“O que nos ameaça não é o choque de civilizações, mas o choque de ignorâncias e radicalismos. Conhecer-se é reconhecer-se”. São palavras do cardeal Jean-Louis Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, durante o encontro com o xeque Muhammad Abdul Karim Al-Issa, Secretário-geral da Liga Muçulmana Mundial (LMM).
 
Ao chegar em Riad na sexta-feira (13/04), o cardeal foi recebido pelo príncipe Mohammed bin Abdurrahman bin Abdulaziz, vice-governador da capital e pelo próprio secretário da LMM. Também estava presente o bispo secretário do dicastério, o comboniano dom Miguel Ángel Ayuso Guixot, vindo de Nairóbi. A delegação vaticana, da qual fez parte também mons. Khaled Akasheh, do departamento do Islã, ficou até sexta-feira, 20, no reino saudita, terra natal do Islã e onde estão os dois mais importantes lugares sagrados dos muçulmanos, a Meca e a Medina. Durante a sua permanência o card. Tauran encontrou também um grande número de cristãos que aqui se encontram a trabalho, dirigindo-lhes palavras de encorajamento.
 
A hospitalidade espiritual promove a amizade e contrasta os preconceitos
 
Durante a reunião com o secretário-geral da LMM falou-se de encontros anteriores em Roma, em 21 de setembro de 2017, com o Papa Francisco e com o próprio Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. O cardeal Tauran, por sua vez, recordou que os lugares sagrados cristãos, “na Terra Santa, em Roma ou em outros lugares, assim como os numerosos santuários em várias partes do mundo”, estão “sempre abertos a todos nossos irmãos e irmãs muçulmanos, para os fiéis de outras religiões e também a todas as pessoas de boa vontade que não professam qualquer religião”.
 
Também acrescentou, “em muitos países, as mesquitas estão abertas a visitantes” e “isto é o tipo de hospitalidade espiritual que ajuda a promover o conhecimento mútuo e a amizade, contrastando os preconceitos”. Falando disso o cardeal recordou que “a religião é o que uma pessoa tem de mais precioso. É por isso que alguns, quando são chamados a escolher entre conservar a fé e manter a vida, preferem pagar o alto preço da vida: são os mártires de todas as religiões e de todos os tempos”.
 
O cardeal falou sobre fundamentalismo
 
“Em todas as religiões – afirmou – há radicalismos. Talvez os fundamentalistas e os extremistas sejam pessoas zelosas, que porém, infelizmente, se desviaram de uma compreensão sólida e sábia da religião. Além disso, consideram todos os que não compartilham de sua visão como infiéis”, que “devem se converter ou ser eliminados, para assim manter a pureza”. São pessoas confusas que “podem passar facilmente à violência em nome da religião, incluindo o terrorismo. São convencidas, pela lavagem cerebral, de que estão servindo a Deus. A verdade é que estão somente fazendo mal a si mesmas, destruindo os outros, destruindo a imagem da sua religião e dos seus correligionários”. Por isso, “precisam da nossa oração e da nossa ajuda”.
 
Regras comuns para a construção de lugares de culto
 
Depois de esclarecer que “a religião pode ser proposta, jamais imposta, e também aceita ou recusada”, o cardeal Tauran falou que “um dos campos em que cristãos e muçulmanos devem estar de acordo já que no passado houve muita competição entre as duas comunidades”, é o “das regras comuns para a construção de lugares de culto”. De fato, “todas as religiões devem ser tratadas do mesmo modo, sem discriminações, porque seus seguidores, assim como os cidadãos que não professam nenhuma religião devem ser tratados do mesmo modo”, evidenciou aludindo ao tema sempre atual da “plena cidadania” para todos. Mesmo porque “se não eliminarmos medidas desiguais do nosso comportamento como crentes, instituições religiosas e organizações, alimentaremos a islamofobia e o anticristianismo”. Neste contexto, relevou o cardeal Tauran, “os líderes espirituais têm um dever: evitar que as religiões estejam a serviço de uma ideologia”, e saber “reconhecer que alguns nossos correligionários, como os terroristas, não estão se comportando corretamente. O terrorismo é uma ameaça constante, por isso temos que ser claros e não justificá-lo jamais. Os terrorismos querem demonstrar a impossibilidade de convivência. Nós acreditamos no exato contrário. Devemos evitar a agressão e a difamações”.
 
Deus, que nos criou, não seja motivo de divisão, mas de unidade
 
O pluralismo religioso “é um convite a refletir sobre a nossa fé, porque todo o diálogo inter-religioso autêntico inicia com a proclamação da própria fé. Não podemos dizer que todas as religiões são iguais, mas que todos os crentes, os que buscam Deus e todas as pessoas de boa vontade sem uma filiação religiosa, têm a mesma dignidade. Cada um deve ser deixado livre para abraçar a religião que quiser”. Destas palavras a exortação conclusiva a unir o empenho “para que Deus, que nos criou, não seja motivo de divisão, mas de unidade”.
 
Fonte: Vatican News
Foto: Reprodução
Obs.: o título foi adaptado

 
 
 
 
A presidência da CNBB falou aos jornalistas reunidos na Coletiva de Imprensa da 56ª Assembleia Geral da entidade, na tarde do dia 19 de abril. Dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e presidente da Comissão do Tema Central da Assembleia falou sobre os próximos passos do documento sobre a formação de presbíteros aprovado na assembleia. O documento segundo para a aprovação final do Vaticano e, após esse passo, será publicado como um documento da CNBB que vai orientar a formação dos novos padres no Brasil.
 
Dom Murilo Krieger, vice-presidente, leu as mensagens da conferência ao povo de Deus. O documento registra a comunhão do episcopado brasileiro com o papa Francisco e destaca a necessidade de promover o diálogo respeitoso para estimular a comunhão na fé em tempo de politização e polarizações nas redes sociais. A mensagem retoma a natureza e a missão da entidade na sociedade brasileira. Confira, na sequência, a íntegra do documento que será enviado à todas as 277 circunscrições eclesiásticas do Brasil, incluindo arquidioceses, dioceses, prelazias, entre outras.
 
Leia a Mensagem:
 
MENSAGEM DA CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL AO POVO DE DEUS
 
O que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo (1Jo 1,3)
 
Em comunhão com o Papa Francisco, nós, Bispos membros da CNBB, reunidos na 56ª Assembleia Geral, em Aparecida – SP, agradecemos a Deus pelos 65 anos da CNBB, dom de Deus para a Igreja e para a sociedade brasileira. Convidamos os membros de nossas comunidades e todas as pessoas de boa vontade a se associarem à reflexão que fazemos sobre nossa missão e assumirem conosco o compromisso de percorrer este caminho de comunhão e serviço.
 
Vivemos um tempo de politização e polarizações que geram polêmicas pelas redes sociais e atingem a CNBB. Queremos promover o diálogo respeitoso, que estimule e faça crescer a nossa comunhão na fé, pois, só permanecendo unidos em Cristo podemos experimentar a alegria de ser discípulos missionários.
 
A Igreja fundada por Cristo é mistério de comunhão: “povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (São Cipriano). Como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela (cf. Ef 5,25), assim devemos amá-la e por ela nos doar. Por isso, não é possível compreender a Igreja simplesmente a partir de categorias sociológicas, políticas e ideológicas, pois ela é, na história, o povo de Deus, o corpo de Cristo, e o templo do Espírito Santo.
 
Nós, Bispos da Igreja Católica, sucessores dos Apóstolos, estamos unidos entre nós por uma fraternidade sacramental e em comunhão com o sucessor de Pedro; isso nos constitui um colégio a serviço da Igreja (cf. Christus Dominus, 3). O nosso afeto colegial se concretiza também nas Conferências Episcopais, expressão da catolicidade e unidade da Igreja. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, 23, atribui o surgimento das Conferências à Divina Providência e, no decreto Christus Dominus, 37, determina que sejam estabelecidas em todos os países em que está presente a Igreja.
 
Em sua missão evangelizadora, a CNBB vem servindo à sociedade brasileira, pautando sua atuação pelo Evangelho e pelo Magistério, particularmente pela Doutrina Social da Igreja. “A fé age pela caridade” (Gl 5,6); por isso, a Igreja, a partir de Jesus Cristo, que revela o mistério do homem, promove o humanismo integral e solidário em defesa da vida, desde a concepção até o fim natural. Igualmente, a opção preferencial pelos pobres é uma marca distintiva da história desta Conferência. O Papa Bento XVI afirmou que “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com a sua pobreza”. É a partir de Jesus Cristo que a Igreja se dedica aos pobres e marginalizados, pois neles ela toca a própria carne sofredora de Cristo, como exorta o Papa Francisco.
 
A CNBB não se identifica com nenhuma ideologia ou partido político. As ideologias levam a dois erros nocivos: por um lado, transformar o cristianismo numa espécie de ONG, sem levar em conta a graça e a união interior com Cristo; por outro, viver entregue ao intimismo, suspeitando do compromisso social dos outros e considerando-o superficial e mundano (cf. Gaudete et Exsultate, n. 100-101).
 
Ao assumir posicionamentos pastorais em questões sociais, econômicas e políticas, a CNBB o faz por exigência do Evangelho. A Igreja reivindica sempre a liberdade, a que tem direito, para pronunciar o seu juízo moral acerca das realidades sociais, sempre que os direitos fundamentais da pessoa, o bem comum ou a salvação humana o exigirem (cf. Gaudium et Spes, 76). Isso nos compromete profeticamente. Não podemos nos calar quando a vida é ameaçada, os direitos desrespeitados, a justiça corrompida e a violência instaurada. Se, por este motivo, formos perseguidos, nos configuraremos a Jesus Cristo, vivendo a bem-aventurança da perseguição (Mt 5,11).
 
A Conferência Episcopal, como instituição colegiada, não pode ser responsabilizada por palavras ou ações isoladas que não estejam em sintonia com a fé da Igreja, sua liturgia e doutrina social, mesmo quando realizadas por eclesiásticos.
 
Neste Ano Nacional do Laicato, conclamamos todos os fiéis a viverem a integralidade da fé, na comunhão eclesial, construindo uma sociedade impregnada dos valores do Reino de Deus. Para isso, a liberdade de expressão e o diálogo responsável são indispensáveis. Devem, porém, ser pautados pela verdade, fortaleza, prudência, reverência e amor “para com aqueles que, em razão do seu cargo, representam a pessoa de Cristo” (LG 37). “Para discernir a verdade, é preciso examinar aquilo que favorece a comunhão e promove o bem e aquilo que, ao invés, tende a isolar, dividir e contrapor” (Papa Francisco, Mensagem para o 52º dia Mundial das Comunicações de 2018).
 
Deste Santuário de Nossa Senhora Aparecida, invocamos, por sua materna intercessão, abundantes bênçãos divinas sobre todos.
 
Aparecida-SP, 19 de abril de 2018.
 
Cardeal Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília – DF
Presidente da CNBB
 
Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, SCJ
Arcebispo São Salvador da Bahia
Vice-Presidente da CNBB
 
Fonte: CNBB
Foto: Reprodução

 
 
 
Com o tema “Bíblia, o Livro da Esperança – O Impacto da Bíblia na Vida das Pessoas”, o Fórum de Ciências Bíblicas acontecerá nos dias 14 e 15 de junho, no Centro de Eventos de Barueri (SP) – Museu da Bíblia (MuBi). Nesta edição de 2018, em que se comemora o Ano da Bíblia, o tradicional evento promovido pela Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) terá painéis que destacarão como a Bíblia vem, ao longo dos anos, contribuindo para o desenvolvimento do ser humano sob variados aspectos.
 
“A Bíblia oferece orientação e conforto para todas as pessoas, em diferentes momentos da vida, especialmente quando temos de lidar com questões complexas, como a morte, a maternidade, a paternidade, a enfermidade e tantos outros problemas que enfrentamos em nosso dia a dia”, resume o secretário de Comunicação e Ação Social da SBB, Erní Seibert que, a partir de 16 de maio assume a diretoria executiva da organização.
 
Entre as palestras que serão apresentadas estão “O impacto da Bíblia na vida de voluntários e famílias”, “O impacto da Bíblia na Igreja e na vida dos enfermos“ e “Novas fronteiras na tradução da Bíblia”, além, é claro, da “Bíblia como o livro da esperança”.
 
A expectativa dos organizadores é superar a marca de 2017, quando o evento atraiu para Barueri (SP) mais de 500 participantes. Mais uma vez o público também poderá acompanhar os painéis pela Internet.
 
O 14º Fórum de Ciências Bíblias é aberto a professores e estudantes de Teologia, Ciências da Religião e Linguística, assim como outros estudiosos da Bíblia, lideranças religiosas e cristãos em geral. 
 
A inscrição pode ser feita por meio do link: www.sbb.org.br/eventos/forum-de-ciencias-biblicas.
 
Fonte: SBB

 
 
 
Valores compartilhados e o trabalho conjunto de cristãos e muçulmanos pelo bem comum, quer na família, no meio ambiente, ética, mídia de massa, arte e cultura, compromisso social, um diálogo da vida que nutre experiências concretas de fraternidade.
 
Este é o tema que será debatido no evento "Juntos para dar esperança. Cristãos e muçulmanos em seu caminho no carisma da unidade".
 
Organizado pelo Movimento dos Focolares, a iniciativa reunirá no dia 21 de abril, das 16 às 19 horas, cerca 600 pessoas de 23 países, cristãos e muçulmanos, no Centro Mariápolis de Castel Gandolfo (RM). Este evento insere-se no âmbito de um evento mais amplo que se realiza de 19 a 22 de abril, no mesmo local.
 
Em um contexto social marcado - especialmente no Ocidente – pelo preconceito e pela desconfiança que levanta muros e por uma narrativa que alimenta o conflito e separação, o testemunho de um compromisso comum entre cristãos e muçulmanos - unidos pela paz, a solidariedade, o desenvolvimento, a harmonia entre pessoas de diferentes religiões, culturas e tradições - lança uma mensagem contra a corrente e lança sementes de esperança.
 
Chiara Lubich
 
Viver juntos em harmonia, no respeito, na solidariedade e na paz é possível. E mesmo trabalhar juntos é possível, compartilhar objetivos comuns e cooperar para alcançá-los, sem enfraquecer a própria identidade e o próprio patrimônio de valores, mas em um debate leal e franco, fortalecendo o conhecimento e o respeito recíproco, privilegiando o que une em relação ao que divide.
Um caminho que é impulsionado pelo carisma da unidade de Chiara Lubich, fundadora dos Focolares, e que nela encontra sua motivação propulsora.
 
Em seu discurso na Mesquita Malcolm X no Harlem (Nova York), em 18 de maio de 1997, Chiara, que apresentava com o Imam Wallace Deen Mohammed e com a comunidade muçulmana presente um pacto para trabalhar juntos pela paz e união: "Eu experimentei uma profunda fraternidade aqui. É algo extraordinariamente belo que só pode ser obra de Deus. Ele realmente nos fez uma família para seus planos."
 
E sobre os fundamentos deste caminho de comunhão Chiara explicou: "A benevolência, a compaixão ou pelo menos a não-violência, estão presentes em várias religiões. É comum a quase todos, mesmo com versões diferentes, a assim chamada Regra de Ouro: "Não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem a você". Basta esta Regra de ouro para garantir nosso vínculo de amor com cada um dos próximos, e esse amor seria suficiente para compor a humanidade em uma mesma família".
 
Uma esperança para a humanidade
 
Na esteira dessa experiência e das iniciativas para o diálogo islâmico-cristão que surgiu em vários países, o próximo encontro em Castel Gandolfo quer ser um novo passo no caminho rumo a fraternidade universal, um sinal de esperança para a humanidade.
 
"A educação religiosa é a atenção para a paz", afirma Adnane Mokrani, professor na Pontifícia Universidade Gregoriana e no Pontifício Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos (PISAI) e presidente do Cipax, que vai participar do evento. "Nesta perspectiva, não deve haver separação, mas a solidariedade, a cooperação, a união entre pessoas de diferentes credos que são chamadas a trabalhar juntas para o bem comum da humanidade, servindo a todos, sem distinção."
 
Para o teólogo Piero Coda, presidente do Instituto de Pós-Graduação Sophia de Loppiano (FI), "o desígnio de Deus para a humanidade é um desígnio de paz, de amor e de unidade" e "em todas as religiões encontra-se uma vocação para a paz". E mais ainda: "este caminho de diálogo é o principal caminho para ser fiéis à mensagem de Jesus e para contribuir para a unidade da família humana".
 
Neste espaço aberto se pronunciarão, entre outros, Maria Voce, presidente do Movimento dos Focolares, o cardeal Jean-Louis Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, Abdullah el Radwan, responsável pelo Centro Cultural Islâmico da Itália, Izzedin Elzir, Imam de Florença e presidente UCOII, Piero Coda, presidente do Instituto Universitário Sophia, Mohammad Shomali, diretor do Centro islâmico de Londres.
 
Numerosas experiências de diálogo e colaboração frutífera serão compartilhadas neste espaço, como fragmentos de unidade a serem multiplicados.
 
Fonte: Vatican News
Foto: ANSA

 
 
Dificilmente você ouvirá sobre os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) no sermão do próximo domingo em sua igreja local, já que o tema passa desapercebido pelos púlpitos e reflexões da maioria dos pastores e líderes cristãos. No entanto, isso não significa que os ODS sejam irrelevantes para a missão da igreja hoje.
 
Para Clarice Ziller, assessora de Relações Institucionais e Advocacy da Visão Mundial, “nós temos as respostas, mas precisamos dialogar com o governo. Os ODS nos ajudam a fazer isto. Os ODS podem deixar a igreja em outro patamar. Da o direito de monitorar o estado. É uma mudança histórica”. Ziller foi a principal palestrante na oficina “O Papel das Igrejas e Organizações Baseadas em Fé” – Ferramentas para Implementação dos ODS), oferecida à comunidade durante o Encontro das Filiadas da RENAS, na grande Curitiba (PR), no dia 04 de abril. A seguir, Clarice lista seis boas razões para as igrejas cristãs envolverem-se no cumprimento dos ODS.
 
No final deste post, você poderá baixar gratuitamente a apresentação da palestrante.
 
1. Os indicadores são a linguagem que a igreja pode falar e fazer o governo entender. Para o governo não adiantam dados de trabalhos realizados, mas de resultados alcançados. Podemos dizer que o governo não se interessa em saber o número de Bíblias distribuídas, mas sim qual impacto social esta ação causou. A violência foi reduzida? Em quanto? E a mortalidade infantil? Em quanto?
 
2. A igreja já domina e põe em prática muita coisa da Agenda 2030. Agora ela apenas precisa adequar sua linguagem e apresentar seus indicadores.
 
3. Os ODS são o clamor da sociedade por uma vida melhor e mais justa.
 
4. Os objetivos são indivisíveis, integrais e universais.
 
5. Melhor do que analisar os objetivos é averiguar as metas, pensando nas melhores maneiras de como podemos atuar.
 
6. A igreja tem recursos e condições de incidir sobre praticamente todas as 169 metas dos ODS.
 
 
Ideias de como atuar
 
– Levantar os indicadores do que já está sendo feito;
 
– Levar essa apresentação ao número máximo possível de igrejas e organizações;
 
– Fazer uma busca dentro das igrejas por pessoas de áreas que comumente não encontram seu ministério dentro da igreja: engenheiros, pessoas ligadas ao meio ambiente, profissionais da área de estatística e análise de dados, analistas de tribunais de contas, e várias outras. Haveria um alargamento no espectro dos ministérios da igreja, criando muitas formas de atuação que nunca tivemos antes.
 
Sugestão para a RENAS, igrejas e outras organizações
 
 
 
Fonte: RENAS - Rede Evangélica Nacional de Ação Social

 
 
Um importante evento para a Igreja Anglicana no Brasil ocorre em Belém no próximo sábado, 21 de abril. A sagração da reverenda Cônega Marinez Rosa Bassotto, às 18h, na Catedral Anglicana de Santa Maria, em Batista Campos. A reverenda Marinez é a primeira mulher eleita a ser elevada ao episcopado na América do Sul e será a nova bispa da Diocese Anglicana da Amazônia.
 
Mesmo presente em mais de 139 países, a Igreja Anglicana não permite a ordenação de mulheres em todos eles. Por exemplo, na Grã-Bretanha, berço do anglicanismo, a primeira bispa da Igreja da Inglaterra, Libby Lane, só foi sagrada no ano de 2015, pois lá não eram admitidas mulheres no episcopado. O ordenamento de uma bispa é um acontecimento de grande importância porque enaltece a igualdade de gênero numa instituição religiosa milenar.
 
Quando tinha quatro anos de ordenada, a Marinez foi escolhida para ser deã, a responsável máxima de um órgão colegial da Igreja, da Catedral Nacional da Santíssima Trindade, em Porto Alegre, cargo que ocupou por vários mandatos. Agora, a reverenda está ansiosa para sua sagração, e se diz muito feliz em participar de um momento tão importante.
 
Tome nota!
 
Nascida no Rio Grande do Sul, a reverenda Marinez Bassotto foi escolhida em Concilio Extraordinário da Diocese Anglicana da Amazônia em 20 de janeiro de 2018. Como sempre ocorre nas igrejas de tradição apostólica, a sagração dela como bispo ou bispa se deu com a imposição das mãos de no mínimo três bispos. A Diocese Anglicana da Amazônia, que será coordenada pela bispa Marinez, é uma unidade eclesiástica da Igreja Anglicana que abrange os estados do Pará, Amapá, Roraima, Amazonas e Acre. A sede da Diocese é a Catedral Anglicana de Santa Maria, localizada na avenida Serzedêlo Corrêa, 514, local da sagração da futura bispa. 
 
A seguir, confira a entrevista dela para o site do CONIC:
 
Vou iniciar falando um pouquinho de mim, porque creio que somos fruto de nossas vivências. Eu sou clériga da IEAB e servia à Igreja na Diocese Meridional. Agora, estou residindo em Belém do Pará, no Norte do Brasil.
 
Eu sou fruto do trabalho missionário da IEAB. Nasci no interior da cidade de Canguçu, RS, em uma área missionária. Meus avós foram membros fundadores de uma destas missões. Cresci e fui me sentindo, desde muito cedo, vocacionada ao ministério. Em 1991, segui para Porto Alegre, para estudar Teologia (no então Seminário Nacional da IEAB). Fui ordenada como diácona em 14 de maio de 1995 e como presbítera em 17 de março de 1996 ambas as ordenações aconteceram na Catedral da Santíssima Trindade, em Porto Alegre; a qual, em 1999, assumi como deã, com 4 anos de ministério e 28 anos de vida, tornando-me a primeira mulher a assumir a Catedral da Diocese Meridional e a segunda mulher a assumir uma Catedral na IEAB. Servi a Deus ao longo de 17 anos à frente desta Catedral (que é também a Catedral Nacional da IEAB) e depois fui desenvolver meu ministério na Paróquia São Paulo, na cidade de Cachoeirinha, e na Missão do Natal, na cidade de Glorinha, ambas na região metropolitana de Porto Alegre.
 
1) Como você recebeu a notícia de que seria a primeira bispa da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB)?
 
R: Recebi com muita alegria e ao mesmo tempo muito consciente do compromisso que assumo.
 
Para mim, está muito claro que o episcopado é um sacerdócio, uma oportunidade de serviço (Diaconia!). Jamais uma honra ou um status.
Ao participar do processo de eleição na Diocese Anglicana da Amazônia eu tinha plena consciência de que disponibilizava meu nome também em favor da ordenação feminina, pois, agora no mês de maio deste ano de 2018, completaremos 33 anos de ordenação feminina no Brasil. Nossa Igreja brasileira foi ousada e inovadora ao possibilitar às mulheres, desde o início, o acesso às três ordens sagradas. Mesmo assim, nestes quase 33 anos, não havia tido a coragem profética de eleger nenhuma mulher ao episcopado. Era já chegada a hora de romper essa barreira – com a eleição um novo tempo com maior equidade de gênero foi inaugurado – espero que esta tenha sido a primeira de muitas que virão!
 
2) Historicamente, a IEAB tem sido considerada uma igreja progressista, seja no aspecto teológico, social ou moral. Essa eleição pode ser vista como uma continuidade desse processo?
 
R: Sim, eu creio nisso. Creio também que esta eleição traz novos ares, é como uma brisa perfumada que sopra a partir da Amazônia, como eu mencionei acima a inauguração de um novo tempo para a vida Igreja com a superação das dúvidas e temores que haviam diante da novidade de um episcopado feminino. Penso que com esse passo a IEAB aproximou grandemente sua prática de seu discurso, pois somos de fato uma Igreja progressista teológica, social, e moralmente, mas ainda não tínhamos conseguido dar esse passo decisivo em direção a justiça/equidade de gênero. Agora com alegria podemos dizer que essa barreira foi quebrada e em breve poderemos ter outras bispas sendo eleitas na IEAB. Sei que as novidades trazem consigo receios e incertezas. Tudo o que não conhecemos nos causa insegurança, mas o que vimos acontecer após a eleição foi uma explosão de alegria e de festa!
 
3) Como as demais igrejas da Comunhão Anglicana viram a sua eleição?
 
R: A Comunhão Anglicana é muito diversificada, e nós anglicanos e anglicanas costumamos afirmar que vivemos a unidade na diversidade, então, creio deve ter havido diferentes percepções em diferentes partes da Comunhão Anglicana, mas todas as manifestações foram de júbilo. Outro ponto que me parece importante é que quando uma província na Comunhão Anglicana elege uma mulher ao episcopado isto serve de estímulo para as lutas das mulheres por espaço equânimes em outras províncias, então a eleição de uma mulher para o episcopado no Brasil fortalece a luta das mulheres em toda a América do Sul. Tem também o fato de eu ser a segunda mulher bispa na América Latina, ou seja, é força e amparo também neste sentido, assim como aqui na IEAB mesmo creio que a partir deste passo será menos difícil eleger outras mulheres.
 
4) Há resistências, mesmo entre os anglicanos, quando o assunto é ordenação feminina. Como você, pessoalmente, lida com essa questão?
 
R: Creio que todas nós, mulheres, lidamos com isso em maior ou menor grau. Mas, ao mesmo tempo, estou segura que haverá muito apoio tanto de mulheres companheiras de luta e ministério, quanto das leigas, assim como também haverá muito apoio dos homens. Sei que há grandes expectativas, assim como acontece em outros cargos e funções tidos como “masculinos” que são assumidos por mulheres. Mas assumirei com coragem, esperança e fé, aceitando as consequências e os riscos desta escolha e me dispondo a realizar junto ao clero e povo da Diocese Anglicana da Amazônia a difícil tarefa de ser cristã.
 
5) O empoderamento da mulher no ambiente eclesial ainda é uma realidade distante em algumas denominações cristãs. Isso ocorre seja por interpretações de versículos bíblicos, seja por contextos culturais. Diante desse cenário, como fazer para que a mulher ocupe mais espaços nas igrejas?
 
R: De fato vivemos em uma sociedade que discrimina e violenta as mulheres, desrespeita seus direitos e criminaliza suas lutas. E em nossa realidade brasileira estamos sofrendo com a perda de direitos de toda ordem, são tempos sombrios. Muitas denominações cristãs (ou grupos conservadores dentro delas), infelizmente de diversas formas e em inúmeras vezes, justificam essa discriminação e até reforçam a subjugação feminina usando a Bíblia como justificativa. Penso que devemos fazer o já estamos fazendo, criar espaço de discussão, formação e capacitação de mulheres dentro de nossas Igrejas e nos movimentos ecumênicos e apoiar e incentivar os movimentos sociais de resistência e luta por direitos, dentre eles aqueles movimentos que buscam resguardar os direitos das mulheres e que fazem enfrentamento e prevenção à violência contra as mulheres e meninas. Neste sentido temos na IEAB o Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento (SADD) que é um importante instrumento de apoio no enfrentamento às desigualdades, principalmente às desigualdades de gênero.
 
6) Gostaria de acrescentar algo?
 
R: Sim. Eu gostaria ainda de dizer que a Diocese Anglicana da Amazônia é uma jovem Diocese, com uma área territorial extensa, mas a igreja ainda é pequena. Composta por um povo hospitaleiro, em uma região culturalmente riquíssima onde há muitas cores, cheiros e gostos que só se podem ser compreendidos estando lá. Uma região riquíssima, mas onde há muitas desigualdades sociais.
 
Certamente existem várias necessidades, anseios e preocupações e são inúmeros os desafios para a proclamação e vivência do evangelho na Região da Amazônia e para ser Igreja de Cristo, missionária, inculturada e profética no meio deste povo. Vejo como alguns destes desafios a necessidade de que a Igreja seja cada vez mais próxima da realidade onde está inserida, e que responda às necessidades deste povo tão sofrido. Que celebre conjuntamente no partir o pão, nas orações e nas relações. Que se fortaleça permanentemente na vivência comunitária, no desejo de aprender conjuntamente sobre o amor de Deus e que assuma o compromisso de partilhar esse amor no serviço às pessoas. Que seja verdadeiramente inclusiva e acolhedora, que testemunhe o direto à justiça e à dignidade humana, e que viva o ecumenismo.
 
Respeito e me sinto profundamente identificada com a forma como nosso povo anglicano vivencia a Igreja na Amazônia e sei que muito terei a aprender e crescer com eles e elas. E me disponho e sonhar com o povo da Amazônia e a com eles e elas caminhar lado a lado na construção permanente do Reinado de Deus para que se torne cada vez mais uma realidade.
 
CONIC com informações do portal ORM
Foto: Reprodução IEAB

 
 
 
O Papa Francisco recebeu na manhã da última quinta-feira, 12, o Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, publicado anualmente pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi). O presidente da entidade e arcebispo de Porto Velho (RO), Dom Roque Paloschi, entregou o levantamento ao Sumo Pontífice na Cidade do Vaticano durante abertura da reunião preparatória ao Sínodo da Amazônia, marcado para outubro de 2019.
 
A secretaria executiva do Cimi informa que Dom Roque transmitiu ao Bispo de Roma a preocupação da entidade com a atual conjuntura de retirada de direitos imposta pelo governo Michel Temer – caso das demarcações de terras submetidas ao Parecer 001 da Advocacia-Geral da União (AGU). Para a entidade, o desmonte da democracia em curso afeta, sobretudo, as populações mais vulneráveis e entre elas estão os povos indígenas.     
 
Pelo Cimi estavam presentes no diálogo com o papa, ao lado de Dom Roque, o ex-presidente da entidade e bispo emérito do Xingu (PA), Dom Erwin Kräutler, e o assessor teológico, padre Paulo Suess. Os três fazem parte do Conselho Sinodal, composto por 18 membros – entre religiosos e leigos. Também atuam na Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), da qual o Cimi faz parte.
 
No Relatório, o papa Francisco lerá que a violência contra os povos indígenas no Brasil levou a 118 assassinatos, em 2016. Ao todo, 106 indígenas se suicidaram neste mesmo ano; 735 crianças indígenas menores de 5 anos morreram por causas diversas, como desnutrição. Francisco já conhece os dados dos anos anteriores: em 2015, foram 137 assassinatos; 2014, 138. Já em 2013, quando foram contabilizados apenas os casos levantados pelo Cimi sem a ajuda dos dados estatais, foram 53.     
 
Esta é a terceira oportunidade em que representantes do Cimi anunciam e denunciam ao papa Francisco a situação dos povos indígenas no Brasil. O primeiro encontro ocorreu em abril de 2014, com as presenças de Dom Erwin e padre Paulo Suess; o segundo em julho de 2017, já com Dom Roque presidindo o Cimi, e, por fim, este. Todos ocorreram no Vaticano.
 
Fonte: Cimi
Foto: Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM)

 
 
 
Em 2017, o Brasil registrou 33.866 solicitações de refúgio, de acordo com dados divulgados pelo Ministério da Justiça nesta semana. Mais da metade dos pedidos, 17.865, foram feitos por venezuelanos, seguidos por cubanos, haitianos e angolanos. O Conare, Comitê Nacional para os Refugiados, órgão responsável por analisar as demandas, concedeu refúgio para apenas 587 pessoas.
 
Entre 2011 e 2017, o Brasil recebeu 126.102 solicitações de reconhecimento da condição de refugiado, status que foi concedido a 10.145 pessoas no mesmo período. De acordo com o Conare, atualmente há cerca de 86 mil pedidos em análise pelo colegiado. Os sírios são a maioria dos refugiados reconhecidos no ano passado, 310 no total, seguidos por congoleses (106) e palestinos (50).
 
O Conare atualmente é composto por 13 integrantes, num colegiado formado por membros do governo e da sociedade civil, como as Cáritas Arquidiocesanas de Rio de Janeiro e São Paulo e o Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH). O número de membros e a periodicidade das reuniões são incapazes de dar conta do volume de análises.
 
“É necessário que o Conare se concentre em aprimorar os procedimentos de exame dos pedidos de refúgios. O próprio órgão reconhece que há uma demanda reprimida de mais de 86 mil casos o que provoca um atraso que prejudica a integração daqueles que buscam refúgio no Brasil. São pessoas que contam com a proteção do governo brasileiro, garantida por convenções internacionais, para retomarem suas vidas, em segurança”, comenta Camila Asano, coordenadora de programas da Conectas.
 
Cenário do refúgio no Brasil
 
O estado de Roraima, principal porta de entrada para o fluxo de refugiados venezuelanos, registrou 47% das solicitações. Ainda que os migrantes do país vizinho representem o maior contingente da atualidade — de 2016 para 2017 houve um aumento de mais de 500% nos pedidos de refúgio deste grupo —  apenas 18 venezuelanos foram considerados refugiados pelo governo brasileiro, quatro em 2015 e outros 14 em 2016.
 
Os sírios, por sua vez, são a nacionalidade com maior número de refúgios concedidos: 2.771 entre 2007 e 2017. Congoleses e colombianos vêm na sequência, com 953 e 316 refugiados reconhecidos, respectivamente. Os colombianos, inclusive, são a nacionalidade com maior número de reassentados na década analisada: 504 voltaram ao seu país de origem.  
 
No Brasil, o estado que concentra a maior população de refugiados, de diferentes nacionalidades, é São Paulo, onde 52% das pessoas escolheram fixar residência. “O Brasil possui uma grande extensão territorial e tem condições de acolher com dignidade os migrantes e refugiados que para cá se destinam. Há um mito de que está em curso uma invasão e esta é uma afirmação completamente falsa, uma vez que, se analisarmos os números, a quantidade de refugiados e solicitantes não chega a nem 1% da população brasileira. Podemos e devemos fazer mais para acolher estas pessoas, e a Lei de Migração vem justamente no sentido de garantir um olhar humanitário para a questão migratória, e não de segurança pública, como era anteriormente”, explica Camila.
 
Fonte: Conectas
Leonardo Medeiros/Conectas

 
 
 
As atualizações na "lista suja" do trabalho escravo mostram que o agronegócio continua sendo o setor que mais submete trabalhadores à condição análoga à escravidãoBrasil. O cadastro, divulgado na terça-feira (10) pela Divisão de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Escravo (Detrae) do Ministério do Trabalho (MT), expõe um acréscimo de 37 novos empregadores na lista, sendo que, entre eles, 16 são donos de fazendas ou madeireiras, um total de 43%.
 
 
A informação não causa espanto. Para o Frei Xavier Plassat, coordenador da Campanha Nacional de Prevenção e Combate ao Trabalho Escravo da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a lista reflete a realidade de parte dos trabalhadores camponeses no país.
 
“O agronegócio continuar sendo dominante na lista suja não é nenhuma surpresa, porque ele é dominante na prática do trabalho escravo. Ele representa mais da metade dos casos e dos resgatados. Houve um ano ou outro em que foi diferente, quando houve muitos resgates na confecção, na construção civil, mas isso foi fora do padrão", afirmou.
 
De acordo com dados coletados pelo MT, no período entre 2003 e 2014, o agronegócio foi campeão absoluto na utilização do trabalho escravo, com praticamente 80% dos trabalhadores libertados do trabalho em lavouras, plantação de cana, desmatamento e pecuária. Só esta última foi responsável por 30% dos casos.
 
Novos casos, mesma exploração
 
Os maiores casos de escravidão contemporânea no agronegócio adicionados à lista suja neste ano são o da Fazenda Agropecuária Sorriso, localizada em Rio Branco (AC), e os das Fazendas Araras e Dois Irmãos, localizadas em Presidente Olegário (MG).
 
Da Fazenda Sorriso, propriedade do pecuarista Mozar Marcondes Filho, foram resgatados, em 2012, 13 trabalhadores em condições análogas à escravidão por cerceamento da liberdade de ir e vir. Já a decisão administrativa foi dada em outubro de 2017. O mesmo número de trabalhadores foram resgatados das fazendas Araras e Dois Irmãos, em uma decisão concluída no mesmo mês.
 
A maior quantidade de operações de resgate, de acordo com o cadastro, ocorreram no Pará. É o caso de cinco trabalhadores que eram ameaçados por pistoleiros contratados pelo proprietário da serraria M. A. de Souza Madeireira, em Uruará (PA). Em uma reportagem da ONG Repórter Brasil, publicada em março de 2017, os trabalhadores afirmaram que trabalhavam 12 horas por dia, sem o uso de equipamentos de segurança.
 
De acordo com o Frei Plassat, a região onde se localizava a serraria é uma das que mais se tem registro de trabalho escravo no país.
 
 "A região de Uruará, no Pará, e toda essa região próxima a Altamira, é onde mais acontece o desgaste da exploração madeireira, clandestina e ilegal, e associada à grilagem de terra. Essa atividade de desmatamento, além de ser um crime em si, com muita frequência tem também o crime de trabalho escravo em consórcio", destacou.
 
Além do alto número de propriedades rurais flagradas pela Justiça do Trabalho, ganham destaque, na nova lista, pequenos estabelecimentos comerciais e urbanos, como pastelarias e lanchonetes no Rio de Janeiro, além de construtoras do programa Minha Casa, Minha Vida. No total, a lista traz agora 165 empregadores, responsáveis por manter 2.264 trabalhadores em situação análoga à escravidão.
 
Batalha Judicial
 
Uma base de dados mantida pelo MT desde 2003, a  "lista suja" tem como objetivo tornar público semestralmente os casos que foram caracterizados como trabalho análogo à escravidão pelo poder público, nas situações em que houve o resgate de pessoas e em que os empregadores tiveram direito à defesa administrativa em primeira e segunda instância.
 
Em 2014, o Supremo Tribunal Federal (STF) garantiu o bloqueio do cadastro, por meio de uma liminar pedida pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), alegando que suas empresas estavam sendo prejudicadas pelas fiscalizações trabalhistas.
 
A suspensão foi derrubada pela ministra Cármen Lúcia, do STF, em maio de 2016. No entanto, desde que assumiu o poder, o presidente Michel Temer (MDB) manteve o congelamento da publicação da lista, até perder na justiça para o Ministério Público do Trabalho, que conquistou a volta da publicação da lista em março de 2017.
 
No dia 16 de outubro do ano passado, o governo federal publicou uma portaria ministerial trazendo uma série de mudanças, estreitando a caracterização do trabalho escravo para apenas situações de cerceamento da liberdade, e condicionando o processo de inclusão de nomes na lista à uma decisão do próprio ministro do trabalho.
 
Fonte: Brasil de Fato
Edição: Thalles Gomes
Foto: Ascom Polícia Civil

 
A deposição, sem crime de responsabilidades, de Dilma Rousseff, uma presidenta legitimamente eleita, significou uma ruptura democrática, pouco mais de três décadas após a abertura política iniciada em 1985 que pôs fim a ditadura militar. Com isso, desde abril de 2016, o Brasil tem vivido um período de profundos retrocessos democráticos, sociais e econômicos que, somados aos retrocessos ambientais que já eram evidentes no período anterior, põem toda sociedade brasileira em alerta.
 
Estes retrocessos se materializam com a aprovação do congelamento dos investimentos públicos em saúde, educação, previdência e seguridade social; nas ações que visam criminalizar e restringir a atuação da sociedade civil na defesa de seus direitos; nas propostas de reforma da previdência que retiram direitos sociais, em especial das mulheres; na tentativa de criminalização das lutas de defesa dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres; no estancamento da demarcação das terras indígenas; na destruição dos direitos das trabalhadoras e trabalhadores com a alteração da legislação trabalhista; no ataque às cotas raciais e sociais nas políticas públicas de educação; no crescimento de assassinatos e encarceramento da juventude negra brasileira; no acirramento das disputas por terra e território, seja no campo ou nas cidades.
 
Estas medidas, que representam uma afronta à democracia brasileira, estão sendo implementadas pelas elites econômicas com grande apoio das empresas da mídia corporativa, do Poder Judiciário e do Congresso Nacional – que foi sequestrado pelas grandes empresas com o financiamento empresarial nacional e internacional de suas campanhas.
 
Frente a esta onda conservadora, a sociedade brasileira tem estado perplexa e sem entender como, após mais de 30 anos de processo lento de avanço da democracia, iniciou-se um acelerado retrocesso democrático. A esta perplexidade soma-se uma verdadeira cortina de fumaça criada pela mídia corporativa, que diuturnamente divulga fatos de corrupção envolvendo grandes empresas e políticos de todos os matizes, criminalizando a política e os políticos. No entanto, na sua maioria, estes empresários e políticos acabam livres, respaldados por processos judiciais sob controle das mesmas elites.
 
Neste sentido, a condenação em tempo recorde, sem provas, em desrespeito ao devido processo legal, do ex-Presidente Lula e a decretação de sua prisão menos de 24 horas após o julgamento de um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal, sem que o acórdão tenha sido sequer publicado e tramitado os prazos legais, funcionou como um estopim de uma reação dos movimentos sociais populares e de uma comoção nacional em defesa de Lula e do que ele representa para o povo brasileiro.
 
Evidente está que as causas da miséria do povo brasileiro não são a falta de terras, de alimento, de água, de trabalho, de inteligência e criatividade. A miséria do povo brasileiro tem como causa a extrema concentração das riquezas nas mãos de poucas famílias e sua subserviência aos interesses do capital internacional. Daí que o simbolismo da prisão de Lula, de forma arbitrária, ilegal e ilegítima, expõe de forma cabal a divisão de classes no Brasil e exige que todas as organizações e movimentos sociais se posicionem, não simplesmente a favor de Lula e o que ele representa, mas contra o pensamento autoritário, excludente, misógino, machista, racista e antidemocrático da elite brasileira que tenta organizar e legitimar esta prisão e com isso, reorganizar um pensamento antidemocrático na sociedade brasileira. A aceitação da prisão ilegítima e ilegal de Lula será a aceitação da ilegalidade e ilegitimidade de toda e qualquer luta popular no Brasil.
 
Neste sentido, a Abong se soma à resistência pacífica e organizada das organizações e movimentos sociais do Brasil e do Mundo que exigem Lula Livre como símbolo da retomada da democracia no país, contra o arbítrio e a imposição de agendas antidemocráticas no país.
 
É preciso reconhecer que, na história do Brasil, em outros momentos agudos de enfrentamento das classes populares contra as elites e o grande capital saímos derrotados. Não foram derrotas completas porque, quem luta, sempre deixa uma semente para as futuras gerações. Mas os enfrentamentos não foram capazes de alterar a correlação de forças em favor de um projeto democrático e popular. Da mesma forma, em período favoráveis, as lideranças políticas não priorizaram o fortalecimento da organização popular. Dizemos isso, porque é fundamental que este momento de enfrentamento seja pensado também como processo de empoderamento popular, mudando as formas de relação de poder entre os partidos e organizações sociais do próprio campo popular.
 
Por isso, a Abong se soma a mobilização internacional em defesa de Lula e seguirá atuando para que as organizações, movimentos, redes e plataformas sociais aproveitem este momento de mobilização para constituir um ambiente de unidade com o povo brasileiro em torno das agendas estruturantes como a reforma política para a ampliação da democracia e da participação popular real e direta na discussão e decisão dos interesses coletivos e dos bens comuns; a reforma tributária que tribute a riqueza e que promova a redistribuição de renda através de politicas sociais públicas e gratuitas; a reforma do poder judiciário para que haja controle social sobre seu funcionamento; as reformas agrária e urbana para que seja democratizada a propriedade das terras e territórios brasileiros; a demarcação das terras indígenas, quilombolas e dos povos tradicionais e originários; a redução da jornada de trabalho sem redução dos salários e outras medidas capazes de impor limites e controle social sobre o grande capital e seus interesses e estabelecer a soberania popular sobre as riquezas do Brasil.
 
Outro Brasil é possível, urgente e necessário. E ele somente será construído com muita participação popular.
 
Diretoria Executiva da Abong
 
Fonte: Abong