Karl Marx nasceu em 5 de maio de 1818, na província alemã do Reno. Após 200 anos do seu nascimento (1818-2018), há várias linhas de pensamento no comunismo. Porém, essa de perseguição violenta aos religiosos Karl Marx condenou e combateu, inclusive apoiando a luta dos judeus por direitos civis e políticos, na Alemanha de sua época. Para apreender o seu pensamento sobre religião (notadamente o cristianismo e o judaísmo), é necessário remontar-se ao seu texto intitulado ‘Para a questão judaica’ e ao contexto da Alemanha do século XIX, na qual Marx viveu, a fim de não incorrer em erros de descontextualização das afirmações, já que elas são observações diretas e indiretas dos contextos histórico, social e político daqueles dias.
 
As origens religiosas de Marx
 
Marx era protestante de batismo e de ascendência judaica. Porém, a influência judaica da família, por parte principalmente de seus avós, paterno e materno, que foram rabinos, não teve muito peso na formação religiosa de Marx, já que seu seu pai se converteu ao cristianismo em 1817 (Marx nasceu em 1818) e parece ter feito questão de batizar seus filhos na igreja evangélica.
 
O contexto sociopolítico do jovem filósofo
 
Enquanto no início do século XIX países como Inglaterra e França se desenvolviam – com a indústria moderna naquela e a manufatura nessa -, a Alemanha predominantemente rural (3/4 dos 23 milhões de habitantes) sequer era ainda um país unificado e bem definido. Essa período (primeira metade do século XIX) de penúria do povo e da estrutura sociopolítica alemã ficou conhecido como ‘miséria alemã’. Sob o domínio napoleônico, apenas a Prússia, uma das unidades políticas alemãs, experimentou um pequeno desenvolvimento, que logo cessou com sua derrota.
 
A Prússia, agora sob o comando de Frederico Guilherme III (1770-1840), que reinou de 1797 até sua morte, passou a ser o símbolo reacionário patrocinado pela Santa Aliança, rompendo com ideias constitucionais, democratizantes e liberais. Como consequência, a Confederação Germânica da terceira década do século XIX não era um Estado propriamente dito, mas um conjunto de cerca de quatro Estados, com representação política heterogênea, dominação de uma nobreza fundiária, entraves legatários do feudalismo e ausência de laicização.
 
Passam-se os anos e a Alemanha desenvolve sua economia e política, tendo como consequência o aumento das diferenças sociais: diminui o campesinato, cresce o proletariado (ainda sem muitos direitos); a burguesia se insurge contra os interesses da nobreza fundiária. É nesse contexto, com uma burguesia debilitada e um proletariado ainda informe e sem consciência política, que surgem os intelectuais que fariam frente ao regime opressor prussiano e à ‘miséria alemã’, embalados pela filosofia de Kant, Goethe e Hegel; esse último, uma das grandes inspirações de Marx.
 
O pensamento de Hegel reinava nas Universidades da Alemanha, entre os anos 1830-1840, inspirando os jovens, entre eles, o jovem Karl Marx. Desse fervor intelectual surgiria a ‘esquerda hegeliana’, contra o regime prussiano. Todavia, as ideias de Hegel não eram um consenso, logo seus seguidores se dividiram entre esquerda e direita hegelianas. Na esquerda estava Bruno Bauer, nove anos mais velho que Marx e um intelectual já muito reconhecido, que fora aluno de Hegel. Marx se aproximaria de Bauer e com ele faria uma grande amizade, mas também seria seu grande adversário intelectual, principalmente por causa do ataque aos judeus.
 
‘Para a questão judaica’
 
Os direitos civis que os judeus alcançaram na ocupação da Alemanha pela França foram retirados no restabelecimento da Confederação Germânica, influenciado pela Santa Aliança, que trouxe de volta o conceito de Estado cristão. Com o édito de 4 de maio de 1816, os judeus foram proibidos de exercer funções públicas na Confederação.
 
Escrito em 1843 e publicado em 1844, ‘Para a questão judaica’ é uma análise crítica de textos que Bruno Bauer publicou (‘A questão judaica’ e ‘A capacidade dos judeus e dos cristãos hodiernos para se tornarem livres’), nos quais ele ataca de forma incisiva a luta dos judeus por direitos civis e políticos. Nessa época, Marx tinha apenas 25 anos e ainda não havia desenvolvido sua perspectiva revolucionária; era um democrata radical caminhando para o comunismo. Mas esse é considerado um dos escritos mais importantes do Marx jovem.
 
Bauer acusou os judeus de egoístas, por só se preocuparem em lutar por sua liberdade religiosa, ao passo que, segundo ele, não deveriam perder tempo com isso, mas deveriam lutar pela libertação política de toda a humanidade. Para ele, era oportunismo os judeus reivindicarem que o Estado abdicasse de suas exigências religiosas, enquanto eles mesmos não abdicavam de serem judeus, mas se viam como um povo eleito e privilegiado. Bauer diz que cristãos e judeus devem renunciar à religião para que o Estado se emancipe de fato. Mas, como o judaísmo é de caráter particular, e o cristianismo de caráter universal, os cristãos são mais aptos à emancipação. No fim, além de exigir que cristãos e judeus renunciem à religião, como condição para emancipação do Estado, ainda lança a discórdia entre eles, jogando um contra o outro.
 
E o mais importante: Bauer via questão judaica como uma questão religiosa, incorporando-a à questão política, ou seja, a emancipação religiosa depende da emancipação religiosa.
 
É aí que Marx entra, para defender a causa dos judeus e das religiões em geral em ‘Para a questão judaica’. Bauer erra ao apenas investigar quem deve emancipar e quem deve ser emancipado, e não de que tipo de emancipação se trata (política, religiosa ou humana?). Também erra ao submeter à crítica apenas o Estado cristão, e não o Estado em si, abordando a questão do ponto visto puramente religioso. Para Marx a questão da emancipação é política, não religiosa. E a emancipação política não depende da religiosa, nem com ela guarda qualquer relação.
 
Mas a questão crucial que Marx observa é que nem a emancipação política nem a religiosa podem emancipar a humanidade, embora a política seja importante. Logo, a emancipação política também não pode tornar os judeus livres, embora eles possam se emancipar sem renunciar a sua religião e cultura.
 
“Não dizemos, portanto, com Bauer, aos judeus: vós não podeis ser politicamente emancipados, sem vos emancipardes radicalmente do judaísmo. Nós dizemo-lhes antes: porque vós podeis ser politicamente emancipados sem vos verdes completamente livres e sem contradição do judaísmo, por isso [é que] a ‘emancipação política’ não é propriamente a emancipação ‘humana’.”
 
Importante que Marx derruba a exigência de Bauer, de que os judeus (ou outros religioso quaisquer) são obrigados a renunciar a sua crença em prol do Estado; e de que a religião deve ser suprimida pelo Estado:
 
“A emancipação política deixa a religião subsistir, ainda que [não seja] nenhuma religião privilegiada […] A emancipação do Estado em relação à religião não é a emancipação do homem em relação à religião.”
 
Marx inclusive defendeu o cristianismo e o judaísmo como ideologias de combate às injustiças sociais impostas ao povo pela burguesia, de combate à exploração do homem pelo próprio homem. Bauer defendeu a ideia de que os judeus não eram sequer merecedores de receber direitos humanos, enquanto não negassem sua fé.
 
Para Marx, a verdadeira emancipação, da humanidade, viria dos próprios cidadãos, com consciência social e política, não do egoísmo, do individualismo, das emancipações política e religiosa e da alienação, resumidamente.
 
“A religião é o ópio do povo”
 
Quando Marx disse que “a religião era o ópio do povo”, ele se referia a essa religião criada pela elite social, alienante, que levava (e leva) o povo à aceitação das desigualdades e à passividade diante das injustiças.
 
Em seu artigo ‘A religião é o ópio do povo‘, publicado pelo Ativismo Protestante, Felipe Catão desnuda melhor essa frase de Marx e seus desdobramentos, à luz de seus contextos histórico, social e político:
 
“O ópio, naquele século, era um narcótico que a Companhia Britânica das Índias Orientais contrabandeava às toneladas da Índia para a China, com a intenção de contrabalancear o comércio entre o Reino Unido e a China. O interesse pelos produtos chineses (chá, seda, porcelana) era enorme, ao passo que os chineses pareciam se interessar por único produto – o ópio. A menção ao ópio é como uma metáfora, pois o cerne da questão é a exploração dos mais pobres pelos mais ricos – nesse caso, os chineses (mais pobres), o Reino Unido (mais ricos). Para Marx, a religião servia para aliviar a vida dos explorados, que se apegavam a ela como uma compensação (o sofrimento religioso compensa o sofrimento real). Havendo uma sociedade sem exploradores e explorados, a religião deixaria de existir, segundo Marx.
 
A proposta de Marx era para que a classe operária saísse do seu entorpecimento e rompesse com o círculo de exploração do seu trabalho, e que reivindicasse o que era seu de direito: o controle do seu trabalho e a posse de seus frutos como propriedades legítimas [...]; E isso somente poderia ser conquistado com a luta de classes e com a revolução. De outro modo, os ricos e poderosos jamais iriam renunciar ao seu papel de explorador.
 
Colocando a frase (“a religião é o ópio do povo”) dentro do seu contexto histórico-sócio-político, a crítica de Marx visava atingir as religiões dominantes de então, que não só comungavam, mas colaboravam diretamente com as classes dominantes e com os exploradores da classe trabalhadora. Religiosos exaltavam e enalteciam a experiência religiosa como a realização fundamental terrena do ser humano, negando a eles o direito à luta de classes e a prática revolucionária, como que condenando a classe operária às privações sem o direito de aspirar à vida digna.”
 
A criação da figura mítica de um Marx antissemita e ateu
 
Agindo de pura má fé, pessoas têm tentado demonizar Marx, principalmente religiosos e intelectuais reacionários, usando a velha e covarde arma de citar frases isoladas de sua estrutura textual e fora de seu contexto. Usam expressões isoladas citadas por Marx para caracterizar a religião capitalista, alienante e egoísta, como “deus mundano”. À certa altura, quando faz uso dessas expressões, Marx já não distingue o religioso do cidadão social, pelo contrário, considera todos iguais na luta de classes:
 
“Procuremos romper a versão teológica da questão […] Consideramos o judeu mundano real, não o ‘judeu do Sabat’, como Bauer faz, mas o ‘judeu de todos os dias’.”
 
O ‘judeu de todos os dias’ é o trabalhador explorado no dia-a-dia.
 
O objetivo dessas pessoas, de criar um Marx antissemita, ateu, perseguidor e disseminador de ódio contra a religião, muitas vezes prosperou entre os incautos e na ignorância e simplicidade dos cristãos. Isso só mostra a má intenção, no vale tudo para demonizar a esquerda. Essas narrativas vêm principalmente de reacionários de extrema-direita, intelectuais liberais e da elite religiosa, dos milionários exploradores da fé, pois eles sabem que, na verdade, Marx queria mesmo era nos libertar deles.
 
Fonte: Ativismo Protestante
Foto: Bettmann/Getty Images

 
 
Lutando há mais de três décadas contra a instalação de hidrelétricas no Rio Tapajós, no Pará, o povo Munduruku lançou nesta terça, dia 24, o “Mapa da Vida – Tapajós e Sawre Muybu: a visão do povo Munduruku sobre seu rio e seu território”. Com a publicação, os Munduruku buscam mostrar ao governo e à sociedade a importância da demarcação de suas terras para a sobrevivência do povo, de sua cultura e dos recursos naturais.
 
Durante o Acampamento Terra Livre 2018, os Munduruku realizaram um ato em frente ao Palácio da Justiça, sede do Ministério da Justiça, em Brasília, para exigir a demarcação de sua Terra Indígena Sawre Muybu. Eles instalaram placas no gramado do Palácio e distribuíram o Mapa da Vida para a população nas ruas da região. Na sequência, ao entregarem a publicação ao Ministério da Justiça, cobraram uma posição do órgão sobre o processo de demarcação.
 
O Mapa da Vida é resultado de um intenso e rico processo de mapeamento territorial e cultural, desenvolvido ao longo de dois anos na Terra Indígena Sawre Muybu sob a liderança dos Munduruku, com o apoio do Greenpeace. Ele revela o uso tradicional que o povo faz do seu território ancestral e do rio Tapajós, expondo como seu modo de vida é interligado e interdependente da natureza.
 
A iniciativa chama a atenção para a urgência da necessidade de demarcação da Terra Indígena Sawre Muybu, que garante o direito originário deste povo ao seu território tradicional, evitando que sua sobrevivência vá por água abaixo com a implantação de grandes projetos de infraestrutura, especialmente as hidrelétricas. “Vamos esperar de braços cruzados, sentados, a água encher para alagar nossas terras? Não, nós temos que lutar. O mapeamento é uma arma que temos para nos defender”, declara Bruno Kaba, Chefe dos Guerreiros do povo Munduruku.
 
“Trata-se de um poderoso instrumento de diálogo com a sociedade sobre a política energética nacional, que insiste em expandir a construção de hidrelétricas na Amazônia, afetando o modo de vida dos povos indígenas e populações tradicionais”, declara Danicley de Aguiar, especialista em Amazônia, do Greenpeace Brasil.
 
Após anos de luta dos Munduruku, o governo arquivou, em 2016, o licenciamento da usina hidrelétrica de São Luiz do Tapajós. Apesar da vitória, eles acreditam que a não demarcação da terra indígena Sawre Muybu é um claro sinal de que o governo ainda não desistiu totalmente dos planos de construção de hidrelétricas na região. Atualmente, há cerca de 40 hidrelétricas planejadas ou em construção na bacia do rio Tapajós. “Nós não estamos fazendo caminho em terra alheia, não estamos invadindo a terra de outros. Nós estamos fazendo o nosso caminho”, afirma Juarez Saw, cacique da aldeia Sawre Muybu.
 
A demarcação da Terra Indígena Sawre Muybu, de cerca de 178 mil hectares, se arrasta há anos na burocracia estatal e atualmente está completamente paralisada. O prazo administrativo para a decisão sobre a demarcação foi encerrado em novembro de 2016, mas, até o momento, o Ministério da Justiça ainda não se pronunciou a respeito.
 
Conheça e navegue pelo Mapa da Vida: www.tapajos.org/omapadavida
 
Mais de um milhão de pessoas já apoiam a luta dos Munduruku. Faça parte deste movimento.
 
Fonte: Mobilização Nacional Indígena
Foto: Reprodução

 
 
Os povos indígenas encerraram nesta quinta (26) a 15ª edição do Acampamento Terra Livre, em Brasília. Durante cinco dias, após alguns encontros com representantes do poder público, eles prepararam uma carta de reivindicações, entregue no mesmo dia, ao Ministério da Justiça, após terem marchado pela Esplanada dos Ministérios. Os povos originais lutam pela demarcação de suas terras e contra os retrocessos do governo Temer.
 
Ainda ontem, eles foram impedidos de entrar no gramado do Congresso Nacional, mas ocuparam o hall de entrada do Ministério da Justiça. As lideranças entendem que a morosidade do governo, responsável pela homologação de reservas, tem permitido a ação de ruralistas que impõem uma série de medidas judiciais.
 
"O governo não busca a solução, mas travar e parar com nossas demarcações. Desde 2013, não temos uma nova área demarcada, mas temos anulações de homologações de terra e o marco temporal da Advocacia Geral da União (AGU)", afirma Alberto Terena, líder do povo Buruti, residente no Mato Grosso do Sul, em entrevista ao repórter Uélson Kalinovski, da TVT.
 
Segundo os indígenas, a situação leva ao conflito e ao genocídio dos povos tradicionais nos confrontos pela terra. Como símbolo das mortes, eles pintaram a bandeira brasileira de vermelho e estenderam uma faixa nos mastros do ministério. "Nós, indígenas do Mato Grosso do Sul, somos a segunda maior população do país. Nós temos sofrido esse massacre. Nossos irmãos guarani-kaiowá tem diversas lideranças sendo mortas", acrescenta Alberto.
 
Na carta, indígenas dizem que não aceitam o "loteamento político da Fundação Nacional do Índio (Funai), especialmente para atender interesses da bancada ruralista e demais setores anti-indígenas". O texto ainda denuncia a situação de calamidade da saúde nas comunidades, fruto da precariedade do atendimento básico.
 
Leia a carta na íntegra:
 
Depois de 518 anos, as hordas do esbulho, da acumulação e do lucro continuam massacrando e exterminando os nossos povos para tomar conta de nossas terras e territórios, dos bens comuns e de todas as formas de vida que, milenarmente, soubemos proteger e preservar. 
 
Completados 30 anos da Constituição Federal de 1988, que consagrou a natureza pluriétnica do Estado brasileiro, os povos indígenas do Brasil vivem o cenário mais grave de ataques aos seus direitos desde a redemocratização do país. Condenamos veementemente a falência da política indigenista, efetivada mediante o desmonte deliberado e a instrumentalização política das instituições e das ações que o Poder Público tem o dever de garantir. 
 
O direito originário sobre nossas terras, assegurado como cláusula pétrea pelo Artigo 231 da Constituição, vem sendo sistematicamente violado pelos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, não apenas com a completa paralisação das demarcações das terras indígenas, mas também mediante a revisão e a anulação dos processos de reconhecimento dos nossos direitos territoriais. 
 
Ao negociar nossos direitos com bancadas parlamentares anti-indígenas, especialmente a ruralista, o governo ilegítimo de Michel Temer publicou o Parecer AGU nº 001/2017, que, de forma inconstitucional e contrária à jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF), tenta impor a tese do marco temporal, uma das mais graves violações contra os nossos povos. Sua condenável utilização tem servido para o retardamento dos já morosos processos de demarcação e, em determinados casos, para a anulação de demarcações já efetivadas e consolidadas. A tese desconsidera o histórico de expropriação territorial e de violência a que muitos dos nossos povos foram submetidos, durante séculos, inclusive na ditadura militar, como denuncia o relatório da Comissão Nacional da Verdade. 
 
No âmbito do Poder Judiciário, tramitam milhares de ações propostas pelos nossos inimigos, estimuladas nos últimos tempos pela tese do marco temporal, e que tem o objetivo de suprimir o nosso direito territorial sem que possamos exercer o direito de acesso à justiça para a defesa dos nossos direitos. 
 
Não aceitamos o loteamento político da FUNAI, especialmente para atender interesses da bancada ruralista e demais setores anti-indígenas, como as últimas nomeações de presidentes, incluindo a do Sr. Wallace Moreira Bastos, cujo currículo denota completa ignorância das questões indígenas. Igualmente, condenamos o intencional desmantelamento do órgão indigenista, com reduções drásticas de orçamento, que inviabiliza o cumprimento das suas atribuições legais, especialmente no que toca a demarcações, fiscalização, licenciamento ambiental e proteção de povos isolados e de recente contato. Na mesma toada, foram extintos espaços importantes de participação e controle social, principalmente o Conselho Nacional da Política Indigenista (CNPI). 
 
Não bastasse isso, denunciamos o fisiologismo entre o governo federal e o Congresso Nacional e o desmonte deliberado do Estado brasileiro provocado pela Emenda Constitucional 95, que congela o orçamento por 20 anos. Destacamos a absoluta falta de implementação da PNGATI nos territórios, a extinção do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e da Assistência Técnica Rural (Ater Indígena). Tais omissões impedem as imprescindíveis ações de etnodesenvolvimento, gestão ambiental e proteção das terras indígenas, resultando na intensificação da presença de atividades ilegais e danosas, como garimpo, exploração madeireira, arrendamento, loteamento, comercialização e apossamento de terras já demarcadas por não indígenas; tráfico de conhecimentos tradicionais e outras ameaças.
 
Denunciamos, ainda, a situação de calamidade da saúde indígena, fruto da precariedade do atendimento básico, do desrespeito às particularidades de cada povo indígena, da desvalorização da medicina tradicional, da falta de acesso a medicamentos e ao transporte para a realização de tratamentos, situação agravada pela utilização político-partidária da política e das instâncias responsáveis pela gestão da saúde indígena. Da mesma forma, denunciamos o descaso com a educação escolar indígena, manifesta na falta de respeito ao projeto pedagógico de cada povo, no não reconhecimento da categoria de professores indígenas, na falta de apoio à formação continuada desses professores, incluindo as licenciaturas interculturais, e na má qualidade das estruturas das escolas, ou na falta destas nas comunidades, bem como a falta de material didático compatível com as especificidades.
 
A atual conjuntura ainda impõe sérios riscos de retrocesso na legislação de proteção aos direitos dos povos indígenas. Para além do sempre presente fantasma da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215, os esforços da bancada ruralista voltam-se no momento para uma tentativa de legalizar o arrendamento das terras indígenas, afrontando o direito constitucional ao usufruto exclusivo dos povos indígenas sobre suas terras. Recorrem para isso a estratégias de desinformação e tentativas de divisão de povos e comunidades. Também está nessa agenda uma série de propostas de flexibilização do licenciamento ambiental voltadas a liberar empreendimentos em nossos territórios, como o PLS 654/2015, o PLS 168/2018 (ambos no Senado) e o Projeto de Lei (PL) 3729/2004 (Câmara dos Deputados). Não admitiremos a desconsideração de povos indígenas isolados, a restrição de avaliação de impactos ambientais apenas para terras indígenas homologadas, o caráter não vinculante da manifestação da FUNAI e a concessão automática de licença quando superado o prazo para manifestação do órgão indigenista, entre outras.
 
É esse contexto de hegemonia dos ruralistas e outros inimigos dos povos indígenas, em todos os poderes do Estado, que provoca o acirramento sem precedentes da violência contra os nossos povos e a criminalização das nossas lideranças que estão na frente das lutas de defesa dos nossos direitos, situação agravada pelo desmonte das instituições que tem o dever constitucional de proteger e promover os direitos indígenas.
 
Diante desse quadro sombrio de extermínio dos nossos direitos, nós, cerca de 3.500 lideranças indígenas, representantes dos mais de 305 povos indígenas de todas as regiões do país, reunidos no Acampamento Terra Livre 2018, exigimos das instâncias de poder do Estado o atendimento das seguintes reivindicações: 
 
1- Revogação imediata do Parecer 001/2017 da AGU / Temer;
 
2- Revogação imediata da Emenda Constitucional 95, que congela para os próximos 20 anos o orçamento público;
 
3- Realização urgente de operações para a retirada de invasores de terras indígenas já demarcadas e a efetiva proteção das mesmas;
 
4- Demarcação e proteção de todas as terras indígenas, com especial atenção às terras dos povos isolados e de recente contato, assegurando o fortalecimento institucional da FUNAI;
 
5- Dotação orçamentária, com recursos públicos, para a implementação da PNGATI e outros programas sociais voltados a garantir a soberania alimentar, a sustentabilidade econômica e o bem viver dos nossos povos e comunidades;
 
6- Garantia da continuidade do atendimento básico à saúde dos nossos povos por meio da SESAI, considerando o controle social efetivo e autônomo por parte dos nossos povos;
 
7- Efetivação da política de educação escolar indígena diferenciada e com qualidade, assegurando a implementação das 25 propostas da segunda conferência nacional e dos territórios etnoeducacionais;
 
8- Arquivamento de todas as iniciativas legislativas que atentam contra os nossos povos e territórios;
 
9- Garantia por parte das distintas instâncias do poder Judiciário da defesa dos direitos fundamentais dos nossos povos assegurados pela Constituição Federal e os tratados internacionais assinados pelo Brasil;
 
10- Fim da violência, da criminalização e discriminação contra os nossos povos e lideranças, assegurando a punição dos responsáveis por essas práticas, a reparação dos danos causados inclusive por agentes do Estado e comprometimento das instancias de governo (Ministério de Direitos Humanos, Ministério da Justiça, Defensoria Pública) na proteção das nossas vidas;
 
11- Aplicabilidade dos tratados internacionais assinados pelo Brasil, de modo especial a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) incorporada ao arcabouço jurídico do país e que estabelece o direito dos povos indígenas à consulta livre, prévia e informada sobre quaisquer medidas administrativas ou legislativas que os afetem.
 
Brasília – DF, 26 de abril de 2018
 
Articulação dos Povos Indígenas  do Brasil –APIB
Mobilização Nacional Indígena
 
Fonte: Rede Brasil Atual
Foto: Reprodução

 
O papa Francisco enviou uma mensagem ao terceiro Fórum Mundial Cristão que se conclui, em Bogotá, na Colômbia, nesta sexta-feira (27/04).
 
Na carta lida, durante o terceiro dia do Fórum Mundial Cristão, que teve início na última terça-feira (24/04), o papa Francisco saúda os representantes de igrejas cristãs de diferentes continentes, sublinhando que o encontro é uma ocasião para avançar nos desafios atuais, de forma inovadora e renovada, a partir da “promoção da solidariedade e da colaboração cristã”.
 
“Uno-me a vocês na ação de graças a Deus Todo-poderoso por esta ocasião, pois o fórum é uma oportunidade cheia de graça para que os representantes de várias comunidades cristãs se reúnam como irmãos e irmãs, caminhando rumo ao cumprimento da oração de Jesus: “Que todos sejam um para que o mundo creia”, afirma Francisco na mensagem.
 
“Rezo para que o fórum seja um momento de partilha de experiências de fé pessoais e eclesiásticas e proporcione um espaço aberto e respeitoso. A humanidade precisa muito dessa solidariedade que encoraja o respeito, a estima, o perdão recíproco e a defesa real da dignidade humana em todas as situações”, conclui o Pontífice.
 
Fonte: Vatican News
Foto: Reprodução

 
 
Durante o segundo dia do Fórum Mundial Cristão, realizado em Bogotá, Colômbia, de 24 a 27 de abril, o maior expoente da Igreja Sírian Ortodoxa de Antioquia, o patriarca Mor Ignatius Afrem II, falou contra a interminável guerra sofrida pela sociedade síria e condenou os últimos ataques feitos pelas potências ocidentais.
 
"Esperávamos que a recuperação da maior parte da geografia síria pelo exército nacional proporcionasse a possibilidade de uma solução política para a crise na Síria, no entanto, o ataque realizado pelos EUA, Reino Unido e França, mais uma vez, tiraram nossa esperança. Esse ato injusto de agressão, baseado em relatos não confirmados de ataques químicos realizados em Duma, um subúrbio de Damasco, é uma indicação do baixo nível que as coisas alcançaram em nosso mundo. Enquanto que condenamos todos os tipos de violência cometidos por todas as partes, esperamos que a comunidade internacional, especialmente os 'big boys', respeitem a Carta das Nações Unidas e respeitem o direito internacional ".
 
O patriarca informou aos presentes que logo após os ataques contra a Síria, foi feita uma declaração em conjunto com os outros patriarcas baseados em Damasco (o grego e o das igrejas ortodoxas greco-melquita) denunciando a 'brutal agressão' como uma violação clara do direito internacional e da Carta da ONU, um ataque injustificado a um país soberano, que ocorre quando a Comissão Internacional Independente de Investigação estava prestes a iniciar seu trabalho na Síria e terminou minando o trabalho da comissão. "Esta agressão brutal destrói as chances de uma solução política pacífica e leva a uma escalada e complicações, incentivando terroristas a continuar suas operaçõe."
 
O cristianismo tira as pessoas fora da zona de conforto
 
Entre outros assuntos, o patriarca também falou da situação do cristianismo no mundo atual. "O cristianismo não é bem-vindo no mundo porque tira as pessoas fora da sua zona de conforto, desafia suas convicções filosóficas mundanas com a simplicidade da fé."
 
Ele também afirmou que cristãos em todo o mundo, e ao longo dos séculos, são vítimas de perseguição. "Eu venho de uma igreja que enfrentou muitas tribulações ao longo dos séculos", e acrescentou: "A verdadeira igreja, que é fiel ao seu Senhor e Salvador, deve ser perseguida."
 
Fonte: AIPRAL
Foto: Reprodução

 
 
Um “gol de placa” em favor do diálogo foi marcado no dia 12 de abril, no interior do estado de São Paulo! Isso porque, nessa data, representantes da Igreja Católica Apostólica Romana, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias - popularmente conhecida como Igreja dos Mórmons - se reuniram para a possível criação de um Conselho Municipal de Igrejas Cristãs de Cosmópolis (SP).
 
O encontro, intitulado Café Ecumênico, foi motivado pelo pastor luterano Evandro Meurer. Além dele, estavam presentes: o conselheiro Adrião e os missionários Fisher e Bezerra, da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias; o padre Ricardo, da Paróquia S. Benedito, e o padre Israel, da Paróquia S. Gertrides.
 
Após compartilharem aspectos de vida e ministério em cada uma dessas igrejas, foram realizados uma celebração e um momento de reflexão sobre a Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC) deste ano (veja mais informações sobre a SOUC aqui).
 
"Para este encontro, foram convidados 16 pastores, padres e ministros religiosos de 13 diferentes igrejas presentes em Cosmópolis. A presença de 3 denominações, de 4 igrejas locais, foi encarada como positiva para este início, tendo em vista o desafio da unidade cristã na história e na atualidade do cristianismo", declarou o pastor Meurer.
 
"A tônica da reflexão sobre a importância de um conselho de igrejas cristãs na cidade se resumiu numa palavra que conjuga duas: ORA-AÇÃO. Esta é mais uma ação resultado das reflexões sobre o tema 'Agora são outros 500', em 2018, realizadas na Comunidade de Confissão Luterana", concluiu.
 
CONIC com informações da IECLB
Foto: Reprodução IECLB

 
 
Visão de Igreja e Missão 2030 é o tema da V Consulta Global de Igrejas Parceiras da Obra Missionária Evangélica Luterana na Baixa Saxônia (OMEL), com realização de 21 a 28 de abril de 2018, em Porto Alegre/RS, com a participação de, aproximadamente, 35 pessoas, representando Igrejas da África, Ásia, América Latina e Europa.
 
O Tema III da Consulta, Diversidade na Igreja e na Sociedade, foi desenvolvido após a Devocional matutina, realizada na Sede Nacional da IECLB, que hospeda o evento. A reflexão considerou o aspecto que viver em contextos caracterizados por diversidade e pluralismo de religiões é uma realidade em todo o mundo. Os novos conflitos surgidos nos últimos cinco anos mostram crescentes tensões e violência causados por diferentes identidades políticas, religiosas e culturais. Estes conflitos requerem uma nova abordagem construtiva e positiva capaz de lidar com diversidades, portanto também novos modelos de diálogo e encontro, que promovam paz sustentável, justiça e integridade da Criação para as futuras gerações. As questões centrais são: A coexistência pode ter êxito? Há diálogo entre diferentes Comunidades religiosas em um contexto de forte pluralismo, isto é, com capacidade de aceitar diversidade? As Igrejas podem afirmar que são abertas, buscam o diálogo e aceitam uma variedade de ‘missões’ ou o próprio conceito de missão é contraproducente nestes contextos?
 
 
Os Painéis foram conduzidos pela Pa. Romi Bencke, Secretária Geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), pelo P. Luis Henrique Sievers, Ministro na Paróquia de Lajeado/RS, e pelo Bispo Humberto Maiztegui, da Igreja Anglicana.
 
Também foram questões colocadas para os grupos: Como podemos desenvolver uma base para valores comuns, criando espaços para convívio e ações das gerações futuras?, Como forjar a capacidade de convívio e tolerância nas Igrejas visando a criar chances para testemunhar a fé em um horizonte mais amplo?, De que maneira podemos testemunhar o Evangelho em um espírito de respeito e tolerância com pessoas de outras religiões?, Que desafios devemos considerar quando se trata de diálogo com outras religiões, especialmente no que se refere a aceitar a fé das outras pessoas e o que isso significa para as nossas estruturas e os nossos programas? e Que caminhos devemos seguir para receber um ‘sim’ referente à pluralidade em meu país, contexto e Igreja?
 
À tarde, foram visitados os seguintes Projetos diaconais acompanhados pela IECLB:
 
Grupo 1 - Comunidade Quilombola,
Grupo2 - Associação de Imigrantes Senegaleses e
Grupo 3 - Comunidade Indígena, todos em Porto Alegre.
 
As Igrejas parceiras da OMEL são membros da comunhão luterana expressa pela Federação Luterana Mundial (FLM). Ao reunir representantes de Igrejas Luteranas de diversos contextos, a Consulta espera construir uma base comum para projetos, apoio mútuo e possibilidades de acompanhamento e aprendizado. Trata-se, portanto, de uma plataforma de intercâmbio de boas experiências e mútuo aprendizado visando a fortalecer as Igrejas para melhor participar na Missão de Deus no mundo.
 
Fonte: IECLB
Fotos: Reprodução

 
 
A Diocese Barra do Piraí – Volta Redonda esteve em festa, no dia 20 de abril, pela comemoração do Jubileu de Ouro (50 anos) de ordenação presbiteral de dom Francisco Biasin, bispo católico e grande defensor do ecumenismo no Brasil e no mundo. Para marcar a data, foi realizada uma missa na Igreja Nossa Senhora da Conceição, no bairro Conforto.
 
A celebração contou com a participação de aproximadamente 40 bispos, de diferentes estados do Brasil, além de padres, diáconos, religiosos e religiosas, seminaristas, autoridades civis e fiéis das dioceses por onde o bispo passou. Ao todo, cerca duas mil pessoas compareceram. O CONIC esteve representado pela secretária-geral, Romi Bencke, pastora luterana.
 
 
Dom Francisco Biasin nasceu em Arzercavalli/Pádua, na Itália, em 6 de setembro de 1943. É filho de Attilio Biasin e Vitória Biasin. Foi ordenado sacerdote em 20/04/68, em Pádua. Veio para o Brasil em 1972, como missionário “fidei donum” (do latim, “O dom da fé”).
 
Percorreu várias cidades e estados; trilhando e se capacitando nos caminhos da fé. Foi nomeado bispo por dom Bernardino Marchió em 12 de outubro de 2003, já no Brasil. Seu lema é “Dar a vida pelos irmãos”. Sua primeira missão como bispo foi em Pesqueira (PE) entre 2003 e 2011.
 
Foi nomeado para a Diocese de Barra do Piraí – Volta Redonda em 8 de junho de 2011 e tomou posse em 28 de agosto do mesmo ano. Atualmente é o presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso da CNBB e membro do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso.
 
“Na minha época, na Itália, os meninos entravam no seminário muito cedo, e eu não fugi a essa regra… Lembro-me de que a minha decisão, renunciando a uma expressão do amor humano, o matrimonial, para um amor maior, foi aos 18 anos, num retiro antes do diaconato. Foi quando senti que Deus era generoso para comigo, e que a minha fidelidade dependia da dEle. Eu não podia garantir nada em minha vida, a não ser o amor de Deus”, recordou dom Francisco.
 
Com informações do portal A Voz da Cidade
Fotos: Raimundo / Resen Foto Studio

 
Lugar de encontro e devoção de praticantes do candomblé há 17 anos, o terreiro de Conceição d'Lissá tem recebido, nos últimos meses, visitantes inusitados. O templo, localizado em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, está sendo reconstruído com a ajuda de evangélicos. Em meio a diversos casos de intolerância e violência contra religiões de matriz africana, um grupo arrecadou mais de R$ 12 mil para as obras depois que o espaço foi parcialmente destruído em um incêndio.
 
Em uma manhã de sábado de fevereiro, a pastora Lusmarina Campos, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, foi ao local acompanhada de três voluntários para, pessoalmente, ajudar na remoção de entulhos - tijolos e pedaços de madeira que faziam parte do segundo andar do terreiro, área atingida pelo fogo em junho de 2014. Na época presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do estado (CONIC-Rio), Lusmarina organizou a campanha de arrecadação, concluída no fim do ano passado, para a reconstrução do templo.
 
"Logo que a gente ouviu sobre a destruição do terreiro, eu pensei: 'Se em nome de Cristo eles destroem, em nome de Cristo nós vamos reconstruir'. É extremamente importante dar um testemunho positivo da nossa fé, porque o Cristo que está sendo utilizado para destruir um terreiro está sendo completamente mal interpretado", explica Lusmarina.
 
Aquele foi o oitavo ataque ao local de culto da mãe de santo. Antes, tiros haviam sido disparados contra o templo e a casa de Conceição. Três carros que pertenciam a candomblecistas de seu grupo foram queimados. A polícia ainda não identificou os responsáveis pelos crimes. Para tentar se proteger, Conceição instalou grades e reforçou muros e cadeados do templo. Sem apontar suspeitos, ela afirma que os ataques têm cunho religioso: "Não há roubo de televisão, rádio, uma porção de coisas que poderiam usar para fazer dinheiro. Não levam nada, só destroem."
 
No ano passado, 71,5% dos casos de intolerância religiosa registrados no Rio de Janeiro foram contra grupos de matriz africana, segundo a Secretaria de Estado de Direitos Humanos e Políticas para Mulheres e Idosos. Crimes de ódio contra os adeptos de religiões como o candomblé e a umbanda também ocorrem em outras partes do país, que possui cerca de 600 mil devotos de crenças de origem africana, segundo o Censo de 2010.
 
"É um fenômeno nacional, agora com essa face cruel, que já se expressou em 2008 e vem desde a década de 90, que são os traficantes instrumentalizados por grupos neopentecostais que atacam os templos religiosos nas periferias e favelas", comenta o babalaô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa.
 
"O arcabouço do que está acontecendo no Rio de Janeiro, em termos de violência religiosa tem como fundo uma lógica de guerra", complementa a pastora Lusmarina. "Faz parte de um projeto de poder a descaracterização de outros grupos religiosos, ou seja, uma linguagem de desrespeito e condenação. Porque, nesse tipo de concepção, a diversidade não é permitida. É um enfrentamento que precisamos fazer porque é muito mais amplo do que a questão estritamente religiosa. A questão é política. Por isso, a gente precisa se unir."
 
O babalaô acompanhou desde o início a ação de apoio ao terreiro em Duque de Caxias organizada por Lusmarina. "Esse ato é um divisor de águas na luta contra a intolerância religiosa no país", comenta ele. A entrega do dinheiro, com o maior aporte vindo de fiéis da Igreja Cristã de Ipanema, que é evangélica, foi celebrada no fim do ano passado com uma cerimônia inter-religiosa no terreiro de Conceição. Alguns dos que participaram tiveram de enfrentar críticas e ameaças, principalmente na internet e nas redes sociais. Lusmarina conta que um youtuber evangélico gravou um vídeo em que incentiva outras pessoas a agredirem. "Ele diz: 'Pastora vadia, vagabunda...Tem que tomar tapa na cara', de maneira muito agressiva e violenta."
 
A discriminação, no entanto, não é exclusiva de grupos extremistas. Os próprios voluntários que acompanharam Lusmarina na preparação do terreiro para as obras admitiram que, em determinado momento da vida, chegaram a ter uma visão negativa em relação a religiões de matriz africana, por acreditarem que eram ligadas ao mal.
 
"O candomblé sofre preconceito desde que era a religião professada pelos nossos antepassados, que vieram para o país escravizados", comenta Conceição. "As pessoas hoje endemonizam o candomblé como se tivéssemos uma relação estreita com essa figura chamada diabo, sem saber que o diabo não faz parte do nosso panteão de divinizados. É uma visão eurocristã que não tem nada a ver conosco."
 
 
A exemplo da iniciativa tomada no Rio de Janeiro, a direção nacional do CONIC decidiu criar o Fundo de Solidariedade para o Enfrentamento de Violências Religiosas. A entidade já começou a receber doações e pretende criar um comitê inter-religioso que fique responsável por gerir o fundo e selecionar pessoas e espaços que precisem ser atendidos - em especial, os de religiões de matriz africana.
 
"Essa repercussão já significou um racha na base de um grande bloco de igrejas que parecia mais ou menos uniforme", diz Lusmarina. "Embora uma parte das igrejas e de pessoas dentro de igrejas não tenha apoiado a nossa ação, a grande maioria das pessoas apoiou e a grande maioria das igrejas prefere o respeito à violência, prefere o amor, a aproximação...que é de fato a mensagem central do evangelho. Esses são valores fundamentais dos quais não podemos abrir mão."
 
As obras no terreiro da mãe de santo Conceição começaram pela cozinha, que estava funcionando no quintal desde que a estrutura interna da casa foi danificada pelo incêndio. O local é considerado "o coração do barracão", uma vez em que lá são produzidas as oferendas - parte importante da tradição candomblecista.
 
"Quando eles vêm dar essa ajuda pra gente, é justamente [uma forma de] reconhecer que, primeiro, a gente sofre o ataque. Depois, é reconhecer que a gente tem o direito de existir e professar o nosso sagrado", comenta Conceição. "Eles não vieram aqui pra me mudar, evangelizar ou dizer que o que eu faço está feio ou é do diabo. Vieram para dizer: 'Faça aquilo que você crê. Eu vou te ajudar'."
 
Texto: Ana Terra para a BBC Brasil
Foto: Reprodução / BBC Brasil

 
 
Começou hoje, segunda-feira (23), em Brasília, o 15º Acampamento Terra Livre (ATL). Organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o ATL reúne todos os anos delegações de mais de 100 povos vindos de todas as regiões do país. A estimativa de participantes foi atualizada há pouco: são esperados cerca de três mil indígenas.
 
Após firmar um acordo sobre o local do acampamento, previsto para a Praça dos Ipês, próxima ao Teatro Nacional, o Governo do Distrito Federal mudou de ideia, de última hora, e determinou que o acampamento fosse instalado no Memorial dos Povos Indígenas.
 
Em 2018, com o tema “Unificar as lutas em defesa do Brasil Indígena – Pela garantia dos direitos originários dos nossos povos”,  o ATL ocorre em um contexto visto pelo movimento indígena nacional como o maior ataque aos direitos indígenas desde a promulgação da Constituição Federal em 1988.
 
Membro da coordenação da Apib, Dinamã Tuxá aponta como um dos principais ataques impostos pelo atual governo aos direitos indígenas o Parecer 001/20017 da Advocacia-Geral da União (AGU), que aplica às demarcações, entre outros pontos, a tese do Marco Temporal, pela qual os povos indígenas só teriam direito às terras ocupadas em 5 de outubro de 1988, data de promulgação da Constituição.
 
“O Acampamento demonstra nosso sentimento para reverter todos esses ataques do atual governo. Há um descontentamento geral com a paralisação dos processos de demarcação, com o aumento da violência nas Terras Indígenas, com o aumento do desmatamento, com o aumento do garimpo. Um cenário que antes era regionalizado e hoje se tornou nacional, o que fortaleceu nossa unidade nas pautas”, explica Dinamã Afer Jurum Tuxá, da coordenação da Apib.
 
Apesar do acirramento dos ataques aos seus direitos, as lideranças indígenas do ATL esperam conseguir soluções para seus problemas. “Queremos trazer nossas reivindicações apresentando nossa cultura, nossa origem. Junto com os outros povos queremos trazer soluções para os problemas vividos nas aldeias”, diz Kapranpoi Kayapó, da aldeia Kaprankrere, no Pará.
 
As delegações dos diversos povos estão chegando em Brasília desde o último sábado. Aos poucos, as estruturas de bambu e lona vão tomando o gramado próximo ao Memorial dos Povos Indígenas. Boa parte dos participantes chegam de ônibus após enfrentar muitas horas e até dias de viagem, vindos de todas as regiões do país.
 
“Faço parte da Comissão Guarani Yvyrupa, do povo Guarani no Sul e Sudeste do Brasil, que está vindo em cinco ônibus para Brasília. Do Rio de Janeiro viemos em 46 pessoas em um ônibus que juntou aldeias de Angra dos Reis, Paraty e Ubatuba. Viajamos um dia inteiro, 24 horas, até chegar em Brasília”, conta Julio Karai Xiju, membro da coordenação da Comissão Guarani Yvyrupa, da aldeia Sapukai, em Angra dos Reis.
 
Como parte da programação do acampamento, o dia começou com uma audiência pública no Senado Federal que discute a autonomia dos povos indígenas. “Hoje vemos muito forte a falência total da política indigenista, o que a paralisação total das demarcações só vem comprovar. E isso só faz com que nossos territórios venham sofrer com os impactos dos empreendimentos e do agronegócio. Isso tem consequências no nosso modo de viver, na nossa alimentação e nas nossas crianças”, afirmou Nara Baré, também da coordenação da Apib, no evento.
 
Na parte da tarde, está prevista uma plenária de abertura seguida da plenária de mulheres indígenas. À noite, atividades culturais e a exibição de filmes fecham o primeiro dia do ATL 2018. Para saber mais acompanhe diariamente o blog da Mobilização Nacional Indígena com os principais acontecimentos da 15ª edição do Acampamento Terra Livre.
 
Fonte: Cimi
Foto: Christian Braga/MNI