O CONIC criou, em seu site, o espaço Religiões e Democracia. A ideia é refletir as relações entre a religião e a democracia e trabalhar a temática com o auxílio de perguntas feitas a lideranças religiosas, teólogos e teólogas, cientistas da religião e de outras áreas do conhecimento. Convidamos vocês para lerem as entrevistas, artigos, e manifestarem opiniões. Sempre em um espírito de diálogo e respeito às ideias.
 
Desta vez, falamos com Pedro Triana, doutor em Ciências da Religião.
 
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Pedro Triana – Doutor em Ciências da Religião
 
Tua verdade?
Não, a Verdade, e vem comigo buscá-la.
A tua guarda-te lá.[1]
 

Uma reflexão sobre o diálogo inter-religioso e a teologia do pluralismo religioso
 
“As religiões e caminhos espirituais devem dialogar juntos
para serem a consciência ética da humanidade
e o grito pacífico dos empobrecidos”.
Dom Helder Câmara[2]
 
“Não haverá paz entre as nações
sem a paz entre as religiões.
Não haverá paz entre as religiões
sem o diálogo entre as religiões.
Não haverá diálogo entre as religiões
se não se investigam os fundamentos das religiões”.
Mahatma Gandhi[3]
 
Excluídos da Democracia?
 
A missão da Igreja no mundo é proclamar, em palavra e ação, a Boa Nova de salvação em Jesus Cristo (Mc 16,15). Isso quer dizer que a evangelização é uma das tarefas prioritárias da Igreja em obediência ao que Jesus ordenou (Mt 28,20). E a Igreja foi chamada, pelo Espírito Santo, a dar testemunho da obra de Deus, nosso Pai e nossa Mãe, que traz reconciliação, cura e transformação. Dessa maneira a promoção da justiça e da paz é parte fundamental da evangelização.
 
Apesar de que nem sempre no passado a religião dos outros foi tratada com o respeito que lhe é devido. A evangelização deve sempre respeitar as pessoas de outras crenças. E hoje estamos cada vez mais conscientes tanto da grande variedade de religiões quanto das verdades e valores positivos que elas contêm.
 
No contexto contemporâneo, e de consciência crescente do pluralismo religioso, os cristãos têm refletido e discutido cada vez mais questões como a possibilidade de salvação para as pessoas que não creem explicitamente em Cristo ou a relação entre diálogo inter-religioso e proclamação do senhorio de Cristo.[4]
 
No entanto, dados do Disque 100, criado pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, apontam 697 casos de intolerância religiosa entre 2011 e dezembro de 2015, a maioria registrados nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. No estado do Rio, o Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (Cpril) registou 1.014 casos entre julho de 2012 e agosto de 2015, sendo 75% contra adeptos de religiões de matrizes africana.
 
Para Francisco Rivas Neto, sacerdote e fundador da Faculdade de Teologia com Ênfase em Religiões Afro-Brasileiras (FTU), baseada em São Paulo, e a única reconhecida pelo Ministério de Educação como formadora de bacharéis no tema, é impossível dissociar a intolerância do pré-conceito contra o africano, o escravo e o negro. Diz Francisco Rivas Neto: “Os afro-brasileiros são discriminados, preconceituados, para não dizer demonizados, por sermos de uma tradição africana/afrodescendente. Logo, estamos afirmando que o racismo é causa fundamental do preconceito ao candomblé e demais religiões afro-brasileiras”.[5]
 
E quando escutamos e tomamos noticia desses fatos, poderíamos nos perguntar: onde está o Estado Democrático de Direito? Porque a Democracia não se realiza na sua plenitude quando se exclui, marginaliza, discrimina e demoniza parcelas da população, e não se reconhece o direito de cada pessoa ter uma vida digna, assim como o direito à vida em todas suas dimensões, direito à liberdade, à igualdade, à educação, à saúde, assim como à prática religiosa. Entretanto, a Constituição Federal, da República Federativa do Brasil, já em seu preambulo, afirma-se que o Estado Democrático de Direito está: “destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias”.[6]
 
No entanto, poderíamos nos perguntar também, qual o papel social da religião e as religiões nessas situações de marginalidade, exclusão e discriminação, assim como na sociedade em geral? É uma realidade que na sociedade contemporânea, a religião não constitui a motivação principal do comportamento humano. A própria existência dos estados não depende da sanção religiosa, e o debate social, cultural e filosófico no se centra em temas religiosos. Porém, quando a religião e os sistemas religiosos se integram na dinâmica da resistência e dos reclamos dos setores populares excluídos e discriminados, indígenas, afrodescendentes, feministas etc., ai a religião e as religiões assumem um papel social importantíssimo cuja força e alcance não podem ser subestimados.
 
Dois profetas, Dom Elder Câmara e Mahatma Gandhi, desde contextos culturais e religiosos diferentes, comentam esse papel social da religião. Por um lado, Dom Elder Câmara salientou: “As religiões e caminhos espirituais devem dialogar juntos para serem a consciência ética da humanidade e o grito pacífico dos empobrecidos”. E por outro lado, Mahatma Gandhi afirmou: “Não haverá paz entre as nações sem a paz entre as religiões. “Não haverá paz entre as religiões sem o diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões se não se investigam os fundamentos das religiões”.
 
Então, tendo como pano de fundo os comentários acima expressados, refletir sobre o pluralismo religioso e a teologia do pluralismo religioso se faz uma necessidade e um desafio tanto teológico como ecumênico, tanto na realidade brasileira quanto global. E isso é o que estamos propondo fazer a seguir.
 
Uma época de mudanças
 
Fala-se que não estamos vivendo em uma época de mudanças, mas sim em uma mudança de época. Fala-se, também, que estamos vivendo na chamada época «pós-moderna»[7], onde, desde uma visão e interpretação unitária da realidade passa-se à vivência de uma pluralidade radical, da descontinuidade e da fragmentação. Daí que também se fale do fim dos paradigmas e das utopias[8], e de que o caos é uma das principais formas nas quais a sociedade, e dentro dela particularmente os empobrecidos, experimentam o panorama social e espiritual de hoje[9].
 
Isto se faz uma realidade no meio de um processo planetário que se identifica com o termo de «globalização». Não é nosso objetivo principal refletir sobre os aspectos positivos e negativos da globalização, porém, é uma realidade que a globalização marca os tempos de hoje. É um fenômeno que penetra tudo e integra tudo, e cujos efeitos se fazem presente em toda a sociedade a nível mundial: na política, na economia, nas comunicações, na tecnologia, nos Estados, nas nações, afetando até as instituições e sistemas religiosos.
 
No entanto, anota José María Vigil[10], que o termo «globalização» é um termo errado. E ainda que muitos o utilizem no sentido de «mundialização», seria melhor lembrar seu sentido original, o qual não é mais que o nome que o neoliberalismo atual deu a seu próprio processo de expansão de capitais depois do fim da guerra fria. A «mundialização», segundo ele, por sua vez, é um fenômeno muito mais amplo e antigo, que se refere ao processo de unificação e concentração do mundo em sistemas sociais cada vez mais amplos, aproximando-se cada vez mais às dimensões mesmas do planeta. Mas processo que se intensificou nos últimos séculos, e que, particularmente no século XX, tem alcançado a totalidade de nosso planeta. Hoje temos a impressão de estar vivendo no apenas no mesmo planeta, mas realmente «em um mesmo mundo», ou como também tem se falado «em uma aldeia comum», em uma sociedade mundial mundializada.[11]
 
Assumindo nesta reflexão as colocações de Vigil, caberia agora nos perguntarmos, quais efeitos tem a «mundialização» sobre a religião, as religiões e a teologia?
 
Por um lado, a mundialização faz que as religiões não possam mais se ignorar. Muitas sociedades são pluriculturais, formadas por imigrantes procedentes de outros países, bairros habitados por diferentes etnias e culturas. As diferentes religiões já não se encontram longe, mas na mesma sociedade e até na mesma cidade. Em uma mesma quadra podemos encontrar uma igreja católica romana, uma igreja evangélica e até um terreiro de candomblé. Dessa maneira, querendo o não querendo as diferentes religiões são obrigadas a viver em sociedade, a conviver, a comparar-se, a confrontar-se, e a desafiar-se mutuamente. Deste modo, os membros das diferentes religiões vão se dando conta que sua religião não é a única que existe. E aí começam a conhecer e conviver com pessoas de outras religiões (vizinhos/as, amigos/as, até membros da própria família), tão cheias de amor como os membros de sua própria religião. E começam a se perguntarem se sua religião realmente é a «única e verdadeira». Por isso, a mundialização desafia as religiões, talvez colocando em perigo sua identidade distintiva, mas por sua vez, oferecendo novas possibilidades de fecundação e revitalização. Fala-se que a inter-espiritualidade é a religião do terceiro milênio[12].
 
Por outro lado, a mundialização trás também desafios para a tarefa teológica. Comenta José Maria Vigil que na época da mundialização o teólogo poderá ter uma confissão religiosa determinada, mas uma teologia que fale para a sociedade e ao mundo deverá ser uma teologia que possa ter sentido para um destinatário que é multireligioso, porque em caso contrario não estaria realmente fazendo teologia no mundo plurirreligioso de hoje, mas em um mundo monoreligioso que já não existe.[13]
 
Entretanto, em um mundo onde a globalização neoliberal perpetua o empobrecimento das grandes maiorias, matizado por guerras, violência e divisões culturais, onde se desrespeita e agride nosso lar natural, e onde inclusive a luta contra o terrorismo tem no fundo matizes religiosos, a mundialização desafia a todas as religiões a lutarem juntas por alcançar uma ética mundial.
 
Afirma a «Declaração sobre o papel da religião na promoção de uma cultura de paz» (Catalunha, Espanha, 1994): “Nossas comunidades têm a responsabilidade de fomentar uma conduta inspirada na sabedoria, a compaixão, a partilha, a caridade, a solidariedade e o amor, que guie a todos pelos caminhos da liberdade e a responsabilidade. As religiões devem ser uma fonte de energia liberadora”.[14]
 
Portanto, em nosso mundo mundializado de hoje o diálogo inter-religioso se torna urgente, não apenas para teorizar teologicamente, senão para possibilitar a paz, a justiça e a fraternidade humana, contribuindo assim a dar uma resposta comum na solução dos grandes e graves problemas que enfrenta a humanidade.
 
Fundamentos bíblicos e teológicos para uma teologia do pluralismo religioso
 
O conceito fundamental que sustenta uma visão conservadora, fundamentalista e/ou exclusivista do cristianismo é o conceito de «revelação». Uma pessoa que assim pensa, e mantém uma postura contraria ao pluralismo, invocará a Bíblia e a revelação como sua razão última: «é Deus mesmo quem nos revelou a verdade e nós devemos aceitá-la». Mas a teologia do pluralismo religioso propõe uma visão diferente da revelação. Por isso, é a revisão e transformação do conceito de revelação o que está na base da emergência do pluralismo como superação tanto do «exclusivismo» como do « inclusivismo».
 
Porém, convém agora realizar algumas clarificações do que se entende por exclusivismo e inclusivismo. Mas ofereceremos apenas os conceitos mais comuns e aceitos dentro da teologia das religiões.
 
Até a primeira metade do século XX a posição teológica dominante dentro do cristianismo tem sido o «exclusivismo». E a expressão simbólica desta posição encontra-se na famosa sentença atribuída por uns a Orígenes e por outros a Cipriano «extra ecclesiam nulla salus», ou seja, «fora da igreja não há salvação». Essa posição manteve-se constante dentro do catolicismo praticamente até a primeira metade do século XX.
 
Entretanto, o exclusivismo pode ser eclesiocêntrico ou não. Assim, vemos que no campo protestante o exclusivismo adquire uma forma no eclesiocêntrica «a sola Fé, a sola Graça, a sola Escritura». A figura típica e simbólica desta posição a encontramos em Karl Barth (1886-1968). Barth, apesar de não ser um fundamentalista protestante, opõe revelação e religião, negando que a religião pudesse ser canal de revelação. Segundo Barth a religião é a relação que as pessoas instauram com o poder divino por suas próprias forças, ou seja, um intento de manipular a Deus, enquanto a fé é a relação que Deus instaura gratuitamente. Daí acrescenta Barth, a religião é obra humana sendo nossa tarefa a supressão de toda religião, nossa fé é a invalidação radical de tudo o que é humano: experiência, saber, posse e atividade. Fora do cristianismo, que é a religião perfeita e verdadeira, conclui Barth, tudo é trevas e afastamento de Deus.[15]
 
Entretanto, o «inclusivismo» afirma que ainda que a salvação encontra-se presente de maneira particular no cristianismo, também pode ser encontrada de maneira «deficiente e imperfeita» nas outras religiões. E esta posição será a que vai se afirmar no mundo teológico, particularmente dentro da Igreja Católica Romana, e influirá os debates e documentos do Concilio Vaticano II. No entanto, fazemos a ressalva que no presente esta é a posição teológica majoritária no cristianismo, tanto católico como protestante (cf. Hans Küng, Wolfhart Pannenberg, Mark S. Heim, Gregory Baum, Monika Hellwig, Edward Schillebeeckx, Harvey Cox, Roger Haight, Marcus Borg entre outros).
 
Podemos assinalar o católico Karl Rahner (1904-1984) como uma figura típica desta posição. A visão de Rahner em sua teologia das religiões se resume em sua teoria de «cristãos anônimos», ou seja, os não cristãos são salvos pela graça e presença de Cristo que age anonimamente entre suas religiões. Deste modo, com uma visão inclusivista/cristocêntrica, postulou que as diversas religiões não somente apresentam elementos de uma crença natural em Deus, mas trazem consigo traços substanciais da graça doada a Deus ao homem em Jesus Cristo e que, portanto, os cristãos não apenas podem, mas devem considerar outras religiões como legitimas e como caminhos de salvação.[16]
 
Passo, na sequência, a oferecer uma síntese dos elementos principais, bíblicos e teológicos, dessa nova visão que possibilita as transformações teológicas que levam a uma mudança de mentalidade a partir do inclusivismo para o pluralismo.
 
Por um lado, Paul Knitter[17] afirma que é idolatria insistir que há apenas um caminho uma norma, uma verdade. Nenhuma religião ou revelação pode ser somente ou a Palavra de Deus final ou exclusiva ou inclusiva. A realidade é plural, desde átomos até religiões, e Deus precisa de multiplicidade para ser Deus. E, por outro lado, afirma também o teólogo indiano Panikkar, que porque a realidade é pluralista, o mistério da Trindade é o fundamento último para o pluralismo[18].
 
Na carta aos Hebreus se diz: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho” (Hb 1,1). E comentando esse texto diz Jacques Dupuis[19] que o fato de Deus ter falado “muitas vezes e de muitas maneiras” antes de falar pelo Filho não é acidental, nem o caráter plural da auto-manifestação de Deus é apenas uma coisa do passado. O caráter decisivo da vinda do Filho na carne em Jesus Cristo não cancela a presença e ação universal do Verbo e do Espírito. O pluralismo religioso se funda sobre a imensidade de um Deus que é Amor.[20] Por outro lado, Paulo, na Carta aos Gálatas afirma uma visão universalista, inclusiva e plural do evangelho quando diz: “... não existe diferença entre judeus e não-judeus, entre escravos e livres, entre homens e mulheres, todos vocês são um só por estarem unidos com Cristo Jesus” (Gl 3,28).
 
Assim sendo, o pressuposto bíblico básico e fundamental para uma teologia cristã do pluralismo religioso é a compreensão de que Deus é amor e salvação universal (Cf. 1 Jo 4,7-8). E se o amor de Deus é ilimitado, nosso amor para com o próximo deve ser ilimitado também Por isso o evangelho nos chama a amar a nosso próximo como a nós mesmos (Cf. Mt 23,37; Mc 12,30 e Lc 10,27).
 
Mas amar ao próximo significa respeitá-lo, escutá-lo, tratá-lo como gostaríamos que ele nos trata-se. Significa confrontá-lo quando penso que está errado, mas também estar preparado para ser também confrontado por ele. Em fim, amar ao próximo significa ser capaz de dialogar com ele.
 
No entanto, a partir do amor ilimitado de Deus, que nos chama também a amar a nosso próximo como a nós mesmos, Knitter reflexiona e afirma que há uma coisa errada nas visões tradicionais sobre as outras religiões. Porque se sustentamos como cristãos que nossa verdade é única ou absolutamente final, na qual todos os outros devem estar incluídos, não estamos tratando aos outros como nossos irmãos e nossas irmãs. E com essa maneira de agir e pensar entramos em uma contradição ou tensão entre o primeiro e o segundo mandamento. Deste modo, tendo em conta a prioridade da ortopraxia de amar o nosso vizinho e a nossa vizinha, sobre a ortodoxia das teologias tradicionais, a teologia do pluralismo religioso propõe que para compreender o grande mandamento, os modelos tradicionais –tanto exclusivos como inclusivos- devem ser revistos e revisados. Porque o amor sem limites de Deus não está restrito somente a uma religião ou caminho espiritual.[21]
 
A partir desses pressupostos a teologia cristã do pluralismo religioso se afasta, por um lado, da visão exclusivista não eclesiocêntrica, mas centrada na «sola Fé a sola Graça e a sola Escritura» de Karl Barth, e por outro lado, da visão inclusivista dos «cristãos anônimos» de Karl Rahner. Mas também, se afasta de outro «Karl» ou seja, de Karl Marx que não conseguiu entender que a religião pudesse ser um veiculo de transformação social[22].
 
Milton Schwantes acostuma dizer que: “A Bíblia não é de ninguém. A Bíblia é de todos”. E a partir dessa afirmação postulava uma leitura ecumênica da Bíblia. Esse enfoque evoluiu para leituras em direção ao pluralismo religioso, a partir de descobertas recentes da arqueologia que questionam conceitos como “povo eleito” e “Deus único”, conceitos que tem uma origem tardia. Essas descobertas mostraram que na sua origem Israel não era uma nação, mas uma multidão de cananeus excluídos com costumes diversos e com crenças em uma pluralidade de divindades como El, Astarte, Baal, Ashera, Anat, Elohim, Javé, etc.
 
Assim, a arqueologia que volta seu olhar para o entorno do ambiente bíblico que busca resgatar o considerado insignificante mundo cananeu do Israel do Norte, oculto na Bíblia, vai ao encontro às minorias e maiorias excluídas da América Latina e Caribe. Ela é um auxilio para a hermenêutica que privilegia a leitura a partir dos povos ameríndios e afrodescendentes, quilombolas, indígenas, campesinos, da leitura de gênero etc. Afinal de conta os pobres e excluídos continuam presente na Bíblia e mais do que nunca presentes em nosso tempo.[23]
 
Portanto, e resumindo, a teologia do pluralismo religioso parte: em primeiro lugar, do questionamento, à pretensão cristã de ter a verdade absoluta, de ser a única religião autêntica, e de ser o único caminho de salvação e, consequentemente, da valorização das outras religiões como caminhos de salvação e como revelação de Deus à humanidade. Assim, na visão do pluralismo religioso «há muitos Povos de Deus»; em segundo lugar, do reconhecimento de que a Divina Realidade e Verdade é, por sua própria natureza, sempre mais do que qualquer ser humano possa compreender ou qualquer religião possa expressar[24]; em terceiro lugar, da afirmação de que Jesus é uma Palavra que pode ser compreendida apenas em conversa com outras Palavras; é o caminho que está aberto para outros caminhos[25]; em quarto lugar, da certeza de que quando pessoas religiosas escutam juntas as vozes do sofredor e do oprimido, quando tentam responder juntas às necessidades deles, são capazes de confiar umas nas outras e sentir a verdade e o poder da singularidade de cada um[26], reconhecendo, também, assim, o direito à diferença como legitimo; finalmente, da certeza de que não é autêntica uma religião que não se dirige como preocupação primordial, à pobreza e a opressão que infesta nosso mundo[27].
 
Por todo o anteriormente dito, a teologia do pluralismo religioso não é apenas um reconhecimento mecânico e oportunista da realidade religiosa plural de nosso mundo, seja por uma necessidade de convivência ou sobrevivência, porém, como bem afirmam Faustino Teixeira[28] e José María Vigil, a afirmação de um conhecimento mútuo e de um enriquecimento recíproco[29], no compromisso com a construção de um Reinado de Deus que seja vida, justiça, paz, graça e amor para todos, mas em primeiro lugar para os menos favorecidos e empobrecidos, que são injustiçados e privados de seus direitos[30].
 
Não há outro nome?
 
Sem dúvida nenhuma o aspecto mais difícil, conflitante e neurálgico da teologia do pluralismo religioso é a cristologia. E a questão cristológica tem a ver com o que se tem chamado «a essência do cristianismo», ou seja, a compreensão tradicional da unicidade de Cristo como elemento central e fundamental da identidade cristã.
 
Para os críticos da teologia do pluralismo religioso, colocar Jesus numa comunidade de iguais com outros reveladores significa roubar a força do compromisso de discípulos de Cristo e diluir a coragem da denuncia profética cristã do mal. Poderia contribuir para uma comunidade feliz de religiões, mas à custa da identidade cristã[31].
 
E as provocações e desafios mais fortes, tanto à visão tradicional de entender a unicidade de Cristo como ao inclusivismo, vêm de duas figuras chaves da teologia do pluralismo religioso: John Hick[32] e Paul Knitter.
 
Assim, por um lado, Hick postula a validade de todas as religiões mundiais como contextos autênticos de salvação/libertação, os quais não são secretamente dependentes da cruz de Cristo[33]. E, por outro lado, Knitter, ainda que reconheça que Jesus é verdadeiramente a Palavra salvífica de Deus, afirma que Ele (Jesus) não é a única Palavra salvífica que Deus pronunciou[34].
 
Segundo o Prólogo do evangelho de João (Jo 1,1-18), o Deus revelado em Jesus é o Deus que antes tem estado no mundo desde o inicio, criando, salvando e procurando atrair todas as coisas à pessoa de Deus (cf. Pr 1,20; Sb 9,1-3;10,1-2.15-19; 11,1-3; Jo 1,1-5). Desta maneira, afirmar uma visão cristológica a partir do Logos/Sabedoria (cf. Pr 1-2; Sb 9-12; Jo 1,1-18) presente no Prólogo do evangelho de João, pode abrir a porta e facilitar para os cristãos entrar no diálogo inter-religioso com afirmações do que Deus fez em Jesus (Jo 1,14-18), mas sem insistir em que Deus o fez somente em Jesus.[35]
 
Para Knitter todo o que Jesus diz e faz está inspirado em seu compromisso com a vinda do «Reino de Deus» (cf. Mt 6,33; Lc 4,16ss; 7,18-23)[36]. Jesus nunca se pregou a si mesmo, nem pregou simplesmente «Deus». Sempre que falava de Deus falava do Reino de Deus. O Reino foi a causa e a razão da sua vida e de sua morte, porém, nunca deu uma definição do Reino de Deus. E não o explicita ou define porque não é um conceito que ele tenha criado ou inventado, mas um conceito bem antigo nas tradições de Israel, particularmente das tradições proféticas e apocalípticas (cf. Ex 15,18; Sal 47,8; Is 24,23; 52,7; Dn 4,3; Ob 21; Mq 4,7). E sempre que falava do Reino o fazia mediante a simbologia e a metáfora das parábolas, onde o Reino não é um fato para além da historia, mas uma realidade deste mundo. É Deus em relação a esta Terra e a esta historia. E para Knitter será precisamente o símbolo do Reino de Deus a chave hermenêutica para compreender a unicidade de Jesus, a unicidade do cristianismo e a base e a meta para o diálogo inter-religioso.
 
Anota ainda Harvey Cox[37] que a visão centrada no Reino muda todo o significado da discussão entre as pessoas de diferentes tradições religiosas. A finalidade da conversação é diferente. O diálogo inter-religioso não se converte em meta por si mesmo nem numa busca estritamente religiosa, mas em meio para a antecipação da justiça de Deus. Converte-se em práxis[38].
 
Desta maneira, quando os cristãos hoje fundamentam a unicidade de Jesus no Reino de Deus e no símbolo da sua morte e ressurreição eles estabelecem uma «relação» com outras religiões que pode ser «exclusiva», ou «inclusiva» ou «pluralista correlacional». É «exclusiva» no sentido de que esta compreensão da unicidade de Jesus desafiará qualquer crença ou prática que no promova um compromisso com o amor e a justiça, particularmente com as pessoas oprimidas assim como também com a Terra oprimida; «inclusiva» no sentido que esclarece e realiza o potencial de outras religiões para promover o que os cristãos chamam de Reino de Deus; «pluralista no sentido de que reconhece as outras visões encontradas em outras religiões e será por sua vez plenamente realizada por elas. E será isto o que Knitter chama «cristologia correlacional e globalmente responsável».
 
Finalmente, termino esta caminhada pelo pensamento cristológico da teologia do pluralismo religioso com as acertadas palavras do teólogo indiano já falecido, George Soares Prabhu, “a verdadeira «unicidade» de Cristo é a unicidade do caminho da solidariedade e luta (um caminho que não é masculino nem feminino) que Jesus mostrou como o caminho para a Vida. Convidamos outros para percorrê-lo conosco e compartilhar da experiência que temos tido, sem afirmar que é o único caminho ou o único melhor”[39].
 
Ora, a mudança do «cristocentrismo» para o «reinocentrismo», na visão da teologia do pluralismo religioso, tem profundas implicâncias. Buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça (Mt 6,33), o qual no presente significa promover a felicidade de todas as pessoas deste mundo, em vez de procurar primeiro o bem-estar da Igreja, significa uma profunda revisão das visões eclesiológica e missiologia tradicionais, E essa será a temática que pretendemos desenvolver na próxima seção.
 
Na busca do Reino de Deus: Missão é dialogar
 
Foi na prática do seguimento de Jesus que os primeiros cristãos o conheceram e acreditaram nele. Seguimento que implicava estar comprometido ativamente com a vida e as lutas deste mundo, preocupar-se especialmente com as pessoas que estão sofrendo por causa da injustiça e a opressão, na esperança de que, apesar de fracasso e morte, este mundo pode mudar para melhor[40]. E aqui certamente nos encontramos no campo do serviço e da missão.
 
E afirmar, como faz a teologia do pluralismo religioso, uma visão «reinocêntrica» da Igreja e a missão, implica, por um lado, reconhecer que as outras religiões não são apenas «caminhos de salvação» (Karl Rahner/Hans Küng), mas «caminhos» e possíveis «agentes» desse Reino; e, por outro lado, que fazer possível que todas as pessoas se tornem membros do Reino é mais importante que fazê-los membros da Igreja, porque a missão de Deus «missio Dei» é maior que a missão da Igreja, e o Reino mais importante que a própria Igreja (Dupuis).
 
Portanto, na visão da teologia do pluralismo religioso, a missão só tem sentido em uma perspectiva pluralista e dialogal. Ou seja, a melhor forma como a Igreja e os seguidores de Jesus podem servir ao Reino de Deus no mundo atual, religiosamente plural e globalmente ameaçado, pela globalização neoliberal, é por meio do diálogo, porque do contrário, a natureza e o propósito da missão estão perdidos e tornam-se irrelevantes [41].
 
O anteriormente dito implica ter uma visão missionária dialogal e abrangente, onde a proclamação e a prática da boa notícia do Reino de Deus devem permear todas as atividades: o dia-a-dia, a luta pela justiça e pela democracia, assim como a liturgia, a espiritualidade e a teologia.
 
Portanto, aqui é oportuno observar e concluir, que ao se afirmar como um novo paradigma, a teologia do pluralismo religioso e o diálogo inter-religioso têm serias e profundas implicâncias tanto para o trabalho teológico em geral, quanto para o movimento ecumênico em particular.
 
Há muitas moradas? (Jo 14,2)
 
Chegamos ao final desta caminhada pela teologia do pluralismo religioso. Certamente o caminho proposto insere-se no horizonte da reflexão teológica cristã, mas está aberto a uma perspectiva global mais abrangente.
 
E tentando amarrar, agora, os fios desta caminhada, o grande desafio da proposta da teologia do dialogo e do pluralismo religioso significa, em primeiro lugar, reconhecer que a «verdade» cristã é «a nossa verdade», mas não é a única e absoluta «verdade»; “há mais verdade religiosa em todas as religiões juntas do que em uma religião específica [...]. Isto se aplica também ao cristianismo”, comenta Schillebeeckx[42]; em segundo lugar, implica o reconhecimento da diferença genuína que marca as diversas tradições religiosas, mas também sua riqueza, enquanto autenticamente preciosas, assim como o caráter irredutível e irrevogável do outro interlocutor, com o qual se instaura a busca de um conhecimento mútuo e de um recíproco enriquecimento[43]; e, finalmente, e resumindo, significa e implica estar convencidos de que todas as religiões são «verdadeiras», têm sua «Verdade», são caminhos pelos quais Deus sai ao encontro, mas que também são todas humanas, e por isso limitadas, relativas, incompletas, e com pecados históricos que as condicionam[44].
 
Penso, em minha opinião, que os cristãos, assim como todas as pessoas religiosas, têm que admitir honestamente que dentro de nossa condição humana limitada e finita, não pode haver uma palavra final, nem um único modo de conhecer a verdade que seja válido para todos os tempos, para todos os lugares, e para todas as pessoas.
 
Dom Pedro Casaldáliga expressou: “A verdade é caminhante, como as pessoas, como a Historia, como o Deus vivo que nos acompanha. Não é minha nem tua, é nossa, ou somos dela, melhor”[45].
 
E retomo, para terminar, a frase do poeta espanhol Antonio Machado, que dá título a esta reflexão e que nos adverte: “Tua verdade? Não, a Verdade, e vem comigo buscá-la. A tua guarda-te lá.”.
 
Sem dúvida nenhuma, na casa do Pai e da Mãe comum de toda a humanidade «há muitas moradas».
 
Biografia:
 
Pedro Julio Triana Fernández é presbítero da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), Diocese Anglicana de São Paulo (DASP). Doutor em Ciências da Religião (área Ciências Sociais e Religião/Bíblia/Antigo Testamento) pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Representante da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil perante a Comissão Teológica do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC); Coordenador Geral do Centro de Estudos Anglicanos (CEA) da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
 
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[1] Antonio Machado (1875-1939), poeta espanhol. Nascido em Sevilla, deixou um grande legado dentro do modernismo espanhol e formou parte da denominada “Geração do 98”, foi membro da Real Academia Espanhola. Alguns de seus livros mais importantes foram: “Soledades”, “Campos de Castilla” e “La Guerra. Dentre sua obra poética podemos destacar: A um olmo seco, Caminante no hay camino, El crimen fue em Granada, Anoche cuando dormia, Elegía de um madrigal, Españolito que vienes al mundo e La mujer manchega.
Veja: Antonio Machado - Poemas de Antonio Machado http://www.poemas-del-alma.com/antonio-machado.htm#block-bio#ixzz4BwBaeI4L
[2] Dom Hélder Câmara, na Conferência das Religiões pela Paz, Kyoto, Japão, 1970.
[3] Ainda que fosse Hans Küng quem popularizou a frase, realmente foi pronunciada por Mahatma Gandhi. Confira Wayne, Teasdale, “Sacred Community at the Dawn of the Second Axial Age”, em, Sourcebook of the World’s Religions, J. Beversluis (ed.), (Novato, California, New World Library, 2000) .238. Citado por José María Vigil, Teología del Pluralismo Religioso, (Colección Tiempo Axial, Edición digital de ATRIO) 368, http://cursotpr.adg-n.es/archivos/Vigil/TPRVigilCap07.pdfe. Em português Teologia do pluralismo religioso -.para uma releitura pluralista do cristianismo, (São Paulo, Paulos. Coleção tempo axial, 2006). Este é o primeiro livro de teologia do pluralismo religioso publicado no Brasil com a pretensão de fazer uma exposição sistemática e completa deste ramo tão jovem da teologia. Confira ainda Hans Küng, Islão: Passado, Presente e Futuro, (Lisboa, Edições 70, 2010).
[4] Veja A Igreja: Uma visão ecumênica (São Paulo, ASTE/CONIC, 2015), 72-73. Tradução do original “The Church Toward a Common Vision” CMI, por Odair Pedroso Mateus e Marie Ann Wagnen Krahn. ,
[5] Informativo do CONIC, (Ano III – janeiro-abril, 2016)
[6] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm
[7] Os termos “pós-modernismo” e/ou “pós-modernidade” foram primeiramente utilizados na segunda metade do século XX para se referir às mudanças acontecidas na literatura, na arquitetura e na arte. Porém, também se chama “pós-modernismo” e/ou “pós-modernidade” às novas visões do pensamento filosófico, particularmente da segunda metade do século XX, onde o pluralismo torna-se princípio hermenêutico fundamental. Assim, a verdade existe unicamente «plural», já não existe «a verdade», mas «as verdades». Confiera Joaquín Garay, “Teología del pluralismo religioso y teología de la liberación”, em: (Koinonia, Relat), 310, http//latinoamericana.org/2003/textos.
[8] Franz J. Hinkelammert, “El cautiverio de la utopía – las utopías conservadoras del capitalismo actual, el neoliberalismo y el espacio para alternativas”, em: Ensayos, (La Habana, Editorial Caminos, 1999), .200.
[9] Harvey Cox, “Misión en las Américas – Siglo XXI – Perspectiva del Norte”, em: Esperanza y justicia en las Américas – discerniendo la misión de Dios, (s.l, s.e, 1998).96.
[10] José María Vigil, espanhol/nicaragüense, católico, teólogo (Salamanca/Roma), estudou psicologia em Salamanca, Madrid e Managua/Nicaragua, Coordenador da Comissão Teológica Americana da Associação de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT/EATWOT).
[11] Vigil, 358-359.
[12] Ibid. 365. O termo «Inter-espiritualidade» é um termo que designa o fenômeno crescente do compartilhar inter-religioso dos recursos interiores, dos tesouros de cada tradição. Wayne Teasdale, The Mystic Heart. Discovering a Universal Spirituality in the World’s Religions, prólogo do Dalai Lama, (Novato, California, New World Library, 1999) 10. Citado por Vigil, 365.
[13] Ibid. 366.
[14] Citado por Vigil, .368-369..
[15] Karl Barth, La revelación como abolición de la religión, (Madrid, 1973); citado por Vigil, 62-63, Confira também Karl Barth, Der Römerbrief, 84; citado por Marcelo Barros, “A reconciliação de quem nunca se separou”, em: Pelos muitos caminhos de Deus – Desafios do pluralismo religioso à Teologia da Libertação, (Goiás, Editora Rede, 2003), 140.
[16] Veja Paul F. Knitter, Jesus e os Outros Nomes, (São Bernardo do Campo/Brasil, Nhanduti Editora, 2010) 24-26 e Faustino Teixeira, “O desafio do pluralismo religioso para a teologia latino-americana”, em: Pelos muitos caminhos de Deus, 73-74.
[17] Paul F. Kniter, católico, é um dos principais teólogos do pluralismo religioso. É licenciado em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Itália (1966), e doutor em teologia pela Universidade de Marburgo, Alemanha (1972). Atualmente é professor de Teologia, Religiões do Mundo e Cultura no Union Theological Seminary em Nova Iorque.
[18] Veja Knitter, 58-60.
[19] Jacques Dupuis, sacerdote belga, jesuíta, foi professor de Teologia e Religiões não Cristãs na Universidade Gregoriana em Roma. Morreu em 2004.
[20] Jacques Dupuis, “Verso una teologia cristiana del pluralismo religioso”, (Brescia, Queriniana, 1997),.520. Citado por Vigil, .98.
[21] Knitter, 60-62.
[22] Paul K. Knitter, “Para uma teologia da libertação das religiões”, em: Pelos muitos caminhos de Deus, 16. Capítulo final do libro coordinado por John Hick e Paul Knitter titulado The Myth of Christian Uniqueness. Toward a Pluralistic Theology of Religions, (Maryknoll, New York, Orbis Book, 1987), 178-200. Capítulo também traduzido ao espanhol com autorização do editor Maryknoll, em: Koinonia, Reslat, 255, www.servicioskoinonia.org/relat/255.htm.
[23] Conferir agora, José Ademar Kaefer, “Hermenêutica Bíblica: refazendo caminhos”, em: Estudos de Religião (Revista Semestral de Estudos e Pesquisas em Religião, São Bernardo do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, 2014), 132-133.
[24] Knitter, Jesus e os Outros Nomes, 58.
[25] Ibid. 106-113.
[26] Ibid. 34.
[27] Paul F. Knitter, “Para uma teologia da libertação das religiões”, em: Pelos muitos caminhos de Deus, 16.
[28] [28] Faustino Teixeira, brasileiro, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de Rio de Janeiro (PUC-RJ), doutor pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma).
[29] Faustino Teixeira, “O desafio do pluralismo religioso para a teologia latino-americana” em: Pelos muitos caminhos de Deus, p.65.
[30] José María Vigil, “Espiritualidade do pluralismo religioso – Uma experiência espiritual emergente”, em: Pelos muitos caminhos de Deus, 132.
[31] Veja Knitter, Jesus e os Outros Nomes, 67-82.
[32] John Hick, (1922-2012), norte-americano, filósofo da religião e teólogo.
[33] John Hick, A metáfora do Deus encarnado, (Petrópolis, Vozes, 2000), 121.
[34] Paul F. Knitter, No Other Name? A Critical Survey of Christian Attitudes toward World Religions, (Maryknoll, Orbis Books, 1985).
[35] Ibid., 62-65.
[36] O termo «Reino de Deus» aparece 112 vezes nos evangelhos e delas 90 vezes nos lábios de Jesus. Leonardo Boff, Jesucristo el liberador, (Sal Terrae, 1980), p.66. Em português: Jesus Cristo, Libertador, (Ed. 19), (Petrópolis, Vozes, 2008). Também uma ampla visão sobre o conceito do «Reino de Deus» pode ser encontrada em José María Vigil, Teología del Pluralismo Religioso, 128-152.
[37] Harvey Cox, Batista, teólogo, proeminente teólogo norte-americano, ativista pelos direitos civis, professor na Escola de Divindades em Harvard
[38] Harvey Cox, Religion in the Secular City: Toward a Postmodern Theology, (New York, Simons and Schuster, 1984),.238. Citado por Knitter, “Para uma teologia da libertação das religiões”, em: Pelos muitos caminhos de Deus, p.27.
[39] George Soares Prabhu, The Jesus of Faith, India (Pune). Mimeo, 27-28. Citado por Teixeira, “O desafio do pluralismo religioso para a teologia latino-americana” em: Pelos muitos caminhos de Deus, 78-79.
[40] Knitter, Jesus e os Outros Nome, .122.
[41] Ibid.141-155 e 175-180.
[42] Edward Schillebeeckx, (1914-2019) belga, proeminente teólogo católico romano, da ordem dos Dominicanos assessor durante o Concilio Vaticano II. Veja agora, The Church: The Human Story of God, (New York, Crossroad, 1990), 166. Citado por Knitter, Jesus e os Outros Nome, .50.
[43] Teixeira, .“O desafio do pluralismo religioso para a teologia latino-americana” em: Pelos muitos caminhos de Deus, 65.
[44] Vigil, Teología del Pluralismo Religioso, 387.
[45] Pedro Casaldáliga, “Prólogo”, em: Pelos muitos caminhos de Deus, 8.
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Martin Junge, da Federação Luterana Mundial, vê na cerimônia programada com o papa para o 500º jubileu da Reforma um ótimo exemplo para a superação dos conflitos e acredita que o encontro demonstra o alto valor do diálogo.

A reportagem é do sítio Domradio.de, 15-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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Em um mundo "ferido por violências e guerra", o encontro entre confissões no mais alto nível conta "a história de conflitos superados", declarou o secretário-geral da Federação Luterana Mundial, na segunda-feira, em Genebra.

No dia 31 de outubro, em Lund, Suécia, a Federação Luterana Mundial e o Papa Francisco vão celebrar juntos o culto e recordar a Reforma.

Essa "Comemoração Luterano-Católica da Reforma" oferece uma maravilhosa possibilidade "de expressar a nossa esperança comum em Cristo", disse Junge. Em um mundo em que muitos diálogos foram interrompidos, o encontro testemunha "o alto valor do diálogo".

Além disso, Junge comunicou alguns detalhes das duas partes da cerimônia. No início da tarde, o Papa Francisco, o bispo Munib A. Younan (presidente da Federação Luterana Mundial), Junge e altos representantes da Igreja sueca e da diocese católica de Estocolmo vão celebrar juntos um culto na Catedral de Lund, com convidados. O encontro tem como lema "Do conflito à comunidade. Unidos na esperança". Ele será transmitido na arena da cidade vizinha de Malmö.

Depois da celebração, os participantes, incluindo o Papa Francisco, vão se deslocar para o estádio. No centro, haverá "a confissão do testemunho comum e do serviço comum de católicos e luteranos em todo o mundo".

A arena pode acolher até 10 mil pessoas. Haverá bilhetes de entrada por um valor correspondente a 13 euros, disponíveis a partir do início de setembro. Além disso, a celebração e a manifestação no estádio serão transmitidos em streaming na internet. Junge convidou as comunidades evangélicas e católicas de todo o mundo para assistirem juntas a transmissão.

Lund foi escolhida como local do evento porque, há quase 70 anos, em 1947, foi fundada nessa cidade a Federação Luterana Mundial. A celebração comum da Federação Luterana Mundial, que representa mais de 72 milhões de cristãos em 98 países, e da Igreja Católica Romana, com cerca de 1,3 bilhão de pessoas no mundo, irá salientar a importância do diálogo ecumênico entre católicos e luteranos.

O 500º aniversário da Reforma faz referência ao ano de 1517. No dia 31 de outubro, Martinho Lutero tinha publicado as suas 95 teses contra os desvios da Igreja do seu tempo.

Fonte: IHU Unisinos
Foto: AFP

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Um empresário judeu que sobreviveu aos atentados terroristas de Bruxelas encontrou na defesa da comunidade muçulmana uma motivação para superar o trauma, convertendo em símbolo desse combate a nova amizade com um sobrevivente muçulmano.

Em 22 de março deste ano, 32 pessoas morreram em duas explosões no aeroporto internacional de Zaventem e uma na estação de metrô de Maelbeek, na capital belga. O grupo extremista autodenominado Estado Islâmico reivindicou a autoria dos ataques.

"Percebi que, depois disso, muitos amigos meus desenvolveram uma raiva generalizada de muçulmanos. Acho importante lutar contra isso para salvar nosso modelo atual de sociedade e evitar que a situação degenere", explica Walter Benjamin, judeu não praticante em uma família na qual há também cristãos e muçulmanos.

Vítima de terroristas que atacam em nome do islã, Benjamin defende que "99,9% dos muçulmanos são formidáveis e não merecem ser culpados pelo que fazem 20 ou 30 idiotas".

Ele diz acreditar que o melhor exemplo disso é Hassan Elouafi, muçulmano fervoroso que foi a primeira pessoa a ajudá-lo no dia do atentado.

Explosão

Os caminhos de Benjamin, 47, e Elouafi, 41, ambos belgas, se cruzaram no aeroporto.

O judeu se preparava para embarcar para Tel Aviv, em Israel, onde mora a filha de 16 anos. Já o muçulmano se preparava para consertar uma máquina no edifício onde trabalha como técnico há 20 anos.

Benjamin perdeu a perna direita, teve a esquerda gravemente comprometida por uma fratura múltipla e estilhaços de bomba, e várias partes do corpo perfuradas por pregos que compunham os artefatos. Elouafi saiu fisicamente ileso, mas profundamente abalado.

"Foi tudo muito rápido. Lembro de ter ouvido a primeira explosão e pensado: 'Quem é o idiota que solta fogos de artifício em um aeroporto?' Aí vi muita gente correndo na minha direção, gritando, mas nem deu tempo de entender o que estava acontecendo", contou Benjamin à BBC Brasil.

A segunda explosão ocorreria poucos segundos depois, a cerca dois metros de onde ele se encontrava, na fila para registrar as bagagens.

"Houve um barulho e uma luz muito forte. Fui projetado pela bomba e caí sentado. Vi minha perna do lado, arrancada, e meu sangue jorrando. O homem que tinha estado atrás de mim na fila estava a meu lado, morto. Ele tinha perdido a cabeça. Todos ao meu redor estavam mortos."

Mais afastado, enquanto passava pela fila um, Elouafi viu "uma bola de fogo" acompanhada de "um barulho gigantesco", e em seguida "tudo ficou negro de poeira por causa do teto que caía".

"Quando a poeira baixou, vi Walter sentado no meio de todos aqueles corpos, sozinho. Ele gritava de dor, com uma voz frágil. Me senti mal e dei a volta para ir até lá consolá-lo. Não podia deixá-lo lá sozinho", lembra Elouafi, pai de quatro filhos.

Ainda assim, Benjamin considera que o novo amigo ajudou a salvar sua vida.

"Eu me sentia morrendo. Hassan me emprestou o telefone para que eu avisasse minha mãe. O socorro demorou a chegar e ele ficou o tempo todo comigo, ajudou o militar que chegou depois a me fazer um torniquete e me acompanhou até a ambulância. Ele não precisava, podia ter ido embora, ter se protegido. Mas ele ficou lá", lembra, emocionado.

Reencontro

Uma semana depois dos atentados, Elouafi, ainda traumatizado, decidiu telefonar para a mãe de Benjamin para ter notícias do desconhecido que ele havia ajudado e temia não ter sobrevivido aos ferimentos.

"Quando ela me falou que ele estava vivo e que estava me procurando, eu comecei a chorar. A psicóloga, que estava ao meu lado, também começou a chorar. Foi um alívio. Eu não tinha parado de pensar nele. Fui direto para o hospital onde ele estava internado."

Segundo Benjamin, os dois formam agora uma "nova família recomposta, apesar de todas as diferenças".

"Nos falamos quase todos os dias. Ele vem me visitar com frequência, me traz pratos preparados pela esposa dele, pergunta sempre se eu preciso de alguma coisa. Age como um verdadeiro irmão", afirma.

Para Elouafi, as conversas com o amigo judeu, sempre otimista e de bom humor, são "uma espécie de tratamento psicológico".

"Quando eu não consigo dormir, eu ligo pra ele. Quando ele tem dificuldade pra dormir, é ele quem me liga. Só nós podemos entender o que sentimos", afirma.

Batalha

Benjamin diz acreditar que a amizade entre um judeu e um muçulmano surgida de um atentado terrorista é "um símbolo forte, que permite enviar uma mensagem importante a todos os que tentam estigmatizar toda uma comunidade".

"Hassan é uma pessoa excepcional. Como alguém poderia relacionar ele com os terroristas que fizeram isso comigo? Se não fizermos nada contra esse tipo de ideias, estaremos abaixando os braços definitivamente e dando espaço para uma sociedade violenta e incivil."

Por isso, ele decidiu contar a história em uma nota pública em sua página Facebook, onde também cobra ações das autoridades belgas para evitar que mais jovens "vejam o terrorismo como a única saída para suas vidas".

A publicação gerou centenas de mensagens de apoio e despertou o interesse de um grupo de jovens de Molenbeek, bairro de Bruxelas de onde eram originários muitos dos terroristas que atacaram a cidade e Paris.

"Eles vieram me ver, disseram que sentem muito pelo que aconteceu comigo, falaram dos problemas do bairro e do que querem da vida. Eles querem que as coisas mudem. Precisamos ajudá-los a colocar os políticos diante de suas responsabilidades."

De sua cama no hospital, de onde ainda não tem prazo para sair, Benjamin prepara um livro sobre os atentados e planeja dar conferências nas escolas belgas quando voltar a andar.

Também faz planos de acompanhar seu novo amigo muçulmano em uma viagem a Jerusalém, cidade sagrada para católicos, judeus e muçulmanos, que Elouafi sonha em conhecer.

"Plantarei uma árvore para ele, sua esposa e seus filhos em Israel", disse o judeu.

Por Márcia Bizzotto (de Bruxelas para a BBC Brasil)
Foto: Reprodução BBC Brasil / Arquivo Pessoal

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"A fidelidade e a verdade encontraram-se,a justiça e a paz se beijaram.
A verdade brotará da terra, e a justiça se inclinará lá dos céus" (Sl. 85. 11, 12)

Nós Bispos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, manifestamos nossa indignação diante da arbitrariedade cometida na prisão do Professor Jaider Batista da Silva, acusado, sem provas, por corrupção e mantido incomunicável; a ele, membro em plena comunhão da nossa igreja, e a sua família, nosso total apoio.

Durante a operação de investigação levada adiante pela Polícia Federal, em Governador Valadares, nosso irmão Jaider tem contribuído fornecendo documentos e comparecendo às audiências, prestando todas as informações que comprovam sua inocência e sempre cooperando para a elucidação dos fatos.

No entanto, Jaider está sendo vítima de uma delação premiada realizada por um réu confesso que, no intuito de beneficiar-se, envolveu o seu nome, mesmo sem haver qualquer indício de sua participação nos fatos.

Sua prisão, no último dia 10 de agosto, fere todos os princípios éticos e morais, tendo em vista sua cooperação com as investigações e a presunção de inocência de um cidadão que sempre esteve comprometido com a vida, com a justiça, com na luta pelos direitos humanos, atendendo e solidarizando-se com as pessoas excluídas e empobrecidas, e também com a causa das crianças e adolescentes, além da luta solidária junto aos povos indígenas. Assim, em sua caminhada, sempre demonstrou ética e transparência em suas ações.

Como cristãos, somos veementemente contra todas as formas de corrupção e entendemos que o que está acontecendo com Jaider Batista não passa de uma ação insana e totalmente descabida. Preocupa-nos sobremaneira, que as ações de combate a corrupção sejam usadas para o abuso do poder policial e judicial, em especial contra pessoas que defendem os direitos humanos, a justiça, a paz e igualdade, dando a estas medidas um caráter repressivo e ideológico que não corresponde ao convívio social e político dentro de um ordenamento democrático. É inadmissível que os recursos e políticas públicas sejam utilizados para atender e beneficiar uma classe e alguns setores políticos e seus representantes, que lucram, e sempre lucraram, com a miséria de um povo sofrido.

Portanto, exigimos a soltura imediata de Jaider Batista, que a justiça seja feita e que os verdadeiros responsáveis sejam identificados e punidos.

Revmo. Francisco de Assis da Silva – Bispo Primaz e Bispo da Diocese Sul Ocidental;

Revmo. Naudal Alves Gomes – Bispo da Diocese Anglicana do Paraná;

Revmo. Filadelfo Oliveira Neto – Bispo da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro;

Revmo. Maurício José Araújo de Andrade – Bispo da Diocese Anglicana de Brasília;

Revmo. Renato da Cruz Raatz – Bispo da Diocese Anglicana de Pelotas;

Revmo. Saulo Maurício de Barros – Bispo da Diocese da Amazônia;

Revmo. Humberto Maiztegui Gonçalves – Bispo da Diocese Meridional

Revmo. Revmo. Flavio Augusto Borges Irala – Bispo da Diocese Anglicana de São Paulo;

Revmo. João Câncio Peixoto Filho – Bispo da Dicoese Anglicana do Recife;

Revmo. Clóvis Erly Rodrigues – Emérito;

Revmo. Almir dos Santos– Emérito

Revmo. Juba Pereira Neves– Emérito

Revmo. Orlando Santos de Oliveira – Emérito

Revmo. Sebastião Armando Gameleira Soares – Emérito

Revmo. Celso Franco de Oliveira – Emérito

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A FLD está recebendo projetos a partir dos editais do seu Programa de Pequenos Projetos. São seis ao todo: dois, na área de Justiça Econômica; dois, na área de Justiça Socioambiental; um, na área de Diaconia; e um, na área de Direitos.

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O prazo final para encaminhamento dos projetos é 23 de setembro de 2016, às 23h59min (horário de Brasília).

Os projetos devem ser elaborados e enviados através do formulário eletrônico disponível no site da FLD, no endereço www.fld.com.br/projetos/requerente, observando-se as condições e critérios específicos de cada um.

Nenhum edital irá considerar projetos oriundos de pessoas físicas, de instituições privadas, de órgãos públicos e de universidades.

Clique aqui e veja outras informações referentes aos editais.

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Foi realizada, nos dias 15, 16 e 17 de agosto, em Brasília (DF), na sede nacional da Cáritas Brasileira, a reunião de coordenação do Fórum Ecumênico ACT (Brasil). Entre os objetivos estava refletir o contexto brasileiro, avaliar as ações realizadas ao longo de 2015, traçar estratégias e definir prioridades para a atuação do movimento ecumênico para o restante do ano (2016) e, também, para o seguinte, 2017.

O encontro contou com a participação da maioria das organizações que integram o Fórum Ecumênico ACT Brasil: Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), Fundação Luterana de Diaconia (FLD), Rede Ecumênica da Juventude (REJU), KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), Conselho Mundial de Igrejas (CMI), ACT Alliance, Chrisitan AID, Processo de Articulação e Diálogo (PAD), Instituto Universidade Popular (Unipop); Aliança de Batistas do Brasil, Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), Programa de Formação e Educação Comunitária (PROFEC), Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP), Comissão de Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso da CNBB, Igreja Metodista, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, Visão Mundial, Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos (ASTE). Para o painel de abertura, outras organizações também estavam representadas, como a comunidade Bahá’í do Brasil, o Centro Cultural Brasil Turquia (CCBT), o Templo Budista Terra Pura de Brasília, a organização Conectas, a agência HEKS, o Centro Cultural de Brasília, além da anfitriã, Cáritas.

A reunião anual do Fórum Ecumênico ACT Brasil, inciou na segunda-feira, dia 15 de agosto, com a apresentação dos trabalhos de formação realizados pelo Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento (SADD), junto às suas comunidades sobre o tema gênero, sexualidades e direito. O trabalho apresentado por Sandra Andrade, coordenadora do SADD.

Na manhã do dia 16 de agosto, foi realizado o painel Religião e Democracia - Dilemas atuais sobre fé e poder. O painel fez parte do lançamento, junto às organizações do Fórum Ecumênico ACT Brasil, da Campanha Mais Direitos Mais Democracia - maisdireitosmaisdemocracia.org.br.

O tema do painel foi abordado por Zwinglio Mota Dias, reverendo emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Ronilso Pacheco, teólogo e agente social do Viva Rio e Luana Basílio da Plataforma Dhesca.

Professor Zwinglio dedicou sua apresentação em memória à pastora da IECLB Rosa Marga Rothe, ativista pelos direitos humanos, que faleceu este ano. Em relação aos dilemas entre fé e poder, Zwinglio iniciou destacando que:

1) Nossa civilização montou um desafio mentiroso e, assim como vamos, não é possível satisfazer esse sentido de esbanjamento que se deu à vida. Isso se massifica como uma cultura de nossa época, sempre dirigida pela acumulação e pelo mercado. Prometemos uma vida de esbanjamento, e, no fundo, constitui uma conta regressiva contra a natureza, contra a humanidade no futuro. Civilização contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais .Ou pior: civilização contra a liberdade que supõe ter tempo para viver as relações humanas, as únicas que transcendem: o amor, a amizade, aventura, solidariedade, família.” (José ‘Pepe’ Mujica)

2) “O que vemos hoje não são guerras de religião ou de civilização. Estamos diante de algo da ordem do assassinato e estes assassinatos têm relação estreita com as paixões niilistas de uma era que esqueceu justamente os grandes valores do humanismo, valores estes que não são específicos do Ocidente, mas sim compartilhados por muitas culturas e civilizações.” (Roland Gori)

3) Ecumenismo... “é mediar trabalho em unidade e na promoção de diálogos entre as religiões. Em um esforço conjunto para além da tolerância, sem proselitismos, mas na proposta de fraternidade, que una forças para denunciar as desigualdades sociais, a discriminação, a exclusão, o sexismo, o machismo, a homofobia ou quaisquer outros tipos de violências que possam impedir o abraço, o afeto, a ternura em favor da humanidade.” (Valeria Cristina Vilhena)

Em relação ao momento atual, Zwinglio destacou que mais do que em outros períodos, nunca foi tão grande a busca pelo sentido da vida. A situação atual é dominada por uma racionalidade que não consegue satisfazer as carências humanas. Somos desenraizados e sós! Zwinglio recupera Rolin Gore que afirma que “Fomos tão longe no desencantamento do mundo e na dessacralização do universo, que enfrentamos a nudez de uma razão puramente instrumental. O terrorismo também é parte dessa racionalidade. Pertence à mesma civilização. Essa perda de sentido, de existência do mundo alimenta a guerra de todos contra todos e promove o surgimento de uma revolução conversadora.

Perdemos a razão de ter esperança... Temos de dar um basta ao neoliberalismo, que aumenta as desigualdades sociais.O terrorismo também é parte dessa racionalidade. Pertence à mesma civilização, Essa perda de sentido, de existência do mundo alimenta a guerra de todos contra todos e promove o surgimento de uma revolução conversadora.

Perdemos a razão de ter esperança... Temos de dar um basta ao neoliberalismo, que aumenta as desigualdades sociais.

Em relação ao atual momento político brasileiro, Zwinglio afirmou que o golpe político, midiático religioso, com apoio de um grupo dito evangélico, faz parte de nova forma de intervenção do neoliberalismo. O Brasil volta a ser submetido aos interesses do capital do internacional. “Saem do armário” os grupos de direita, retorna a velha ideia de impérios dominantes (EUA e Estados europeus).

Por fim, ofereceu pistas para um novo olhar para a presença religiosa na sociedade destacando que:

"Nossas teologias e percepções religiosas sufocam e impedem as manifestações mais sublimes de fé. O conceito bíblico de fé não tem a ver com “acreditar em”, mas significa confiança e esperança. É preciso esquecer os nomes de Deus e as religiões inventadas para encontrar Deus na vida. Há que se recuperar a graça e a beleza da vida, para além dos compêndios dogmáticos, e nos abrir para leituras mais metafóricas de nossa experiência.

- Busca pela justiça é o desafio primeiro em todas as nossas ações.

- Buscar o diálogo com todas as outras manifestações religiosas = hospitalidade: oferecer ao hóspede o quarto mais arejado e luminoso (Martha Luchese).

- Acolher o/a diferente com admiração e respeito, pois nele/a se reflete o inefável da vida.

- Assumir os mitos fundamentes de nossas culturas.

- Cuidar da terra como lar comum de toda a humanidade.

- Sermos compassivos/as e amorosos/as e cheios/as de misericórdia no trato das questões que nos dividem.

Em seguida, a representante da Plataforma DHESCA apresentou parte dos resultados do relatório sobre o Estado Laico realizado pela Plataforma. Luana iniciou explicando porque é que sentiu-se a necessidade de realizar uma relatoria específica sobre o estado laico no Brasil. Lembrou que por ocasião do relatório sobre Saúde e da Educação foi identificado que havia interferência de religiões nas políticas públicas na área da saúde. Muitos profissionais de saúde negavam-se a realizar determinados procedimentos na saúde com o argumento de objeção de consciência. Se o procedimento necessário não estivesse de acordo com os valores religiosos do profissional de saúde ele simplesmente negava-se a realizar. Em 2015 o Rio aprovou a chamada “Lei de objeção de consciência”: permite aos servidores a negar atendimento por liberdade de crença Aprovada em maio de 2015. Luana citou alguns casos concretos de desrespeito à laicidade do Estado:

1) Uma transexual que no posto de saúde não era chamada pelo nome social e durante o exame foi obrigada a escutar músicas gospel.

2) Um filho de santo vestido com sua roupa religiosa e com guias, embora estivesse sangrando não foi atendido, o profissional de saúde negou-se a tocar no paciente.

3) Prática da benção dos fuzis - para que os traficantes expulsem as mães de santo das comunidades.

4) Pessoas muçulmanas entregaram um dossiê com 300 denúncias de violação de direitos.

5) Uma criança de cinco anos da rede pública - cujos pais são ateus - expressaram sua insatisfação com o fato da criança ser obrigada a fazer oração ou cantar músicas religiosas todos os dias na escola. Quando a escola foi notificada de que não poderiam obrigar a participação da criança neste momento devocional, a criança precisou ser escoltada. Esta criança passou a ser perseguida e precisou trocar de escola.

6) Em Brasília, a parlamentar Sandra Paraji, vem perseguindo professores/as que tratam do assunto LGBT, por exemplo. Nesta mesma cidade, sem anuência dos pais, alunos eram levados para manifestação em prol do projeto “Escola sem partido”.

Luana destacou que a ruptura do estado laico é expressão do racismo e machismo.
Casos (Rio de janeiro):

Lembra que nas câmaras municipais e no congresso nacional, as pautas relacionadas a gênero e racismo têm sido atropeladas. Destacou que há uma profunda violência institucionalizada que está sendo legalmente constituída.

Ronilso Pacheco lembrou que nossa trajetória histórica é violenta. Basta lembrar os períodos de escravidão e de ditadura civil-militar. Enquanto a escravidão é pensada como um grande bloco (mesmo envolvendo a tortura diária de cada homem e mulher negra), a ditadura nos remete a violências mais pessoais. O racismo é um dos legados da violência histórica. A ditadura está presente nas práticas do aparato policial de hoje.

A resposta de Jesus - perdoar 70 X 7 vezes lembra Lamec, que seria vingado 70 vezes. Uma proposta de vingança é contraposta por Jesus com o perdão como forma de quebrar do ciclo de violência.

O perdão, no entanto, está esvaziado de sentido. O perdão precisa ser entendido como capacidade de: a) não repetição da violência; b) reconhecimento da violência; c) enfrentamento da violência.

Ronilso apresentou três desafios:

1. Como é possível esvaziar do poder essa dimensão da fé exclusivista? É possível movimento ecumênico inter-religioso “iconoclasta” que sacralizasse a justiça dignidade e cidadania, toda vez que o poder for o grande ídolo?

2. Como quebrar a força da violência impregnada no poder, frear a atmosfera da violência.

3. Como superar o discurso da tolerância para uma construção comum e igual. Superar a ideia da tolerância como objetivo.

O fruto da justiça será a paz, a obra da justiça consiste na tranquilidade (Jr). A justiça é o amor tornado política pública!

Outro momento de grande importância na reunião do FEACT - Brasil foi a participação do representante para América Latina e Caribe de Act Aliiance, senhor Carlos Rauda. Carlos apresentou a política de emergência e incidência de ACT Alliance e seus desafios para a região. A afirmação da democracia e a luta contra o extermínio de populações indígenas permeou a conversa com Carlos Rauda.

No último dia de reunião, dia 17 de agosto, foram estabelecidos critérios para novas organizações integrarem o Fórum. A Visão Mundial foi acolhida formalmente para integrar o Fórum. Além disto, foram escolhidas as linhas prioritárias de ação de FEACT para o período de agosto de 2016 a agosto de 2017, sendo:

1- Fortalecer a Identidade Ecumênica

– (Re) Encantamento com a causa ecumênica (para dentro e para fora das igrejas);
– Agenda Comum.

3- Incidência por direitos e democracia

– Migração;
– Diversidade religiosa;
– Povos tradicionais;
– Gênero;
– Juventudes com prioridade para REJU.

3- Comunicação

– Formação interna;
– Democratização dos meios de comunicação;
– Criação da Rede de Comunicadores/as das Organizações do FEACT;
– Aproveitar a realização do encontro do CESEEP para animar novas redes de comunicação;
– Fortalecer a Plataforma de Ação e Diálogo como canal de comunicação com as Agências Financiadoras.

Na opinião da secretária-geral do CONIC, Romi Bencke, esse encontro foi importante pela presença expressiva das Igrejas. “Participaram oficialmente da reunião as igrejas Metodista, Episcopal Anglicana do Brasil, Presbiteriana Unida do Brasil, Católica Romana, Aliança de Batistas. Outro destaque foram as presenças de ACT Alliance, da Plataforma de Ação e Diálogo e da Christian Aid. Muito positiva foi a acolhida da Visão Mundial para fazer parte do Fórum e a possibilidade de acolhermos novas organizações”, afirmou.

Foto: Tatiane Duarte

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ivone gebara

"Há algo muito forte que tem a ver com a política de nossas emoções, com nossos afetos cotidianos que se misturam às muitas decisões também políticas que tomamos. Não se pode obrigar alguém a amar o que rejeitou e, não se pode fazer de conta que se ama quando de fato não se ama", escreve Ivone Gebara, filósofa, religiosa e teóloga.

Eis o artigo.

O cristianismo nos educou que há que “amar a Deus sobre todas as coisas”. Este é o primeiro mandamento da “lei de Deus”, mandamento que entrou de cheio em nossa cultura e se mostra nas muitas afirmações populares como: ‘primeiro Deus’, ‘abaixo de Deus’, ‘se Deus quiser’, ‘com a permissão de Deus’, ‘que Deus te abençoe’, ‘graças a Deus’ e muitas outras no gênero. Não podemos apreender exatamente todas as nuances dessa palavra no uso ordinário e coloquial que fazemos dela. O mais comum é que ela indique que estamos vivendo sob o impulso ou o poder de “algo maior” do qual nossa vida depende. Entretanto, essa palavra embora seja aparentemente ‘maior’ do que nossa vida e as nossas circunstâncias históricas parece condicionada a decisões individuais e a políticas das mais diferentes procedências. Por isso, no atribulado contexto político e social em que vivemos hoje a palavra DEUS está em quase todas as bocas e em cada boca com um significado e um interesse diferente.

Afirmo algo bastante conhecido e que pode ser observado no cotidiano das pessoas assim como nos meios de comunicação os mais variados. Estes manifestam o quanto, muitos políticos usam a ‘palavra mágica Deus’ para legitimarem sua voz, seu voto e suas iniciativas. Nesse mesmo contexto, entretanto, muitos têm também tomado a defesa de Deus afirmando que sua Majestade foi desrespeitada por políticos exploradores do povo e manipuladores da religião. Defendem a Deus como a si mesmos... Dizem que os manipuladores usam DEUS a seu favor e não temem tomar seu nome em vão para justificar suas decisões despejando sobre o povo uma verborréia pretensamente moral e legitimada por seu DEUS. Este então lhes daria a autoridade e legitimidade que não têm.

O que gostaria de sublinhar nessa breve reflexão é que o uso da palavra Deus é impróprio num e noutro caso, sobretudo no contexto em que vivemos. Acusação e defesa de certa forma usam a mesma lógica de possessão da autoridade de DEUS para falar em seu nome como se o conceito Deus fosse claro e seu significado unívoco. Basta observarmos como alguns prepararam discursos sobre DEUS para dizer o quanto ele estaria sendo ofendido com o mau uso que fizeram e fazem dele. Afinal usar DEUS para apoiar golpes,mentiras políticas e a exploração de muitos tipos dizem ser inaceitável! Com esse discurso querem fazer crer que DEUS estaria do lado deles, apoiando suas posições e escolhas, o que equivaleria a dizer que Deus como eles é mais de esquerda do que de direita. Por isso fazem cartas de desagravo, de defesa de DEUS revelando a partir delas sua postura política considerada a mais correta, a mais conforme ao bem comum ou o bem do povo. Não discuto aqui a qualidade das propostas ou dos planos de governo propostos. Discuto o funcionamento do pensamento, sua articulação lógica nos argumentos apresentados.

Nessa perspectiva, alguns até exigem uma posição clara das autoridades religiosas como se essas fossem obrigadas a tomar de forma manifesta partido de DEUS, segundo os ditames da esquerda ou da direita política nas muitas variações de cada uma dessas tendências. De fato essa expectativa poderia talvez favorecer um ou outro lado da política, mas seria uma vez mais buscar legitimidade nas posturas religiosas para o enfrentamento político, sobretudo que em algumas questões esses defensores de Deus afirmam a laicidade do Estado. Como falar com propriedade de Estado laico? Quando Deus aparece com uma multiplicidade de máscaras, sobretudo como alter-ego, cobertor, corruptor, corrompido ou justo, libertador e libertário a laicidade do Estado precisa ser mais bem refletida! Que Deus é esse? Quem é Deus? Onde está Deus? E mais, qual é o modelo de Estado que Deus aprovaria?

Creio que nesse panorama político e teológico confuso e complexo uma pergunta não quer calar em nós: por que o uso da palavra DEUS está hoje tão frequente, sobretudo, na política? Por que essa palavra é recuperada pelos grupos políticos de direita, de centro e de esquerda, cada um invocando-o para sua causa e seu lado. Nessa invocação quase sempre consideram a invocação do outro uma mentira ou uma injúria à Altíssima e Puríssima Santidade de seu Deus?

Em nome de Deus gritam alguns: Que viva a Pátria com e para Deus! E outros exclamam: Salvem Deus das garras da direita! Nós somos do lado do Deus dos pobres e vocês do Deus dos latifundiários! Não, respondem os primeiros... Seu Deus é o Demo... E a confusão na política, na religião e na sociedade se faz presente cada um reclamando para si “um pedaço” de Deus! Assim os diferentes grupos expressam a batalha por DEUS nos campos minados da política nacional e internacional. Esse uso excessivo da palavra Deus não estaria escondendo uma fraqueza das autoridades e uma fraqueza dos diferentes grupos frente às suas crenças políticas? É como se buscassem ‘alguém’ cuja autoridade fosse indiscutível e também fosse imediatamente desconhecida, uma autoridade mais ou menos imaginária que servisse de suporte a um sem número de afirmações que não resistem a um olhar atento sobre os fatos e as pessoas. Que saídas encontrar nesse labirinto escuro?

E se não usássemos a palavra DEUS? Se a deixássemos descansar para recuperar sua força e vitalidade? Se apagássemos ou colocássemos entre parêntesis, ao menos provisoriamente essa palavra dos dicionários e da linguagem cotidiana, sobretudo da política partidária? E, se não achássemos mais que as igrejas e suas autoridades públicas tivessem o privilégio maior e a verdade mais profunda em relação ao “conhecimento de Deus”? E se tentássemos entender o que uns e outros querem dizer quando empregam essa escorregadia palavra? Sim escorregadia palavra porque portadora de escorregadios significados. Escorregadia visto que parece ter um só significado, mas é multidão. Multidão de significados para os que a utilizam e para os que calam sobre ela. Escorregadia porque nos conduz a um terreno movediço que nos faz cair em contradições contínuas frente a frágil realidade que somos e que vivemos.

E, mais uma vez, se parássemos de usar a palavra DEUS e tentássemos explicitar no lugar dela o que estamos pedindo, o que estamos esperando de nós mesmos, o que estamos desejando para o mundo que nos rodeia. Permitamos a Deus o descanso do sétimo dia... Deixemo-lo descansar dos conflitos em que não só buscamos sua ajuda, mas o usamos como cúmplice imaginário para nossos nefastos ou gloriosos planos. Deixemos que descanse e tentemos reconfigurar nosso mundo nesse acender e apagar de vidas, nessa sucessão de momentos diversos de nossa história. Assumamos o compromisso com nossa própria palavra e nossa responsabilidade para hoje.

Nessa linha, tentar dizer coisas realizáveis para sair dos verbos, substantivos e adjetivos abstratos como, por exemplo, “é preciso amar”, “fazer justiça”, “ser irmão”... Todo esse linguajar genérico não opera nenhuma mudança efetiva. Está minado de joio, de cizânia, de interesses egoístas, de enganos, manipulações... Cria ilusões e desejos impossíveis. Cria falsas expectativas e nos enreda cada vez mais em nós mesmos e em nossas dissimulações...

Quando todo o corpo dói machucado por uma queda violenta é preciso prestar atenção para ver por onde segurá-lo para melhor erguê-lo sem danificá-lo ainda mais. E no levantar, todos podem ajudar de diferentes maneiras se de fato estiverem interessados em levantar o corpo caído, em saná-lo e não apenas se mostrar uns aos outros quando e como o estão levantado. Da mesma forma se quiserem ajudar poderão fazê-lo a condição de não ficarem todo o tempo acusando uns e outros de terem empurrado o corpo ao chão ou de lhe terem negado sustento. Enfrentar-se ao corpo ferido é buscar as saídas imediatas para mantê-lo vivo e depois pouco a pouco curar as partes mais atingidas dele, aquelas sem as quais o corpo não se sustentaria. Mas, é claro que a analogia de um corpo quebrado, ferido e jogado no chão não é a mais adequada para falarmos do complexo corpo social muito embora possa ajudar-nos a partir dela e ir mais além dela. Diante da desumanidade crescente em nosso meio o uso da palavra DEUS tornada cúmplice dessa desumanidade, nos convida uma vez mais a silenciá-la e a falar em nosso nome e a denunciar os abusos de poder que nos rodeiam em nosso nome. Falar em nosso nome é também denunciar as tramas e as corrupções cotidianas de outros nomes contemporâneos correndo até o risco da perseguição.

Há algo muito forte que tem a ver com a política de nossas emoções, com nossos afetos cotidianos que se misturam às muitas decisões também políticas que tomamos. Não se pode obrigar alguém a amar o que rejeitou e, não se pode fazer de conta que se ama quando de fato não se ama. Fazer figura de defensores dos pobres, seguidores do Evangelho para que sejam reconhecidos como bons e justos não cria novas relações. Da mesma forma, amar por constrangimento político ou religioso, amar porque os “amigos” me obrigam a fazê-lo não se sustenta. Entra-se no jogo das máscaras teatrais e pode-se cair em qualquer tropeço... E o dano social pode ser ainda maior. Quem de fato tem ouvidos para ouvir ouve. Quem tem olhos para ver, vê. Quem acolhe alertas, muda. Quem tem dúvidas pode se informar e se abrir aos desafios da história presente.

As pressões feitas para se amar para além das decisões interiores, para além do amor que nasce das entranhas não sustenta nenhuma política em favor do bem comum. Nesse sentido é trabalho quase inútil tornar Deus um político de uma cor determinada ou uma tendência social por pressão... Nada se sustenta sem a integridade dos corações, sem as convicções que nutrem a história de uma vida. Por isso de nada adianta pressionar bispos para que reajam diante do momento nacional ou para que sejam capazes de ouvir os gritos das mulheres em busca de dignidade e respeito. A velha tradição cristã falava de ‘conversão do coração’ e esta parece estar ainda distante para muitos. Nesse particular, os políticos estão agora preocupados com a pressão social contra o estupro de mulheres. Estão transformando o estupro coletivo de uma jovem de 16 anos no Rio de Janeiro em questão de honra política. Movem-se exigindo justiça, fazendo leis que castigam duramente os estupradores. Horrorizados invocam seu Deus diante do acontecido embora saibamos bem que o estupro é também ‘pecado conhecido’ na vida de civis, militares e religiosos de longa data. Mostram-se espantados como se esse horror não fosse também obra de seus corpos e de suas mentes condescendentes com a identidade machista naturalizada que herdaram. Perdoam-se mutuamente e de aparência contrita lamentam os erros dos seus pares prometendo agir contra esse ‘desvio social e comportamental’.

Os estupros coletivos de mulheres não são apenas de nosso tempo. Quantas guerras foram feitas às mulheres nas muitas batalhas do mundo! Hoje estarrecidas/os imaginávamos que tal prática comum em muitas situações já não existia no meio de nós. Voltamos à barbárie, à conquista da ‘frágil inimiga’ pelo prazer de vê-la ensanguentada, derrubada ao solo pela força bruta exaltada. Tomadas/os de indignação temos que reconhecer a complexidade do que presenciamos. Que prazer coletivo se sente depois de ter destroçado uma vida? Que gargalhadas e risos sarcásticos povoam as faces de jovens homens depois desse feito ignominioso? Seria o mesmo que matar um touro numa tourada, ou ver muitos galos feridos numa rinha organizada como espetáculo e competição? E depois do touro morto ou do galo ferido se vai agradecer a Deus ou à Virgem que guiou nossa espada e louvar o apoio de nossa torcida vencedora. E como a loucura coletiva do estupro e da matança dos galos ou touros as gargalhadas insanas dos que gozaram excitados pelo sangue e pelos corpos feridos ecoam como ovações por um troféu conquistado. Sem dúvida alguns agradeceram a DEUS pela deliciosa brincadeira e pela vitória... Afinal apenas feriram uma mulher, ser inferior, sujo de sangue... Nada mais do que isso... Uma mulher! Feriu-se também uma ave ou um animal de porte como um touro... Todos esses seres na realidade devem se colocar a nosso serviço e lazer! Uma rodada de cerveja é bem-vinda nesse momento de supremo deleite!

Mais uma vez não precisamos da palavra DEUS para denunciar esse horror e não precisamos que aqueles que se afirmam publicamente como representantes de Deus o façam publicamente. Na realidade eles apenas representam a si mesmos... Não exigimos que o façam porque não o fazem de coração contrito. E se não é assim não observarão os acordos, não viverão o que mostram acreditar. De nada servirão as penalidades maiores ou menores se o coração não for educado para o respeito do próximo, do meu outro eu. Nós, convictas/os dos valores que defendemos, queremos fazer valer o direito e a justiça entre nós... Como? Talvez começando tudo de novo na continuação daquilo que é... Nós nos recolheremos para estudar e nos treinar em uma ‘arca’ semelhante aquela de Noé... Abriremos nosso coração uns para os outros... Nós nos despiremos das roupas guardadas cheirando mofo... Descobriremos que já não se ajustam aos nossos corpos prenhes de novidade... Enterraremos as armas e os canhões assim como os excessos de ouro e prata... Faremos poemas olhando o mar e o céu estrelado... Então poderemos sair da arca e ir as praças cantar e fazer muita música... Já fizemos isso antes. Lembram-se? E a música e a dança serão tantas que contagiarão outros corpos que virão dançar também...

Vivemos em coletividade habitadas/os por nossas crenças e valores como frutos de um mesmo universo criador, ou melhor, de um ‘pluriverso’ multifacetário. Existimos diversos, uns aos olhos dos outros mesmo se o mais forte em nós for nossa individualidade. Mas, cremos que somos um a outra e a outra o outro, interdependentes... Caímos, erramos... E, renascemos uma no outro... Mesmo velhos ainda dá para nascer de novo e ir à praça pública... Mas, melhor seria sem usar a palavra Deus embora intuamos a nossa humanidade divina... Podemos entrar na música que de muitos lados nos convida a uma ciranda comum cantando “gracias a la vida” e acreditando na possibilidade de recomeçar, de fazer nascer músculos e carnes nos nossos ossos ressequidos como dizia o profeta Ezequiel...

Fonte: ihu.unisinos.br

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Eleições municipais - 2016
CARTA PASTORAL

Buscai o bem e não o mal, para que vivais.
Amós 5.14

Firmino desabafa: – O que está havendo com a nossa classe política? Haverá ao menos um político que não aceite propina? Com facilidade reajustam seus próprios salários e justificam isso sem envergonhar-se! Quantos estão nessa tal de Lava-jato! Pô, assim não dá! CADÊ A ÉTICA NA POLÍTICA?

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O mesmo Firmino e sua esposa haviam contratado uma doméstica. Anos mais tarde, quando Maria requereu a aposentadoria, soube no INSS que Firmino não recolhera a contribuição dela à Previdência, como ele tinha prometido. – PÔ, FIRMINO, CADÊ A SUA ÉTICA?

Sete séculos antes de Jesus, o profeta Amós clamou aos seus conterrâneos: BUSCAI O BEM E NÃO O MAL (Amós 5.14a). Amós clamou em nome de Deus para dizer à sua gente: Vocês se esqueceram de viver responsavelmente. Em lugar do bem, pratica-se mal. No comércio, os lucros são ilícitos e os pobres são explorados. A imoralidade, o luxo e o acúmulo de tesouros ofendem quem passa fome. A religiosidade é hipócrita. Não há sensibilidade das autoridades diante de quem sofre. Os humildes são tratados com injustiça nos tribunais e as pessoas inocentes são condenadas. (Amós cap. 2-5)

Amós, o profeta, argumentou que a prática do mal levaria a sociedade da sua época à ruína. Se as pessoas não atuassem em favor do bem comum, mais cedo ou mais tarde a sociedade estaria fadada à ruína. Resumindo, AMÓS CLAMOU EM FAVOR DA ÉTICA.

Estamos às vésperas de eleições municipais em nosso país. A Presidência da IECLB entende que é oportuno e necessário refletir sobre ÉTICA NA POLÍTICA! Vamos aproveitar o período de campanha para refletir e conversar sobre esse assunto. Mais que isso, vamos nos empenhar para que candidatos, candidatas, eleitores e eleitoras façam desta eleição municipal um MUTIRÃO EM FAVOR DA ÉTICA NA POLÍTICA!

ÉTICA É A CAPACIDADE DE DISCERNIR ENTRE O BEM E O MAL, entre o correto e o incorreto, entre o que é responsável e apropriado para o comportamento humano em suas relações sociais e pessoais. Ser pela ética é escolher o bem e não o mal. Parece fácil, mas a realidade revela que não é tão fácil assim. O certo é que a vida no planeta não é viável sem a ética – desde tempos imemoráveis!

A partir da sua origem, a palavra política pode ser assim traduzida: POLÍTICA É TUDO AQUILO QUE SE FAZ OU SE DEIXA DE FAZER DE MODO QUE A VIDA BOA PARA UMA SOCIEDADE SEJA VIÁVEL. De fato, a vida na terra depende decisivamente da política. Também é pela política que a vida fica ameaçada. A nossa vida em sociedade – nos rincões e nas capitais – tem a chance de ser melhor ou ficará pior, dependendo do que se faz na política. Portanto, ELEIÇÕES MUNICIPAIS TÊM TUDO A VER COM A BOA POLÍTICA.

Com regularidade, a Presidência da IECLB manifestou-se em períodos de eleições. Muitas dessas manifestações continuam atuais, das quais destacamos alguns extratos.

• Na Carta Pastoral da IECLB - Eleições 2001, lê-se: A Comunidade Evangélica de Confissão Luterana, integrada na sociedade municipal, está consciente de sua CIDADANIA. A partir do Batismo, somos filhas e filhos de Deus e fazemos parte de sua grande família. O Pai celeste, por sua graça, nos concede o pão de cada dia.

Lutero interpretou magistralmente o que significa esse pão de cada dia: Tudo que se refere ao sustento e às necessidades da vida, como, por exemplo: comida, bebida, roupa, calçado, casa, lar, meio de vida, dinheiro e bens, marido e esposa íntegros, filhos íntegros, empregados íntegros, patrões íntegros e fiéis, BOM GOVERNO, bom tempo, paz, saúde, disciplina, honra, amigos leais, bons vizinhos e coisas semelhantes.

Esse pão não cai pronto do céu, mas passa pelas mãos humanas que o devem produzir e REPARTIR DE MANEIRA FRATERNA. Cabe também ao governo municipal a responsabilidade de oportunizar e promover os ingredientes desse pão de cada dia, ou seja, educação, saúde, emprego, lazer, moradia, segurança no lar, nas ruas e no trabalho. Para executar essa tarefa, o povo lhe confiou os PODERES.

• Na Carta Pastoral da IECLB - Eleições 2004, lê-se: Pelo amor, as pessoas cristãs são SERVIDORAS umas das outras (Gálatas 5.13) e esse servir inclui a política. Assim, às vésperas de novas eleições municipais, reafirmamos a nossa responsabilidade, como Igreja de Jesus Cristo, nos assuntos políticos e sociais de nossa pátria.
Há critérios e perguntas que nos ajudam na hora de definir nosso voto:
- Como está o lugar onde moramos?
- Será que estamos no bom caminho?
- A cidade está arborizada?
- Nossas ruas, rios e córregos estão limpos?
- É possível circular de bicicleta sem risco de perder a vida?
- Em cadeira de rodas?
- Todas as crianças e os jovens estão na escola?
- As pessoas recebem prontamente o adequado atendimento à saúde?
- Todos os adultos têm trabalho e ocupação dignos?
- As leis e os projetos públicos estão na direção certa?
- A política é transparente?
- A população pode participar nos processos de decisão e nos programas, ou é mero objeto?

• Na Carta Pastoral da IECLB - Eleições 2006, lê-se: DIANTE DE UMA ELEIÇÃO, VOTE! Não anule o seu voto! Valorize sua opinião e convide outras pessoas a fazerem o mesmo.
- Lembre-se: nem todos os políticos são iguais. Examine bem e busque os melhores e mais confiáveis!
- Confira quem financia o seu candidato ou a sua candidata. Você acha que ele ou ela vai trabalhar em favor da sociedade ou de quem deu o financiamento?
- Política não pode ser desenvolvimento de projetos pessoais ou de grupos privilegiados. Procure dar seu voto a quem busca o bem geral do povo, em particular as pessoas de maior necessidade.
- Busque conhecer o projeto do seu candidato ou de sua candidata e também de seu partido. Pergunte-se: é apenas discurso ou realmente compromisso?
- Não esqueça: o exercício do voto consciente também faz parte do amor ao próximo.

• Na Carta Pastoral da IECLB - Eleições 2008, lê-se: Cabe avaliar quem se apresenta para a função pública.
- Quem é esse candidato e essa candidata?
- Em que ocupação ou cargo já atuaram?
- Como se saíram?
- Como lidam com as pessoas e com qualquer patrimônio que lhes é confiado?
- AS PROMESSAS QUE FAZEM, SÃO REALIZÁVEIS?
- Irão beneficiar a quem?
- Que visão os candidatos têm do seu município?
- Suas propostas levam em conta a diversidade característica do seu lugar?
- Os projetos que apresentam favorecem a população como um todo, ou apenas a alguns grupos?
- O que pensam acerca de segurança pública, saneamento e moradia?
- Que projetos têm para melhorar as áreas mais pobres do município?

• Na Carta Pastoral da IECLB - Eleições 2010, lê-se: Há princípios básicos que norteiam a pessoa cristã em seu DISCERNIMENTO ÉTICO e também na avaliação das propostas políticas em debate na nação. Repudiamos como incompatível com a fé cristã todas as tentativas de '“sacralizar” o embate político, sobretudo qualquer tentativa de “satanizar” ou “demonizar” pessoas ou forças políticas adversárias. Quem o faz deve se perguntar e ser questionado se não está sendo ele próprio instrumento da injustiça e do mal. Já há quase cinco séculos, o Reformador Lutero repudiou completamente o conceito de “guerra santa” como falsificação da Palavra de Deus. Devemos resistir à tentação de reintroduzi-lo em nossas consciências e na vida política.

• Na Carta Pastoral da IECLB - Eleições 2014, lê-se: Em nosso país, cresce a confusão entre Igreja e Estado. Essa confusão aumenta em tempos de eleições. A IECLB - IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL FAZ PARTE DA TRADIÇÃO PROTESTANTE QUE SE EMPENHA PELA SEPARAÇÃO DE RELIGIÃO E ESTADO. Preconiza a defesa do Estado laico. A IECLB incentiva sempre a participação em partidos políticos como canais institucionais que expressam valores e ideologias presentes na sociedade brasileira. Condena vícios nefastos presentes na cultura política brasileira. Dentre eles, destaca-se o clientelismo, o coronelismo e a defesa de interesses meramente corporativos e pessoais, por isso, para a IECLB, o assédio às pessoas identificadas com a fé evangélica por parte de candidatos, candidatas e a tentativa de transformá-las em um curral eleitoral representam um grande desserviço à democracia.

Exercitemos, pois, a cidadania que brota da fé! Participemos da vida política como resposta à vocação de Deus! Oremos a Deus para que a civilidade, a paz, a justiça, a harmonia, a liberdade e a democracia se tornem realidade pelos vínculos baseados no respeito, no diálogo, na gratidão, na partilha e na diaconia!

________________________________

Diante das eleições municipais em 2016, a Presidência da IECLB reafirma a histórica contribuição desta Igreja pela POLÍTICA COM ÉTICA COMO INSTRUMENTO E MEIO INDISPENSÁVEIS E INSUBSTITUÍVEIS PARA O BEM DO POVO. Em vista dos acontecimentos recentes no cenário político brasileiro, entende que chegou o tempo de darmos atenção toda especial a duas questões. Em primeiro lugar, para o bem do lugar onde vivemos, vamos afirmar e defender: O VOTO NÃO ESTÁ À VENDA! Não quero dinheiro, nem favor! Apenas quero ética na política! Em segundo lugar, vamos nos empenhar pela CORRESPONSABILIDADE ENTRE QUEM VOTA E QUEM É ELEITO.

NÃO BASTA VOTAR. É preciso dar exemplo de ética, acompanhar e fiscalizar. Para tal, apostemos no diálogo, busquemos mais diálogo, exijamos mais diálogo. NÃO PERCAMOS A OPORTUNIDADE PARA NOVAMENTE DISCUTIR TEMAS POLÍTICOS EM NOSSAS CASAS. Isto mesmo! Comecemos pela família. Com o pai e a mãe, com o filho e a filha! Dialoguemos mais com nossos representantes políticos em espaços de decisão. Fiquemos atentos ao que fazem depois de eleitos e não deixemos que apenas façam de conta que nos ouviram. COBREMOS DAS AUTORIDADES, EM TODOS OS NÍVEIS, MAIS DIÁLOGO COM A POPULAÇÃO!

Toda convivência humana carece de uma regulação e esta regulação acontece por meio da PARTICIPAÇÃO POLÍTICA. Cabe à pessoa cristã e cidadã eleger representantes para legislativo local (Vereadores, Vereadoras) e administradores, administradoras municipais (Prefeitos, Prefeitas) e, por conseguinte, acompanhá-los, acompanhá-las criticamente no exercício de seus mandatos. Cabe cobrar transparência das instâncias administrativas e de gestão. Cabe o exercício da participação nos conselhos municipais de direitos e de outros espaços de discussão, debate e de acompanhamento. Da mesma forma, vamos apoiar as autoridades nos seus acertos.

Uma das grandes tentações das pessoas cristãs no tocante à política é a de assumir uma postura de desinteresse e indiferença ou mesmo de desqualificação. PARTICIPAR DA POLÍTICA, NO ENTANTO, REPRESENTA VOCAÇÃO NOBRE DE EXERCÍCIO DA CIDADANIA.

________________________________

Como Firmino, você e eu – nós – TEMOS O DIREITO DE EXIGIR ÉTICA NA POLÍTICA. Por causa da mesma ética, nós TEMOS O DEVER DE SER CANDIDATO, CANDIDATA, ELEITOR E ELEITORA COM ÉTICA. Precisamos ser Firmino ético em todos os lugares e momentos! Busquemos, pois, o bem e não o mal, sempre, também por meio destas eleições municipais. Depois das próximas eleições, participemos ativamente, para que a ética floresça e produza frutos nas lavouras e nos pomares da política, lá onde vivemos!

VOTO NÃO SE COMPRA!
VOTO NÃO SE VENDE!
POLÍTICA TEM QUE SER FEITA COM ÉTICA!

Porto Alegre, agosto de 2016

P. Dr. Nestor Paulo Friedrich
Pastor Presidente da IECLB

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nancy cardoso

Vou evitar falar de modo muito geral sobre religião e sobre democracia. Um pouco de história é necessário. Somos herdeiras e herdeiros de um projeto de expansão imperial e colonial do século XVI que reforçou estruturas geradoras de desigualdade que ainda hoje – no século XXI - se mostram ativas: capitalismo, racismo e sexismo. São estruturas persistentes que garantem privilégios e estratificação que os ordenamentos políticos posteriores tocaram de modo insuficiente, parcial e contraditório. Na América Latina em geral e no Brasil em particular a ordenação democrática é um verniz superficial que muitas vezes mais esconde do que revela, mais ornamenta do que viabiliza a circulação de poder.

A “democracia” muitas vezes significa um padrão de equivalência com sistemas ideais norte-atlânticos, mantendo o sujeito ocidental/europeu como o critério para a avaliação de processos políticos em cenários de pós-colonialidade e/ou neo-coloniais. Isto é verdade para todos os processos políticos fora do eixo norte-atlântico. Verdade é também que em nome da “democracia” as potências ocidentais norte-atlânticas interferem e interrompem processos que não se espelham no modelo “original”.

Prefiro falar de radicalização da democracia. Aprofundar a democracia que temos pode significar reforçar os impasses da democracia liberal representativa. Reconhecer que nosso projeto de sociedade sempre foi de subalternidade e, as tentativas e alternativas pós-colonial e de-colonial, sempre encontraram feroz resistência da política real – a da propriedade, patrimônio e exclusão – através de golpes e violência contra os modos de organização e participação popular.

Nas palavras de Quijano: a cidadanização, a democratização, a nacionalização não podem ser reais a não ser de modo precário no modelo eurocêntrico de Estado-nação.

A religião jogou e joga papel importante neste cenário. O cristianismo foi e é agência de colonialidade. Fomos mal evangelizados porque evangelizados à força e as relações mantidas de “religião” com o estado nunca foram reformadas ou alteradas. Foram feitas emendas. Foi usado um verniz de estado laico. Mas no Brasil o cristianismo nunca deixou de ser religião do estado e, por isso mesmo, um dos elementos de reprodução da subalternidade entre nós.

Este olhar crítico – e autocrítico - sobre o cristianismo e suas relações de poder é vital para qualquer tentativa de radicalização da democracia. Os agentes das hierarquias não aceitam este processo de crítica, o que consideram uma relativização de suas verdades absolutas. Neste sentido a grande maioria das expressões cristãs entre nós acredita que democracia demais atrapalha o absoluto da fé e seus privilégios. A disputa pelos espaços políticos de representação revelam esta voracidade das hierarquias em manter seu status, mantendo o modelo de sociedade desigual e violento. A voracidade da bancada evangélica é aquela de querer ser e ter todo o status que a igreja católica romana sempre teve.

O modo de lidar com isso é o de radicalizar a democracia, enfrentando todos os mecanismos de desigualdade. O cristianismo vai ter que aprender a ser uma religião entre outras. Entre a democracia que temos (tida como universal mas mantida pela desigualdade e subalternidade) e a democracia que queremos (pluri-versal, que garanta modelos locais de modo de vida e de participação) a religião também precisa respirar a diversidade e a pluriversalidade.

Religiões de matriz africana

As populações e as religiões afro-indígenas foram massacradas no processo de evangelização/colonização. Este passado de violência se expressa hoje em estruturas de subalternidade já normalizadas e até mesmo normatizadas na sociedade. O Brasil se considera um país cristão e cria anexos para as outras religiões. Enquanto não houver igualdade, territórios, direitos e protagonismos políticos as religiões afro-indígenas vão continuar a ser por um lado criminalizadas e por outro lado tratadas como folclore.

Teologias cristãs

As teologias cristãs se não assumirem o ponto da autocrítica continuam sendo reforço de desigualdades históricas e estruturais. Sem esta auto reflexividade crítica toda teologia e toda leitura da bíblia vai continuar sendo elemento de normalização do cristianismo como “bagagem cultural” do modelo de sociedade capitalista, sexista e racista. Entre nós o esforço da teologia da libertação foi e continua sendo expressão contemporânea desta autocrítica fundamental. As igrejas não são democráticas, continuam convivendo com esquemas de poder vincadas por privilégios, hierarquias e sem circulação de poder. As igrejas não são um espaço de democracia! Por isso a autocrítica é urgente e essencial. Para isso é preciso libertar a teologia!

Aqui também o caráter pós-colonial e de-colonial é importante. Uma libertação da teologia que já não toma as medidas dos grandes autores e seus sistemas como modelo a ser copiado, ou interlocutores indispensáveis da tarefa teológica. As teologias entre nós continuam a ser sexistas e racistas porque não desistiram de ser expressão de poder e não se abriram ao léxico das lutas populares. Continuam a ser reforço do colonialismo/imperialismo do conhecimento e da linguagem.

Relação entre religião e política e laicidade

Afirmar a presença pública da religião sem enfrentar o doloroso cenário de desigualdade entre nós é mais um verniz que mais esconde do que revela. O problema está no espaço público mesmo... que não existe, que é viciado e vincado por profundas desigualdade e profundos privilégios que se expressam num quadro de luta de classes dramático. Afirmar uma teologia pública nada mais é do que continuar mantendo um caráter reformista para a teologia. Algum clamor ético, alguma indignação social. Mas sem cortar na própria pele dos interesses das igrejas e do papel do cristianismo na manutenção da subalternidade. Reivindicar a presença pública sem “perder poder” faz da teologia reforço de desigualdades históricas e estruturantes. Aquilo do evangelho de Jesus que se fez carne e se evangelizou na vida das comunidades na luta por direitos, por territórios, por igualdade... são práticas e vivência que não se deixam confundir com os projetos de poder das elites. Estão e não estão nas igrejas. São muito mais do que ”sociedade civil”. A motivação da presença é a de estar junto aos lutadores e lutadoras e seus movimentos horizontais e igualitários: aí os temas, as hermenêuticas, a exegese e a possibilidade de deixar de ser representantes de padrões da modernidade ocidental, racional, iluminista, capitalista, heterossexual e branca.

Nancy Cardoso é pastora metodista e
agente de formação da Comissão Pastoral da Terra.

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Em reunião ocorrida entre os dias 5 e 7 de agosto, a Direção e o Conselho Nacional do CEBI emitiram nota em forma de carta a todas as coordenações estaduais, às lideranças de grupos, conclamando para a defesa da democracia, para a resistência e para o permanente trabalho de formação nas bases. De acordo com a carta, “o que está acontecendo no Brasil faz parte de um projeto que visa destruir os pequenos avanços dos últimos anos, para reconstituir o poder ‘absoluto’ do capital/mercado, que se tornou um verdadeiro deus. Para poder viver, precisa do sacrifício, do sangue e da vida de muitas vítimas humanas. É neste contexto que se insere o golpe de estado em curso no Brasil”.

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A Direção ainda informa que serão elaborados roteiros de estudo a serem disponibilizados a todas as comunidades e grupos que queiram conversar mais sobre o momento atual, à luz de uma leitura bíblica libertadora: “Sabemos pela história que cada império é destinado a ser engolido por outro mais forte. Nós, porém, podemos ser a pedrinha que bate nos pés de barro e faz ruir a grande estátua do gigante imperial (Dn 2,34-35). Por isso, também insistimos na importância de assegurarmos momentos para a análise de conjuntura em nossas atividades.”

Veja a íntegra da carta:

Brasília, 07 de agosto de 2016.

Caríssimas/os Companheiras/os de caminhada,

Nós, que fazemos parte do Conselho Nacional e da Direção do CEBI, estivemos reunidos/as em Brasília, na casa da Simone, nos dias 5 a 7 de agosto último. A reunião, que estava prevista no nosso calendário, foi muito boa e proveitosa. Conversamos sobre vários temas inerentes à condução do CEBI e à sua organização. As pessoas que representam as Regiões contaram as coisas boas e as dificuldades que acontecem nos estados. Também refletimos sobre vários aspectos do CEBI e paramos um tempo para entender melhor a situação conjuntural que o nosso país está passando.

É por causa desse último ponto que enviamos esta carta a todo o povo do CEBI, para dizer que não podemos esmorecer. A corrupção e a politicagem não são de agora e fazem parte de uma cultura que está presente na maioria dos centros de poder e que poderíamos chamar de satânica. O grande capital internacional não é estranho a este jogo de interesses. Claramente, o que está acontecendo no Brasil faz parte de um projeto que visa destruir os pequenos avanços dos últimos anos, para reconstituir o poder “absoluto” do capital/mercado, que se tornou um verdadeiro deus. Para poder viver, precisa do sacrifício, do sangue e da vida de muitas vítimas humanas. É neste contexto que se insere o golpe de estado em curso no Brasil, impondo ao povo um governo elitista, branco, rico, machista e misógino.

É a eterna luta entre o “dragão” e as forças da vida que, no livro do Apocalipse, são representadas pela mulher grávida que está para dar à luz (Ap 12).

Nesta conjuntura, como pessoas cristãs que acreditam nas forças da Vida, somos chamadas/os a testemunhar a Ressurreição. Precisamos assumir a defesa e o aperfeiçoamento da democracia. Mesmo frágil e insuficiente, ela é fruto de nossas lutas históricas. Como foco de nossa ação enquanto CEBI, usando a Palavra como dom que ilumina e marca o caminho da Vida, devemos reforçar cada vez mais o nosso trabalho de Leitura Popular da Bíblia junto aos grupos de base, nos Círculos Bíblicos. Nosso compromisso é contra todo e qualquer império que destrói a Vida, sobretudo a vida dos pobres e do meio ambiente. Não aceitaremos alianças com qualquer projeto que venha trajado de novo em suas falas, propagandas, mas que esteja a serviço do grande império capitalista (Ap 13,1-18).

Sabemos pela história que cada império é destinado a ser engolido por outro mais forte. Nós, porém, podemos ser a pedrinha que bate nos pés de barro e faz ruir a grande estátua do gigante imperial (Dn 2,34-35). Por isso, também insistimos na importância de assegurarmos momentos para a análise de conjuntura em nossas atividades.

Somos muitas/os, embora pequeno rebanho. No entanto, podemos unir as forças e funcionar como areia no motor, impedindo que o grande capital tome conta da vida de milhões de pessoas no mundo todo, destruindo a natureza, a água, e enchendo tudo de poluição, de agrotóxicos, de sujeira venenosa. Sabemos que seu objetivo é favorecer exclusivamente o lucro dos que devoram a vida do povo pobre.

Como grande família, sintamo-nos juntas/os nesta luta e nesta caminhada, longa e difícil, mas que nos faz reviver a caminhada do Êxodo, que se repete a cada geração. Estamos na travessia do deserto, CAMINHO para chegar à terra da vida solidária e justa, do “BEM VIVER”. Esta é a nossa missão: “Hoje, Moisés é a gente...”!

Um abraço fraternal e sororal, cheio de Esperança e Ressurreição, com o desejo de que possamos sempre caminhar e lutar juntas/os.

A Direção e os membros do Conselho Nacional

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