A chegada do líder da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia – Patriarcado de Antioquia e Todo Oriente - ao Brasil está marcada para o final do mês de outubro, chegando à Brasília no dia 26/10, onde será recebido por autoridades eclesiásticas e civis, cumprindo uma extensa agenda na capital federal.

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Mor Ignatius Aphrem II foi eleito em março de 2014 como 123º Patriarca de Antioquia e Todo Oriente da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, uma das mais antigas Igrejas cristãs orientais, fruto da evangelização apostólica na cidade de Antioquia da Síria, ainda no primeiro século. Seu ministério patriarcal tem sido marcado pela defesa dos cristãos perseguidos no Oriente Médio, especialmente em países como Síria, Iraque e Líbano, além do diálogo ecumênico e interconfessional. O Patriarca participou no início do mês de setembro, juntamente com o Papa Francisco, do evento em Assis em prol da paz.

O Patriarca visitará as principais comunidades, obras sociais e missões da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia no Brasil, tanto no Distrito Federal, quando em Goiás e São Paulo. E clero de todo Brasil estará presente, juntamente com as caravanas de fiéis que acompanharão o Patriarca durante sua visita. Autoridades da embaixada Síria, do Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores), dos governos e prefeituras do Distrito Federal e Goiás também cumprirão agenda de encontros oficiais com o Patriarca durante a visita. Além disso, encontros ecumênicos com representantes de outras Igrejas também estão marcados.

A Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia chegou ao Brasil com os imigrantes sírios e libaneses. Inicialmente, estabeleceu comunidades em São Paulo (SP), Belo Horizonte (MG) e Campo Grande (MS), atendendo as famílias cristãs orientais que buscavam melhores condições de vida no Brasil. Na década de 1980, já bastante estabelecida em nosso país, a Igreja iniciou missões de evangelização entre brasileiros sem ascendência oriental, formando comunidades em mais de 15 estados brasileiros. Atualmente, é membro do CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, com nunciatura apostólica sediada em Brasília (DF) e duas dioceses missionárias, que abrangem as comunidades brasileiras em todo país, além das comunidades formadas por imigrantes e seus descendentes.

Fonte: Comunicação ISOA
Foto: Comunicação ISOA

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Líderes religiosos assinaram nesta terça-feira, 20, um apelo pela paz como fruto do Encontro Internacional pela Paz realizado em Assis, Itália, desde o último dia 18. O apelo foi entregue a crianças, que o levarão aos representantes das nações.
 
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O apelo traz uma firme condenação aos atos de violência em nome da religião e um forte apelo para construir a paz verdadeira. “A guerra em nome da religião torna-se uma guerra contra a própria religião. Por isso, com firme convicção, reiteramos que a violência e o terrorismo se opõem ao verdadeiro espírito religioso”.
 
Com a guerra todos perdem, inclusive os vencedores, destacam os líderes religiosos. Reconhecendo a necessidade de rezar constantemente pela paz, eles se colocaram à escuta de todos atingidos pelas guerras – pobres, crianças, mulheres, jovens – para clamar uma vez mais: “Não à guerra! Não caia no vazio o grito de dor de tantos inocentes (…) Nada é impossível, se nos dirigimos a Deus na oração”.
 
Esse encontro em Assis acontece 30 anos depois que João Paulo II convidou líderes religiosos para que lá se unissem a fim de rezar pela paz. Desse momento histórico, reconhecem hoje os líderes religiosos, inúmeros crentes foram envolvidos no diálogo e na oração pela paz, unindo sem confundir e gerando amizades inter-religiosoas. “Este é o espírito que nos anima: realizar o encontro no diálogo, opor-se a todas as formas de violência e abuso da religião para justificar a guerra e o terrorismo”.
 
Ao final do encontro, o tradicional abraço da paz entre os líderes religiosos.
 
Confira, a seguir, a íntegra do apelo:
 
Homens e mulheres de diferentes religiões, congregamo-nos, como peregrinos, na cidade de São Francisco. Aqui em 1986, há trinta anos, a convite do Papa João Paulo II, reuniram-se Representantes religiosos de todo o mundo, pela primeira vez de modo tão participado e solene, para afirmar o vínculo indivisível entre o grande bem da paz e uma autêntica atitude religiosa. Daquele evento histórico, teve início uma longa peregrinação que, tocando muitas cidades do mundo, envolveu inúmeros crentes no diálogo e na oração pela paz; uniu sem confundir, gerando amizades inter-religiosas sólidas e contribuindo para extinguir não poucos conflitos. Este é o espírito que nos anima: realizar o encontro no diálogo, opor-se a todas as formas de violência e abuso da religião para justificar a guerra e o terrorismo. E todavia, nos anos intercorridos, ainda muitos povos foram dolorosamente feridos pela guerra. Nem sempre se compreendeu que a guerra piora o mundo, deixando um legado de sofrimentos e ódios. Com a guerra, todos ficam a perder, incluindo os vencedores.
 
Dirigimos a nossa oração a Deus, para que dê a paz ao mundo. Reconhecemos a necessidade de rezar constantemente pela paz, porque a oração protege o mundo e ilumina-o. A paz é o nome de Deus. Quem invoca o nome de Deus para justificar o terrorismo, a violência e a guerra, não caminha pela estrada d’Ele: a guerra em nome da religião torna-se uma guerra contra a própria religião. Por isso, com firme convicção, reiteramos que a violência e o terrorismo se opõem ao verdadeiro espírito religioso.
 
Colocamo-nos à escuta da voz dos pobres, das crianças, das gerações jovens, das mulheres e de tantos irmãos e irmãs que sofrem por causa da guerra; com eles, bradamos: Não à guerra! Não caia no vazio o grito de dor de tantos inocentes. Imploramos aos Responsáveis das nações que sejam desativados os moventes das guerras: a ambição de poder e dinheiro, a ganância de quem trafica armas, os interesses de parte, as vinganças pelo passado. Cresça o esforço concreto por remover as causas subjacentes aos conflitos: as situações de pobreza, injustiça e desigualdade, a exploração e o desprezo da vida humana.
 
Abra-se, finalmente, um tempo novo, em que o mundo globalizado se torne uma família de povos. Implemente-se a responsabilidade de construir uma paz verdadeira, que esteja atenta às necessidades autênticas das pessoas e dos povos, que impeça os conflitos através da colaboração, que vença os ódios e supere as barreiras por meio do encontro e do diálogo. Nada se perde, ao praticar efetivamente o diálogo. Nada é impossível, se nos dirigimos a Deus na oração. Todos podem ser artesãos de paz; a partir de Assis, renovamos com convicção o nosso compromisso de o sermos, com a ajuda de Deus, juntamente com todos os homens e mulheres de boa vontade.

Fonte: CN Notícias
Foto: Reprodução CTV
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“Lá vem o homem-bomba”. Não é difícil que Cícero Soares da Cruz, 68 anos, ouça esse tipo de comentário quando vai estacionar o carro da mesquita em algum ponto da cidade. Normalmente, ele finge que não ouve e segue em paz com as obrigações do seu ofício e religião.

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Há 17 anos, Cícero trabalha como caseiro da Mesquita Brasil, a maior da América Latina, localizada no bairro do Cambuci, em São Paulo. Como tal, transformou-se no faz-tudo do lugar. Ele é o responsável pelas compras do mês, por pequenos consertos elétricos, pela equalização do som durante as cerimônias religiosas e por resolver todo e qualquer imprevisto ao longo do dia. Desde 2008, Cícero converteu-se ao islamismo e, no ano passado, realizou o sonho de fazer a peregrinação à cidade de Meca, na Arábia Saudita – dando, assim, as sete voltas ao redor da Grande Mesquita.

Mas antes de Cícero cumprir sua obrigação como muçulmano, vamos encontrá-lo ainda criança, na pequena cidade de Palmeira dos Índios, em Alagoas. O pai era um homem da roça, trabalhador braçal, sem tempo para “gastar” com religião. A mãe também era da lida, feirante, mas temente a Deus e Católica. Foi da mãe que Cícero herdou sua primeira religião.

Na adolescência, Cícero foi achando que Palmeira dos Índios ia ficando cada vez mais árida. O irmão mais velho já estava em São Paulo e havia passado da hora de tomar o mesmo ônibus em direção ao futuro. Ao desembarcar na velha rodoviária, no final dos anos 60, tomou um susto com o tamanho da cidade – mas também sentiu o prazer de estar solto no mundo.

Cícero foi morar com o irmão que já estava estabelecido por aqui. Por influência dele, começou a trabalhar como metalúrgico e frequentar a Igreja Presbiteriana. Foi do irmão que herdou, portanto, sua segunda religião.

Para conseguir uma melhor condição de sobrevivência em São Paulo, matriculou-se em um curso supletivo (na época, sabia apenas escrever o próprio nome). Nas aulas, aprendendo o básico do português, conheceu Filomena, a Filó – que também fazia o mesmo curso supletivo. Os dois se apaixonaram e não esperaram tempo demais para juntarem os trapos. Como casal, frequentaram a Congregação Cristã do Brasil e abriram uma pequena loja de roupas.

Quando tudo parecia bem encaminhado na vida de Cícero e Filó, a loja de roupas foi invadida e todas as peças foram levadas. O prejuízo foi enorme. Todas as economias do casal estavam naquele comércio. Cícero sentiu o baque de morar em uma cidade grande e insegura: estava quebrado.

A luz veio de um irmão de fé da Filó, um frequentador da Congregação Cristã. “Parece que na mesquita estão contratando, estão precisando de cozinheira”, disse o colega. Mesmo sem saber direito o que era uma mesquita, o que era um muçulmano ou o Islã, Filó foi ver se ali havia uma oportunidade. Cozinheira talentosa, não demorou para conquistar a vaga na cozinha da mesquita. A vida financeira do casal estava salva.

Enquanto a mulher trabalhava como cozinheira, Cícero defendia um troco como manobrista no centro. Mas um dia Filó chegou em casa dizendo que tinha uma vaga no trabalho dela, uma vaga de caseiro, uma vaga boa porque além do salário ainda trazia a possibilidade de o casal morar no próprio trabalho. Ou seja, na mesquita.

Cícero foi conversar, não sabia nada do islamismo, teve receio de não se acostumar. Afinal, ainda era evangélico. “Mas minha mulher também era e estava muito feliz no trabalho. Então, tentei a sorte e me apresentei para o trabalho.”

No começo, além das funções corriqueiras de caseiro, Cícero começou a prestar atenção nas cerimônias, nas palavras do sheik e nas festas de encerramento do Ramadan. “Me senti tocado por Alá. Me senti pertencendo àqueles rituais e entendendo o que aquilo queria dizer”, conta.

Em 2008, começou a jejuar durante o período do Ramadan. “Os frequentadores da mesquita admiraram minha atitude, me apoiaram. Como eu não estava acostumado, tinha muita fraqueza durante o dia, mas Alá me tocou, me manteve firme.” Filó acompanhou o jejum do marido de perto, tentando demovê-lo da ideia no início, mas depois respeitando a opção dele. “Filó continua evangélica. Não tem problema nenhum nisso. Somos a prova de que não existe isso de conflitos entre religiões na nossa vida”, fala Cícero.

Depois do jejum, o próximo passo era realizar aquilo que todo muçulmano precisa fazer pelo menos uma vez na vida: ir a Meca.

Puro sonho, Cícero que nunca havia embarcado em um avião, que nunca havia saído do País e que era um recém-convertido, não tinha nenhuma perspectiva de fazer a peregrinação. Mas...

A direção da mesquita reconheceu em seu caseiro a vontade e a dedicação de vivenciar o islamismo, reconheceu que ali estava um homem realmente tocado pela palavra de Alá. Em 2015, Cícero ganhou uma passagem para a Arábia Saudita e, com um grupo de muçulmanos, foi para Meca. “Me disseram que o único risco do avião era a decolagem e o pouso”.

As elevadas temperaturas da Arábia Saudita fizeram com que Cícero tivesse febre nos primeiros dias. Apesar da provação, ele seguiu em peregrinação. Naquele ano, a aglomeração (3 milhões de muçulmanos) terminou em confusão e mais de 700 pessoas morreram pisoteadas. Em São Paulo, Filó acompanhou tudo pela televisão e chegou a pensar no pior. “Eu não estava próximo de onde aconteceu a tragédia. Minha peregrinação foi dura, mas realizada em paz”, comenta Cícero.

Assim, quando ouve alguém chamá-lo de homem-bomba, Cícero lamenta a ignorância e a intolerância. “Se alguém faz alguma coisa errada, se alguém mata ou se explode, não está fazendo isso em nome de Alá ou do Islã. Nossa religião não tem nada a ver com essas atrocidades”, fala. Ao ouvir esse tipo de acusação sem sentido, Cícero finge que não entendeu e segue seu caminho em paz.


Fonte: O Estado de S.Paulo
Foto: Werther | ESTADÃO CONTEÚDO

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Primeiramente, fora Temer!

Fé que oprime ou fé que liberta?

Inspirados/as na memória que fortalece a esperança e nos anima a caminhada, o encontro recorda a Tragédia de Mariana que permanece viva em nossas lutas e em nossas lembranças sendo ela um grande desafio contemporâneo que une as diversas expressões de fé e compreensões do sagrado para buscar na diversidade a unidade para, assim, desenvolver novas relações com a casa comum.

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A natureza e os seres humanos não estão dissociados, ao contrário, são frutos da mesma criação e possuem uma interdependência intrínseca, algo que nosso modelo de desenvolvimento excludente, homicida e ecocida têm feito e que, por vezes, esquecemos. Da mesma forma, não existe, para nós, uma justiça ambiental que esteja separada da questão social, já que, em geral, quem menos contribui com a degradação ambiental é quem sofre os maiores danos em momentos de desastre. Repudiamos qualquer forma de privatização da água, terra, vento, energia e demais componentes desse mosaico que se chama criação, bem como nos comprometemos com a luta pela/com a terra dos/das pobres e os/as pobres da terra, buscando neles a sabedoria e a esperança.

Denunciamos o golpe jurídico parlamentar sobre a democracia brasileira. Nas manobras procedimentais ficou claro que não foi respeitado o devido processo legal, visto que a presidenta apeada do poder já entrou condenada no processo e os parlamentares, muitos deles sob investigação ou denunciados por crime de corrupção e obstrução de justiça, já a haviam condenado de antemão, como uma maneira de estancar e encerrar as investigações em curso, que lhes poderia custar o mandato e a liberdade.

Esse golpe deixa claro que há a necessidade de se construir popularmente uma verdadeira reforma política, na qual se radicalize a democracia e o povo possa, de fato, exercer sua soberania. A reforma há de ser construída a partir do povo, com a criação de conselhos populares e participativos.

O enfrentamento ao pensamento capitalista é de fundamental importância para desconstrução do atual modelo antidemocrático de comunicação, no qual a informação é centralizada e distribuída de acordo com o interesse de grandes. Sendo assim, apoiamos e fortalecemos as mídias alternativas como saída para uma educação popular que privilegie o acesso completo às informações. Defendemos, com isso, a independência e a democratização dos meios públicos de comunicação

A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Diante desse genocídio, afirmamos nossa denúncia contra um Estado opressor, assassino e racista, cujo seu principal agente é a policia militar, como resquício de nossa história turbulenta da ditadura. Sonhamos com uma realidade em que a juventude negra tenha acessos, direitos e seu espaço reafirmado.

Consideramos fundamental o desafio constante de rever, também, os privilégios de sexualidade, gênero, classe social, religião; assim, destacamos e reivindicamos a necessidade de entender e assumir as lutas, de maneira interconectada. As lutas feministas não estão isoladas, estão perpassadas por outras. Reconhecemos o papel fundamental das juventudes na transgressão como processo na construção de mudanças, com diálogo aberto e crítico com outras gerações. “O corpo é uma festa” (Galeano).

Nos comprometemos com a luta pela construção de um Estado Laico para os diversos povos, no qual se assegure liberdade, respeito e reconhecimento das várias relações com o sagrado e suas manifestações, tendo em vista a superação das desigualdades culturais.

Os nossos corpos se libertam, dançam e sambam em busca de uma fé que liberte e uma espiritualidade que não oprima.

Fonte: Reju
Foto: Reprodução

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“O notável desenvolvimento para superar a pobreza no Brasil tem sido uma inspiração para muitos e é extremamente importante que a justiça para os pobres continue na agenda para a liderança do Brasil”, disse o Rev. Dr. Olav Fykse Tveit, secretário-geral do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Tveit esteve em São Paulo, Brasil, entre os dias 7 e 9 de setembro, participando da Conferência Mundial Pentecostal e conhecendo líderes da igreja local.

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O Senado brasileiro depôs a presidente Dilma Rousseff em 31 de agosto, pondo fim a um processo de impeachment que polarizou o maior país da América Latina em meio a um escândalo de corrupção e crise econômica.

Em 8 de setembro, Tveit reuniu os líderes das cinco igrejas membros do CMI no Brasil, para ouvir suas avaliações sobre a crise em curso e o papel das igrejas.

“As necessidades dos pobres, a opção preferencial pelos pobres, deve ser sempre uma preocupação da igreja”, disse ele. “O respeito pelos direitos humanos, e o cuidado das minorias em particular, será um teste para o Brasil neste momento.”

O secretário geral do CMI também comentou que a crise política do país também tem “dimensões morais e espirituais”.

“Há uma falta de confiança relacionada com a corrupção, mas é muito mais amplo do que isso. Os desafios em termos de confiança para o sistema democrático, uma política que garanta uma fatia do poder entre o povo da grande nação do Brasil e, particularmente, como capacitar todos, incluindo os mais necessitados, para influenciar a direção desta política “, disse ele.

Para Tveit, igrejas membros do CMI oferecem forte compromisso comum com valores que podem servir toda a sociedade, mesmo que as próprias igrejas não representem uma maioria em números.”Muitos no Sul global, mas também no Norte, tem procurado ao Brasil para o compromisso no desenvolvimento”, disse ele.

A reunião em 8 de Setembro foi assistido pelo Bispo Luiz Vergílio Batista da Rosa e Bishop Stanley Moraes, da Igreja Metodista no Brasil; Rev. Dr. Nestor Friedrich, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil; Rev. Dr. Olav Fykse Tveit, secretário geral do CMI; Bispo Flavio Irala, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e presidente do Conselho Nacional das Igrejas do Brasil; Rev. Aureo Oliveira, da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil; Rev. Wertson Brasil, da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil; e Dr. Marcelo Schneider, diretor de comunicação do CMI.

Fonte: Expositor Cristão
Foto: Reprodução

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Dos dias 7 a 10 de setembro, realizou-se em São Paulo o encontro Cantos da Casa Comum - Seminário Ecumênico de Música e Liturgia. O evento aconteceu na sede da Diocese Anglicana de São Paulo.

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Estiveram presentes participantes dos estados de São Paulo, Bahia, Paraíba, Brasília, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Durante o encontro, foram apresentadas composições de uso litúrgico e, também, projetos de diálogo entre a música das igrejas e a Música Popular Brasileira, especialmente em temas relacionados com o cuidado da Casa Comum.

Uma das descobertas do Seminário foi a intensa produção litúrgica e musical que está acontecendo nas igrejas, muitas vezes de forma isolada. Por isso, entre as conclusões do encontro destacou-se a necessidade de um canal de compartilhamento dessa produção entre os músicos e liturgistas, de forma a fazê-la circular nas comunidades locais.

O seminário teve uma celebração de encerramento no sábado (dia 10) pela manhã, na Paróquia Anglicana da Santa Cruz, concelebrada pelo bispo anglicano de São Paulo e presidente do CONIC, dom Flávio Irala, e pelo reverendo Daniel do Amaral, diretor secretário do CONIC.

Os participantes formaram um grupo nas redes sociais para manter a articulação surgida no encontro, com vistas a partilhar recursos e preparar um novo seminário em 2017.

Texto: Daniel Souza

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Entre 9 e 11 de Setembro aconteceu nos arredores de Brasília, no Ecoparque Barra do Dia, o Festival Reimaginar, encontro evangélico que reuniu cerca de 120 pessoas de diferentes partes do Brasil para conversar sobre temas que relacionam as igrejas evangélicas com a agenda social brasileira a partir da Bíblia e da Teologia.

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O Festival Reimaginar é uma iniciativa da Editora Novos Diálogos e pretende ser um evento anual a respeito da relevância da fé cristã na sociedade brasileira, oferecendo discussão dialogal, ampla, aberta, imaginativa, criativa, incluindo as artes, oferecendo oportunidades de visibilização de novos temas e agendas e encontros entre pessoas, ideias, movimentos e setores do protestantismo brasileiro.

A abertura do Festival, no dia 9, teve a participação da biblista peruana Érika Izquierdo Paiva, culminando com um momento de oração em memória das vítimas da violência no Brasil e na América Latina, seguida depois da apresentação das bandas Mahmundi, Marcos Almeida, Pobre Tom e RAPadura.

No sábado, dia 10, a discussão na Tenda Reimaginar teve como temas “Igreja e Direitos Humanos”, com a participação do sociólogo Alexandre Brasil, da psicóloga Cynthia Ciarallo e do assessor do mandato do Dep. Estadual Carlos Alberto Bezerra Jr., Gedeon Alencar, e “Igreja, Racismo e Violência”, com o teólogo e articulador social Ronilso Pacheco e a assistente social e consultora do PNUD, Meyrieli Carvalho. No final da tarde, os participantes se dividiram em minioficinas para tratar de temas diversos como Teologia Evangélica, Paz Justa na Palestina e Israel, Feminismo e Gênero, Bibliodrama, Práticas de Resistência ao Império, Soberania Alimentar e Arte. As discussões continuaram na parte da noite com uma mesa sobre Missão e Espiritualidade, com a teóloga metodista Nancy Cardoso, a ativista menonita Sarah Thompson e o teólogo pentecostal David Mesquiati, seguida de apresentações musicais do rapper Kivitz, Victor Pradella e da banda Marrakitá.

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Antes do seu encerramento no final da manhã de domingo com uma bonita celebração liderada pelo Pr. Wellington Santos, da Igreja Batista do Pinheiro, o Festival abrigou mais duas rodas de conversa que trataram dos temas “Outra Imaginação Moral é Necessária: Economia, Ecologia e Igualdade”, com a participação do teólogo metodista estadunidense Joerg Rieger, a ativista Rosemarie Henkel-Rieger e o cientista político Eduardo Nunes e “Igreja, Diversidade e Sexualidade”, com o teólogo André Musskopf e a biblista e pastora Odja Barros.

Segundo Flávio Conrado, editor da Novos Diálogos e idealizador do Reimaginar, “o festival foi uma oportunidade de encontro de cristãos e cristãs evangélicas progressistas para uma discussão aberta e imaginativa a respeito de temas centrais para a vivência da fé numa sociedade que vive momentos de crise institucional, no contexto de desigualdades persistentes e violências estruturais que ameaçam segmentos vulneráveis da nossa população”. Os participantes do encontro repercutiram sua participação nas redes sociais através da hashtag #Reimaginar2016, testemunhando da seriedade e relevância das discussões e da alegria de poderem se encontrar para reimaginar sua prática e fé cristãs.

Texto e fotos: Reimaginar

 

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O CONIC criou, em seu site, o espaço Religiões e Democracia. A ideia é refletir as relações entre a religião e a democracia e trabalhar a temática com o auxílio de perguntas feitas a lideranças religiosas, teólogos e teólogas, cientistas da religião e de outras áreas do conhecimento. Convidamos vocês para lerem as entrevistas, artigos, e manifestarem opiniões. Sempre em um espírito de diálogo e respeito às ideias.
 
Desta vez, você poderá conferir o artigo de Joanildo Burity, leigo anglicano e cientista político.
 
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Joanildo Burity - Cientista Político
 
Democracia por-vir, salvação e juízo:
algumas notas sobre a relação entre religião e democracia

A democracia é um regime histórico. Isso quer dizer que tem uma história, não nasceu pronto e nunca chegou a sua plena realização. Também quer dizer, mais profundamente, que é um regime que é incompatível com justificações baseadas na ordem natural das coisas – especialmente a ordem e a distribuições das posições sociais de pessoas e grupos – ou em uma autoridade não legitimada pela vontade popular. Por fim, a democracia é histórica porque ela é aberta ao futuro: ela é sempre a abertura de um futuro e ela está aberta ao que o futuro trouxer. A democracia é sempre por-vir– histórica, aberta, pluralista e interminável. Essa sua abertura é tanto fonte de atração, seu charme, associada a ideias de liberdade, pluralidade e igualdade, como de medo e repulsa, associadas à “desordem”, “relativismo de valores” e, para alguns, “secularismo” que ela traria como consequências de sua abertura.
 
O que isso pode ter a ver com religião (organizada) ou com fé (pessoal)? A religião não é a crença em verdades e seres imutáveis? Não é uma justificação da história feita com base no que não tem história ou não é histórico? Não aspira a um mundo ou um estado de coisas em que não haverá mais história (portanto, não haverá mais passado, presente e futuro)? A fé não espera respostas divinas, intervindo na história, para atender a aspirações, desejos e proteger pessoas na sua singularidade, geralmente sem muita relação com a multidão ao seu redor? Há um vínculo entre religião e democracia? Se há, trata-se de um só vínculo, ou de um vínculo de mão única? Se não há, o que representam as religiões ou as pessoas de fé em termos políticos? E quando se posicionam sobre questões políticas, necessariamente mais amplas do que cada religião ou pessoas específicas, devem fazê-lo desde a perspectiva da religião (organizada) e da fé (pessoal)?
 
Gostaria de dizer alguma coisa sobre a relação entre religião e democracia desenvolvendo os dois parágrafos acima. Argumento explicitamente pela existência de vínculos entre religião e democracia, mas não se trata de um só, nem no número, nem no tempo. Assim, precisamos falar de vínculos, no plural, incluindo aqueles que existem entre organizações religiosas ou grupos de pessoas de fé e a contestação da democracia, pois isso também define um vínculo, uma relação. É necessário ao menos admitir isso, entendo, se aceitamos que a democracia é um regime histórico, pois em cada tempo e lugar, onde há democracia institucionalizada ou ideias de democracia como regime desejado, diferentes pessoas e concepções sobre a democracia existirão, definindo campos entre os que lutam para trazê-la à existência ou defendê-la e aprofundá-la, e os que suspeitam dela ou a ela se opõem. E haverá religião e fé dos dois lados.
 
Outro argumento que desenvolverei é que as respostas às primeiras questões do segundo parágrafo são todas negativas: não há incompatibilidade necessária (histórica, conceitual ou teológica) entre religião/fé e democracia. Embora as noções de permanência, eternidade, individualização sejam parte inseparável das tradições religiosas, em todas elas há também, em graus variados, noções de transitoriedade, contingência, pluralidade, complexidade do mundo e comunidade, que tencionam permanentemente o pensamento e a prática religiosa, no nível institucional (religião) e pessoal (fé), abrindo a possibilidade de uma relação com a ideia de democracia. Não é ilegítimo que muitas pessoas encontrem na religião um certo mal-estar com a democracia, que pode inclusive justificar uma rejeição da mesma. Isso está lá. No passado antes da democracia, no passado sem democracia, no presente com e sem democracia. Isso estará lá, no futuro com e sem democracia. Mas é ilegítimo escolher essa posição como aquela que representa mais autenticamente o legado da posição e da contribuição da religião à democracia. De um lado, na sua origem e na sua história, sempre houve pessoas e organizações profundamente comprometidas com demandas e práticas democratizantes e com instituições democráticas. De outro lado, essas pessoas e organizações se encontram em toda sorte de religião, sendo que, no Ocidente (Norte ou Sul!), o cristianismo tenha uma relação umbilical com a legitimação e generalização da ideia democrática, com a Igreja (em qualquer de suas formas e confissões) ou contra a Igreja.
 
Assim, parto do princípio de que há vínculos múltiplos e contraditórios entre religião e democracia e de que os que existem no sentido de favorecer, defender e protagonizar a democracia como regime histórico estão perfeitamente “em casa” na história do cristianismo. Digo cristianismo, e me aterei a essa religião e fé nesse texto, porque é preciso mostrar mais concretamente como esses vínculos se dão, porque eles são históricos, não abstratos, metafísicos, nem dados, mas construídos. Muito espaço seria necessário para explorar os vínculos entre religião e democracia em outras tradições – como o Islã e outras religiões mundiais e em religiões étnicas espalhadas por todo o mundo. Isso tornaria este texto maior do que é possível neste momento fazê-lo e muito complexo para desenvolver seu argumento principal. Assim, peço aos leitores e leitoras que mantenham os dois primeiros parágrafos em mente enquanto avançamos. Mas o ponto de referência da análise, até para ser mais diretamente relevante ao contexto brasileiro, será como esses vínculos e esses debates se dão no contexto cristão.
 
Das muitas maneiras como se poderia começar essa análise, escolho aquela que liga a definição de democracia à formação, expressão e representação da vontade popular. A ideia de democracia, embora se refira na sua “origem” a um povo em particular, os gregos antigos, não é exclusiva de nenhuma etnia e possui outras histórias, em outros tempos e lugares, sem este nome ou já utilizando a língua grega. Nem sempre por meios democráticos – há uma longa história ligando a expansão do imaginário e das instituições democráticas a ações imperialistas e coloniais – gregos, romanos, europeus modernos e norte-americanos difundiram a democracia (ou várias formulações dela) e encontraram em outros povos práticas e instituições facilmente assimiláveis à democracia. Democracias locais, já existentes nas histórias dos povos não-europeus. Da herança ocidental e europeia da ideia democrática nos vem dois aspectos fortemente ligados e anteriores à definição de democracia como regime representativo e parlamentar: a legitimação da pessoa comum, sem pedigree familiar ou de classe e sem qualidades especiais associadas à educação, eloquência ou dinheiro/bens, como igual aos bem-nascidos, aos ricos e aos “intelectuais” (historicamente esse termo teve múltiplos conteúdos e identificações, por isso uso as aspas) – ou seja, a ideia de cidadania como status de igualdade - e a ideia de que os cidadãos (infelizmente as cidadãs só vieram muitos séculos depois!) formam um coletivo que é a fonte soberana do poder. Esse coletivo foi chamado em grego de demos, povo, em português.
 
A igualdade da cidadania e a soberania do povo são inseparáveis de qualquer definição histórica de democracia. Nenhuma ideia de democracia ou materialização da democracia em práticas e instituições socialmente compartilhadas jamais pôde existir ou durar quando um desses aspectos constitutivos foi negligenciado, atacado ou anulado. Isso quer também dizer que ninguém é obrigado a ser democrata, mas se alguém não estiver à vontade para se comprometer com a igualdade cidadã e a soberania da vontade popular não tem direito a falar em nome da democracia. Pode falar em nome de qualquer outro arranjo de poder com alguma forma de legitimação pelas urnas ou pelo respeito a alguma forma de constituição, mas não em nome da democracia. Não há democracia sem pessoas iguais em razão do mero fato de terem nascido humanas e não há democracia sem povo soberano.
 
Outras ideias vêm junto com a democracia: o direito a livremente expressar suas opiniões sem ser reprimido, abusado verbalmente ou atacado fisicamente; o direito de participar das tomadas de decisões sobre os assuntos da comunidade, da cidade, do país, diretamente ou por meio de representantes livremente escolhidos, em condições de competição justa, entre os cidadãos (e cidadãs, desde o século XIX); e o direito de se associar, por qualquer razão ou objetivos legítimos (isto é, aceitáveis ao conjunto da comunidade política, o que muitas vezes requer períodos de argumentação e de luta, mas de qualquer forma se ampara nas leis e práticas já existentes), para melhor se proteger ou assegurar o reconhecimento de demandas, valores e direitos particulares. Nos tempos modernos, esses direitos foram descritos como direitos humanos e a luta passou a ser definir quem conta como “humano” e que outros direitos podem ser incluídos como sendo “humanos” - ou seja, extensivos a toda e qualquer pessoa.
 
Uma consequência inevitável dessa configuração da democracia é que ela é um regime público, que requer a existência de um espaço público para que a expressão da opinião, a tomada de decisões coletivas e o exercício da associação aconteçam. Esse espaço, para ser de todos e todas, não pode ser de ninguém, em particular, quer um líder ou muitos líderes, mesmo que legitimados. Outra consequência desse caráter público, claramente representada no direito de associação, é que esse espaço público é plural, não é homogêneo na sua composição (diferenças de classe, condição, ideologia, origem étnica, pertencimento religioso, etc.), nem unificado (vai além do governo e do estado), nem consensual (acho que já está óbvio por quê!).
 
Isto quer dizer duas coisas: (i) que a democracia só existe onde há espaço público assegurado para a expressão, o reconhecimento e a garantia de direitos de cidadania; (ii) que, embora exista em nome do povo e como vontade do povo, a democracia admite e assume a heterogeneidade desse povo. O povo da democracia não está pronto antes de ela existir, vai se constituindo continuamente – e nunca sem luta – ao longo do tempo. Quem é ou não povo, quem entra e quem sai, quem fala, quem representa, quem deve defender ou proteger o povo, isso não está dado previamente na democracia, nem na origem da mesma (quando escravos questionaram que só os bem-nascidos e os livres – ricos ou pobres – fossem considerados cidadãos) nem ao longo de sua história (na qual muitos povos, com as mais diversas culturas e formas de organização social, abraçaram a ideia democrática e procuraram implementá-la na prática, a partir de múltiplas concretizações da mesma, quer na Europa quer em outras partes do mundo colonizado pelos europeus). E porque esse povo existe com um pé nos vínculos cotidianos das pessoas e outro no espaço público em que o povo se torna um ente político, há uma tensão permanente entre povo e governo, de um lado, e entre povo e seus representantes, de outro, que muitas vezes pode levar a democracia a estar do lado de fora do governo e da representação política, contra estas duas expressões do poder organizado, que podem ser democráticas e populares ou não.
 
Por ser histórica, a democracia não apenas possui uma história feita de conquistas e retrocessos, não apenas questiona qualquer naturalização da desigualdade e da injustiça (em nome da natureza das coisas ou da vontade divina), não apenas requer existir como coisa pública, mas também está aberta ao futuro. Está aberta não só porque ao longo dessa história mudanças vão acontecendo, alterando, agredindo, mas também expandindo a democracia, e produzindo várias democracias e várias ideologias democráticas (liberalismo, socialismo, anarquismo sendo apenas algumas delas, modernas e ocidentais), mas também porque literalmente não dá para saber como se definirá, comporá ou posicionará o povo em cada momento em que é chamado a pronunciar-se.
 
Isso, de um lado, abre a democracia, permite que ela se torne um horizonte nunca atingido de desejos e demandas por igualdade, liberdade, justiça, participação, reconhecimento, dignidade, etc. De outro lado, enseja que falsificações da democracia (demagogia, corrupção, colonização do espaço público por interesses particulares, seja econômicos ou políticos) e agressões à democracia (por parte de quem “perde” com ela – os derrotados nas votações, os grupos privilegiados e toda sorte de malfeitores, corruptos e criminosos que jamais agem no interesse público, mas apenas os seus e de seus grupelhos – ou de quem se beneficia dela para impor suas vontades e interesses sobre os demais).
 
Falsificações e agressões foram também perpetradas pelas multidões, ao deixarem-se manipular por líderes inescrupulosos e autoritários ou ao tomarem diretamente em suas mãos a realização de ideias de justiça popular que em nome dos valores da comunidade violaram os direitos de minorias de cidadãos e cidadãs e os processos de tomada de decisões e de gestão da justiça. O povo, ou grupos agindo em seu nome, em vários momentos negou/negaram a democracia em nome da vontade popular.
 
Assim, a história da democracia é feita de momentos edificantes, momentos desmoralizantes e momentos indignantes. Ela pôde, em muitos momentos, ser negada ou transformada numa versão bastarda, distorcida e mesmo cínica e cruel (como a existência de parlamentos e eleições em regimes ditatoriais e autocráticos, a montagem de regimes coloniais ou a realização de guerras em seu nome). Mas algo perdura na ideia democrática e nos exemplos de sua história que a destinam continuamente ao futuro, levando milhões a aceitá-la como seu horizonte do mundo desejado, da comunidade ideal, ou da salvação/superação dos males sociais do presente, a acreditar que apesar dos fracassos e falsificações, a democracia ainda está por chegar, por ser reinventada, por ser aprofundada e ampliada.
 
Essa grande simplificação, por razões de espaço e de argumentação, da ideia de democracia, que chamo de democracia por-vir, seguindo (mas não rigorosamente) o filósofo Jacques Derrida, pede, para cidadãos e cidadãs cristã(o)s, uma reflexão que muitos já fizeram: esse regime é compatível com a religião, com a fé? Do ponto de vista histórico, adotado aqui, só há uma resposta: sim, porque já foi e continua sendo para milhões de cristã(o)s ao redor do mundo, por dois milênios. Mas entendo que isto não seja suficiente nem aceitável, numa certa perspectiva, porque o fato de algo acontecer não o torna automaticamente legítimo e porque o fato de que uma numerosa multidão compatibilizar democracia e religião/fé não quer dizer que a religião/fé só possa se expressar como adesão democrática. Assim, é preciso responder aos dois problemas.
 
Falei de perspectiva. E isso é importante, porque se considerarmos que ao longo da história milhões de cristã(o)s fieis a suas crenças e valores, comprometidos com suas igrejas e sinceros/honestos em sua prática, têm apoiado ou contribuído ativamente para o advento e as expansões da democracia, a suspeita de que sua fé seria inautêntica só por “seguirem a multidão” é um julgamento no mínimo precipitado, senão injusto. Por outro lado, o fato de alguém não se comportar como um(a) democrata ou não compartilhar de nossa visão de democracia não deveria ser motivo de rejeição no nível pessoal e não deveria autorizar manifestações de ódio ou repressão da parte de quem é democrata.
 
Entendo que a não aceitação dessa questão de perspectiva – que basicamente define quem é um(a) democrata pluralista – está presente dos dois lados dos problemas que apontei acima. Nem todo mundo está disposto a assumir uma posição pluralista e democrática. Prefere pensar na democracia como a imposição da vontade majoritária (sempre construída e modificável, nunca esqueçamos) sobre todas as pessoas, povos e culturas. Ou se impacienta com a heterogeneidade do espaço público democrático, pressionando por sua “simplificação” e restrição, para que o povo possa emergir como uno, indivisível, homogêneo. Nos dois casos, ocorre com a democracia o que já havia sido previsto por Alexis de Tocqueville em suas comparações sobre a democracia americana e a república francesa, no século XIX: a democracia se torna autoritária, oligárquica ou mesmo totalitária (o que já significa, a rigor, seu completo desaparecimento, restando apenas o “Povo-Uno” ou “a comunidade”). Primeiro ponto, portanto: não há uma única forma de justificar – nem muito menos de rejeitar – o vínculo entre religião e democracia, porque cidadania e religião não são mutuamente correspondentes. Há espaço para diferenças, variações e conflitos entre elas.
 
Segundo ponto, se nos colocamos já em favor do vínculo religião-democracia, é possível encontrar não apenas múltiplas conexões com narrativas e argumentações doutrinárias do cristianismo como várias maneiras concretas como isso foi feito. Destacarei alguns elementos, necessariamente de modo simplificador e ilustrativo, por não ser este o lugar de apresentar algo sistemático e mesmo porque não tenho competência para fazer o exercício completo; muitos outros já o fizeram e melhor.
 
Para começar, se entendemos a democracia contemporânea como reconhecimento do igual valor e igual direito de toda pessoa humana (deixando em aberto ainda se ela é nativa ou não de um estado democrático), o primeiro ponto de contato com a teologia cristã é a imago Dei, a compreensão judaico-cristã de que os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus e que mesmo o pecado não destruiu essa marca. A imagem de Deus é a garantia da dignidade intrínseca de todo ser humano, como criatura de Deus. Naturalmente, a imago Dei não foi, por muito tempo, compreendida como indicativa de uma igualdade fundamental traduzida em direitos e garantias iguais a cidadãos e cidadãs. Mas sem esta pré-compreensão não me parece razoável justificar o valor universal da democracia.
 
Em segundo lugar, tomando o elemento participativo da ideia de governo do povo, a compreensão cristã de comunidade se construiu a partir da observação da vida política greco-romana. Igreja significa “assembleia”, em grego, convocação para a praça pública (ágora) dos cidadãos, (naquela época) os homens livres e dotados do direito à voz e ao voto nas discussões e decisões da comunidade. Isso raramente é ressaltado, mas a forma como as primeiras comunidades cristãs se viram representou uma tradução “espiritual” de uma realidade política. Já naquele momento, havia uma série de radicalizações em relação à cidadania grego-romana, cidadania de homens, ricos e bem-nascidos: homens e mulheres, escravos e livres, judeus e gentios tinham igual acesso a esta comunidade e, portanto, à “cidadania” cristã.
 
Funções e papeis contraculturais e politicamente questionadores emergiram nesses ambientes. Ao mesmo tempo, esses cidadãos e essas cidadãs de novo tipo mantinham uma relação de distância crítica e mesmo de autoproteção em relação aos poderes imperiais. Isso durou quase três séculos e deixou marcas fundas na identidade cristã, mesmo após o cristianismo tornar-se fé e ideologia do estado romano, com a conversão de Constantino, que “constantinizou” o cristianismo. Um terceiro aspecto dessa radicalização foi o caráter cosmopolita dessa polis alternativa, não se atendo aos limites do Império.
 
Como tudo histórico, este processo não evoluiu sem contradições, impactos variáveis e reversões. Depois de oficializado como religião imperial, o cristianismo foi inoculado com o vírus do poder e todas as suas formas de produção, justificação e imposição da desigualdade, do privilégio e da distinção. As práticas democráticas dos primeiros séculos tornaram-se uma tradição marginal, nunca ausente, mas domesticada ou silenciada pelos novos porta-vozes oficiais da fé. Foram os movimentos de Reforma que finalmente explodiram na Alemanha no início do século XVI e espalharam-se pela Europa em seguida, que ressuscitaram o vínculo entre religião (organizada), fé (pessoal) e democracia.
 
Mesmo neste processo histórico, as experiências mais radicais de aprofundamento do vínculo foram duramente reprimidas. Desde então, intermitentemente, mas incontrolavelmente, a presença de cristãos entre pensadores e militantes democráticos não se deixou de notar, em todas as partes do mundo em que o cristianismo se espalhou, ainda que raramente mantendo-se legitimada desde dentro da Igreja por muito tempo. A luta entre a “Igreja oficial” e as “comunidades das origens” tem se mantido viva e a própria reflexão que ora faço se justifica pelo mal-estar que a conjuntura brasileira dos últimos dois anos tem produzido, reatualizando o embate entre as igrejas cristãs brasileiras.
 
Em terceiro lugar, a expectativa escatológica da fé cristã sempre foi articulada numa dupla referência à realidade do poder estabelecido (qualquer leitura do Apocalipse já revelaria isso, mas não é preciso muita perspicácia para percebê-lo nos evangelhos e nas epístolas, com diferentes graus de aprofundamento e características específicas) e à imagem do mundo transformado pela concretização do governo de Deus (que o Segundo Testamento chama de “reino de Deus”). A inconformidade com este mundo e o ardente desejo de um mundo novo, enfim reconciliado e reunido sob o único governo de Deus não aparece, nas páginas do Segundo Testamento, como um exercício de êxtase espiritualizante. O “reino” é uma categoria política e as expressões que definem sua chegada e plenitude o caracterizam, não como uma “teocracia” em qualquer dos sentidos que historicamente vigoraram: no “reino” o poder deixa de estar em algum lugar, concentrado, em prejuízo ou exclusão de muitos.
 
Há uma espécie de deposição de todos os poderes frente a Deus, levando ao fim de todo sofrimento, violência, exploração e abuso; levando a uma fraternização/sororização de todos os filhos e filhas de Deus enfim reunidos(as), num mundo que ainda possui política (reinos/estados, nações, idiomas, práticas sociais – vejam que tenho o final do livro do Apocalipse em mente), mas não mais desigualdades de poder. Em suma, essa perspectiva permite dar uma dimensão de profundidade ao vínculo entre religião e democracia, que afetaria tanto o que hoje chamamos de cultura política como o que chamamos de imaginário democrático. De qualquer forma, em clara contradição com expressões conservadoras, particularmente as antidemocráticas de muitos cristãos e cristãs de hoje, não só no Brasil.
 
Por último, da experiência protestante desde a qual falo (mas de forma alguma ausente no contexto do catolicismo e ortodoxia contemporâneos), as experiências de conflitos entre cristãos, nos séculos XVI e XVII, e entre cristãos e gente de outras religiões e fés, desde então, produziu o discurso da tolerância religiosa – base de toda a elaboração política do direito à consciência e expressão do pensamento e das convicções pessoais. Embora haja compreensões diversas da tolerância, e eu mesmo ache que o termo traz muitos problemas que talvez justifiquem abandoná-lo, o termo é suficientemente conhecido e aparentemente aceito, para recomendar sua utilização aqui. Pois bem, duas das consequências mais relevantes dessa ideia – praticamente inexistente, nesses termos, no cristianismo anterior à Reforma – são (i) a de que tolerar não é apenas suportar a contragosto o “erro”, mas dar ao outro o “direito a errar”, até que se forme um juízo comunitário ou civilizacional suficientemente amplo, sólido e reconhecidamente justo sobre esse “erro”; e (ii) tolerar é não impor aos outros as minhas convicções como se a verdade estivesse plena e definitivamente do meu lado.
 
A base da compreensão protestante da tolerância, portanto, ao mesmo tempo se ancora na concepção do ser humano como ser falível, imperfeito e pecador, e na crença de que a verdade é um valor coletivo, construído transculturalmente e historicamente em sociedades que não (mais) compartilham as mesmas origens, os mesmos objetivos e a mesma religião. Isso tem consequências óbvias para o contexto brasileiro, pois esta quarta dimensão do vínculo entre cristianismo e democracia se tornou um problema face à mobilização política dos evangélicos e dos católicos conservadores, os quais têm abjurado da tolerância na política e na vida cotidiana, em nome de uma verdade indivisa (e supostamente concentrada do lado deles) e de uma “matriz religiosa cristã” majoritária que é, na verdade, uma invenção colonial.
 
É preciso concluir, ainda que permaneçam muitas questões a desenvolver e outras a acrescentar neste breve exercício. Tentei argumentar aqui em favor de um sólido (e a meu ver inerradicável) vínculo entre religião e democracia, explorando o caráter histórico (contingente, evolutivo, mas também contraditório e reversível) da democracia, sua crítica da naturalidade das desigualdades de poder e riqueza entre os seres humanos e de qualquer autoridade exercida sem o consentimento ativo de cidadãos e cidadãs, e sua abertura a novas realidades, novas questões e novos embates. Apresentei quatro bases teológicas no contexto cristão para compreendermos e justificarmos este vínculo numa direção não só democrática, mas também pluralista. A democracia, nesta leitura, vincula-se com motivos bíblico-teológicos que a ligam à criação, à salvação e ao juízo (ou escatologia). Democracia nunca inteiramente realizada, consciente de sua falibilidade, portanto, aberta a corrigir-se pela escuta dos reclamos dos subtraídos, silenciados, ignorados ou violentamente excluídos do acesso e da dignidade (cidadania), da participação e dos benefícios das decisões. Democracia que, ao mesmo tempo, pode ser vivida desde diferentes culturas e religiões, nunca estando inteiramente de um lado ou de outro de diferentes compreensões democráticas, mantendo-se apenas firmemente vigilante contra quem se coloca do lado de fora da democracia, para combatê-la e negá-la, em nome do que quer que seja. Este seria um dos sentidos da chamada laicidade democrática – ser um regime de leigos (portanto, não clericalizada, feita por gente comum, dentro e fora das igrejas), ser um regime não oficialmente ligado a qualquer religião, e ser um regime aberto a toda e qualquer religião – que valeria a pena lutarmos para construir (não exatamente defender) hoje, neste lugar chamado Brasil, sabendo que este desafio não é só nosso (brasileiros, cristãos, ecumênicos ou sem-religião), nem somente para hoje.
 
Biografia:
 
Joanildo Burity é leigo anglicano, cientista político, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e professor dos Programas de Pós-Graduação em Sociologia e em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco. Como pesquisador, trabalha com o tema religião e política há três décadas, tendo realizado pesquisas sobre religião e eleições; religião e políticas sociais; religião e democracia; religião e movimentos sociais; religião, identidade e cultura; religião e globalização, tanto no contexto brasileiro como comparativamente, em termos internacionais. Como ativista cristão, tem participado de inúmeras iniciativas no campo da “esquerda ecumênica”, entendido em termos teológicos ou políticos. Foi representante da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil no Conselho Consultivo Anglicano (2009-2016) e membro do Comitê Permanente, órgão executivo deste (2012-2016).
 
Análises relevantes ao debate aqui proposto podem sem encontradas em seus livros Fé na Revolução (2010, Editora Novos Diálogos) e Redes, parcerias e participação religiosa nas políticas sociais no Brasil (2006, Editora Massangana) e na coletânea organizada com Maria das Dores Campos Machado Os Votos de Deus: evangélicos, política e eleições no Brasil (2005, Editora Massangana).
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Um 'singelo e corajoso documento, um ato de fé pelo planeta', afirma Faustino Teixeira, ao comentar a mensagem do Papa Francisco por ocasião do dia mundial de oração pelo cuidado da criação, celebrado no dia 1º de setembro.
 
Faustino Teixeira é professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – PPCIR-UFJF, pesquisador do CNPq e consultor do ISER-Assessoria.
 
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Eis o artigo.
 
O dia primeiro de setembro de 2016 veio marcado por um belo gesto de papa Francisco, na mensagem que enviou ao mundo celebrando o dia mundial de oração pelo cuidado da criação . No singelo e corajoso documento de Francisco o “ato de fé pelo planeta”, na expressão cunhada por Paula Ferreira em artigo publicado no O Globo (02/09/2016).
 
É um texto que nos convoca para a urgente vocação de “guardiões da criação”. O que vemos por todo lado, nesse tempo do antropoceno, é uma “exploração irresponsável do planeta”, onde os mais vulneráveis são os “pobres do mundo”. Dentre as irradiações letais, o violento aquecimento do planeta, que em 2015 atingiu um auge inusitado. Como diz Francisco, “as mudanças climáticas contribuem também para a dolorosa crise dos migrantes forçados”.
 
Em linha de sintonia com a ecologia integral, Francisco reitera a nota que vem sublinhando desde a encíclica Laudato si ( maio de 2015) , em torno da profunda ligação que irmana os seres humanos entre si e com a criação. O ataque à natureza traduz, sem dúvida, um ataque ao ser humano. Em verdade, “cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado”. É uma reflexão que vem corroborar toda uma linha de pesquisa presente hoje na antropologia, que rebate a cisão tradicional entre natureza e cultura. A sociedade e o ambiente não são realidades descoladas, mas intimamente entrelaçadas numa rede de vida e criação. Os humanos, ao contrário do que se propagou no Ocidente pós-cartesiano, não são o “umbigo do mundo”,  mas “parte do vivente”. Estão envolvidos na textura do mundo. Não estão aí apenas para ocupar o mundo, mas para habitá-lo com respeito e cuidado. Tudo aquilo que vem brindado com o toque da vida sinaliza um movimento de ressonância fundamental. O espaço da criação é um espaço de movimento: tudo vem marcado pela fragrância da vida, deixando trilhas abertas e interativas. O meio ambiente, como tão bem mostrou Tim Ingold, é “em primeiro lugar, um mundo no qual vivemos, e não um mundo para o qual olhamos”.
 
A mensagem de Francisco traduz uma preocupação que é comum a muitas lideranças religiosas de tradições distintas, como o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, que em novembro de 1997 dizia em discurso na Califórnia que o ardor destrutivo do ser humano diante da biodiversidade traduz um “pecado contra Deus”. Assim também o suave monge do Vietnã, Thich Nhat Hanh, em Carta de amor à mãe terra (2013), insiste sobre o traço vivo da Terra e a dimensão de co-pertença do humano a este “belíssimo e generoso planeta”. Não pode haver sentimento de separação, pois tudo que advém de nós e que nos alcança de fora provém da Terra. Ela não é simplesmente o ambiente em que vivemos, mas tecido que anima a nossa existência: nós somos Terra.
 
Em sua ardente mensagem, Francisco convoca a um exame de consciência, a “consciência amorosa de não estar  separado das outras criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal”. Há um toque de graça em sua reflexão, ao indicar com vitalidade o mundo como um “dom recebido do amor do Pai”. Um exame de consciência que envolve uma mudança radical de rumo e o deixar-se habitar por uma espiritualidade da criação. De fato, como diz Francisco, “o cuidado da natureza faz parte dum estilo de vida que implica capacidade de viver juntos e de comunhão”. E na sequência de sua reflexão, um dado novidadeiro com a inserção do cuidado da casa comum como um complemento atual e urgente das tradicionais obras de misericórdia. E porque ? Em razão da misericórdia ter por objeto “a própria vida humana na sua totalidade”.
 
Esse cuidado da casa comum requer de todos uma nova dinâmica contemplativa. Já dizia Francisco na Laudato si que “todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, as águas, as montanhas: tudo é carícia de Deus” (LS 84). Tudo vem permeado por um Mistério que pode ser contemplado de diversas formas: “Há um mistério a contemplar em uma folha, em uma vereda, no orvalho, no rosto do pobre” (LS 233). Em sua mensagem de setembro de 2016, Francisco fala da “grata contemplação do mundo”, do cuidado essencial que acontece nos “simples gestos do cotidiano”, que rompem com “a lógica da violência, da exploração, do egoísmo”.
 
Francisco assim assinala uma espiritualidade alternativa, pontuada pela qualidade de vida, pelo entusiasmo inter-relacional. Trata-se de uma espiritualidade que gera e irradia alegria, que nasce de um mundo interior atuado, tocado pela dinâmica da simplicidade; de um mundo interior capaz de alegrar com pouco, pois marcado pela convicção de que “quanto menos, tanto mais”. O segredo está nesse cultivo da vida interior, que faz gerar um equilíbrio singular e que propicia a recuperação da “harmonia serena com a criação”. Há uma familiaridade única entre a paz interior e o cuidado da ecologia (LS 225).
 
Fonte: IHU Unisinos
Foto: Nasa
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A 16ª edição da Campanha “Primavera para a Vida”, promovida pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), teve inicio ontem com o tema “Direito à Vida da Juventude”. O evento busca cultivar sementes de justiça, paz e solidariedade para que todos tenham acesso aos seus direitos fundamentais.
 
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Apesar do Brasil possuir uma lei que reconhece a juventude como protagonista de direitos, o Estatuto da Juventude, a existência dessa legislação não assegurou políticas públicas que contribuam na transformação significativa da situação vivida pela juventude brasileira. Sobretudo, no que diz respeito ao acesso à educação de qualidade, à segurança, ao trabalho, ao acesso ao lazer e às condições para participação nos processos sociais e políticos. Dado mais gritante e desafiador para toda a sociedade é o elevado índice de violência praticado contra jovens negros, vítimas de extermínio nas periferias urbanas.
 
Realizada desde o ano 2000, o intuito da Campanha Primavera para a Vida é mobilizar recursos para as atividades da CESE em todo o país, fortalecendo os grupos populares nas suas lutas por direitos, por meio do apoio a projetos e estreitar e ampliar a articulação com as bases das Igrejas.
     
Ao longo de 43 anos, a CESE já apoiou mais de 11,5 mil projetos de organizações populares de todo o Brasil, contribuindo para o fortalecimento de direitos de aproximadamente 10 milhões de pessoas nos campos de gênero, raça, juventude, meio ambiente, economia solidária, comunicação e desenvolvimento institucional e diálogo inter-religioso.
     
Como esta Campanha e o Grito dos Excluídos, muitas mobilizações estão acontecendo no país retomando as ruas, as lutas, “a necessidade de reconstrução das forças populares, do papel da Igreja como formadora e mobilizadora do povo para a construção da justiça social nesta terra, para que o povo não a espere para somente depois da morte” (CPT).
 
Na última reunião do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (Brasília, 5-6/09), após um debate sobre a atual conjuntura brasileira, a diretoria do CONIC, emitiu uma Nota manifestando-se em relação ao atual contexto social, político, religioso e econômico pelo qual passa o Brasil:
 
Desde março de 2014, no contexto de memória dos 50 anos do Golpe civil-militar, temos nos pronunciado publicamente e chamado a atenção para a fragilidade da democracia brasileira e dos riscos que isto representaria ao país.
 
Compreendemos que os últimos fatos ocorridos demonstraram, por si só, que nossa democracia é limitada e inconclusa. Os anos de abertura democrática não lograram desmontar as estruturas geradoras de desigualdades.
 
Entendemos que a decisão do Senado brasileiro de confirmar o impedimento da presidente Dilma Rousseff repetiu as trajetórias recentes ocorridas no Paraguai e em Honduras, em que presidentes democraticamente eleitos foram depostos. As rupturas na democracia têm significado, em nosso continente, o aprofundamento de um modelo econômico baseado na concentração de renda e na exclusão social. Os únicos a ganharem com estas rupturas são as velhas elites que se apropriam dos recursos públicos e optam pela especulação financeira em detrimento da produção.
 
Dentre as várias medidas anunciadas, preocupa-nos, de forma especial, a PEC 241/2016, que congela os gastos públicos por 20 anos. Esta PEC limitará os recursos para a saúde e para a educação pública, colocando em risco as conquistas alcançadas nos últimos anos.
Da mesma forma, expressamos nossa preocupação com a Reforma da Previdência, que prevê o aumento considerável da idade mínima para a aposentadoria. Estas decisões que afetam diretamente a vida das pessoas mais vulneráveis são tomadas sem um amplo debate com a sociedade.
 
A repressão recente nas mobilizações ocorridas em diferentes estados e a prisão de lideranças de movimentos sociais são medidas e posturas que repudiamos. A livre manifestação é um direito garantido por nossa Constituição. Não aceitamos que militantes e movimentos sociais sejam reprimidos e criminalizados.
 
Projetos Leis com conteúdos nada democráticos, como o Escola Sem Partido, somado ao banimento da perspectiva de gênero e ao aumento do fundamentalismo religioso, indicam para uma tendência ao obscurantismo. Afirmamos que é fundamental preservar as liberdades de expressão e religiosa. No entanto, percebe-se que há um risco destes princípios serem manipulados para impedir que seja questionada a violência sexista e racista.
 
Estamos às vésperas das eleições municipais. A conjuntura nacional precisa ser levada em consideração nos debates locais. É necessário que os candidatos/as às prefeituras e câmaras de vereadores sejam questionados em relação à sua compreensão de democracia. É importante que candidatos e candidatas expressem claramente o seu compromisso com os direitos humanos.
 
Neste ano em que realizamos a Campanha da Fraternidade Ecumênica, conclamamos para que sejam promovidos debates sobre este tema e que candidatos sejam desafiados a assumir o compromisso com um serviço de saneamento básico público e universal. A organização de Conselhos Municipais para a implementação e monitoramento dos Planos Municipais de Saneamento Básico é uma estratégia imprescindível para se evitar a privatização deste serviço e garantir que toda e qualquer parceria público-privada desenvolvida para a implementação dos serviços de saneamento básico sejam definidas com a sociedade civil local.
 
Outra questão a ser considerada no contexto das eleições municipais e estaduais é a natureza laica do estado brasileiro. Afirmamos que a laicidade precisa ser respeitada nas esferas federal, estadual e municipal. Essa é uma prerrogativa fundamental para o convívio entre diferentes religiões, para o respeito às pessoas que não professam uma religião e para a valorização da diversidade religiosa.
 
É tempo de refletir: Por que, quando imaginávamos que poderíamos dar passos mais ousados para o aprofundamento e a consolidação da democracia, reforçam-se movimentos que reivindicam a manutenção de antigos sistemas e velhas ordens?
 
Nossa certeza é que Deus caminha conosco, por isso existe esperança de um futuro (Jr 31.17). “Cabe reinventar-nos como sujeitos cidadãos e cidadãs, pôr as mãos à obra na grande tarefa de refazer a democracia” (C.Grzybowski/Ibase).
 
A liturgia deste domingo confirma esta certeza. Através de parábolas, Cristo nos conduz à compreensão mais profunda do mistério de Deus e do mistério da condição humana.
 
Em tempos eleitorais, cresce o interesse em torno dos números e das proporções. No Evangelho de hoje (Lc 15,1-32), Jesus também lança mão de números e proporções nas parábolas que conta: Primeiro, uma ovelha entre 100 acaba se perdendo. E é sobre este 1% do rebanho que o pastor se detém a fim de resgatar aquela que se desviara do caminho. Reencontrá-la é motivo de alegria.
 
Em segundo lugar, uma moeda entre as 10 que a mulher possuía também some. Ela acende a lamparina, varre a casa, encontra a moeda e faz festa! Grande alegria em reencontrar os 10% de suas economias que haviam se extraviado.
 
E, finalmente, na parábola do Filho Pródigo, um entre dois filhos se deixa seduzir por falsas ilusões e desliga-se da família em busca de aventuras pouco consistentes. Perde-se. E o Pai se mantém firme na esperança do retorno de 50% de sua descendência. O rapaz retorna, motivo de festa e alegria.
 
As proporções são diferentes: 1, 10 e 50%. Mas, segundo Frei Gustavo Medella, o amor é sempre o mesmo: total, 100%.
 
Nosso Deus sabe que não são simples números, mas que cada cifra traz consigo uma vida, uma história, um filho muito amado que Deus deseja ter junto de si. Jesus deseja representar, apresentar e encarnar este amor sem reservas e tem como meta despertá-lo no coração da humanidade.
 
Nem sempre consegue, não por culpa ou ineficiência, afinal é Deus, mas pelo fato de respeitar a liberdade fundamental das pessoas em aderir ou não o projeto que Ele propõe!
 
Fonte: gentedeopiniao.com.br
Foto: Reprodução
 
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