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O estado de saúde de Maurício Alves Feitosa Pitaguary, mais conhecido como Mazin, é estável e sem risco de morte. Na madrugada de domingo, 27, o indígena dormia quando sofreu uma emboscada na vacaria onde trabalha, situada na aldeia Santo Antônio, Terra Indígena Pitaguary, município de Maracanaú (CE). Dois homens incendiaram com gasolina a casa onde Mazin estava. Ao tentar fugir, o indígena foi seguro, espancado e colocado de volta no local, que já ardia em chamas.

Mazin tem 42 anos e está internado no Instituto José Frota (IJF), em Fortaleza, com queimaduras de segundo e terceiro graus em 14% do corpo - concentradas nas costas e no abdômen. O hospital não divulgou um boletim médico, mas conforme os Pitaguary que o visitaram na tarde desta segunda-feira, 28, Mazin está consciente e conversando. "Está tomando banho anestésico, estão colocando curativos, ele está andando bem e se alimentando. Respirando normal. O pior já passou", relata uma indígena que prefere não se identificar. Este ano, em abril, se deu a memória dos 20 anos do martírio de Galdino Pataxó Hã-hã-hãe, que teve o corpo incendiado, em Brasília, por um bando criminoso.

A insegurança resume o momento para as lideranças Pitaguary. Os indígenas estão convictos de que o atentado teve como intuito atingir os Pitaguary, sobretudo os oriundos da família de Mazin, que se opõem a especulações imobiliárias e empresariais no território tradicional - localizado a cerca de 24 km de Fortaleza. "Temos a terra retalhada por esses interesses. Infelizmente alguns indígenas apoiam esses empresários e políticos, a elite local, mas não representam o povo Pitaguary", explica outra indígena que também não será identificada por razões de segurança. A Terra Indígena Pitaguary foi declarada com 1735 hectares, onde vivem 3765 indígenas (IBGE, 2010).

"Retalhada" significa dizer que várias porções do território estão degradadas e invadidas, gerando resistência da parte dos Pitaguary e os mais variados ardis de quem tange os interesses privados nas terras. "Maurício é irmão de uma importante liderança indígena estadual e nacional, a Ceiça Pitaguary, que, em março de 2016, também sofreu um grave ataque (...) Foram desferidos contra ela, vários golpes de facão, que lhe causou muitas lesões nos braços e na cabeça e que por muito pouco não teria sido fatal", pontuou em nota o Observatório Socioambiental, que acompanha a situação dos povos indígenas do Ceará. A indígena Ceiça Pitaguary, que integrou a direção da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) entre 2012 e 2014, realizou inúmeras denúncias em Brasília sobre o assédio de políticos e empresários no território tradicional de seu povo.

Para uma outra importante liderança Pitaguary, não identificada por razões de segurança, o atentado contra Mazin se trata de uma represália. "Na última Assembleia Estadual (dos Povos Indígenas do Ceará, ocorrida no final de julho), uma nota foi feita afirmando essa luta contra os invasores da terra e dizendo que os indígenas que os defendem e estão com esses invasores não representam o povo Pitaguary. Agora esse grupo está perseguindo a Ceiça e a sua família por conta disso. Uma covardia", diz.

Em nota pública divulgada na tarde desta segunda, o movimento indígena do Ceará ressalta que "nos últimos anos, ações criminosas patrocinadas por grupos políticos da região de Maracanaú e Pacatuba, envolvendo inclusive indígenas, têm provocado terror e medo em grande parte das Comunidades Indígenas locais. Episódios de ameaças, cárcere privado, golpes de facão e agora essa brutal ação de incendiar uma casa com um parente dentro só reforça a nossa indignação pela total omissão das instituições". Na nota, o movimento enfatiza que "várias ocorrências" foram registradas em delegacias locais e levadas às autoridades competentes.

A Fundação Nacional do Índio (Funai) acompanha o caso e ontem esteve com a Polícia Federal na aldeia, onde agentes tomaram depoimentos de indígenas e iniciaram as investigações. Os autores do crime ainda não foram identificados e na manhã desta segunda, lideranças Pitaguary estiveram na Superintendência da Polícia Federal, na capital cearense.

Fonte: Cimi
Foto: Reprodução

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Uma viagem para construir pontes, marcada por um clima de escuta e diálogo. Após retornar da Rússia, o Cardeal Secretário de Estado, Pietro Parolin, concedeu uma entrevista exclusiva à Secretaria para a Comunicação, na pessoa do colega do Programa italiano, Alessandro Gisotti.

RV: Eminência, havia uma grande expectativa por esta sua viagem à Rússia. Com que sentimentos o senhor retorna ao Vaticano?

“Acredito que o balanço desta viagem seja um balanço substancialmente positivo e portanto, obviamente, os meus sentimentos são sentimentos de gratidão ao Senhor por me ter acompanhado durante estes dias. Pudemos cumprir o programa que estava fixado, ter os encontros previstos, e devo dizer que estes encontros – quer a nível das autoridades, quer com o Presidente Putin como com o Ministro do Exterior Lavrov, e depois com os expoentes da hierarquia da Igreja Ortodoxa russa, isto é, o Patriarca Kirill e o Metropolita Hilarion – foram caracterizados justamente por um clima de cordialidade, um clima de escuta, um clima de respeito. Eu os definiria como encontros significativos, foram encontros também construtivos e me sinto no dever de acentuar um pouco esta palavra: “encontros construtivos”. Obviamente, depois, houve também a parte do encontro com a comunidade católica. Sobretudo graças à conversação e ao diálogo que tivemos com os bispos na Nunciatura, foi possível conhecer um pouco mais de perto a realidade, a vida da comunidade católica na Rússia, as suas alegrias, as suas esperanças, mas também os desafios e as dificuldades que deve enfrentar. Em relação a estas últimas, em parte, foi possível também apresentá-las, expô-las às autoridades. Cito uma delas: o tema da restituição de algumas igrejas que foram confiscadas nos tempos do regime comunista e pelas quais não foi ainda providenciada a restituição diante das necessidades da comunidade católica de ter locais de culto adequados. Portanto, eu diria que no final – para dizer numa palavra – foi uma viagem útil, foi uma viagem interessante, foi uma viagem construtiva”.

RV: O senhor já teve a oportunidade de falar com o Santo Padre sobre a viagem? O que poderia ser compartilhado daquilo que falaram?

“Sim, naturalmente, assim que eu retornei encontrei o Santo Padre para fazer a ele um brevíssimo, sintético relatório, quer sobre conteúdos como dos resultados da viagem, e naturalmente, transmiti a ele também as saudações que me foram confiadas por todas as partes que encontrei, do afeto e da proximidade da comunidade católica, das diferentes saudações das autoridades. Recordo que o Presidente Putin – acredito que tenha sido gravada a parte pública do encontro – sublinhou precisamente a recordação viva que mantém de seus encontros com o Papa Francisco, em 2013 e em 2015. E a fraterna saudação depois do Patriarca Kirill. Obviamente o Papa ficou tocado por estas impressões, destes resultados positivos que transmiti a ele; o Papa, como sabemos – o repetiu também nesta circunstância – está muito, muito atento a todas as ocasiões de diálogo que existem e está muito contente quando se dá passos em frente nesta direção”.

RV: Quais foram os temas principais tratados no encontro com o Patriarca Kirill?

“Eu diria que fundamentalmente se concentraram um pouco sobre este novo clima, esta nova atmosfera que reina nas relações entre a Igreja Ortodoxa Russa e a Igreja Católica; este novo clima, esta nova atmosfera que se instaurou nos últimos anos e que naturalmente teve um momento particularmente significativo e de forte aceleração também graças ao encontro de Havana entre os Patriarca e o Papa, depois do qual se seguiu este acontecimento. Realmente, percebi nos interlocutores ortodoxos, como ficaram tocados por esta experiência da visita das relíquias de São Nicolau de Bari a Moscou e São Petersburgo, mas no sentido de terem sido tocados pela fé e pela religiosidade do povo. Foi sublinhado também como muitos russos que pertencem à tradição ortodoxa mas que não frequentam, os não-praticantes, nesta ocasião se aproximaram da Igreja. Foi realmente um evento grandioso, quer no que se refere às dimensões – fala-se de dois milhões e meio de fiéis que visitaram as relíquias – quer no que diz respeito ao impacto de fé e de espiritualidade que este acontecimento produziu. Passamos depois em resenha os passos dados e aqueles que serão, que deverão ser os passos a serem dados no futuro. Me parece que da parte deles – como naturalmente também da nossa parte – não se deseja exaurir os potenciais que esta nova fase abriu e naturalmente a colaboração pode ocorrer em vários âmbitos, em vários níveis: da colaboração cultural – aquela acadêmica – àquela humanitária. Se insistiu muito sobre este ponto, que as duas Igrejas, diante das tantas situações de conflito que existem no mundo, podem realmente realizar uma obra humanitária incisiva e eficaz. Tratou-se também – com respeito e ao mesmo tempo com franqueza – temas um pouco espinhosos, nas relações entre as duas Igrejas; porém, se procurou dar – ao menos a meu ver, foi o que eu percebi – um sentido antes positivo, isto é, explorar caminhos compartilhados para enfrentar e para tentar buscar soluções para estes problemas. E naturalmente, também estas vias compartilhadas, estas propostas concretas que emergiram deverão ser verificadas e possivelmente implementadas depois de um adequado discernimento e aprofundamento”.

RV: Eminência, a propósito dos temas sensíveis: a questão da Ucrânia é um dos temas mais delicados nas relações entre Santa Sé e Rússia. O senhor mesmo visitou a Ucrânia, há um ano. Existe alguma novidade após a sua viagem?

“Novidades, ao menos até agora, não existem. Talvez seja prematuro pensar em alguma novidade. O Senhor – esperamos – fará germinar e frutificar as sementes que tiverem sido semeadas. Porém, como é sabido, a questão ucraniana é uma das questões de grande preocupação para a Santa Sé: o Papa se pronunciou várias vezes sobre o tema. É óbvio que não podia não ser tratado este tema; não podia ser esquecido nesta circunstância. Eu diria, sobretudo, no sentido de procurar ver, de avaliar se havia alguns passos concretos que poderiam ser dados em direção a uma solução duradoura e justa do conflito, no contexto dos instrumentos atualmente disponíveis, que são praticamente os Acordos alcançados entre as duas partes. E é sabido também que a Santa Sé insistiu sobretudo nos aspectos humanitários a partir da grande iniciativa do Papa pela Ucrânia. Neste sentido, por exemplo, um dos temas é o da libertação dos prisioneiros: este é um dos temas do “humanitário” que poderiam realmente ser importantes para dar um novo impulso a todo o processo, também político, para sair desta situação de paralisia e fazer avançar – por exemplo – também o tema da trégua, o tema do cessar-fogo, o tema das condições de segurança sobre o território, o tema, também, das condições políticas para poder fazer progressos na solução global. Esperamos que algo possa ajudar para caminhar na justa direção, levando em consideração – quando falamos de situações, destas questão humanitárias – que estamos falando de pessoas e estamos falando do sofrimento. E acredito que é isto que todos deveriam ter em mente justamente para tentar realizar um esforço suplementar para ir na justa direção”.

RV: A imprensa deu naturalmente muita atenção ao seu encontro em Sochi com Vladimir Putin. Como foi o colóquio com o Presidente russo?

“Eu diria que também o colóquio com o Presidente Putin entra um pouco na avaliação que fiz no início: foi um encontro cordial, foi um encontro respeitoso, em que se pode tratar sobre todos os temas que ao menos para nós, estavam a peito que fossem tratados, como aquele, por exemplo, do Oriente Médio, da situação na Síria em particular, e neste contexto também o tema da presença dos cristãos: sabemos que uma das convergências que existem entre a Rússia e a Santa Sé é justamente esta da atenção à situação dos cristãos, o tema das perseguições aos cristãos, que tendem a sem ampliar a todos os grupos religiosos – naturalmente – e a todas as minorias, buscando envolver também os muçulmanos, como foi feito por exemplo naquele seminário realizado em Genebra, no ano passado. Bem sobre o tema da Ucrânia já falamos; o tema da Venezuela: vi que também a imprensa divulgou algumas declarações que haviam sido dadas neste sentido. Portanto, além dos temas bilaterais, eu falava no início, apresentamos algumas situações um pouco de dificuldades da comunidade católica. Eu procurei sobretudo dizer isto, esta era a mensagem que queria transmitir: isto é, que a Rússia, pela sua posição geográfica, pela sua história, pela sua cultura, pelo seu passado, pelo seu presente, tem um grande papel a desempenhar na comunidade internacional, no mundo. Um grande papel a desempenhar! E portanto, tem uma particular responsabilidade em relação a paz: quer o país, quer os seus líderes, têm uma grande responsabilidade em relação à construção da paz e devem realmente esforçar-se para colocar os interesses superiores da paz acima de todos os outros interesses”.

RV: Por fim eminência: além dos encontros mais significativos, existe algum outro assunto ou aspecto particular que o senhor gostaria de sublinhar?

“Sim, houve o bonito momento da Missa, junto com a comunidade católica. A Catedral estava repleta de fiéis e foi um pouco uma surpresa, porque era um dia normal e portanto não se esperava que houvesse tanta gente; depois, naturalmente, me toca sempre a fé e a devoção destas pessoas: como participam da Missa, com qual atenção, com qual reverência, com qual silencio estão presentes. E acredito que tenham ido sobretudo para expressar o seu apego ao Papa e o fato de serem membros da Igreja universal. Portanto, aquele foi um belo momento. Um outro momento bonito foi a breve visita às Irmãs de Madre Teresa que trabalham em Moscou. Pudemos encontrar e saudar todas as pessoas que elas assistem, também ali foi manifestado um grande afeto pelo Papa. E depois, a última coisa que gostaria de recordar: me impressionou muito a visita que fizemos à Catedral de Cristo Salvador, a Catedral ortodoxa de Moscou; Catedral que havia sido explodida durante o regime comunista. E portanto foi também um momento para recordar esta história muito dolorosa da época em que se pretendia erradicar completamente a fé do coração dos fiéis e eliminar todo sinal da presença de Deus e da Igreja naquela terra. Coisa que não se conseguiu, porque Deus é maior dos que os projetos dos homens”.

P.S.: a viagem foi na terça-feira passada, 22 de agosto.

Fonte: Rádio Vaticano
Foto: Reprodução
Obs.: o título foi adaptado

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A recente decisão do Congresso Nacional de rejeitar a denúncia contra o presidente Michel Temer, além de não levar a sério as denúncias e as provas factíveis que apontam para práticas de corrupção, reforçam os caminhos para as várias reformas colocadas no horizonte político brasileiro.

Uma dessas reformas é a reforma política, amplamente debatida, pelo menos a dez anos, pela sociedade civil organizada. Igrejas, organizações não governamentais, movimentos sociais têm discutido e proposto mecanismos para a superação de velhas práticas patrimonialistas e clientelistas tão características da nossa política. Um dos resultados concretos desse trabalho foi o fim do financiamento empresarial para campanhas eleitorais.

Agora muitos parlamentares têm pressa em agilizar esta Reforma. Para eles, ela tem sido tão prioritária quanto a Reforma da Previdência. É claro que quando existe pressa há sempre uma intenção nem sempre transparente. No caso da Reforma Política são as eleições de 2018, caso ocorram.

Se poderia dizer que está tudo bem que o parlamento discuta a reforma política. No entanto, o problema é a quase ausente vontade de ouvir a sociedade civil e de desconsiderar o que tem sido elaborado pelo conjunto das organizações sociais sobre esta agenda.

Um dos pontos problemáticos da reforma política é um sistema eleitoral que tem sido chamado de “distritão”.

Nesse modelo, serão eleitas as pessoas mais votadas para os parlamentos, independente da votação que o partido teve. Este sistema reforça o personalismo na política e retira todo o caráter coletivo que a política deve ter. É fácil de entender que esta proposta não irá superar o clientelismo.

Aparentemente poderíamos pensar que isso não tem muito a ver com a vida do dia-a-dia. No entanto, se analisarmos com atenção a proposta, é possível perceber que esse modelo irá garantir a continuidade da cultura baseada no abuso de poder político e econômico. Isso significa que esse modelo irá garantir que as velhas oligarquias políticas e econômicas reinem soberanas.

Há muito se critica no Brasil a compra de votos. Um modelo como o “distritão” garantirá que essa prática continue valendo. Este é um modelo, portanto, que fragiliza a cidadania e faz da política única e exclusivamente um caminho para manter as velhas elites no poder.

Novamente pode se fazer a pergunta, de como este sistema pode impactar diretamente nas nossas vidas. Talvez o argumento da permanência das velhas elites no poder seja frágil, afinal, já nos acostumamos com as elites no poder. Com isso, não nos apropriamos desse tema. Estamos errados em pensar assim, porque a Reforma Política, impacta diretamente em nossas vidas.

Desde o impedimento da Presidenta Dilma Rousseff, uma das questões sobre as quais mais se tem debatido é a democracia. As manifestações contra o golpe, as vigílias inter-religiosas pela democracia tinham como elemento comum o reconhecimento da diversidade cultural, religiosa e de gênero.

E por que reivindicar o direito à diversidade? Por que nosso país é um país plural e a democracia brasileira precisa expressar essa pluralidade. Ora, se olharmos para o Congresso Nacional, veremos que ele não representa a pluralidade do nosso país.

A grande maioria dos parlamentares são homens, alinhados com os interesses de grandes corporações do agronegócio e do mercado financeiro. Eles também são brancos e a grande maioria é contrária às políticas públicas que poderiam responder à divida histórica que o país tem com os descendentes de escravos. Não temos parlamentares representando os povos indígenas, por isso, não surpreende os ataques sistemáticos do Congresso Nacional contra os direitos dessas populações. Temos somente uma pessoa que representa a população LGBTT. E as mulheres são representadas por um número pequeno de deputadas e senadoras engajadas com as pautas dos movimentos de mulheres. O Congresso, portanto, não representa a população brasileira.

Além disso tudo, há outra questão muito séria, que diz respeito à religião. A constituição brasileira estabelece a separação entre religião e estado. Essa separação não inibe a cooperação entre estado e religião, sempre que a cooperação seja voltada para o interesse público. Porém, essa cláusula de nossa Constituição tem sido gradativamente desconsiderada. Cada vez mais temos representações religiosas cristãs no Congresso Nacional. Poderíamos perguntar: qual é o problema disso? Um parlamentar não pode ter religião? Sim, é claro que pode. No entanto, o que tem acontecido no Brasil é diferente. Aqui, os parlamentares religiosos atuam a partir das doutrinas, dogmas e valores da sua tradição de fé. Essa prática é incoerente com a Constituição. Quando uma pessoa assume uma função pública ela precisa atuar em favor do conjunto da sociedade. O que rege os espaços de política representativa é a Constituição Federal e não preceitos dessa ou daquela religião.

A presença religiosa no Congresso Nacional tem reforçado agendas que são contrárias ao meio-ambiente, contrárias às demarcações de terras indígenas e quilombolas, desconsideram a melhoria das políticas públicas para as mulheres e têm se posicionado contrários à diversidade religiosa brasileira.

As posturas quase nada abertas para o diálogo do parlamento também tem se refletindo na sociedade. Basta ver a perseguição sofrida pelas pessoas de tradições africanas, indígenas, muçulmanas, judaicas. Em muitos municípios tramitam, por exemplo, leis que querem proibir o abate de animais nas celebrações de matriz africana. Em outros, impedem que crianças indígenas frequentem as escolas com suas pinturas e tem surgido a intolerância e perseguição a muçulmanos com base na lei anti-terrorismo. Apesar disso, estas tantas tradições de fé não estão representadas no Congresso Nacional. Não há quem fale por elas.

Poder-se-ia dizer que elas também podem se candidatar e concorrer a cargos. Minha resposta seria não. No ambiente de representação política as pessoas precisam orientar-se com base em valores republicanos e democráticos, pois elas devem trabalhar e atuar olhando o conjunto da sociedade.

Por fim, essa simbiose entre religião e política, impacta diretamente na vida das mulheres. Não é raro ver parlamentares desrespeitando parlamentares mulheres. Mas, são estes parlamentares que decidem sobre leis relacionadas à vida das mulheres. Nosso país é patriarcal. Para o patriarcalismo não cabe à mulher a autonomia. Orientados por valores religiosos, parlamentares propõem projetos de lei que negam um conjunto de direitos para as mulheres.

O baixo percentual de representação de mulheres no Congresso faz com que a força das mulheres para lutar por leis que garantam a igualdade seja desproporcional em relação a dos homens. Um exemplo recente foi a aprovação da reforma trabalhista, que, entre outras coisas, possibilita que mulheres grávidas e lactantes trabalhem em locais insalubres de grau baixo e médio.

Todas essas questões e muitas outras têm relação direta com o sistema político. Por isso, o “ Distritão” não é um sistema democrático, pois além de encarecer as eleições, ele não garante a igualdade de condições para as pessoas concorrerem. Grupos sociais economicamente mais fragilizados jamais terão chance de concorrer com pessoas das antigas elites ou representantes delas.

Creio que a resposta à pergunta se o “ distritão” impacta nas nossas vidas está respondida. É justamente porque este sistema não favorece a democracia que ele está sendo articulado às escondidas. Como sociedade é importante que nos apropriemos dessa discussão e não aceitemos que algo tão relevante seja definido sem nós. Não cabe ao Congresso decidir as coisas relacionadas às nossas vidas sem ouvir a nossa voz.

Fonte: Inesc
Foto: Reprodução

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“Leis que construam pontes de diálogo e que promovam um maior cuidado pelos indefesos e marginalizados, recordando que ninguém deve ser descartado, em nenhuma fase da vida.” Esta foi em síntese a exortação do Papa Francisco, no último domingo, 27, aos participantes do encontro da Rede Mundial de Legisladores Católicos.

Francisco alegrou-se, em particular, em saber do aumento do número de participantes no encontro, o que faz crescer assim a “representação de uma ampla gama de experiências políticas e legislativas, evidenciando ainda mais claramente uma realidade humana coletiva que reflete a universalidade da Igreja”.

De modo particular, esta alegria deveu-se ao crescimento da participação de legisladores vindos de países africanos: “Este ano, não obstante o cenário seja caracterizado por uma série de temas urgentes, vocês colocaram a atenção na visão cristã da pessoa humana. Vos encorajo, uma vez retornados às vossas respectivas nações, a fazerem referência aos frutos de vossa reflexão sobre como a fé católica leva a uma justa compreensão da pessoa”.

“Mesmo que a contribuição da Igreja às grandes questões da sociedade de nosso tempo possa ser muitas vezes colocada em discussão - observou o Papa - é vital que o vosso empenho seja permeado continuamente pelos seus ensinamentos morais e sociais, para construir uma sociedade mais humana e justa”.

“As leis que vocês promulgam e aplicam devem construir pontes de diálogo entre as diversas perspectivas políticas”, para “promover um maior cuidado pelos indefesos e marginalizados, especialmente os muitos que são obrigados a deixar a sua pátria, como também para favorecer uma correta ecologia humana e natural”.

“Em meio aos sofrimentos dos povos – disse Francisco – vos exorto a olhar para Cristo, cujo amor vos inspirará a fazer com que o Espírito, por meio de uma troca de dons, possa nos conduzir sempre mais à verdade e ao bem”.

Antes de conceder a sua bênção, o Papa recomendou os parlamentares a levarem em seus trabalhos profissionais “a Boa Nova de Jesus de que ninguém é insignificante, ninguém deve ser descartado, em nenhuma fase da vida”, confiando por fim as populações por eles servidas à proteção de Nossa Senhora, Mãe da Igreja.

Esta rede de parlamentares católicos (International Catholic Legislators Network) foi criada em 2010 com o apoio do Arcebispo de Viena, Cardeal Christoph Schönborn e de David Alton, membro católico da Câmara dos Lordes.

Fonte: Rádio Vaticano

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O encontro em que a moderadora do Comitê central do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), Agnes Abuom, e o secretário geral do mesmo organismo ecumênico, Rev. Olav Fykse Tveit, tiveram na manhã da última quinta-feira (24/08) com o Papa Francisco no Vaticano concluiu-se com uma oração comum pela unidade, a paz e a reconciliação.

Estiveram no centro dos colóquios o estado do movimento ecumênico e a prioridade para as Igrejas de trabalhar pela causa da unidade cristã, “vital para levar a autêntica contribuição de justiça para as grandes questões do mundo”.

“Somos muito gratos pelo encontro muito construtivo e frutuoso que tivemos esta quinta-feira com o Papa Francisco”, disse o Rev. Tveit. “Vivemos num momento em que a finalidade e os objetivos do movimento ecumênico se tornaram relevantes” porque num “mundo sempre mais dividido e frágil”, as Igrejas devem tender à “nova busca de unidade” para contribuir para a “unidade do gênero humano”.

Agnes Buon explica: “A unidade da Igreja e a unidade da humanidade estão entrelaçadas”. “As múltiplas expressões de polarização, as maiores disparidades entre ricos e pobres, as várias manifestações de extremismo e violência, as preocupações com o futuro do planeta Terra e a falta de responsabilidade com a nossa casa comum e o futuro são um estímulo constante a prosseguir sobre aquilo que estamos trabalhando”.

Os representantes do Conselho Mundial de Igrejas falaram com o Papa Francisco também sobre mudanças climáticas, justiça econômica e sobre o papel que as Igrejas podem ter para construir a justiça e a paz no mundo.

“O futuro da humanidade está ameaçado”, disse o pastor Tveit, dirigindo-se ao Pontífice. “Os pobres estão cada vez mais pobres e recaem sobre eles as piores consequências do que está acontecendo no mundo. Pedimos ao senhor e à Igreja católica que se una a nós na mobilização rumo a uma verdadeira mudança de mente, de coração e de prioridade”, disse Tveit.

Os membros do Conselho Mundial de Igrejas são convidados do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos cristãos e a delegação do CMI pôde encontrar Flaminia Giovanelli, subsecretária do Pontifício Conselho para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, com a qual falou de justiça climática e sobre a Conferência sobre o clima Cop23 que se realizará em Boon, na Alemanha, bem como sobre migrações e xenofobia.

Fonte: Rádio Vaticano

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Lema bíblico: É o amor de Cristo que nos move (2Co. 5.14-20) 

Reunidas e reunidos num espírito de encontro fraterno, diálogo, reflexão e oração, na XVII Assembleia Geral do CONIC, realizada em Brasília, nós Delegadas e Delegados das Igrejas membro, Representantes dos Regionais e Estaduais do CONIC e dos Membros Fraternos. Animadas e animados pela promoção da unidade cristã, do diálogo inter-religioso e do cuidado da criação, celebramos conjuntamente os 500 anos da reforma e vivenciamos a comunhão ecumênica.

O tema central da nossa reflexão foi os 500 anos da Reforma da Igreja, revisitada numa perspectiva histórica, teológica e contextual . O objetivo foi compreender a herança comum da Reforma do século XVI para as Igrejas hoje. Constatamos que Lutero não foi um autor isolado do processo reformatório iniciado no seu tempo, mas catalisador de aspirações que há tempos buscavam mudanças eclesiásticas e desencadeou um processo de renovação a partir da volta ao centro da fé cristã: o próprio Cristo, testemunhado pela Escritura.

Motivadas e motivados pela fé comum em Jesus Cristo, Filho do trino Deus, quem salvou a nós, pecadores e pecadoras, e propiciou a justificação por graça mediante a fé, podemos assumir como nossa herança comum da Reforma do século XVI: uma espiritualidade transformadora; uma compreensão de igreja mais bíblica e patrística que equilibre o mistério e o direito, a doutrina e a espiritualidade, a instituição e a profecia; um projeto de missão que afirme processos de diálogo, cooperação e comunhão e uma atuação profética na sociedade. E nos colocamos no caminho do diálogo e da reconciliação, o qual precisa ser percorrido na consciência que a igreja sempre necessita de reformas.

Afirmamos que o diálogo ecumênico e a pesquisa acadêmica nos permitem adotar uma nova perspectiva sobre o Reformador do século XVI. Na postura de um ecumenismo de recepção, de mútuo aprendizado. Concretamente, para estreitarmos as relações entre nossas Igrejas nos propomos: 1) acolher a herança e os compromissos comuns já identificados no diálogo até aqui realizado; 2) expressarmos a nossa vontade ecumênica por uma fé comum cuja expressão central é: “É somente pela graça por meio da fé na ação salvífica de Jesus Cristo, e não com base aos nossos méritos, que somos aceitos por Deus e recebemos o Espírito Santo que renova os nossos corações, nos habilita e nos chama a realizar boas obras”, 3) Possibilitar a criação de estruturas eclesiais mais acolhedoras em nossas comunidades.

Compreendemos que a Reforma não começou e nem encerrou com Lutero. O processo da Reforma é uma volta às fontes no intuito de progredir para o futuro, passando por uma interpretação do presente. Portanto, é um processo continuo do qual também fazemos parte. Precisamos sempre de novo uma conversão pessoal, estrutural e pastoral, em todas as comunidades. Lembremos da importante experiência de Reforma na América Latina do século XX, que uniu cristãs e cristãos de muitas igrejas na luta popular por justiça e libertação, motivadas e motivados pela leitura popular, contextual e ecumênica da Bíblia.

Queremos profundas transformações no processo econômico, político, religioso e cultural que gestem um novo Brasil. E assumimos o dever, como igrejas, de contribuir para que na sociedade na qual vivemos aconteçam as transformações necessárias para a promoção e defesa da vida, da justiça e da paz.

Destacamos especialmente o acolhimento por unanimidade como membro pleno do CONIC da Aliança de Batistas do Brasil, sendo este um sinal visível da unidade que queremos construir permanentemente e constituindo um importante avanço na caminhada ecumênica. E neste sentido queremos proclamar nossa alegria pela inserção de forma, agora oficial, desta igreja irmã em nosso meio.

No espírito do amor de Cristo que nos move, reafirmamos nosso compromisso na busca de uma igreja sempre em reforma e na caminhada e construção da unidade na diversidade.

Brasília, 24 de agosto de 2017.

Assinam:

Igreja Católica Apostólica Romana
Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil
Igreja Presbiteriana Unida
Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia
Aliança de Batistas do Brasil

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A XVII Assembleia Geral Ordinária do CONIC, realizada de 21 a 24 de agosto, em Brasília, elegeu a leiga católica Therezinha Motta Lima da Cruz para o cargo da 2° vice-presidência do Conselho, que estava vago. No Conselho Fiscal nada muda. Assim como na Secretaria Geral.

Diretoria

Presidente: Dom Flávio Augusto Borges Irala - IEAB
1º Vice-Presidente: Pastor Sinodal Inácio Lemke - IECLB
2º Vice-Presidente: Therezinha Motta Lima da Cruz - ICAR

Secretário: Presbítero Daniel Amaral - IPU
Tesoureiro: Dom Teodoro Mendes Tavares - ICAR
Secretária Geral: Pastora Romi Márcia Bencke - IECLB

Conselho Fiscal

Titulares:
Reverenda Magda Guedes Pereira - IEAB/Clai Brasil
Sra. Sandra Márcia dos Santos - ICAR
Pastor Marcos Ebeling - IECLB

Suplentes:
Padre Cristiano Lopes da Silva - ISOA
Reverenda Sônia Gomes Mota - IPU/Cese
Teóloga Cecília Bernadete Franco - CESEEP

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É com alegria que o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) comunica o ingresso da Aliança de Batistas do Brasil (ABB) como membro pleno do Conselho. A adesão ao CONIC foi oficializada nesta terça-feira, 22 de agosto, dentro da programação da XVII Assembleia Geral Ordinária do Conselho de Igrejas. Agora, fazem parte do diálogo ecumênico no CONIC anglicanos (Igreja Episcopal Anglicana do Brasil), batistas (Aliança de Batistas do Brasil), católicos (Igreja Católica Apostólica Romana), luteranos (Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil), ortodoxos (Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia) e presbiterianos (Igreja Presbiteriana Unida).

Essa é uma grande notícia para o movimento ecumênico brasileiro, pois reforça o compromisso dos batistas no diálogo com as demais confissões cristãs e passa um claro recado à sociedade: o de que o pedido de Jesus, “para que todos sejam um” (Jo 17:21), não é apenas viável, como também bastante possível nos dias de hoje – apesar das diferenças doutrinárias de cada igreja. Aliás, no contexto ecumênico, diferenças doutrinárias não dividem, enriquecem a caminhada.

Para ingressar no CONIC, a Aliança de Batistas do Brasil formalizou o pedido de adesão ao Conselho, tal como prevê o Estatuto (clique aqui para ler o documento). Depois disso, esperou-se o tempo necessário até que o pedido fosse analisado pela Assembleia (realizada a cada dois anos), pois é a Assembleia que tem a palavra final para acatar ou não a adesão de uma igreja. Por unanimidade, a Assembleia opinou favoravelmente pelo ingresso da Aliança no Conselho.

Quem são os batistas?

A igreja batista é uma denominação protestante histórica. A maior associação batista atualmente é a Convenção Batista do Sul, dos Estados Unidos, com pouco mais de 16 milhões de membros e mais de 42 mil igrejas filiadas. Mas há muitas outras associações de batistas no mundo. No Brasil, a mais antiga é Convenção Batista Brasileira. Mas também há outras, como a Aliança de Batistas do Brasil, que agora está no CONIC, a Convenção Batista Nacional e a Convenção das Igrejas Batistas Independentes.

O termo batista vem da palavra grega baptistés, que é relacionado ao verbo baptízo, “batizar, lavar, mergulho, imerge”. A teoria mais aceita é que os batistas são oriundos de movimentos surgidos na Europa do séc. XVIII, que ficaram conhecidos pela sua exigência de rebatismo e apenas de adultos. Eles também tinham como princípios fundamentais a defesa da livre interpretação da bíblia, liberdade congregacional e liberdade religiosa para todas as pessoas.

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Entre os dias 14 e 17 de agosto, foi realizado, em Brasília, o Encontro Nacional do Fórum Ecumênico ACT Brasil. Realizado no Instituto Bíblico de Brasília, contou com uma pauta bastante rica, incluindo temas como: redes ecumênicas; incidências; articulação entre FEACT e Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito; Plataforma dos Movimentos Sociais e Reforma Política; Debate “Deus e o diabo na política – Compaixão e ação profética”; sustentabilidade do movimento ecumênico, etc.

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A atividade reuniu organizações do movimento ecumênico brasileiro, igrejas e agências ecumênicas, entre elas, Aliança de Batistas do Brasil, Cebi, Cediter, Centro de Acolhida ao Imigrante, Centro de Direitos Humanos de Joinville, Cese, Ceseep, Christian Aid, Clai, CMI, Comin, CONIC, Diaconia, FLD, Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, HEKS, Koinonia, Pad, Reju, PROFEC, UNIPOP, Visão Mundial, além de representações da Comissão de Ecumenismo da CNBB, Igreja Metodista e Igreja Presbiteriana Unida.

Na avaliação de alguns participantes, o ponto alto do encontro foi, sem dúvidas, o seminário “Deus e o diabo na política - Compaixão como desafio profético”, que suscitou discussões acerca dos desafios colocados para o movimento ecumênico em tempos de intolerância. “Muitas vezes, a alienação religiosa torna-se alienação política, por isso, é necessário pensar e re-imaginar novas maneiras de testemunhar a fé”, declarou a secretária-geral do CONIC, Romi Bencke.

Outro momento importante foi a apresentação do historiador e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, Joanildo Burity, que falou sobre os impactos das redes ecumênicas na sociedade. Burity chamou atenção para o fato de que “a presença ecumênica na sociedade é pouco estudada na academia brasileira”. Em sua análise, essa presença também “é pouco vista por causa da ação desinteressada do movimento, no sentido de não querer pleitear cargos políticos, mas de apenas marcar presença e atuação na sociedade a partir da identificação com o ecumenismo e a busca por justiça e paz”.

Planejamento

Ao longo desses dias, também foi realizado o planejamento da atuação do Fórum Ecumênico ACT Brasil para o próximo ano. O eixo orientador será “ecumenismo de direitos no contexto de crise na América Latina”. O ponto central do trabalho será o projeto “Migrantes e Refugiados - Desafios da Casa Comum”, que terá como objetivo a sensibilização de comunidades religiosas para a situação dos imigrantes e refugiados. Outra ação importante será a participação de representantes do FEACT no Fórum Alternativo Mundial da Água e no Fórum Social Mundial, ambos em março de 2018.

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Entre os dias 5 e 6 de agosto, aconteceu a I Conferência Internacional de Louvor e Adoração Somos Um, reunindo católicos e evangélicos que, juntos, oraram e adoraram ao único Deus. Aberto ao público em geral, o espaço foi preenchido por cristãos de diferentes denominações. Logo pela manhã do sábado, a palavra foi ministrada pelo Pastor Mike Herron, pianista, compositor e um dos líderes fundadores do "John 17 Movement" (Movimento João 17), uma iniciativa internacional que promove a unidade entre os cristãos nos Estados Unidos. Ele falou a respeito da repreensão de Jesus sobre a divisão promovida pelos discípulos em Marcos 9:38. “O que Jesus nos exorta é que católicos e evangélicos parem de interromper a missão um do outro, mas se esforcem para caminharem em unidade e, juntos, promovam a paz.”

Um exemplo disso é o que relatou o Padre João Henrique, da Comunidade Aliança de Misericórdia, na segunda palavra do dia, sobre um trabalho social realizado na Favela do Moinho, região central de São Paulo. Ali, católicos e evangélicos levam juntos ajuda material e espiritual à crianças e adultos carentes.

Por causa desta ação em nome do evangelho, o padre conta que o arrependimento brota entre os assistidos. "Eles não se conformavam com o fato de irmos até eles apenas para limpar sua sujeira e nos diziam que, por causa disso, acreditavam na existência de Jesus". O padre também disse ser esse o começo de um novo tempo, em que cristãos de diferentes denominações, por se converterem à palavra, fazem nascer um tempo de esperança, principalmente para os que se encontram à margem da sociedade.

Esteve presente ainda o padre Eduardo Douguerty, considerado o pai da Renovação Carismática Católica (RCC) no Brasil e fundador da TV Século 21. Padre Eduardo falou a respeito da missão de Jesus quando veio à terra, em unir a vontade humana com a vontade divina e ressaltou: “o Pai é nosso!”, referindo-se à unidade implícita na oração ensinada por Jesus.

O presidente do conselho da RCC no Rio de Janeiro, Vinícius Simões, também marcou presença na conferência e relembrou algumas falas do Papa Francisco com relação à unidade. Além disso, Vinicius reforçou a importância de caminhar juntos. “O Espírito Santo está nos unindo com laços celestiais porque o mundo precisa conhecer Jesus. A missão das igrejas não é suficiente estando separadas, pois para ser efetiva é preciso que estejam juntas”.

Já quase ao final do sábado, Padre Antônio José, que é assessor da RCC do Rio, também falou sobre a unidade desejada por Cristo, relembrando que Jesus ao preparar a casa do Pai pensava em paz e não em guerra. Padre Antônio ainda salientou a importância de não proferirmos o nome de Deus em vão. "Quando usamos o nome do Senhor para julgar os irmãos de outras denominações estamos ferindo seu santo nome".

Dom Roque Costa Souza, Bispo Auxiliar e assessor para o Ecumenismo na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro lembrou aos presentes que não é possível fazer a unidade sem o amor que Cristo nos ensinou. “Nós podemos transformar o mundo em que vivemos através da prática do amor. Que a nossa vida seja um verdadeiro testemunho da unidade”, convocou Dom Roque.

Finalizando o terceiro dia da conferência, Padre Vicente de Paula Neto, moderador-geral da Comunidade de Bethânia e sucessor do Padre Léo em seu trabalho de recuperação de dependentes químicos, dividiu com os presentes sua experiência com a unidade dos cristãos, despertada após assistir o pedido de perdão feito por pastores a irmãos católicos.

O sábado também contou com a participação especial dos pastores Asaph Borba e Bené Gomes durante os momentos de louvor, além da cantora católica Olívia Ferreira. Foi divulgado ainda durante o encontro ecumênico, a produção de um documentário a respeito da unidade da igreja no Brasil. De acordo com o idealizador do evento, Izaias de Souza Carneiro, membros de uma igreja Batista são os responsáveis pela captação e construção desse documento para a história da unidade cristã no País.

O domingo e último dia da Conferência Internacional de Louvor e Adoração Somos Um começou com uma missa celebrada na Paróquia Nossa Senhora da Vitória, Barra da Tijuca, para os católicos e aberta à participação dos evangélicos. Já na Cidade das Artes, local do evento, a primeira ministração foi dada pelo Padre Dr. Marcial Maçaneiro, SCJ, que faz parte da Comissão Internacional de Diálogo Católico-Pentecostal (Vaticano) e integra a equipe de serviço do Encontro de Cristãos em Busca de Santidade e Unidade (ENCRISTUS) no Brasil.

Na condição de representante de Dom Francisco Biasin, que é presidente da Comissão Episcopal e Pastoral para o diálogo ecumênico e inter-religioso da CNBB e Bispo da Diocese de Barra do Piraí, em Volta Redonda no Rio, Padre Marcial leu aos presentes uma carta enviada por Dom Francisco em que ele aponta a celebração da unidade como memorial, invocação e profecia de um mundo novo. Dom Francisco também pede que os cristãos orem e trabalhem a fim de criar as condições necessárias para que irmãos de todas as igrejas se unam e possam ir juntos ao encontro do Senhor. "Com certeza, na hora conhecida e preparada pelo Espírito, com a colaboração fiel e perseverante de todos, a unidade se realizará e será festa comum!", escreveu.

Em sua ministração, Padre Marcial falou sobre a diversidade dos dons distribuídos pelo Espírito (I Coríntios 12) e a centralidade para o qual todos eles apontam, que é Cristo. "As denominações recompõem a face inteira de Jesus. Ele dá o dom pensando no corpo todo, somos nós que os recebemos divididos", lembrou o padre. Ainda em sua participação, padre Marcial disse que a igreja é fruto da generosidade da Trindade, que revela sua diversidade nas pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo, sem que isso seja causa de divisão entre eles. "Pecado é quem transforma diversidade em partidarismo, imposição, divisão", pontuou.

Apesar das divisões observadas na igreja protestante após o avivamento Azuza, padre Marcial recordou aos presentes que Deus ainda continuou abençoando e derramando seu Espírito, o que demonstra sua graça abundante sobre os homens. Para o padre, as diferenças existentes entre os cristãos devem ser encaradas como parte importante do processo de amadurecimento que Deus deseja em sua igreja. "A diversidade compõe a comunhão e a comunhão é feita da diversidade".

Relembrando as palavras de Dom Roque em sua mensagem dada no dia anterior, padre Marcial reforçou também que a divisão ganha força na falta do amor e apenas o exercício deste curará as barreiras que nos separam e trará a unidade no corpo de Cristo. Ao olharmos para as diferentes características existentes nas denominações e reconhecermos sua contribuição para a igreja de Cristo estaremos caminhando para a cura da divisão. "Os metodistas dão ênfase aos métodos, os batistas ao batismo e os luteranos à justificação do pecador pela graça divina. Tudo isso é necessário para ajudar não somente as próprias comunidades mas todo o Corpo de Cristo. Igreja que não reconhece o batismo do outro, por exemplo, comete pecado. Porque quem batiza é a Trindade, não apenas a água", salientou padre Marcial.

Para o padre, nosso olhar dividido é também o que divide as escrituras. "Se Paulo dá ênfase à fé e Tiago às obras, a explicação é que os apóstolos dizem a mesma coisa com ênfases diferentes, apenas isso". Padre Marcial finalizou sua mensagem desejando que todos os dons sejam partilhados e não motivos de divisão no meio da igreja.

Na parte da manhã, houve ainda um forte momento de oração pelos jovens presentes na conferência. O jovem Padre Jorge Carreira, sacerdote do Clero Arquidiocesano do Rio de Janeiro e assessor para o Setor da Juventude em sua igreja local, já havia recordado no dia anterior a necessidade da oração dos mais velhos pelos mais jovens, no sentido de enviá-los à missão da unidade no Corpo de Cristo.

A Conferência Internacional Somos Um recebeu ainda no domingo a presença do prefeito da cidade, Marcelo Crivella, e sua esposa, Sylvia Jane. O presidente da Cidade das Artes (local do evento), André Marini, também compareceu ao espaço onde acontecia a conferência. O idealizador do projeto e fundador da Comunidade Coração Novo, Izaias de Souza Carneiro, agradeceu ao prefeito pela possibilidade do evento naquele espaço e lembrou que "o Rio de Janeiro é um lugar profético para a unidade da igreja no Brasil".

O prefeito Crivella disse ter "apreço e respeito aos católicos e por Dom Orani" e agradeceu aos padres e pastores presentes. Crivella afirmou que o Rio de Janeiro precisa de muita oração e disse ter ficado satisfeito por saber que ali católicos e evangélicos se reuniram para orar também pela nação brasileira. "Tudo que o Brasil não precisa é de uma guerra religiosa", finalizou.

Dom Orani João Tempesta também discursou aos presentes e lembrou que o evento já é tradição na Arquidiocese do Rio de Janeiro, que tem como objetivo celebrar a unidade, com inspiração na Vigília de Pentecostes e na Semana de Oração pela Unidade, além de outros encontros promovidos com várias igrejas cristãs. Segundo Dom Orani, "a oração pela unidade é importante e esse momento vem celebrar o ajuntamento dos cristãos, especialmente neste ano que é uma excelente oportunidade de pedirmos perdão uns aos outros e viver um relacionamento de fraternidade clamando a Deus que nos ajude a sermos unidos, pois no coração de Deus já somos um".

Dom Orani também leu para os presentes a carta enviada pelo Papa Francisco por ocasião da realização da I Conferência Internacional de Louvor e Adoração Somos Um. Na carta, o papa transmitiu "sua gratidão pela união orante e o afeto fraterno e, ao mesmo tempo, deseja a serenidade e confiança que brotam da certeza de termos no céu um Pai que não cessa de cuidar de todos nós até ao ponto de enviar seu Filho como Luz verdadeira, que vindo ao mundo, a todos ilumina (Jo 1:9)". O papa ainda pediu a abundância das bênçãos de Deus para os participantes do encontro e suas respectivas comunidades, solicitando a todos que também intercedam por ele.

Seguindo com os projetos para a causa da unidade entre os cristãos, foi divulgado ainda ao final da conferência o lançamento do primeiro DVD ecumênico do Brasil, previsto para o dia 13 de dezembro deste ano. O DVD foi gravado em 2016 na cidade de Valinhos, em São Paulo, por Izaias Carneiro e conta com as participações dos pastores Asaph Borba e Bené Gomes, além dos cantores católicos Olívia Ferreira e Tony Alisson.

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Texto: Marina Venuto / Assessoria de Comunicação Somos Um
Fotos: Assessoria de Comunicação Somos Um

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