a common vision of the church, together with its work of studying moral and ethical issues, touch areas crucial for the future of ecumenism.”
 
The Pope cited the active Catholic presence in the Commission on World Mission and Evangelism; collaboration with the Office for Interreligious Dialogue and Cooperation, most recently on the important theme of education for peace; and the joint preparation of texts for the Week of Prayer for Christian Unity.
 
Bossey Ecumenical Institute
 
“I also value the essential role played by the Bossey Ecumenical Institute in the training of future pastoral and academic leaders in many Christian churches and confessions worldwide,” said the Pope.
 
Tveit, in his address, said the papal visit to the WCC has shown how divisions, distance, and conflicts can be overcome as a sign of hope.
 
“Let us make it possible for the next generations to create new expressions of unity, justice, and peace – as we share more and more together,” said Tveit.
 
He said the visit shows “that it is possible to overcome divisions and distance, as well as deep conflicts caused by different traditions and convictions of faith.
 
“There are several ways from conflict to communion. And of course, we have not yet overcome all differences and divisions. Therefore we pray together that the Holy Spirit will guide us and unite us as we move on,” said Tveit.
 
50 years of cooperation
 
Pope Francis’ visit is the cornerstone of the ecumenical commemoration of the WCC's 70th anniversary and marks 50 years of cooperation with the Roman Catholic Church in the quest for Christian unity.
 
The theme of the visit is an “Ecumenical Pilgrimage - Walking, Praying and Working Together” and the meeting began with a prayer service at the Ecumenical Centre chapel.
 
“Your Holiness, your visit is a sign of this hope we share. It is a milestone in the relations among the churches. We are here as representatives of different churches and traditions from all over the world,” said the general secretary.
 
In 2017, Roman Catholic and Protestant Lutherans jointly commemorated the 500th anniversary of the Reformation which split a major part of Christianity apart when Martin Luther led protests over practices by the church that reverberated for centuries. Geneva was an important city in the Reformation.
 
But 500 years before that, the Great Schism of 1054, when the Greek Orthodox Church officially split with the Catholic Church, had also split Christianity.
 
Tveit noted, “By walking, praying and working together during these last 70 years, we have learned much about what it means to be a fellowship of churches.
 
“That is also how the relationship has developed between the WCC and the Roman Catholic Church after more than 50 years of cooperation.”
 
He explained that the profile of the work of the WCC and many of our partners today is “being together on a Pilgrimage of Justice and Peace.”
 
Tveit said the WCC and the Catholic Church work together for joint peace initiatives in many places in the world as they address the situation of refugees along with issues of economic justice and dealing with poverty.
 
“We work hard together to combat climate change and other threats to our environment. We promote inter-faith dialogues and initiatives for peace. We mobilize together for the Sustainable Development Goals. We prepare the annual prayers for Christian unity together.”
 
Moderator Abuom spoke on the fruits of cooperation with the Roman Catholic Church in “many concrete situations”.
 
“Let me just highlight how important it is that Christian churches look at each other as one, in South Sudan, how critical joint action for justice and peace is for the peace process in Colombia; how powerful it is to pray and work together for the reunification process in the Korean Peninsula; how much a concerted action is needed in Burundi and the Democratic Republic of Congo,” said Abuom.
 
She told Pope Francis his visit at the Ecumenical Centre in Geneva shows that the “churches’ commitment to unity for the sake of all humanity and all of God’s creation is alive and strong,” said the moderator, who is a Kenyan Anglican.
 
Fonte: WCC/CMI
Photo: Albin Hillert/WCC

 
O Papa Francisco deixou o Vaticano na manhã desta quinta-feira (21/06) para uma peregrinação ecumênica a Genebra.
 
Depois de uma hora e 40 minutos de voo, o Pontífice chegou à cidade suíça por volta das 10h, onde foi recebido pelo Presidente da Confederação Helvécia, Alain Berset, no aeroporto internacional da cidade para uma breve cerimônia de boas-vindas e um encontro privado.
 
Na sequência, o Papa se transferiu de carro até o Centro Ecumênico do Conselho Mundial de Igrejas, pois justamente este é o motivo dessa peregrinação: celebrar os 70 anos desta instituição, criada depois da II Guerra Mundial.
 
Mais de 500 milhões de fiéis
 
O Conselho Mundial de Igrejas (CMI) é a maior organização mundial do movimento ecumênico, com o mais alto número de membros: são 345 comunidades cristãs de mais de 110 países, com exceção da Igreja Católica, e compreende reformados, luteranos, anglicanos metodistas, batistas, ortodoxos e outras Igrejas. Representa mais de 500 milhões de fiéis em todo o mundo, cuja sede é Genebra.
 
No Centro Ecumênico do CMI, realizou-se uma oração comum, com a participação de cerca de 230 pessoas – ocasião em que o Pontífice pronunciou o primeiro discurso do dia.
 
Caminhar segundo o Espírito
 
Inspirado na leitura extraída da Carta aos Gálatas, Francisco propôs uma reflexão sobre a expressão “Caminhar segundo o Espírito” .
 
“Caminhar segundo o Espírito é rejeitar o mundanismo. É escolher a lógica do serviço e avançar no perdão. É inserir-se na história com o passo de Deus: não com o passo ribombante da prevaricação, mas com o passo cadenciado por «uma única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo» (Gal 5, 14).”
 
No decurso da história, afirmou o Papa, as divisões entre cristãos deram-se porque na raiz, na vida das comunidades, se infiltrou uma mentalidade mundana: primeiro cultivavam-se os próprios interesses e só depois os de Jesus Cristo. A direção seguida era a da carne, não a do Espírito.
 
“Mas o movimento ecumênico, para o qual tanto contribuiu o Conselho Ecumênico das Igrejas, surgiu por graça do Espírito Santo”, recordou o Papa.
 
Ser do Senhor
 
É preciso escolher ser de Jesus antes que de Apolo ou de Cefas, antepor o ser de Cristo ao fato de ser «judeu ou grego», ser do Senhor antes que de direita ou de esquerda, escolher em nome do Evangelho o irmão antes que a si mesmo.
 
A resposta aos passos vacilantes, prosseguiu o Papa, é sempre a mesma: caminhar segundo o Espírito, purificando o coração do mal, escolhendo com obstinação o caminho do Evangelho e recusando os atalhos do mundo.
 
“Depois de tantos anos de empenho ecumênico, neste septuagésimo aniversário do Conselho, peçamos ao Espírito que revigore o nosso passo. (…) Que as distâncias não sejam desculpas! É possível, já agora, caminhar segundo o Espírito. Rezar, evangelizar, servir juntos: isto é possível. Caminhar juntos, rezar juntos, trabalhar juntos: eis a nossa estrada-mestra.”
 
Unidade
 
Esta estrada tem uma meta concreta: a unidade. A estrada oposta, a da divisão, leva a guerras e destruições. “O Senhor pede-nos unidade; o mundo, dilacerado por demasiadas divisões que afetam sobretudo os mais fracos, invoca unidade.”
 
Francisco conclui seu discurso definindo-se um “peregrino em busca de unidade e de paz”. “Agradeço a Deus porque aqui encontrei irmãos e irmãs já a caminho. Que a Cruz nos sirva de orientação, porque lá, em Jesus, foram abatidos os muros de separação e foi vencida toda a inimizade: lá compreendemos que, apesar de todas as nossas fraquezas, nada poderá jamais separar-nos do seu amor.
 
Ecumenismo de sangue
 
Francisco mencionou também os cristãos perseguidos. “Estejamos ao seu lado. E lembremo-nos de que o nosso caminho ecumênico é precedido e acompanhado por um ecumenismo já realizado, o ecumenismo do sangue, que nos exorta a avançar.”
 
O Pontífice concluiu seu discurso com as seguintes palavras: “Ajudemo-nos a caminhar, rezar e trabalhar juntos, para que, com a ajuda de Deus, progrida a unidade e o mundo acredite”.
 
Fonte: Vatican News
Foto: AFP or licensors

 
The thirst for material things blinds human beings to their companions and that indifference abounds in the world’s streets today, Pope Francis said in a homily at the World Council of Churches (WCC) in Geneva today.
 
At the Ecumenical Centre, Pope Francis spoke about walking towards Christian unity and the pitfalls that we encounter on the journey.
 
“For us as Christians, walking together is not a ploy to strengthen our own positions, but an act of obedience to the Lord and love for our world.  Let us ask the Father to help us walk together all the more resolutely in the ways of the Spirit,” said the Pope.
 
“I wanted to take part personally in the celebrations marking this anniversary of the World Council, not least to reaffirm the commitment of the Catholic Church to the cause of ecumenism and to encourage cooperation with the member churches and with our ecumenical partners.
 
“Whenever we say ‘Our Father’, we feel an echo within us of our being sons and daughters, but also of our being brothers and sisters. Prayer is the oxygen of ecumenism,” said Francis.
 
The landmark visit of Pope Francis to the World Council of Churches on 21 June is the cornerstone of the ecumenical commemoration of the WCC's 70th anniversary.
 
On his arrival from Rome for his one-day visit, the pontiff held a brief private meeting with the President of the Swiss Confederation, Alain Berset, at Geneva’s international airport.
 
Pope Francis’ day at the WCC began with an ecumenical prayer service in the chapel of the Ecumenical Centre from where he delivered his homily on “walking the ecumenical journey.”
 
Founded in 1948
 
Founded in 1948, the WCC brings together 550 million Christians from Orthodox, Anglican, Methodist, Baptist, Lutheran and Reformed churches.
 
Although the Roman Catholic Church is not a WCC member it is a member of the WCC’s Faith and Order Commission and the two cooperate on many matters.
 
“The World Council of Churches was born in service to the ecumenical movement, which itself originated in a powerful summons to mission: for how can Christians proclaim the Gospel if they are divided among themselves?” said the Pope.
 
“The missionary mandate, which is more than diakonia and the promotion of human development, cannot be neglected nor emptied of its content.  It determines our very identity.”
 
Present during the homily were WCC general secretary, Rev. Dr Olav Fykse Tveit, Dr Agnes Abuom, the moderator of the WCC’s central committee, and committee vice-moderators Bishop Mary Ann Swenson and Metropolitan Gennadios. They were joined by members of the central committee, one of WCC’s main governing bodies.
 
Official contacts between the Roman Catholic Church and the WCC date from the early 1960s, following the decision by Pope John XXIII in 1959 to convene the Second Vatican Council.
 
In his homily delivered in the WCC Chapel, Pope Francis said human beings are constantly on the move, while noting that walking is a discipline needing “patience and exercise, day after day.”
 
He cited the Apostle Paul’s epistle to the Galatians (5:16) saying, “We can either walk in the Spirit along the path opened up by our baptism or else we can ‘gratify the desires of the flesh’.”
 
Francis said, “Driven by our instincts, we become slaves to unbridled consumerism, and God’s voice is gradually silenced.
 
“Other people, especially those who cannot walk on their own, like children and the elderly, then become nuisances to be cast aside. Creation then comes to have no other purpose than to supply our needs,” he said, speaking the day after World Refugee Day.
 
Francis noted that in the course of history, divisions between Christians had often arisen because “at their root, in the life of communities, a worldly mindset has seeped in.”
 
“Ecumenism made us set out in accordance with Christ’s will and it will be able to progress if, following the lead of the Spirit, it constantly refuses to withdraw into itself,” he said.
 
Fonte: CMI/WCC
Photo: Magnus Aronson/WCC

 
 
O papa Francisco está na Suíça "como peregrino ecumênico" para "caminhar, rezar e trabalhar em conjunto": foi o que disse o diretor da Sala de Imprensa vaticana Greg Burke, apresentando um briefing da viagem do Pontífice a Genebra, por ocasião das comemorações pelos 70 anos de fundação do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), organização ecumênica que reúne 345 comunidades cristãs de mais de 110 países, incluindo ortodoxas, anglicanas, metodistas, batistas, luteranas e reformadas.
 
Primeiro discurso papal
 
"Amados irmãos e irmãs!
 
Ouvimos as palavras do apóstolo Paulo aos Gálatas, a braços com transtornos e lutas internas. De facto, havia grupos que se contrapunham e acusavam mutuamente. É neste contexto que por duas vezes, em poucos versículos, o apóstolo convida a «caminhar segundo o Espírito» (cf. Gal 5, 16.25).
 
Caminhar: o homem é um ser a caminho. Durante toda a vida, é chamado a pôr-se a caminho, saindo continuamente donde se encontra: desde quando sai do ventre da mãe e vai passando duma idade da vida a outra; desde que deixa a casa dos pais até quando sai desta existência terrena. O caminho é uma metáfora que revela o sentido da vida humana, duma vida que não se basta a si mesma, mas está sempre à procura de algo mais. O coração convida-nos a caminhar, a alcançar uma meta.
 
Mas caminhar requer disciplina, causa fadiga; é necessária paciência diária e treinamento constante. É preciso renunciar a tantas estradas, para se escolher a que conduz à meta e mantê-la viva na memória para não se extraviar dela. Caminhar requer a humildade de rever os próprios passos e a solicitude pelos companheiros de viagem, porque só se caminha bem juntos. Em suma, caminhar exige uma conversão contínua de si mesmo.
 
É por isso que muitos desistem, preferindo a tranquilidade doméstica, onde pode cuidar comodamente dos seus negócios sem se expor aos riscos da viagem. Mas, assim, prende-se a seguranças efémeras, que não dão aquela paz e aquela alegria por que aspira o coração e que se encontram apenas saindo de si próprio.
 
A isto nos chama Deus, desde os primórdios. Já pedira a Abraão para deixar a sua terra, pondo-se a caminho armado apenas de confiança em Deus (cf. Gn 12, 1). De igual modo Moisés, Pedro e Paulo, e todos os amigos do Senhor viveram caminhando. Mas foi sobretudo Jesus que nos deu o exemplo. Por nós, saiu da sua condição divina (cf. Flp 2, 6-7) e desceu para caminhar entre nós, Ele que é o Caminho (cf. Jo 14, 6). Senhor e Mestre, fez-Se peregrino e hóspede no meio de nós. Tendo regressado ao Pai, deu-nos o seu próprio Espírito, para que também nós tenhamos a força de caminhar na sua direção, de realizar o que Paulo pede: caminhar segundo o Espírito.
 
Segundo o Espírito: se todo o homem é um ser a caminho e, fechando-se em si mesmo, renega a sua vocação, muito mais o cristão. Porque a vida cristã – assinala Paulo – depara-se com uma alternativa inconciliável: caminhar no Espírito, atendo-se ao traçado inaugurado pelo Batismo, ou «realizar os apetites da carne» (cf. Gal 5, 16).
 
Que significa esta última expressão? Significa tentar realizar-se seguindo o caminho da acumulação de bens, a lógica do egoísmo, segundo a qual o homem procura, aqui e agora, agarrar tudo o que lhe apetece. Não se deixa levar docilmente para onde Deus indica, mas segue a própria rota. Temos diante dos olhos as consequências deste percurso trágico: na sua voracidade de coisas, o homem perde de vista os companheiros de viagem; em consequência, pelas estradas do mundo reina uma grande indiferença.
 
Impelido pelos seus instintos, torna-se escravo dum consumismo desenfreado; em consequência, a voz de Deus é silenciada, os outros – sobretudo se incapazes de caminhar pelo próprio pé como bebés e idosos – são descartados porque importunos, a criação serve apenas para produzir à medida das necessidades.
 
Amados irmãos e irmãs, mais do que nunca interpelam-nos hoje estas palavras do apóstolo Paulo: caminhar segundo o Espírito é rejeitar o mundanismo. É escolher a lógica do serviço e avançar no perdão. É inserir-se na história com o passo de Deus: não com o passo ribombante da prevaricação, mas com o passo cadenciado por «uma única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo» (Gal 5, 14). De facto, o caminho do Espírito está assinalado pelos marcos miliários que Paulo enumera: «amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gal 5, 22).
 
Somos chamados, juntos, a caminhar assim: a estrada passa por uma conversão contínua, pela renovação da nossa mentalidade para que se amolde ao Espírito Santo. Muitas vezes, no decurso da história, as divisões entre cristãos deram-se porque na raiz, na vida das comunidades, se infiltrou uma mentalidade mundana: primeiro cultivavam-se os próprios interesses e só depois os de Jesus Cristo. Nestas situações, o inimigo de Deus e do homem não teve dificuldade em separar-nos, porque a direção seguida era a da carne, não a do Espírito.
 
Mais, algumas tentativas do passado para acabar com tais divisões falharam miseravelmente, porque inspiradas sobretudo por lógicas mundanas. Mas o movimento ecuménico, para o qual tanto contribuiu o Conselho Ecuménico das Igrejas, surgiu por graça do Espírito Santo (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Unitatis redintegratio, 1). O ecumenismo pôs-nos em movimento segundo a vontade de Jesus e poderá avançar se, caminhando sob a guia do Espírito, recusar toda a reclusão autorreferencial.
 
Mas – poder-se-ia objetar – caminhar assim é trabalhar com prejuízo, porque não se tutelam devidamente os interesses das próprias comunidades, muitas vezes solidamente ligados a origens étnicas ou a orientações consolidadas, sejam estas de tipo mais «conservador» ou mais «progressista».
 
Sim, escolher ser de Jesus antes que de Apolo ou de Cefas (cf. 1 Cor 1, 12), antepor o ser de Cristo ao facto de ser «judeu ou grego» (cf. Gal 3, 28), ser do Senhor antes que de direita ou de esquerda, escolher em nome do Evangelho o irmão antes que a si mesmo significa frequentemente, aos olhos do mundo, trabalhar com prejuízo.
 
O ecumenismo é «um grande empreendimento com prejuízo». Mas trata-se de prejuízo evangélico, segundo o caminho traçado por Jesus: «Quem quiser salvar a sua vida, há de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há de salvá-la» (Lc 9, 24). Salvaguardar-se a si próprio é caminhar segundo a carne; perder-se seguindo Jesus é caminhar segundo o Espírito. Só assim se produz fruto na vinha do Senhor.
 
Como ensina o próprio Jesus, não quantos amealham produzem fruto na vinha do Senhor, mas os que, servindo, seguem a lógica de Deus, o Qual continua a dar e a dar-Se (cf. Mt 21, 33-42). É a lógica da Páscoa, a única que dá fruto.
 
Contemplando o nosso caminho, podemos ver espelhadas nele algumas situações das comunidades da Galácia de então: como é difícil amortecer as animosidades e cultivar a comunhão, como é duro sair de contrastes e rejeições mútuas alimentadas durante séculos! E mais árduo ainda é resistir à tentação subtil de estar junto com os outros, caminhar junto, mas com a intenção de satisfazer algum interesse de parte. Esta não é a lógica do Apóstolo; é a de Judas, que caminhava junto com Jesus, mas para proveito dos seus negócios.
 
A resposta aos nossos passos vacilantes é sempre a mesma: caminhar segundo o Espírito, purificando o coração do mal, escolhendo com santa obstinação o caminho do Evangelho e recusando os atalhos do mundo.
 
Depois de tantos anos de empenho ecuménico, neste septuagésimo aniversário do Conselho, peçamos ao Espírito que revigore o nosso passo. Este detém-se, com demasiada facilidade, à vista das divergências que persistem; muitas vezes bloqueia-se logo à partida, entorpecido pelo pessimismo. Que as distâncias não sejam desculpas! É possível, já agora, caminhar segundo o Espírito. Rezar, evangelizar, servir juntos: isto é possível e agradável a Deus. Caminhar juntos, rezar juntos, trabalhar juntos: eis a nossa estrada-mestra.
 
Esta estrada tem uma meta concreta: a unidade. A estrada oposta, a da divisão, leva a guerras e destruições. O Senhor pede-nos para embocar continuamente o caminho da comunhão, que leva à paz. De facto, a divisão «contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura» (Decr. Unitatis redintegratio, 1). O Senhor pede-nos unidade; o mundo, dilacerado por demasiadas divisões que afetam sobretudo os mais fracos, invoca unidade.
 
Amados irmãos e irmãs, desejei vir aqui, peregrino em busca de unidade e de paz. Agradeço a Deus porque aqui vos encontrei a vós, irmãos e irmãs já a caminho. Caminhar juntos, para nós cristãos, não é uma estratégia para fazer valer mais o nosso peso, mas um ato de obediência ao Senhor e de amor pelo mundo. Peçamos ao Pai para caminhar juntos, com mais vigor, nos caminhos do Espírito. Que a Cruz nos sirva de orientação no caminho, porque lá, em Jesus, foram abatidos os muros de separação e foi vencida toda a inimizade (cf. Ef 2, 14): lá compreendemos que, apesar de todas as nossas fraquezas, nada poderá jamais separar-nos do seu amor (cf. Rm 8, 35-39)."
 
Fonte: Vatican News
Foto: WCC/CMI

 
 
O papa Francisco chegou em Genebra nesta quinta-feira, 21 de junho, por ocasião das comemorações dos 70 anos de fundação do Conselho Mundial de Igrejas (CMI).
 
O organismo – que já foi visitado por Paulo VI em 1969 e por João Paulo II em 1984 – é a mais ampla e inclusiva expressão organizada do movimento ecumênico, enquanto organização mundial com o número mais alto de Igrejas membro.
 
O CMI reúne, de fato, 345 comunidades cristãs de mais de 110 países e compreende luteranos, reformados, anglicanos, metodistas, batistas, ortodoxos, além de outras denominações cristãs. No total, representa mais de 500 milhões de fiéis em todo o mundo. A Igreja Católica não é membro pleno, mas participa de dois organismos do CMI.
 
Atualmente, as ações do CMI são centradas em três áreas programáticas: unidade, missão e relações ecumênicas; testemunho público e diaconia; formação ecumênica.
 
Diversos brasileiros estão presentes em Genebra. Entre eles, o teólogo e pastor luterano Dr. Walter Altmann, que representou o CMI no Sínodo da Família, realizado em outubro de 2015. Ele falou ao Vatican News, sobre o significado desta visita:
 
“Trata-se de mais uma clara afirmação do compromisso ecumênico da Igreja Católica e do Papa Francisco e, ao mesmo tempo, um igualmente claro reconhecimento do papel histórico fundamental desempenhado pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI) no movimento ecumênico”.
 
Quais as expectativas para a visita e que frutos se pode esperar para o diálogo ecumênico?
 
“Sem dúvida, haverá um impulso significativo à cooperação ecumênica mundo afora. É de se esperar também a intensificação dos laços institucionais já existentes entre o Vaticano e o CMI. A Igreja Católica Romana, embora não seja membro pleno do CMI, exerce membresia plena na Comissão de Fé e Ordem e na Comissão de Missão Mundial e Evangelismo, organismos do CMI, mas que inclusive precederam à criação do CMI em 1948”.
 
A primeira "atividade" em Genebra no dia 21, será a Oração Ecumênica. Ou seja, a exemplo de Lund, começa-se pela Oração. Qual o significado disto?
 
“Atualmente a cada ano realiza-se em todo mundo a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. O início dessa prática se deu já no começo do século 20, portanto bem antes da constituição do CMI e da realização do Vaticano II. Isso tem também um bom sentido teológico e espiritual: a unidade almejada não provém primordialmente de esforços e projetos humanos, mas da ação do próprio Deus. Assim, da prática da oração derivam os atos concretos de cooperação. Por isso, na visita do Papa Francisco ao CMI, o primeiro será nos unirmos em oração”.
 
Quais campos mais abertos atualmente para uma ação conjunta entre o Conselho Mundial de Igrejas e a Igreja Católica?
 
“Aos 70 anos de existência, o CMI tem entendido toda sua programação como uma peregrinação na paz e na justiça. Nisso há uma perfeita sintonia com objetivos do peregrinar da Igreja Católica. Nesse campo há muitas áreas de cooperação já existente ou possível. Menciono, por exemplo, atenção a refugiados, direitos humanos, voz profética em favor da paz, cuidado da criação, denúncia de estruturas sociais e políticas discriminatórias e opressoras. Assim como Cristo no Evangelho se identificou com as pessoas que padecem necessidades, também as Igrejas são vocacionadas a se colocar ao lado das pessoas mais vulneráveis em nossas sociedade. E o Papa Francisco tem sido exemplar em dar gestos concretos desse compromisso de misericórdia”.
 
E também, onde encontram-se as maiores dificuldades, os maiores desafios...
 
“Há, naturalmente, sensíveis resistências ao ecumenismo dentro de nossas Igrejas. Isso demanda de quem assumiu o ecumenismo uma amorosa persistência. O maior sofrimento entre os fiéis das Igrejas, penso ser que até agora não tenha sido possível chegarmos a um entendimento comum que possibilite a participação conjunta na Mesa do Senhor, ou seja, na Eucaristia. Enquanto não pudermos chegar a esse compartilhamento, nossa unidade ainda será deficiente. Por isso mesmo: devemos perseverar diligentemente na prática do ecumenismo”.
 
Fonte: Vatican News
Foto: WCC/CMI

 
Neste domingo, 24 de junho, será realizado em Brasília o Ato pela Caminhada Pegadas de Ternura. A ação, que ocorrerá de 11h30 até 12h00 no Parque Ana Lídia, dentro do Parque da Cidade Sarah Kubitschek, tem como objetivo ser uma mobilização de enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes.
 
O mesmo Ato irá passar por 20 países da América Latina e Caribe, percorrendo 15 mil quilômetros durante um ano, com o objetivo de mobilizar a sociedade civil no desafio de eliminar a violência contra as crianças e adolescentes. A passeata é organizada pela ONG Visão Mundial América Latina e Cabine, em parceria com o Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), a Cáritas América Latina e Caribe e a Federação Internacional Fé e Alegria. No Brasil, a Caminhada conta ainda com a parceria da RENAS, Rede Mãos Dadas, CONIC e Igreja Metodista. 
 
Contexto brasileiro
 
Dias atrás, o assassinato bárbaro da jovem Vitória Gabrielly Guimarães Vaz, 12 anos, comoveu o país. O caso dela é apenas mais um entre centenas que ocorrem a cada dia. Muitos sem punição. De acordo com o Unicef - Fundo das Nações Unidas para a Infância -, o Brasil está entre os cinco países sem conflito armado com as piores taxas em homicídio de adolescentes.
 
Ainda segundo o Unicef, em todo o mundo, cerca de 15 milhões de adolescentes meninas, de 15 a 19 anos, foram vítimas de relações sexuais ou outros atos sexuais forçados. Dados de 28 países indicam que 90% das adolescentes vítimas disseram que o autor da primeira violação era alguém próximo ou conhecido. E apenas 1% das que sofreram violência sexual disseram que buscaram ajuda profissional.
 
Ana Lídia
 
O local que receberá esse Ato tem um nome ligado a essa triste realidade: Ana Lídia
 
A menina tinha apenas 7 anos quando a sequestraram em Brasília, no dia 11 de setembro de 1973. A menina foi torturada, morta por asfixia e estuprada, morte que, segundo os peritos que analisaram seu corpo, teria ocorrido na madrugada do dia seguinte. Seu corpo foi encontrado por policiais às 13h de 12 de setembro. Estava semienterrado numa vala, próxima à qual havia marcas de pneus de moto e 2 camisinhas. A menina estava nua, com marcas de cigarro e com os cabelos mal cortados.
 
Os suspeitos do crime foram o próprio irmão que, junto à namorada e alguns filhos de políticos e importantes membros da sociedade brasiliense. Mas os culpados nunca foram apontados, e o caso Ana Lídia tornou-se mais um símbolo da impunidade durante a ditadura militar.
 
"É muito importante que estajamos unidos na defesa dos mais vulneráveis. Não podemos conceber que um país que se vende como 'o país do futuro' trate com tanto desdém nossas crianças e adolescentes, logo eles, que são o futuro da nação. O CONIC apoia esse Ato e motiva para que nas celebrações deste domingo, 24, possamos acolher a proposta da caminhada e soltar balões brancos em memória de Vitória Gabrielly, das crianças e adolescentes separadas dos pais nas fronteiras dos EUA e das muitas outras que sofrem violência e abuso nas famílias e na sociedade", declarou a secretária-geral do Conselho, Romi Bencke.

 
 
Em 1904, o afro-americano Luther Holbert foi amarrado a uma árvore em Doddsville, no Estado americano do Mississippi, por uma multidão que o acusava de matar um fazendeiro branco. Naquela época, os Estados Unidos viviam um período de violência e segregação raciais.
 
Junto de Holbert, também presa a uma árvore, estava uma mulher - acredita-se que era sua esposa. Ambos foram obrigados a erguerem as mãos. Em seguida, seus dedos foram cortados um a um, e depois jogados para a multidão, como uma espécie de souvenir macabro. Suas orelhas também foram cortadas.
 
Além disso, os dois foram espancados. Uma espécie de saca-rolhas foi usada para fazer buracos em seus corpos e retirar pedaços de suas carnes. Finalmente, Holbert e a mulher foram jogados em uma fogueira e morreram queimados.
 
A tortura e o assassinato de Holbert e da mulher desconhecida foram assistidos por uma multidão de homens, mulheres e até crianças, todos brancos. Enquanto presenciava o linchamento, o público comia ovos recheados e bebia limonada ou uísque, com a mesma atitude tranquila de quem está fazendo um piquenique.
 
Este episódio de linchamento brutal está longe de ter sido o único nos Estados Unidos. Entre 1877 e 1950, 4,4 mil pessoas foram linchadas no país, segundo registros da Iniciativa por uma Justiça Igualitária (EJI, na sigla em inglês), uma organização não governamental. A grande maioria delas eram pessoas negras.
 
É o que os historiadores chamam de "era dos linchamentos". Não era uma forma de fazer justiça pelas próprias mãos. Tratava-se, na verdade, de crimes raciais.
 
 
Linchamentos foram anunciados nos jornais da época
 
A "era dos linchamentos" se estendeu até meados do século 20. Seu ápice foi entre 1890 e 1930, explica Stewart Tolnay, professor de Sociologia da Universidade de Washington.
 
Em alguns casos, inclusive, eram publicados anúncios nos jornais, convocando as massas para participarem. "Três mil pessoas vão queimar um negro", dizia uma notícia do New Orleans State, de 1919. "John Hartfield será linchado por uma multidão de Ellisville às 5 da tarde de hoje", falava o Daily News de Jackson, Mississipi, do mesmo período.
 
"Os casos em que os linchamentos foram anunciados nos jornais são poucos, ainda que tenham resultado em algumas das maiores multidões. Mais frequentes foram os casos em que massas pequenas detinham e linchavam alguém, a quem acusavam de ter cometido um tipo de crime. Eram eventos rotineiros e silenciosos", indica Tolnay, que publicou dois livros e diversos artigos sobre o tema.
 
O fato de estas mortes poderem ser anunciadas na imprensa, com antecedência, demonstra que não se tratava de ações impulsivas executadas por uma turba exaltada. Havia um planejamento. Some-se a isso que era muito raro que os linchadores fossem julgados.
 
A EJI destaca que as mortes não eram resultado da ação de uns poucos extremistas, mas sim atos públicos violentos que contavam com a participação de toda uma comunidade. Além disso, eram toleradas pelas autoridades e os responsáveis não enfrentavam nenhum tipo de consequência legal.
 
"Os linchamentos eram atos de violência racial que estavam no centro de uma campanha sistemática de terror que perpetuava e respaldava uma ordem social injusta. Estes linchamentos eram terrorismo", aponta a organização em seu informe.
 
De supostos crimes ao simples fato de esbarrar em brancos
 
A maior parte de vítimas de linchamentos era negra. Entre 1882 e 1889, a proporção era de 4 negros para cada branco. Posteriormente, entre 1890 e 1900, aumentou para 6 negros para cada branco. Depois disso, chegou a 17 para 1.
 
Segundo o estudo da EJI, cerca de 30% dos afro-americanos linchados foram acusados de homicídio. Outros 25% foram acusados de agressão sexual. "A definição de violação sexual de um negro a uma branca no Sul dos Estados Unidos era incrivelmente ampla. Não era necessário o uso da força, porque a maior parte dos brancos rechaçava a ideia de que uma mulher branca poderia consentir uma relação sexual com um negro", considera a organização.
 
Outras centenas de negros perderam a vida acusados de provocar incêndio, praticar roubo ou simplemente por "vadiagem".
 
Havia acusações mais banais. Segundo o estudo da EIJ, o afro-americano Jesse Thornton foi linchado em Luverne, Alabama, em 1940 por ter se referido a um policial pelo nome, e não por "senhor". Já em 1916, Jeff Brown foi linchado em Cedarbluff, Mississipi, por tropeçar acidentalmente em uma jovem branca enquanto corria para pegar o trem. O soldado Charles Lewis foi linchado em 1918, em Hickman, Kentucky, por se negar a esvaziar os bolsos enquanto estava vestindo seu uniforme militar.
 
O professor Stewart Tolnay aponta que os linchamentos não eram uma forma de justiça popular frente a um sistema de justiça oficial que não funcionava.
 
"Havia um sistema penal perfeitamente adequado que podia lidar com os delinquentes, fossem eles brancos ou negros. O linchamento dos negros tinha um objetivo diferente: deixar uma mensagem muito clara para a comunidade negra de que havia limites para sua ascenção social", afirma Tolnay.
 
Já os brancos que eram linchados costumavam fazer parte de uma camada marginalizada da sociedade, explica Tolnay. Eles "nunca eram linchados pelos motivos banais pelos quais os negros eram mortos. Além disso, não costumavam sofrer torturas", afirma Tolnay.
 
Negros foram privados de direitos
 
A "era dos linchamentos" teve seu epicentro no Sul dos Estados Unidos. Se iniciou depois do fim da guerra civil americana e da declaração formal de fim da escravidão, em 1863. Para os pesquisadores, não se trata de coincidência.
 
"Depois da guerra civil, cerca de 4 milhões de escravos negros se tornaram livres e passaram a competir com os brancos (por empregos) nas economias dos estados do Sul", explica Tolnay.
 
"Os negros foram ameaçados até que ficaram completamente privados de direitos de participação política, por volta do ano 1900, e o Sul ficou governado pelo sistema de castas raciais, no qual havia uma clara linha de separação entre a 'raça branca superior' e a 'raça negra subordinada'".
 
"Os brancos ricos eram a elite e os brancos pobres usavam o linchamento para reforçar esse sistema de castas raciais e reduzir as probabilidades de ascenção social dos negros do Sul", acrescenta.
 
Afro-americanos fugiram do Sul para o Norte
 
Os linchamentos foram uma das causas da migração massiva de cerca de 6 milhões de afro-americanos do Sul para o Norte dos Estados Unidos, entre 1915 e 1970. No Norte, se estabeleceram em guetos.
 
Essa redistribuição da população reduziu a disponibilidade de mão-de-obra barata no Sul, algo que segundo Tolnay pode ter convencido as elites do Sul sobre a necessidade de mudanças.
 
"Os linchamentos se converteram em algo vergonhoso para o Sul, à medida que a economia se desenvolvia. A elite branca tentava atrair capitais externos, então precisava mudar a imagem do Sul. Essa era uma prática brutal, espantosa e desumana, que não ajudava", assinala o professor.
 
Deste modo, o fenômeno foi se reduzindo até acabar. Mas sem que, segundo a ONG EJI, houvesse um processo de reconhecimento da brutalidade do passado e de reconciliação, como ocorreu na Alemanha com relação ao Holocausto ou na África do Sul sobre o apartheid.
 
Monumento para lembrar as vítimas
 
Apesar de ser uma parte importante da história dos Estados Unidos, a "era dos linchamentos" é pouco conhecida. Para mudar isso, em 26 de abril, foi inaugurado o Monumento Nacional pela Paz e Justiça em Montgomery, no Estado americano do Alabama.
 
"Diga o nome de um afro-americano linchado entre 1877 e 1950? A maior parte das pessoas não conhece nenhum. Milhares de pessoas morreram, mas não se pode nomear uma sequer? Por quê? Porque não temos falado sobre isso", comentou Bryan Stevenson, fundador da EJI, sobre o motivo por trás da criação do Monumento.
 
O Monumento espera apresentar para o público o contexto da história do terror racial nos Estados Unidos, com o uso de recursos artísticos. Além disso, foram criados mais de 800 memoriais de aço de cerca de 2 metros de altura, um para cada condado dos Estados Unidos onde afro-americanos foram linchados. Neles, estará grafado o nome das vítimas.
 
Cada um desses monumentos tem uma réplica, que a EJI espera entregar para as regiões correspondentes. A ideia é que as esculturas sejam expostas nos próprios locais, recordando as histórias de linchamento.
 
Para os responsáveis da EJI, o número de regiões que solicitarem o envio dessas réplicas será um indicador de quanto se avançou no caminho da verdade e da reconciliação.
 
Fonte: BBC
Fotos: Reprodução/GETTY IMAGES