Um dos grandes defensores do direito universal ao abastecimento denuncia: privatização fracassou, ao excluir bilhões e multiplicar desastres ambientais. Porém, prossegue — movida por oligarquia global cuja soberba ameaça o planeta.
 
Três razões para repensar a água:
 
1. A mercantilização, monetização e privatização da água e dos serviços hídricos: danos e falhas
 
Sob a vaga “triunfante” da chamada “terceira revolução industrial” (tecnologias da informação e da comunicação, biotecnologia, novos materiais, transportes e energias renováveis) e da globalização desregulada que emerge da economia capitalista de mercado, todas as formas de vida foram mercantilizadas noss últimos 50 anos, e tudo o que um dia foi considerado como serviço público essencial para a vida e o viver juntos, sob a responsabilidade coletiva das comunidades humanas, foi privatizado e submetido às “regras” dos mercados financeiros mundiais cada vez mais alienados da economia real.
 
O valor de todos os bens foi definido principalmente em relação ao seu valor mercantil. Os recursos naturais foram reduzidos unicamente a fontes de extração, até seu esgotamento, para a riqueza financeira dos mais fortes, dos mais competitivos. Tambem os bens construídos pelos seres humanos – tais como conhecimento, habitação, saúde, educação, segurança da existência e do futuro, foram monetizados, financeirizados, privatizados. Em 1980 a Corte Suprema dos Estados Unidos legalizou, pela primeira vez na história da humanidade, a privatização da vida para obtenção de lucro (patenteamento da vida) – um escândalo – incluindo a herança genética dos seres humanos, para não mencionar as espécies vivas de animais, plantas e micróbios. Pela Diretiva 98/44 / CE, a União Europeia seguiu o exemplo em 1998.
 
O monopólio predador da vida não poupou a água e os serviços hídricos do longo ciclo da água. As autoridades públicas “nacionais”, que ainda têm o poder formal da regulação legislativa, política, judiciária e de sanção em todos os domínios da água (doce e salgada), delegaram “a gestão dos recursos hídricos” a empresas privadas, muitas vezes grandes grupos industriais-industriais multinacionais como Suez, Vivendi, Thames Water, Águas de Barcelona…). Pior, também impuseram uma concepção de água estritamente econômica, utilitarista e mercantil, consagrada em 1993 pelo Banco Mundial em seu documento-bíblia da política da água denominado “Integrated Water Resources Management”. Essas teses são fundados sobre o princípio (dogmático) de que a água deve ser considerada essencialmente como um bem econômico, submetido às “regras” da rivalidade e da exclusão. Daí a imposição da obrigação de, para ter acesso à água e aos serviços hídricos, pagar um preço de mercado, segundo o princípio “a água financia a água”: o financiamento da infraestrutura e dos serviços hídricos é obrigatoriamente assegurado pelo pagamento de uma conta pelos consumidores, como para todos os outros bens de controle privado. Segundo essas teses, os usuários dos serviços hídricos não são cidadãos que têm direitos, mas consumidores que têm necessidades, das quais se pode tirar vantagem. Assim nossas sociedades abandonaram a visão da água enquanto um bem comum público e jogaram às urtigas o reconhecimento do direito universal à água potável e ao saneamento ainda assim consagrado em 28 de julho de 2010 por uma resolução da Assembleia Geral da ONU. Isso mostra o respeito que têm os Estados pelas decisões da ONU.
 
Vendidas como signos da nova era da globalização planetária de alta intensidade tecnocientífica, a mercantilização da água (e da natureza) e a privatização dos serviços hídricos são reveladas em suas grandes falhas: depois de quarenta anos conduzidos em nome dos dogmas do capitalismo mundial (selvagem e “renano”), nem os seres humanos, nem o mundo da água (rios com lençóis freáticos, lagos com zonas úmidas, água potável com águas minerais naturais) saem ganhando. As devastações ambientais e humanas são consideráveis. Estima-se que o número de pessoas sem acesso à água em bases regulares e contínuas, na quantidade e qualidade essenciais para a vida, é próximo a quatro bilhões (uma violação inaceitável do direito à vida). Há rarefação crescente da água própria para uso humano em razão dos fenômenos persistentes da poluição e da contaminação de todos os corpos hídricos. A água permanece na raiz de muitos conflitos locais como parte de uma nova conquista global pela água, liderada abertamente pela Nestlé, Danone, Coca-Cola, PepsiCola, assim como pelas empresas extrativistas (petroleiras, mineradoras…), químicas e farmacêuticas, de informática e outros grandes consumidores de água de boa qualidade. É outro fracasso do projeto do preço a pagar (as tarifas aumentam em todo o mundo) e da gestão “transparente” e “participativa” (as empresas com ações em bolsas não sabem o que essas palavras significam).
 
Mesmo os ingleses – que estiveram entre os mais convictos promotores da água mercadoria e rentável para o capital privado – começam a falar em remunicipalização e em tornar novamente público o recurso água. A corrida pelo “ouro branco” resulta em um claro fracasso. Mas os custos humanos, sociais e financeiros não foram pagos, e não são ainda hoje, pelos grupos que impuseram a mercantilização e privatização – mas pelas próprias vítimas (os povos indígenas, os camponeses, os estratos sociais empobrecidos das cidades, subúrbios e favelas, crianças menores de seis anos, mulheres, minorias excluídas …).
 
Não podemos continuar no caminho dos fracassos, dos conflitos, das desigualdades, das exclusões, dos predadores.
 
2. Os fundamentos do “viver juntos” questionados: o Estado, o público, o bem comum, a segurança coletiva, a democracia. O que é a humanidade?
 
A segunda razão que nos obriga a “repensar a água” reside no fato de que o período mencionado colocou igualmente em evidência as profundas mudanças ocorridas na concepção e papel do Estado (e dentro dele, as comunidades locais: município, províncias regiões…) e dos poderes públicos em geral. O Estado atual não é mais, ou é cada vez menos, o Estado de direito e dos direitos. Os governos nacionais demoliram em quase toda parte o Estado de bem-estar, o Estado de seguridade social generalizada. A segurança de que os Estados ainda se sentem investidos foi reduzida à segurança militar (contra os inimigos estrangeiros) e de proteção da propriedade privada dos bens e pessoas abastadas (pensemos em “gated cities” ou “cidades trancadas”). A segurança ambiental e a justiça ambiental protegendo o bom estado ecológico dos bens e serviços naturais essenciais e insubstituíveis para a vida, assim como a convivência entre grupos sociais, comunidades humanas e povos ainda são conceitos e práticas a ser concretizadas.
 
Depois das três grandes Cúpulas da Terra (Rio, Joanesburgo, Rio) e as 23 COPs (Conferência das Partes da Convenção do Clima) da ONU sobre as mudanças climáticas, devemos nos interrogar sobre a perda substancial do sentido que nossas sociedades dão à vida, ao conjunto da comunidade global da vida. Onde está a sacralidade da vida, a sacralidade da água? Nesses últimos anos, as justificadas críticas à abordagem antropocêntrica do mundo e da vida permitiram promover uma visão mais holística e real da vida, ecocêntrica, pós-industrialista, e desenvolver novas teorias sobre os habitantes da terra e os sujeitos titulares de direitos. Movimentos “mundiais” desenvolveram-se em favor dos “direitos da natureza”, dos direitos dos animais, das plantas, das espécies microbianas, da integridade dos genomas… Assim, é importante considerar muito positivamente a pertinência da decisão tomada pelo parlamento neozelandês em 2017 de reconhecer o rio Whanganui como uma entidade viva, com status de “personalidade jurídica”, e que o mesmo reconhecimento tenha sido atribuído depois de alguns dias na Índia a dois rios, o Ganges e a Yamuna, onde os hindus praticam regularmente suas purificações, qualificados de “entidades vivas com o status de pessoa jurídica” pela alta corte do estado de Uttarakhand no Himalaia.
 
Qual o sentido a ser atribuido ao conceito de “habitantes da Terra”? Hoje, os que dominam não pensam que todos têm o direito de habitar a Terra. Basta observar o tratamento dos imigrantes, os chamados “refugiados econômicos”. Em que medida e como a globalização real da condição humana, no quadro de grandes interdependências e complexificação da vida na Terra, muda as visões que se tem dos “bens coumns da humanidade”, de “bens comuns publicos mundiais”?
 
Que significa hoje concretamente, para bilhões de pessoas, falar de “bem comum da humanidade?” O que realmente entendemos, para além da retórica, quando a ONU fala de “nosso futuro comum” e quando, mesmo o Forum Social Mundial fala de bens comuns, de “direitos da humanidade”? Quais são as relações diretas entre “direitos humanos universais” e “bens comuns”, “direitos da humanidade” e “direitos da natureza” e “bens comuns públicos mundiais”?
 
Qual é, nesse quadro, o sentido que damos ao Estado: que Estado queremos para o século 21? Um Estado que se situa na continuidade com a centralidade atribuida até o presente aos Estados soberanos “nacionais” no quadro de um multilateralismo inter-estatal em escala mundial? Em alternativa, um mundo fundado sobre a auto-organização política das comunidades humanas ou, por outro lado, a auto-organização de grupos espontâneos entre portadores de interesses (os “stakeholders”), caros ao mundo da economia capitalista? Nessa última hipótese, o que seria da democracia, uma vez os que dominam a estão jogando no lixo e continuam a substituí-la pela noção e a prática da “governança”, em que os atores chave são os portadores de interesse? Podemos confiar o governo da água em nível local até o nível mundial/planetário aos jogos de concorrência e às alianças oportunistas entre os stakeholders?
 
Para além disso, as questões da água levantam sérias interrogações sobre o sentido do conceito de público, pois as tendências atuais vão na direção de um enfraquecimento estrutural do conceito de público estatal para favorecer o desenvolvimento do papel do público não-estatal. A água enquanto bem (e serviço) comum público pertenceria a quais “esferas” do público? Se sabemos o que pode ser um público estatal local e nacional, quem poderia dizer o que poderia significar um público estatal no plano mundial/planetário? Não podemos deixar essas questões para o jogo do mercado e das finanças. O mundo necessita definir regras comuns. É preciso “repensar a água”, conceber e praticar um novo contrato social mundial da água.
 
3. Finalmente, as rupturas sociais, o agravamento das grandes desigualdades diante do direito à vida, em todos os níveis. Não podemos mais fingir que tudo é “natural”.
 
A terceira “razão” tem uma elevada probabilidade de ser a mais convincente. Diante da amplitude dos desastres climáticos em curso e previsíveis no horizonte de 2050, tomamos consciência de que a água será a principal vítima desses desastres. Tudo indica que, mesmo se forem respeitados os compromissos (modestos) assumidos em Paris na COP21 por ações fortes e coordenadas em plano mundial, o planeta não será poupado pela intensificação em frequência e gravidade dos fenômenos ditos extremos (inundações e secas). Estes irão impactar os regimes da água em todas as regiões do mundo, provocando grandes devastações sobre a quantidade e a qualidade disponível e acessível de água própria para uso humano. Todo o mundo prevê uma intensificação dos processos de rarefação da água.
 
Os grupos dominantes sofrerão menos com as devastações que as populações de regiões já confrontadas com a penúria de água e a má qualidade das águas. Por isso, as soluções propostas pelos que dominam são concebidas sobretudo em função de suas aspirações, necessidades e interesses. Face à rarefação, pretende-se reduzir a segurança hídrica à segurança de suas atividades econômicas, de sua riqueza e de seu bem-estar. Os acionistas da Coca-Cola estão muito inquietos por uma situação de crescente carência global de água! Segundo os que dominam, as opções “confiáveis” que eles impuseram nos últimos anos são unicamente em favor de duas estratégias: a estratégia de resilência (aumentar a capacidade das populações de reduzir os efeitos mais catastróficos das perturbações climáticas e da água), e a estratégia de adaptação (dar a si mesmo os meios para viver bem numa situação em que a temperatura média da atmosfera terrestre subirá 2ºC).
 
Não é necessário ser um especialista na matéria para compreender que resolução e adaptação serão acessíveis sobretudo aos grupos sociais já favorecidos, poderosos, possuidores dos recursos financeiros colossais necessários para realizar as duas estratégias. Considere comparar o provável futuro dos habitantes dos Países Baixos e os de Bangladesh em 2050. E por essa razão, os dominantes continuam a impor uma “gestão” desigual e injusta da vida e da água, enquanto proclamam sua fé no “desenvolvimento sustentável”, dissociando a água de todas as considerações relacionadas aos direitos da e à vida, à justiça social, à boa convivência, à democracia participativa.
 
O que, afinal, é repensar a água?
 
Para nós, repensar a água é liberar o futuro da humanidade e da comunidade global da vida de desigualdades e injustiças atuais em face dos direitos; a vida; libertar a humanidade das guerras pela água tantas vezes antecipadas como inevitáveis pelos que dominam e seus intelectuais; libertar o futuro da vida da dominação predatória dos velhos e novos “senhores da água” já em ação em todo o mundo; libertar este mundo do roubo da vida representado pelo empobrecimento e a exclusão; libertar a força criativa da utopia da prisão em que o pragmatismo, o realismo e o cinismo dos atuais dominantes a encerraram.
 
“Repensar a água” é recomeçar a abrir novos horizontes, é construir outros futuros para a humanidade de todos os habitantes da Terra.
 
Fonte: Outras Palavras
Texto: Riccardo Petrella 
Tradução: Inês Castilho
 
Foto: Paulino Menezes / WCC

 
 
 
Na manhã da última quinta-feira, 22 de março, o CONIC organizou um ato inter-religioso que marcou o fim das atividades do Fórum Alternativo Mundial da Água (fama2018.org). O ato foi realizado logo após a Marcha Política, que saiu às ruas de Brasília com o objetivo de reafirmar a água como um direito, não mercadoria. A seguir, veja a notícia veiculada na Rede Vida - um canal de notícias cristãs que está presente em todas as capitais brasileiras e nas 500 maiores cidades do Brasil, alcançando mais de 1.500 municípios.
 
Para assistir a reportagem completa, clique aqui ou na imagem abaixo:
 
 
Primeira foto: Paulino Menezes/WCC
Segunda foto: Reprodução Rede Vida

 
 
MENSAGEM DAS RELIGIÕES E ESPIRITUALIDADES AOS POVOS
Fórum Alternativo Mundial da Água
Brasília, 22 de março de 2018
 
As águas convocam
 
Nós, membros de diferentes tradições religiosas e espiritualidades, nos reunimos no Fórum Alternativo Mundial da Água realizado em Brasília/Brasil, nos dias 17 a 22 de março de 2018, para afirmar as Águas como Dom de Deus, Direito de todas as criaturas e Bem comum. Sentimo-nos convocados e convocadas pelas águas para ouvir seus clamores que brotam das graves situações socioambientais causadas pela ganância do ser humano que o leva a usar irresponsavelmente os recursos naturais. Armamos a nossa Tenda Inter-religiosa no FAMA 2018 e, em diálogo com os povos originários, movimentos populares, ONGs e outras organizações da sociedade civil, a partir dos nossos credos e em sintonia com toda a criação, afirmamos que a água é um direito e não mercadoria. 
 
As nossas tradições religiosas e espirituais têm uma relação profunda com as águas. Elas nos vinculam com a realidade do Transcendente através de nossas liturgias, de nossos ritos de iniciação, de purificação, de louvação e de agradecimento. Elas expressam características do criador, como Vida - sem água não há vida; Gratuidade - a água não é mercadoria; Liberdade - a água não pode ser privatizada; Comunhão - a água é um bem comum. Por isso, as águas têm para nós uma dimensão sagrada em sua origem e em sua finalidade: a vida que do divino procede e se realiza na existência de todas as criaturas. Como elemento vital as águas entrelaçam o natural e o espiritual, o sagrado e o profano, a mística e a política, a individualidade e a comunidade. Elas conectam os diferentes contextos locais e globais onde o curso da vida percorre na direção da fraternidade entre os povos, que partilham desse elemento essencial a todos: a água.
 
As águas clamam
 
As águas têm um movimento próprio, como um ser vivo que precisa seguir livremente o seu curso para gerar e sustentar outras vidas. Mas elas sofrem hoje os efeitos de um sistema movido por ambições de lucro e as consequências das mudanças climáticas, que alteram os seus ciclos e ameaçam a vida no planeta. Por isso  as águas clamam por justiça socioambiental que supere os projetos de privatização, mercantilização e  a depredação da natureza. 
 
O FAMA 2018 acontece no Brasil, onde as restrições do acesso à água expressam as escandalosas desigualdades sociais: o país que guarda 12% das reservas de água do mundo tem mais de 80% do seu povo sem acesso à água de qualidade. Cerca de 1/3 da população mundial está na mesma situação e mais da metade da humanidade não usufrui de saneamento básico seguro. Há tentativas de respostas meramente técnicas a esses problemas; outros apresentam soluções com interesses de obter lucros diante das graves situações em que se encontram os nossos mares, aquíferos, rios, córregos e nascentes. Tais propostas afetam diretamente os nossos povos, sobretudo indígenas, quilombolas, ribeirinhos e habitantes das periferias das cidades, aumentando ainda mais as desigualdades sociais e os sofrimentos principalmente de mulheres e crianças.  
 
Nesse contexto, ouvimos o clamor das águas por justiça e por direitos. A água é dom de Deus e não propriedade privada para ser comprada e vendida.  Por isso, o acesso à água de forma gratuita e livre é um direito de todos e todas. Para nossas tradições religiosas e espiritualidades, essa é uma forma privilegiada de viver a nossa fé no criador das águas de todo o planeta. Como nos ensinam os povos indígenas: se as águas nos foram dadas de graça, por que pagar por elas?
 
As águas nos enviam
 
Unimo-nos às vozes que denunciam toda ação que atenta contra o valor sagrado da água, transformando-a em mercadoria desprovida de vida e de direitos. Como religiosos e religiosas alçamos nossa voz profética, denunciando os projetos de morte e defendendo propostas éticas e políticas que superem a desordem provocada pelas injustiças sociais e ambientais. Para isso propomos como ações concretas:
 
Formação espiritual e teológica, técnica e política, que permita promover comunidades como sujeitos de relações justas para com a natureza, especificamente a água e seus territórios;
Ações de articulação, aliança e incidência que vinculem agendas locais com os processos regionais e globais de desenvolvimento sustentável, justiça climática e combate às desigualdades socioculturais;
Estratégias comuns de comunicação que favoreçam intercâmbios de experiências e de saberes, ações de denúncia pública e divulgação das alternativas que envolvem os povos nos processos de justiça para com a água e toda a criação. 
 
Convocamos todos os credos e as organizações baseadas na fé para que se integrem às vozes proféticas e às ações transformadoras na sociedade brasileira, latino-americana e de todos os continentes, vinculando mística e política no fortalecimento de projetos locais e globais que defendem as nossas águas como direito e não mercadoria, por serem elas dom de Deus e bem comum.
 
TENDA INTER-RELIGIOSA DO FÓRUM ALTERNATIVO MUNDIAL DA ÁGUA
 
Foto: Paulino Menezes/WCC

 
 
 
O Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA) 2018, encerra os seis dias de atividades, 17 a 22.03, com uma Marcha Política e Ato Inter-Religioso com o objetivo de denunciar o uso da água como uma mercadoria. Com mais de 200 atividades como palestras, debates, seminários, painéis, atividades autogestionadas e assembleias o evento foi realizado nos dias 17 e 18 na Universidade de Brasília (UnB) e entre os dias 20 a 22 as atividades foram realizadas no Parque da Cidade Sarah Kubitschek, em Brasília.
 
Durante o Ato Inter-Religioso (fotos abaixo), pessoas de diversas confissões religiosas compartilharam suas tradições e mitos e expressaram um sentimento comum: é preciso cuidar da água, que é um dom gratuido de Deus, e garantir que ela não seja tratada como mera mercadoria, mas como um bem, um direito humano fundamental que não pode ser privatizado ou surrupiado.
 
 
 
O maior evento mundial sobre a água foi organizado por 37 entidades ligadas aos povos e comunidades tradicionais, indígenas, camponeses, mulheres, religiosos, Movimentos Sindicais e Ambientais, ONGS, bem como, comitês criados nos Estados para o fórum. Ao longo dos 6 dias mais de mais de 7 mil pessoas passaram pelo evento.
 
O Fórum Alternativo debateu sobre os temas centrais de defesa pública e controle social das fontes de água, o acesso democrático a água, a luta contra as privatizações dos mananciais, as barragens e em defesa dos povos atingidos, serviços públicos de água e saneamento, as políticas públicas necessárias para o controle social do uso da água e preservação ambiental, que garanta o ciclo natural da água em todo o planeta, assim como apontou saídas e desafios.
 
Com o tema “Água é um direito, não Mercadoria” o FAMA 2018 contrapôs o debate que o Fórum Mundial da Água (FMA), organizado pelas cooperações e chefes de Estado.
 
Com informações do MST
Foto da Marcha: MST
Fotos do Ato Inter-Religioso: Claudia Florentin

 
 
Nesta quinta-feira (22), Dia Mundial da Água, encerra-se o Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA), que reuniu cerca de 7 mil pessoas por cinco dias em Brasília (DF), como contraponto ao fórum das corporações – Fórum Mundial da Água.
 
Compreendendo o FAMA como algo maior que um evento, as organizações que convergiram na construção da luta pela água divulgam esta declaração final. O compromisso fundamental é de se manter em luta, enraizar os processos de construção até aqui realizados e manter a mobilização viva.
 
O documento reafirma a luta contra qualquer privatização e o estabelecimento de propriedade privada da água. O FAMA defende a água como um bem comum, ou seja, que deve ser controlado e estar a serviço do povo, reforçando o lema do encontro: “Água é direito, não mercadoria”.
 
Assinam o documento 36 organizações. As demais entidades do Brasil e do mundo que quiserem subscrever o documento, devem enviar solicitação, até o dia 12 de abril, à Secretaria Operativa do FAMA, pelos e-mails: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo./Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..
 
Confira abaixo a íntegra da declaração:
 
DECLARAÇÃO FINAL DO FÓRUM ALTERNATIVO MUNDIAL DAS ÁGUAS
 
Quem somos
 
Nós, construtores e construtoras do Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA), reunidos de 17 a 22 de março de 2018, em Brasília, declaramos para toda a sociedade o que acumulamos após muitos debates, intercâmbios, sessões culturais e depoimentos ao longo de vários meses de preparação e nestes últimos dias aqui reunidos. Somos mais de 7 mil trabalhadores e trabalhadoras da cidade e do campo, das águas e das florestas, representantes de povos originários e comunidades tradicionais, articulados em 450 organizações nacionais e internacionais de todos os continentes. Somos movimentos populares, tradições religiosas e espiritualidades, organizações não governamentais, universidades, pesquisadores, ambientalistas, organizados em grupos, coletivos, redes, frentes, comitês, fóruns, institutos, articulações, sindicatos e conselhos.
 
Na grandeza dos povos, trocamos experiências de conhecimento, resistência e de luta. E estamos conscientes que a nossa produção é para garantir a vida e sua diversidade. Estamos aqui criando unidade e força popular para refletir e lutar juntos e juntas pela água e pela vida nas suas variadas dimensões. O que nos faz comum na relação com a natureza é garantir a vida. A nossa luta é a garantia da vida. É isso que nos diferencia dos projetos e das relações do capital expressos no Fórum das Corporações – Fórum Mundial da Água.
 
Também estamos aqui para denunciar a 8º edição do Fórum Mundial da Água (FMA), o Fórum das Corporações, evento organizado pelo chamado Conselho Mundial da Água, como um espaço de captura e roubo das nossas águas. O Fórum e o Conselho são vinculados às grandes corporações transnacionais e buscam atender exclusivamente a seus interesses, em detrimento dos povos e da natureza.
 
Nossas constatações sobre o momento histórico
 
O modo de produção capitalista, historicamente, concentra e centraliza riqueza e poder, a partir da ampliação de suas formas de acumulação, intensificação de seus mecanismos de exploração do trabalho e aprofundamento de seu domínio sobre a natureza, gerando a destruição dos modos de vida. Vivemos em um período de crise do capitalismo e de seu modelo político representado pela ideologia neoliberal, na qual se busca intensificar a transformação dos bens comuns em mercadoria, através de processos de privatização, precificação e financerização.
 
A persistência desse modelo tem aprofundado as desigualdades e a destruição da natureza, através dos planos de salvamento do capital nos momentos de aprofundamento da crise. Nesse cenário, as ações do capital são orientadas pela manutenção a qualquer custo das suas taxas de juros, lucro e renda.
 
Esse modelo impõe à América Latina e ao Caribe o papel de produtores de artigos primários e fornecedores de matéria prima, atividades econômicas intensivas em bens naturais e força de trabalho.  Subordina a economia desses países a um papel dependente na economia mundial, sendo alvos prioritários dessa estratégia de ampliação da exploração a qualquer custo.
 
O Brasil, que sedia esta edição do FAMA, é exemplar nesse sentido. O golpe aplicado recentemente expõe a ação coordenada de corporações com setores do parlamento, da mídia e do judiciário para romper a ordem democrática e submeter o governo nacional a uma agenda que atenda seus interesses rapidamente. A mais dura medida orçamentária do mundo foi implantada em nosso país, onde o orçamento público está congelado por 20 anos, garantindo a drenagem de recursos públicos para o sistema financeiro e criando as bases para uma onda privatizante, incluindo aí a infraestrutura de armazenamento, distribuição e saneamento da água.
 
Quais são as estratégias das corporações para a água?
 
Identificamos que o objetivo das corporações é exercer o controle privado da água através da privatização, mercantilização e de sua titularização, tornando-a fonte de acumulação em escala mundial, gerando lucros para as transnacionais e ao sistema financeiro. Para isso, estão em curso diversas estratégias que vão desde o uso da violência direta até formas de captura corporativa de governos, parlamentos, judiciários, agências reguladoras e demais estruturas jurídico-institucionais para atuação em favor dos interesses do capital. Há também uma ofensiva ideológica articulada junto aos meios de comunicação, educação e propaganda que buscam criar hegemonia na sociedade contrária aos bens comuns e a favor de sua transformação em mercadoria.
 
O resultado desejado pelas corporações é a invasão, apropriação e o controle político e econômico dos territórios, das nascentes, rios e reservatórios, para atender os interesses do agronegócio, hidronegócio, indústria extrativa, mineração, especulação imobiliária e geração de energia hidroelétrica. O mercado de bebida e outros setores querem o controle dos aquíferos. As corporações querem também o controle de toda a indústria de abastecimento de água e esgotamento sanitário para impor seu modelo de mercado e gerar lucros ao sistema financeiro, transformando direito historicamente conquistado pelo povo em mercadoria. Querem ainda se apropriar de todos os mananciais do Brasil, América Latina e dos demais continentes para gerar valor e transferir riquezas de nossos territórios ao sistema financeiro, viabilizando o mercado mundial da água
 
Denunciamos as transnacionais Nestlé, Coca-Cola, Ambev, Suez, Veolia, Brookfield (BRK Ambiental), Dow AgroSciences, Monsanto, Bayer, Yara, os organismos financeiros multilaterais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, e ONGs ambientalistas de mercado, como The Nature Conservancy e Conservation International, entre outras que expressam o caráter do “Fórum das Corporações”. Denunciamos o crime cometido pela Samarco, Vale e BHP Billiton, que contaminou com sua lama tóxica o Rio Doce, assassinando uma bacia hidrográfica inteira, matando inúmeras pessoas, e até hoje seu crime segue impune. Denunciamos o recente crime praticado pela norueguesa Hydro Alunorte que despejou milhares de toneladas de resíduos da mineração através de canais clandestinos no coração da Amazônia e o assassinato do líder comunitário Sergio Almeida Nascimento que denunciava seus crimes. Exemplos como esses têm se reproduzido por todo o mundo.
 
Os povos têm sido as vítimas desse avanço do projeto das corporações. As mulheres, povos originários, povos e comunidades tradicionais, populações negras, migrantes e refugiados, agricultores familiares e camponeses e as comunidades periféricas urbanas têm sofrido diretamente os ataques do capital e as consequências sociais, ambientais e culturais de sua ação.
 
Nos territórios e locais onde houve e/ou existem planos de privatização, aprofundam-se as desigualdades, o racismo, a violência sexual e sobrecarga de trabalho para as mulheres, a criminalização, assassinatos, ameaças e perseguição a lideranças, demissões em massa, precarização do trabalho, retirada e violação de direitos, redução salarial, aumento da exploração, brutal restrição do acesso à água e serviços públicos, redução na qualidade dos serviços prestados à população, ausência de controle social, aumentos abusivos nas tarifas, corrupção, desmatamento, contaminação e envenenamento das águas, destruição das nascentes e rios e ataques violentos aos povos e seus territórios, em especial às populações que resistem às regras impostas pelo capital.
 
A dinâmica de acumulação capitalista se entrelaça com o sistema hetero-patriarcal, racista e colonial, controlando o trabalho das mulheres e ocultando intencionalmente seu papel nas esferas de reprodução e produção. Nesse momento de ofensiva conservadora, há o aprofundamento da divisão sexual do trabalho e do racismo, causando o aumento da pobreza e da precarização da vida das mulheres.
 
A violência contra as mulheres é uma ferramenta de controle sobre nossos corpos, nosso trabalho e nossa autonomia. Essa violência se intensifica com o avanço do capital, refletindo-se no aumento de assassinato de mulheres, da prostituição e da violência sexual. Tudo isso impossibilita as mulheres de viver com dignidade e prazer.
 
Para as diversas religiões e espiritualidades, todas essas injustiças em relação às águas e seus territórios, caracterizam uma dessacralização da água recebida como um dom vital, e dificultam as relações com o Transcendente como horizonte maior das nossas existências.
 
Destacamos que para os Povos Originários e Comunidades Tradicionais há uma relação interdependente com as águas, e tudo que as atinge, e que todos os ataques criminosos que sofre, repercutem diretamente na existência desses povos em seus corpos e mentes. Esses povos se afirmam como água, pois existe uma profunda unidade entre eles e os rios, os lagos, lagoas, nascentes, mananciais, aquíferos, poços, veredas, lençóis freáticos, igarapés, estuários, mares e oceanos como entidade única. Declaramos que as águas são seres sagrados. Todas as águas são uma só água em permanente movimento e transformação. A água é entidade viva, e merece ser respeitada.
 
Por fim, constatamos que a entrega de nossas riquezas e bens comuns conduz a destruição da soberania e a autodeterminação dos povos, assim como a perda dos seus territórios e modos de vida.
 
Mas nós afirmamos: resistimos e venceremos!
 
Nossa resistência e luta é legítima. Somos os guardiões e guardiãs das águas e defensores da vida. Somos um povo que resiste e nossa luta vencerá todas as estruturas que dominam, oprimem e exploram nossos povos, corpos e territórios. Somos como água, alegres, transparentes e em movimento. Somos povos da água e a água dos povos.
 
Nestes dias de convívio coletivo, identificamos uma extraordinária diversidade de práticas sociais, com enorme riqueza de culturas, conhecimento e formas de resistência e de luta pela vida. Ninguém se renderá. Os povos das águas, das florestas e do campo resistem e não se renderão ao capital. Assim também tem sido a luta dos povos, dos operários e de todos os trabalhadores e trabalhadoras das cidades que demonstram cada vez maior força. Temos a convicção que só a luta conjunta dos povos poderá derrotar todas as estruturas injustas desta sociedade.
 
Identificamos que a resistência e a luta têm se realizado em todos os locais e territórios do Brasil e do mundo e estamos convencidos que nossa força deve caminhar e unir-se a grandes lutas nacionais e internacionais. A luta dos povos em defesa das águas é mundial.
 
Água é vida, é saúde, é alimento, é território, é direito humano, é um bem comum sagrado.
 
O que propomos
 
Reafirmamos que as diversas lutas em defesas das águas dizem em alto e bom som que água não é e nem pode ser mercadoria. Não é recurso a ser apropriado, explorado e destruído para bom rendimento dos negócios. Água é um bem comum e deve ser preservada e gerida pelos povos para as necessidades da vida, garantindo sua reprodução e perpetuação. Por isso, nosso projeto para as águas tem na democracia um pilar fundamental. É só por meio de processos verdadeiramente democráticos, que superem a manipulação da mídia e do dinheiro, que os povos podem construir o poder popular, o controle social e o cuidado sobre as águas, afirmando seus saberes, tradições e culturas em oposição ao projeto autoritário, egoísta e destrutivo do capital.
 
Somos radicalmente contrários às diversas estratégias presentes e futuras de apropriação privada sobre a água, e defendemos o caráter público, comunitário e popular dos sistemas urbanos de gestão e cuidado da água e do saneamento. Por isso saudamos e estimulamos os processos de reestatização de companhias de água e esgoto e outras formas de gestão. Seguiremos denunciando as tentativas de privatização e abertura de Capital, a exemplo do que ocorre no Brasil, onde 18 estados manifestaram interesse na privatização de suas companhias.
 
Defendemos o trabalho decente, assentado em relações de trabalho democráticas, protegidas e livre de toda forma de precarização. Também é fundamental a garantia do acesso democrático e sustentável à água junto à implementação da reforma agrária e defesa dos territórios, com garantia de produção de alimentos em bases agroecológicas, respeitando as práticas tradicionais e buscando atender a soberania alimentar dos trabalhadores e trabalhadoras urbanos e do campo, florestas e águas.
 
Estamos comprometidos com a superação do patriarcado e da divisão sexual do trabalho, pelo reconhecimento de que o trabalho doméstico e de cuidados está na base da sustentabilidade da vida. O combate ao racismo também nos une na luta pelo reconhecimento, titulação e demarcação dos territórios dos povos originários e comunidades tradicionais e na reparação ao povo negro e indígena que vive marginalizado nas periferias dos centros urbanos.
 
Nosso projeto é orientado pela justiça e pela solidariedade, não pelo lucro. Nele ninguém passará sede ou fome, e todos e todas terão acesso à água de qualidade, regular e suficiente bem como aos serviços públicos de saneamento.
 
Nosso plano de ações e lutas
 
A profundidade de nossas debates e elaborações coletivas, o sucesso da nossa mobilização, a diversidade do nosso povo e a amplitude dos desafios que precisam ser combatidos nos impulsionam a continuar o enfrentamento ao sistema capitalista, patriarcal, racista e colonial, tendo como referência a construção da aliança e da unidade entre toda a diversidade presente no FAMA 2018.
 
Trabalharemos, através de nossas formas de luta e organização para ampliar a força dos povos no combate à apropriação e destruição das águas. A intensificação e qualificação do trabalho de base junto ao povo, a ação e a formação política para construir uma concepção crítica da realidade serão nossos instrumentos. O povo deve assumir o comando da luta. Apostamos no protagonismo e na criação heroica dos povos.
 
Vamos praticar nosso apoio e solidariedade internacional a todos os processos de lutas dos povos em defesa da água denunciam a arquitetura da impunidade, que, por meio dos regimes de livre-comércio e investimentos, concede privilégios às corporações transnacionais e facilitam seus crimes corporativos.
 
Multiplicaremos as experiências compartilhadas no Tribunal Popular das Mulheres, para a promoção da justiça popular, visibilizando as denúncias dos crimes contra a nossa soberania, os corpos, os bens comuns e a vida das mulheres do campo, das florestas, águas e cidades.
 
A água é dom que a humanidade recebeu gratuitamente, é direito de todas as criaturas e bem comum. Por isso, nos comprometemos a unir mística e política, fé e profecia em suas práticas religiosas, lutando contra os projetos de privatização, mercantilização e contaminação das águas que ferem a sua dimensão sagrada.
 
O Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA) apoia, se solidariza e estimulará todos os processos de articulação e de lutas dos povos no Brasil e no mundo, tais como a construção do “Congresso do Povo”, do “Acampamento Terra Livre”, da “Assembleia Internacional dos Movimentos e Organizações dos Povos”, da “Jornada Continental pela Democracia e Contra o Neoliberalismo”; da campanha internacional para desmantelar o poder corporativo e pelo “tratado vinculante” como ferramenta para exigir justiça, verdade e reparação frente aos crimes das transnacionais.
 
Convocamos todos os povos a lutar juntos para defender a água. A água não é mercadoria. A água é do povo e pelos povos deve ser controlada.
 
É tempo de esperança e de luta. Só a luta nos fará vencer. Triunfaremos!
 
Assinam a declaração:
 
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
Articulação Semiárido Brasileiro
Associação Brasileira de Saúde Coletiva
Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento
Cáritas Brasil
Central de Movimentos Populares
Conselho Nacional das Populações Extrativistas
Confederação Nacional dos Urbanitários
Confederação Nacional das Associações de Moradores
Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil
Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura
Comissão Pastoral da Terra
Confederação Sindical de Trabalhadores/as das Américas
Central Única dos Trabalhadores
Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional
Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento
Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal
Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros
Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental
Federação Nacional dos Urbanitários
Federação Única dos Petroleiros
Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social
Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental
Internacional de Serviços Públicos
Marcha Mundial das Mulheres
Movimento dos Atingidos por Barragens
Movimento dos Pequenos Agricultores
Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
Movimento dos Trabalhadores Sem Teto
ONG Proscience
Rede Mulher e Mídia
Serviço Interfranciscano de Justiça Paz e Ecologia
Sociedade Internacional de Epidemiologia Ambiental
Vigência
 
Fonte: Assessoria de Comunicação do FAMA
Foto: Matheus Alves

 
En la mañana del miércoles 21, la tienda interreligiosa del Foro Alternativo Mundial del Agua fue sede de un encuentro promovido por Pan para el Mundo y Ayuda de las Iglesias Suizas, donde se compartieron experiencias sobre el agua y la producción de alimentos.
 
Andrea Müller Frank (foto), de Pan para el Mundo, denunció que en el Foro oficial del Agua, no se dio espacio suficiente a la relatoría sobre el agua de Naciones Unidas, consideró que fue una discriminación y anunció que esta actitud será denunciada ya que las agencias de ONU estuvieron presentes pero casi sin legitimidad, siendo que son los espacios donde se puede discutir un cambio de paradigma sobre el agua.
 
Sobre la relatoría de ONU y un informe que esa organización alemana pidió a la Universidad de Berlín sobre el uso de agua para la producción de alimentos, Müller recordó que la agricultura industrial, el modelo predominante en nuestros paises, consume el 72% del agua de Brasil, país que exporta alimentos en gran escala a la Unión Europea.
 
“Si no cambiamos los hábitos de consumo, en 30 años, la mitad del planeta tendrá problemas por la escasez de agua”, afirmó.
 
Es que hay opciones de gerenciamiento colectivo del agua? preguntó. Cómo podemos trabajar juntos con este tema de la relación a través de la agricultura industrial entre países o bloques regionales?, insistió, planteando la posibilidad de establecer un Observatorio del Agua,
 
En el tiempo de compartir experiencias, Romi Bencke, secretaria de CONIC, desafió a hacer visible que quienes producen alimentos en el mundo son los pequeños productores, las comunidades originarias, los pueblos indígenas, no la agricultura industrial y su modelo de agronegocios.
 
La representante de Federación de Organizaciones para Asistencia Social y Educacional sugirió que desde la cooperación internacional se pueda incentivar a Europa a conocer cómo se producen los alimentos que consumen y los efectos de la irrigación y la contaminación que conllevan, teniendo en cuenta que cada vez se busca más la producción orgánica y saludable.
 
Fonte: ALC Notícias
Texto: Claudia Florentin
Foto: Leonardo Godoy

 
 
Muita integração, compartilhamento de ações responsáveis em relação à água e um momento de mística com representantes de igrejas cristãs marcaram a tarde desta quarta-feira, 21, na Tenda Inter-Religiosa do Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA).
 
A atividade começou com uma breve exposição do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Rede Ecumênica da Água do Conselho Mundial de Igrejas e The Blue Communities Project. Romi Bencke, Elias Wolff, Dinesh Suna e Suzanne Schneeberger, respectivamente, apresentaram concretamente como cada uma dessas entidades atuam em favor da água enquanto bem comum e direito humano.
 
O representante da CNBB, Elias Wolff, apresentou algumas Campanhas da Fraternidade que tratava da vida e fez uma conexão do tema com a água. Ele abordou especificamente a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2016, cujo tema foi “Casa Comum, nossa responsabilidade” e o lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça, qual riacho que não seca” (Am 5. 24), e que trabalhou bastante a questão do saneamento básico que, de modo direto, impacta na questão da qualidade da água de comunidades inteiras.
 
A secretária-geral do CONIC, Romi Bencke, também retomou a CFE 2016, mas citou os projetos que foram apoiados por meio do Fundo Ecumênico de Solidariedade. “Foi uma Campanha que promoveu inúmeras iniciativas, com impactos positivos, em comunidades de Norte a Sul do Brasil”, disse. Ela também citou a Declaração Ecumênica sobre a Água como Direito Humano e Bem Público, assinada pelo CONIC, Confederação Suíça de Igrejas Evangélicas, CNBB e Conferência dos Bispos da Suíça em 2005. 
 
 
Dinesh Suna falou especificamente sobre iniciativas que o Conselho Mundial de Igrejas desenvolve em vários continentes a respeito da água e da ecologia de um modo geral. Ele citou como um dos exemplos as Eco Escolas, que capacitam jovens sobre os temas água e justiça. Suzanne Schneeberger mostrou como a The Blue Communities Project estabelece parcerias com cidades, igrejas, universidades, etc., para buscar alternativas no trato da água como bem comum.
 
Pequenos grupos, grandes ideias
 
No momento seguinte, os presentes na Tenda foram divididos em pequenos grupos para sugestões que possam ser encaminhadas, na prática, a partir do FAMA. Entre elas estão: 1) Elaborar uma Campanha Inter-religiosa sobre o tema e, nessa mesma Campanha, criar materiais pedagógicos que possam ser compartilhados em igrejas que não fazem parte do CONIC e que também não tenham um histórico de diálogo ecumênico. 2) Criar uma rede de compartilhamento de experiências positivas e amplificar as que já existem, de modo que as entidades conheçam melhor o trabalho umas das outras. 3) Ampliar a sinergia entre movimentos sociais, ONGs, igrejas e outras instituições religiosas. 4) Estudar meios de incluir elementos da natureza, como água e terra, como sujeitos de direito, semelhantemente como ocorreu na Nova Zelândia com o rio Te Awa Tupua, que passou a ter sua própria identidade jurídica, com todos os direitos e deveres correspondentes.
 
 
Mística
 
Por fim, os representantes das igrejas cristãs presentes na Tenda foram convidados para conduzir um breve momento de mística com orações e um canto alusivos ao respeito à água como bem comum.
 

 
 
A falta de um acordo internacional que determine a água como direito humano fundamental, com peso para forçar os governos a formular políticas para garantir o acesso de todos à água de qualidade, especialmente as pessoas mais pobres, não é justificativa para que deixem de trabalhar nesse sentido. “A resolução da ONU que reconhece a água como direito humano fundamental, interpreta artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, como o 25, que fala do padrão mínimo de vida, e que tem um desdobramento no Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Como a maior parte dos países assinaram, aderiram, isso torna vinculante o direito à água e ao saneamento. É claro que muitas fontes podem financiar, mas o país tem de reconhecer esse direito, independentemente de estar na sua Constituição”, afirmou o relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o direito à água e ao saneamento, o brasileiro Léo Heller.
 
O debate do qual participou é o único do 8º Fórum Mundial da Água, realizado em Brasília, a tratar a questão. A extensa programação do encontro que começou oficialmente na última segunda-feira (19) e termina no dia 23, é voltada sobretudo a temas técnicos, econômicos e políticos com viés comercial. É por isso que os movimentos sociais e sindicais, que desde o dia 17 realizam o Fórum Alternativo Mundial da Água – Fama 2018, afirmam que o evento oficial é palco de "negociatas" entre o governo de Michel Temer e empresas como a Nestlé, Coca Cola e Ambev, entre outras, com interesses em aumentar o controle sobre as fontes de água. 
 
Heller terminou sua participação estabelecendo uma conexão entre o Fórum oficial e o alternativo. “Há um fórum alternativo sendo realizado aqui do lado, cujo slogan é 'água é um direito, não mercadoria'. Sem querer entrar no mérito da verdade do slogan, eu gostaria de fazer uma provocação: Não dá para tratar a água como direito e não como mercadoria?”, questionou o relator, que é pesquisador do Centro de Pesquisa René Rachou, da Fiocruz em Minas Gerais.  
 
O debate coordenado pelo brasileiro discutiu as mudanças institucionais necessárias para estabelecer os direitos humanos à água e ao saneamento, como a mobilização do financiamento sustentável.
 
O diretor executivo da organização Dalit Welfare, do Nepal, Anupkamal Bishwakarma traçou o panorama do acesso à água de qualidade no seu país. "A falta de água é um grande problema, que tem de ser enfrentado. No meu país, as diferentes castas têm acessos diferente à água. A casta dos dalit, a mais inferior, não recebe a mesma água que os da classe dominante, que fica com a água pura. Os dalit ficam também com as piores escolas e o pior atendimento de saúde", disse.
 
De acordo com Bishwakarma, o recente processo de democracia no Nepal, a partir de 2006, com um governo de coalizão, vem aos poucos melhorando a vida das pessoas mais pobres. "A segregação ainda é muito grande, mas a democracia que conquistamos vem permitindo melhorar o nosso status como seres humanos", disse.
 
Já nos países árabes como Líbia, Síria, Iêmen e Somália, afetados por conflitos e praticamente sem estrutura de abastecimento hídrico, o desafio é maior, segundo o Conselho Árabe para a Água. A entidade vem lutando para inserir o direito à água de qualidade e combater o monopólio, além de melhorar a regulação.
 
Fonte: Rede Brasil Atual

Brasília recebe, desde o dia 17 de março, o Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA). O evento conta com mais de 6 mil participantes, representando povos indígenas, quilombolas, pescadores, ribeirinhos, camponeses, moradores das periferias urbanas e trabalhadores contra a privatização da água do Brasil e de outros 30 países localizados em todos os continentes.
 
Somando esforços com a organização do evento, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) está organizando uma série de atividades na Tenda Inter-Religiosa, a única temática do evento e que está localizada no Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade, entrada A (lado oposto às bilheterias). 
 
Quem passou pela Tenda hoje à tarde pôde conferir uma apresentação sobre boas práticas na gestão da água e experiências bem-sucedidas junto às comunidades do semiárido brasileiro. A atividade foi comandada pela Heks, entidade da igreja protestante suíça que apoia projetos sociais em dezenas de países.
 
The Swiss Blue Communities
 
A convidada Lisa Krebs apresentou o projeto The Swiss Blue Communities, que estabelece parcerias com cidades, igrejas, universidades, etc., para buscar alternativas no trato da água como bem comum. Uma vez estabelecidas essas parcerias, tais instituições se comprometem com práticas que reflitam o princípio de que água e saneamento são um direito humano.
 
 
Lisa falou sobre o processo de privatização da água em todo o mundo e, com dados, demostrou o quanto isso pode acarretar em prejuízos para a população. “Nos últimos anos centenas de cidades tentaram retomar para o controle dos municípios a gestão de seus recursos hídricos. Por si só, essa informação já é um indicativo de que algo errado pode estar ocorrendo”, disse.
 
Lagos, na Nigéria: uma história de luta pela água
 
Philip Jakpor, da Nigéria, falou da longa luta da população de Lagos, uma cidade à sudoeste do país, para ter acesso democrático à água. Segundo ele, até anos recentes quase todas as ruas da cidade tinham pelo menos duas torneiras com água potável para que famílias que não possuíssem água encanada pudessem retirar dessas bicas o necessário às suas necessidades.
 
 
O cenário começou a mudar em 2014, quando o governo local começou a estabelecer diálogos com o Banco Mundial no sentido de adotar “medidas que otimizassem a economia”. Aí começaram as tentativas de se privatizar a água. E a desculpa para a privatização não foi muito diferente da que os brasileiros estão acostumados a ouvir: “A iniciativa privada é mais eficiente”. A partir daí os políticos locais deixaram de ouvir a população para ouvir os executivos das grandes corporações e, naturalmente, a abordagem à água se tornou ostensivamente mercantil.
 
Como reação, a sociedade civil organizou comitês regionais em cada bairro para discutir o que poderia ser feito para conter a entrega da água a empresas que só queriam lucrar. Juntou-se nessa luta sindicatos, igrejas, associações muçulmanas e lideranças comunitárias que, juntos, exerceram muita pressão nos políticos, chamando inclusive atenção da imprensa internacional.
 
“O governo recuou, mas não desistiu da ideia. Abandonou o Banco Mundial, mas começou a trabalhar para criar leis que, na prática, iriam privatizar a água. Incluiu, para isso, artigos como ‘Para pegar água em um rio o cidadão terá de pagar’; ‘Fica proibida a doação de baldes de água de um vizinho para o outro’, entre outros disparates. Tivemos que voltar a nos mobilizar, recolher assinaturas, contatar parceiros em outros países para fazer o governo recuar novamente. Agora eles recuaram, mas estão com uma nova ideia... investir em infraestrutura no campo hídrico e, para isso, querem contar com apoio de empresas privadas. Tudo isso mostra que eles não desistem, mas nós também não podemos desistir”, disse Philip.
 
Cisternas, formação e conscientização no semiárido
 
Flavianeide Pereira, da Cáritas Brasileira, compartilhou um pouco a experiência dela junto à Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), uma rede formada por mil organizações da sociedade civil que atuam na gestão e no desenvolvimento de políticas de convivência com a região semiárida. 
 
 
“Nos anos 80, o discurso político era de que precisávamos combater a seca. E como isso era feito? Doando alimento para a população afetada e construindo açudes e barragens em propriedades privadas, o que tinha um efeito nulo para a população que mais precisava. Depois de um tempo, organizações começaram a discutir ações coletivas no sentido de realmente melhorar a qualidade de vida dos agricultores da região. Foi aí que surgiu a ASA. Além de construir cisternas e promover diversas outras tecnologias que ajudam a manter essas famílias com água boa por mais tempo, mesmo em meio à seca, nós também a ASA também trabalha a questão da formação e da conscientização. Isso possibilitou uma ampla troca de experiências entre agricultores, cada qual compartilhando com o outro técnicas bem-sucedidas de manejo, entre outros saberes. Como resultado, na última grande estiagem, 2012 a 2017, pouquíssimas famílias decidiram deixar suas terras” explicou.
 
Programação de quarta e quinta-feira, 21 e 22 de março
 
Para acompanhar o que mais vai rolar na Tenda Inter-Religiosa nos próximos dois dias, clique aqui.

 
 
Na manhã desta terça-feira, 20 de março, os participantes da Tenda Inter-Religiosa do Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA) participaram de um bate-papo com a comunicadora e teóloga Claudia Florentin – grande parceira do CONIC junto à Agencia Latinoamericana y Caribeña de Comunicación (http://www.alc-noticias.net/).
 
Inicialmente, Claudia fez uma introdução sobre os trabalhos desenvolvidos pela ALC no campo da mídia. Nesse ínterim, enfatizou a comunicação como sendo uma ferramenta bastante estratégica para as conquistas e lutas dos povos na América Latina.
 
 
Marcos legais de âmbito internacional que buscam envolver homens e mulheres na gestão da água e do saneamento; cobertura superficial da grande imprensa sobre temas como aquecimento global e desastres ambientais, e o impacto de crises hídricas nas populações economicamente desfavorecidas estiveram entre os temas levantados. 
 
Um dos pontos que Claudia abordou é que na falta d’água a mulher sofre mais do que o homem. “Há dados que mostram isso claramente. E há algumas explicações para isso, uma delas é que a mulher, nesses contextos de sofrimento, sacrifica a si própria em benefício dos filhos e do marido, o que, naturalmente, a coloca em uma situação mais crítica diante da questão”. 
 
 
Sobre os meios de comunicação, não apenas a palestrante, mas também o público presente concordou que a cobertura do tema não toca nas causas, mas tão somente nos efeitos, pois não é de interesse das grandes corporações da imprensa falar que aquecimento global tem origem na monocultura, na atividade extrativista desenfreada, na derrubada da floresta, etc. “Por isso é importante que nossas entidades criem pontes umas com as outras, redes de contato para que possamos contar e publicizar aquilo que precisa ser contado... a partir de uma ótica que problematize verdadeiramente o assunto”, defendeu.
 
“Outra coisa importante a ser lembrada é que precisamos evitar a generalização dos efeitos da falta de água e das mudanças climáticas e identificar as condições que fazem das mulheres o grupo mais vulnerável nesse processo”, afirmou.
 
 
Finalmente, Florentin indicou algumas diretrizes para que igrejas, organismos ecumênicos, inter-religiosos e membros de outras confissões pudessem ter como ponto de partida para ação: a) Reconhecer o papel que desempenham as mulheres como agentes de mudança e de elaboração de políticas públicas referentes à adaptação e mitigação da mudança climática; b) Preparar uma lista de contatos com pessoas qualificadas para reportar situações vividas desde uma ótica mais profunda e colaborativa (em contraponto ao que sai na grande imprensa); c) Relatar quais são as comunidades particularmente mais vulneráveis nesse processo de escassez de água e identificá-las claramente (seria uma forma de mostrar para a opinião pública o “rosto” dessa crise, de modo que aquilo que está sendo relatado não seja apenas “uma notícia” ou “um número frio”), entre outras.
 
Reforçando o debate
 
Em seguida, algumas pessoas que estavam assistindo a palestra puderam tirar dúvidas e falar sobre suas próprias experiências nesse campo. Romi Bencke, secretária-geral do CONIC, ratificou a importância da articulação entre as entidades. Vicenta Mamani, teóloga aymara, foi nessa mesma linha, afirmando que essa articulação precisa ser no âmbito nacional e internacional. Ela também pediu que se aprofunde as reflexões teológicas em cima de tudo o que foi abordado.