A família do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar em outubro de 1975, foi obrigada a conviver, por 38 anos, com uma mentira oficial humilhante que só viria a ser corrigida em 2013. Foi somente em março daquele ano que a viúva Clarice Herzog, e os filhos Ivo e André receberam a certidão de óbito corrigida com a verdadeira causa da morte do pai: lesões e maus-tratos sofridos durante interrogatório nas dependências do segundo Exército DOI-CODI, em São Paulo, onde ocorreram as principais execuções da ditadura. Na certidão anterior, a versão maquiada pelo Governo militar sugeria o suicídio, ou “enforcamento por asfixia mecânica”. Era apenas mais uma mentira diabólica que a ditadura militar (1964-1985) produziu e amarrou de modo a manter uma versão fantasiosa sobre esse período da história brasileira.
 
O caso de Herzog, no entanto, é apenas uma peça de um quebra-cabeça que parece, agora, ainda mais incompleto, diante do recente relatório da CIA que veio a público há poucos dias. O documento, revelado pelo Bureau of Public Affairs do Departamento de Estado dos Estados Unidos, revelou que o general Ernesto Geisel, o quarto presidente militar da ditadura, que assumiu em 1974, endossava a execução de “subversivos” pelo regime. Até então, a história brasileira retratava o general, que governou até 1979, como a figura decisiva para a abertura do país à democracia, e que integrava a ala ponderada do regime, um contraponto à ala radical dos militares que defendiam matar seus opositores. Os novos documentos, porém, revelam que Geisel não era tão moderado como se acreditava. Ao contrário, ele tomou a decisão, em abril de 1974, de manter essa política de execuções no seu Governo, ainda que com alguma ressalva. 
 
Segundo os documentos da inteligência dos EUA, ele orientou que apenas subversivos perigosos fossem executados no seu Governo. Vladimir Herzog, porém, não seguia esse perfil. O jornalista ocupava o cargo de diretor de jornalismo da TV Cultura à época em que foi assassinado. Por tratar-se de um canal público, a contratação de Herzog, naquele mesmo ano de 1975, precisou ser endossada pelo Serviço Nacional de Informação (SNI), centro de inteligência criado pelos militares em 1964, justamente para controlar os inimigos do Governo. Chamado para ser interrogado num momento em que jornalistas eram alvo de perseguição do regime, Herzog apresentou-se espontaneamente no dia 25 de outubro na sede do DOI-CODI. Nunca mais voltou. Foi morto ali, aos 38 anos. Tão cruel quanto a sua execução, foi a farsa montada pelos militares, que simularam um suicídio de Herzog. O jornalista foi fotografado enforcado com um cinto. A foto, toscamente montada, circulou o mundo, e expôs a perversidade que o Brasil vivia àquela altura. Ao menos 89 pessoas foram mortas a partir de abril de 1974, segundo levantou o portal G1.
 
Desde a morte de Vladimir Herzog, coube à sua família sobreviver para trazer a verdade dos fatos. O filho mais velho do jornalista, Ivo, viveu a tragédia quando tinha somente 9 anos. Hoje, aos 52, trabalhando no instituto que leva o nome do seu pai, continua pressionando pela verdadeira história da ditadura. Foi ele quem cobrou, em nome da família, que o Itamaraty solicitasse ao governo americano a divulgação completa do relatório da CIA com detalhes que ainda não vieram a público. Ivo recebeu o EL PAÍS por duas horas e meia para falar, uma vez mais, da morte de seu pai, desta vez à luz das novas revelações.
 
Pergunta. Você, como filho de um personagem icônico dessa passagem da história do Brasil, como recebeu o relatório da CIA que veio à tona?
 
Resposta. Esses documentos derrubam a tese que a gente viveu, eu pelo menos vivi, durante muitos e muitos anos. A gente achava que o Ernesto Geisel não era a pessoa a quem tínhamos de focar nossos olhos, nossas raivas. E os documentos mostram que sim, ele fazia parte de um grupo, não sei se o mais ou menos radical. Mas isso agora é irrelevante. O fato é que ele era conivente com as torturas e com os assassinatos. Ele tinha conhecimento do que estava acontecendo, e dava o aval da presidência. Esse documento sepulta esse termo “porões da ditadura”, que surgiu há 30 ou 40 anos. Não existem porões, existem os palácios da ditadura. Os processos da ditadura começam nos palácios dos governos.
 
P. Para sua família não havia, então, um papel do general Ernesto Geisel nas torturas praticadas durante a ditadura? É mesmo a partir do relatório da CIA que vocês ganham essa percepção?
 
R. No meu radar não tinha nenhuma informação sobre essa questão do Geisel. Ainda existia uma versão fantasiosa de que a ditadura teria vindo num crescente a partir do golpe civil militar [de 1964], que teria o ápice do endurecimento em 1973, e que com o início da gestão do Geisel, teria começado a diminuir a linha mais dura da ditadura com vias à redemocratização. Ou seja, Geisel teria enfrentado internamente setores do Governo que ainda eram de linha muito dura. E que as mortes e torturas do DOI-CODI eram parte de uma ala mais radical do regime. Que não chegava ao topo da linha de comando. Inclusive se criava esse clima de que havia uma disputa política, briga de poder, com se a linha mais dura quisesse ganhar espaço e sustentar a ideia de um perigo comunista. Na hora em que se sabe que o palácio tinha o poder para dar aval [às execuções de opositores], percebe-se que ele também tinha poder para proibir, cessar. A responsabilidade, em última análise, era da presidência da República.
 
P. Entre 1974 e 1975 veem-se comunicações dos EUA para o Brasil com certos questionamentos sobre desrespeito a direitos humanos e práticas de torturas no país.
 
R. Não eram bem questionamentos, era mais preocupação. Mas não vi uma condenação do governo americano. O que acontece – e por isso fiz a carta a[o ministro de Relações Exteriores] Aloysio Nunes – é que há trechos que estão censurados dos documentos, provavelmente porque envolvem mais o governo norte-americano. Liberou-se uma narrativa sobre personagens brasileiros. Mas não tem nenhuma sobre a atuação de personagens dos EUA. Quero saber o que ainda está escondido. Temos de ver o que está sob censura. Se a gente consegue recuperar a nossa história, o governo brasileiro deveria ter acesso a essas informações.
 
P. O caso do seu pai chegou à Corte Interamericana no ano passado. O relatório de agora mudaria de alguma forma o teor do que estava na corte?
 
R. Acho que não mudaria. A sentença está para sair nos próximos dias, semana que vem, talvez. Está pronta, não é pública, está sendo traduzida para o português, inclusive. Está na marca do pênalti.
 
P. Nesse processo está sendo acusado o Estado brasileiro.
 
R. O Brasil está cometendo um crime, que continua cometendo. Os crimes de lesa humanidade não são prescritíveis. Não podem deixar de ser investigados por nenhuma lei de Anistia. Se a família Herzog tenta abrir uma ação como tentamos, tribunais brasileiros devolvem dizendo que o crime prescreveu e que a lei de Anistia [de 1979] não permite que se investigue. Isso está errado. Uma parte do julgamento que está na corte diz muito respeito a isso, e sobre políticas de repetição, memória...
 
P. O que você chama de repetição?
 
R. Você comete um crime. Qual política você faz para que não se cometa no presente esse crime do passado? Você faz políticas públicas para evitar repetição, que passam pela construção de memoriais, garantir mecanismos para que os fatos estejam nos livros de história.
 
P. Mesmo com todas as evidências, muitas pessoas insistem em dizer que a ditadura e o próprio relatório não existem.
 
R. O Brasil tem essa coisa de insistir em virar a página da ditadura mas sem escrevê-la antes. Antes de virar a página a gente precisa ter o conteúdo para escrever o que a gente quer virar. Temos de andar para a frente, mas tem de levar junto o passado para entender o presente e não repetir os erros de ontem. É a maneira de construir uma nação.
 
P. O Itamaraty acatou o pedido de sua família de cobrar informações do governo americano?
 
R. A mensagem que recebemos é que instruíram a embaixada em Washington para dar andamento a nossa solicitação. Nós temos uma pessoa lá para monitorar.
 
P. E esse documento é mais um detalhamento do que já é?
 
R. Fiquei um pouco decepcionado de receber do Governo uma mensagem pelo e-mail geral do instituto para dizer isso. Acho que o próprio ministro Aloysio Nunes deveria ter vindo a público dar entrevista se posicionando a respeito, pelo que ele representa institucionalmente e pela história pessoal que ele tem [Aloysio integrou uma das organizações guerrilheiras mais importantes que lutou contra a ditadura].
 
P. É a dificuldade de tomar posição?
 
R. Não criar rupturas, não tomar partidos, pisando em casca de ovo. O maior adversário ao caso Herzog na OEA é o Estado Brasileiro. Uma barbaridade nas argumentações que eles utilizaram, construídas pela AGU e Itamaraty. Mas é um absurdo, de uma estupidez. Não é possível que um governo de Estado democrático de Direito trabalhe essa argumentação, parece do tempo da ditadura. Quando a Dilma era presidente, e esse processo estava em determinada fase, conversei com a SDH colocando as áreas que víamos como necessárias (memória do caso, reparação, não repetição e a Justiça em si). Quando teve audiência lá na Costa Risca, eles disseram a minha mãe que eu já estava negociando uma solução para o assunto. “Seu filho Herzog já disse o que queria. Para a gente nem deveria existir este caso.”
 
P. Isso durante a audiência na corte?
 
R. Sim, na audiência na corte, no ano passado, enquanto minha mãe estava sendo entrevistada. A menina da AGU. Foi uma coisa covarde, lamentável.
 
P. Mas quando falamos em Justiça, efetivamente, qual é a referência?
 
R. A ação [apresentada por Clarice Herzog pedindo que o Estado reconheça sua responsabilidade pela prisão, tortura e morte de Vladimir Herzog] em 1976, vencida pela família, ordena que o Estado investigue a morte do meu pai. Transitou em julgado e o Estado não cumpre a sentença do Juiz Márcio Moraes. Em novas ações que a família tentou, não tivemos sucesso com o Estado dizendo que está arquivada porque prescreveu e tem sobre ela a lei da Anistia. Mas pelos acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário, essa lei não pode estar acima de um entendimento jurídico internacional. Crimes de lesa humanidade não prescrevem.
 
P. Vocês já passaram por bastante coisa difícil em busca de justiça neste caso...
 
R. Quando houve o crime contra meu pai, minha mãe trabalhava na agência Ogilvy. O grupo sugeriu a minha mãe que ela fosse para qualquer outro país. Ela disse “eu tenho que ficar aqui e mostrar aos meus filhos a verdade dessa história e buscar justiça.” E sempre procurou fazer isso, e perdeu muitos amigos que diziam que ela era louca, que se afastaram, porque ela manteve a fé nos instrumentos que o Estado oferecia. Sim, aquele Estado de exceção. Herdamos isso dela. Vivemos em um Estado de Direito e há instituições, que precisam ser usadas. Se elas não funcionam, que se posicionem. Mas temos de usar as regras de jogo para mostrar a verdade. E a luta tem sido nesse caminho. Conhece-se a história, sabe-se a verdade, mas não se torna a história oficial. O mais perto que chegamos foi a certidão de óbito.
 
P. A juventude hoje não tem nem referência de quem foi seu pai. Foi filiado ao Partido Comunista, o que gera polêmica...
 
R. Sim, um partido clandestino. Mas por que ele se filiou àquele grupo? Há detalhes que as pessoas esquecem, e são esses que fazem toda a diferença. Meu pai nunca foi preso. Tanto que ele se apresenta voluntariamente para depor no DOI-CODI de São Paulo. Isso é uma diferença brutal. Quando meu pai decide participar mais ativamente em busca da democracia e da liberdade, e ele é totalmente ligado aos movimentos culturais, ele traz valores absolutamente inegociáveis. Ele sempre foi contra e ele sempre condenou qualquer formação de violência. Até por ele ter fugido do terror nazista [os pais de Vladimir Herzog chegaram ao Brasil depois de fugir da perseguição nazista aos judeus]. E haviam vários grupos que buscavam a democracia, derrubar o governo militar. Mas na sua maioria ou eram do grupo da luta armada, ou não tinham nada contra a luta armada. Haviam dois grupos apenas naquela época que condenavam a luta armada: o Partido Comunista Brasileiro e a Igreja Católica de D. Paulo [Evaristo Arns]. Mas ele era judeu. Por isso lhe restou o PCB. E as pessoas ficam falando que ia ter um regime de Cuba, essas bobagens todas. É uma ignorância absurda. E hoje a gente tem de ter menos tolerância com essa ignorância. Porque no passado você precisava consultar livros, estudar em biblioteca. Hoje dá um Google e você consegue ter acesso a essa informação, à História. Mas as pessoas ficam na sua zona de conforto e falando de maneira leviana sem ter conhecimento sobre a temática que estão falando.
 
P. Ou seja, o PCB não tinha nada a ver com o socialismo da URSS.
 
R. Não, era o PCdoB que tinha mais essa ligação com a União Soviética. O PCB acreditava no Estado com uma política de Estado social. Era mais parecido com o atual PSDB. Quando o PCB se legalizou, Alberto Goldman [ex-governador de São Paulo] se elegeu deputado federal pelo partido. Votei no Goldman, que depois foi para o PMDB e PSDB. As coisas eram próximas.
 
P. O que vocês acham que aconteceu com o seu pai dentro do DOI-CODI?
 
R. De novo, os detalhes. O que existia era uma ala mais radical do Governo querendo provar que havia um perigo comunista. E naquele momento o foco eram os jornalistas. E haviam jornalistas que eram mais ou menos ativos politicamente. Meu pai era menos ativo. E tem um outro ponto importante. Para ele ser contratado pela TV Cultura, o nome dele foi aprovado pelo SNI [Serviço Nacional de Informação], por Brasília, pelo Exército. Foi aprovado porque não havia nada contra ele. Mas naquela hora você tem outros jornalistas sendo torturados para falar nomes de membros do partido comunista. E tem o nome do meu pai. Então meu pai é chamado, na mesma linha de começar a soltar nomes. E o método para confessar era através de violência, e começa a sofrer. E num determinado momento, já bastante intenso, mandam ele redigir um bilhete, dizendo que se arrependia, fazendo mea culpa algo assim. E esse bilhete é muito importante porque é uma prova de tortura, e as palavras que estão lá não são palavras que meu pai usaria. A letra é dele, mas numa grafia perturbada. Ele escreve e quando termina, num momento de reflexão, meu pai rasga o bilhete. Quando rasga, os caras foram com tudo pra cima dele. E aí ele morre. Não acho que quando meu pai foi para lá, o objetivo do Exército era que ele não saísse de lá. Até porque tomamos algumas precauções. Ele não podia desaparecer. Quando ele foi voluntariamente, foi junto com um colega da redação. Tinha algumas medidas de precaução. A leitura que temos é que foi um momento de fúria que resultou na morte dele.
 
P. Como foi para você, criança, isso naquele momento, e crescer sem pai?
 
R. Essa parte eu já falei 200 milhões de vezes, foram pelo menos 20 entrevistas nesta semana de coisas que me mutilam. Sobre essa coisa de mudar o Brasil podemos falar até a meia-noite. Mas essa parte é... desgastante. Isso é irrelevante para construir qualquer coisa a maneira como eu vivi é irrelevante para construir alguma coisa nova.
 
P. Hoje seu foco é exatamente pensar o país.
 
R. Dia 27 de junho de 2009 é criado o instituto Vladimir Herzog. Até essa data nós falávamos do meu pai em outubro [25 de outubro de 1975], pois o tema era a morte dele. O instituto é criado no dia de nascimento dele. A pauta vira a vida, vira uma pauta construtiva. Fica muito melhor para a família. Posso falar do caso Herzog até a meia noite se necessário, mas cutucar a morte dele... até porque é algo que sempre me afastei. Aqui no instituto não há uma foto do meu pai morto. Nunca li uma matéria sobre a morte do meu pai. Não é algo que agrega. Tem cicatrizes profundas, mas que não vão construir o mundo. O importante aqui é que uma criança foi machucada de uma maneira muito séria. Sou o filho mais velho, e somos uma família muito pequena. Somos eu, minha mãe, meu irmão, meu filho e duas sobrinhas. Os únicos Herzog. Me introduzi no assunto da política aos 9 anos de idade. É um assunto sério para mim, e me incomodo quando as pessoas são levianas sobre esse tema. Sou um ator político intenso, mais do que eu deveria ser por conta de uma tragédia. Não deveria precisar de uma tragédia para isso.
 
P. Você e sua família perdoam quem cometeu esse crime contra seu pai?
 
R. Eu não desculpo, mas não vou viver amargurado para o resto da minha vida. Quando começou a questão dos escrachos há 4 ou 5 anos, minha mãe descobriu que o [Harry] Shibata [médico legista que assinou o atestado de óbito de Vladimir Herzog como se ele houvesse cometido suicídio] morava a 100 metros da casa dela. Ele se diz inocente até hoje, e ele queria falar com a minha mãe e ela não quis. Também não quero falar com ele. Acho que temos de seguir a lei. Se um militar cometeu um crime, tem de ser expulso da corporação. Para que nem eu e nem você continuemos pagando a aposentadoria dele. Tem de ter uma pena. Mas não é olho por olho, dente por dente. Alguns já morreram? Quando a gente faz alguma coisa temos de assumir responsabilidade pelo que fez e as consequências. Se isso vai envergonhar a família dele, eles que façam um trabalho de mostrar que não são mais aquilo que eles eram. Quando falamos em perdão, acho que temos agendas maiores do que as pontuais. Mostrar que a política de Estado mudou, o Estado reconhecer que o que existiu no passado é errado. Isso é uma coisa maior do que amanhã botar um ex-militar na cadeia. Pois quem diz que meu pai devia morrer vai continuar dizendo o mesmo. Precisa é o Estado dizer que houve erros que não podem mais acontecer, e criar mecanismos para que eles não aconteçam mais. Porque ainda está acontecendo. Amarildo [Souza, ajudante de pedreiro morto por policiais na Rocinha em 2013, cujo corpo nunca mais apareceu] foi torturado e assassinado. Marielle foi assassinada. Toda hora relatos de pessoas torturadas nas cadeias. Os próprios presídios são instrumentos de tortura e degradação humana. Isso que eu queria, o Estado assumindo que a população tem de ser tratada com dignidade e que não pode haver excessos. Quando um governante diz que a farda da polícia é igual à bandeira do país, e que quem desrespeitar a farda corre o risco de morrer, tem de ser rechaçado pela sociedade.
 
P. Você disse que nem pensaria no processo na corte internacional se houvesse um reconhecimento. Isso é mais importante que alguma indenização?
 
R. Sim. Tanto que minha mãe quando entra com ação em 1976 contra a União não pede indenização. As indenizações recebidas foram no governo Fernando Henrique e nessa onda dele dar um dinheiro para as vítimas. Mas nunca movemos processo por isso. Não que dinheiro não seja importante para a gente, claro. Mas tem a questão maior da não repetição. O Estado faz uma coisa errada, dá uma indenização, e depois comete outro crime e paga de novo. Não é o Governo quem paga, é você, contribuinte. É fácil para o Estado, saída indolor. Imagina se o Exército fala que sim, aconteceu, é verdade. “Houve exageros e matamos inocentes”. Como a pessoa que postou que ‘tinha que matar os filhos da puta mesmo na ditadura’ vai ficar? Vai ficar sozinho.
 
P. Você já teve a oportunidade de falar com gente das Forças Armadas?
 
R. Não. Por uns 30 anos não queria nem chegar perto desses caras. Mas se estivesse num debate público, colocaria. Sem problema algum. Uma vez fizemos um livro que foi lançado no salão nobre do Senado. Estava ao lado de Renan Calheiros, [ex-ministro da Justiça] Nelson Jobim – este, que foi um grande empecilho para a lei da Anistia. Jobim foi um dos caras que mais atrapalharam a nossa agenda. O encontro aconteceu duas semanas depois da morte de Amarildo. Peguei um dos livros. Havia saído uma reportagem sobre a execução dele em um jornal e coloquei dentro do livro. “Quero ler um trecho para vocês”, anunciei. O texto dizia algo assim “Evidências mostram que ele foi barbaramente assassinado após torturas pela polícia”. Então eu disse : "vocês podem estar achando que estou lendo sobre a morte do meu pai. Mas este é um fato noticiado hoje".
 
P. É a tal repetição que você fala.
 
R. O que aconteceu 40 anos atrás acontece agora. E pelas mesmas pessoas. Pouca coisa mudou. E isso não dá mais.
 
P. E tem quem veja nas milícias um poder paralelo similar.
 
R. Tem gente que fala que no passado os militares combatiam os adversários políticos na clandestinidade porque tinha dinheiro, uma economia informal que rodava. Quando isso acaba, qual clandestinidade existe? O tráfico. Porque o tráfico não acaba? Porque setores da polícia praticam extorsão. É uma simbiose. Um não existe sem outro. Agora, acabamos de descobrir que a cadeia do comando da ditadura ia ate o palácio do Governo. Até onde vai a cadeia de comando desse sistema que temos hoje? O que constrói esse pensamento, são coisas que pipocam. Preso liberado, helicóptero. Outro com milhões em apartamento. Pessoas sendo presas, doleiro, ramificação total. Armas? Tem de pagar. E é dólar.
 
P. Vocês, enquanto instituto, defendem a revogação da Lei da Anistia?
 
R. A lei da Anistia não precisa ser revogada. É preciso rever a interpretação do STF. Em 2010, usam conceito de crimes conexos. No mundo jurídico, crime conexo não tem nada a ver com isso. É ser assaltado, outras pessoas morreram, estão conexos com a ação do crime. Não há conexão juridicamente falando quando sou alguém contra o Governo, sou preso e sou torturado e morto. Não existe conexão dentro do conceito da natureza jurídica. Foi uma forçação de barra violentíssima. E tem outras duas questões. A soberania. Da mesma forma que eu acho uma vergonha recorrer a outra nação para escrever partes da nossa história, no caso dos documentos da CIA. É questão de soberania entender que sou um país dentro de uma comunidade internacional, da qual eu ajudei a criar conceitos. E se o Brasil for condenado ele tem de aplicar as condições a que for submetido. Eu já vi o STF no passado dizer que não segue decisão da OEA, pois somos um país soberano. E o mesmo STF tomou determinada decisão porque inclusive estaria de acordo com tratados internacionais do Brasil. Uma tristeza.
 
P. Não parece uma utopia hoje imaginar que haja um reconhecimento do que aconteceu, um consenso, sobre o que vamos escrever nos livros de história sobre o período ditatorial?
 
R. Não tem de ter um consenso mesmo. Mas tem de existir alguma coisa, e precisam existir alguns encaminhamentos.
 
P. Mas existiu ditadura no Brasil. E morreram pessoas inocentes.
 
R. Mas nem todo mundo concorda. Assim como tem gente que diz que o homem não pisou na lua. Ou que quem morreu na ditadura era bandido. Um post que eu fiz no Facebook com a petição ao governo [para solicitar detalhes do relatório da CIA] teve alcance de 130.000 pessoas e uma centena de comentários. Metade dos comentários era que ditadura tinha de ter matado mais gente. E quem morreu era bandido.
 
P. Como você se sente quando lê isso?
 
R. No começo, lá atrás, quando eu ouvia isso, ficava absolutamente indignado e com raiva. Hoje eu penso “coitado do imbecil, é um ignorante”. Leviano, fala algo sem saber, não conhece a história. É uma opinião que não tem valor para mim.
 
P. Ou quando um general da reserva diz que a ditadura só matou terrorista e seu pai não tem esse perfil?
 
R. Quando se fala em general, é algo mais complicado. Porque em tese ele tem o conhecimento. Se o Exército brasileiro pedisse perdão pelo que fez – a gente errou, havia um contexto na época, e com distanciamento vemos que fomos longe demais... erramos e não admitimos que essas práticas voltem a acontecer a partir das Forças Armadas – eu votaria para que a ação da nossa família nem existisse na Corte Interamericana. Para mim está bom, está resolvida a questão. Eu não estou preocupado em punir, estou preocupado em mudar este país. Mudar essa coisa de segurança pública na mão de militares que só piora. O problema é que eles não admitem. E quando não o fazem, estão ao mesmo tempo dizendo que o que foi feito lá atrás foi correto e que se precisar fazer de novo, vão fazer. O twitter do Villas Bôas...
 
P. Às vésperas do julgamento do habeas corpus do Lula?
 
R. Sim, ele mais ou menos disse isso. Estamos atentos e qualquer coisa, o Exército está pronto para cumprir com a sua função. É uma loucura, um ato de insubordinação. Agora a parte mais grave disso aí. Ter uns radicais no Exército, é triste mas acontece. Agora, um presidente civil, fruto de um processo democrático, com ou sem impeachment – não quero entrar nesse mérito – não dá bola para essas coisas e ainda nomeia um militar para o Ministério da Defesa. Então, de repente, ele é um militar travestido de civil. Isso é muito sério e muito grave. Sobre a polêmica frase “Brasil voltou 20 anos em dois”. Acho até que mais. Em 1998 era Fernando Henrique e havia coisas bem construídas. Voltamos 30 anos em 2 anos. Em termos de processo democrático, maturidade política, de formação de valores. Cultura do ódio. Esta então, evoluímos 50 anos.
 
P. Hoje haveria um clima favorável à criação da Comissão Nacional da Verdade (CNV)?
 
R. Mas houve clima favorável de verdade por uns três meses. Até a posse. Depois teve muita dificuldade. Eu não tinha impressão boa sobre a Dilma inicialmente, pela fama de durona, atrapalhada para falar... No discurso de posse dela, que foi para mim um dos mais significativos, em que ela põe o dedo na ferida, ao falar da ditadura, de se fazer justiça. Ela cria a CNV, a Lei de Acesso a Informação. Ela fez coisas muito importantes para nossa agenda de Direitos Humanos. Depois, a CNV capengou. E terminou de forma lacônica. Com 30 recomendações, que nunca foram colocadas em prática. Para não mentir, uma foi colocada pela gente com a memória da ditadura, com o conteúdo levantado pela Comissão. Mas estava esquecida, morrendo por inanição. Eram dois anos para fazer o trabalho. É uma tristeza. Não tinham como contratar pesquisador, não tinha espaço de trabalho... Aí correram para entregar os relatórios, e acabou. Agora mesmo, por esforços da última semana, vi alguns membros se movendo para saber onde está esse material que a CIA divulga agora. Como a CNV foi desfeita de maneira atabalhoada, ninguém sabe quem está com a guarda dos materiais.
 
P. O que a Comissão Nacional deixou?
 
R. O maior resultado da CNV é algo que não estava previsto. Ela trouxe o debate da memória para a sociedade. Passou a existir e permanece. As pessoas estão preocupadas com a memória. Mas só de existir e começar a mexer, e incentivar com centenas de comissões da verdade – da prefeitura, dos metalúrgicos, do jornalistas, da Câmara Municipal, da USP... O tema de memória virou política pública. Apesar de ser algo que não estava no escopo. É fato.
 
P. Você fala sobre o Brasil querer virar uma página que não foi escrita. Se a escrevêssemos, o que ela deveria ter? Que história é essa que você não vê escrita?
 
R. Quem matou o meu pai? O que aconteceu com [o deputado] Rubens Paiva [assassinado em 1971 pela ditadura]? O que aconteceu com Zuzu Angel [que morreu em um acidente suspeito, e que era mãe de Stuart Angel, assassinado na ditadura]? Quem estava no DOI-CODI quando meu pai estava lá... estavam o Serjão [Sergio Gomes], o [jornalista Paulo] Markun. Várias pessoas interrogaram eles daquela maneira. A quem eles obedeciam? Quem financiou essas operações? De onde veio o dinheiro para financiar essas operações? Quem pagou a conta?
 
P. Os militares daquela época estão morrendo. Vai dar tempo para esse reconhecimento, um pedido de desculpas para fechar esse quebra-cabeça da história?
 
R. Não sei. Agora, boa parte dos problemas que a gente tem é por conta desse atraso enquanto sociedade. Você tem o [Brilhante] Ustra, que morre e não foi julgado e que até o último momento disse que nunca fez nada. Entrava lá e não sabia o que acontecia. Isso é ruim.
 
P. Com a informações que eles destruíam documentos, como reconstituir se eles têm interesse em manter a caixa blindada?
 
R. De fato a gente não tem conseguido. Volto a dizer, este é um dos problemas que a gente tem. É uma cultura de violência, uma cultura de impunidade, uma cultura da busca pelo uso da violência como se fosse resolver. O Brasil é sempre a nação do futuro. Quando é que esse futuro vai chegar? Quando a gente tratar do presente a partir do passado. Se não a gente vai ser sempre a nação do futuro... Houve o Plano Real, o governo Lula, agora foi, né? E não foi porque as instituições são fragilizadas. Então você tem de vender a alma para o sistema político e fazer o que você acha que é melhor para o país. Quando você tenta fazer o que é melhor para o país, te tiram. É uma piada, é uma piada legal.
 
P. Hoje pesquisas mostram uma sociedade ponderando a ideia de um governo militar, como mostrou que 46% apoiariam em caso de... como você, com sua história, percebe esta realidade?
 
R. Há um conjunto de coisas. Falência de segurança pública, de sistema de educação. Como se define sucesso na educação? Ler escrever e fazer conta? Formação de valores? Noção da história para saber como chegamos ate aqui? A questão é tão crítica em várias áreas e você perde a noção de qual é a finalidade do que você esta fazendo.  As pessoas não param de se afastar do processo político porque os partidos estão engessados do modo que eles estão hoje. Aí, frases curtas, pragmáticas e objetivas ganham força. “Tem bandido? Mata”.
 
P. ...“Não houve ditadura”.
 
R. Tem um monte de gente que é corrupta? Tira essa gente e põe um ditador. O Congresso não funciona? Fecha o Congresso. São soluções simples. E o candidato de direita e extrema direita que está em destaque responde de maneira muito objetiva a essas demandas. Na linha: “você acha que tem de matar? Eu também acho. Vou colocar pena de morte. Bandido bom é bandido morto”. Ele está conseguindo esse processo de comunicação e se fortalece. Enquanto os pensamentos liberais estão na coisa filosófica. Jogam-se as perguntas e não têm as respostas de volta. E não são simples também. As coisas estão difusas, dispersas.
 
P. Mas o fato de ter um candidato a presidência que relativiza o peso da ditadura não é uma espécie de derrota dessa memória que deveria estar mais assimilada pela sociedade?
 
R. A grande diferença dele para os outros candidatos que já tivemos é que ele é sincero [Ivo não cita o nome de Bolsonaro]. Do ponto de vista prático, o que o governo Fernando Henrique fez em relação ao período da ditadura? Lula? Só Dilma fez algo com a Comissão da Verdade. Ok, houve a comissão de anistia [instituída no Governo de Fernando Henrique para indenizar perseguidos e familiares de vítimas do regime]. Complicado. Houve cheques. Mas é péssimo dar um cheque e pronto, então resolvemos a questão da ditadura. Nunca houve um processo de reparação. Em que o chefe das Forças Armadas, que é o presidente da República, e que o Exército fizessem um mea culpa. Nunca houve um posicionamento genuíno.
 
P. Você acha que corremos risco de apoiar um Governo autoritário?
 
R. A gente já está apoiando. A aprovação do Temer é baixíssima, mas da autoridade do governo, não.
 
Fonte: El País
Foto: RENATO PIZZUTTO

 
 
Para além da fé e da religião, o sudário que possivelmente envolveu o corpo de Jesus Cristo após a crucificação é autêntico. Tido como sagrado pela Igreja Católica, o tecido não foi produzido por um artesão ou falsificado – é uma obra viva.
 
Segundo o sociólogo e professor da Universidade de Brasília (UnB) Michelangelo Trigueiro, esse entendimento foi pacificado ainda na década de 1980.
 
"Ficou atestado que era impossível que aquilo fosse uma obra fabricada por um artista ou artesão da Idade Média."
 
Os mistérios do pano, porém, ainda precisam ser desvendados e não faltam controvérsias, especialmente no campo da ciência. Por que o tecido ficou marcado com a figura daquele homem? Se o sudário é autêntico, então, como foi produzido?
 
Estas são algumas das perguntas que o sociólogo Trigueiro apresenta no livro recém-lançado, "Santo Sudário – O que diz a ciência". Resultado de cinco anos de pesquisa, a obra traça um histórico do tecido e dos estudos desenvolvidos em torno dele e ao redor do mundo.
 
Leia entrevista do G1 com Michelangelo Trigueiro:
 
G1: O que é o Santo Sudário e quando começou a história deste tecido, considerado sagrado pela Igreja Católica?
 
Michelangelo Trigueiro: Quando Jesus Cristo morreu, ele foi envolvido em um tecido – como era hábito da cultura judaica. O pano cobria todo o corpo, dos pés à cabeça, envolvendo as costas. Dá quase o dobro do tamanho da figura. Este é o Sudário.
 
Naquela época, os mortos ficavam, normalmente, dentro de uma caverna, uma rocha cavada especialmente para isso. Isto é confirmado tanto pelos cristãos, quanto pelos cientistas. E até mesmo por quem acha que o Sudário não é autêntico, que não é a prova da ressurreição.
 
As comunidades cristãs do primeiro século já dão conta do Sudário, coisa de 500 anos depois de Cristo. Ele foi tão disputado, que houve até guerras para obter a posse, reis que fizeram de tudo para ter a guarda.
 
A história começa no próprio Evangelho, quando algumas mulheres foram ver como estava o corpo de Jesus no 3º dia após a morte e se espantaram ao encontrar a pedra que deveria fechar o túmulo aberta.
 
Conta a história que elas saíram correndo para chamar os discípulos – entre eles, Pedro e João. Foi então que viram que o corpo de Cristo não estava lá, mas o tecido estava dobrado em cima da pedra.
 
Já as controvérsias começam na tentativa de entender o porquê deste tecido. Como pesquisador, não entro no mérito de ser autêntico ou não. Quero ouvir o que a ciência diz, esse é o dado mais interessante: a controvérsia da ciência em torno disso.
 
 
G1: E quais são as principais controvérsias entre os cientistas?
 
Trigueiro: Essa é a parte mais fascinante que relato no livro. Além de envolver a área de arqueologia, quando a Igreja Católica abriu a possibilidade de que equipes de cientistas investigassem o Sudário, na década de 1970, até equipes da NASA se envolveram.
 
São pesquisas no campo da fotografia, da química, das fibras de tecido e até de pólens. Descobriu-se, com recursos de microscópios de grande precisão, a existência de pólens somente encontrados na região da Palestina. As marcas de sangue também foram encontradas assim.
 
Um dado interessante é que um estudo sofisticado de fotografia verificou que, ao contrário do que ocorre com a pintura tradicional, a marca da pessoa impressa no Sudário não percorre as camadas de linho. Fica só na primeira superfície. Isso impressiona porque a gente sabe que se pegar um pincel e passar tinta em um tecido ou papel, ela vai percorrer as camadas da fibra.
 
G1: E quando foi que conseguiram identificar as feições do rosto estampado no tecido?
 
Trigueiro: Digo no livro que o marco da chamada “história moderna do tecido” é do século 19, quando o italiano Secondo Pia registrou, naqueles aparelhos rudimentares da época, uma exposição na cidade de Turim.
 
Até então, o Sudário era um tecido venerado, mas não chamava atenção para além disso. Não havia pesquisas ainda.
 
Foi então que ele verificou no negativo que a imagem marcada na chapa era muito mais nítida do que a que estava no tecido. Conta a história que ele até deixou cair uma das chapas dos equipamentos no chão, tal a força da imagem.
 
Não foi o tecido em si que despertou o interesse, mas a figura que se percebia marcada nele. A figura de um homem que está lá, ainda hoje, exposto na cidade de Turim.
 
G1: Quando e como os cientistas descobriram que o sudário era autêntico?
 
Trigueiro: No final da década de 1980, três grandes laboratórios do mundo fizeram pesquisas com datação de carbono para ver de quando era do tecido e, a partir daí, começou uma nova controvérsia: É pintura, falsificação ou autêntico?
 
O que se verificou é que o sudário não é fruto de uma imagem artificial. Com a pesquisa de diferentes áreas – da espectrometria à química – ficou atestado que era impossível que aquilo fosse uma obra fabricada por um artista ou artesão da Idade Média.
 
O que se sabe, então, é que existe um registro autêntico. Mas, até aqui, a ciência não conseguiu explicar como e por que foi formado.
 
O grupo mais à frente neste sentido é o de Pádova, coordenado por Giulio Fanti, dos estudos ópticos. Ele conseguiu fazer a imagem em 3D deste personagem [que seria Jesus Cristo]. Ele teria 1,80 metro de altura e era bastante forte, a julgar pelo tamanho da ossatura.
 
Eu assisti a uma entrevista em que ele diz que esta marca da figura humana foi produzida por uma descarga de energia da ordem de 20 milhões de volts. O repórter perguntou, então, se isso não teria queimado o tecido e ele respondeu que não no intervalo em que ocorreu, coisa de 'nanomilissegundos'.
 
G1: Considerando o tempo transcorrido desde a morte de Jesus Cristo, o tecido não deveria ter entrado em decomposição?
 
Trigueiro: Em razão de ter sido um objeto venerado desde a descoberta, recebeu um cuidado muito especial, em caixas que evitaram a oxigenação. O fato é que ele resistiu ao longo do tempo – claro que não sem estar danificado aqui e acolá.
 
Este tecido, que hoje está sob a guarda da Igreja Católica na cidade de Turim [na Itália], veio do Oriente Médio e passou um tempo na França. Lá, ficou sob os cuidados de freiras. Um dia, a capela pegou fogo, mas elas conseguiram salvar. Talvez por isso, o tecido tenha marcas de fogo.
 
G1: O seu livro também expõe como a ciência acaba por ser influenciada por valores que extrapolam a racionalidade técnica. Quais seriam eles?
 
Trigueiro: Minha área é a sociologia, mas me interessa entender como uma narrativa histórica se estabiliza. No jargão do meio acadêmico, a ciência é formada por narrativas que são consensos bem estabelecidos. Hoje, dificilmente, alguém contesta a estrutura do DNA, por exemplo.
 
Em determinado momento do meu trabalho, me interessei por querer saber o que leva afirmações ou narrativas da ciência a serem universalmente aceitas. A resposta mais rápida é: se há uma evidência, não há por que contestar.
 
Mas, se formos fundo, vamos ver que não é suficiente. Quantas experiências são necessárias para que um grupo de pessoas concordem entre si? Isso depende de vários fatores: onde vivem, estudam, os interesses políticos e religiosos também.
 
Alguns vão afirmar "X" com base em dados, estudos, pesquisas, e o outro vai dizer que é "Y" com base, também em dados, estudos e pesquisas. E quem é que tem razão, no final das contas?
 
O livro é uma quebra da visão de que a ciência é povoada por narrativas racionais bem consolidadas. Para ser aceito como enunciado científico, é precisa ter isso, mas não é suficiente.
 
G1: Quais são os segredos ainda guardados do Santo Sudário? O que ainda não foi explicado pela ciência?
 
Trigueiro: Naquilo que cabe à minha área de pesquisa, a sociologia, os documentos que levantei mostram que a ciência não é formada pelo que, convencionalmente, chamam de evidências.
 
Existe uma crítica da sociologia à visão tradicional da ciência, formada por racionalidades estrititas. Do ponto de vista da hard science [ciências naturais], da geociência, da física, da química, minha impressão é que a ciência está diante de um enorme desafio que ainda não consegue explicar.
 
A próxima agenda de pesquisa será esta: se [o Santo Sudário] é autêntico, como explicar seu surgimento?
 
Isso nos remete a uma fronteira que tenderá a ficar entre o mundo físico – perceptível, tocado, cheirado, visto – e o da especulação, da suprarracionalidade. Essa fronteira vai precisar ser alargada, assim como as fronteiras da ciência de hoje são mais amplas que as de antes.
 
Fonte: G1
Fotos: Reprodução

 
 
A Cáritas Brasileira promoveu, entre os dias 12 a 14 de junho de 2018, em Brasília (DF), o Seminário Internacional de Migrações e Refúgio, com o tema: “Caminhos para a cultura do encontro”.
 
Participaram migrantes e refugiados que vivem no Brasil, representando cerca 50 países, o arcebispo de Manila, Filipinas, e presidente da Cáritas Internacional, cardeal Luis Antonio Tagle, agentes Cáritas, Igrejas Cristãs, denominações religiosas, agentes de pastoral, agências de cooperação e governos, no total de 200 pessoas.
 
O objetivo do Seminário foi refletir sobre a realidade das pessoas migrantes e refugiadas, na perspectiva global e local, para assim oportunizar a criação e fortalecimento de redes de organizações das Igrejas, denominações religiosas, sociedade civil e governo que atuam junto aos migrantes a refugiados. O Seminário se propôs mobilizar as forças existentes na direção do que o papa Francisco afirma como ações necessárias na garantia dos direitos e da dignidade das pessoas em situação de migração e refúgio: acolher, proteger, promover e integrar.
 
Foram parceiros na promoção do Seminário o Setor Pastoral da Mobilidade Humana (SMH) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR), o Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), o Instituto de Migrações e Direitos Humanos (IMDH), o Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM) e a Missão Paz.
 
O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cardeal Sergio da Rocha participou da mesa de abertura do seminário. O secretário-geral da entidade, dom Leonardo Ulrich Steiner, participou da coletiva de imprensa e ressaltou a importância das comunidades, famílias e cristãos colocarem-se numa atitude de abertura para acolher os migrantes e refugiados que chegam ao Brasil. “Quase todos nós somos descendentes de imigrantes, quase todos nós somos descendentes daqueles que chegaram e tiveram de começar do zero, tiveram de lutar, quantos pereceram… Somos dessa descendência. Somos todos irmãos em Cristo e queremos acolher todos”, reforçou dom Leonardo que também lembrou de sua ancestralidade alemã.
 
Experiências
 
Mayra Alejandra Figura de Ortiz, venezuelana que vive no Brasil desde 2014, já conseguiu o visto permanente no país. Emocionada, contou que a fé em Deus e o espírito de solidariedade a fortalecem. Mayra trabalha como voluntária na Pastoral do Migrante em Boa Vista (RR) ajudando seus compatriotas que chegam aos milhares no estado de Roraima. “A fé em Deus nos faz confiar, ter esperança! Por isso, eu também ajudo outras pessoas, porque sei que necessitam de uma palavra de ânimo e incentivo. Às vezes precisam somente de um cafezinho, um pão, um leite”, relatou Mayra.
 
O presidente da Associação Comunidade de Ganeses de Criciúma (SC), Salihu Larry, partilhou que uma das maiores dificuldades que encontrou ao chegar no Brasil foi o preconceito religioso e com as expressões culturais de seu país, Gana, África Ocidental. “Nós somos seres humanos, cada um de nós tem direito de pertencer a religião que escolher. Eu sou muçulmano, a forma de expressar e viver a minha fé não pode ser uma barreira que separe a gente. Temos de nos unir como família humana. A verdade é essa: temos de tratar uns aos outros como seres humanos”, enfatizou.
 
Parceria com a FBB
 
Na tarde do último dia de Seminário (14), a Cáritas Brasileira assinou convênio com a Fundação Banco do Brasil. A proposta conta também com a parceria da Cisco Networking Academy Brasil. O objetivo é desenvolver ações educativas e de capacitação para ampliar as competências e potencializar novas oportunidades para migrantes e refugiados. Ações como curso de língua portuguesa e cultura brasileira, leis trabalhistas, economia solidária, empreendedorismo e informática básica são conteúdos que estarão disponíveis em uma plataforma desenvolvida pela parceria com a Cisco. O planejamento é implantar um laboratório de tecnologia da informação, em um espaço físico que terá móveis, equipamentos de informática e livros, além de acesso à internet para apoiar os participantes durante o curso de Tecnologia da Informação que ocorrerá na plataforma.
 
Carta final
 
Com verbos que indicam o compromisso, a percepção e o horizonte de desafios a serem enfrentados, assim como a beleza das possibilidades de trocas de saberes e experiências, os participantes do Seminário Internacional de Migrações e Refúgio publicaram uma carta que traz uma síntese das experiências compartilhadas pelo grupo, bem como as inquietações e propostas para o fortalecimento da cultura do encontro.
 
Clique aqui para ler.
 
Com informações da Cáritas Brasileira
Foto: Reprodução

 
 
As informações estão no documento que é resultado da missão realizada pela Rede Eclesial Pan-Amazônica/REPAM, Front Line Defenders e Justiça Global. O relatório aponta o silenciamento  e a criminalização dos agentes que trabalham pelos direitos humanos na região do Xingu
 
As organizações REPAM e Front Line Defenders, com apoio da Justiça Global, realizaram uma missão entre os dias 29 de maio e 01 de junho, na região do Xingu, no Pará. O objetivo era conhecer e avaliar a atual situação de defensores e defensoras de direitos humanos atuantes nos municípios de Anapu e Altamira, com particular destaque para a prisão do pe. José Amaro Lopes de Sousa.
 
Participaram, como delegados da missão  Ivi Oliveira, Coordenadora de Proteção para as Américas de Front Line Defenders, e Danilo Chammas, assessor da REPAM-Brasil. Os representantes da missão encontraram-se tanto com agentes públicos de instituições de Justiça e de segurança como com defensores e defensoras de direitos humanos ligados ou não a instituições, organizações e movimentos sociais da região.
 
Motivações da missão
 
De acordo com o relatório apresentado, “a região em que se deu a missão é notoriamente conhecida por conflitos violentos que opõem, de um lado, aqueles que defendem os direitos humanos e as formas tradicionais de uso da terra e dos recursos naturais e, de outro, os que procuram impor outras formas de apropriação e de exploração do território, que vão desde a monocultura, a pecuária extensiva e a exploração ilegal de madeira a grandes projetos de geração de energia e de mineração em larga escala”.
 
O documento relembra os casos de conflito, desde 2005, como o assassinato da missionária religiosa Ir. Dorothy Stang. Recorda as ações de embate entre agricultores e latifundiários, traz informações de casos de assassinatos ocorridos nos últimos meses, fruto de conflitos violentos envolvendo defensores de direitos humanos na região, e, ainda, casos de criminalização e difamação dos agentes defensores.
 
“Todos esses fatos provocaram grande preocupação com a vida e a integridade física dos defensores e defensoras de direitos humanos e foram determinantes para que a Front Line Defenders e a REPAM-Brasil decidissem pelo envio de seus delegados à região do Xingu”, afirma o texto do documento assinado pelo assessor da REPAM, Danilo Chammas.
 
Resultados da missão
 
Para os delegados da missão, a partir das reuniões realizadas e da análise dos documentos disponibilizados durante os dias passados na região, alguns pontos merecem ser destacados e denunciados:
 
1. A insegurança jurídica sobre o direito de posse e de propriedade de determinadas áreas, potencializada pelas recentes alterações na política brasileira de reforma agrária, é uma das mais relevantes causas do conflito violento vivenciado na região.
2. A insuficiente priorização das instituições de Justiça e de segurança do estado do Pará é outro fator que contribui para a perpetuação dos conflitos.
3. A irresponsabilidade na divulgação dos fatos em meio à sua apuração é elemento que incentiva a violência.
4. O tratamento seletivo conferido pelas instituições conforme à natureza dos personagens envolvidos.
5. O silenciamento dos defensores e defensoras de direitos humanos.
6. A falta de reconhecimento do papel dos defensores e defensoras para a luta pela democracia.
7. O desconhecimento ou negação da missão da Igreja em defesa do direito à terra e para o cuidado do meio ambiente.
8. A sanha acusatória, a campanha de desprestígio e a ilegalidade da prisão preventiva do Pe. José Amaro Lopes.
 
De acordo com o relatório divulgado, as instituições continuarão monitorando e acompanhando a situação dos defensores e defensoras na região e novas missões serão realizadas. Além disso, elas irão facilitar o acesso dos defensores e defensoras da região a instituições nacionais e internacionais de proteção, para viabilizar a segurança deles.
 
“Da mesma forma, acompanharemos todos os procedimentos investigativos e ações penais referentes aos crimes mencionados nesta nota, solicitando de tempos em tempos, às autoridades competentes, o acesso às informações respectiva”, destaca o relatório.
 
Clique aqui e leia o documento na íntegra.
 
Fonte: REPAM-Brasil
Foto: REPAM-Brasil (Altamira/PA)

 
 
Teve início na última quinta, 7 de junho, a 45ª Assembleia Geral da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), que celebrou nesta edição o aniversário de 45 anos da entidade. Na ocasião, a equipe da CESE, representantes das Igrejas que a compõem e organismos ecumênicos visitaram iniciativas que já tiveram projetos apoiados em Salvador (Bahia).
 
O grupo de cerca de 60 pessoas começou o dia fazendo trilha no Parque São Bartolomeu, localizado no Subúrbio Ferroviário. Foi possível não apenas experienciar as riquezas naturais da região, repleta de matas e cachoeiras, como também dialogar sobre os desafios para a preservação do Parque e as lutas dos povos de matriz africana para expressarem sua fé na região.
 
No momento seguinte, uma roda de diálogo foi organizada para reflexão sobre as quatro políticas referenciais da CESE (Direito à Terra, Água e Território; Direito à Identidade na Diversidade; Direito a Trabalho e Renda; e Direito à Cidade), à luz das experiências de grupos populares, organizações e movimentos que atuam na região do Subúrbio. “É claro que a realidade é muito mais dinâmica, mas as políticas referenciais são um trabalhado pedagógico, uma forma de orientar o trabalho da CESE em suas diversas facetas: formação, diálogo e articulação e incidência. Ou seja, é uma forma de orientar nossa ação nesses 45 anos de atuação”, explica a assessora de projetos e formação da CESE, Olga Matos, que contribuiu na mediação da roda de diálogo.
 
Trazendo para o debate as várias vertentes de lutas por direitos na região, Mãe Val, que atua há 40 anos pela preservação ambiental, cultural e religiosa do Parque São Bartolomeu, destaca a importância do espaço para as religiões de matriz africana. Nós cultuamos os rios, as árvores, as folhas, as lagoas, a natureza”, exemplifica.  Nos campos de Direito à Cidade e Direito à Identidade na Diversidade, Naiara Soares, de koinonia, aponta como os avanços urbanos e especulação imobiliária têm afetado a dinâmica desses grupos. E a educadora Carol Lopes, ainda emendou, considerando as riquezas naturais da região. “Aqui poderia ser um ponto turístico, mas não é por que? Porque aqui e periferia de Salvador”, enfatiza, explicitando os abismos sociais da capital baiana.
 
A diretora executiva da CESE, Sônia Mota, avalia que esse momento da Assembleia Geral, em que se visitam inciativas apoiadas, é um espaço de incidência, vivência in loco e formação da equipe. “Para animar a luta também, ao ouvirmos tantas experiências e saber que nossas organizações, cada igreja também está na ponta dessas ações. É muito importante que vocês se sintam parte desse trabalho”.
 
Finalizando a tarde no Parque, cada representante das igrejas e organismos ecumênicos presentes doaram uma muda ao Parque, simbolizando o compromisso e a solidariedade com as diversas lutas que se travam na região.
 
O dia foi encerrado com cerimônia ecumênica na Igreja da Trindade. Cada pessoa presente foi convidada a acender uma vela e pensar na política referencial que mais se identifica e assumir um compromisso individual nesse campo. “Que esse brilho do trabalho dos 45 anos da CESE nunca se acabe e que atuemos ativamente para essa chama sempre se mantenha acesa”, expressa seus votos para a Coordenadoria Ecumênica de Serviço o idealizador da comunidade da Trindade, Henrique Peregrino.
 
Nova Diretoria - 2018-2020
 
Na manhã de sexta-feira, 8, a Assembleia Anual da CESE elegeu nova diretoria para os próximos três anos.
 
 
Para o triênio 2018-2020, a presidência da organização continuará dirigida por Marcus Barbosa Guimarães, da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR). Helivete Ribeiro Pinto Bezerra, da Aliança de Batistas do Brasil-ABB, ocupará o cargo da vice-presidência. José Augusto Amorim da Cunha Júnior (Igreja Presbiteriana Unida-IPU) será o Primeiro Secretário, e Eleni Rodrigues Mender Rangel (Igreja Presbiteriana Independente do Brasil) retona à direção da CESE, desta vez como Segunda Secretária.
 
Prosseguem na direção da CESE, Renato Küntzer (Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB), como Primeiro Tesoureiro, e João Cancio Peixoto Filho (Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB) como Segundo Tesoureiro.
 
Novas representantes de Igrejas Cristãs estabelecem posições na Coordenadoria Ecumênica de Serviço. Célia Gil Pereira (IECLB) e Josileide José dos Santos (ABB) atuarão no Conselho Fiscal, juntamente com Júlia Taís Campos Ribeiro de Oliveira (ICAR), reeleita para o órgão. Wertson Brasil de Souza (IPU) será o suplente do Conselho Fiscal.
 
Assembleia Geral Ordinária Eletiva da CESE – 07 a 08 de junho de 2018
 
Aliança de Batistas do Brasil – ABB
Igreja Católica Apostólica Romana – ICAR
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB
Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB
Igreja Presbiteriana Independente do Brasil – IPIB
Igreja Presbiteriana Unida do Brasil – IPU
Centro do Estudos Bíblicos – CEBI
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC
Koinonia Presença Ecumênica e Serviço
Processo de Articulação e Diálogo – PAD
Coordenadoria Ecumênica de Serviço – CESE
 
Fonte: CESE
Fotos: CESE

 
La Alianza Anglicana les invita a orar y estar en solidaridad con el pueblo y iglesias en Guatemala que están afectadas por la grande erupción volcánica que empezó Domingo.
 
El volcán de Fuego entró en actividad en 3 de junio, Domingo. Hay una estimativa de 3.271 personas que fueran evacuadas de la parte mas afectada y otras acciones están siendo planeadas. Trágicamente, al menos 70 personas están muertas, pero este número puede aumentar, hay mucha gente todavía desaparecida.
 
Las cenizas de la erupción forzaran la interrupción de las actividades del aeropuerto internacional de Guatemala por un período de 24 horas. Inmensas columnas de humo, explosiones y cenizas mantienen la población en alerta.
 
Es posible que 1.7 millones de personas están afectadas por intoxicación debido a los residuos volcánicos y lluvia acida. El volcán está cerca 44km de la Ciudad de Guatemala.
 
Equipos nacionales de pronta respuesta y los militares están conduciendo operaciones de rescate en las pequeñas villas enterradas en residuos volcánicos. La Cruz Roja está en el local atendiendo la gente. Las iglesias también están dando su colaboración para atender las necesidades inmediatas, que irán aumentar en los próximos días.
 
La Alianza Anglicana está en contacto con el liderazgo de la Iglesia en Guatemala para asegurar oración y solidaridad.
 
El Obispo Armando Guerra dice para la Alianza: “Gracias por su apoyo y solidaridad en eses momentos de sufrimiento de tanta gente en Guatemala”.
 
El Obispo Silvestre Romero, quién coordina las acciones de respuestas, escribió: “gracias por sus oraciones, nos sostienen y energizan para confrontar y dar seguimiento de una manera que refleje la caridad y amor de Dios”.
 
“Estamos en el proceso de evaluar e identificar el camino a seguir. Por el momento hemos establecidos centros de acopio en las regiones afectadas para distribuir lo que podamos colectar o comprar. Estaremos trabajando en colectar información de la situación, así como los procesos de rescaten lleguen a su fin y hacer reconocimiento de la situación actual y así crear un plan de acción a largo plazo”.
 
Por favor, mantenga nuestra iglesia y pueblo en sus oraciones. Vamos a actualizar esta página cuando llegue la información de cómo la Iglesia planea responder mas efectivamente a las personas afectadas.
 
ERD – Episcopal Relief & Development, de la Iglesia de los Estados Unidos, ya está enviando un apoyo emergencia para la Diócesis de Guatemala. Usted puede ayudar el fundo general a través de ese link.
 
Fuente: Anglican Alliance
Foto: AFP

 

 
 
O Papa Francisco enviou uma mensagem ao Patriarca Ecumênico de Constantinopla Bartolomeu I, por ocasião do Simpósio Internacional “Rumo a uma Ática mais verde: preservando o planeta e protegendo as pessoas”. O evento foi realizado em Atenas, na Grécia, de 5 a 8 de junho.
 
Francisco, em sua mensagem, recordou a visita que realizou à cidade de Lesbos, ilha grega que fica na região nordeste do Mar Egeu, quando o Santo Padre e Bartolomeu I discutiram a situação trágica dos imigrantes e refugiados da região. “Enquanto nos encantávamos com o céu azul e o mar, fiquei amarrado ao pensamento de que um lugar tão lindo havia se tornado uma tumba para homens, mulheres e crianças que em sua maioria fugiam das condições desumanas de suas terras natais”, lembrou.
 
O Sucessor de Pedro ainda recordou uma de suas cartas encíclicas, a Laudato Si – sobre o cuidado da casa comum, em que o pontífice afirma que podemos condenar as gerações futuras a um lar relegado às ruínas. “Hoje, devemos fazer uma simples pergunta: ‘qual é o mundo que queremos deixar para aqueles que nos sucederão, às crianças que estão crescendo agora?’ Com relação à crise ecológica, devemos empreender um sério exame de consciência sobre a proteção do planeta confiado aos nossos cuidados”, afirmou o Papa.
 
Cuidar da criação, que deve ser vista como um dom comum e não como propriedade privada, implica o reconhecimento e o direito de cada pessoa, afirma Francisco. “A atual crise ecológica que afeta agora toda a humanidade está enraizada no coração humano”, alerta o pontífice para, em seguida, citar uma passagem da Laudato Si: “A violência presente em nossos corações, ferida pelo pecado, também se reflete nos sintomas de doenças evidentes no solo, na água, no ar e em todas as formas de vida”.
 
Francisco pede que todos os cristãos se unam para enfrentar o desafio da crise ecológica e que cooperem para uma resposta inequívoca. “O Dia Mundial de Oração pela Criação é um passo nessa direção, pois demonstra nossa preocupação e aspiração compartilhadas de trabalhar juntos para enfrentar essa questão delicada”, pondera o Santo Padre. “É minha firme intenção que a Igreja Católica continue a caminhar junto com Vossa Santidade e o Patriarcado Ecumênico ao longo deste caminho”, finalizou.
 
Por Canção Nova, com Boletim da Santa Sé
Foto: Pixabay

 
As políticas de austeridade adotadas no Brasil contra a crise econômica poderão levar a um aumento de 8,6% da taxa de mortalidade infantil no País até 2030, em comparação a um cenário no qual os programas de proteção social não tivessem sua cobertura reduzida. A conclusão é de um estudo realizado por um grupo internacional de cientistas e publicado nesta terça-feira, 22, na revista PLOS Medicine.
 
Na projeção dos pesquisadores, sem a política de austeridade econômica, nos próximos 12 anos serão evitadas 124 mil internações e 20 mil mortes de crianças até cinco anos de idade. 
 
Para fazer a estimativa, os pesquisadores se basearam em simulações do Banco Mundial, do  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e em dados do Ministério do Desenvolvimento Social e do Ministério da Saúde. A partir dessas informações, eles desenvolveram um modelo estatístico de simulação detalhada dos efeitos das mudanças nas taxas de pobreza e nos programas sociais, entre 2017 e 2030, em cada um dos 5.507 municípios brasileiros.
 
Participaram do estudo cientistas do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), do Imperial College London (Reino Unido), da Universidade Stanford (Estados Unidos), da Universidade Harvard (Estados Unidos), da Fundação Oswaldo Cruz em Minas Gerais (Fiocruz Minas), do Ipea e da Universidade de São Paulo (USP).
 
De acordo com o primeiro autor do estudo, Davide Rasella, pesquisador da UFBA e do Imperial College, os resultados mostraram  também que o impacto negativo das políticas de austeridade é maior nos municípios mais pobres e se deve especialmente ao iminente aumento da pobreza e à redução da cobertura dos programas sociais, em particular o Bolsa Família e o Saúde da Família.
 
"O nosso estudo sugere que uma redução da cobertura dos programas de redução da pobreza e de atenção básica à saúde podem resultar em um substancial número de mortes evitáveis de crianças no Brasil. Essas medidas de austeridade terão impacto desproporcional na mortalidade infantil nos municípios mais pobres, revertendo tendências anteriores de redução da desigualdade nos resultados relacionados à saúde infantil", disse Rasella ao Estado.
 
As centenas de simulações feitas pelos pesquisadores consideraram variados cenários de duração da crise econômica e de magnitude dos cortes nos programas sociais. Em todos os cenários a mortalidade infantil foi afetada.
 
Segundo Rasella, um documento do Banco Mundial que estimava o aumento da pobreza em 2016 e 2017 em decorrência da crise econômica serviu de base para a elaboração do modelo matemático utilizado no estudo. Ele se baseia em micro-simulações para modelar  características individualizadas dos dados - neste caso, as informações específicas sobre todos os municípios - e associar a elas probabilidades de resultados em políticas públicas.
 
"Utilizamos a mesma matemática envolvida nesse estudo do Banco Mundial. A micro-simulação é cada vez mais utilizada em epidemiologia e é especialmente útil para avaliar ao mesmo tempo os impactos das políticas públicas em geral e em subgrupos pré-determinados. Nós utilizamos esse modelo para estudar as consequências da macroeconomia na saúde da população", afirmou Rasella. 
 
Assim, os pesquisadores partiram de dois conjuntos de dados. O primeiro consiste nas variáveis demográficas e socioeconômicas específicas de cada município, incluindo as tendências ao longo do tempo com o impacto dos programas sociais. O segundo é a magnitude do efeito de todas as variáveis independentes de mortalidade e hospitalização infantil. 
 
"Graças à riqueza dos dados que temos nas mãos, pudemos simular não só o comportamento da população em geral, mas de cada município", disse Rasella. "Os dados que utilizamos para nossas simulações não foram calculados pelo nosso grupo, mas pelos próprios Ministérios da Saúde e do Desenvolvimento Social. Produzimos essas simulações com algumas das técnicas mais sofisticadas que existem à disposição", acrescentou.
 
Para as previsões de mudanças demográficas foram utilizados dados do IBGE. Para a previsão da redução da cobertura do Bolsa Família e do Saúde da Família foram empregados dados dos próprios ministérios responsáveis pelos programas, além de simulações dos efeitos da Emenda Constitucional 95 produzidas pelo Ipea. 
 
Essas previsões foram simuladas de acordo com diferentes cenários em relação à situação econômica do País e em relação às políticas a serem adotadas - de austeridade ou de manutenção do programas sociais.
 
De acordo com outro dos autores do estudo, Romulo Paes-Sousa, pesquisador da Fiocruz Minas, o estudo mostra que os resultados das políticas de austeridade não se limitam à economia, mas acabam tendo efeitos sobre todas as políticas públicas e sobre o bem estar da população.
 
"Fizemos um grande número de simulações e nosso trabalho foi extremamente rigoroso. Algumas conclusões são previsíveis, mas é importante quantificar esses números. O alerta que queremos fazer é que as variáveis socioeconômicas precisam ser consideradas quando se toma uma decisão que tem impactos no orçamento público. O impacto no bem estar da população pode ser muito grande se não levarmos isso em conta", afirmou Paes-Sousa.
 
Teto de gastos. De acordo com os pesquisadores, a medida de austeridade com maior impacto foi a Emenda Constitucional 95, aprovada em dezembro de 2016, que congela os gastos públicos por 20 anos. O estudo aponta que, com a emenda, não há possibilidade de um crescimento real dos investimentos em proteção social e em saúde. Com o crescimento e envelhecimento populacional previsto, o impacto negativo da emenda na saúde é inevitável. 
 
Segundo Rasella, para evitar uma degradação das condições de saúde seria preciso manter os níveis de investimento compatíveis com o crescimento dos níveis de pobreza verificados após a crise econômica. 
 
"Nossa modelagem mostra como deveria ser um sistema de proteção social satisfatório, seja do ponto de vista da assistência social ou da assistência à saúde. Nosso foco não é a crise econômica, mas as medidas de austeridade, que terão um impacto duradouro de 20 anos. Não podemos nos ater à simples variação do PIB, porque essa é uma medida muito geral da economia e não reflete a dinâmica da pobreza. No ano passado tivemos um pequeno crescimento do PIB, mas a pobreza aumentou."
 
Recursos. Em nota, o Ministério da Saúde disse que a Emenda Constitucional 95/2016 não congelou os recursos para a saúde. "Estabeleceu que, para a União, as aplicações mínimas em ações e serviços públicos em saúde já a partir de 2017 seriam de 15% da Receita Corrente Líquida (RCL) e, a partir de então, o piso seria corrigido pela inflação. A regra anterior previa o percentual de 15% da RCL a ser alcançado apenas em 2020. Com essa antecipação, a saúde ganhou R$ 10 bilhões a mais já no ano passado", disse. A nova norma protegerá a saúde de ter seu piso de gastos reduzido em momentos de contração da economia e de queda de receita, acrescentou a pasta.
 
O Ministério disse ainda que destina recursos crescentes para a saúde pública. "Em 2017, foram executados R$ 126,9 bilhões, sendo R$ 115,3 bilhões especificamente as Ações e Serviços Públicos de Saúde (ASPS). Para 2018, o orçamento aprovado pelo Congresso Nacional é de R$ 131,2 bilhões, sendo R$ 119,3 bilhões para ASPS."
 
Fonte: Estadão
Foto: Reprodução / PLOS Medicine

 
 
Entrevista con el pastor Martin Robra (foto acima, esq.), por Antonio Spadaro (foto acima, dir.).
 
Mi encuentro con el pastor Martin Robra tuvo lugar el 27 de mayo de 2017 en Villars-sur Glâne, a pocos kilómetros de Ginebra. Él comenzó a trabajar en el Consejo Mundial de Iglesias (CMI, en inglés World Council of Churches [WCC]) en 1994, y en 2006 pasó a ser cosecretario del grupo mixto de trabajo entre el Consejo y la Iglesia católica, instituido en 1965. Con el pastor Robra había hablado del encuentro en Lund en ocasión de la conmemoración de los 500 años de la Reforma. En esa ocasión comentamos cómo todos los discursos estuvieron centrados en el futuro, y no en el pasado, y él me expresó el deseo y la expectativa de una visita del papa Francisco a la sede del CMI en Ginebra.
 
Recordando esas expectativas y esperanzas compartidas regresé a verlo en la vigilia del viaje del papa a Ginebra a fin de dialogar sobre esta visita, que se produce en el contexto de las celebraciones de los 70 años de la fundación del Consejo, que tuvo lugar en Ámsterdam el 22 de agosto de 1948. El papa se encontrará con el órgano de gobierno del CMI, el Comité Central, compuesto por 150 representantes electos.
 
Martin Robra —casado con Barbara Siebel y padre de cinco hijos— es pastor de la Iglesia evangélica de Westfalia, Alemania.
 
¿Qué es el Consejo Mundial de Iglesias? Dinos algo sobre su historia, sus comienzos, su significado…
 
En 1921 el patriarca ecuménico de Constantinopla escribió una carta a las otras Iglesias cristianas proponiendo la formación de una koinonía de Iglesias, una alianza o una comunión de Iglesias en el apoyo recíproco para facilitar su testimonio común en el mundo. Dicha entidad debía convertirse en un instrumento para la promoción de la unidad de los cristianos. No obstante, el CMI no debe verse como una organización centralizada con sede en Ginebra o como tentativa de crear una «Iglesia mundial». El CMI es la comunidad fraterna de 348 Iglesias provenientes, en su mayoría, de tradiciones ortodoxas, anglicanas y protestantes, y comprende también un cierto número de Iglesias pentecostales y de Iglesias africanas independientes. Para las Iglesias que lo integran, el CMI significa caminar juntos con confianza recíproca. En el preámbulo de su constitución se afirma que es «una comunidad de Iglesias que confiesan al Señor Jesucristo como Dios y Salvador, según el testimonio de las Escrituras, y procuran responder juntas a su vocación común, para gloria del Dios único, Padre, Hijo y Espíritu Santo». Ginebra hospeda solamente al Secretariado, que se pone al servicio de la comunidad de las Iglesias miembros y de los socios ecuménicos.
 
El 2 de marzo pasado, en ocasión de una conferencia de prensa conjunta en el Vaticano, el Rev. Dr. Olav Fykse Tveit, secretario general del Consejo Mundial de Iglesias, declaró: «La noticia de la visita del papa al CMI y a Ginebra es un signo de cómo las Iglesias cristianas pueden afirmar nuestro llamado y nuestra misión común de servir juntos a Dios». He leído que existe un profundo sentido de «misión» justamente en la base del Consejo ya desde su fundación. ¿Es así?
 
Sí, un importante impulso a la formación del CMI vino de la necesidad de cooperar en la misión. A menudo se hace referencia a la Conferencia Misionera Mundial de 1910 como punto de partida del movimiento ecuménico moderno, si bien la World Student Christian Federation y otras organizaciones juveniles habían ya elaborado esta idea ecuménica. La terrible crisis de la Primera Guerra Mundial reforzó la voluntad de los líderes de las Iglesias de crear movimientos orientados no solamente a la misión, sino también a la unidad (Faith and Order, Lausana 1927) y a la justicia y a la paz en el mundo (Life and Work, Estocolmo 1925). Estos dos momentos suscitaron unidad e iniciaron en 1936 el proceso de formación del CMI, proceso que, sin embargo, fue interrumpido por la Segunda Guerra Mundial. El CMI fue finalmente constituido con la primera asamblea de Iglesias en Ámsterdam en el año 1948, razón por la cual este año celebramos su septuagésimo aniversario. Se convirtió en un verdadero cuerpo global en la asamblea de Nueva Delhi de 1961, con la entrada del International Missionary Council (IMC) y de Iglesias ortodoxas de Europa central y oriental.
 
Su constitución expresa claramente los objetivos: «El objetivo principal de la comunidad de Iglesias que forma el Consejo Mundial de Iglesias es ofrecer un espacio donde las Iglesias puedan exhortarse unas a otras a alcanzar la unidad visible en una sola fe y una sola comunión eucarística, expresada en el culto y la vida común en Cristo, mediante el testimonio y el servicio al mundo, y a avanzar hacia la unidad para que el mundo crea».
 
La visita de Francisco será una ocasión para poner de manifiesto las importantes metas alcanzadas y para encarar los desafíos futuros del ecumenismo. ¿Cómo ves la actual situación del ecumenismo?
 
Hasta hace pocos años estábamos habituados a hablar de un «invierno ecuménico». No obstante, nuestro secretario general, el reverendo Olav Fykse Tveit, que viene de Noruega, gustaba de decir que nada hay de erróneo en el invierno: solo se necesitan guantes y ropa que mantengan el calor. Pero me parece que con el papa Francisco y sus iniciativas ha llegado una nueva primavera. Su participación en Lund en la oración para la celebración del V Centenario de la Reforma me ha dado mucho aliento. En ese momento se hizo vida el lema de las celebraciones, «Del conflicto a la comunión». Pero no sucedió solamente allí: Iglesias del todo el mundo celebraron juntas la sanación de las memorias heridas de la Reforma. No olvidemos cuántas guerras se alimentaron de ellas.
 
Me parece que la visita del papa a Lund fue un momento importante. Me impactó mucho el hecho de que los discursos hayan estado centrados en los desafíos del presente y del futuro, en el camino a recorrer…
 
Lund se convirtió en un momento de unidad a lo largo del camino. Es un hito en la senda que recorremos juntos. Con más claridad aún lo vemos cuando recordamos que, en su camino hacia Lund, luteranos y católicos se encontraron primeramente en 1999 en Augsburgo para la firma de la Declaración Conjunta sobre la Doctrina de la Justificación. Me parece fascinante el modo en que estos dos hitos se han convertido en puntos de referencia que nos ayudan a ver el largo camino del que provenimos y cómo avanzar juntos en el futuro. La Declaración Conjunta nos recuerda la iniciativa de Dios por la salvación del mundo. La iniciativa de Dios viene antes de todo. Dios nos está alcanzando por la gracia. La Declaración de Lund demuestra que el acontecimiento de Augsburgo de 1999 y el viaje común que nos ha llevado hasta allí nos han cambiado de verdad a muchos de nosotros. Al regresar de allí reconocimos la importancia de los recuerdos del pasado, signados por heridas y envenenados por el odio.
 
Fue casi como un momento de liberación, de redescubrimiento…
 
Nos sentimos libres para no repetir los mismos estereotipos que profundizaron la separación de las Iglesias y de las comunidades y llevaron a la violencia y hasta a la guerra en los cinco siglos que siguieron a la Reforma. En lugar de todo ello, hemos redescubierto un gran patrimonio común. De este modo nos hemos tornado responsables tanto de nuestro pasado como de nuestro futuro en común, y no ya solos y separados los unos de los otros. En lugar de alejarnos, podemos caminar juntos y compartir con los otros nuestras historias, nuestras esperanzas y nuestras expectativas para el futuro de nuestras Iglesias y del mundo.
 
Naturalmente, quedan todavía desafíos importantes…
 
Desde luego, y no en último término las tensiones en torno a cuestiones de ética de la persona y de la sexualidad humana. Pero juntos tenemos la posibilidad de demostrar al mundo que lo que nos une es mucho más que lo que nos separa. Delante de nosotros está el camino no fácil de llevar a todos los cristianos a un diálogo y a una cooperación más estrechos, y de comprometernos juntos en el diálogo interreligioso y en la colaboración por el bien de la paz y por el florecimiento de la vida. El CMI necesita construir puentes hacia fuera de sus miembros, que representan a cerca de 560 millones de cristianos en 110 países de todo el mundo.
 
La Iglesia católica no forma parte del Consejo Mundial de Iglesias, pero participa como «observadora» y colabora a varios niveles desde 1965 —año en que concluyó el concilio Vaticano II—, en particular en la Comisión «Fe y Constitución» y en la Comisión «Misión y Evangelización». ¿Qué relaciones tenéis hoy con la Iglesia católica, considerando la historia de estas relaciones y las actuales con el papa Francisco?
 
Nuestra cooperación con los dicasterios vaticanos ha mejorado mucho. En particular con el Pontificio Consejo para la Promoción de la Unidad de los Cristianos, con el Pontificio Consejo para el Diálogo Interreligioso, como también con el nuevo Dicasterio para el Servicio del Desarrollo Humano Integral. No se trata de que antes las relaciones hayan sido malas, pero ahora hay mucho más espacio y disponibilidad para una cooperación significativa más allá del diálogo teológico entre las Iglesias, que cae bajo la responsabilidad del Pontificio Consejo para la Promoción de la Unidad de los Cristianos.
 
Hay razones para celebrar también otras conquistas de la cooperación, como la convergencia en los textos de Faith and Order y la declaración de la nueva misión del CMI Together toward life, o la mucho mejor cooperación a favor de los migrantes y de los refugiados.
 
Para complementar la Semana de Oración por la Unidad de los Cristianos, en muchos lugares del mundo se observó y celebró ecuménicamente la Jornada Mundial de Oración por el Cuidado de la Creación. En algunos lugares esto se dio también con la participación de personas de diferentes religiones. Es nuestro deseo que la visita del papa Francisco a Ginebra envíe una señal fuerte para que todos los cristianos compartan el compromiso de profundizar la unidad de las Iglesias en camino y a participar juntos en la misión divina de la vida, de la justicia y de la paz en el mundo.
 
¿Qué eco ha tenido la encíclica «Laudato si’» en el seno del CMI? ¿Y las exhortaciones apostólicas de Francisco, «Evangelii gaudium», «Amoris laetitia» y «Gaudete et exsultate»? ¿Cómo se las ha recibido?
 
Las exhortaciones apostólicas Evangelii gaudium y Amoris laetitia y la encíclica Laudato si’ fueron estudiadas por el grupo operativo del CMI, porque guardan una estricta relación con a nuestro trabajo. Organizamos seminarios para nuestros colaboradores con el fin de estudiar estos documentos. No lo hemos hecho aún con Gaudete et exsultate. Son todos textos sólidamente arraigados en la doctrina de la Iglesia católica, pero en óptima consonancia con el trabajo unitario de las Iglesias del CMI. Se han convertido en puntos de referencia recurrentes.
 
Hablemos de la visita papal al CMI. Francisco no es el primer papa recibido en Ginebra. Antes se dieron las visitas de Pablo VI (junio de 1969) y de Juan Pablo II (1984). ¿Cuál es el significado de esta próxima visita?
 
Es sorprendente que el papa Francisco haya dado tanto relieve al CMI durante su visita a Ginebra. Es un hecho muy diferente de las dos precedentes visitas a Ginebra de los papas Pablo VI y Juan Pablo II. Esos viajes habían estado dedicados ante todo a Suiza y a las oficinas ginebrinas de Naciones Unidas en calidad de jefes de Estado de la Ciudad del Vaticano, la Santa Sede. El papa Francisco viene ante todo como jefe de la Iglesia católica, obispo de Roma y sucesor de Pedro. Va de Roma a Ginebra. Esperamos que juntos podamos continuar la «Peregrinación de justicia y paz» hacia aquellos que están en los márgenes de la sociedad, aquellos que tienen sed de justicia y de paz en este mundo castigado por la violencia y con sus injustas relaciones políticas y económicas.
 
Es bueno que el papa Francisco llegue poco después de la clausura de nuestro Comité Central, el más alto órgano de decisión del CMI. El Centro Ecuménico de Ginebra estará lleno de representantes de las Iglesias miembros y de socios ecuménicos en representación de todas las dimensiones del movimiento ecuménico. Su visita demuestra la unicidad del movimiento ecuménico al que la Iglesia ha adherido con la promulgación del Decreto sobre el ecumenismo Unitatis Redintegratio. El mundo ve en el papa una voz determinante del cristianismo mundial junto al patriarca ecuménico Bartolomé y a otros pocos jefes eclesiásticos. Sería de verdad un gran paso adelante si quedara claro que el papa no habla solamente en interés de la Iglesia católica romana, sino que anticipa, más bien, aquella Iglesia una, santa, apostólica y católica con aquellos que hasta ahora están separados.
 
El papa Francisco habla a menudo de Iglesia en salida hacia los que se encuentran en las periferias…
 
Y afirma también que la unidad se profundiza caminando juntos… El papa Francisco habla a menudo de la unidad de las Iglesias como unidad en camino. Después de la asamblea de Busan de 2013, el Consejo Mundial de Iglesias articula todo su trabajo en el marco de la peregrinación hacia la justicia y la paz: estamos caminando juntos como discípulos de Cristo. Podremos caminar separadamente por un poco de tiempo, pero hay momentos en que nos reunimos; cuando recordamos juntos lo que sucedió por el camino, renovamos nuestro compromiso por la peregrinación común y continuamos el viaje con un sentimiento compartido de dirección y de objetivo.
 
Sí, y caminando es posible discernir juntos los paisajes a través de los cuales el camino está llamado a avanzar…
 
Nos apoyamos recíprocamente en el testimonio común. Juntos estamos haciendo muchísimo, pero podemos hacer más y manifestar de forma más explícita que estamos caminando lado a lado.
 
Francisco fue a Lesbos con el patriarca Bartolomé, y en Cuba se encontró por primera vez con el patriarca ruso. Fue a Lund para conmemorar el quinto centenario de la Reforma. Visitó a la comunidad luterana y a la anglicana en Roma, y también a la valdense en Turín… Su mensaje no insiste solamente en la prosecución del diálogo teológico, sino en hacer algunas cosas juntos «como si» fuésemos ya una sola cosa, centrándonos en la evangelización y en el testimonio común que el mundo nos exige respecto de cuestiones urgentísimas como las migraciones. ¿Cuál es tu opinión al respecto? ¿Se puede pensar en un nuevo paso adelante basado en este «como si fuésemos ya uno»?
 
Sí, hemos visto al papa Francisco actuar como «constructor de puentes». Te estoy muy agradecido por haber planteado esta pregunta sobre el modo de hacerlo. Habrás notado cómo cada vez que hice referencia a la «Peregrinación de justicia y paz» y a la unidad que hay que profundizar yendo de camino aliento una real esperanza en la relación entre las Iglesias «como si» fueran una sola cosa. En los primeros años del CMI nuestro Comité Central afirmó el denominado «principio de Lund», que plantea el interrogante: ¿No deberían nuestras Iglesias «actuar juntas en todos los asuntos excepto en aquellos en los cuales profundas diferencias de convicción las obligan a actuar separadas»? Las Iglesias cristianas pueden hacer mucho más juntas en la evangelización, en la acción en el terreno público, en el servicio diaconal y pastoral y en su testimonio común de ese Dios que es tres en uno, que nos ha creado en nuestra diversidad, nos ha reconciliado en Cristo y nos hace una sola cosa en el Espíritu Santo.
 
En marzo pasado habéis tenido en Arusha, Tanzania, la Conferencia Misionera Mundial 2018. La Conferencia concibió la misión como una actividad multivalente que comprende el testimonio, con la palabra y las obras, de la persona de Jesucristo y de su evangelio, el compromiso de trabajar por la justicia y la reconciliación entre todos los pueblos y en el seno de la creación entera. ¿Cuál es el mensaje profético expresado por ese encuentro?
 
La Conferencia dio participación también a muchos misionólogos católicos, evangélicos y pentecostales. Eran en total cerca de mil participantes. Ellos redactaron juntos el «Llamamiento de Arusha al discipulado». Reflexionando sobre el «discipulado transformador» durante la Conferencia, esta declaración comprende una crítica profética del actual sistema financiero y de las estructuras económicas que han llevado a niveles escandalosos de desigualdad, excluyendo a millones de personas. Está muy en sintonía con la exhortación Evangelii gaudium y con la encíclica Laudato si’. La Declaración afirma que el discipulado es un don, pero también un llamado a ser colaboradores activos con Dios para la transformación de la realidad. Esto significa cuidar tanto de las personas como del sufrimiento de la creación, buscando la justicia y la paz. De este modo respondemos al llamado de Jesús a seguirlo a las periferias de nuestro mundo.
 
El documento reflexiona el tema principal de la Conferencia, sobre el discipulado transformador y sobre el poder del Espíritu Santo, consolador, defensor y apoyo. Más tarde afirma que estamos llamados a ser líderes que sirvan y muestren el camino de Cristo en un contexto que privilegia el poder, la riqueza y la cultura del dinero. Entre otros llamamientos a la transformación está también el siguiente, dirigido a la Iglesia: «Estamos llamados como discípulos a pertenecer juntos a comunidades justas e incluyentes, en nuestra búsqueda de la unidad y en nuestro camino ecuménico, en un mundo que se basa en la marginación y la exclusión». El texto concluye con una oración en la que se subraya que nuestro compromiso de discípulos unidos en el Espíritu Santo se realiza «caminando, orando y trabajando juntos». Y justamente este es el lema de la visita del papa Francisco a Ginebra.
 
¿Cuál es hoy el principal desafío del ecumenismo?
 
El ecumenismo tiene una fuerte dimensión escatológica, anticipando el reino de Dios, que ha creado toda vida y una sola familia humana, nos ha reconciliado en Cristo, y que nos sostiene y nos guía en nuestro camino por medio del poder del Espíritu Santo. Esto abre este amplio horizonte de justicia y de paz para todos. Sin embargo, la realidad está muy fragmentada y marcada por la competición por el poder y la riqueza. Las identidades contrapuestas han sido sostenidas hasta ahora por culturas y, en parte, también por la religión. Hay todavía un largo camino por recorrer antes de que se pueda ver un terreno común global en el que interactúen pacíficamente las culturas y las religiones. Es decir, se trata de una realidad profundamente distinta del estrato muy delgado y superficial que nos propone la actual cultura del consumo y de los medios globales que lo apoyan. Tenemos todavía un largo camino por recorrer antes de que la dimensión ecuménica de nuestra vida compartida en nuestra casa común arraigue profundamente en la mente y en el corazón de las personas. Considero las dificultades que estamos enfrentando como los «dolores de parto» de esta nueva dimensión de las culturas y las religiones.
 
Tengo la impresión de que, en los últimos años, muchos de los programas del CMI y de la Santa Sede se han acercado y la colaboración ha crecido. ¿Cuál es la conquista principal del ecumenismo en este tiempo?
 
Según mi parecer, los éxitos principales del movimiento ecuménico son los muchos casos en los que este ha contribuido de muchos modos concretos a la paz y a la reconciliación. También mi historia personal es un reflejo de ello. Mi madre sobrevivió al frío invierno que siguió a la Segunda Guerra Mundial gracias a un horno recibido como regalo de los servicios ecuménicos para los refugiados apoyados por la Iglesia de Suecia. He visto al movimiento ecuménico alimentar el diálogo entre Este y Oeste, contribuir a la paz y, por último, la caída del Muro de Berlín y la pacífica reunificación de Alemania. He estado en Colombia en febrero pasado y he visto cómo las Iglesias contribuyen juntas de manera significativa al todavía frágil proceso de paz. Pienso que las Iglesias tienen también un papel importante en el afrontar el desafío del cambio climático como una tarea común para todos, pero sobre todo para aquellos que más han contribuido a las emisiones de gas de efecto invernadero.
 
Y, además, la Iglesia en camino es un pueblo definido por una esperanza. Tener esperanza significa a menudo ser capaces de ver más allá de lo que se ve y estar a la espera de algo más y de algo distinto…
 
Es verdad, y podría enriquecer aún la enumeración que acabo de hacer, agregando muchos otros casos en los que la cooperación ecuménica ha sido una fuente concreta de esperanza para las personas que sufren la injusticia y la violencia.
 
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El papa Francisco partirá el 21 de junio a las 8:30 del aeropuerto de Roma Fiumicino para llegar a Ginebra a las 10:10. Después de una ceremonia de bienvenida y de un encuentro privado con el presidente de la Confederación Helvética en una sala del aeropuerto, a las 11:15 tendrá lugar en el centro del CMI una oración ecuménica durante la cual el papa pronunciará una homilía. La comida será con los líderes del CMI en el Ecumenical Institute de Bossey y a las 15:45 se celebrará un encuentro ecuménico en que el papa pronunciará un segundo discurso. La jornada concluirá con la misa celebrada por el papa en el Palexpo. Francisco partirá de regreso hacia Roma a las 20 h, después de la despedida de los obispos y de los colaboradores de las representaciones pontificias en Suiza.
 
Interrogado sobre el significado de la visita, el secretario general del Consejo Mundial de Iglesias declaró que «es un reconocimiento para aquellos que han orado y trabajado juntos durante muchos años por la unidad de la Iglesia. Es un signo significativo del camino que hemos recorrido en estos años a través del trabajo del CMI y en colaboración con la Iglesia católica romana, y ahora bajo la conducción del papa Francisco».
 
El papa, por su parte, había escrito el 31 de enero de 2018 una carta dirigida al cardenal Reinhard Marx, presidente de la Conferencia Episcopal Alemana, y a Heinrich Bedford-Strohm, presidente del Consejo de la Iglesia Evangélica en Alemania (EKD) subrayando: «Con gran alegría hemos podido constatar que, tras quinientos años de una historia de separación en parte dolorosa entre los cristianos evangélicos y católicos, hemos pasado en los últimos cincuenta años al reencuentro de una comunión en el diálogo ecuménico […] La conmemoración de la Reforma nos ha mostrado que tampoco en el futuro podremos seguir sin ecumenismo». El papa subraya en la carta la importancia de los documentos conjuntos firmados durante el año 2017 y manifiesta que «hoy podemos mirar llenos de confianza hacia un futuro en el que la polémica del siglo XVI habrá terminado y los motivos de recíproca condena habrán desaparecido en gran medida».
 
Es a la luz de estas afirmaciones como ha de entenderse la visita de Francisco al Consejo Mundial de Iglesias.
 
Fuente: CMI 
Foto: Céline Fossati

 
Carta Pastoral do Conselho Latino-Americano de Igrejas-CLAI foi divulgada em 1º de junho, dirigida “a nossas igrejas, especialmente em países que sofrem mais abertamente os efeitos da corrupção, fragilidade democrática, criminalização de movimentos social, fome, exclusão, perseguição e / ou prisão de líderes populares.”
 
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Com informações da CESE e ALC Notícias