O CONIC criou, em seu site, o espaço Religiões e Democracia. A ideia é refletir as relações entre a religião e a democracia e trabalhar a temática com o auxílio de perguntas feitas a lideranças religiosas, teólogos e teólogas, cientistas da religião e de outras áreas do conhecimento. Convidamos vocês para lerem as entrevistas, artigos, e manifestarem opiniões. Sempre em um espírito de diálogo e respeito às ideias.
 
Desta vez, você poderá conferir o artigo de Joanildo Burity, leigo anglicano e cientista político.
 
joanildo
Joanildo Burity - Cientista Político
 
Democracia por-vir, salvação e juízo:
algumas notas sobre a relação entre religião e democracia

A democracia é um regime histórico. Isso quer dizer que tem uma história, não nasceu pronto e nunca chegou a sua plena realização. Também quer dizer, mais profundamente, que é um regime que é incompatível com justificações baseadas na ordem natural das coisas – especialmente a ordem e a distribuições das posições sociais de pessoas e grupos – ou em uma autoridade não legitimada pela vontade popular. Por fim, a democracia é histórica porque ela é aberta ao futuro: ela é sempre a abertura de um futuro e ela está aberta ao que o futuro trouxer. A democracia é sempre por-vir– histórica, aberta, pluralista e interminável. Essa sua abertura é tanto fonte de atração, seu charme, associada a ideias de liberdade, pluralidade e igualdade, como de medo e repulsa, associadas à “desordem”, “relativismo de valores” e, para alguns, “secularismo” que ela traria como consequências de sua abertura.
 
O que isso pode ter a ver com religião (organizada) ou com fé (pessoal)? A religião não é a crença em verdades e seres imutáveis? Não é uma justificação da história feita com base no que não tem história ou não é histórico? Não aspira a um mundo ou um estado de coisas em que não haverá mais história (portanto, não haverá mais passado, presente e futuro)? A fé não espera respostas divinas, intervindo na história, para atender a aspirações, desejos e proteger pessoas na sua singularidade, geralmente sem muita relação com a multidão ao seu redor? Há um vínculo entre religião e democracia? Se há, trata-se de um só vínculo, ou de um vínculo de mão única? Se não há, o que representam as religiões ou as pessoas de fé em termos políticos? E quando se posicionam sobre questões políticas, necessariamente mais amplas do que cada religião ou pessoas específicas, devem fazê-lo desde a perspectiva da religião (organizada) e da fé (pessoal)?
 
Gostaria de dizer alguma coisa sobre a relação entre religião e democracia desenvolvendo os dois parágrafos acima. Argumento explicitamente pela existência de vínculos entre religião e democracia, mas não se trata de um só, nem no número, nem no tempo. Assim, precisamos falar de vínculos, no plural, incluindo aqueles que existem entre organizações religiosas ou grupos de pessoas de fé e a contestação da democracia, pois isso também define um vínculo, uma relação. É necessário ao menos admitir isso, entendo, se aceitamos que a democracia é um regime histórico, pois em cada tempo e lugar, onde há democracia institucionalizada ou ideias de democracia como regime desejado, diferentes pessoas e concepções sobre a democracia existirão, definindo campos entre os que lutam para trazê-la à existência ou defendê-la e aprofundá-la, e os que suspeitam dela ou a ela se opõem. E haverá religião e fé dos dois lados.
 
Outro argumento que desenvolverei é que as respostas às primeiras questões do segundo parágrafo são todas negativas: não há incompatibilidade necessária (histórica, conceitual ou teológica) entre religião/fé e democracia. Embora as noções de permanência, eternidade, individualização sejam parte inseparável das tradições religiosas, em todas elas há também, em graus variados, noções de transitoriedade, contingência, pluralidade, complexidade do mundo e comunidade, que tencionam permanentemente o pensamento e a prática religiosa, no nível institucional (religião) e pessoal (fé), abrindo a possibilidade de uma relação com a ideia de democracia. Não é ilegítimo que muitas pessoas encontrem na religião um certo mal-estar com a democracia, que pode inclusive justificar uma rejeição da mesma. Isso está lá. No passado antes da democracia, no passado sem democracia, no presente com e sem democracia. Isso estará lá, no futuro com e sem democracia. Mas é ilegítimo escolher essa posição como aquela que representa mais autenticamente o legado da posição e da contribuição da religião à democracia. De um lado, na sua origem e na sua história, sempre houve pessoas e organizações profundamente comprometidas com demandas e práticas democratizantes e com instituições democráticas. De outro lado, essas pessoas e organizações se encontram em toda sorte de religião, sendo que, no Ocidente (Norte ou Sul!), o cristianismo tenha uma relação umbilical com a legitimação e generalização da ideia democrática, com a Igreja (em qualquer de suas formas e confissões) ou contra a Igreja.
 
Assim, parto do princípio de que há vínculos múltiplos e contraditórios entre religião e democracia e de que os que existem no sentido de favorecer, defender e protagonizar a democracia como regime histórico estão perfeitamente “em casa” na história do cristianismo. Digo cristianismo, e me aterei a essa religião e fé nesse texto, porque é preciso mostrar mais concretamente como esses vínculos se dão, porque eles são históricos, não abstratos, metafísicos, nem dados, mas construídos. Muito espaço seria necessário para explorar os vínculos entre religião e democracia em outras tradições – como o Islã e outras religiões mundiais e em religiões étnicas espalhadas por todo o mundo. Isso tornaria este texto maior do que é possível neste momento fazê-lo e muito complexo para desenvolver seu argumento principal. Assim, peço aos leitores e leitoras que mantenham os dois primeiros parágrafos em mente enquanto avançamos. Mas o ponto de referência da análise, até para ser mais diretamente relevante ao contexto brasileiro, será como esses vínculos e esses debates se dão no contexto cristão.
 
Das muitas maneiras como se poderia começar essa análise, escolho aquela que liga a definição de democracia à formação, expressão e representação da vontade popular. A ideia de democracia, embora se refira na sua “origem” a um povo em particular, os gregos antigos, não é exclusiva de nenhuma etnia e possui outras histórias, em outros tempos e lugares, sem este nome ou já utilizando a língua grega. Nem sempre por meios democráticos – há uma longa história ligando a expansão do imaginário e das instituições democráticas a ações imperialistas e coloniais – gregos, romanos, europeus modernos e norte-americanos difundiram a democracia (ou várias formulações dela) e encontraram em outros povos práticas e instituições facilmente assimiláveis à democracia. Democracias locais, já existentes nas histórias dos povos não-europeus. Da herança ocidental e europeia da ideia democrática nos vem dois aspectos fortemente ligados e anteriores à definição de democracia como regime representativo e parlamentar: a legitimação da pessoa comum, sem pedigree familiar ou de classe e sem qualidades especiais associadas à educação, eloquência ou dinheiro/bens, como igual aos bem-nascidos, aos ricos e aos “intelectuais” (historicamente esse termo teve múltiplos conteúdos e identificações, por isso uso as aspas) – ou seja, a ideia de cidadania como status de igualdade - e a ideia de que os cidadãos (infelizmente as cidadãs só vieram muitos séculos depois!) formam um coletivo que é a fonte soberana do poder. Esse coletivo foi chamado em grego de demos, povo, em português.
 
A igualdade da cidadania e a soberania do povo são inseparáveis de qualquer definição histórica de democracia. Nenhuma ideia de democracia ou materialização da democracia em práticas e instituições socialmente compartilhadas jamais pôde existir ou durar quando um desses aspectos constitutivos foi negligenciado, atacado ou anulado. Isso quer também dizer que ninguém é obrigado a ser democrata, mas se alguém não estiver à vontade para se comprometer com a igualdade cidadã e a soberania da vontade popular não tem direito a falar em nome da democracia. Pode falar em nome de qualquer outro arranjo de poder com alguma forma de legitimação pelas urnas ou pelo respeito a alguma forma de constituição, mas não em nome da democracia. Não há democracia sem pessoas iguais em razão do mero fato de terem nascido humanas e não há democracia sem povo soberano.
 
Outras ideias vêm junto com a democracia: o direito a livremente expressar suas opiniões sem ser reprimido, abusado verbalmente ou atacado fisicamente; o direito de participar das tomadas de decisões sobre os assuntos da comunidade, da cidade, do país, diretamente ou por meio de representantes livremente escolhidos, em condições de competição justa, entre os cidadãos (e cidadãs, desde o século XIX); e o direito de se associar, por qualquer razão ou objetivos legítimos (isto é, aceitáveis ao conjunto da comunidade política, o que muitas vezes requer períodos de argumentação e de luta, mas de qualquer forma se ampara nas leis e práticas já existentes), para melhor se proteger ou assegurar o reconhecimento de demandas, valores e direitos particulares. Nos tempos modernos, esses direitos foram descritos como direitos humanos e a luta passou a ser definir quem conta como “humano” e que outros direitos podem ser incluídos como sendo “humanos” - ou seja, extensivos a toda e qualquer pessoa.
 
Uma consequência inevitável dessa configuração da democracia é que ela é um regime público, que requer a existência de um espaço público para que a expressão da opinião, a tomada de decisões coletivas e o exercício da associação aconteçam. Esse espaço, para ser de todos e todas, não pode ser de ninguém, em particular, quer um líder ou muitos líderes, mesmo que legitimados. Outra consequência desse caráter público, claramente representada no direito de associação, é que esse espaço público é plural, não é homogêneo na sua composição (diferenças de classe, condição, ideologia, origem étnica, pertencimento religioso, etc.), nem unificado (vai além do governo e do estado), nem consensual (acho que já está óbvio por quê!).
 
Isto quer dizer duas coisas: (i) que a democracia só existe onde há espaço público assegurado para a expressão, o reconhecimento e a garantia de direitos de cidadania; (ii) que, embora exista em nome do povo e como vontade do povo, a democracia admite e assume a heterogeneidade desse povo. O povo da democracia não está pronto antes de ela existir, vai se constituindo continuamente – e nunca sem luta – ao longo do tempo. Quem é ou não povo, quem entra e quem sai, quem fala, quem representa, quem deve defender ou proteger o povo, isso não está dado previamente na democracia, nem na origem da mesma (quando escravos questionaram que só os bem-nascidos e os livres – ricos ou pobres – fossem considerados cidadãos) nem ao longo de sua história (na qual muitos povos, com as mais diversas culturas e formas de organização social, abraçaram a ideia democrática e procuraram implementá-la na prática, a partir de múltiplas concretizações da mesma, quer na Europa quer em outras partes do mundo colonizado pelos europeus). E porque esse povo existe com um pé nos vínculos cotidianos das pessoas e outro no espaço público em que o povo se torna um ente político, há uma tensão permanente entre povo e governo, de um lado, e entre povo e seus representantes, de outro, que muitas vezes pode levar a democracia a estar do lado de fora do governo e da representação política, contra estas duas expressões do poder organizado, que podem ser democráticas e populares ou não.
 
Por ser histórica, a democracia não apenas possui uma história feita de conquistas e retrocessos, não apenas questiona qualquer naturalização da desigualdade e da injustiça (em nome da natureza das coisas ou da vontade divina), não apenas requer existir como coisa pública, mas também está aberta ao futuro. Está aberta não só porque ao longo dessa história mudanças vão acontecendo, alterando, agredindo, mas também expandindo a democracia, e produzindo várias democracias e várias ideologias democráticas (liberalismo, socialismo, anarquismo sendo apenas algumas delas, modernas e ocidentais), mas também porque literalmente não dá para saber como se definirá, comporá ou posicionará o povo em cada momento em que é chamado a pronunciar-se.
 
Isso, de um lado, abre a democracia, permite que ela se torne um horizonte nunca atingido de desejos e demandas por igualdade, liberdade, justiça, participação, reconhecimento, dignidade, etc. De outro lado, enseja que falsificações da democracia (demagogia, corrupção, colonização do espaço público por interesses particulares, seja econômicos ou políticos) e agressões à democracia (por parte de quem “perde” com ela – os derrotados nas votações, os grupos privilegiados e toda sorte de malfeitores, corruptos e criminosos que jamais agem no interesse público, mas apenas os seus e de seus grupelhos – ou de quem se beneficia dela para impor suas vontades e interesses sobre os demais).
 
Falsificações e agressões foram também perpetradas pelas multidões, ao deixarem-se manipular por líderes inescrupulosos e autoritários ou ao tomarem diretamente em suas mãos a realização de ideias de justiça popular que em nome dos valores da comunidade violaram os direitos de minorias de cidadãos e cidadãs e os processos de tomada de decisões e de gestão da justiça. O povo, ou grupos agindo em seu nome, em vários momentos negou/negaram a democracia em nome da vontade popular.
 
Assim, a história da democracia é feita de momentos edificantes, momentos desmoralizantes e momentos indignantes. Ela pôde, em muitos momentos, ser negada ou transformada numa versão bastarda, distorcida e mesmo cínica e cruel (como a existência de parlamentos e eleições em regimes ditatoriais e autocráticos, a montagem de regimes coloniais ou a realização de guerras em seu nome). Mas algo perdura na ideia democrática e nos exemplos de sua história que a destinam continuamente ao futuro, levando milhões a aceitá-la como seu horizonte do mundo desejado, da comunidade ideal, ou da salvação/superação dos males sociais do presente, a acreditar que apesar dos fracassos e falsificações, a democracia ainda está por chegar, por ser reinventada, por ser aprofundada e ampliada.
 
Essa grande simplificação, por razões de espaço e de argumentação, da ideia de democracia, que chamo de democracia por-vir, seguindo (mas não rigorosamente) o filósofo Jacques Derrida, pede, para cidadãos e cidadãs cristã(o)s, uma reflexão que muitos já fizeram: esse regime é compatível com a religião, com a fé? Do ponto de vista histórico, adotado aqui, só há uma resposta: sim, porque já foi e continua sendo para milhões de cristã(o)s ao redor do mundo, por dois milênios. Mas entendo que isto não seja suficiente nem aceitável, numa certa perspectiva, porque o fato de algo acontecer não o torna automaticamente legítimo e porque o fato de que uma numerosa multidão compatibilizar democracia e religião/fé não quer dizer que a religião/fé só possa se expressar como adesão democrática. Assim, é preciso responder aos dois problemas.
 
Falei de perspectiva. E isso é importante, porque se considerarmos que ao longo da história milhões de cristã(o)s fieis a suas crenças e valores, comprometidos com suas igrejas e sinceros/honestos em sua prática, têm apoiado ou contribuído ativamente para o advento e as expansões da democracia, a suspeita de que sua fé seria inautêntica só por “seguirem a multidão” é um julgamento no mínimo precipitado, senão injusto. Por outro lado, o fato de alguém não se comportar como um(a) democrata ou não compartilhar de nossa visão de democracia não deveria ser motivo de rejeição no nível pessoal e não deveria autorizar manifestações de ódio ou repressão da parte de quem é democrata.
 
Entendo que a não aceitação dessa questão de perspectiva – que basicamente define quem é um(a) democrata pluralista – está presente dos dois lados dos problemas que apontei acima. Nem todo mundo está disposto a assumir uma posição pluralista e democrática. Prefere pensar na democracia como a imposição da vontade majoritária (sempre construída e modificável, nunca esqueçamos) sobre todas as pessoas, povos e culturas. Ou se impacienta com a heterogeneidade do espaço público democrático, pressionando por sua “simplificação” e restrição, para que o povo possa emergir como uno, indivisível, homogêneo. Nos dois casos, ocorre com a democracia o que já havia sido previsto por Alexis de Tocqueville em suas comparações sobre a democracia americana e a república francesa, no século XIX: a democracia se torna autoritária, oligárquica ou mesmo totalitária (o que já significa, a rigor, seu completo desaparecimento, restando apenas o “Povo-Uno” ou “a comunidade”). Primeiro ponto, portanto: não há uma única forma de justificar – nem muito menos de rejeitar – o vínculo entre religião e democracia, porque cidadania e religião não são mutuamente correspondentes. Há espaço para diferenças, variações e conflitos entre elas.
 
Segundo ponto, se nos colocamos já em favor do vínculo religião-democracia, é possível encontrar não apenas múltiplas conexões com narrativas e argumentações doutrinárias do cristianismo como várias maneiras concretas como isso foi feito. Destacarei alguns elementos, necessariamente de modo simplificador e ilustrativo, por não ser este o lugar de apresentar algo sistemático e mesmo porque não tenho competência para fazer o exercício completo; muitos outros já o fizeram e melhor.
 
Para começar, se entendemos a democracia contemporânea como reconhecimento do igual valor e igual direito de toda pessoa humana (deixando em aberto ainda se ela é nativa ou não de um estado democrático), o primeiro ponto de contato com a teologia cristã é a imago Dei, a compreensão judaico-cristã de que os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus e que mesmo o pecado não destruiu essa marca. A imagem de Deus é a garantia da dignidade intrínseca de todo ser humano, como criatura de Deus. Naturalmente, a imago Dei não foi, por muito tempo, compreendida como indicativa de uma igualdade fundamental traduzida em direitos e garantias iguais a cidadãos e cidadãs. Mas sem esta pré-compreensão não me parece razoável justificar o valor universal da democracia.
 
Em segundo lugar, tomando o elemento participativo da ideia de governo do povo, a compreensão cristã de comunidade se construiu a partir da observação da vida política greco-romana. Igreja significa “assembleia”, em grego, convocação para a praça pública (ágora) dos cidadãos, (naquela época) os homens livres e dotados do direito à voz e ao voto nas discussões e decisões da comunidade. Isso raramente é ressaltado, mas a forma como as primeiras comunidades cristãs se viram representou uma tradução “espiritual” de uma realidade política. Já naquele momento, havia uma série de radicalizações em relação à cidadania grego-romana, cidadania de homens, ricos e bem-nascidos: homens e mulheres, escravos e livres, judeus e gentios tinham igual acesso a esta comunidade e, portanto, à “cidadania” cristã.
 
Funções e papeis contraculturais e politicamente questionadores emergiram nesses ambientes. Ao mesmo tempo, esses cidadãos e essas cidadãs de novo tipo mantinham uma relação de distância crítica e mesmo de autoproteção em relação aos poderes imperiais. Isso durou quase três séculos e deixou marcas fundas na identidade cristã, mesmo após o cristianismo tornar-se fé e ideologia do estado romano, com a conversão de Constantino, que “constantinizou” o cristianismo. Um terceiro aspecto dessa radicalização foi o caráter cosmopolita dessa polis alternativa, não se atendo aos limites do Império.
 
Como tudo histórico, este processo não evoluiu sem contradições, impactos variáveis e reversões. Depois de oficializado como religião imperial, o cristianismo foi inoculado com o vírus do poder e todas as suas formas de produção, justificação e imposição da desigualdade, do privilégio e da distinção. As práticas democráticas dos primeiros séculos tornaram-se uma tradição marginal, nunca ausente, mas domesticada ou silenciada pelos novos porta-vozes oficiais da fé. Foram os movimentos de Reforma que finalmente explodiram na Alemanha no início do século XVI e espalharam-se pela Europa em seguida, que ressuscitaram o vínculo entre religião (organizada), fé (pessoal) e democracia.
 
Mesmo neste processo histórico, as experiências mais radicais de aprofundamento do vínculo foram duramente reprimidas. Desde então, intermitentemente, mas incontrolavelmente, a presença de cristãos entre pensadores e militantes democráticos não se deixou de notar, em todas as partes do mundo em que o cristianismo se espalhou, ainda que raramente mantendo-se legitimada desde dentro da Igreja por muito tempo. A luta entre a “Igreja oficial” e as “comunidades das origens” tem se mantido viva e a própria reflexão que ora faço se justifica pelo mal-estar que a conjuntura brasileira dos últimos dois anos tem produzido, reatualizando o embate entre as igrejas cristãs brasileiras.
 
Em terceiro lugar, a expectativa escatológica da fé cristã sempre foi articulada numa dupla referência à realidade do poder estabelecido (qualquer leitura do Apocalipse já revelaria isso, mas não é preciso muita perspicácia para percebê-lo nos evangelhos e nas epístolas, com diferentes graus de aprofundamento e características específicas) e à imagem do mundo transformado pela concretização do governo de Deus (que o Segundo Testamento chama de “reino de Deus”). A inconformidade com este mundo e o ardente desejo de um mundo novo, enfim reconciliado e reunido sob o único governo de Deus não aparece, nas páginas do Segundo Testamento, como um exercício de êxtase espiritualizante. O “reino” é uma categoria política e as expressões que definem sua chegada e plenitude o caracterizam, não como uma “teocracia” em qualquer dos sentidos que historicamente vigoraram: no “reino” o poder deixa de estar em algum lugar, concentrado, em prejuízo ou exclusão de muitos.
 
Há uma espécie de deposição de todos os poderes frente a Deus, levando ao fim de todo sofrimento, violência, exploração e abuso; levando a uma fraternização/sororização de todos os filhos e filhas de Deus enfim reunidos(as), num mundo que ainda possui política (reinos/estados, nações, idiomas, práticas sociais – vejam que tenho o final do livro do Apocalipse em mente), mas não mais desigualdades de poder. Em suma, essa perspectiva permite dar uma dimensão de profundidade ao vínculo entre religião e democracia, que afetaria tanto o que hoje chamamos de cultura política como o que chamamos de imaginário democrático. De qualquer forma, em clara contradição com expressões conservadoras, particularmente as antidemocráticas de muitos cristãos e cristãs de hoje, não só no Brasil.
 
Por último, da experiência protestante desde a qual falo (mas de forma alguma ausente no contexto do catolicismo e ortodoxia contemporâneos), as experiências de conflitos entre cristãos, nos séculos XVI e XVII, e entre cristãos e gente de outras religiões e fés, desde então, produziu o discurso da tolerância religiosa – base de toda a elaboração política do direito à consciência e expressão do pensamento e das convicções pessoais. Embora haja compreensões diversas da tolerância, e eu mesmo ache que o termo traz muitos problemas que talvez justifiquem abandoná-lo, o termo é suficientemente conhecido e aparentemente aceito, para recomendar sua utilização aqui. Pois bem, duas das consequências mais relevantes dessa ideia – praticamente inexistente, nesses termos, no cristianismo anterior à Reforma – são (i) a de que tolerar não é apenas suportar a contragosto o “erro”, mas dar ao outro o “direito a errar”, até que se forme um juízo comunitário ou civilizacional suficientemente amplo, sólido e reconhecidamente justo sobre esse “erro”; e (ii) tolerar é não impor aos outros as minhas convicções como se a verdade estivesse plena e definitivamente do meu lado.
 
A base da compreensão protestante da tolerância, portanto, ao mesmo tempo se ancora na concepção do ser humano como ser falível, imperfeito e pecador, e na crença de que a verdade é um valor coletivo, construído transculturalmente e historicamente em sociedades que não (mais) compartilham as mesmas origens, os mesmos objetivos e a mesma religião. Isso tem consequências óbvias para o contexto brasileiro, pois esta quarta dimensão do vínculo entre cristianismo e democracia se tornou um problema face à mobilização política dos evangélicos e dos católicos conservadores, os quais têm abjurado da tolerância na política e na vida cotidiana, em nome de uma verdade indivisa (e supostamente concentrada do lado deles) e de uma “matriz religiosa cristã” majoritária que é, na verdade, uma invenção colonial.
 
É preciso concluir, ainda que permaneçam muitas questões a desenvolver e outras a acrescentar neste breve exercício. Tentei argumentar aqui em favor de um sólido (e a meu ver inerradicável) vínculo entre religião e democracia, explorando o caráter histórico (contingente, evolutivo, mas também contraditório e reversível) da democracia, sua crítica da naturalidade das desigualdades de poder e riqueza entre os seres humanos e de qualquer autoridade exercida sem o consentimento ativo de cidadãos e cidadãs, e sua abertura a novas realidades, novas questões e novos embates. Apresentei quatro bases teológicas no contexto cristão para compreendermos e justificarmos este vínculo numa direção não só democrática, mas também pluralista. A democracia, nesta leitura, vincula-se com motivos bíblico-teológicos que a ligam à criação, à salvação e ao juízo (ou escatologia). Democracia nunca inteiramente realizada, consciente de sua falibilidade, portanto, aberta a corrigir-se pela escuta dos reclamos dos subtraídos, silenciados, ignorados ou violentamente excluídos do acesso e da dignidade (cidadania), da participação e dos benefícios das decisões. Democracia que, ao mesmo tempo, pode ser vivida desde diferentes culturas e religiões, nunca estando inteiramente de um lado ou de outro de diferentes compreensões democráticas, mantendo-se apenas firmemente vigilante contra quem se coloca do lado de fora da democracia, para combatê-la e negá-la, em nome do que quer que seja. Este seria um dos sentidos da chamada laicidade democrática – ser um regime de leigos (portanto, não clericalizada, feita por gente comum, dentro e fora das igrejas), ser um regime não oficialmente ligado a qualquer religião, e ser um regime aberto a toda e qualquer religião – que valeria a pena lutarmos para construir (não exatamente defender) hoje, neste lugar chamado Brasil, sabendo que este desafio não é só nosso (brasileiros, cristãos, ecumênicos ou sem-religião), nem somente para hoje.
 
Biografia:
 
Joanildo Burity é leigo anglicano, cientista político, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e professor dos Programas de Pós-Graduação em Sociologia e em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco. Como pesquisador, trabalha com o tema religião e política há três décadas, tendo realizado pesquisas sobre religião e eleições; religião e políticas sociais; religião e democracia; religião e movimentos sociais; religião, identidade e cultura; religião e globalização, tanto no contexto brasileiro como comparativamente, em termos internacionais. Como ativista cristão, tem participado de inúmeras iniciativas no campo da “esquerda ecumênica”, entendido em termos teológicos ou políticos. Foi representante da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil no Conselho Consultivo Anglicano (2009-2016) e membro do Comitê Permanente, órgão executivo deste (2012-2016).
 
Análises relevantes ao debate aqui proposto podem sem encontradas em seus livros Fé na Revolução (2010, Editora Novos Diálogos) e Redes, parcerias e participação religiosa nas políticas sociais no Brasil (2006, Editora Massangana) e na coletânea organizada com Maria das Dores Campos Machado Os Votos de Deus: evangélicos, política e eleições no Brasil (2005, Editora Massangana).
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Um 'singelo e corajoso documento, um ato de fé pelo planeta', afirma Faustino Teixeira, ao comentar a mensagem do Papa Francisco por ocasião do dia mundial de oração pelo cuidado da criação, celebrado no dia 1º de setembro.
 
Faustino Teixeira é professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – PPCIR-UFJF, pesquisador do CNPq e consultor do ISER-Assessoria.
 
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Eis o artigo.
 
O dia primeiro de setembro de 2016 veio marcado por um belo gesto de papa Francisco, na mensagem que enviou ao mundo celebrando o dia mundial de oração pelo cuidado da criação . No singelo e corajoso documento de Francisco o “ato de fé pelo planeta”, na expressão cunhada por Paula Ferreira em artigo publicado no O Globo (02/09/2016).
 
É um texto que nos convoca para a urgente vocação de “guardiões da criação”. O que vemos por todo lado, nesse tempo do antropoceno, é uma “exploração irresponsável do planeta”, onde os mais vulneráveis são os “pobres do mundo”. Dentre as irradiações letais, o violento aquecimento do planeta, que em 2015 atingiu um auge inusitado. Como diz Francisco, “as mudanças climáticas contribuem também para a dolorosa crise dos migrantes forçados”.
 
Em linha de sintonia com a ecologia integral, Francisco reitera a nota que vem sublinhando desde a encíclica Laudato si ( maio de 2015) , em torno da profunda ligação que irmana os seres humanos entre si e com a criação. O ataque à natureza traduz, sem dúvida, um ataque ao ser humano. Em verdade, “cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado”. É uma reflexão que vem corroborar toda uma linha de pesquisa presente hoje na antropologia, que rebate a cisão tradicional entre natureza e cultura. A sociedade e o ambiente não são realidades descoladas, mas intimamente entrelaçadas numa rede de vida e criação. Os humanos, ao contrário do que se propagou no Ocidente pós-cartesiano, não são o “umbigo do mundo”,  mas “parte do vivente”. Estão envolvidos na textura do mundo. Não estão aí apenas para ocupar o mundo, mas para habitá-lo com respeito e cuidado. Tudo aquilo que vem brindado com o toque da vida sinaliza um movimento de ressonância fundamental. O espaço da criação é um espaço de movimento: tudo vem marcado pela fragrância da vida, deixando trilhas abertas e interativas. O meio ambiente, como tão bem mostrou Tim Ingold, é “em primeiro lugar, um mundo no qual vivemos, e não um mundo para o qual olhamos”.
 
A mensagem de Francisco traduz uma preocupação que é comum a muitas lideranças religiosas de tradições distintas, como o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, que em novembro de 1997 dizia em discurso na Califórnia que o ardor destrutivo do ser humano diante da biodiversidade traduz um “pecado contra Deus”. Assim também o suave monge do Vietnã, Thich Nhat Hanh, em Carta de amor à mãe terra (2013), insiste sobre o traço vivo da Terra e a dimensão de co-pertença do humano a este “belíssimo e generoso planeta”. Não pode haver sentimento de separação, pois tudo que advém de nós e que nos alcança de fora provém da Terra. Ela não é simplesmente o ambiente em que vivemos, mas tecido que anima a nossa existência: nós somos Terra.
 
Em sua ardente mensagem, Francisco convoca a um exame de consciência, a “consciência amorosa de não estar  separado das outras criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal”. Há um toque de graça em sua reflexão, ao indicar com vitalidade o mundo como um “dom recebido do amor do Pai”. Um exame de consciência que envolve uma mudança radical de rumo e o deixar-se habitar por uma espiritualidade da criação. De fato, como diz Francisco, “o cuidado da natureza faz parte dum estilo de vida que implica capacidade de viver juntos e de comunhão”. E na sequência de sua reflexão, um dado novidadeiro com a inserção do cuidado da casa comum como um complemento atual e urgente das tradicionais obras de misericórdia. E porque ? Em razão da misericórdia ter por objeto “a própria vida humana na sua totalidade”.
 
Esse cuidado da casa comum requer de todos uma nova dinâmica contemplativa. Já dizia Francisco na Laudato si que “todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, as águas, as montanhas: tudo é carícia de Deus” (LS 84). Tudo vem permeado por um Mistério que pode ser contemplado de diversas formas: “Há um mistério a contemplar em uma folha, em uma vereda, no orvalho, no rosto do pobre” (LS 233). Em sua mensagem de setembro de 2016, Francisco fala da “grata contemplação do mundo”, do cuidado essencial que acontece nos “simples gestos do cotidiano”, que rompem com “a lógica da violência, da exploração, do egoísmo”.
 
Francisco assim assinala uma espiritualidade alternativa, pontuada pela qualidade de vida, pelo entusiasmo inter-relacional. Trata-se de uma espiritualidade que gera e irradia alegria, que nasce de um mundo interior atuado, tocado pela dinâmica da simplicidade; de um mundo interior capaz de alegrar com pouco, pois marcado pela convicção de que “quanto menos, tanto mais”. O segredo está nesse cultivo da vida interior, que faz gerar um equilíbrio singular e que propicia a recuperação da “harmonia serena com a criação”. Há uma familiaridade única entre a paz interior e o cuidado da ecologia (LS 225).
 
Fonte: IHU Unisinos
Foto: Nasa
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A 16ª edição da Campanha “Primavera para a Vida”, promovida pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), teve inicio ontem com o tema “Direito à Vida da Juventude”. O evento busca cultivar sementes de justiça, paz e solidariedade para que todos tenham acesso aos seus direitos fundamentais.
 
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Apesar do Brasil possuir uma lei que reconhece a juventude como protagonista de direitos, o Estatuto da Juventude, a existência dessa legislação não assegurou políticas públicas que contribuam na transformação significativa da situação vivida pela juventude brasileira. Sobretudo, no que diz respeito ao acesso à educação de qualidade, à segurança, ao trabalho, ao acesso ao lazer e às condições para participação nos processos sociais e políticos. Dado mais gritante e desafiador para toda a sociedade é o elevado índice de violência praticado contra jovens negros, vítimas de extermínio nas periferias urbanas.
 
Realizada desde o ano 2000, o intuito da Campanha Primavera para a Vida é mobilizar recursos para as atividades da CESE em todo o país, fortalecendo os grupos populares nas suas lutas por direitos, por meio do apoio a projetos e estreitar e ampliar a articulação com as bases das Igrejas.
     
Ao longo de 43 anos, a CESE já apoiou mais de 11,5 mil projetos de organizações populares de todo o Brasil, contribuindo para o fortalecimento de direitos de aproximadamente 10 milhões de pessoas nos campos de gênero, raça, juventude, meio ambiente, economia solidária, comunicação e desenvolvimento institucional e diálogo inter-religioso.
     
Como esta Campanha e o Grito dos Excluídos, muitas mobilizações estão acontecendo no país retomando as ruas, as lutas, “a necessidade de reconstrução das forças populares, do papel da Igreja como formadora e mobilizadora do povo para a construção da justiça social nesta terra, para que o povo não a espere para somente depois da morte” (CPT).
 
Na última reunião do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (Brasília, 5-6/09), após um debate sobre a atual conjuntura brasileira, a diretoria do CONIC, emitiu uma Nota manifestando-se em relação ao atual contexto social, político, religioso e econômico pelo qual passa o Brasil:
 
Desde março de 2014, no contexto de memória dos 50 anos do Golpe civil-militar, temos nos pronunciado publicamente e chamado a atenção para a fragilidade da democracia brasileira e dos riscos que isto representaria ao país.
 
Compreendemos que os últimos fatos ocorridos demonstraram, por si só, que nossa democracia é limitada e inconclusa. Os anos de abertura democrática não lograram desmontar as estruturas geradoras de desigualdades.
 
Entendemos que a decisão do Senado brasileiro de confirmar o impedimento da presidente Dilma Rousseff repetiu as trajetórias recentes ocorridas no Paraguai e em Honduras, em que presidentes democraticamente eleitos foram depostos. As rupturas na democracia têm significado, em nosso continente, o aprofundamento de um modelo econômico baseado na concentração de renda e na exclusão social. Os únicos a ganharem com estas rupturas são as velhas elites que se apropriam dos recursos públicos e optam pela especulação financeira em detrimento da produção.
 
Dentre as várias medidas anunciadas, preocupa-nos, de forma especial, a PEC 241/2016, que congela os gastos públicos por 20 anos. Esta PEC limitará os recursos para a saúde e para a educação pública, colocando em risco as conquistas alcançadas nos últimos anos.
Da mesma forma, expressamos nossa preocupação com a Reforma da Previdência, que prevê o aumento considerável da idade mínima para a aposentadoria. Estas decisões que afetam diretamente a vida das pessoas mais vulneráveis são tomadas sem um amplo debate com a sociedade.
 
A repressão recente nas mobilizações ocorridas em diferentes estados e a prisão de lideranças de movimentos sociais são medidas e posturas que repudiamos. A livre manifestação é um direito garantido por nossa Constituição. Não aceitamos que militantes e movimentos sociais sejam reprimidos e criminalizados.
 
Projetos Leis com conteúdos nada democráticos, como o Escola Sem Partido, somado ao banimento da perspectiva de gênero e ao aumento do fundamentalismo religioso, indicam para uma tendência ao obscurantismo. Afirmamos que é fundamental preservar as liberdades de expressão e religiosa. No entanto, percebe-se que há um risco destes princípios serem manipulados para impedir que seja questionada a violência sexista e racista.
 
Estamos às vésperas das eleições municipais. A conjuntura nacional precisa ser levada em consideração nos debates locais. É necessário que os candidatos/as às prefeituras e câmaras de vereadores sejam questionados em relação à sua compreensão de democracia. É importante que candidatos e candidatas expressem claramente o seu compromisso com os direitos humanos.
 
Neste ano em que realizamos a Campanha da Fraternidade Ecumênica, conclamamos para que sejam promovidos debates sobre este tema e que candidatos sejam desafiados a assumir o compromisso com um serviço de saneamento básico público e universal. A organização de Conselhos Municipais para a implementação e monitoramento dos Planos Municipais de Saneamento Básico é uma estratégia imprescindível para se evitar a privatização deste serviço e garantir que toda e qualquer parceria público-privada desenvolvida para a implementação dos serviços de saneamento básico sejam definidas com a sociedade civil local.
 
Outra questão a ser considerada no contexto das eleições municipais e estaduais é a natureza laica do estado brasileiro. Afirmamos que a laicidade precisa ser respeitada nas esferas federal, estadual e municipal. Essa é uma prerrogativa fundamental para o convívio entre diferentes religiões, para o respeito às pessoas que não professam uma religião e para a valorização da diversidade religiosa.
 
É tempo de refletir: Por que, quando imaginávamos que poderíamos dar passos mais ousados para o aprofundamento e a consolidação da democracia, reforçam-se movimentos que reivindicam a manutenção de antigos sistemas e velhas ordens?
 
Nossa certeza é que Deus caminha conosco, por isso existe esperança de um futuro (Jr 31.17). “Cabe reinventar-nos como sujeitos cidadãos e cidadãs, pôr as mãos à obra na grande tarefa de refazer a democracia” (C.Grzybowski/Ibase).
 
A liturgia deste domingo confirma esta certeza. Através de parábolas, Cristo nos conduz à compreensão mais profunda do mistério de Deus e do mistério da condição humana.
 
Em tempos eleitorais, cresce o interesse em torno dos números e das proporções. No Evangelho de hoje (Lc 15,1-32), Jesus também lança mão de números e proporções nas parábolas que conta: Primeiro, uma ovelha entre 100 acaba se perdendo. E é sobre este 1% do rebanho que o pastor se detém a fim de resgatar aquela que se desviara do caminho. Reencontrá-la é motivo de alegria.
 
Em segundo lugar, uma moeda entre as 10 que a mulher possuía também some. Ela acende a lamparina, varre a casa, encontra a moeda e faz festa! Grande alegria em reencontrar os 10% de suas economias que haviam se extraviado.
 
E, finalmente, na parábola do Filho Pródigo, um entre dois filhos se deixa seduzir por falsas ilusões e desliga-se da família em busca de aventuras pouco consistentes. Perde-se. E o Pai se mantém firme na esperança do retorno de 50% de sua descendência. O rapaz retorna, motivo de festa e alegria.
 
As proporções são diferentes: 1, 10 e 50%. Mas, segundo Frei Gustavo Medella, o amor é sempre o mesmo: total, 100%.
 
Nosso Deus sabe que não são simples números, mas que cada cifra traz consigo uma vida, uma história, um filho muito amado que Deus deseja ter junto de si. Jesus deseja representar, apresentar e encarnar este amor sem reservas e tem como meta despertá-lo no coração da humanidade.
 
Nem sempre consegue, não por culpa ou ineficiência, afinal é Deus, mas pelo fato de respeitar a liberdade fundamental das pessoas em aderir ou não o projeto que Ele propõe!
 
Fonte: gentedeopiniao.com.br
Foto: Reprodução
 
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Segundo estudo citado pelo relator das Nações Unidas para água e saneamento, o brasileiro Leo Heller, nos últimos 15 anos houve ao menos 180 casos de reestatização do fornecimento de água e esgoto em 35 países, em cidades como Paris (França), Berlim (Alemanha), Buenos Aires (Argentina), Budapeste (Hungria), La Paz (Bolívia) e Maputo (Moçambique).
 
As quebras ou não renovações dos contratos ocorreram por falhas das empresas em atingir metas de universalização, além de problemas com transparência e dificuldade de monitoramento do serviço pelo setor público.
 
O Brasil tem 40% de sua população sem acesso adequado à água e 60% sem acesso a esgotamento sanitário. Apesar da evolução nas últimas décadas, o quadro permanece preocupante e, para solucioná-lo, são necessários mais investimentos públicos continuados, enquanto a privatização desses serviços já se mostrou inadequada em diversos países, disse o relator especial das Nações Unidas sobre o tema, o brasileiro Leo Heller.
 
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“A empresa privada não investe o suficiente e adota política de exclusão de populações mais pobres, impondo tarifas mais altas. Além disso, não atingem as metas dos contratos”, declarou Heller, lembrando que o próprio Banco Mundial, antes defensor das privatizações no saneamento, já reconheceu que as privatizações não são uma “panaceia para todos os problemas”.
 
As declarações de Heller têm como base estudo de 2014 que mostrou tendência global de reestastização desses serviços. Segundo o relatório, nos últimos 15 anos houve ao menos 180 casos de remunicipalização do fornecimento de água e esgoto em 35 países, em cidades como Paris (França), Berlim (Alemanha), Buenos Aires (Argentina), Budapeste (Hungria), La Paz (Bolívia) e Maputo (Moçambique). Desse total, houve 136 casos em países de alta renda e 44 casos em países de baixa e média renda.
 
No mesmo período, houve um menor número de privatizações, solução adotada por Nagpur (Índia), onde a iniciativa passou por forte oposição e crítica, e Jeddah (Arábia Saudita).
 
O estudo, elaborado pela Unidade Internacional de Pesquisa de Serviços Públicos (PSIRU), Instituto Transnacional (TNI) e Observatório Multinacional, apontou ainda que as iniciativas de reestatização ocorreram como resposta às falsas promessas dos operadores privados e sua incapacidade de priorizar o atendimento às comunidades em detrimento do lucro, além de falta de transparência e dificuldade de monitoramento de suas atividades pelo poder público.
 
“Experiência direta com problemas comuns da administração privada da água — da falta de investimentos em infraestrutura, a aumentos tarifários a riscos ao meio ambiente — convenceu comunidades e autoridades de que o setor público está mais bem posicionado para fornecer serviços de qualidade a cidadãos e promover o direito humano à água”, disse o relatório das organizações.
 
Heller lembrou que recentemente, no Brasil, o discurso da privatização do saneamento básico voltou à tona. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou em junho que pretende ajudar o governo do estado do Rio de Janeiro a privatizar empresas, como a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE).
 
“O que podemos observar é um discurso forte no sentido de privatização do sistema, como grande saída para resolver o problema”, disse. “Mas não é essa a lição de experiências de privatização em outras partes do mundo. Por trás desse discurso poderíamos ler uma tentativa de afastamento do Estado em sua obrigação de oferecer saneamento”, declarou.
 
Avanços nos investimentos em saneamento
 
De acordo com o relator da ONU, houve avanços na cobertura da população atendida no Brasil por serviços de água e esgoto especialmente a partir de 2003, acompanhados de um aumento histórico do aporte de recursos financeiros do setor.
 
Segundo dados do Plano Nacional de Saneamento Básico (PLABSAB), enquanto em 2003 foram desembolsados 1,07 bilhão de reais para saneamento em recursos não onerosos — que vêm do Orçamento da União —, esse número chegou a 3,99 bilhões em 2011.
 
“A política de saneamento precisa de mais continuidade (do que outras políticas públicas), requer um ciclo longo de investimentos. Quando há descontinuidade, isso é fatal”, disse Heller. “Essa é uma preocupação atual. É necessário saber em que medida o ajuste fiscal não comprometerá o que foi feito nos últimos anos”, completou.
 
O relator destacou como um dos avanços dos últimos anos a aprovação da Lei Nacional do Saneamento Básico, de 2007, que estabeleceu regras para a prestação de serviços e impôs a necessidade de regulação do sistema, o que acabou dando origem a diversas agências reguladoras estaduais.
 
“Houve certo avanço na cobertura da população. Mas tem havido a meu ver muita dificuldade de ver como o governo federal decide a aplicação de seus recursos”, disse. “O planejamento pode ser a solução, mas ainda está engatinhando”, salientou.
 
Dados do PLABSAB de 2010 apontam que 59,4% da população brasileira tem acesso adequado a abastecimento de água, 39,7% têm atendimento adequado a esgotamento sanitário e 58,6% têm acesso adequado a manejo de resíduos sólidos.
 
A maior parte da população atendida está na região Sudeste, enquanto Nordeste e Norte são as regiões mais afetadas por paralisações ou interrupções no abastecimento de água. A região Nordeste também registra o maior déficit no serviço de esgoto sanitário (30%).
 
“O Brasil ainda está distante dos países desenvolvidos. Mas está em situação similar aos latino-americanos, parte dos asiáticos, e ao norte da África”, afirmou o relator.
 
“Quando observamos os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM), o Brasil aparece bem, tendo cumprido metas para água e esgoto”, explicou. “Mas a meta era pouco ambiciosa. O país a cumpriu, mas deixou grande parte da população sem acesso. A meta não previa a universalização, mas a redução pela metade do déficit.”
 
Segundo Heller, o direito humano à água obedece cinco princípios: disponibilidade, acessibilidade física, aceitabilidade, acessibilidade financeira e qualidade. Ele disse acreditar que esses pontos estão sendo considerados no monitoramento dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), agenda global que ocupou o lugar dos ODM.
 
“Tenho acompanhado discussões com OMS (Organização Mundial da Saúde) e UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), tem havido preocupação em refletir os conceitos dos direitos humanos. A declaração dos ODS fala nitidamente (desses princípios) e as metas sugerem esses conteúdos”, afirmou, completando que, diferentemente dos ODM, os ODS consideram dados desagregados, ou seja, informações regionais de acesso por classe, etnia, entre outros, não apenas médias nacionais.
 
Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) preveem que os países alcancem, até 2030, acesso universal e equitativo a água potável e segura para todos, assim como acesso a saneamento e higiene adequados e equitativos para todos, além de propor o fim da defecação a céu aberto, com especial atenção para as necessidades das mulheres e meninas e daqueles em situação de vulnerabilidade.
 
Saneamento no combate ao zika
 
Heller lembrou que há um forte vínculo entre sistemas de saneamento deficientes e o surto atual do vírus zika, bem como a dengue, a febre amarela e o chikungunya, sendo todos eles transmitidos por mosquitos.
 
O relator divulgou recentemente comunicado sobre o tema junto com outros especialistas das Nações Unidas. O grupo alertou na ocasião que 100 milhões de pessoas na América Latina não têm acesso a saneamento básico e outras 70 milhões a água encanada.
 
“Várias ações de saneamento têm influência grande nos criadouros dos mosquitos. Se há fornecimento intermitente de água ou falta d’água, as pessoas passam a armazenar. Quando não tem esgoto, há empoçamento de água. Quando não há coleta de lixo, há sempre criadouro preferencial do mosquito. E quando não há drenagem, a água de chuva é criadouro”, declarou.
 
“A ação de saneamento seria eficiente e efetiva na eliminação de criadouros. E seria uma solução permanente, já que as iniciativas de combate ao vetor têm curta duração”, lembrou. “O saneamento não só combate essa epidemia, mas também outras doenças como diarreia.”
 
Os relatores especiais fazem parte do Procedimentos Especiais, maior órgão de peritos independentes no sistema de direitos humanos das Nações Unidas. Os especialistas trabalham numa base voluntária; não são funcionários da ONU e não recebem um salário pelo seu trabalho. São independentes de qualquer governo ou organização e prestam serviços em sua individualidade.
 
Fonte: Nações Unidas
Foto: Elza Fiúza/ABr
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Foi realizado, nos dias 2, 3 e 4 de setembro, o Encontro Celebrativo do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) Goiás. Sediado no Convento Mãe Admirável, em Anápolis, a atividade reuniu cerca de 30 pessoas e contou com a participação da secretária-geral do CONIC, Romi Bencke, que atuou como facilitadora do Encontro.
 
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Entre as perguntas que os participantes se propuseram a trabalhar estavam: O que vocês andam conversando pelo caminho... sobre Conjuntura, Juventudes e Urbanidades, Leituras Feministas e de Gênero, Povos e Comunidades Tradicionais, Cerrado e Ecumenismo? Que ambiguidades essas conversas trazem? Nesse contexto, Romi levantou reflexões a partir do evangelho de Lucas, especialmente o texto do discípulo e da discípula de Emaús (Lc 24.13-35).
 
“Foi um momento de partilha dos desafios para a leitura popular da bíblia. Nossa reflexão partiu da proposta do evangelho de Lucas, voltado para a população não judaica. É um evangelho da diversidade, pois valoriza diferentes culturas, valoriza as mulheres e seu protagonismo junto ao movimento de Jesus. É um evangelho que critica a pobreza e o acumulo de riquezas. O texto do evangelho de Lucas provoca para as conversões, no sentido de mudanças de posturas para a superação das desigualdades”, explicou Romi.
 
Houve trabalhos em grupos, no qual as pessoas foram convidadas a debaterem sobre preservação do cerrado, ecumenismo, teologia feminista, conjuntura.
 
O encontro reuniu os grupos do CEBI presentes em todo o estado de Goiás.
 
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Fotos: Tatiane Duarte
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Com a proposta de aliar a fé e a sustentabilidade a Paróquia de São José, que fica na Lagoa, Zona Sul do Rio, deu um grande passo para entrar na era da modernidade. A igreja que recebeu a visita do Cardeal Orani João Tempesta, na manhã deste sábado, se tornou a primeira igreja do país a gerar — através de captação solar — sua própria energia.
 
O líder Católico no Rio abençoou os 56 painéis fotovoltáicos que serão responsáveis pela geração de 1700 kWh/mês, o equivalente a 40% do consumo local. A paróquia, batizada de "igreja solar", é o resultado de uma parceria da Arquidiocese do Rio de Janeiro com o apoio técnico de FURNAS, Casaleve e Instituto-E.
 
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A economia prevista é de R$20 mil por ano na conta de luz. As placas fotovoltáicas foram instaladas no teto da igreja em formato de cruz e podem ser vistas do Cristo Redentor, no alto do Morro do Corcovado. O padre da paróquia antecipou para o DIA que existe também um plano de instalar iluminação de led que irá deixar tornar os  as placas mais visíveis para quem olhar do Cristo. "Já temos o projeto e a mão de obra garantidos, só está faltando o material para colocar em prática", afirmou Omar Raposo, pároco da igreja.
 
“A importância desse projeto é evidenciar que estamos adequados ao desejo do Papa Francisco, a partir da sua Encíclica Verde, Laudato Si, conceito de sustentabilidade e aproveitamento da energia solar e, ao mesmo tempo, um pensamento que deve se ampliar a tantas outras igrejas”, comenta Padre Omar Raposo, pároco da São José. A "Encilia Verde", foi escrita, em 2015 pelo Papa e trata de questões socioambientais mundiais.
 
Alexandre Pinhel, engenheiro de FURNAS que concedeu apoio técnico ao projeto falou sobre a parceria, "o apoio de FURNAS ao projeto da Paróquia São José é mais uma das inciativas que se encaixam com o perfil de empresa cidadã e ambientalmente responsável”.
 
 
Fonte: O Dia
Foto: Estefan Radovicz / Agência O Dia
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A Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal discute, na próxima segunda-feira (12), o tema: “A crise política, econômica, social e ética no Brasil à luz dos Direitos humanos, com foco na permissão aos entes da federação de utilizar estatais não dependentes para emitir debêntures, sob a justificativa de ceder direitos de créditos tributários e não tributários”.

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O debate questiona a legalidade e as reais intenções do PLS 204/2016, de autoria do então senador José Serra. Conforme temos denunciado, esse projeto visa legalizar um esquema de geração de grandes somas de dívida pública, ocultado sob a propaganda de antecipação de receitas por meio da securitização de créditos de dívida ativa e outros. O esquema utiliza empresas não dependentes criadas para esse fim.

Por ter um formato idêntico ao aplicado na Europa a partir de 2010, que literalmente quebrou a Grécia e respondeu pelo aprofundamento da financeirização e crise econômica no continente, a Audiência Pública também convidou a ex-presidente do parlamento grego, Zoe Kostantoupoulou para participar e relatar a experiência grega.

Também foram convidados o ministro da fazenda, Henrique Meirelles; a coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida (ACD), Maria Lucia Fattorelli; o procurador-geral, Paulo Bugarin; o presidente da OAB, Claudio Lamachia; o secretário-geral da CNBB, Dom Leonardo Steiner; a auditora fiscal e coordenadora do núcleo da ACD-SP, Carmen Bressane; Alfredo Portinari Maranca, Presidente da AFRESP e Diego Cherulli, Secretário Geral do IBDPREV.

A Audiência Pública realizar-se-á no dia 12 de setembro de 2016, segunda-feira, às 9 horas, no Plenário nº 2, da Ala Senador Nilo Coelho, Anexo II, do Senado Federal e será aberta ao público.


PARTICIPE!!

Para mais informações, CLIQUE AQUI.

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O que mais tenho escutado e lido nos últimos dias, principalmente da boca dos novos inquilinos do poder no Brasil, é que o impedimento da Presidente Dilma é “página virada”. Agora começou um novo tempo, tempo de retomar o crescimento, resolver a questão econômica, fazer as “reformas” para que o Brasil retome o seu lugar de país emergente e pujante. E por aí via o discurso oficialista.

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Página virada? Desconfio que a linguagem denuncia, antes, uma tentativa de enganação, de ilusão que os novos governantes nos querem fazer descer goela abaixo, sem maior cerimônia. Os novos governantes vieram com tudo pronto e decidido. Basta examinar as novas “pautas-bomba” que estão na mesa do Congresso. Só que desta vez – com a maioria de 70% dos votos dos congressistas, sabe-se lá conseguidos a que custo – a bomba cairá no lado mais fraco, isto é, de nós cidadãos, trabalhadoras e empreendedores.

É só acompanhar alguns noticiários mais isentos, excetuando a TV oficial da Vênus Platinada. Como escreveu outro dia um dos poucos políticos sérios do RS, o que temos no cenário atual é a vitória do capitalismo mais predatório, que vem com tudo para acabar com o meio ambiente (via mineração criminosa, continuação da venda de terras a estrangeiros e envenenamento das terras no agronegócio, privatização de mananciais de águas, de superfície e subterrâneas, e tantos outros assaltos às riquezas do país). Junto com estas ações, desmonte da Petrobras com fins de privatizar recursos como os do pré-sal (também este gerador de grandes problemas ambientais no fundo do mar!), privatizações imediatas de empresas públicas, fim do processo de integração com nossos vizinhos do Mercosul, Unasul, e secundarização das alianças estratégicas com os BRICS, para voltarmos a ser satélite do grande irmão do norte.

E tem mais: mudanças na CLT, aumento da idade de aposentadoria para 65 anos, perda de direitos sem qualquer compensação, falta de transparência na gestão da conta da Previdência, como por anos vem sendo denunciado pelo bravo senador Paulo Paim. Quer dizer, nada de página virada, mas um torniquete que está a anunciar um novo momento dominado pelos velhos esquemas, agora legalmente pelos corruptos de sempre. Não se pode esquecer nem virar a página quando mais de 60% dos senadores que votaram contra Dilma na Presidência enfrentam processos na Justiça. Infelizmente, estes processos andam a passo de tartaruga, enquanto o julgamento de Dilma levou 100 dias e não conseguiu provar o seu “crime de responsabilidade”. Tanto que o novo governo já enviou ao Congresso proposta de Decreto para “legalizar” o que se chamou de “pedaladas fiscais”. Página virada? Para quem? Não para quem continuará a lutar e exigir justiça em todos os sentidos e âmbitos da vida nacional.

Roberto E. Zwetsch é professor de Teologia Prática das
Faculdades EST em São Leopoldo (RS) e pastor da
Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.

Foto: Acervo pessoal

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A CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço) celebra a chegada da nova estação com a 16ª edição da Campanha Primavera para a Vida. O evento busca cultivar sementes de justiça, paz e solidariedade para que todos e todas tenham acesso aos seus direitos fundamentais.

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Neste ano, a campanha traz o slogan “Direito à Vida da Juventude”. Isso porque, apesar do Brasil possuir uma lei que reconhece a juventude como protagonista de direitos, o Estatuto da Juventude, a existência dessa legislação não assegurou políticas públicas que contribuam na transformação significativa da situação vivida pela juventude brasileira. Sobretudo, no que diz respeito ao acesso à educação de qualidade, à segurança, ao trabalho, ao acesso ao lazer e às condições para participação nos processos sociais e políticos. Dado mais gritante e desafiador para toda a sociedade é o elevado índice de violência praticado contra jovens negros, vítimas de extermínio nas periferias urbanas.

Tendo essa realidade em vista, a CESE fará no dia 10 de setembro (sábado), em Salvador (Rua da Graça, 150-Graça), o lançamento oficial da Campanha Primavera para a Vida 2016.

O dia começará às 10h com uma mística de abertura. Ao meio dia, a tradicional feijoada da primavera será servida (no valor de R$ 25), ao som de música ao vivo. Está confirmado bazar de roupas com a Cáritas Brasileira Regional Nordeste 3 – Bahia e Sergipe, além do sorteio de produtos e brindes e opções de recreação para a criançada.

A renda obtida com o almoço será revertida para apoiar projetos ligados aos direitos da juventude. Os convites para a Campanha estão disponíveis na CESE (Rua da Graça, 150). Mais informações podem ser esclarecidas em: (71) 2104-5457.

Edições anteriores

Ao longo de 43 anos, a CESE já apoiou mais de 11,5 mil projetos de organizações populares de todo o Brasil, contribuindo para o fortalecimento de direitos de aproximadamente 10 milhões de pessoas nos campos de gênero, raça, juventude, meio ambiente, economia solidária, comunicação e desenvolvimento institucional e diálogo inter-religioso.

Realizada desde o ano 2000, o intuito da Campanha Primavera para a Vida é mobilizar recursos para as atividades da CESE em todo o país (fortalecendo os grupos populares nas suas lutas por direitos, por meio do apoio a projetos) e estreitar e ampliar a articulação com as bases das Igrejas.

Para mais informações, CLIQUE AQUI.

Fonte: Cese
Imagem: Reprodução

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Cerca de 500 instituições em mais de 60 países no mundo todo já aderiram à chamada para o desinvestimento em combustíveis fósseis. No dia 13 de agosto, o movimento global contou com mais uma adesão de peso: a Igreja Evangélica Luterana na América (ELCA), sétimo maior organismo religioso dos Estados Unidos, aprovou por maioria, durante a Assembleia de 2016, a suspensão de qualquer investimento em empresas do setor, e o redirecionamento de recursos para as energias renováveis. Dessa forma, as quase 10 mil congregações espalhadas pelos Estados Unidos, Porto Rico e Ilhas Virgens Americanas se unem ao movimento global rumo a uma economia de baixo carbono e um futuro mais sustentável para o planeta, deixando de investir US$7,5 bilhões de ativos nos hidrocarbonetos.

Igreja Luterana EUA
Com esta ação, a ELCA atende ao apelo feito em 2015 pelo Conselho da Federação Luterana Mundial às suas igrejas-membro para que não mais invistam em combustíveis fósseis, e para que apoiem a eficiência energética e empresas de energias renováveis, além de encorajar suas instituições e membros individuais a fazerem o mesmo. “A ética Luterana nos chama a cuidar dos mais vulneráveis e a pensar nas próximas gerações”, disse a reverenda Barbara Rossing, professora da Escola Luterana de Teologia de Chicago e líder de organizações luteranas de base.

A campanha que visa transferir investimentos no setor de combustíveis fósseis e aplicá-los em energias renováveis é liderada pela 350.org e pela Divest-Invest. O principal argumento da coalização Global Divest-Invest é que o investimento na indústria de petróleo, gás e carvão é um perigo tanto para o clima quanto para o capital dos investidores.

Mais de 500 instituições em diversos setores da sociedade, como o religioso, universitário e privado, que juntas representam cerca de US$ 3,4 trilhões em ativos, já se comprometeram a mudar a rota de seus investimentos.

“A 350.org defende o desinvestimento nos combustíveis fósseis como ação fundamental para conter as mudanças climáticas. Para construir o futuro que precisamos, temos que promover uma mudança radical no modo como produzimos e consumimos energia em todo o mundo. E isso não pode mais esperar. A decisão da Igreja Luterana é uma contribuição significativa para uma transição energética justa e sustentável”, defende Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org Brasil e América Latina, e coordenadora da COESUS.

Influência no Brasil

Segundo o pastor Werner Fuchs, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, parceira da ELCA, não há ainda nenhuma orientação a nível global sobre essa decisão. “Infelizmente essa ideia ainda não está consolidada no país, mas há pequenas iniciativas já em andamento. No Sínodo Paranapanema, por exemplo, que abrange a região do Sul do Paraná até Oeste de São Paulo, já temos um projeto pronto para a instalação de placas solares em diversas igrejas, e estamos em busca de parceiros para colocá-lo em prática”, afirmou.

Parceiro da COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida, o pastor Fuchs já atua em campanhas contra as mudanças climáticas desde 2004. Membro do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), ele ajudou a aprovar, em novembro de 2015, durante a 5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar, uma moção contra o fracking e a exploração de areias betuminosas. “Sou a pessoa incômoda que levanta questões como o uso de combustíveis fósseis. Não adianta falar de agroecologia se o fracking chegar e destruir tudo. Precisamos sair do modelo petróleo-dependente e seguir o caminho do desenvolvimento sustentável”, defende Fuchs.

Por Nathália Clark
Foto: Elca.org

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