O CONIC organizou, neste domingo, 18 de março, o Tour de Violações e Alternativas, uma atividade autogestionada realizada no âmbito do Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA). O Tour visitou comunidades no Distrito Federal em que a questão da água é um desafio diário. Cerca de 50 pessoas estavam presentes, vindas de diversos estados do Brasil e de outros países.
 
Indígenas
 
O ponto de partida foi o Santuário dos Pajés, que fica em um terreno de 4,1 hectares de cerrado preservado, na região Noroeste da cidade de Brasília. O Santuário é considerado uma área de resistência indígena, pois conseguiu permanecer no local apesar das constantes perseguições e repressões sofridas tanto pelo poder público quanto do setor imobiliário, que construiu nesta região um complexo de edifícios de apartamentos de alto padrão. Anunciado como ecológico, apesar da degradação ambiental, o Noroeste ainda é palco de disputas judiciais que, ao que parece, estão longe do fim. Enquanto isso, esse território indígena resiste na luta pela defesa da terra e de espaços que, como este, foi terreno fértil para nascentes.
 
 
Dentro de uma espécie de Oca, os participantes vivenciaram um ritual indígena com direito a preces, orações e muita emoção. “A água é nossa irmã. Temos que cuidar dela. Não podemos tratar a Mãe Terra como mercadoria. Por isso a nossa luta vai continuar e contamos com o apoio de todos vocês, pois somos todos irmãos”, disse o pajé Kamuu Dan Wapixana. 
 
 
Trabalhadores Sem Teto
 
A segunda parada aconteceu no assentamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), localizado em uma das regiões mais carentes de Brasília, o Sol Nascente. Eduardo Borges da Silva, membro da coordenação nacional do MTST, afirmou que ali residem 109 famílias, mas que a situação do assentamento ainda carece de estruturas básicas para uma vida digna, como saneamento, asfalto, além de serviços essenciais, creche, hospital, etc.
 
 
 
Ao fim da visita, os presentes conheceram uma casa sustentável, utilizando técnicas da permacultura. O imóvel, construído em regime de mutirão, foi resultado de uma ação de crowdfunding – iniciativa de financiamento coletivo. 
 
Assentamento Canaã
 
Finalmente, os integrantes do Tour foram conhecer o Assentamento Canaã, em Brazlândia. Mantido pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o terreno abriga famílias rurais que produzem, organicamente, uma série de hortaliças, verduras e legumes. O local recebeu recentemente cisternas para a captação de água de chuva – construídas pela Cáritas – e, para reduzir ainda mais o consumo de água na lavoura os trabalhadores optaram pelo sistema de gotejamento, que também é considerado mais eficaz do que a irrigação tradicional.
 
 
Tenta Inter-Religiosa
 
Nesta segunda-feira, 19, a programação do FAMA continua, no Pavilhão do Parque da Cidade, com a Tenda Inter-Religiosa. Um dos objetivos deste espaço é reforçar a dimensão espiritual da água e a afirmação da água como um bem comum, que não pode ser privatizado, mas deve estar à disposição de todos os seres.

 
 
 
"É preciso que toda a nação se una para defender a água", conclama Kamuu Dan Wapixana, liderança indígena do povo Wapixana, que habita o leste do estado de Roraima. Dan foi apenas uma das diversas vozes que clamaram pela defesa de um dos mais importantes recursos naturais do planeta durante a Assembleia Popular das Águas. A atividade marcou a abertura do Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA), na manhã deste sábado (17), em Brasília.
 
“Nós estamos no mesmo planeta, que está sendo destruído pela ganância de empresas multinacionais. Nos nossos territórios ainda há reserva de água, porque existe a mata, exista a floresta. Não vai ser o povo sozinho que vai defender, é toda uma nação”, afirma a liderança indígena.
 
O FAMA será a grande oportunidade para que essas vozes que lutam pela água como um direito e não uma mercadoria - lema do evento - possam ser ouvidas. O evento acontece paralelamente ao Fórum Mundial da Água, que também é realizado em Brasília, mas que tem sua organização articulada por governos e empresas interessadas na gestão dos recursos hídricos, entre elas a Ambev, a Nestlé e a Coca-Cola.
 
Ao contrário do Fórum Mundial da Água, o FAMA é organizado por movimentos populares e entidades socioambientais de mais de 38 países. Eles discutirão os caminhos para a preservação da água até o dia 22 de março. Além das mesas oficiais que acontecem a partir de segunda-feira (19), no Parque das Cidades, outras 170 atividades autogestionadas estarão espalhadas pela capital federal.
 
 
 
Segundo Kamuu Dan, as empresas que participam do Fórum Mundial devem estar atentas aos riscos que o planeta corre. “Que eles entendam que não podem destruir as matas e nascentes. Quando faltar água, vai faltar para todo mundo”, alerta.
 
O senador Jorge Viana (PT-AC) explica que o FAMA é um espaço importante para discutir os rumos da água. É no Fórum Alternativo, conta o senador, que estão representados os verdadeiros atingidos pela escassez de água.
 
“São dois fóruns: um institucional, das corporações, e esse outro, que é o FAMA 2018. Aqui é mais legítimo, são as pessoas que estão preocupadas com a vida no planeta”, afirma.
 
O organizador do Fórum Alternativo, Thiago Ávila, lembra que o evento será importante para ouvir relatos de lutas e resistências pela água e ressalta o caráter popular do evento.
 
“Diversas pessoas vieram aqui para dizer que água não é mercadoria e que nós vamos resistir contra a exploração do planeta. O fórum das corporações tem 102 milhões de euros dedicados a ele. Nós construímos um evento militante, colaborativo, através do entusiasmo e do coletivo”, destaca.
 
O FAMA é majoritariamente financiado por doações. 
 
Saia justa
 
A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, esteve no Centro Comunitário da Universidade de Brasília (UnB), que sediou a Assembleia Popular das Águas neste sábado (17). A presença de Dodge, no entanto, foi alvo de críticas.
 
Durante sua fala, ao explicar o engajamento do Ministério Público Federal em ações de mitigação de desastres naturais, a procuradora ouviu vaias e foi chamada de golpista. O público reunido na Assembleia também entoou gritos de “Fora Temer”.
 
Dodge deixou o Centro Comunitário sem falar com a imprensa, assim como o ministro do Superior Tribunal de Justiça, Herman Benjamin, que acompanhava a procuradora. 
 
O Fórum Alternativo segue até o dia 22 de março e o CONIC está gerindo a Tenda Inter-Religiosa do evento.
 
Fonte: Brasil de Fato
Foto: José Eduardo Bernardes / Brasil de Fato

 
 
Pois não há sinceridade, nem amor ao próximo,
nem conhecimento de Deus na terra.
Multiplicam-se mentiras, assassinatos...:
sangue derramado segue-se a sangue derramado.
Por isso, a terra está desolada” (Os 4.1c -3)
 
O Fórum Ecumênico ACT – Brasil, integrado por igrejas e organizações baseadas na fé,  expressa sua solidariedade aos familiares, amigos e amigas, militantes sociais e ao PSol pelo assassinato da vereadora e ativista Marielle Franco e de Anderson Gomes,  ocorrido em 14 de março de 2018.
 
Marielle, mulher, negra comprometida com as lutas e as causas das populações periféricas é uma das muitas mortes de ativistas de direitos humanos que ocorreram nos últimos meses em nosso país. Nesta declaração, lembramos os nomes das lideranças assassinadas somente nesse ano de 2018: Paulo Sérgio Almeida Nascimento – líder comunitário no Pará (+13/03/2018), Márcio Oliveira Matos líder do MST – Bahia (+26/01/2018), Leandro Altenir Ribeiro Ribas – líder comunitário – Rio Grande do Sul (+19/01/2018), Jefferson Marcelo – líder comunitário – Rio de Janeiro (+04/01/2018), Carlos Antônio dos Santos – líder do movimento agrário – Mato Grosso (+08/02/2018), George de Andrade Lima Rodrigues – líder comunitário – Recife (+23/02/2018), Valdemir Resplandes – líder do MST – Pará (+09/01/2018). 
 
Estas mortes refletem o cenário político e econômico de aumento do autoritarismo e foram provocadas pela desigualdade estrutural mantida pelas elites econômicas e políticas do país. Um projeto de país que não tolera sua população indígena e negra, as mulheres, as pessoas LGBTTs nem tolera trabalhadoras e trabalhadores organizados não pode superar a violencia ou construir uma democracia de fato. 
 
O assassinato de Marielle apresenta características de execução. A Vereadora era relatora da Comissão responsável por acompanhar a intervenção de caráter militar na Cidade do Rio de Janeiro. O temor deste crime, assim como muitos outros, cair no esquecimento é alto. As investigações de sua morte e a de Anderson Gomes precisam ser imparciais, desvinculadas da própria intervenção militar e acompanhadas por organizações e setores da sociedade civil com capacidade e isenção. Isto porque é frágil a confiança por parte da sociedade civil em relação às instituições que deveriam zelar pela garantia dos direitos humanos. 
 
Em função disso, expressamos nosso apoio para à recente criação da Comissão Externa que acompanhará as investigações do assassinato de Marielle Francco e Anderson Gomes, bem como da Comissão Externa que acompanhará intervenção militar no Rio de Janeiro. Também solicitamos oficialmente à ONU, em especial, ao Relator Especial das Nações Unidas para Execuções Extrajudiciais, Sumarias ou Arbitrarias que visite o Brasil a fim garantir a imparcialidade das investigações deste assassinato e que apresente suas próprias recomendações sobre o aumento de execuções de indígenas, afrodescendentes, mulheres, jovens, LGBTIQ, ocorridas nos últimos dois anos em nosso país. 
 
O fascismo, o racismo, a misoginia e o ódio de classes não são compatíveis com uma sociedade democrática, nem tão pouco com nossa fé. 
 
FORUM ECUMÊNICO ACT - BRASIL

 
 
 
“Felizes os que são perseguidos por causa da justiça,
porque deles é o Reino do Céu.” (Mateus 5,10)
 
O Conselho de Igrejas Cristãs do Estado do Rio de Janeiro (CONIC-RJ) vem manifestar o seu pesar pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Pedro Gomes, na noite de ontem, na cidade do Rio de Janeiro.
 
Manifestamos também solidariedade para com os familiares, amigos e amigas, bem como todos os eleitores que depositaram sua confiança em Marielle nas últimas eleições municipais, com expressiva votação.
 
Acompanhamos sua trajetória de luta pelos Direitos Humanos e Sociais, a mobilização que realizava junto a mulheres empobrecidas, e suas denúncias recentes sobre os crescentes casos de violência urbana contra a população jovem e negra. 
 
Há pessoas que se destacam rapidamente na luta pela igualdade social, apesar da sua juventude. No caso de Marielle, ela não se destacou sozinha, mas organizou politicamente e deu voz a tantas mulheres quanto encontrou pelos caminhos. Sabemos da dificuldade de enfrentar as injustiças na sociedade brasileira, por isso somamos forças com todas as pessoas e instituições que promovem a paz e dignidade humana.
 
Ao perdemos Marielle para a violência recorrente de nossa cidade, no momento em que ela acompanhava como parlamentar a intervenção militar no estado do RJ, exigimos que as investigações do caso sejam rigorosas e conclusivas. Assim como deveria acontecer na investigação de todas as vítimas de violência, pois todas as vidas importam para Deus e para a sociedade.
 
Quando a voz de um inocente é silenciada, milhares de vozes se levantam.
 
“E ninguém vai calar, nossa voz nosso canto de paz,
Sem poder represar, toda a água que corre para o mar.”
Laan Mendes de Souza
 
Conselho de Igrejas Cristãs do Estado do Rio de Janeiro
 
Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

 
 
 
O Cacique Marcos Xukuru mal teve tempo de avisar a todos os membros de sua comunidade sobre a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos de condenar o Brasil por violar a propriedade coletiva de seu povo. "O nosso território é muito grande, com aldeias distantes. Mandei mensagem aos grupos de WhatsApp para famílias e lideranças que compõem a organização política de nosso território. Mas ainda não chegou a todos".
 
Também não teve tempo de ler a íntegra da decisão da Corte, que, pela primeira vez julgou um caso de disputa de terra indígena no Brasil. Por isso ficou surpreso ao ser informado pela reportagem do EL PAÍS Brasil que seu povo, que vive em Pernambuco, terá direito a receber 1 milhão de dólares de reparação pela lentidão do Estado brasileiro em devolver suas terras. "Se realmente tivermos direito a 1 milhão de dólares poderemos fazer investimentos coletivos para o povo", afirmou o cacique, em um misto de surpresa e desconfiança da promessa da Corte.
 
Atualmente o povo Xukuru é formado por cerca de 7.700 pessoas, distribuídos em 24 comunidades na Serra do Ororubá, em uma área de aproximadamente 27.555 hectares, a cerca de 6 quilômetros da cidade de Pesqueira, na região do Agreste de Pernambuco.
 
Aos 39 anos, Marcos Xukuru cresceu em meio a uma violenta luta por terras, um ambiente onde não há espaço para promessas. Assumiu o cacicado aos 21 anos, após o assassinato de seu pai, o Cacique Xicão, morto a tiros em 20 de maio de 1998. O fazendeiro acusado de ser o mandante do crime, José Cordeiro de Santana, que possuía terras dentro da reserva indígena, se suicidou em 2002, dentro de uma cela da Polícia Federal no Recife, logo após ser preso.
 
O processo administrativo de reconhecimento, titulação e demarcação começou em 1989, mas acredita-se que a violência tenha sido motivada pela demarcação das terras feitas em 1995, o que, sem apoio do Governo, aumentou os embates entre indígenas e fazendeiros. O próprio cacique Marcus sofreu um atentado em 7 de fevereiro de 2003, que causou a morte de outros membros de seu povo. Em 2005, um agente da Funai, Geraldo Rolim, também foi assassinado em meio aos conflitos. Foi nessa época que se confirmou o título de propriedade formal no registro de imóveis aos indígenas.
 
A esperança do cacique é que a decisão da Corte Interamericana seja o prenúncio de tempos de paz. "O que almejamos é viver em paz e tranquilidade, que nossos netos possam viver em harmonia no espaço recuperado", afirma o cacique.
 
Com a condenação da Corte, que é inapelável, o Governo federal terá cerca de um ano e meio para garantir a retirada dos invasores da terra, concluir o pagamento da indenização de melhorias de boa fé a cerca de 45 agricultores que deixaram a região, além da criação de um fundo de um milhão de dólares em nome do povo Xukuru, no prazo de 18 meses.
 
O caso dos Xukuru foi levado à Corte pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em parceria com as ONGs Justiça Global e o Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações populares (Gajop). "A expectativa é que a decisão sirva de jurisprudência e precedente para outros casos em tramitação na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), como a dos indígenas Guarani Kaiowá e Terena, do Mato Grosso do Sul", afirma Adelar Cupsinski, advogado do Cimi.
 
Até então, o caso mais relevante levado à CIDH contra o Brasil havia sido o da Comunidade Yanomami, em 1985. Os Yanomani denunciaram a construção de uma estrada em seu território que levou à penetração maciça de estrangeiros e à exploração mineira causadas pela omissão do Estado brasileiro em fornecer proteção adequada para a segurança e a saúde das comunidades indígenas. O caso não chegou até a Corte, mas em 1992 o Parque Yanomani foi finalmente demarcado.
 
Fonte: El País
Foto: Cimi

 
 
Homens e mulheres são seres humanos dotados de diferenças biológicas. Os povos, ao longo da história da humanidade, construíram modos de vida (culturas) que determinaram papéis específicos para machos e fêmeas/homens e mulheres. Assim foi construída a cultura do patriarcado.
 
Nesse modo de vida, a organização coletiva é baseada no poder do homem como reprodutor da espécie, provedor da família: o patriarca – o pai, os irmãos, os tios, o marido, os filhos. Este poder é justificado pela ideia de que o homem é o ser com mais força física, mais inteligência e capacidade de liderar. A mulher teria seu próprio papel: participar da reprodução da espécie com a gestação, cuidar da sua cria e da moradia que abriga a família. Por ser considerada mais frágil, dotada de menor inteligência e baixa capacidade de liderança, a mulher é destinada a cuidar e servir.
 
Resultado disso é a submissão das mulheres ao poder do homem e a repressão e controle dos seus corpos. Com isso emergem a exploração sexual, a opressão do trabalho da mulher, a discriminação das mulheres que rompem com o papel de dominação, a condenação dos homens que se solidarizam com as mulheres.
 
Esta forma cultural é assimilada nas religiões, e entre os cristãos é fundamentada pela interpretação literalista dos escritos bíblicos. Nesta compreensão, a mulher seria responsável pela existência dos males no mundo, devendo se resumir ao cuidado com o lar e estar em silêncio nos espaços públicos destinados aos homens.
 
Esta ideologia de gênero continua sendo difundida pela educação formal, pelo conjunto de leis, pelos meios de comunicação, pelas religiões. Como o poder de uma ideologia é tornar as coisas naturais, homens e mulheres a reproduzem como algo “normal” e certo. E dela vêm o silenciamento, a conformação e também a violência nas suas mais diversas formas: física, psicológica, sexual, patrimonial.
 
Nos primórdios da Igreja Cristã, à luz das ações de Jesus de Nazaré, houve um rompimento com o patriarcado e abertura ao lugar de atuação das mulheres (várias narrativas da Bíblia mostram isto). O silenciamento das mulheres no Cristianismo se dá a partir da institucionalização do movimento cristão e o lugar delas volta a ser enfatizado como reprodutoras, domésticas, cuidadoras.
 
O questionamento desta lógica nas sociedades ocidentais emergiu, marcadamente, na Revolução Francesa, por meio das noções de cidadania, igualdade, liberdade, que deflagraram processos de transformação na compreensão de família, com a inserção da dimensão da afetividade.
 
Os movimentos feministas dos séculos 19 e 20, baseados nas descobertas da psicanálise, da filosofia e da biociência, consolidaram este processo com a desnaturalização do poder do homem sobre o corpo da mulher, com a emergência do conceito de gênero para além do feminino e do masculino, pela afirmação da sexualidade como autônoma em relação à reprodução humana. Garantiu-se mais direitos civis das mulheres ao próprio corpo, ao seu destino e à participação sociopolítica.
 
Cristãs identificadas com esta visão passaram então a buscar um novo olhar sobre o movimento de Jesus de Nazaré e das mulheres da Bíblia. Buscaram ocupar seu espaço nas igrejas em papéis de liderança como pastoras, bispas e leigas. Surge a teologia feminista com uma releitura da Bíblia sob a ótica das mulheres, bem como uma nova abordagem da história da Igreja e de suas teologias.
 
No Brasil, ganham destaque teólogas evangélicas como a luterana Romi Bencke (atual secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs/CONIC), a metodista Nancy Cardoso, a batista Odja Barros, entre outras.
 
Também em nosso País, grupos como Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG), liderado por Valéria Vilhena, de tradição pentecostal, se espalham em diferentes espaços, e cada vez mais mulheres de distintas faixas etárias se descobrem como sujeitos da ação libertadora de Deus e não do seu castigo.
 
É fato que todo este avanço tem provocado reações. Elas têm como alvo os movimentos por justiça de gênero dentro e fora das igrejas, interpretados por segmentos defensores da cultura patriarcal como inimigos a serem combatidos.
 
Às mulheres que rompem com a compreensão patriarcal do seu papel social é atribuída a culpa pela “destruição da família”, porque buscam mais estudo, trabalho e atuação na sociedade, liderança de processos, controle da natalidade. Com isso, lideranças reacionárias, homens e mulheres, pregam que as “as rebeldes” retornem para dentro dos lares, que se casem e vivam para agradar maridos e filhos, e evitar as “feminazis” destruidoras de famílias.
 
Esta reação se dá porque há avanços e transformação. Mas ainda há muito o que enfrentar. Doze mulheres são assassinadas todos os dias, em média no Brasil, e 135 sofrem estupro diariamente. Em 2017, houve aumento para 29% do número de mulheres brasileiras que sofreram violência doméstica. O rendimento médio dos brasileiros em 2015, segundo o IBGE, era de 1.808 reais, mas a média masculina era mais alta (2.012 reais), e a feminina, mais baixa (1.522 reais).
 
São dados alarmantes de muita injustiça ancorada na ideologia de gênero patriarcal! A leitura das mulheres cristãs que buscam justiça de gênero é que Deus não criou o patriarcado, algo contraditório com o seu amor, pois produz silenciamento, violência e morte. Pelo contrário, o Criador ama as mulheres, sua imagem e semelhança, e compartilha com elas do desejo de “vida e vida em abundância”.
 
Fonte: Carta Capital
Imagem: Fotomovimiento

 
 
Com o tema central “Povos, Territórios e Movimentos em Resistência”, e o slogan “Resistir é criar, resistir é transformar”, o Fórum Social Mundial (FSM), que começou esta semana, em Salvador, deve ser um evento de resistência contra os retrocessos e os ataques à democracia no Brasil. Criado em 2001, em Porto Alegre, o FSM 2018 iniciou na terça (13) e vai até sábado (17).
 
Com programação vasta e diversificada, o evento tem como território principal o Campus de Ondina, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), além de outros locais da capital baiana, como o Parque do Abaeté, em Itapuã, e o Parque São Bartolomeu, no Subúrbio Ferroviário da cidade. Segundo os organizadores, são esperadas cerca de 60 mil pessoas, de 120 países, reunidas para debater e definir novas alternativas e estratégias de enfrentamento ao neoliberalismo, aos golpes e genocídios que diversos países enfrentam na atualidade.
 
Com mais de 1.500 coletivos, organizações e entidades cadastradas, e em torno de 1.300 atividades autogestionadas inscritas, o Fórum Social Mundial reúne representantes de entidades de países como Canadá, Marrocos, Finlândia, França, Alemanha, Tunísia, Guiné, Senegal, além de países sul-americanos e representações nacionais.
 
Entre as presenças confirmadas estão a dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, Fernando Lugo, do Paraguai, e José Mujica, do Uruguai. Também participarão o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, a militante indígena Sônia Guajajara, a presidente da Federação Democrática Internacional de Mulheres (FDIM), Lorena Peña, e o filósofo do Congo Godefroid Ka Mana Kangudie.
 
Participarão ainda das atividades do FSM Abdellah Saaf, ex-ministro da Educação de Marrocos; Eda Duzgun, liderança das mulheres curdas; Sara Soujar, do Movimento de Combate ao Racismo e Xenofobia do Norte de Marrocos; Mamadou Sarr, militante da Mauritânia para defesa dos negros; e Gustave Massaih, membro fundador do movimento de Maio 68, na França, entre dezenas de outras lideranças e ativistas internacionais.
 
Mulheres no FSM
 
O debate "Mulheres, Democracia e Direitos" foi uma das principais atividades do primeiro dia do Fórum Social Mundial. A contou com a participação de representantes de movimentos sociais nacionais e internacionais. Durante o evento foram discutidas as diversas formas de violência e desigualdade sofridas pelas mulheres. De acordo com os participantes do debate, o momento é de analisar e traçar estratégias para resistir e combater a retirada de direitos. 
 
Sobre o Fórum Social Mundial
 
O Fórum Social Mundial é uma iniciativa da sociedade civil organizada, nascida em Porto Alegre, em 2001, para promover o encontro democrático, plural e de resistência com o objetivo de incentivar debates, aprofundar a reflexão coletiva, troca de experiências e a constituição de coalizões e de redes entre os movimentos da sociedade civil e organizações comunitárias que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do capital. O evento é realizado a cada dois anos. Nos intervalos, fóruns temáticos descentralizados e autônomos são realizados para dar seguimento às articulações e reflexões críticas nos diferentes países e regiões. O último foi realizado no Canadá, em 2016.
 
Com informações da Rede Brasil Atual
Foto: Reprodução

 
 
 
O Conselho de Igrejas para Estudo e Reflexão (CIER) promove, nos dias 2 e 3 de abril, um Seminário para abordar a Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC), edição 2018, cujo tema é: “A mão de Deus nos une e liberta” (Cf Ex 15,1-21).
 
A atividade será realizada no Centro de Eventos Rodeio 12 (foto acima), na cidade de Rodeio (SC), e as atividades contemplarão estudo, reflexão e devocionais sobre a Semana de Oração. A ideia trabalhar a atualidade do tema e abordar como ele pode ter impactos e desdobramentos nas diferentes comunidades de fé.
 
As inscrições ficam abertas até o dia 20 de março e podem ser feitas via e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.. O pacote com hospedagem e alimentação está saindo a R$ 155,00. Para obter mais informações, ligue: (48) 98426-5058.

 
 
 
Entre os dias 13 e 20 de maio, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, CONIC, mobiliza igrejas e comunidades em todo o país para as celebrações da Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC), cujo tema é “A mão de Deus nos une e liberta”, inspirado no livro de Êxodo. 
 
Para subsidiar as celebrações da SOUC e enriquecer ainda mais a partilha entre as diferentes comunidades cristãs, o CONIC disponibiliza CADERNOS (que podem ser adquiridos ao preço de R$ 4,50) além do CARTAZ, que é gratuito e pode ser baixado em alta resolução neste link.
 
Como comprar?
 
Para adquirir os cadernos, envie um e-mail para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. indicando a quantidade. É importante que no e-mail estejam informações como CNPJ ou CPF de quem encomenda e endereço para emissão de boleto bancário. O boleto será emitido para pedidos acima de 10 cadernos. Quem desejar menos de 10 cadernos terá que realizar depósito bancário na conta:
 
Banco Bradesco
Agência: 0606-8
Conta Poupança: 112.888-4
 
Ganhe um brinde na compra acima de 10 cadernos!
 
A cada 10 cadernos comprados você ganha 1 (um) cartaz já impresso e, caso ainda precise de mais, basta indicar a quantidade de cartazes necessários que, sendo possível, o CONIC os envia.
 
O que é a SOUC?
 
Promovida mundialmente pelo Conselho Pontífice para Unidade dos Cristãos (CPUC) e pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI), a Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC) acontece em períodos diferentes nos dois hemisférios. 
 
No hemisfério norte, o período tradicional para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (SOUC) é de 18 a 25 de janeiro. Essas datas foram propostas em 1908, por Paul Watson, pois cobriam o tempo entre as festas de São Pedro e São Paulo, e tinham, portanto, um significado simbólico.
 
No hemisfério Sul, por sua vez, as Igrejas geralmente celebram a Semana de Oração no período de Pentecostes (como foi sugerido pelo movimento Fé e Ordem, em 1926), que também é um momento simbólico para a unidade da Igreja. No Brasil, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) lidera e coordena as iniciativas para a celebração da Semana em todos os estados.

 
 
Quando começou a escrever o livro que levaria seu nome, por volta do ano 687 a.C., o profeta Isaías jamais poderia imaginar que, 28 séculos depois, estaria metido em uma polêmica nas redes sociais. Segundo postagens que viralizaram nos últimos dias, o maior de todos os profetas de Israel teria predito, lá no século 7º antes da Era Cristã, a guerra civil na Síria.
 
Ou, para ser mais exato, a destruição de Damasco, a capital do país.
 
O versículo da discórdia é o primeiro do capítulo 17. "Damasco deixará de ser cidade e se transformará em um monte de ruínas", diz o profeta. Outro trecho da Bíblia, também compartilhado pelos internautas, é o versículo 24 do capítulo 49 de Jeremias. "Damasco desfalece e prepara a fuga. O medo se apodera dela. Está possuída de angústia e dores, como a mulher que está dando à luz."
 
Será que, passado tanto tempo, os oráculos de Isaías e Jeremias finalmente se cumpriram? Ou, ao contrário, o uso dos textos da escritura não passam de ignorância ou mesmo má-fé para justificar, com base na religião, o conflito?
 
"Quando digo que a responsabilidade pela guerra na Síria é da profecia de Isaías, isento de culpa quem está por trás daquele genocídio", raciocina o teólogo Frei Isidoro Mazzorolo, professor do Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. "É como se dissesse: não há nada que eu possa fazer para mudar aquela catástrofe porque ela é da vontade de Deus."
 
O reverendo Arthur Nascimento, da Paróquia da Santíssima Trindade, da Diocese Anglicana de São Paulo, faz coro: "Não podemos jogar nos ombros de Deus uma responsabilidade que é nossa. Cabe a nós, comunidade internacional, encontrar uma solução para a guerra civil na Síria".
 
Além disso, ele diz que é preciso cuidado ao interpretar textos sagrados: "A Bíblia foi escrita dentro de um contexto histórico. Recorrer a textos bíblicos fora de seus contextos originais pode ser altamente perigoso". Quando isso acontece, explica Nascimento, tudo - de intolerância racial à discriminação contra LGBTs - pode ser justificado pelos textos sagrados.
 
O papel do profeta
 
Doutorando em História pela Universidade de Campinas (Unicamp), Jefferson Ramalho pondera que, ao contrário do que se imagina, profeta não é aquele que prevê ou adivinha o futuro, e sim quem denuncia o presente.
 
Já naquela época, Isaías tinha muito a denunciar: corrupção política, desigualdade socioeconômica, exploração do trabalho... "O texto de Isaías se refere à queda de Damasco, ocorrida no ano 732 a.C.", diz o historiador.
 
Na época, Efraim (Reino de Israel) e Damasco (Reino de Aram) se uniram para lutar contra a Assíria. No capítulo 17, em vez de suspostamente predizer a queda da Síria no século 21, o profeta Isaías anuncia a derrota da coalizão e lamenta a destruição de Damasco. Dez anos depois, o exército assírio conquistou Samaria, a capital de Israel.
 
"Atrelar a atual guerra na Síria à profecia de Isaías é oportunismo religioso", critica o reverendo Egon Kopereck, presidente da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB). "Essa interpretação provém de fundamentalistas religiosos que querem causar alvoroço dentro do povo cristão."
 
Boatos sobre genocídios
 
Rumores que associam confrontos militares a profecias bíblicas não são novidade no mundo virtual. De tempos em tempos, surge um novo boato atribuindo atos de genocídio ao cumprimento de oráculos. Uma versão em inglês dessa profecia de Isaías que se espalhou agora pelo Brasil já havia corrido a Europa em 2013.
 
Outro exemplo disso é o versículo 28 do capítulo 23 do Evangelho de Lucas.
 
Nele, Jesus diz: "Mulheres de Jerusalém, não chorem por mim! Chorem por vocês mesmas e por seus filhos!". E continua: "Felizes das mulheres que nunca tiveram filhos, dos ventres que nunca deram à luz e dos seios que nunca amamentaram!". Já houve quem interpretasse esse trecho do Novo Testamento como uma profecia do Holocausto nazista, que dizimou 6 milhões de judeus durante a Segunda Guerra.
 
Secretária-Geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), a pastora Romi Márcia Bencke reage com indignação às correntes de profecias relacionadas à Guerra na Síria: "Atribuir a Jesus a profecia pela morte dos judeus é uma afronta ao Evangelho. Jesus jamais expressou o desejo de morte de pessoas, ainda mais de um grupo. As críticas que Jesus fazia a Jerusalém tem relação com o Templo, um lugar não só religioso, mas também político e econômico", contextualiza.
 
E hoje, o que fazer diante da guerra civil que, desde 2011, já matou 470 mil pessoas e expulsou outras 5 milhões de suas casas? "Mais do que simplesmente fazer uma leitura religiosa e um tanto quanto fantasiosa e anacrônica da Bíblia, devemos denunciar a crueldade e a violência dos que hoje estão matando de maneira discriminada o povo sírio", opina o historiador.
 
Fonte: BBC Brasil
Foto: Reprodução / GETTY IMAGES
Obs.: o título foi adaptado