Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) apresentou recentemente, em Roma, o documento “Perseguidos e esquecidos – Relatório sobre os cristãos oprimidos por causa da fé entre 2015 e 2017”, que revela aumento da perseguição religiosa nos últimos anos.
 
Entre agosto de 2015 e julho de 2017, os cristãos continuaram sendo vítimas do fundamentalismo, do nacionalismo religioso e dos regimes totalitários.
 
O estudo examina profundamente a realidade de países nos quais a falta de liberdade religiosa dos cristãos é mais intensa. Os países analisados foram o Iraque, a Síria, o Egito, a Nigéria, a Índia, o Paquistão, a China, a Coreia do Norte, a Eritreia, a Turquia, a Arábia Saudita, o Irã e o Sudão.
 
O relatório anterior (2013-2015) já tinha registrado uma piora na situação, mas este novo documento aponta que a violência contra os cristãos aumentou mais ainda.
 
“Entre 2015 e 2017, os cristãos sofreram crimes contra a humanidade: alguns foram enforcados ou crucificados, algumas mulheres violentadas e sequestradas e outras desapareceram para sempre”.
 
Casos gravíssimos: Arábia Saudita e Coreia do Norte
 
Na abordagem por países, o relatório afirma que, na Arábia Saudita e na Coreia do Norte, “a situação é tão dramática que não é possível piorar”. A Coreia do Norte é o país onde ocorre hoje “a perseguição mais perversa e as crueldades mais indescritíveis contra os cristãos, incluindo a negação de comida e o aborto forçado. Também foram registrados casos de fiéis amarrados a cruzes e queimados vivos, assim como outros esmagados por compressores a vapor”.
 
Oriente Médio: genocídio
 
No Oriente Médio, o êxodo forçado de cristãos iraquianos é tão grave que “uma das comunidades cristãs mais antigas do mundo corre o risco de desaparecer dentro de três anos se a situação trágica atual não melhorar”.
 
Esse êxodo de cristãos também afeta a Síria, especialmente a cidade de Alepo, que antes abrigava a maior comunidade cristã de todo o Oriente Médio.
 
O relatório denuncia: “O Estado Islâmico e outros grupos armados islamistas cometeram genocídio contra os cristãos na Síria e no Iraque (…) No Oriente Médio, os governos ocidentais e as Nações Unidas não conseguiram oferecer ajuda de emergência enquanto ocorria o genocídio”.
 
Em paralelo, o documento agradece pelo trabalho das organizações e instituições cristãs, sem o qual “não se conseguiriam cobrir essas necessidades e a presença cristã teria desaparecido totalmente no Iraque e em países próximos”.
 
Índia e China: intolerância até por parte do governo
 
Os últimos dois anos na Índia também foram piores para os cristãos, que sofreram maior número de ações violentas e repressões instigadas pelo nacionalismo religioso. Os ataques vêm aumentando desde 2014, quando o partido conservador nacionalista hindu chegou ao poder.
 
Por sua vez, o presidente da China descreveu o cristianismo como “uma infiltração estrangeira” e aumentou a hostilidade contra as comunidades cristãs, acusadas de resistirem ao governo. A China removeu uma infinidade de cruzes e destruiu edifícios religiosos cristãos. Autoridades locais chegaram a proibir, em algumas áreas, até mesmo as árvores de Natal e os cartões com motivos cristãos.
 
África: perseguição e mais genocídio
 
No Egito, os cristãos também estão em situação pior que há dois anos. O relatório da Ajuda à Igreja que Sofre recorda, por exemplo, o atentado ocorrido em dezembro de 2016 no Cairo, onde ao menos 29 pessoas foram mortas e mais de 50 ficaram feridas. Apenas quatro meses depois, no Domingo de Ramos deste ano, outros atentados em igrejas de Alexandria e Tanta mataram mais 44 pessoas e feriram outras 120. No mês de maio, 28 peregrinos morreram num ataque perpetrado por extremistas. Os três atentados foram reivindicados pelo Estado Islâmico.
 
O relatório destaca ainda a ação do grupo terrorista islamista Boko Haram, afiliado ao Estado Islâmico: eles também vêm cometendo “um genocídio contra os cristãos do norte da Nigéria”. Na Vigília de Páscoa deste ano, pastores da etnia fulani invadiram uma igreja católica nigeriana e mataram 12 cristãos, em um dos vários casos registrados de violência brutal.
 
Em países como o Sudão, a ameaça islâmica vem principalmente do próprio Estado, acusado por observadores internacionais de gerar uma espiral de violência contra a liberdade religiosa, diz o relatório. Entre 2015 e 2017, o presidente sudanês Omar al-Bashir seguiu uma agenda islâmica intensamente hostil aos cristãos, incluindo, por exemplo, a demolição de uma igreja por mês e a prisão de cristãos por acusações como “proselitismo” ou, no caso das mulheres, “vestir-se de maneira obscena ou pouco modesta”. O governo do Sudão provocou um êxodo massivo de cristãos, obrigados a retornar às suas regiões de origem no Sudão do Sul.
 
Na Eritreia, o relatório menciona que, em junho de 2017, 33 mulheres cristãs foram encarceradas no presídio de Nakura, conhecido pelas torturas. Elas foram presas porque participaram de um encontro de oração organizado por Igrejas consideradas “ilegais” por parte do Estado. Uma fonte da Ajuda à Igreja que Sofre afirma que, na Eritreia, “a opressão contra os cristãos não conhece qualquer piedade”.
 
Relatório completo
 
O relatório completo, em italiano, pode ser consultado AQUI.
 
Fonte: Aleteia com ACI Digital
Foto: Christophe Simon/AFP

 
 
No dia 2 de novembro foi realizada a abertura da Assembleia Nacional do CEBI, na cidade de Brasília, DF. Reunindo 50 pessoas de 26 estados do Brasil, o tema que motivou o encontro foi o texto bíblico “não nos conformemos ao esquema deste mundo, mas…” (Rm 12.1-2).
 
Com o intuito de transformar a realidade de opressão, violência e ódio que os movimentos sociais enfrentam no país, a assembleia se deu com o intuito de instigar o povo do CEBI a perseverar na Leitura Popular da Bíblia e na caminhada de resistência política e social.
 
“Que bom que você veio”
 
A celebração inicial foi um momento de reencontro entre os e as integrantes dos estados. O canto trazia a mensagem: “que bom que você veio”. E foi assim que o dia começou nas instalações das Pontifícias Obras Missionárias (POM). Entre os abraços de boas vindas e as intenções de fraternidade, foi iniciada a vigésima primeira Assembleia Nacional.
 
Para início de conversa houve as apresentações das pessoas presentes, momento no qual foram conhecidos os rostos do CEBI nas regiões. As pessoas que atuam na base. Foram elas que montaram de forma colaborativa o mapa do Brasil, apresentando as situações dos estados. Como um grande panorama das diferentes realidades brasileiras, os/as participantes tiveram a oportunidade de tomar conhecimento, através das experiências trazidas pelos/as colegas, das situações de perda de direitos e de retrocesso vividas no país.
 
Logo após a montagem do mapa das regiões com as perspectivas a serem superadas, vieram as realizações do CEBI nos estados que fizeram a diferença na caminhada de resistência aos golpes diários contra os direitos humanos. Várias atividades trazidas pelo grupo foram motivo de esperança, pois cada um e cada uma pode ver que a mobilização segue acontecendo nas bases e nos grupos de leitura bíblica.
 
Reflexão do texto motivador
 
Seguindo a programação, Martha Bispo, Diretora Nacional do CEBI, compartilhou sua experiência como leitora, trazendo a lembrança sobre o Livro dos Abraços de Eduardo Galeano onde, em um dos poemas apresentados, o autor fala sobre “o papel do leitor”:  a forma como se apropria dos textos que lê, se mistura com o modo de viver da pessoa. Aquilo que ficou marcado na leitura faz-se texto vivo e transformador. A partir dessa imagem, Martha evocou o texto motivador da Assembleia, escrito por Clay Peixoto e Tea Frigerio: “depois de todas as leituras que fizemos nas assembleias regionais e nos grupos, esse texto não é mais só do Clay nem só da Tea, o texto é nosso, o texto é meu”.
 
E assim, acompanhada do Conselho Nacional, a diretora fez a leitura do texto motivador para todos/as presentes, e finalizou: “essa assembleia é um marco de revisão de nossa forma, para sermos sempre mais”.
 
Momento da Reforma
 
Clay Peixoto fez a lembrança da passagem dos 500 anos da Reforma Protestante, que foi comemorado dois dias antes da assembleia, no dia 30 de outubro. O Salmo 46, “Deus é forte e bom”, foi entoado com alegria. Conhecida como Castelo Forte, a canção foi escrita por Martinho Lutero.
 
Luiz Dietrich, de Santa Catarina, aproveitou o momento para lembrar que precisamos fortalecer os diálogos entre as denominações religiosas, pois “nas coisas ruins nós somos muito ecumênicos”, já para as questões da resistência, o povo se segmenta. Para exemplificar, ele citou a união da bancada da bíblia em projetos conservadores como o veto da cartilha sobre gênero e sexualidade nas escolas públicas, e também a votação sobre o ensino religioso na educação (que na realidade desvirtua uma leitura diversa e popular da bíblia, priorizando a versão conservadora e colonizadora da vida).
 
Pensar política para viver com fé
 
Daniel Seidel foi convidado para colaborar com as reflexões do primeiro dia do encontro. Daniel é educador popular, membro da Comissão Justiça e Paz da CNBB e Coordenador do grupo Vida e Juventude, que realiza projetos sociais com grupos de jovens da periferia.
 
Apresentando um cenário dos esquemas vigentes no campo sociopolítico do país, o assessor frisou: “vivemos num estado de exceção, vivemos uma ditadura”. E essa ditadura pós-democrática, segundo Daniel, é mais traiçoeira que aquela imposta durante o regime militar pois “é a ditadura dos juízes”, aquela que com aparência de legalidade impõe violência e ódio às minorias (mulheres, juventude, negros e negras, povos originários e quilombolas, moradores em situação de rua, pessoas do campo, etc.).
 
Rafael, representante do CEBI de Alagoas, trouxe uma fala importante para o contexto em questão: “A leitura da bíblia (nesse momento político) tem um papel muito importante que é a retomada da luta dos povos”.
 
Sobre essa relação da bíblia com a realidade, Ulisses, representante da Paraíba, destacou a importância de estar presente na vida do povo: “a gente precisa estar com, a gente precisa conhecer, tocar”. Também lembrou que a proposta do Bem Viver faz cair por terra a cultura do desenvolvimento, “e dá lugar ao envolvimento”, destacou Ulisses, que partilhou suas experiências transformadoras no trabalho com jovens.
 
Daniel encerrou o encontro destacando a importância de nos conectarmos, e de fortalecermos a esperança, pois é assim que a leitura bíblica tem sentido: através da mobilização e do engajamento popular.
 
Eleita a nova direção nacional do Centro de Estudos Bíblicos
 
Na manhã deste sábado, dia 4 de novembro, foi eleita em plenária a nova direção nacional do CEBI, além dos/as representantes estaduais e suplentes, e conselho fiscal. A votação contou com 41 pessoas somando representantes dos estados e sócios. Ficou decidido pela maioria dos votos dos/as presentes, o seguinte quadro de direção:
 
Diretor Nacional:
 
Rafael Rodrigues da Silva de Maceió, AL
 
Diretoras Adjuntas:
 
Lucia Dal Pont Sirtoli de Londrina, PR
Maria de Fátima Castelan de Vitória, ES
 
Clique aqui e confira todos os componentes da nova direção nacional.
 
Nota pública da Assembleia Nacional do CEBI
 
Não nos conformemos ao esquema deste mundo, mas… (Romanos 12,2)
 
O CEBI – Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, em sua 21ª Assembleia Nacional, realizada em Brasília, entre os dias 02 e 04 de novembro, reunindo mulheres e homens de 26 estados do Brasil, vem a público denunciar o desmonte do Estado Brasileiro com aparência de democracia e legitimado pela maioria dos juízes do STF.
 
As conquistas alcançadas a duras penas na defesa dos direitos sociais e políticos a partir da Constituição de 1988, vêm sendo sistematicamente desmontadas em favor de quem detém o capital e em detrimento da grande maioria do povo brasileiro. Vemos isso acontecendo com várias políticas sociais, tais como o congelamento dos investimentos em saúde e educação por vinte anos, o desmonte dos direitos trabalhistas e da Seguridade Social, o desmanche das políticas sociais, culturais, de gênero, dos povos originários, entre outros direitos. Além disso, estão sendo vendidas as riquezas do subsolo brasileiro, as terras de nosso povo e o patrimônio público, tendo em vista o Estado mínimo a serviço dos interesses do mercado.
 
Denunciamos também o uso fundamentalista da Bíblia e do nome de Deus para legitimar retrocessos nos direitos à diversidade de gênero e étnica. Reafirmamos nosso compromisso com o Estado laico a serviço da cidadania de todo o povo brasileiro.
 
Fiéis à vocação do CEBI, seguiremos na luta profética para que o direito brote como fonte e a justiça como um riacho que não seca (Amós 5,24).
 
Brasília, 04 de novembro de 2017.
Membros da 21ª Assembleia Nacional do CEBI.
 
Fonte: CEBI
Foto: CEBI

 
 
O Brasil está entre os cinco países sem conflito armado que têm as piores taxas em homicídio de adolescentes e crianças do sexo masculino com idade entre 10 e 19 anos. Em 2015, foram 59 mortes para 100 mil pessoas nessa faixa etária. O índice também é alto em Venezuela (97), Colômbia (71), El Salvador (66) e Honduras (65).
 
Os dados são do relatório “Um Rosto Familiar: A violência nas vidas de crianças e adolescentes”, lançado na última quarta-feira (1º) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), ligado à ONU. O estudo usou dados da Organização Mundial da Saúde e do Ministério da Saúde.
 
A taxa de homicídio nesses países não está distante dos números apresentados por países que têm conflito armado. No Afeganistão, por exemplo, a mortalidade por violência coletiva é de 49 para 100 mil pessoas de 10 a 19 anos. No Sudão do Sul, esse índice é de 29.
 
O estudo do Unicef ainda apresentou dados sobre a raça/cor das vítimas de homicídio no Brasil. Segundo os números de 2014, 75% dos mortos eram negros ou multirraciais. 18%, brancos. 7% das vítimas não haviam raça/cor declarada.
 
Fonte: G1

 
 
O caminho ecumênico trilhado juntos nos últimos cinquenta anos – apoiado pela oração comum, pelo culto divino e pelo diálogo ecumênico – levou “à superação de preconceitos, à intensificação da compreensão recíproca” e à assinatura “de acordos teológicos decisivos”.
 
É o que diz o comunicado conjunto da Federação Luterana Mundial (FLM) e do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização divulgado no último 31 de outubro, data que concluiu o ano de celebrações ecumênicas dos 500 anos da Reforma Protestante.
 
De fato, os eventos tiveram início em 31 de outubro de 2016 com a oração luterano-católica na Catedral de Lund, na Suécia (foto acima), ocasião em que o papa Francisco e o então presidente da FLM, Bispo Munib A. Younan, assinaram uma Declaração Conjunta, onde se comprometiam a prosseguir juntos o caminho ecumênico rumo à unidade pela qual Cristo rezou (João 17,21).
 
No texto, é reconhecida a “comum responsabilidade pastoral de responder à sede e à fome espiritual de nosso povo de sermos “um” em Cristo. Desejamos ardentemente que esta ferida no corpo de Cristo seja curada. Este é o objetivo dos nossos esforços ecumênicos, que queremos fazer progredir, também renovando o nosso compromisso pelo diálogo teológico”.
 
A declaração ressalta, outrossim, que “pela primeira vez, luteranos e católicos viram a Reforma de uma perspectiva ecumênica”, “o que tornou possível uma nova compreensão daqueles eventos do século XVIque levaram à nossa separação”.
 
“Se é verdade que o passado não pode ser mudado, é também verdade que o seu impacto atual sobre nós pode ser transformado em modo que se torne um impulso para o crescimento da comunhão e um sinal de esperança para o mundo: a esperança de superar divisões e fragmentações”.
 
O que emergiu mais uma vez com clareza, é “que aquilo que nos une é bem superior ao que nos divide”.
 
Um passo decisivo no caminho rumo à unidade, foi a assinatura da Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação em 1999, gesto repetido pelo Conselho Metodista Mundial em 2006 e pela Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas durante este ano das celebrações dos 500 anos da Reforma.
 
E no último 31 de outubro de 2017, a mesma Declaração foi acolhida pela Comunhão Anglicana no decorrer de uma Solene cerimônia na Abadia de Westminster.
 
“Sobre esta base, as nossas comunidades cristãs podem construir sempre mais estreita ligação de consenso espiritual e de testemunho comum a serviço do Evangelho”.
 
São destacadas no documento, ademais, as inúmeras iniciativas de oração comum e de culto divino entre luteranos e católicos e demais parceiros ecumênicos em várias partes do mundo, assim como os encontros teológicos e as importantes publicações que ofereceram subsídios para este ano de celebrações.
 
A Declaração concluiu reafirmando o compromisso de avançar neste “caminho comum, guiados pelo Espírito Santo, rumo a uma crescente unidade”, buscando discernir a “interpretação de Igreja, Eucaristia e Ministério, esforçando-nos para chegar a um consenso substancial com o objetivo de superar as diferenças que são até hoje fonte de divisão entre nós”. 
 
Por Rádio Vaticano

 
 
A Reforma Protestante tem em Martinho Lutero uma das suas expressões centrais. A venda das indulgências foi o assunto que motivou a escritura das 95 teses que foram afixadas à porta da Igreja do Castelo de Wittenberg naquele 31 de outubro de 1517.
 
Lutero debatia-se à busca de um Deus justo e não podia aceitar uma prática que pusesse à venda o perdão e a salvação. A justificação, o perdão dos pecados e a salvação eram frutos exclusivos da graça de Deus, eram dados de forma gratuita a todas as pessoas, por meio da fé.
 
Esta foi a descoberta que libertou Lutero. Ele entendeu que a relação de Deus com as pessoas não passa por critérios econômicos, e os dons de Deus para o povo não são vendáveis; são gratuitos.
 
"Livres pela Graça: a salvação não está à venda, a criação não está à venda, os seres humanos não estão à venda"
 
A Federação Luterana Mundial escolheu o tema acima para as celebrações dos 500 anos da Reforma. Com este tema, a Federação atualiza os princípios reformadores ao colocar no centro das reflexões e dos debates, a realidade de um mundo dominado pelo mercado financeiro e econômico; um mundo no qual tudo é transformado em mercadoria.
 
Diante da agressividade do sistema neoliberal que, para implementar os seus interesses, derruba governos democraticamente eleitos, cria guerras, desconstrói o Estado Democrático de Direito e transforma em mercadoria todos os recursos naturais colocando-os no balcão dos negócios privatistas, a Federação Luterana Mundial afirma: não está à venda! A salvação, a criação e os seres humanos não estão à venda!
 
A Teologia da Prosperidade, que afirma que quanto mais a pessoa dá (dinheiro para a Igreja) mais é abençoada, é uma teologia capitalista que contraria a noção de gratuidade que se expressa tanto no texto bíblico como nos princípios fundamentais da Reforma.
 
O discurso da meritocracia também agride a noção de gratuidade. Tudo o que há neste mundo, nesta vida, provém da graça de Deus; nós não somos merecedores de nada, somos apenas acolhedores do amor que nos é dado de graça, de maneira livre. A meritocracia é um conceito desenvolvido para legitimar a desigualdade e a posição dos ganhadores, afirma o economista francês Piketty (PIKETTY, 2014:475).
 
Gratuidade é a lógica de Deus. E é nessa lógica que a Reforma nos desafia a viver. Afinal, somos livres pela Graça! E afirmamos que a salvação não está à venda, a criação não está à venda, os seres humanos não estão à venda.

Lusmarina Campos Garcia é pastora da
Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB)

 
 
Uma mulher foi assassinada a cada duas horas em 2016 no Brasil, segundo levantamento feito pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgado no dia 30 de ourubro. No ano passado, o Brasil atingiu o recorde de assassinatos: 61.619.
 
Em números absolutos, 4.657 mulheres perderam a vida no país. Apesar disso, apenas 533 casos foram classificados como feminicídios mesmo após lei de 2015 obrigar registrar mortes de mulheres dentro de suas casas, com violência doméstica e por motivação de gênero.
 
“Temos que ter uma rede ampla de atendimento para a mulher. Esse é um dos motivos para a subnotificação tão grande de feminicídios. O crime é o desfecho fatal de uma série de violências”, diz Olaya Hanashiro, consultora-sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
 
Para a diretora-executiva da entidade, Samira Bueno, a presença de mulheres nas polícias é muito baixa, o que também prejudica o número de registros. “Não faz sentido ter uma corporação com 90% de homens e 10% de mulheres”, diz.
 
O presidente da Associação Nacional dos Praças (Anaspra) e integrante do Fórum, Elisandro Lotin, completa dizendo que as poucas policiais ainda sofrem assédio sexual e moral nas instituições.
 
O Mato Grosso do Sul é o estado com maior taxa de mortes de mulheres do país: 7,6 por 100 mil habitantes - 102 mulheres foram assassinadas no estado no ano passado, aumento de 22,9% se comparado ao ano anterior.
 
O Pará é o segundo estado com maior morte de mulheres proporcionalmente, com taxa de 6,8 por 100 mil habitantes, seguido pelo Amapá.
 
Estupros
 
O número de estupros cresceu 3,5% no país e chegou a 49.497 ocorrências em 2016. A taxa por 100 mil habitantes é de 24.
 
Mato Grosso do Sul também é o estado com maior taxa de estupros: 54,4 por 100 mil habitantes, com 1.458 crimes. Na sequência, estão Amapá, com taxa de 49,2 estupros e Mato Grosso, com 48,8.
 
De acordo com Daniel Cerqueira, diretor de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia do Ipea e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a estimativa de órgãos de saúde é de que cerca de 500 mil mulheres são estupradas no país por ano.
 
"São casos que não chegam à delegacia. Quando vemos a baráarie desses números é porque boa parte do que acontece ninguém vê. Violência doméstica e estupro são tabu no Brasil.
 
"É uma grande tragédia porque a sociedade é vitimada. A linguagem da violência se dissemina da casa para rua. Pensar em políticas que se fala no gênero nas escolas é fundamental. Ainda estamos na ideia de que só colocar polícia na rua resolve as coisas", completa.
 
No total, há 443 delegacias especializadas de atendimento à mulher. A taxa é de 0,4 delegacias por 100 mil mulheres. O Tocantins, com 13 delegacias, é o estado com melhor média de delegacias para cada mulher: 1,7 por 100 mil mulheres.
 
Lei Maria da Penha
 
Um projeto de lei aprovado no Congresso aprovado no último dia 10 altera a Lei Maria da Penha. A secretária de Direitos Humanos da Presidência da República, Flávia Piovesan, afirmou que vai recomendar ao presidente Michel Temer o veto. O parecer pelo veto atende a pedidos de entidades de direitos humanos e ligadas ao Judiciário.
 
Se sancionada por Temer, a mudança vai permitir que delegados concedam medidas protetivas de urgência a vítimas de violência doméstica. Atualmente, apenas os juízes podem determinar o afastamento do agressor do lar ou do local de convivência com a vítima. Segundo entidades, a mudança tornaria a lei inconstitucional.
 
Em entrevista concedida ao G1, Flávia Piovesan afirma que a mudança representa um "retrocesso aos direitos das mulheres". Segundo a secretária, o papel de concessão "cabe ao [Poder] Judiciário", e a Polícia Civil "não tem estrutura adequada para assumir essa tarefa".
 
Fonte: G1
Imagem: Reprodução

 
 
A Comunidade do Redentor, ligada à Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), acolheu no dia 21 de outubro de 2017 o Encontro de Oração e Música. Promovido pelo Movimento Ecumênico de Curitiba (MOVEC) e pela Escola de Educação e Humanidades da PUCPR, contando com apoio de outras comunidades e organizações religiosas e acadêmicas, o evento reuniu cristãos e cristãs de diferentes confissões para um momento de oração inspirado na mística da Comunidade Ecumênica de Taizé.  
 
Com a participação do Coral do Santuário Santa Rita de Cássia e do Coral do Bem, músicos e musicistas das igrejas presbiteriana, luterana e católica, juntamente com outros convidados, o Encontro de Oração e Música foi um deleite de beleza e espiritualidade. O repertório ecumênico de Taizé é amplamente utilizado pelas igrejas cristãs no Brasil, mas rara vez ele serve para o que ele foi pensado: a comunhão de cristãos/ãs de diferentes denominações por meio da oração cantada. Esse detalhe, acompanhado das melodiosas partes instrumentais escritas pela mesma Comunidade Taizé para flautas doces, flauta transversal, clarinete, violão e órgão, foram o grande diferencial da experiência do Encontro. A dimensão estética e a espiritual se aproximam numa única expressão de fé. 
 
A proposta orante de Taizé é muito simples e profunda.  A experiência acontece através dos cantos curtos e repetitivos, uma das expressões essenciais da busca por Deus, que leva a meditação. Esse movimento prolonga a oração, mesmo depois desse momento intensivo, ligando a vida cotidiana e a oração, ou seja, o coração daqueles/as que oram ao coração de Deus. Assim, a oração cala, o silêncio se estabelece, pois, uma comunhão tranquila com Deus pode abster-se de palavras: como uma criança que parou de gritar quando encontrou o colo da mãe.  Nesse momento saboreia-se o amor de Deus através dos cantos, do silêncio e da Palavra para deixar-se encontrar por Ele e, então, perceber onde está o nosso coração! Como definiu Ignácio Dotto Neto, católico presente no encontro: “nos aproximamos de Deus através da música e do silêncio. Cantando, nos silenciamos e, nos momentos de silêncio, nosso silêncio acolhe Deus”.
 
Para a jovem Miriam Olívia, a mística de Taizé representou a valorização da espiritualidade para além da religião: “ao mesmo tempo que ela projeta todos ali a uma reflexão do ser e do viver para além do indivíduo, ela se volta a realidade do palpável: ao ser e viver dentro de si, e a relação entre o ser e a natureza”, infere. Carmen Regina Duarte, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), descreve que o encontro traduziu “uma harmonia musical que transcendeu nosso tempo, nosso espaço, nossa cultura, nossas preocupações, nossas diferenças e permitiu sentir o divino encarnado”, emoção essa que não se explica, somente se vivência.
 
A leveza, revigoramento espiritual e sentido de comunhão vividos no encontro reafirmam a importância de que as iniciativas de diálogo não descurem da espiritualidade. Ela é o elã vital capaz de curar a memória ferida, refazer e ressignificar vínculos, despertar e fortalecer a convicção ecumênica das pessoas e das igrejas. Identificando-o como um evento marcante para o ecumenismo curitibano, a organista Carolina Dias, da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), transmite essa sensibilidade quando afirma que “Deus se fez presente no nosso meio enquanto cantávamos e orávamos. A minha oração foi para que essa unidade seja uma constante na vida dos cristãos”. Danni Distler, ministro de louvor e artes da comunidade anfitriã, identificou três razões que tornaram o encontro de ecumênico de Oração e Música um momento significativo: “primeiro por ser uma proposta de encontro entre pessoas que expressam sua fé de formas diferentes, mas, ainda assim a mesma fé no Deus Criador da Bíblia. Em segundo lugar porque mesclou oração e música numa mesma proposta contemplativa; ambas esferas se complementam perfeitamente quando se trata de louvor e adoração. E, em terceiro lugar, o ambiente foi propício para uma pausa em meio a um mundo veloz, apenas para lembrarmos que temos um Senhor que merece nossa reverência”. 
 
 
 
Sobre a Comunidade de Taizé
 
Taizé é uma comunidade ecumênica que surgiu em 1940. Um jovem suíço de 25 anos, Roger, chegou a região francesa próxima a Lyon para ajudar os refugiados da guerra. Ele se dedicou a cuidar das pessoas enquanto outros jovens foram chegando para ajudá-lo.  Depois da guerra ajudaram as crianças que ficaram órfãs. Aos domingos, recebiam também, os prisioneiros de guerra alemães que ficavam em um campo próximo. Assim se iniciou a comunidade que se instalou ali mesmo, em uma colina chamada Taizé. Atualmente, a Comunidade agrega em torno de cem irmãos católicos e de diversas origens evangélicas que, além da França, possuem comunidades em outros países. A comunidade brasileira foi estabelecida em 1966, primeiramente em Olinda tendo em vista os laços de amizade e colaboração entre Irmão Roger e Dom Hélder Câmara. Após a transferência para Vitória/ES em 1972, os Irmãos se dirigiram para Alagoinhas/BA, onde permanecem atualmente.
 
Todos os anos, milhares de jovens de diversas partes do mundo chegam a Taizé para viver uma experiência de encontro e oração. Estes/as jovens realizam trabalhos na comunidade, participam de formação, de partilhas e dos fóruns dos países. As Jornadas da Confiança, realizadas periodicamente em diferentes países são, igualmente, uma expressão singular do potencial de diálogo que a Comunidade estabelece com as juventudes.  A simplicidade e a sobriedade são elementos que se sobressaem do carisma de Taizé, o que transparece tanto no método de oração – que em nada perde de profundidade – quanto nas instalações, provisão e uso dos recursos para a manutenção da comunidade. Em um mundo de tantos desencontros, Taizé é, por si mesma, um sinal profético e propositivo da urgência do diálogo e da unidade, que residem no coração de Deus, no impulso renovador do Espírito e na oração do Senhor “para que todos sejam um” (Jo 17.21).
 
Fonte: Equipe Organizadora
Com informações de: http://www.taize.fr/pt 
Créditos das Fotos: Paolla Braga
 

 
 
Na última sexta-feira (27), representantes de diversas entidades, incluindo o CONIC, se reuniram no ato unificado “Democracia, soberania e desenvolvimento”, que aconteceu no Salão Nobre do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), no Largo São Francisco, no Rio de Janeiro. 
 
A manifestação foi construída por movimentos sociais, organizações políticas, artistas, intelectuais como um esforço de debater uma unidade de ação diante da atual situação do país.
 
O auditório ficou lotado para escutar os discursos. Nele, estavam reunidos nomes como o ex-ministro Celso Amorim, o senador Lindbergh Farias (PT), Vitor Guimarães, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Pedro Celestino, presidente do Clube de Engenharia, a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB), e a pastora luterana Lusmarina Campos Garcia, representando o CONIC.
 
Estiveram ainda presentes, o desembargador Lédio Roda de Andrade, o sociólogo Edson Santos, Nalu Faria, da Marcha Mundial das Mulheres, Leda Paulani, da Escola de Economia da Universidade de São Paulo, Marianna Dias, presidente da União Nacional de Estudantes (UNE), o músico Pereira da Costa e o ator Chico Dias. 
 
O ex-ministro Celso Amorim destacou, em sua fala, a diversidade dos que estavam reunidos no auditório. “Aqui está representado o Brasil em toda a sua multiplicidade. É muito importante estarmos aqui para discutir esse momento crítico que o país está vivendo. Momento em que o trabalho escravo é legalizado. Isso revela uma faceta de um lado tenebroso que nunca vivemos no país”, alertou.
 
A deputada federal Jandira Feghali alertou que “é capaz de se articularem para não termos eleições em 2018. Temos que lutar contra isso e a luta não se faz nas diferenças. Vamos parar de nos dividir. O que está em jogo é o nosso país e a vida das pessoas. Temos que nos levantar”, discursou a deputada em meio a muitos aplausos.
 
Para Nalu Faria, da Marcha Mundial das Mulheres, que representou no ato a Frente Brasil Popular, a importância da manifestação está justamente expressa na união.
 
“A luta nos faz nos reencontrar mais uma vez e temos que ocupar espaços como esse de hoje. Essa conexão nos faz estabelecer nossa resistência”, complementou.
 
Vitor Guimarães, do MTST, representando a Frente Povo sem Medo, destacou que o ato é uma das tentativas de diálogo para construir tentativas de resistência para o Brasil. “O debate aberto é um recado claro de que estamos alertas aos ataques e que estamos juntos nesse diálogo para construir a melhor saída”, reforçou.
 
Entre as diversas entidades que organizaram o evento, estavam a Frente Brasil Popular, a Frente Povo Sem Medo, o Projeto Nação Brasil, a Frente Parlamentar Mista pela Soberania Nacional, o Clube de Engenharia, a Comissão Brasileira de Justiça e Paz, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), Juristas pela Democracia, a Frente Evangélica pelo Estado de Direito e a Frente Parlamentar Mista em defesa da Engenharia. 
 
A seguir, confira a íntegra do discurso da pastora Lusmarina:
 
"O universo religioso brasileiro é muito complexo. Eu falo em nome das Igrejas que não compactuaram com o Golpe de 2016 e os sucessivos golpes que têm se abatido sobre o povo brasileiro por meio das ações ilegítimas de um governo imposto pelo capital financeiro e empresarial, cujo objetivo é executar a vontade de uma classe capitalista nacional e transnacional que resolveu, a partir de 2008, redesenhar globalmente os sistemas político-econômico e jurídico dos países a fim de assegurar os seus interesses e transformar as estruturas fundamentais construídas nas sociedades do pós-guerra, tais como o Estado Democrático de Direito, a paz, a liberdade, os direitos humanos, o pluralismo e a tolerância; todos estes valores se tornaram dispensáveis nesse novo desenho.
 
O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil se pronuncia contrário à ruptura democrática que teve lugar por meio do Impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, ao sucateamento do Brasil através das privatizações, à retirada de direitos – da classe trabalhadora, dos grupos minoritários, das mulheres, da comunidade LGBT, dos indígenas, das comunidades quilombolas; se pronuncia contrário à Reforma da Previdência, à Escola Sem Partido, à distorção do debate de gênero através dessa nomenclatura chamada Ideologia de Gênero. Ideologia de Gênero é o disfarce construído por homens misóginos, homofóbicos, que não aceitam que as mulheres e outros seres humanos tenham autonomia para viver com integridade e decidir as suas próprias vidas. 
 
O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil junta a sua voz com a Federação Luterana Mundial, que neste ano de celebração dos 500 anos da Reforma Protestante, escolheu como tema: “Livres pela Graça de Deus: a salvação não está à venda, a criação não está à venda, os seres humanos não estão à venda”. Em nome do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, eu acompanhei a Presidenta Dilma Rousseff à visita que ela fez ao Conselho Mundial de Igrejas e à Federação Luterana Mundial, em março deste ano, em Genebra, na Suiça, e ela ficou muito feliz de encontrar organizações de Igrejas comprometidas com as mesmas pautas que aquelas defendidas por nós, o povo brasileiro que luta por justiça. 
 
A ruptura democrática fortalece as várias faces da intolerância, sendo uma destas, a intolerância religiosa. A violência praticada contra os terreiros de candomblé, contra os centros umbandistas, contra fiéis do islã e outras religiões, não é aceitável; é ato de gente que se nutre de ódio, não tem nada a ver com cristianismo ensinado por Jesus Cristo.
 
Amigas, amigos, nós estamos numa encruzilhada civilizacional e nós estamos numa luta contra um poder enorme, que é o poder do capital acumulado; nós temos pouco dinheiro, mas nós temos uma força imensa, que é a força de querer uma sociedade justa, inclusiva, e digna para todas as pessoas. 
 
É preciso ter coragem para enfrentar este momento, é preciso ter ousadia, é preciso ter fé – no sentido de ver para além daquilo que está dado.  De acordo com o livro de Hebreus 11:1, “fé é a certeza das coisas que se esperam, a convicção daquilo que não se vê”. Fé na causa da justiça, fé nas pessoas que lutam, fé na capacidade da história de fazer reviravolta, e para muitos de nós, fé em Deus.
 
Sigamos juntas, em compromisso, em solidariedade e em fé, porque o Brasil precisa de nós."
 
Com informações do Brasil de Fato
Foto: Reprodução/Mariana Pitasse

 
 
O centro mundial das celebrações dos 500 anos da Reforma Protestante é Wittenberg, o vilarejo alemão onde nasceram as ideias culminaram com a Reforma Protestante.
 
Foi na porta da entrada da igreja do castelo de Wittenberg que o monge alemão Martinho Lutero pregou, no dia 31 de outubro de 1517, seu grande manifesto. Um documento com 95 afirmações críticas à Igreja Católica.
 
Por causa do ato de Lutero, o local se tornou um marco do início da Reforma. Até hoje pessoas do mundo inteiro vão à igreja, também conhecida como Igreja de Todos os Santos, para prestar homenagens ao homem que ousou desafiar a Igreja e deu novos rumos à história do cristianismo.
 
No século XVI, Lutero se uniu a outros pensadores da Europa e denunciou alguns abusos que vinham sendo cometidos pela Igreja Católica à qual ele também pertencia.
 
Doutor Lutero, como era conhecido por causa da formação acadêmica, vivia em um antigo convento em Wittenberg, onde se reunia com estudantes, trabalhava, escrevia e pensava sobre a Reforma que estava fazendo no mundo cristão.
 
Numa das teses mais duras pregadas na porta da igreja, Lutero afirmava que os religiosos que vendiam perdão estavam pregando "doutrinas humanas que dizem que assim que o dinheiro entra no cofre a alma sai voando do purgatório".
 
Lutero atacava também a riqueza acumulada pelo Vaticano: "Os verdadeiros tesouros da Igreja, de onde o papa distribui indulgências, não são suficientemente discutidos ou conhecidos pelo povo de Cristo."
 
Monge revolucionário
 
Lutero fez uso de uma nova tecnologia, a imprensa, para multiplicar seus escritos e fazê-los percorrer a Alemanha e o mundo. Traduziu a Bíblia para o alemão. E conseguiu acabar com as missas em latim, para que as pessoas pudessem, finalmente, entender o que os pregadores diziam.
 
O monge era revolucionário, mas não rompia completamente com a tradição cristã. No entendimento dele, é Deus que torna um homem bom ou justo, e a salvação só existe com uma experiência pura de fé em Cristo. Os reformadores queriam acima de tudo "sola scriptura", ou seja, fidelidade absoluta ao que dizem os evangelhos. Daí terem sido chamados de evangélicos ou protestantes.
 
O monge alemão entrou numa disputa tão perigosa com a Igreja que precisou passar um ano escondido num castelo.
 
Quando voltou a Wittenberg, não mais católico, ele rejeitou a ideia de que padres deveriam ser celibatários e se casou com uma freira que abandonou o convento. Passou a criticar o que dizia ser um excesso de sacramentos e dogmas impostos pela Igreja. Foi repreendido pelo papa, mas jamais se desculpou.
 
Reação do Vaticano
 
Em termos religiosos, a reação do Vaticano veio no Concílio de Trento, em 1545. Foi quando começou a chamada Contrarreforma, numa tentativa católica de recuperar os fiéis perdidos. 
 
Com informações do G1

 
 
Martinho Lutero tem na crítica às indulgências o ponto mais lembrado quando se fala nas razões que o levaram a se insurgir contra a Igreja. Nessa questão das indulgências – apenas um dos tantos pontos propostos por ele –, é importante compreender o que está por trás dessa crítica. Segundo o teólogo Walter Altmann, Lutero queria destacar a noção de gratuidade da salvação, acessível a todos. “Essa noção de gratuidade segue relevante nos dias de hoje, em que temos numerosas formas ‘modernas’ de mercantilização da fé”, acrescenta. Segundo Altmann, essa gratuidade tem conexão direta com a noção de liberdade, já que a partir da cisão emergem outras tantas formas de se viver o cristianismo. “Num mundo globalizado e de comunicação global, característico para a atualidade, há uma movimentação religiosa com uma intensidade jamais vista”, pontua, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.
 
Em meio a tantas formas de professar a fé, o teólogo destaca outro valor que se torna importante em nosso tempo: o diálogo inter-religioso. Isso porque, no passado, a Reforma gerou muito mais do que disputas teológicas, chegando a guerras. Hoje, destaca que é importante fazer essa reforma da Reforma e compreender a necessidade de alimentar o espírito ecumênico. É uma espécie de aproximação, não só com católicos, mas com diversos credos. “Hoje, ao rechaçarmos qualquer tentação ou intento de enfrentar os muçulmanos em nome da fé cristã, devemos construir de todos os modos possíveis avenidas de respeito e diálogo”, exemplifica. E sobre a aproximação entre católicos e luteranos, pontua: “não se trata de uma meta já plenamente alcançada, mas de uma trajetória em curso. Pode-se dizer que o conflito foi deixado para trás. Há um reconhecimento comum de que pessoas católicas e luteranas são irmãs em Cristo, a separação é sentida com dor e o diálogo tem avançado em muitas questões”.
 
Walter Altmann é pastor emérito da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - IECLB, com doutorado em Teologia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha, professor de Teologia na Faculdades EST, de São Leopoldo/RS, presidente do Conselho Latino-Americano de Igrejas - CLAI, de 1995 a 2001, pastor-Presidente da IECLB de 2002 a 2010 e moderador do Conselho Mundial de Igrejas - CMI, de 2006 a 2013. Entre suas publicações, destacamos Lutero e libertação. Releitura de Lutero em perspectiva latino-americana (São Leopoldo: Editora Sinodal, 2016) e que foi recentemente publicada também em inglês, com o título Luther and Liberation: A Latin American Perspective (Minneapolis, EUA: Fortress Press, 2016).
 
Confira a entrevista.
 
IHU On-Line – Como compreender a Reforma Luterana para além da perspectiva teológica?
 
Walter Altmann – Embora a preocupação central de Lutero tenha sido uma questão teológica (“como posso obter um Deus misericordioso?”), é inegável que a Reforma teve implicações profundas na igreja e na sociedade do mundo ocidental. Aliás, foi a conjunção de vários fatores que tornou a Reforma um evento histórico epocal. De uma forma um tanto simplificada, mas ainda assim acurada, pode-se dizer que Lutero rompeu com a concepção de uma tutela da ordem eclesiástica sobre a ordem secular.
 
Embora na concepção de Lutero todos os setores da vida humana estejam submetidos à vontade de Deus e devam servir para atender as necessidades das pessoas, ao fazer a distinção de que o ofício precípuo da Igreja é de ordem espiritual tão somente, forças políticas, econômicas, sociais e culturais puderam desabrochar e desenvolver-se sem as amarras às quais estavam submetidas. A ordem social já não seria mais regrada por um direito divino imutável, mas por um direito humano, reformável de acordo com realidades contextuais.
 
IHU On-Line – Qual o contexto histórico que a faz emergir? E quais suas consequências nos campos social, econômico, científico/tecnológico e político?
 
Walter Altmann – No início do século XVI, já estavam em curso vários processos de mudança na Europa. Na cultura, o Renascimento trazia para o centro de suas obras (na pintura, por exemplo) o próprio ser humano. Para Lutero, a fé pessoal haveria de ser algo de suma importância. Também havia um movimento cultural de “volta às fontes” da Antiguidade. Lutero haveria de fundamentar a doutrina na Bíblia que ele magistralmente traduziu à língua alemã. Gutenberg [1] havia descoberto a imprensa que foi determinante para a extraordinária difusão não apenas da Bíblia, mas também dos numerosos escritos de Lutero.
 
Como Lutero considerava que todas as pessoas devem ter acesso à Bíblia e que o estudo seria importante também para os ofícios seculares, ele foi pioneiro em advogar em favor de um sistema de educação universal, e isso numa época em que a esmagadora maioria da população era analfabeta. Numa época em que emergiam unidades políticas territoriais autônomas, potencialmente independentes, ele ancorou a dignidade do ofício político no conceito de sacerdócio geral das pessoas batizadas e ele o definiu como manutenção da paz, estabelecimento da justiça e proteção às pessoas mais fracas.
 
Na economia, inspirou iniciativas de caixas comunitárias, com o fim de garantir a todas as pessoas o atendimento de suas necessidades básicas, como sustento, saúde, educação. Também combateu práticas comerciais e financeiras que, no advento do capitalismo mercantil, exploravam os mais pobres, aprofundando suas necessidades. Num tempo em que tropas turcas avançavam sobre a Europa, chegando às portas de Viena, Lutero defendeu o direito e o dever da população de se defender e dos mandantes de proteger seus súditos, mas rechaçou totalmente o conceito de qualquer “guerra santa”. Tudo isso apontava para algo profundamente renovador.
 
IHU On-Line – De que forma podemos compreender o que leva Lutero a questionar a Igreja da época? E como as inquietações de Lutero se atualizam em nosso tempo?
 
Walter Altmann – O âmago da Reforma foi o que se convencionou chamar de a “redescoberta do Evangelho”, isto é, a noção de que a salvação é concedida gratuitamente por Deus, em Cristo, especificamente no Cristo crucificado, o que deve ser recebido em fé. Mas o estopim da Reforma foram suas 95 Teses que, segundo a tradição, teriam sido afixadas à porta da Igreja do Castelo, na cidade de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517. Nelas, a partir da noção de gratuidade da salvação, Lutero combateu o comércio de indulgências. Suas teses se difundiram qual rastilho de pólvora pela Europa inteira.
 
Precisamente essa noção de gratuidade da salvação segue relevante nos dias de hoje, em que temos numerosas formas “modernas” de mercantilização da fé. Significativa e acertadamente a Federação Luterana Mundial - FLM, em sua assembleia geral realizada num país do Sul, na Namíbia, em maio passado, em pleno ano comemorativo da Reforma, tomou como tema a gratuidade da salvação, afirmando nos subtemas que “a salvação não está à venda”, “os seres humanos não estão à venda”, “a criação não está à venda”. Não são artigos comercializáveis. Salvação, seres humanos, criação – uma abrangência ampla para atualização do âmago teológico da Reforma.
 
IHU On-Line – Quais as particularidades da Reforma Protestante que ocorreram nos países hoje conhecidos como Alemanha, Suíça e França e, mais tarde, Reino Unido, Escandinávia e outros locais da Europa? E como compreender as divisões da Reforma Protestante pós-Lutero e o papel que assumem outros líderes?
 
Walter Altmann – De fato, a Reforma, surgida em território alemão, se expandiu com relativa rapidez para outras regiões e, para tanto, contou com outras lideranças que se inspiraram em Lutero. Contribuíram, para tanto, peculiaridades de cada uma das regiões, e as respectivas lideranças também colocaram ênfases teológicas próprias, aqui e ali divergentes de Lutero. Nasceu uma diversificação eclesiológica que se intensificou a partir do século passado. Um ponto comum certamente era o desejo de maior autonomia civil e política das diferentes sociedades, bem como uma compreensão eclesiológica menos centrada numa hierarquia, e mais na comunidade local (ou, em desenvolvimento posterior, numa organização territorial).
 
Assim, o protestantismo foi se difundindo não tanto como um organismo estruturado, mas como um movimento que foi se estabelecendo com maior ou menor vigor em novos lugares e regiões. Na Escandinávia o luteranismo tornou-se a religião de quase unanimidade da população e sua organização social guarda muitas ênfases próprias da Reforma, como a atenção para com as necessidades de toda a população, superando eficazmente a pobreza e as desigualdades. Ao longo dos séculos, a Reforma tornou-se um movimento de alcance mundial, presente em todas as regiões do globo e crescentemente no Sul, em particular na África.
 
IHU On-Line – Em que medida podemos afirmar que a Igreja Católica também “é reformada” depois de todas as questões trazidas por Lutero?
 
Walter Altmann – O conflito religioso que se produziu entre Lutero e a Igreja Católica, embora não fosse sua intenção romper com ela (ao contrário, Lutero foi excomungado da Igreja Católica em janeiro de 1521 pelo Papa Leão X [2]), se agudizou ainda mais em tempos posteriores, tanto nas questões doutrinárias quanto nos desdobramentos políticos, levando inclusive à extraordinariamente sangrenta Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) [3], até que, exauridos em sangue, católicos e protestantes estabelecessem um acordo de convivência territorial, com territórios católicos e territórios protestantes. (O pluralismo religioso, em que diferentes confissões religiosas convivam no mesmo espaço geográfico, só viria muito tempo depois, com o advento pleno da Modernidade.)
 
Mas o dissenso católico-protestante, aparentemente absoluto e irreconciliável, haveria de perdurar até o século XX. O advento do movimento ecumênico no seio do protestantismo, com raízes no século XIX, mas estabelecido a partir da Conferência de Missão de Edimburgo, em 1910, e a adesão oficial da Igreja Católica ao movimento ecumênico, com o Vaticano II (1962-1965) [4] transformaram radicalmente as relações entre os diferentes integrantes da família cristã, abrindo crescentes espaços para o respeito e o entendimento mútuo, bem como a cooperação, não por último em áreas sociais.
 
O Vaticano II implantou uma série de reformas e fez uma série de afirmações teológicas básicas que eram caras ao protestantismo desde seus primórdios, entre outras: a missa na língua vernácula, e não mais em latim; a ênfase na Bíblia, proporcionando o acesso dos fiéis a ela; a compreensão da eclesialidade plena da igreja local, a valorização do sacerdócio comum dos fiéis; a compreensão da Tradição como um desdobramento da Escritura, e não como um adendo a ela.
 
IHU On-Line – O que a resistência à Reforma, a chamada Contrarreforma Católica, revela acerca da Igreja Católica da época? Quais as consequências sociais, econômicas e políticas dessas disputas?
 
Walter Altmann – A chamada Contrarreforma foi um intento de responder propositivamente (e não simplesmente de modo repressivo) ao desafio lançado pela Reforma. Suprimiu abusos na prática da Igreja Católica de então, reavivou a seriedade da teologia e da piedade, acendeu a paixão pela missão, e assim colocou barreiras à expansão da Reforma. Nas áreas que permaneceram solidamente vinculadas à Igreja Católica, ela também acabou contribuindo, não intencionalmente, para retardar o desenvolvimento social, político e econômico em direção ao capitalismo, sem, contudo, poder impedi-lo, por ser um processo regido por forças históricas próprias irreprimíveis. As colônias, da América hispânica e portuguesa, por exemplo, ficaram por séculos hermeticamente fechadas à Reforma, que haveria de aportar de forma permanente em países da América Latina apenas após os processos de independência nacional.
 
IHU On-Line – Como a Reforma Protestante chegou ao então chamado “novo mundo”?
 
Walter Altmann – À parte de algumas presenças esporádicas de indivíduos (por exemplo, o viajante alemão luterano Hans Staden [5] no século XVI, que deixou relato de suas peripécias, tendo inclusive se tornado cativo de tribo indígena, da qual conseguiu fugir) e dos intentos após algum tempo fracassados de colonização de parte de calvinistas franceses na Baía da Guanabara e de holandeses no Nordeste brasileiro, a presença de adeptos da Reforma na América Latina se deu a partir do século XIX, seja ligada a presenças diplomáticas e comerciais (de ingleses, por exemplo), seja da vinda de imigrantes (alemães, no Brasil a partir de 1824), como soldados do Império ou agricultores e artesãos, necessários para o desenvolvimento de um país independente, seja ainda, mais tarde, de missões protestantes vindas dos Estados Unidos, das quais se esperava uma contribuição em áreas carentes, como a educação. Foram, a princípio, legalmente “tolerados” enquanto adeptos da Reforma. O reconhecimento legal pleno se deu, no caso brasileiro, apenas com a Proclamação da República em 1889.
 
IHU On-Line – Como se configura o cenário religioso hoje e o que isso representa para as igrejas?
 
Walter Altmann – Muito diferente de tempos passados, o cenário religioso hoje é de um crescente pluralismo. Primeiramente, tem havido, no caso brasileiro e, em larga medida até mesmo em nível mundial, particularmente no chamado Sul Global, um impressionante crescimento do pentecostalismo e também do chamado neopentecostalismo. Na origem, o pentecostalismo emergiu do interior de igrejas protestantes, mas hoje se configura como uma família confessional própria.
 
Também há no mundo católicos carismáticos, praticamente em igual número ao de pentecostais não católicos. Há diferenças entre eles, por exemplo no respeito à hierarquia e na manutenção fiel da celebração eucarística por parte dos carismáticos católicos, enquanto os pentecostais assumem grande liberdade no tocante a essas questões. Mas há muito analogias e semelhanças nas formas de culto e espiritualidade, bem como no enfatizar a centralidade das manifestações do Espírito Santo.
 
Num mundo globalizado e de comunicação global, característico para a atualidade, há uma movimentação religiosa (de uma religião à outra, de uma região do globo a outra) com uma intensidade jamais vista e que vai muito além da cristandade, abrangendo uma multiplicidade de religiões. Um subproduto altamente problemático desse fenômeno é a competição, pacífica ou muitas vezes agressiva, entre diferentes expressões religiosas, levando até mesmo a ideologizações religiosas de conflitos armados mundo afora.
 
A resposta a esse fenômeno de parte das religiões em geral, embora aqui me refira em particular às igrejas cristãs, só pode ser um claro compromisso ecumênico de respeito, de compreensão, ainda que por vezes crítica (e ao mesmo tempo autocrítica), do “outro”, o estabelecimento de vias de diálogo e cooperação, por exemplo no estabelecimento da paz onde há conflitos e na defesa da dignidade humana e cuidado da criação como um todo. Portanto, é algo que ultrapassa a relação entre igrejas cristãs, mas abrange o relacionamento entre religiões diversas.
 
IHU On-Line – Como compreender o islã no contexto da Reforma? Em alguma medida, a Reforma promove mudanças na relação entre cristãos e muçulmanos?
 
Walter Altmann – No tempo da Reforma, a Europa cristã estava ameaçada em sua integridade política e cultural pelo avanço das forças bélicas do Império Otomano (os chamados “turcos”), que chegaram às portas de Viena, Áustria. Do ponto de vista religioso, eram muçulmanos. Lutero convocou à defesa do território, das localidades e da população, mas o entendeu não como um empreendimento religioso, e sim como um dever da cidadania e do ofício das autoridades seculares. Rechaçou completamente o conceito de uma guerra santa. A fé não se impõe. A eventuais prisioneiros cristãos recomendou que, inseridos numa ordem islâmica, obedecessem a ordens civis, mas se dispusessem inclusive ao martírio se viessem a ser coagidos a assumir a fé islâmica.
 
Hoje, ao rechaçarmos qualquer tentação ou intento de enfrentar os muçulmanos em nome da fé cristã, devemos construir de todos os modos possíveis avenidas de respeito e diálogo. Na Europa, por exemplo, as igrejas da Reforma têm se manifestado claramente contra a exclusão de refugiados à base de sua confissão religiosa, mas ao contrário, têm apoiado políticas de acolhimento e atenção a eles. Radicalismos religiosos devem ser superados em todas as religiões.
 
IHU On-Line – Passados 500 anos, como avalia a relação entre luteranos e católicos? Quais os desafios para o diálogo inter-religioso do nosso tempo?
 
Walter Altmann – O mais recente documento elaborado pela Comissão Internacional Católico-Luterana, instituída pelo Vaticano e pela Federação Luterana Mundial - FLM, de 2013, tem o significativo título “Do conflito à comunhão” [6]. Não se trata de uma meta já plenamente alcançada, mas de uma trajetória em curso. Pode-se dizer que o conflito foi deixado para trás. Há um reconhecimento comum de que pessoas católicas e luteranas são irmãs em Cristo, a separação é sentida com dor e o diálogo tem avançado em muitas questões. Ainda há obstáculos, sobretudo de entendimento eclesiológico, mas já não na compreensão da salvação.
 
Diferenças aí são entendidas como ênfases complementares. A Declaração Conjunta Católico-Luterana acerca da Doutrina da Justificação [7], de 1999, foi entrementes subscrita também pelo Concílio Metodista Mundial [8] e pela Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas (calvinistas) [9], e em princípio também acolhida favoravelmente pela Comunhão Anglicana [10]. Os obstáculos remanescentes estão aí para serem superados. Mas, à parte de resistências internas, tanto no protestantismo quanto no catolicismo, impera um espírito de relações fraternas. Tanto que tem havido mundo afora comemorações conjuntas de católicos e luteranos acerca dos 500 anos da Reforma, não por último pelo próprio Papa Francisco e o Presidente da Federação Luterana Mundial, Bispo luterano Munib Younan [11], de Jerusalém, em Lund, na Suécia, em 31 de outubro de 2016. Não é de se excluir que no dia 31 de outubro deste ano, na data dos 500 anos, haja novos gestos simbólicos que reforcem ainda mais a caminhada rumo à comunhão almejada.
 
IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
 
Walter Altmann – Nas comemorações dos 500 anos, o reformador Martinho Lutero foi extensamente evocado. Mas não é a ele que se comemora. Lutero teve seus lados obscuros e condenáveis, como posicionamentos que tomou não apenas em relação ao papa, mas também aos chamados anabatistas, ala radical da Reforma, aos judeus e também manifestações acerca de Maomé. Ele próprio estava muito consciente de suas limitações e pediu explícita e contundentemente que ninguém se chamasse de luterano, mas simplesmente de cristão. (“Quem sou eu, pobre e fedorento saco de vermes, a que se chamem por meu indigno nome?” “Não fui crucificado por ninguém.”). Por contingência histórica surgiram igrejas “luteranas”, e hoje cerca de 75 milhões de pessoas cristãs no mundo se entendem como “luteranas”.
 
Sabem-se, contudo, muito mais como “evangélicas”, no sentido de se sentirem agraciadas pelas boas novas da liberdade em Cristo e comprometidas com o chamado a servir em amor a seu próximo. Em belo escrito acerca do Cântico de Maria (o Magnificat), de 1521, Lutero exaltou com a Virgem Maria o Deus que “derrubou do seu trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lucas 1:52). Isso vale a pena comemorar, no sentido de evocar sua memória e no sentido de se comprometer como uma tarefa recebida.
 
Notas:
 
[1] Johannes Gutenberg (1398-1468): inventor e gráfico alemão que introduziu a forma moderna de impressão de livros - a prensa móvel- que possibilitou a divulgação e cópia muito mais rápida de livros e jornais. Sua invenção do tipo mecânico móvel para impressão começou a Revolução da Imprensa e é amplamente considerado o evento mais importante do período moderno. Teve um papel fundamental no desenvolvimento da Renascença, Reforma e na Revolução Científica e lançou as bases materiais para a moderna economia baseada no conhecimento e a disseminação da aprendizagem em massa. (Nota da IHU On-Line)
 
[2] Papa Leão X (1475-1521): Papa católico durante a Reforma Protestante. Nascido Giovanni di Lorenzo de Medici, foi o último não sacerdote a ser eleito Papa. (Nota da IHU On-Line)
 
[3] Guerra dos Trinta Anos (1618-1648): é a denominação genérica de uma série de guerras que diversas nações europeias travaram entre si a partir de 1618, especialmente na Alemanha. Entre as causas estão: rivalidades religiosas, dinásticas, territoriais e comerciais. (Nota da IHU On-Line)
 
[4] Concílio Vaticano II: convocado no dia 11-11-1962 pelo papa João XXIII. Ocorreram quatro sessões, uma em cada ano. Seu encerramento deu-se a 8-12-1965, pelo papa Paulo VI. A revisão proposta por este Concílio estava centrada na visão da Igreja como uma congregação de fé, substituindo a concepção hierárquica do Concílio anterior, que declarara a infalibilidade papal. As transformações que introduziu foram no sentido da democratização dos ritos, como a missa rezada em vernáculo, aproximando a Igreja dos fiéis dos diferentes países. Este Concílio encontrou resistência dos setores conservadores da Igreja, defensores da hierarquia e do dogma estrito, e seus frutos foram, aos poucos, esvaziados, retornando a Igreja à estrutura rígida preconizada pelo Concílio Vaticano I. A revista do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, publicou na edição 297 o tema de capa Karl Rahner e a ruptura do Vaticano II, de 15-6-2009, bem como a edição 401, de 3-9-2012, intitulada Concílio Vaticano II. 50 anos depois, e a edição 425, de 1-7-2013, intitulada O Concílio Vaticano II como evento dialógico. Um olhar a partir de Mikhail Bakhtin e seu Círculo. Em 2015, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU promoveu o colóquio O Concílio Vaticano II: 50 anos depois. A Igreja no contexto das transformações tecnocientíficas e socioculturais da contemporaneidade. As repercussões do evento podem ser conferidas na IHU On-Line 466, de 1-6-2015. (Nota da IHU On-Line)
 
[5] Hans Staden (1525-1579): aventureiro mercenário alemão. Por duas vezes passou pela América Portuguesa no início do século XVI, onde teve oportunidade de participar de combates na Capitania de Pernambuco e na Capitania de São Vicente, contra corsários franceses e seus aliados indígenas. Em sua segunda viagem, Staden partiu de Castela rumo ao Novo Mundo. Depois de violentos enfrentamentos com indígenas e passar por fortes tempestades, seu navio naufragou próximo a São Vicente. Ele e seus companheiros sobreviveram e Staden foi contratado como artilheiro pelos colonos portugueses para o Forte de São Filipe da Bertioga. Enquanto caçava sozinho, Staden foi feito prisioneiro por uma tribo Tupinambá que o conduziu a Ubatuba. Desde o início ficou claro que a intenção dos seus captores era devorá-lo. Pouco tempo depois, os tupiniquins aliados dos portugueses atacaram a aldeia onde ele era mantido prisioneiro. Mesmo cativo, e não tendo escolha, lutou ao lado dos tupinambás. Seu desejo era tentar fugir para unir-se aos atacantes. Mas, estes, vendo que a luta era inútil, logo desistiram. Pediu ajuda a um navio português e a outro francês. Ambos recusaram-se a ajudá-lo por não desejarem entrar em conflito com os índios. Foi, enfim, resgatado pelo navio corsário francês Catherine de Vetteville, comandado por Guillaume Moner, depois de mais de nove meses aprisionado. De volta à Europa, redigiu um relato sobre as peripécias em suas viagens e aventuras no Novo Mundo, uma das primeiras descrições para o grande público acerca dos costumes dos indígenas sul-americanos. O livro foi publicado em Marburgo, Alemanha, por Andres Colben em 1557. Chama-se comumente "Duas viagens ao Brasil". (Nota da IHU On-Line)
 
[6] Acesse a íntegra do documento aqui. (Nota da IHU On-Line)
 
[7] Acesse a íntegra do documento aqui. (Nota da IHU On-Line)
 
[8] O sítio do IHU, na seção Notícias do Dia, publicou uma série de textos sobre esse encontro. Entre eles, Igrejas reformadas endossam o acordo católico-luterano sobre disputa crucial da Reforma, disponível aqui. (Nota da IHU On-Line)
 
[9] O sítio do IHU, na seção Notícias do Dia, publicou uma série de textos sobre o tema. Entre eles Igrejas Reformadas também assinarão a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, disponível aqui. (Nota da IHU On-Line)
 
[10] O sítio do IHU, na seção Notícias do Dia, publicou uma série de textos sobre essa aproximação, entre eles Como os esforços ecumênicos católico-luteranos deram fruto nos últimos 50 anos, disponível aqui. (Nota da IHU On-Line)
 
[11] Munib Younan (1950): é um bispo luterano da Igreja Evangélica Luterana da Jordânia e da Terra Santa desde 1998 e presidente da Federação Luterana Mundial. (Nota da IHU On-Line)
 
Fonte: IHU On-Line