Latina é uma cidade da Itália central, a mais nova da península, construída durante os vinte anos do regime fascista, na região saneada do Agro Pontino. A sua população é de origem “mista”, proveniente de várias regiões; atualmente é enriquecida pela grande variedade cultural, fruto das correntes migratórias.
 
Basma chegou a Latina há 18 anos, com o marido Ben, da Tunísia. Têm dois filhos que nasceram na Itália. “Um dia – ela nos conta – enquanto eu esperava o meu filho menor, na frente da escola, eu conheci uma senhora italiana que também esperava o filho e, com o passar do tempo, nasceu uma profunda amizade entre nós. Até então, eu havia conhecido muitas pessoas cristãs ou que, ao menos afirmam ser cristãos, que me haviam causado uma impressão negativa do cristianismo, no qual tudo era permitido e não se via a diferença entre o bem e o mal. Com esta nova amiga cristã, começamos a conversar sobre a nossa fé e descobríamos, sempre mais, que temos muitas coisas em comum: cada uma havia colocado Deus no centro da própria vida. As nossas casas são relativamente próximas e ela me deixava em casa após as aulas e, desta forma, começamos a visitar-nos, envolvendo também as nossas respectivas famílias. Descobri que esta minha amiga fazia parte de um povo de cristãos e que, todos, viviam por Deus.”
 
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A amizade aumentou, com a troca de presentes simples e o conhecimento recíproco: cuscuz para toda a família, acompanhado por pratos tunisianos, um jantar que reuniu as duas famílias. “Atravessamos a cidade a pé, como estamos acostumados a fazer, e eles diziam ter descoberto uma cidade antes escondida, povoada por todos os amigos muçulmanos”. Depois, houve uma festa tunisiana, com a contribuição financeira voluntária para suprir as despesas do material escolar das crianças, em um período no qual Ben havia sofrido um acidente de trabalho. Os amigos cristãos colocaram a própria casa à disposição decorando-a para a ocasião e criando um ambiente árabe, com tapetes, cortinas, almofadas, mesinhas baixas e velas. “Nós fizemos as compras e Basma cozinhou – eles contam – Foi grande a alegria ao constatar que conseguimos o valor exato para a compra dos livros. Uma noite muito bonita na qual assumimos como nossa a cultura árabe e nós nos sentimos irmãos. Ao entregar-lhes o valor arrecadado, escrevemos um bilhete: ‘Obrigado por esta viagem que você nos proporcionou pela sua terra, uma viagem com você. A sua família de Latina’. Comovida até as lágrimas, Basma consolidou este vínculo entre todos”.
 
Depois, um imprevisto: a doença e a morte do marido. “Antes de deixar-nos, Ben confiou-me a esses amigos cristãos. Eu fui a primeira a ficar muito admirada: havia os seus familiares, os irmão da mesquita, mas, talvez, ele sentia que, com eles, existia realmente uma relação cuja base era Deus. Bem morreu deixando-nos em uma grande dor. Éramos sós em uma terra estrangeira. Eu não tinha forças para viver”, nos disse Basma. Naqueles dias marcados pelo sofrimento, os amigos se alternavam no cuidado com aquela família, preparando alimentos, procurando sustentá-la e encorajá-la a recomeçar. “O sofrimento dela era nosso, os seus filhos eram nossos filhos”, nos dizem. Nasceu uma grande comunhão de bens para sustenta-los naquele período. Depois de poucos dias, uma pessoa levou a eles dez sacolas de verduras, que a proprietária de um mercado quis doar. A “Providência”, como dizem os amigos cristãos, tornou-se contagiosa e, também Basma começou a partilhar aquilo que recebia.
 
Finalmente chegou uma proposta de trabalho. Mas era para o turno das 4h da manhã, em uma fábrica distante da cidade. Uma das amigas se propôs a acompanha-la. Deste gesto começou uma corrente entre várias pessoas que a levavam, de forma a não pesar para ninguém e conseguir ajuda-la. “No novo ambiente de trabalho – nos conta Basma – eu também comecei a amar a todos, inclusive quem me considerava uma inimiga por causa do meu véu. Atualmente existe uma atmosfera muito serena e os meus amigos não precisam mais me acompanhar porque os colegas de trabalho se ofereceram para isso. Nos primeiros dias era difícil e eu repetia comigo mesma uma frase que ouvi dos meus irmãos cristãos: “Onde não há amor, coloque amor e encontrarás amor”. E é exatamente assim, o amor é contagioso”.

Fonte: Focolares
Foto: Reprodução / Rosario De Rosa
Obs.: o título foi adaptado.
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A prestigiosa Universidade de Georgetown, fundada pelos jesuítas e sediada em Washington, enfrentou de maneira justa o fato histórico de que os próprios jesuítas venderam 272 escravos em 1838 para manter vivas as finanças dessa instituição acadêmica.
 
No relatório do Grupo de Trabalho sobre Escravidão, Memória e Reconciliação, o reitor da universidade, John G. DeGioia, anunciou em 1º de setembro um vasto pacote de medidas para encarar e reparar os abomináveis acontecimentos de 178 anos atrás.
 
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DeGioia tinha pedido ao Grupo de Trabalho, em setembro de 2015, três tarefas: que fizessem recomendações para fomentar um melhor conhecimento dos assuntos históricos que envolveram a universidade com a escravidão; que examinassem e interpretassem a história de determinados lugares do campus e que montassem uma lista de eventos adequados para dialogar sobre a questão.
 
O pacote de iniciativas incluiu também um pedido formal de perdão; a oferta de condições preferenciais na admissão dos descendentes não apenas dos escravos vendidos naquele ano, mas de todos os escravos que trabalharam para a universidade; um novo programa acadêmico de estudos sobre a escravidão; um monumento em memória dos escravos que, com seu trabalho, beneficiaram a instituição; a troca de nome de dois edifícios do campus de Washington; e uma missa de reconciliação.
 
Além de qualquer outra instituição
 
Entrevistado pelo New York Times, o professor do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), Craig Steven Wilder, que estudou as relações entre as universidades norte-americanas e o escravagismo, disse que o projeto exposto por DeGioia “vai muito além do que foi feito por qualquer outra instituição (…) Dá passos que uma grande quantidade de universidades tem se negado a dar”.
 
Mais de uma dezena de universidades nos Estados Unidos são questionadas pelo seu passado escravista, incluindo instituições renomadas como Harvard, Brown e a Universidade da Virgínia. A maior parte delas reconheceu publicamente que comercializou e usou escravos na época anterior à abolição da escravatura. Mas nenhuma delas ofereceu tratamento preferencial na admissão dos descendentes dos escravos.
 
A Universidade de Georgetown já oferecia prerrogativas especiais aos filhos e netos de ex-alunos. A decisão de DeGioia oferece aos descendentes dos escravos essas mesmas vantagens, o que, segundo os historiadores, é algo sem precedentes. Que seja um passo importante para a reconciliação nos Estados Unidos em tempos nos quais parece crescer a barreira do racismo e da indiferença perante a história.

Fonte: Aleteia
Imagem: Wikimedia Commons
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O Papa Francisco recebeu em audiência, no dia 6 de outubro, na Sala dos Papas, no Vaticano, o Arcebispo de Cantuária, Dr. Justin Welby, Primaz da Comunhão Anglicana, e trinta e cinco Primazes das Províncias Anglicanas. Também estava presente o presidente do CONIC - que também é bispo anglicano - dom Flávio Irala. Na oportunidade, o Pontífice disse que ver os Primazes de várias Províncias da Comunhão Anglicana juntos com o Bispo de Roma é “um bonito sinal fraterno”.
 
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Encontro histórico
 
“Celebramos solenemente o 50° aniversário do encontro histórico entre o Beato Paulo VI e o Arcebispo Michael Ramsey. Esse encontro deu muitos frutos, basta pensar na criação do Centro Anglicano em Roma, na nomeação do representante permanente do Arcebispo junto à Santa Sé e no início do diálogo teológico, cujo resultado é o volume que contém cinco documentos da segunda fase da Comissão Internacional Anglicano-Católica (ARCIC 1982-2005). Esses frutos provêm de uma árvore que tem suas raízes no encontro de 50 anos atrás.”
 
Referindo-se ao prosseguimento do caminho comum entre católicos e anglicanos, o Papa pensou em três palavras: oração, testemunho e missão.
 
Oração
 
“Ontem à noite celebramos as Vésperas. Esta manhã, vocês rezaram aqui no Túmulo do Apóstolo Pedro. Não nos cansemos de pedir sempre e insistentemente ao Senhor o dom da unidade.”
 
Testemunho
 
“Estes 50 anos de encontro e troca de experiências, assim como a reflexão e os textos comuns, nos falam de cristãos que, por fé e com fé, se ouviram e partilharam tempo e forças. Aumentou a convicção de que o ecumenismo não é um empobrecimento, mas uma riqueza. Amadureceu a certeza de que aquilo que o Espírito semeou no outro produz uma colheita comum. Conservemos esta herança como um tesouro e nos sintamos chamados, todos os dias, a doar ao mundo, como Jesus pediu, o testemunho do amor e da unidade entre nós.”
 
Missão
 
“Há momento para tudo e este é o tempo em que o Senhor nos interpela, de modo particular, a sair de nós mesmos e de nossos ambientes para levar o seu amor misericordioso a um mundo sedento de paz. Ajudemo-nos reciprocamente a colocar no centro as exigências do Evangelho e a nos doar concretamente nesta missão.”

CONIC com informações da Rádio Vaticano
Foto: CTV / Rádio Vaticano
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Ainda existem obstáculos no caminho ecumênico, mas desejamos que aquilo que já é iminente, dê energia ao trabalho ecumênico no nosso país e dê sinais encorajadores e de esperança em todo o mundo.
 
Evento histórico
 
Assim conclui-se um longo artigo publicado, no dia 4 de outubro, no jornal sueco de inspiração cristã Dagen, assinado conjuntamente pelo Bispo católico da Diocese de Estocolmo, Anders Arborelius, e a Arcebispa da Igreja da Suécia, Antje Jackelen, a menos de um mês da visita do Papa Francisco a Lund, “evento que pode ser definido como histórico”, escrevem os bispos.
 
Em 31 de outubro, aniversário da Reforma, “pela primeira vez em absoluto, os líderes da Igreja Católica e da Federação Luterana mundial lançarão um olhar conjunto sobre a Reforma”.
 
Visita é fruto visível dos 50 anos de diálogo entre católicos e luteranos
 
O evento é um dos “frutos visíveis” dos “cinquenta anos de diálogo entre católicos e luteranos”, escrevem os bispos citados pela Agência Sir, recordando a assinatura da “Declaração conjunta sobre a doutrina da justificação” e o documento “Do conflito à comunhão”.
 
Os expoentes religiosos explicam, ademais, que o evento na Arena de Malmö intitulado “Juntos na esperança”, quer ser um “testemunho ao mundo da misericórdia de Deus” e anunciam que “como sinal concreto da vontade de fortalecer os laços, Caritas Internationalis e o World Service, subscrevem um memorandum conjunto”.
 
O convite é “colher a oportunidade de testemunho de Jesus Cristo para que o mundo creia” e “a rezar e a trabalhar pelo bem do Evangelho”.

Fonte: Rádio Vaticano
Foto: L'Osservatore Romano
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O dia 4 de outubro de 2016, data em que se comemora São Francisco de Assis, entrará para a história como a data em que a Igreja Católica deu um grande passo na luta contra as mudanças climáticas. Nada menos do que sete instituições católicas de peso ao redor do mundo anunciaram globalmente sua adesão à campanha de desinvestimento do setor de combustíveis fósseis. Trata-se do maior anúncio conjunto feito pelo segmento religioso até o momento.
 
A Diocese Divino Espírito Santo de Umuarama, no estado do Paraná, no Brasil, se apresenta não só como a primeira Diocese, mas também como a primeira instituição da América Latina a aderir ao desinvestimento. Sua proposta é reduzir as emissões de gases de efeito estufa, a fim de tornar-se uma Diocese de Baixo Carbono.
 
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Além da Diocese de Umuarama, as outras seis instituições que se comprometeram com o desinvestimento são: os Padres Jesuítas do Alto Canadá; a Federação das Organizações Cristãs para o Serviço Voluntário Internacional (FOCSIV), na Itália; a Congregação das Irmãs de Apresentação de Maria da Austrália e Papua Nova Guiné; SSM Saúde, nos Estados Unidos; a Sociedade Missionária de São Columbano, baseada em Hong Kong e com presença em 14 países; e o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, em Milão e Nápoles, na Itália.
 
Os compromissos vão desde a retirada de investimentos em carvão, como é o caso da instituição SSM de Saúde dos Estados Unidos, até o redirecionamento dos fundos para energias limpas e renováveis, como a FOCSIV anunciou.
 
A Diocese de Umuarama, uma das dezenas de instituições católicas que integram a COESUS - Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida, se comprometeu a motivar seus fiéis a realizar uma vigília pelos refugiados e impactados pelas mudanças climáticas, a apresentar aos membros da Igreja propostas de ações para redução de atividades poluentes ligadas aos hidrocarbonetos, além de conscientizá-los sobre os impactos do aquecimento global e sobre a importância do incentivo às fontes renováveis de energia.
 
Outras ações também estão previstas na proposta, como a elaboração, em conjunto com a 350.org, de um plano de eficiência energética, com autogeração de energia solar e geração de biogás através de resíduos orgânicos, a ser implementado nas edificações paroquiais e casas de formação; incentivo aos membros da Diocese e à comunidade a repetir o modelo de eficiência energética nas indústrias, comércios, escritórios e residências, visando a independência energética e a redução de emissões de gases do efeito estufa; e a formação e capacitação, por meio de workshops e treinamentos, para membros da Diocese, a fim de que esta e outras instituições católicas reduzam suas emissões de gás carbônico (CO2).
 
"Como Bispo da Diocese de Umuarama, em comunhão com a Igreja Católica e atento aos apelos do Evangelho, compreendo com clareza as mensagens do Papa Francisco através da Encíclica Laudato Si, que nos convoca ao cuidado da Casa Comum por meio de iniciativas que defendam a vida como um todo. Não podemos nos acomodar e seguir permitindo que interesses econômicos que buscam o lucro antes do bem-estar das pessoas, destruindo a biodiversidade e os ecossistemas, continuem ditando nosso modelo energético, baseado nos combustíveis fósseis. Sabemos que o Brasil conta com fontes abundantes de energias limpas e renováveis que não agridem a nossa Casa Comum. Por isso, acredito que a proposta de tornar a Diocese de Umuarama de baixo carbono é um dos caminhos práticos para se alcançar o que propõe a Laudato Si", defende Dom Frei João Mamede Filho, Bispo da Diocese de Umuarama.
 
Dom Mamede é colaborador da campanha Não Fracking Brasil, coordenada pela350.org Brasil e pela COESUS, tendo participado de ações no Paraná e internacionalmente. Recentemente, ele foi orador do evento 'Perigos do Fracking para a América Latina', encontro que aconteceu em Montevidéu, no Uruguai, e onde ocorreu o lançamento da Coalizão Latino-americana contra o Fracking pela Água, Clima e Agricultura Sustentável. Em setembro ele também esteve presente em umseminário organizado pela Diocese de Umuarama e Cáritas Paraná, que reuniu especialistas, ambientalistas, climatologistas, agentes da pastoral e gestores públicos para debater as mudanças climáticas e justiça social.
 
"Como parte de um movimento global, não vamos admitir que a indústria do hidrocarboneto continue a colocar em risco as vidas de milhões de pessoas ao redor do mundo. Desinvestir dos combustíveis fósseis é o único caminho para conter as mudanças climáticas. Essa decisão conjunta é muito importante, pois mostra o compromisso das comunidades católicas com a segurança do planeta. Precisamos urgentemente diminuir as nossas emissões de CO2, e para isso, é fundamental o incentivo ao crescimento das energias renováveis", afirma Juliano Bueno de Araujo, coordenador de campanhas climáticas da 350.org Brasil e fundador da COESUS.
 
O movimento de desinvestimento dos combustíveis fósseis foi reconhecido pelo Papa Francisco durante a mensagem enviada aos fiéis, no dia 01 de setembro - Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação -, chamando-os a rezar pela criação. Em sua fala, ele afirma que "a pressão social - que inclui o boicote a certos produtos - pode forçar as empresas e o mercado a reverem sua pegada climática e seus padrões de produção. Esta lógica anima o movimento de desinvestimento dos combustíveis fósseis."
 
A campanha pelo desinvestimento dos combustíveis fósseis é a que apresenta mais rápido crescimento na história, de acordo com um relatório da Universidade de Oxford. Até esta data, cerca de 600 instituições, que juntas somam mais de US$ 3,4 trilhões, já anunciaram globalmente seus compromissos. "Nós celebramos o anúncio de hoje e esperamos que ele influencie pessoas de todos os credos e inspire ainda mais instituições católicas, incluindo o próprio Vaticano, a retirar seus fundos da indústria dos combustíveis fósseis", reforçou Yossi Cadan, coordenador sênior da campanha do desinvestimento da 350.org.
 
Segundo Tomás Insua, coordenador global do Movimento Católico Global pelo Clima, o redirecionamento das políticas de investimento anunciado pelas instituições católicas segue a orientação emitida pelos bispos de todo o mundo. "Em uma poderosa declaração no ano passado, todas as Conferências Episcopais do mundo fizeram um apelo ao 'fim da era do combustível fóssil'", afirmou.

Fonte: Não Fracking Brasil
Foto: Guryanov Andrey/Shutterstock
Obs.: o título foi adaptado
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“Há cinquenta anos os nossos predecessores, Papa Paulo VI e o Arcebispo Michael Ramsey, encontraram-se nesta cidade, tornada sagrada pelo ministério e pelo sangue dos Apóstolos Pedro e Paulo. Mais tarde, João Paulo II e os Arcebispos Robert Runcie e George Carey, o Papa Bento XVI e o Arcebispo Rowan Williams, rezaram juntos nesta Igreja de São Gregório al Celio, de onde o Papa Gregório enviou Agostinho para evangelizar os povos anglo-saxões. Em peregrinação ao túmulo destes Apóstolos e Santos Padres, Católicos e Anglicanos se reconhecem herdeiros do tesouro do Evangelho de Jesus Cristo e do chamado para compartilhá-lo com todo o mundo.
 
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Recebemos a Boa Nova de Jesus Cristo por meio das vidas santas de homens e mulheres, que pregaram o Evangelho em palavras e obras, e fomos encarregados, e animados pelo Espírito Santo, para sermos testemunhas de Cristo “até os confins do mundo” (At 1,8). Estamos unidos na convicção de que “os confins da terra” hoje não representam somente uma expressão geográfica, mas um chamado a levar a mensagem salvífica do Evangelho, em modo particular àqueles que estão à margem e na periferia das nossas sociedades.
 
Em seu histórico encontro de 1996, o Papa Paulo VI e o Arcebispo Ramsey, instituíram a Comissão Internacional anglicano-católica com o objetivo de perseguir um sério diálogo teológico que, “alicerçado nos Evangelhos e nas antigas tradições comuns, conduza à unidade na Verdade pela qual Cristo rezou”.
 
Cinquenta anos mais tarde, damos graças pelos resultados da Comissão Internacional anglicano-católica, que examinou doutrinas que criaram divisões ao longo da história, a partir de uma nova perspectiva de mútuo respeito e caridade. Hoje somos agradecidos em particular pelos documentos do ARCIC II, que examinaremos, e aguardamos as conclusões do ARCIC III, que está procurando avançar nas novas situações e nos novos desafios para a nossa unidade.
 
Há cinquenta anos os nossos predecessores reconheceram os “sérios obstáculos” que impediam o caminho do restabelecimento de uma partilha completa da fé e da vida sacramental entre nós. Não obstante isto, na fidelidade à oração do Senhor para que os seus discípulos sejam um só, não se desencorajaram em iniciar o caminho, mesmo sem saber quais passos poderiam ser dados ao longo da estrada. Grande progresso foi realizado em muitos âmbitos que nos mantiveram distantes. Todavia, novas circunstância trouxeram novos desacordos entre nós, particularmente em relação à ordenação de mulheres e das recentes questões relativas à sexualidade humana. Por detrás destas divergências, permanece uma perene questão sobre o modo de exercício da autoridade na comunidade cristã. Estes são alguns aspectos que constituem sérios obstáculos à nossa plena unidade. Assim como com os nossos predecessores, também nós não vemos ainda soluções para os obstáculos diante de nós, mas não estamos desencorajados. Com confiança e alegria no Espírito Santo confiamos que o diálogo e o mútuo empenho tornarão mais profunda a nossa compreensão e nos ajudarão a discernir a vontade de Cristo para a sua Igreja. Estamos confiantes na graça de Deus e na Providência, sabendo que o Espírito Santo abrirá novas portas e nos encaminhará para toda a verdade (cfr João 16,13).
 
As divergências mencionadas não podem nos impedir de nos reconhecermos reciprocamente irmãos e irmãs em Cristo em razão do nosso comum Batismo. Também nunca deveríamos abster-nos de descobrir e de alegrarmo-nos na profunda fé cristã e na santidade que encontramos nas tradições dos outros. Estas divergências não devem levar-nos a diminuir os nossos esforços ecumênicos. A oração de Cristo durante a Última Ceia para que todos sejam um (João 17, 20-23) é um imperativo para os seus discípulos hoje, como o foi então, no momento iminente da sua paixão, morte e ressurreição e o consequente nascimento da sua Igreja. Nem sequer as nossas divergências deveriam impedir a nossa oração comum: não somente podemos rezar juntos, mas devemos rezar juntos, dando voz à fé e à alegria que compartilhamos no Evangelho de Cristo, nas antigas Profissões de Fé e no poder do amor de Deus, feito presente pelo Espírito Santo, para superar todo pecado e divisão. Assim, com os nossos predecessores, exortamos o nosso clero e os fieis a não negligenciar ou subestimar esta comunhão, que mesmo sendo imperfeita, já compartilhamos.
 
Mais amplas e profundas do que as nossas divergências são a fé que compartilhamos e a nossa alegria comum no Evangelho. Cristo rezou para que os seus discípulos possam ser todos um, “para que o mundo creia” (João 17,21). O vivo desejo de unidade que nós experimentamos nesta Declaração Comum está intimamente ligado ao desejo compartilhado de que homens e mulheres cheguem a acreditar que Deus enviou o seu Filho, Jesus, ao mundo, para salvá-lo do mal que oprime e enfraquece toda a criação. Jesus deu a sua vida por amor e ressuscitando dos mortos venceu até mesmo a morte. Os cristãos, que abraçaram esta fé, encontraram Jesus e a vitória de seu amor em suas próprias vidas, e são levados a compartilhar com os outros a alegria desta Boa Nova. A nossa capacidade de nos reunir no louvor e na oração a Deus e de testemunhar ao mundo, se apoia na confiança de que compartilhamos uma fé comum e em medida substancial um acordo na fé.
 
O mundo deve nos ver testemunhar, no nosso trabalhar juntos, esta fé comum em Jesus. Podemos e devemos trabalhar juntos para proteger e preservar a nossa casa comum: vivendo, instruindo e agindo de forma a favorecer um rápido fim da destruição ambiental, que ofende o Criador e degrada as suas criaturas, e gerando modelos de comportamento individuais e sociais que promovam um desenvolvimento sustentável e integral para o bem de todos. Podemos, e devemos, estar unidos na causa comum de apoiar e defender a dignidade de todos os homens. A pessoa humana é rebaixada pelo pecado pessoal e social. Em uma cultura da indiferença, muros de afastamento nos isolam dos outros, das suas lutas e dos seus sofrimentos, que também muitos nossos irmãos e irmãs em Cristo sofrem atualmente. Em uma cultura do descarte, as vidas mais vulneráveis na sociedade são frequentemente marginalizadas e descartadas. Em uma cultura do ódio, assistimos a indizíveis atos de violência, seguidamente justificados por uma compreensão distorcida do credo religioso. A nossa fé cristã nos leva a reconhecer o inestimável valor de toda vida humana e a honrá-la por meio de obras de misericórdia, oferecendo educação, cuidado à saúde, alimento, água limpa e abrigo, sempre buscando resolver os conflitos e construir a paz. Enquanto discípulos de Cristo, consideramos a pessoa humana sagrada e enquanto apóstolos de Cristo devemos ser os seus advogados.
 
Há cinquenta anos o Papa Paulo VI e o Arcebispo Ramsey inspiraram-se nas palavras do Apóstolo: “esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3,13-14). Hoje, “aquilo que está para trás” – dolorosos séculos de separação – foi parcialmente curado por cinquenta anos de amizade. Damos graças pelos cinquenta anos do Centro Anglicano em Roma, destinado a ser um local de encontro e de amizade. Nos tornamos amigos e companheiros de viagem no peregrinar, enfrentando as mesmas dificuldades e fortalecendo-nos reciprocamente, aprendendo a apreciar os dons que Deus deu ao outro e a recebê-los como próprios, com humildade e gratidão.
 
Estamos impacientes em progredir para poder estar plenamente unidos em proclamar a todos, nas palavras e nos fatos, o Evangelho salvífico e curador de Cristo. Por isto recebemos grande encorajamento do encontro deste dias entre tantos Pastores católicos e anglicanos da Comissão internacional Anglicano-católica para a Unidade e a Missão (IARCCUM), os quais, com base naquilo que lhes é comum e que gerações de estudiosos do ARCIC cuidadosamente trouxeram à luz, estão vivamente desejosos em prosseguir na missão de colaborar e no testemunho até “os confins da terra”. Hoje nos alegramos em encarregá-los e em enviá-los em frente, dois em dois, como o Senhor enviou os setenta e dois discípulos. Que a sua missão ecumênica em direção àqueles que se encontram à margem da sociedade, seja um testemunho para todos nós, e deste lugar sagrado, como a Boa Nova há tantos séculos, saia a mensagem de que católicos e anglicanos trabalham juntos para dar voz à fé comum no Senhor Jesus Cristo, para levar alívio no sofrimento, paz onde existe conflito, dignidade onde negada e pisada.
 
Nesta Igreja de São Gregório Magno [o documento foi assinado após as celebração das Vésperas na Igreja São Gregório], invocamos ardentemente a bênção da Santíssima Trindade sobre o prosseguimento da obra da ARCIC e do IARCCUM, e sobre todos aqueles que rezam e contribuem para o restabelecimento da unidade entre nós.
 
Sua graça Justin Welby                 Sua santidade Francisco

Fonte: Rádio Vaticano
Foto: Reprodução
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Há coisa de cinco anos, evangélicos de todo o Brasil entraram em festa. Pela primeira vez, desde que o país foi achado pelos portugueses, a fé católica perderia sua hegemonia. Esta, pelo menos, era a previsão de pastores, líderes e pesquisadores diante dos números promissores sobre o avanço da Igreja Evangélica no país. “O Brasil é do Senhor”, frase bradada dos púlpitos e nos programas evangélicos na TV, sintetizava a virada de mesa que aconteceria em breve. Quem cresse e vivesse, veria – e a base para tanto ufanismo eram as estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, que a cada década realiza o Censo da população nacional. No levantamento do ano 2010, chegou-se à cifra de 42,3 milhões de crentes, ou 22,2% do povo brasileiro. O processo fora mais avassalador ainda nas comparações anteriores, que mostravam um avanço de seis vezes do segmento em duas décadas. Em seu estudo A dinâmica das filiações religiosas no Brasil entre 2000 e 2010, o pesquisador José Eustáquio Diniz, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, chegou a dizer que o Brasil poderia ser um país de maioria evangélica já por volta de 2030: “Apenas pelo efeito da inércia demográfica, haverá crescimento da população evangélica.”

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Na mesma onda foram muitos pastores e institutos de pesquisa evangélicos. O Departamento de Pesquisas do ministério Servindo Pastores e Líderes (Sepal) divulgou uma estimativa, em 2011, segundo a qual os evangélicos representariam mais da metade da população brasileira já em 2020. “Eles serão aproximadamente 109,3 milhões, para uma população de 209,3 milhões,” previu o teólogo e pesquisador Luis André Bruneto. O entusiasmo era corroborado por grandes manifestações, como a Marcha para Jesus (que, em 2009, levou às ruas de São Paulo quase 2 milhões de pessoas), pela maciça presença midiática dos pastores e pela crescente influência evangélica em setores como a política partidária, entre outros. “O Instituto Superior de Estudos da Religião fez, na década de 90, uma extensa pesquisa sobre a abertura de templos. Eram cinco por semana, só no Rio de Janeiro”, observa o pastor presbiteriano André Mello, na época integrante da equipe do Iser.

Acontece que, se a matemática é uma ciência exata, a dinâmica demográfica, muitas vezes, caminha na direção oposta, e aí não há fé capaz de fechar a equação. Os números relativos à religiosidade do povo brasileiro do Censo 2010 só foram fechados e divulgados mais de dois anos depois, e o festejado crescimento dos evangélicos, que se acelerou de maneira sem paralelo no mundo contemporâneo entre os anos 1980 e 2000, caiu bastante. Os números ainda são ascendentes, mas tendem à estabilização – e até ao encolhimento, como especulam alguns pesquisadores –, o que contraria frontalmente as previsões mais ufanistas. “Entre 1991 e 2000, o aumento médio foi de 120%”, lembra o bispo emérito da Igreja Metodista Paulo Ayres Mattos. Dali em diante, o avanço caiu pela metade. “Isso não pode ser ignorado de forma alguma para quem trabalha com rigor e seriedade as mutações no campo religioso brasileiro”. Doutor em Teologia e professor da Universidade Metodista de São Paulo, Ayres é estudioso do movimento pentecostal brasileiro e avalia que o fato mais importante dos dados religiosos do último Censo é a diminuição comparativa do crescimento evangélico.

DESCONCENTRAÇÃO

Há diversas razões para essa perda do ímpeto de crescimento, que pôde ser sentida no dia 4 de junho (2015), quando apenas cerca de 200 mil pessoas, na avaliação da Polícia Militar, prestigiaram a mesma Marcha para Jesus nas ruas da capital paulista. “As pesquisas atuais falam em fechamento de templos e dissolução de associações evangélicas por divergências ou luta por poder”, acrescenta André Mello. Tal fragmentação das igrejas, e seu consequente enfraquecimento, é apenas um dos motivos do quadro atual. Ela se verifica tanto na igrejinha da esquina, da qual o pastor assistente saiu para abrir seu próprio empreendimento religioso, até grandes grupos, como a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). Nadando de braçada na explosão evangélica dos anos oitenta e noventa, a denominação de Edir Macedo começou a sofrer a concorrência – é, o termo usado pelos estudiosos é este mesmo, que remete à ideia de disputa por mercado – de grupos saídos de suas entranhas, como a Igreja Mundial do Poder de Deus, fundada e liderada por Valdemiro Santiago, ex-pastor da Universal e atual desafeto do antigo chefe. O estrago é um dos motivos do encolhimento da Iurd, de 2,1 milhões de fiéis, há quinze anos, para os cerca de 1,8 milhão encontrados em 2010. De maneira análoga, diversas denominações têm sofrido fraturas e cizânias que, no médio prazo, acabam dificultando as coisas tanto para a igreja que fica como para aquela que se forma.

“As pessoas, hoje, têm mais liberdade para escolher e combinar diversas opções em seu próprio cardápio religioso, como num balcão de comida a quilo”, continua Paulo Ayres. Para ele, o quadro sinaliza as transformações sociais que melhoraram a situação econômica de boa parte da população nos últimos anos, como as classes C e D. “Isso possibilitou às pessoas resolverem seus problemas mediante meios mais racionais, sem buscar o recurso de soluções milagrosas”. Além disso, o bispo metodista aponta outros fatores, como o aparecimento mais visível dos evangélicos sem igreja e o aumento percentual de pessoas sem religião, ateus e agnósticos no cenário nacional. De fato, o IBGE encontrou 9.218.000 brasileiros que se enquadram na difusa categoria “evangélica não determinada”, que inclui os chamados desigrejados – gente que, apesar da origem evangélica, em determinado momento da vida assumiram uma fé “não institucional”, para usar o termo moderninho. “Tudo isso confirma um dado já identificado anteriormente, trabalhado com bastante competência por sociólogos da religião como Paul Freston”, cita.

Autor de um artigo polêmico, publicado na revista Ultimato em 2011 e no qual questionava as previsões entusiasmadas que anunciavam a quebra da antiga hegemonia religiosa do catolicismo, Freston cunha uma expressão para se referir ao esvaziamento da ideia de pertencimento religioso, antes tão cara aos evangélicos que era comum se ver, nos bancos das igrejas, sucessivas gerações de crentes. “Vários fatores podem estar por trás dessa ‘desdenominacionalização’. São aspectos negativos – como o individualismo e a falta de compromisso – e outros positivos, como a melhora econômica e a consequente diminuição da necessidade de uma relação clientelista numa igreja com liderança forte”. Inglês naturalizado brasileiro e colaborador nos programas de pós-graduação da Universidade Federal de São Carlos, Freston, que atualmente leciona no Canadá, chama a atenção para os subgrupos do universo evangélico brasileiro, lembrando que o fenômeno os atinge em diferentes graus. “As análises se complicam com as mudanças internas do segmento. Segundo o Censo, 60% dos evangélicos são pentecostais; 18% são de missão (ou seja, integrantes de igrejas históricas ou tradicionais); e 22% estão entre os ‘evangélicos não determinados’.”

Ele considera que o espantoso o aumento desta última categoria atrapalha as comparações com os Censos anteriores. Quem seriam eles? “Será que são neopentecostais decepcionados com as suas igrejas, mas que ainda se consideram evangélicos? Ou pentecostais clássicos, de terceira ou quarta geração, em processo de ‘despentecostalização’? Ou crentes de igrejas históricas que perderam a sua identidade denominacional? Ou uma soma de tudo isso e muito mais? De qualquer forma, diminui a porcentagem do mundo evangélico que se diz pentecostal ou que declara adesão a uma denominação categorizada como tal”, descreve o professor. Por outro lado, o Censo anuncia mudanças demográficas no Brasil que não favorecem o movimento, como o acelerado envelhecimento da população e a redução da taxa de fecundidade. Numa coisa, porém, Freston é categórico: “Os dados desmentem claramente as previsões absurdas que circularam de que haveria uma maioria evangélica até 2020. Estas previsões fazem um grande desserviço à comunidade evangélica.”

O avanço da Igreja Evangélica brasileira, alavancado pela explosão pentecostal e neopentecostal de vinte anos atrás, estará perto de bater no teto? “No momento, parecem precoces e arriscadas quaisquer conjecturas desse tipo”, comenta Ricardo Mariano, doutor em Sociologia e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Em seu trabalho Mudanças no campo religioso brasileiro no Censo 2010, ele menciona que os sem religião, demograficamente insignificantes até 1970, já chegam a 15,3 milhões de brasileiros. “Eles quintuplicaram de tamanho entre 1980 e 2010, formando o terceiro maior ‘grupo religioso’ do país”, diz no estudo. Ao mesmo tempo, a expansão dos pentecostais na última década pesquisada, de 44%, não chega nem à metade das médias de crescimento obtidas nos dois decênios anteriores, como em 1991 (aumento de 111%) e em 2000, da ordem de 115,4%. O que parece certo, ainda conforme Mariano, é a perda de musculatura de grandes igrejas. “Em 2000, cinco denominações concentravam 85% dos pentecostais. Uma década depois, essa cifra declinou para 75,4%. Tal desconcentração denominacional é decorrente tanto da queda numérica de igrejas como Congregação Cristã no Brasil e Universal quanto do aumento da diversificação institucional do pentecostalismo.”

“QUANTO MAIS CRESCE, MENOS CRESCE”

No caso da Assembleia de Deus, a desaceleração é evidente. Embora fragmentada em diversas convenções e usada até como nome de fantasia para empreendimentos religiosos individuais, as Assembleias de Deus constituem a maior confissão religiosa do país depois do catolicismo – nada menos que 12,3 milhões de brasileiros disseram aos pesquisadores do IBGE que pertencem a uma igreja com essa placa na entrada. “Elas cresceram 245% na década de 1990 a 2000, mas avançaram ‘apenas’ 46% depois disso”, frisa Gedeon Freire de Alencar, membro da Rede Latinoamericana de Estudos do Pentecostalismo (Relep). Em sua tese de doutorado em Ciências da Religião, ele usou como objeto de estudo a denominação fundada há pouco mais de cem anos por missionários suecos. “Uma constatação óbvia se apresenta aos estudiosos: a de que, quanto mais cresce, menos cresce”, prossegue Alencar (ver artigo na continuação desta reportagem).

Luis Bruneto, diretor de Pesquisas do Projeto Brasil 21 da Sepal, admite que a previsão de alguns anos, feita ainda com base nos dados do período entre 1991 e 2000, continha erros e precisa de uma releitura. “O crescimento anual dos evangélicos mostrou-se aquém do previsto. O aumento perdeu força”. Segundo ele, o avanço do secularismo na sociedade brasileira, o utilitarismo do discurso evangélico, os escândalos envolvendo pastores e líderes e a falta de higidez teológica e doutrinária ajudam a explicar o atual momento histórico. “Durante anos, a liderança evangélica nacional tem afirmado, categoricamente, que o país experimenta um avivamento espiritual, dados os números tão expressivos. Mas, será mesmo?”, indaga. Bruneto invoca a falta de influência bíblica e profética da Igreja em diversas áreas da vida brasileira, como a política, a segurança pública, o desenvolvimento social e a ética, para exemplificar o paradoxo.

De menos de um por cento da população no início do século passado, o grupo religioso que mais cresceu na história do Brasil está representado em todas as mais de 5,6 mil cidades do país e ainda apresenta índices de expansão bem maiores do que os da população em geral. Mas as oscilações em seu crescimento precisam, ao menos, ser interpretadas como sinal de alerta. “Resta saber o que isso tem representado, na prática, em termos de transformação pessoal e coletiva”, insiste Bruneto. Para Paul Freston, em um futuro próximo, esse enfoque será cada vez mais necessário. “Se não recuperarmos a capacidade de interagir com o texto bíblico, de deixá-lo falar a nós e, a partir disso, tirar as implicações individuais, eclesiásticas e nacionais necessárias, nos mostraremos irrelevantes”, alerta. “A Igreja Evangélica brasileira de 2030 ou 2040 precisará de líderes mais diversos nos seus dons, profundos no seu conhecimento e sabedoria e transparentes nas suas vidas”. Quanto aos fiéis, a recomendação é simples, mas não necessariamente fácil de cumprir: “Precisamos redescobrir o verdadeiro sentido de ser evangélico, que é a vontade de sermos profundamente bíblicos em toda a nossa existência.”

Fonte: Cristianismo Hoje
Imagem: DCM
Obs.: o título foi adaptado

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A Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) promove, entre os dias 27 e 26 de outubro, o XII Congresso Nacional de Teologia. O evento pretende discutir os desafios do pluralismo eclesial e religioso para a teologia cristã atualmente, analisar o movimento ecumênico e as iniciativas de diálogo inter-religioso, além de verificar quais as contribuições possíveis dessas iniciativas para a construção de uma sociedade justa e igualitária.

A programação conta com Conferências, Mesas Redondas, Comunicações, entre outros. As conferências serão proferidas por pesquisadores internacionalmente conhecidos pela contribuição que dão para o conhecimento do pluralismo religioso, eclesial, espiritual e cultural do nosso tempo, como:

– Prof. Dr. Juan José Tamayo Acosta – Universidad Carlos III Madrid & Universidad de Valencia (Madri).
Conferência: O pluralismo religioso na leitura da teologia das religiões e suas implicações para o diálogo das religiões.

– Prof. Dr. Alberto Melloni – Fondazione per le Scienze Religiose Giovanni XXIII (Bolonha/Itála).
Conferência: O pluralismo eclesial e a teologia ecumênica na perspectiva do Concílio Vaticano II.

– Prof. Dr. Walter Altmann – Faculdades EST (São Leopoldo/Brasil)
Conferência: O pluralismo eclesial na perspectiva da teologia protestante e o movimento ecumênico na atualidade.

Cada conferência será seguida de uma mesa redonda formada por organizações que promovem o ecumenismo e o diálogo inter-religioso

As inscrições para o evento vão até o dia 17 de outubro. Valores com desconto até 10 de outubro.

Para mais informações sobre a programação, valores e normas para o envio de trabalhos, acesse: http://goo.gl/6P4C3M

CLIQUE AQUI e baixe o cartaz do evento.

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O CONIC promoverá, em parceria com o Dia Mundial de Oração e o Movimento Lado a Lado, entre os dias 17 e 20 de novembro, em São Paulo (SP), o encontro Mulheres: Direitos e Justiça - Compromisso Ecumênico. O evento será realizado no Centro de Formação Sagrada família (www.centrosagradafamilia.com.br). A ideia é trabalhar a questão da violência contra mulheres, recuperar a história do protagonismo feminino no movimento ecumênico e desafiar as igrejas e a sociedade, nos dias de hoje, para o compromisso com a efetivação dos direitos e da justiça para as mulheres.
 
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Para quem é o encontro
Para mulheres de diferentes igrejas e religiões, comprometidas com a efetivação de direitos e justiça para as mulheres. Mas atenção: as vagas são LIMITADAS e o prazo de inscrição termina no dia 08/11/2016.
 
Há custos?
Apenas a taxa de R$ 50,00. Alimentação e hospedagem serão por conta do CONIC.
 
Mais informações
CLIQUE AQUI e baixe o folder com informações detalhadas.
 
Ficha de inscrição
CLIQUE AQUI e baixe a ficha de inscrição. Após o preenchimento, encaminhe para conic@conic.org.br
 
CLIQUE AQUI e veja a programação do evento.
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O CONIC criou, em seu site, o espaço Religiões e Democracia. A ideia é refletir as relações entre a religião e a democracia e trabalhar a temática com o auxílio de perguntas feitas a lideranças religiosas, teólogos e teólogas, cientistas da religião e de outras áreas do conhecimento. Convidamos vocês para lerem as entrevistas e manifestarem opiniões. Sempre em um espírito de diálogo e respeito às ideias.
 
Desta vez, falamos com Rodrigo Portella, doutor em Ciência da Religião.
 
rodrigo portela
 

1) De que modo as religiões podem contribuir para o aprofundamento da democracia?

É uma questão complexa, pois "as religiões" têm paradigmas muitas vezes discordantes entre si (e, portanto, é complicado generalizá-las), e nascem em ambientes culturais, refletidos em seus textos fundantes e teologias, em que a democracia, assim como a conhecemos hoje, não existia. Aliás, podem mesmo refletir, em suas mensagens e literaturas, modelos não democráticos. Contudo, seja a partir de novas hermenêuticas de seus textos e teologias (desde que não os forcem desonestamente ou os manipulem para concordar com o espírito de nossa época), seja independentemente delas, as religiões organizadas enquanto instituições burocráticas de representação e normatização da fé de seus adeptos deveriam, a meu ver, colocar em suas agendas questões em comum referentes aos direitos humanos, conforme normatização da ONU, dentre eles a questão da liberdade e democracia. Neste sentido, partiriam de um dado externo a elas, e secular, para seu debate e contribuição a estes temas. Porém, a questão complica porque as religiões, a priori, não têm a obrigação de reconhecer os parâmetros da ONU, por exemplo, como "sagrados" ou vinculativos, e religiões como o Islã, o Confucionismo, dentre outras, têm perspectivas diferentes sobre a organização da sociedade, que diferem dos modelos democráticos modernos. Mesmo a Igreja Católica não reflete, em sua organização interna, um modelo democrático moderno e, assim, como poderá dialogar sobre democracia na sociedade? Não seria incoerente? Contudo, como certa vez afirmou o frade dominicano português, Bento Domingues, se a Igreja não é uma democracia, não precisa, por isso, ser uma ditadura. Penso que aqui está um paradigma interessante: as religiões podem não conter mensagens explicitamente democráticas em suas mensagens fonte, mas as instituições que as representam não necessitam, por isso, fugir a este debate, ou propor modelos autoritários de sociedade; ao contrário, podem e devem fazer leituras de suas tradições que sejam dialógicos com os modelos modernos de democracia.

2) Algumas religiões acreditam que a democracia é incompatível com aquela fé. Como lidar com isso?

Creio que isto, de alguma forma, já foi respondido acima. De fato não é um processo dialógico fácil, mas é necessário o esforço, principalmente quando está em jogo o bem do ser humano e do planeta.

3) No Brasil, expressões religiosas, sobremaneira cristãs, se apossam cada vez mais dos espaços públicos e conquistando grandes representações no Congresso Nacional. Como avalia esse fenômeno?

Numa democracia me parece legítimo. Em democracia qualquer grupo - LGBT, sem terra, ruralistas, movimentos populares, industriais, religiões - podem e têm direito de participar, através dos meios político-democráticos, das decisões do país, fazendo valer, no cenário político-democrático, suas vozes e pensamentos. Isto, me parece, é democracia, e faz parte da democracia o conflito de ideias, às vezes tenso e polêmico. Já a forma como tais grupos atuam é outra discussão. E, claro, nem sempre precisamos os podemos concordar com a forma de atuar dos vários grupos, inclusive os religiosos. Mas este é o bônus e o ônus da democracia, que andam juntos.

4) As religiões de matriz africana, por outro lado, estão pouco representadas. Como você interpreta isso?

Tais religiões têm tido um decréscimo numérico no Brasil, conforme o último censo, e também não costumam ter o poder econômico e midiática das Igrejas evangélicas, por exemplo, o que acaba por se refletir em pouca representação no cenário político. Infelizmente o poder político no Brasil ainda é calcaldo, e muito, a partir do poder econômico, o que, evidentemente, torna injusta uma representação mais plural nos meios políticos decisórios, prejudicando, assim, as minorias (principalmente econômicas) que se vêem prejudicadas quanto à sua representação e força.

5) Agora, uma pergunta provocativa: é possível, a partir da teologia ou das teologias cristãs, estabelecer relação entre religião e democracia? Se sim, quais seriam as chaves teológicas? Se não, quais seriam as chaves teológicas?

É pergunta ampla, sem condições de resposta clara aqui, pois é pergunta para muitos livros, e muitas teses (rs). Em questão de "chaves teológicas" tudo parece possível, desde as mais fundamentalistas até as mais libertárias. O teólogo e exegeta Rudolf Bultmann assinalou, com justeza, que “toda exegese dirigida por preconceitos dogmáticos não ouve o que o texto está dizendo, mas fá-lo dizer o que ela quer ouvir” (Rudolf Bultmann, Será possível a exegese livre de premissas?, p. 224).Portanto, em sentido, inverso, também será possível dizer que toda exegese ou hermenêutica dirigida por concepções teóricas pré-definidas faz com que o texto | mensagem revele o que se deseja dele entender. Não há chave teológica "pura", todas nos refletem, nossas biografias, nosso mundo, nossos interesses e opções. Portanto, de muitas maneiras, creio que esta pergunta por ser respondida, de várias maneiras, tanto por "chaves teológicas" que abrem ou que fecham a relação religião-democracia. É, religião e democracia não são temas fáceis... São complexas como a vida e o mundo.

6) É comum utilizar a bíblia para legitimar e justificar posturas antidemocráticas. É possível identificar possíveis iluminações bíblicas que contribuiriam para fortalecimento da democracia e para a valorização das diversidades?

Sem dúvida!! É como já respondi acima: a Bíblia pode justificar atrocidades ou grandes atos de humanidade. Depende de quem a lê e de que "chaves" usa para a abrir e entender. A Bíblia, e não só ela, em muito nos reflete como somos e com as idéias que temas e sempre há uma mão dupla: se nós nos convertemos a ela, ela também se converte a nós. É uma dialética complexa.

7) Algumas vozes analisam a laicidade do Brasil como ambígua. É possível a relação entre religião e política sem ferir a laicidade? Como analisar a presença pública da religião no Brasil e sua relação com o Estado?

A laicidade do Estado indica que o Estado não pode privilegiar nenhuma religião específica. Por outro lado, indica que todas as religiões têm o direito de exercer sua cidadania política perante o Estado. Esta é a dialética delicada que precisa sempre ser equacionada, ou seja, o Estado deve dar direito de voz e participação política a todos os grupos sociais (inclusive, aí, os religiosos), mas nenhum grupo social - religioso ou civil - numa democracia laica, pode ter voz mais forte do que o outro em sua participação política. E aí estão os conflitos, que é a alma da democracia: uns pensam de um jeito, outros pensam de outro, e todos têm direito igual à voz e de decidir o rumo da sociedade. Como chegar a consensos? Será possível numa democracia? Sim, é o ideal, mas como o próprio nome diz, é o "ideal", o horizonte a ser perseguido, mas este caminho se faz no conflito de ideias e interesses. A democracia não é um sistema político fácil, aliás, é o mais complexo de todos, o mais difícil (mas também, creio, o melhor). E a laicidade, o tênue fio dela, também está nesta complexidade. O que não pode é que prevaleça os extremos de interpretar laicidade erroneamente, isto é, como exclusão das religiões de sua voz e participação nos rumos políticos da sociedade.

Biografia:

Rodrigo Portella foi pastor da IECLB e é doutor em Ciência da Religião (UFJF), com estágio pós-doutoral em Teologia pela PUC-RJ. Atualmente, é professor adjunto III no Departamento de Ciência da Religião da UFJF. É autor dos livros "Mirar Maria: reflexos da Virgem em espelhos da História" (Editora Santuário, 2016) e, junto com Antônio Magalhães, "Expressões do Sagrado: reflexões sobre o fenômeno religioso" (Editora Santuário, 2008).

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