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Um empresário judeu que sobreviveu aos atentados terroristas de Bruxelas encontrou na defesa da comunidade muçulmana uma motivação para superar o trauma, convertendo em símbolo desse combate a nova amizade com um sobrevivente muçulmano.

Em 22 de março deste ano, 32 pessoas morreram em duas explosões no aeroporto internacional de Zaventem e uma na estação de metrô de Maelbeek, na capital belga. O grupo extremista autodenominado Estado Islâmico reivindicou a autoria dos ataques.

"Percebi que, depois disso, muitos amigos meus desenvolveram uma raiva generalizada de muçulmanos. Acho importante lutar contra isso para salvar nosso modelo atual de sociedade e evitar que a situação degenere", explica Walter Benjamin, judeu não praticante em uma família na qual há também cristãos e muçulmanos.

Vítima de terroristas que atacam em nome do islã, Benjamin defende que "99,9% dos muçulmanos são formidáveis e não merecem ser culpados pelo que fazem 20 ou 30 idiotas".

Ele diz acreditar que o melhor exemplo disso é Hassan Elouafi, muçulmano fervoroso que foi a primeira pessoa a ajudá-lo no dia do atentado.

Explosão

Os caminhos de Benjamin, 47, e Elouafi, 41, ambos belgas, se cruzaram no aeroporto.

O judeu se preparava para embarcar para Tel Aviv, em Israel, onde mora a filha de 16 anos. Já o muçulmano se preparava para consertar uma máquina no edifício onde trabalha como técnico há 20 anos.

Benjamin perdeu a perna direita, teve a esquerda gravemente comprometida por uma fratura múltipla e estilhaços de bomba, e várias partes do corpo perfuradas por pregos que compunham os artefatos. Elouafi saiu fisicamente ileso, mas profundamente abalado.

"Foi tudo muito rápido. Lembro de ter ouvido a primeira explosão e pensado: 'Quem é o idiota que solta fogos de artifício em um aeroporto?' Aí vi muita gente correndo na minha direção, gritando, mas nem deu tempo de entender o que estava acontecendo", contou Benjamin à BBC Brasil.

A segunda explosão ocorreria poucos segundos depois, a cerca dois metros de onde ele se encontrava, na fila para registrar as bagagens.

"Houve um barulho e uma luz muito forte. Fui projetado pela bomba e caí sentado. Vi minha perna do lado, arrancada, e meu sangue jorrando. O homem que tinha estado atrás de mim na fila estava a meu lado, morto. Ele tinha perdido a cabeça. Todos ao meu redor estavam mortos."

Mais afastado, enquanto passava pela fila um, Elouafi viu "uma bola de fogo" acompanhada de "um barulho gigantesco", e em seguida "tudo ficou negro de poeira por causa do teto que caía".

"Quando a poeira baixou, vi Walter sentado no meio de todos aqueles corpos, sozinho. Ele gritava de dor, com uma voz frágil. Me senti mal e dei a volta para ir até lá consolá-lo. Não podia deixá-lo lá sozinho", lembra Elouafi, pai de quatro filhos.

Ainda assim, Benjamin considera que o novo amigo ajudou a salvar sua vida.

"Eu me sentia morrendo. Hassan me emprestou o telefone para que eu avisasse minha mãe. O socorro demorou a chegar e ele ficou o tempo todo comigo, ajudou o militar que chegou depois a me fazer um torniquete e me acompanhou até a ambulância. Ele não precisava, podia ter ido embora, ter se protegido. Mas ele ficou lá", lembra, emocionado.

Reencontro

Uma semana depois dos atentados, Elouafi, ainda traumatizado, decidiu telefonar para a mãe de Benjamin para ter notícias do desconhecido que ele havia ajudado e temia não ter sobrevivido aos ferimentos.

"Quando ela me falou que ele estava vivo e que estava me procurando, eu comecei a chorar. A psicóloga, que estava ao meu lado, também começou a chorar. Foi um alívio. Eu não tinha parado de pensar nele. Fui direto para o hospital onde ele estava internado."

Segundo Benjamin, os dois formam agora uma "nova família recomposta, apesar de todas as diferenças".

"Nos falamos quase todos os dias. Ele vem me visitar com frequência, me traz pratos preparados pela esposa dele, pergunta sempre se eu preciso de alguma coisa. Age como um verdadeiro irmão", afirma.

Para Elouafi, as conversas com o amigo judeu, sempre otimista e de bom humor, são "uma espécie de tratamento psicológico".

"Quando eu não consigo dormir, eu ligo pra ele. Quando ele tem dificuldade pra dormir, é ele quem me liga. Só nós podemos entender o que sentimos", afirma.

Batalha

Benjamin diz acreditar que a amizade entre um judeu e um muçulmano surgida de um atentado terrorista é "um símbolo forte, que permite enviar uma mensagem importante a todos os que tentam estigmatizar toda uma comunidade".

"Hassan é uma pessoa excepcional. Como alguém poderia relacionar ele com os terroristas que fizeram isso comigo? Se não fizermos nada contra esse tipo de ideias, estaremos abaixando os braços definitivamente e dando espaço para uma sociedade violenta e incivil."

Por isso, ele decidiu contar a história em uma nota pública em sua página Facebook, onde também cobra ações das autoridades belgas para evitar que mais jovens "vejam o terrorismo como a única saída para suas vidas".

A publicação gerou centenas de mensagens de apoio e despertou o interesse de um grupo de jovens de Molenbeek, bairro de Bruxelas de onde eram originários muitos dos terroristas que atacaram a cidade e Paris.

"Eles vieram me ver, disseram que sentem muito pelo que aconteceu comigo, falaram dos problemas do bairro e do que querem da vida. Eles querem que as coisas mudem. Precisamos ajudá-los a colocar os políticos diante de suas responsabilidades."

De sua cama no hospital, de onde ainda não tem prazo para sair, Benjamin prepara um livro sobre os atentados e planeja dar conferências nas escolas belgas quando voltar a andar.

Também faz planos de acompanhar seu novo amigo muçulmano em uma viagem a Jerusalém, cidade sagrada para católicos, judeus e muçulmanos, que Elouafi sonha em conhecer.

"Plantarei uma árvore para ele, sua esposa e seus filhos em Israel", disse o judeu.

Por Márcia Bizzotto (de Bruxelas para a BBC Brasil)
Foto: Reprodução BBC Brasil / Arquivo Pessoal

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"A fidelidade e a verdade encontraram-se,a justiça e a paz se beijaram.
A verdade brotará da terra, e a justiça se inclinará lá dos céus" (Sl. 85. 11, 12)

Nós Bispos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, manifestamos nossa indignação diante da arbitrariedade cometida na prisão do Professor Jaider Batista da Silva, acusado, sem provas, por corrupção e mantido incomunicável; a ele, membro em plena comunhão da nossa igreja, e a sua família, nosso total apoio.

Durante a operação de investigação levada adiante pela Polícia Federal, em Governador Valadares, nosso irmão Jaider tem contribuído fornecendo documentos e comparecendo às audiências, prestando todas as informações que comprovam sua inocência e sempre cooperando para a elucidação dos fatos.

No entanto, Jaider está sendo vítima de uma delação premiada realizada por um réu confesso que, no intuito de beneficiar-se, envolveu o seu nome, mesmo sem haver qualquer indício de sua participação nos fatos.

Sua prisão, no último dia 10 de agosto, fere todos os princípios éticos e morais, tendo em vista sua cooperação com as investigações e a presunção de inocência de um cidadão que sempre esteve comprometido com a vida, com a justiça, com na luta pelos direitos humanos, atendendo e solidarizando-se com as pessoas excluídas e empobrecidas, e também com a causa das crianças e adolescentes, além da luta solidária junto aos povos indígenas. Assim, em sua caminhada, sempre demonstrou ética e transparência em suas ações.

Como cristãos, somos veementemente contra todas as formas de corrupção e entendemos que o que está acontecendo com Jaider Batista não passa de uma ação insana e totalmente descabida. Preocupa-nos sobremaneira, que as ações de combate a corrupção sejam usadas para o abuso do poder policial e judicial, em especial contra pessoas que defendem os direitos humanos, a justiça, a paz e igualdade, dando a estas medidas um caráter repressivo e ideológico que não corresponde ao convívio social e político dentro de um ordenamento democrático. É inadmissível que os recursos e políticas públicas sejam utilizados para atender e beneficiar uma classe e alguns setores políticos e seus representantes, que lucram, e sempre lucraram, com a miséria de um povo sofrido.

Portanto, exigimos a soltura imediata de Jaider Batista, que a justiça seja feita e que os verdadeiros responsáveis sejam identificados e punidos.

Revmo. Francisco de Assis da Silva – Bispo Primaz e Bispo da Diocese Sul Ocidental;

Revmo. Naudal Alves Gomes – Bispo da Diocese Anglicana do Paraná;

Revmo. Filadelfo Oliveira Neto – Bispo da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro;

Revmo. Maurício José Araújo de Andrade – Bispo da Diocese Anglicana de Brasília;

Revmo. Renato da Cruz Raatz – Bispo da Diocese Anglicana de Pelotas;

Revmo. Saulo Maurício de Barros – Bispo da Diocese da Amazônia;

Revmo. Humberto Maiztegui Gonçalves – Bispo da Diocese Meridional

Revmo. Revmo. Flavio Augusto Borges Irala – Bispo da Diocese Anglicana de São Paulo;

Revmo. João Câncio Peixoto Filho – Bispo da Dicoese Anglicana do Recife;

Revmo. Clóvis Erly Rodrigues – Emérito;

Revmo. Almir dos Santos– Emérito

Revmo. Juba Pereira Neves– Emérito

Revmo. Orlando Santos de Oliveira – Emérito

Revmo. Sebastião Armando Gameleira Soares – Emérito

Revmo. Celso Franco de Oliveira – Emérito

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A FLD está recebendo projetos a partir dos editais do seu Programa de Pequenos Projetos. São seis ao todo: dois, na área de Justiça Econômica; dois, na área de Justiça Socioambiental; um, na área de Diaconia; e um, na área de Direitos.

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O prazo final para encaminhamento dos projetos é 23 de setembro de 2016, às 23h59min (horário de Brasília).

Os projetos devem ser elaborados e enviados através do formulário eletrônico disponível no site da FLD, no endereço www.fld.com.br/projetos/requerente, observando-se as condições e critérios específicos de cada um.

Nenhum edital irá considerar projetos oriundos de pessoas físicas, de instituições privadas, de órgãos públicos e de universidades.

Clique aqui e veja outras informações referentes aos editais.

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Foi realizada, nos dias 15, 16 e 17 de agosto, em Brasília (DF), na sede nacional da Cáritas Brasileira, a reunião de coordenação do Fórum Ecumênico ACT (Brasil). Entre os objetivos estava refletir o contexto brasileiro, avaliar as ações realizadas ao longo de 2015, traçar estratégias e definir prioridades para a atuação do movimento ecumênico para o restante do ano (2016) e, também, para o seguinte, 2017.

O encontro contou com a participação da maioria das organizações que integram o Fórum Ecumênico ACT Brasil: Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), Fundação Luterana de Diaconia (FLD), Rede Ecumênica da Juventude (REJU), KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), Conselho Mundial de Igrejas (CMI), ACT Alliance, Chrisitan AID, Processo de Articulação e Diálogo (PAD), Instituto Universidade Popular (Unipop); Aliança de Batistas do Brasil, Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), Programa de Formação e Educação Comunitária (PROFEC), Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP), Comissão de Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso da CNBB, Igreja Metodista, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, Visão Mundial, Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos (ASTE). Para o painel de abertura, outras organizações também estavam representadas, como a comunidade Bahá’í do Brasil, o Centro Cultural Brasil Turquia (CCBT), o Templo Budista Terra Pura de Brasília, a organização Conectas, a agência HEKS, o Centro Cultural de Brasília, além da anfitriã, Cáritas.

A reunião anual do Fórum Ecumênico ACT Brasil, inciou na segunda-feira, dia 15 de agosto, com a apresentação dos trabalhos de formação realizados pelo Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento (SADD), junto às suas comunidades sobre o tema gênero, sexualidades e direito. O trabalho apresentado por Sandra Andrade, coordenadora do SADD.

Na manhã do dia 16 de agosto, foi realizado o painel Religião e Democracia - Dilemas atuais sobre fé e poder. O painel fez parte do lançamento, junto às organizações do Fórum Ecumênico ACT Brasil, da Campanha Mais Direitos Mais Democracia - maisdireitosmaisdemocracia.org.br.

O tema do painel foi abordado por Zwinglio Mota Dias, reverendo emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Ronilso Pacheco, teólogo e agente social do Viva Rio e Luana Basílio da Plataforma Dhesca.

Professor Zwinglio dedicou sua apresentação em memória à pastora da IECLB Rosa Marga Rothe, ativista pelos direitos humanos, que faleceu este ano. Em relação aos dilemas entre fé e poder, Zwinglio iniciou destacando que:

1) Nossa civilização montou um desafio mentiroso e, assim como vamos, não é possível satisfazer esse sentido de esbanjamento que se deu à vida. Isso se massifica como uma cultura de nossa época, sempre dirigida pela acumulação e pelo mercado. Prometemos uma vida de esbanjamento, e, no fundo, constitui uma conta regressiva contra a natureza, contra a humanidade no futuro. Civilização contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais .Ou pior: civilização contra a liberdade que supõe ter tempo para viver as relações humanas, as únicas que transcendem: o amor, a amizade, aventura, solidariedade, família.” (José ‘Pepe’ Mujica)

2) “O que vemos hoje não são guerras de religião ou de civilização. Estamos diante de algo da ordem do assassinato e estes assassinatos têm relação estreita com as paixões niilistas de uma era que esqueceu justamente os grandes valores do humanismo, valores estes que não são específicos do Ocidente, mas sim compartilhados por muitas culturas e civilizações.” (Roland Gori)

3) Ecumenismo... “é mediar trabalho em unidade e na promoção de diálogos entre as religiões. Em um esforço conjunto para além da tolerância, sem proselitismos, mas na proposta de fraternidade, que una forças para denunciar as desigualdades sociais, a discriminação, a exclusão, o sexismo, o machismo, a homofobia ou quaisquer outros tipos de violências que possam impedir o abraço, o afeto, a ternura em favor da humanidade.” (Valeria Cristina Vilhena)

Em relação ao momento atual, Zwinglio destacou que mais do que em outros períodos, nunca foi tão grande a busca pelo sentido da vida. A situação atual é dominada por uma racionalidade que não consegue satisfazer as carências humanas. Somos desenraizados e sós! Zwinglio recupera Rolin Gore que afirma que “Fomos tão longe no desencantamento do mundo e na dessacralização do universo, que enfrentamos a nudez de uma razão puramente instrumental. O terrorismo também é parte dessa racionalidade. Pertence à mesma civilização. Essa perda de sentido, de existência do mundo alimenta a guerra de todos contra todos e promove o surgimento de uma revolução conversadora.

Perdemos a razão de ter esperança... Temos de dar um basta ao neoliberalismo, que aumenta as desigualdades sociais.O terrorismo também é parte dessa racionalidade. Pertence à mesma civilização, Essa perda de sentido, de existência do mundo alimenta a guerra de todos contra todos e promove o surgimento de uma revolução conversadora.

Perdemos a razão de ter esperança... Temos de dar um basta ao neoliberalismo, que aumenta as desigualdades sociais.

Em relação ao atual momento político brasileiro, Zwinglio afirmou que o golpe político, midiático religioso, com apoio de um grupo dito evangélico, faz parte de nova forma de intervenção do neoliberalismo. O Brasil volta a ser submetido aos interesses do capital do internacional. “Saem do armário” os grupos de direita, retorna a velha ideia de impérios dominantes (EUA e Estados europeus).

Por fim, ofereceu pistas para um novo olhar para a presença religiosa na sociedade destacando que:

"Nossas teologias e percepções religiosas sufocam e impedem as manifestações mais sublimes de fé. O conceito bíblico de fé não tem a ver com “acreditar em”, mas significa confiança e esperança. É preciso esquecer os nomes de Deus e as religiões inventadas para encontrar Deus na vida. Há que se recuperar a graça e a beleza da vida, para além dos compêndios dogmáticos, e nos abrir para leituras mais metafóricas de nossa experiência.

- Busca pela justiça é o desafio primeiro em todas as nossas ações.

- Buscar o diálogo com todas as outras manifestações religiosas = hospitalidade: oferecer ao hóspede o quarto mais arejado e luminoso (Martha Luchese).

- Acolher o/a diferente com admiração e respeito, pois nele/a se reflete o inefável da vida.

- Assumir os mitos fundamentes de nossas culturas.

- Cuidar da terra como lar comum de toda a humanidade.

- Sermos compassivos/as e amorosos/as e cheios/as de misericórdia no trato das questões que nos dividem.

Em seguida, a representante da Plataforma DHESCA apresentou parte dos resultados do relatório sobre o Estado Laico realizado pela Plataforma. Luana iniciou explicando porque é que sentiu-se a necessidade de realizar uma relatoria específica sobre o estado laico no Brasil. Lembrou que por ocasião do relatório sobre Saúde e da Educação foi identificado que havia interferência de religiões nas políticas públicas na área da saúde. Muitos profissionais de saúde negavam-se a realizar determinados procedimentos na saúde com o argumento de objeção de consciência. Se o procedimento necessário não estivesse de acordo com os valores religiosos do profissional de saúde ele simplesmente negava-se a realizar. Em 2015 o Rio aprovou a chamada “Lei de objeção de consciência”: permite aos servidores a negar atendimento por liberdade de crença Aprovada em maio de 2015. Luana citou alguns casos concretos de desrespeito à laicidade do Estado:

1) Uma transexual que no posto de saúde não era chamada pelo nome social e durante o exame foi obrigada a escutar músicas gospel.

2) Um filho de santo vestido com sua roupa religiosa e com guias, embora estivesse sangrando não foi atendido, o profissional de saúde negou-se a tocar no paciente.

3) Prática da benção dos fuzis - para que os traficantes expulsem as mães de santo das comunidades.

4) Pessoas muçulmanas entregaram um dossiê com 300 denúncias de violação de direitos.

5) Uma criança de cinco anos da rede pública - cujos pais são ateus - expressaram sua insatisfação com o fato da criança ser obrigada a fazer oração ou cantar músicas religiosas todos os dias na escola. Quando a escola foi notificada de que não poderiam obrigar a participação da criança neste momento devocional, a criança precisou ser escoltada. Esta criança passou a ser perseguida e precisou trocar de escola.

6) Em Brasília, a parlamentar Sandra Paraji, vem perseguindo professores/as que tratam do assunto LGBT, por exemplo. Nesta mesma cidade, sem anuência dos pais, alunos eram levados para manifestação em prol do projeto “Escola sem partido”.

Luana destacou que a ruptura do estado laico é expressão do racismo e machismo.
Casos (Rio de janeiro):

Lembra que nas câmaras municipais e no congresso nacional, as pautas relacionadas a gênero e racismo têm sido atropeladas. Destacou que há uma profunda violência institucionalizada que está sendo legalmente constituída.

Ronilso Pacheco lembrou que nossa trajetória histórica é violenta. Basta lembrar os períodos de escravidão e de ditadura civil-militar. Enquanto a escravidão é pensada como um grande bloco (mesmo envolvendo a tortura diária de cada homem e mulher negra), a ditadura nos remete a violências mais pessoais. O racismo é um dos legados da violência histórica. A ditadura está presente nas práticas do aparato policial de hoje.

A resposta de Jesus - perdoar 70 X 7 vezes lembra Lamec, que seria vingado 70 vezes. Uma proposta de vingança é contraposta por Jesus com o perdão como forma de quebrar do ciclo de violência.

O perdão, no entanto, está esvaziado de sentido. O perdão precisa ser entendido como capacidade de: a) não repetição da violência; b) reconhecimento da violência; c) enfrentamento da violência.

Ronilso apresentou três desafios:

1. Como é possível esvaziar do poder essa dimensão da fé exclusivista? É possível movimento ecumênico inter-religioso “iconoclasta” que sacralizasse a justiça dignidade e cidadania, toda vez que o poder for o grande ídolo?

2. Como quebrar a força da violência impregnada no poder, frear a atmosfera da violência.

3. Como superar o discurso da tolerância para uma construção comum e igual. Superar a ideia da tolerância como objetivo.

O fruto da justiça será a paz, a obra da justiça consiste na tranquilidade (Jr). A justiça é o amor tornado política pública!

Outro momento de grande importância na reunião do FEACT - Brasil foi a participação do representante para América Latina e Caribe de Act Aliiance, senhor Carlos Rauda. Carlos apresentou a política de emergência e incidência de ACT Alliance e seus desafios para a região. A afirmação da democracia e a luta contra o extermínio de populações indígenas permeou a conversa com Carlos Rauda.

No último dia de reunião, dia 17 de agosto, foram estabelecidos critérios para novas organizações integrarem o Fórum. A Visão Mundial foi acolhida formalmente para integrar o Fórum. Além disto, foram escolhidas as linhas prioritárias de ação de FEACT para o período de agosto de 2016 a agosto de 2017, sendo:

1- Fortalecer a Identidade Ecumênica

– (Re) Encantamento com a causa ecumênica (para dentro e para fora das igrejas);
– Agenda Comum.

3- Incidência por direitos e democracia

– Migração;
– Diversidade religiosa;
– Povos tradicionais;
– Gênero;
– Juventudes com prioridade para REJU.

3- Comunicação

– Formação interna;
– Democratização dos meios de comunicação;
– Criação da Rede de Comunicadores/as das Organizações do FEACT;
– Aproveitar a realização do encontro do CESEEP para animar novas redes de comunicação;
– Fortalecer a Plataforma de Ação e Diálogo como canal de comunicação com as Agências Financiadoras.

Na opinião da secretária-geral do CONIC, Romi Bencke, esse encontro foi importante pela presença expressiva das Igrejas. “Participaram oficialmente da reunião as igrejas Metodista, Episcopal Anglicana do Brasil, Presbiteriana Unida do Brasil, Católica Romana, Aliança de Batistas. Outro destaque foram as presenças de ACT Alliance, da Plataforma de Ação e Diálogo e da Christian Aid. Muito positiva foi a acolhida da Visão Mundial para fazer parte do Fórum e a possibilidade de acolhermos novas organizações”, afirmou.

Foto: Tatiane Duarte

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ivone gebara

"Há algo muito forte que tem a ver com a política de nossas emoções, com nossos afetos cotidianos que se misturam às muitas decisões também políticas que tomamos. Não se pode obrigar alguém a amar o que rejeitou e, não se pode fazer de conta que se ama quando de fato não se ama", escreve Ivone Gebara, filósofa, religiosa e teóloga.

Eis o artigo.

O cristianismo nos educou que há que “amar a Deus sobre todas as coisas”. Este é o primeiro mandamento da “lei de Deus”, mandamento que entrou de cheio em nossa cultura e se mostra nas muitas afirmações populares como: ‘primeiro Deus’, ‘abaixo de Deus’, ‘se Deus quiser’, ‘com a permissão de Deus’, ‘que Deus te abençoe’, ‘graças a Deus’ e muitas outras no gênero. Não podemos apreender exatamente todas as nuances dessa palavra no uso ordinário e coloquial que fazemos dela. O mais comum é que ela indique que estamos vivendo sob o impulso ou o poder de “algo maior” do qual nossa vida depende. Entretanto, essa palavra embora seja aparentemente ‘maior’ do que nossa vida e as nossas circunstâncias históricas parece condicionada a decisões individuais e a políticas das mais diferentes procedências. Por isso, no atribulado contexto político e social em que vivemos hoje a palavra DEUS está em quase todas as bocas e em cada boca com um significado e um interesse diferente.

Afirmo algo bastante conhecido e que pode ser observado no cotidiano das pessoas assim como nos meios de comunicação os mais variados. Estes manifestam o quanto, muitos políticos usam a ‘palavra mágica Deus’ para legitimarem sua voz, seu voto e suas iniciativas. Nesse mesmo contexto, entretanto, muitos têm também tomado a defesa de Deus afirmando que sua Majestade foi desrespeitada por políticos exploradores do povo e manipuladores da religião. Defendem a Deus como a si mesmos... Dizem que os manipuladores usam DEUS a seu favor e não temem tomar seu nome em vão para justificar suas decisões despejando sobre o povo uma verborréia pretensamente moral e legitimada por seu DEUS. Este então lhes daria a autoridade e legitimidade que não têm.

O que gostaria de sublinhar nessa breve reflexão é que o uso da palavra Deus é impróprio num e noutro caso, sobretudo no contexto em que vivemos. Acusação e defesa de certa forma usam a mesma lógica de possessão da autoridade de DEUS para falar em seu nome como se o conceito Deus fosse claro e seu significado unívoco. Basta observarmos como alguns prepararam discursos sobre DEUS para dizer o quanto ele estaria sendo ofendido com o mau uso que fizeram e fazem dele. Afinal usar DEUS para apoiar golpes,mentiras políticas e a exploração de muitos tipos dizem ser inaceitável! Com esse discurso querem fazer crer que DEUS estaria do lado deles, apoiando suas posições e escolhas, o que equivaleria a dizer que Deus como eles é mais de esquerda do que de direita. Por isso fazem cartas de desagravo, de defesa de DEUS revelando a partir delas sua postura política considerada a mais correta, a mais conforme ao bem comum ou o bem do povo. Não discuto aqui a qualidade das propostas ou dos planos de governo propostos. Discuto o funcionamento do pensamento, sua articulação lógica nos argumentos apresentados.

Nessa perspectiva, alguns até exigem uma posição clara das autoridades religiosas como se essas fossem obrigadas a tomar de forma manifesta partido de DEUS, segundo os ditames da esquerda ou da direita política nas muitas variações de cada uma dessas tendências. De fato essa expectativa poderia talvez favorecer um ou outro lado da política, mas seria uma vez mais buscar legitimidade nas posturas religiosas para o enfrentamento político, sobretudo que em algumas questões esses defensores de Deus afirmam a laicidade do Estado. Como falar com propriedade de Estado laico? Quando Deus aparece com uma multiplicidade de máscaras, sobretudo como alter-ego, cobertor, corruptor, corrompido ou justo, libertador e libertário a laicidade do Estado precisa ser mais bem refletida! Que Deus é esse? Quem é Deus? Onde está Deus? E mais, qual é o modelo de Estado que Deus aprovaria?

Creio que nesse panorama político e teológico confuso e complexo uma pergunta não quer calar em nós: por que o uso da palavra DEUS está hoje tão frequente, sobretudo, na política? Por que essa palavra é recuperada pelos grupos políticos de direita, de centro e de esquerda, cada um invocando-o para sua causa e seu lado. Nessa invocação quase sempre consideram a invocação do outro uma mentira ou uma injúria à Altíssima e Puríssima Santidade de seu Deus?

Em nome de Deus gritam alguns: Que viva a Pátria com e para Deus! E outros exclamam: Salvem Deus das garras da direita! Nós somos do lado do Deus dos pobres e vocês do Deus dos latifundiários! Não, respondem os primeiros... Seu Deus é o Demo... E a confusão na política, na religião e na sociedade se faz presente cada um reclamando para si “um pedaço” de Deus! Assim os diferentes grupos expressam a batalha por DEUS nos campos minados da política nacional e internacional. Esse uso excessivo da palavra Deus não estaria escondendo uma fraqueza das autoridades e uma fraqueza dos diferentes grupos frente às suas crenças políticas? É como se buscassem ‘alguém’ cuja autoridade fosse indiscutível e também fosse imediatamente desconhecida, uma autoridade mais ou menos imaginária que servisse de suporte a um sem número de afirmações que não resistem a um olhar atento sobre os fatos e as pessoas. Que saídas encontrar nesse labirinto escuro?

E se não usássemos a palavra DEUS? Se a deixássemos descansar para recuperar sua força e vitalidade? Se apagássemos ou colocássemos entre parêntesis, ao menos provisoriamente essa palavra dos dicionários e da linguagem cotidiana, sobretudo da política partidária? E, se não achássemos mais que as igrejas e suas autoridades públicas tivessem o privilégio maior e a verdade mais profunda em relação ao “conhecimento de Deus”? E se tentássemos entender o que uns e outros querem dizer quando empregam essa escorregadia palavra? Sim escorregadia palavra porque portadora de escorregadios significados. Escorregadia visto que parece ter um só significado, mas é multidão. Multidão de significados para os que a utilizam e para os que calam sobre ela. Escorregadia porque nos conduz a um terreno movediço que nos faz cair em contradições contínuas frente a frágil realidade que somos e que vivemos.

E, mais uma vez, se parássemos de usar a palavra DEUS e tentássemos explicitar no lugar dela o que estamos pedindo, o que estamos esperando de nós mesmos, o que estamos desejando para o mundo que nos rodeia. Permitamos a Deus o descanso do sétimo dia... Deixemo-lo descansar dos conflitos em que não só buscamos sua ajuda, mas o usamos como cúmplice imaginário para nossos nefastos ou gloriosos planos. Deixemos que descanse e tentemos reconfigurar nosso mundo nesse acender e apagar de vidas, nessa sucessão de momentos diversos de nossa história. Assumamos o compromisso com nossa própria palavra e nossa responsabilidade para hoje.

Nessa linha, tentar dizer coisas realizáveis para sair dos verbos, substantivos e adjetivos abstratos como, por exemplo, “é preciso amar”, “fazer justiça”, “ser irmão”... Todo esse linguajar genérico não opera nenhuma mudança efetiva. Está minado de joio, de cizânia, de interesses egoístas, de enganos, manipulações... Cria ilusões e desejos impossíveis. Cria falsas expectativas e nos enreda cada vez mais em nós mesmos e em nossas dissimulações...

Quando todo o corpo dói machucado por uma queda violenta é preciso prestar atenção para ver por onde segurá-lo para melhor erguê-lo sem danificá-lo ainda mais. E no levantar, todos podem ajudar de diferentes maneiras se de fato estiverem interessados em levantar o corpo caído, em saná-lo e não apenas se mostrar uns aos outros quando e como o estão levantado. Da mesma forma se quiserem ajudar poderão fazê-lo a condição de não ficarem todo o tempo acusando uns e outros de terem empurrado o corpo ao chão ou de lhe terem negado sustento. Enfrentar-se ao corpo ferido é buscar as saídas imediatas para mantê-lo vivo e depois pouco a pouco curar as partes mais atingidas dele, aquelas sem as quais o corpo não se sustentaria. Mas, é claro que a analogia de um corpo quebrado, ferido e jogado no chão não é a mais adequada para falarmos do complexo corpo social muito embora possa ajudar-nos a partir dela e ir mais além dela. Diante da desumanidade crescente em nosso meio o uso da palavra DEUS tornada cúmplice dessa desumanidade, nos convida uma vez mais a silenciá-la e a falar em nosso nome e a denunciar os abusos de poder que nos rodeiam em nosso nome. Falar em nosso nome é também denunciar as tramas e as corrupções cotidianas de outros nomes contemporâneos correndo até o risco da perseguição.

Há algo muito forte que tem a ver com a política de nossas emoções, com nossos afetos cotidianos que se misturam às muitas decisões também políticas que tomamos. Não se pode obrigar alguém a amar o que rejeitou e, não se pode fazer de conta que se ama quando de fato não se ama. Fazer figura de defensores dos pobres, seguidores do Evangelho para que sejam reconhecidos como bons e justos não cria novas relações. Da mesma forma, amar por constrangimento político ou religioso, amar porque os “amigos” me obrigam a fazê-lo não se sustenta. Entra-se no jogo das máscaras teatrais e pode-se cair em qualquer tropeço... E o dano social pode ser ainda maior. Quem de fato tem ouvidos para ouvir ouve. Quem tem olhos para ver, vê. Quem acolhe alertas, muda. Quem tem dúvidas pode se informar e se abrir aos desafios da história presente.

As pressões feitas para se amar para além das decisões interiores, para além do amor que nasce das entranhas não sustenta nenhuma política em favor do bem comum. Nesse sentido é trabalho quase inútil tornar Deus um político de uma cor determinada ou uma tendência social por pressão... Nada se sustenta sem a integridade dos corações, sem as convicções que nutrem a história de uma vida. Por isso de nada adianta pressionar bispos para que reajam diante do momento nacional ou para que sejam capazes de ouvir os gritos das mulheres em busca de dignidade e respeito. A velha tradição cristã falava de ‘conversão do coração’ e esta parece estar ainda distante para muitos. Nesse particular, os políticos estão agora preocupados com a pressão social contra o estupro de mulheres. Estão transformando o estupro coletivo de uma jovem de 16 anos no Rio de Janeiro em questão de honra política. Movem-se exigindo justiça, fazendo leis que castigam duramente os estupradores. Horrorizados invocam seu Deus diante do acontecido embora saibamos bem que o estupro é também ‘pecado conhecido’ na vida de civis, militares e religiosos de longa data. Mostram-se espantados como se esse horror não fosse também obra de seus corpos e de suas mentes condescendentes com a identidade machista naturalizada que herdaram. Perdoam-se mutuamente e de aparência contrita lamentam os erros dos seus pares prometendo agir contra esse ‘desvio social e comportamental’.

Os estupros coletivos de mulheres não são apenas de nosso tempo. Quantas guerras foram feitas às mulheres nas muitas batalhas do mundo! Hoje estarrecidas/os imaginávamos que tal prática comum em muitas situações já não existia no meio de nós. Voltamos à barbárie, à conquista da ‘frágil inimiga’ pelo prazer de vê-la ensanguentada, derrubada ao solo pela força bruta exaltada. Tomadas/os de indignação temos que reconhecer a complexidade do que presenciamos. Que prazer coletivo se sente depois de ter destroçado uma vida? Que gargalhadas e risos sarcásticos povoam as faces de jovens homens depois desse feito ignominioso? Seria o mesmo que matar um touro numa tourada, ou ver muitos galos feridos numa rinha organizada como espetáculo e competição? E depois do touro morto ou do galo ferido se vai agradecer a Deus ou à Virgem que guiou nossa espada e louvar o apoio de nossa torcida vencedora. E como a loucura coletiva do estupro e da matança dos galos ou touros as gargalhadas insanas dos que gozaram excitados pelo sangue e pelos corpos feridos ecoam como ovações por um troféu conquistado. Sem dúvida alguns agradeceram a DEUS pela deliciosa brincadeira e pela vitória... Afinal apenas feriram uma mulher, ser inferior, sujo de sangue... Nada mais do que isso... Uma mulher! Feriu-se também uma ave ou um animal de porte como um touro... Todos esses seres na realidade devem se colocar a nosso serviço e lazer! Uma rodada de cerveja é bem-vinda nesse momento de supremo deleite!

Mais uma vez não precisamos da palavra DEUS para denunciar esse horror e não precisamos que aqueles que se afirmam publicamente como representantes de Deus o façam publicamente. Na realidade eles apenas representam a si mesmos... Não exigimos que o façam porque não o fazem de coração contrito. E se não é assim não observarão os acordos, não viverão o que mostram acreditar. De nada servirão as penalidades maiores ou menores se o coração não for educado para o respeito do próximo, do meu outro eu. Nós, convictas/os dos valores que defendemos, queremos fazer valer o direito e a justiça entre nós... Como? Talvez começando tudo de novo na continuação daquilo que é... Nós nos recolheremos para estudar e nos treinar em uma ‘arca’ semelhante aquela de Noé... Abriremos nosso coração uns para os outros... Nós nos despiremos das roupas guardadas cheirando mofo... Descobriremos que já não se ajustam aos nossos corpos prenhes de novidade... Enterraremos as armas e os canhões assim como os excessos de ouro e prata... Faremos poemas olhando o mar e o céu estrelado... Então poderemos sair da arca e ir as praças cantar e fazer muita música... Já fizemos isso antes. Lembram-se? E a música e a dança serão tantas que contagiarão outros corpos que virão dançar também...

Vivemos em coletividade habitadas/os por nossas crenças e valores como frutos de um mesmo universo criador, ou melhor, de um ‘pluriverso’ multifacetário. Existimos diversos, uns aos olhos dos outros mesmo se o mais forte em nós for nossa individualidade. Mas, cremos que somos um a outra e a outra o outro, interdependentes... Caímos, erramos... E, renascemos uma no outro... Mesmo velhos ainda dá para nascer de novo e ir à praça pública... Mas, melhor seria sem usar a palavra Deus embora intuamos a nossa humanidade divina... Podemos entrar na música que de muitos lados nos convida a uma ciranda comum cantando “gracias a la vida” e acreditando na possibilidade de recomeçar, de fazer nascer músculos e carnes nos nossos ossos ressequidos como dizia o profeta Ezequiel...

Fonte: ihu.unisinos.br

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Eleições municipais - 2016
CARTA PASTORAL

Buscai o bem e não o mal, para que vivais.
Amós 5.14

Firmino desabafa: – O que está havendo com a nossa classe política? Haverá ao menos um político que não aceite propina? Com facilidade reajustam seus próprios salários e justificam isso sem envergonhar-se! Quantos estão nessa tal de Lava-jato! Pô, assim não dá! CADÊ A ÉTICA NA POLÍTICA?

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O mesmo Firmino e sua esposa haviam contratado uma doméstica. Anos mais tarde, quando Maria requereu a aposentadoria, soube no INSS que Firmino não recolhera a contribuição dela à Previdência, como ele tinha prometido. – PÔ, FIRMINO, CADÊ A SUA ÉTICA?

Sete séculos antes de Jesus, o profeta Amós clamou aos seus conterrâneos: BUSCAI O BEM E NÃO O MAL (Amós 5.14a). Amós clamou em nome de Deus para dizer à sua gente: Vocês se esqueceram de viver responsavelmente. Em lugar do bem, pratica-se mal. No comércio, os lucros são ilícitos e os pobres são explorados. A imoralidade, o luxo e o acúmulo de tesouros ofendem quem passa fome. A religiosidade é hipócrita. Não há sensibilidade das autoridades diante de quem sofre. Os humildes são tratados com injustiça nos tribunais e as pessoas inocentes são condenadas. (Amós cap. 2-5)

Amós, o profeta, argumentou que a prática do mal levaria a sociedade da sua época à ruína. Se as pessoas não atuassem em favor do bem comum, mais cedo ou mais tarde a sociedade estaria fadada à ruína. Resumindo, AMÓS CLAMOU EM FAVOR DA ÉTICA.

Estamos às vésperas de eleições municipais em nosso país. A Presidência da IECLB entende que é oportuno e necessário refletir sobre ÉTICA NA POLÍTICA! Vamos aproveitar o período de campanha para refletir e conversar sobre esse assunto. Mais que isso, vamos nos empenhar para que candidatos, candidatas, eleitores e eleitoras façam desta eleição municipal um MUTIRÃO EM FAVOR DA ÉTICA NA POLÍTICA!

ÉTICA É A CAPACIDADE DE DISCERNIR ENTRE O BEM E O MAL, entre o correto e o incorreto, entre o que é responsável e apropriado para o comportamento humano em suas relações sociais e pessoais. Ser pela ética é escolher o bem e não o mal. Parece fácil, mas a realidade revela que não é tão fácil assim. O certo é que a vida no planeta não é viável sem a ética – desde tempos imemoráveis!

A partir da sua origem, a palavra política pode ser assim traduzida: POLÍTICA É TUDO AQUILO QUE SE FAZ OU SE DEIXA DE FAZER DE MODO QUE A VIDA BOA PARA UMA SOCIEDADE SEJA VIÁVEL. De fato, a vida na terra depende decisivamente da política. Também é pela política que a vida fica ameaçada. A nossa vida em sociedade – nos rincões e nas capitais – tem a chance de ser melhor ou ficará pior, dependendo do que se faz na política. Portanto, ELEIÇÕES MUNICIPAIS TÊM TUDO A VER COM A BOA POLÍTICA.

Com regularidade, a Presidência da IECLB manifestou-se em períodos de eleições. Muitas dessas manifestações continuam atuais, das quais destacamos alguns extratos.

• Na Carta Pastoral da IECLB - Eleições 2001, lê-se: A Comunidade Evangélica de Confissão Luterana, integrada na sociedade municipal, está consciente de sua CIDADANIA. A partir do Batismo, somos filhas e filhos de Deus e fazemos parte de sua grande família. O Pai celeste, por sua graça, nos concede o pão de cada dia.

Lutero interpretou magistralmente o que significa esse pão de cada dia: Tudo que se refere ao sustento e às necessidades da vida, como, por exemplo: comida, bebida, roupa, calçado, casa, lar, meio de vida, dinheiro e bens, marido e esposa íntegros, filhos íntegros, empregados íntegros, patrões íntegros e fiéis, BOM GOVERNO, bom tempo, paz, saúde, disciplina, honra, amigos leais, bons vizinhos e coisas semelhantes.

Esse pão não cai pronto do céu, mas passa pelas mãos humanas que o devem produzir e REPARTIR DE MANEIRA FRATERNA. Cabe também ao governo municipal a responsabilidade de oportunizar e promover os ingredientes desse pão de cada dia, ou seja, educação, saúde, emprego, lazer, moradia, segurança no lar, nas ruas e no trabalho. Para executar essa tarefa, o povo lhe confiou os PODERES.

• Na Carta Pastoral da IECLB - Eleições 2004, lê-se: Pelo amor, as pessoas cristãs são SERVIDORAS umas das outras (Gálatas 5.13) e esse servir inclui a política. Assim, às vésperas de novas eleições municipais, reafirmamos a nossa responsabilidade, como Igreja de Jesus Cristo, nos assuntos políticos e sociais de nossa pátria.
Há critérios e perguntas que nos ajudam na hora de definir nosso voto:
- Como está o lugar onde moramos?
- Será que estamos no bom caminho?
- A cidade está arborizada?
- Nossas ruas, rios e córregos estão limpos?
- É possível circular de bicicleta sem risco de perder a vida?
- Em cadeira de rodas?
- Todas as crianças e os jovens estão na escola?
- As pessoas recebem prontamente o adequado atendimento à saúde?
- Todos os adultos têm trabalho e ocupação dignos?
- As leis e os projetos públicos estão na direção certa?
- A política é transparente?
- A população pode participar nos processos de decisão e nos programas, ou é mero objeto?

• Na Carta Pastoral da IECLB - Eleições 2006, lê-se: DIANTE DE UMA ELEIÇÃO, VOTE! Não anule o seu voto! Valorize sua opinião e convide outras pessoas a fazerem o mesmo.
- Lembre-se: nem todos os políticos são iguais. Examine bem e busque os melhores e mais confiáveis!
- Confira quem financia o seu candidato ou a sua candidata. Você acha que ele ou ela vai trabalhar em favor da sociedade ou de quem deu o financiamento?
- Política não pode ser desenvolvimento de projetos pessoais ou de grupos privilegiados. Procure dar seu voto a quem busca o bem geral do povo, em particular as pessoas de maior necessidade.
- Busque conhecer o projeto do seu candidato ou de sua candidata e também de seu partido. Pergunte-se: é apenas discurso ou realmente compromisso?
- Não esqueça: o exercício do voto consciente também faz parte do amor ao próximo.

• Na Carta Pastoral da IECLB - Eleições 2008, lê-se: Cabe avaliar quem se apresenta para a função pública.
- Quem é esse candidato e essa candidata?
- Em que ocupação ou cargo já atuaram?
- Como se saíram?
- Como lidam com as pessoas e com qualquer patrimônio que lhes é confiado?
- AS PROMESSAS QUE FAZEM, SÃO REALIZÁVEIS?
- Irão beneficiar a quem?
- Que visão os candidatos têm do seu município?
- Suas propostas levam em conta a diversidade característica do seu lugar?
- Os projetos que apresentam favorecem a população como um todo, ou apenas a alguns grupos?
- O que pensam acerca de segurança pública, saneamento e moradia?
- Que projetos têm para melhorar as áreas mais pobres do município?

• Na Carta Pastoral da IECLB - Eleições 2010, lê-se: Há princípios básicos que norteiam a pessoa cristã em seu DISCERNIMENTO ÉTICO e também na avaliação das propostas políticas em debate na nação. Repudiamos como incompatível com a fé cristã todas as tentativas de '“sacralizar” o embate político, sobretudo qualquer tentativa de “satanizar” ou “demonizar” pessoas ou forças políticas adversárias. Quem o faz deve se perguntar e ser questionado se não está sendo ele próprio instrumento da injustiça e do mal. Já há quase cinco séculos, o Reformador Lutero repudiou completamente o conceito de “guerra santa” como falsificação da Palavra de Deus. Devemos resistir à tentação de reintroduzi-lo em nossas consciências e na vida política.

• Na Carta Pastoral da IECLB - Eleições 2014, lê-se: Em nosso país, cresce a confusão entre Igreja e Estado. Essa confusão aumenta em tempos de eleições. A IECLB - IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL FAZ PARTE DA TRADIÇÃO PROTESTANTE QUE SE EMPENHA PELA SEPARAÇÃO DE RELIGIÃO E ESTADO. Preconiza a defesa do Estado laico. A IECLB incentiva sempre a participação em partidos políticos como canais institucionais que expressam valores e ideologias presentes na sociedade brasileira. Condena vícios nefastos presentes na cultura política brasileira. Dentre eles, destaca-se o clientelismo, o coronelismo e a defesa de interesses meramente corporativos e pessoais, por isso, para a IECLB, o assédio às pessoas identificadas com a fé evangélica por parte de candidatos, candidatas e a tentativa de transformá-las em um curral eleitoral representam um grande desserviço à democracia.

Exercitemos, pois, a cidadania que brota da fé! Participemos da vida política como resposta à vocação de Deus! Oremos a Deus para que a civilidade, a paz, a justiça, a harmonia, a liberdade e a democracia se tornem realidade pelos vínculos baseados no respeito, no diálogo, na gratidão, na partilha e na diaconia!

________________________________

Diante das eleições municipais em 2016, a Presidência da IECLB reafirma a histórica contribuição desta Igreja pela POLÍTICA COM ÉTICA COMO INSTRUMENTO E MEIO INDISPENSÁVEIS E INSUBSTITUÍVEIS PARA O BEM DO POVO. Em vista dos acontecimentos recentes no cenário político brasileiro, entende que chegou o tempo de darmos atenção toda especial a duas questões. Em primeiro lugar, para o bem do lugar onde vivemos, vamos afirmar e defender: O VOTO NÃO ESTÁ À VENDA! Não quero dinheiro, nem favor! Apenas quero ética na política! Em segundo lugar, vamos nos empenhar pela CORRESPONSABILIDADE ENTRE QUEM VOTA E QUEM É ELEITO.

NÃO BASTA VOTAR. É preciso dar exemplo de ética, acompanhar e fiscalizar. Para tal, apostemos no diálogo, busquemos mais diálogo, exijamos mais diálogo. NÃO PERCAMOS A OPORTUNIDADE PARA NOVAMENTE DISCUTIR TEMAS POLÍTICOS EM NOSSAS CASAS. Isto mesmo! Comecemos pela família. Com o pai e a mãe, com o filho e a filha! Dialoguemos mais com nossos representantes políticos em espaços de decisão. Fiquemos atentos ao que fazem depois de eleitos e não deixemos que apenas façam de conta que nos ouviram. COBREMOS DAS AUTORIDADES, EM TODOS OS NÍVEIS, MAIS DIÁLOGO COM A POPULAÇÃO!

Toda convivência humana carece de uma regulação e esta regulação acontece por meio da PARTICIPAÇÃO POLÍTICA. Cabe à pessoa cristã e cidadã eleger representantes para legislativo local (Vereadores, Vereadoras) e administradores, administradoras municipais (Prefeitos, Prefeitas) e, por conseguinte, acompanhá-los, acompanhá-las criticamente no exercício de seus mandatos. Cabe cobrar transparência das instâncias administrativas e de gestão. Cabe o exercício da participação nos conselhos municipais de direitos e de outros espaços de discussão, debate e de acompanhamento. Da mesma forma, vamos apoiar as autoridades nos seus acertos.

Uma das grandes tentações das pessoas cristãs no tocante à política é a de assumir uma postura de desinteresse e indiferença ou mesmo de desqualificação. PARTICIPAR DA POLÍTICA, NO ENTANTO, REPRESENTA VOCAÇÃO NOBRE DE EXERCÍCIO DA CIDADANIA.

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Como Firmino, você e eu – nós – TEMOS O DIREITO DE EXIGIR ÉTICA NA POLÍTICA. Por causa da mesma ética, nós TEMOS O DEVER DE SER CANDIDATO, CANDIDATA, ELEITOR E ELEITORA COM ÉTICA. Precisamos ser Firmino ético em todos os lugares e momentos! Busquemos, pois, o bem e não o mal, sempre, também por meio destas eleições municipais. Depois das próximas eleições, participemos ativamente, para que a ética floresça e produza frutos nas lavouras e nos pomares da política, lá onde vivemos!

VOTO NÃO SE COMPRA!
VOTO NÃO SE VENDE!
POLÍTICA TEM QUE SER FEITA COM ÉTICA!

Porto Alegre, agosto de 2016

P. Dr. Nestor Paulo Friedrich
Pastor Presidente da IECLB

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nancy cardoso

Vou evitar falar de modo muito geral sobre religião e sobre democracia. Um pouco de história é necessário. Somos herdeiras e herdeiros de um projeto de expansão imperial e colonial do século XVI que reforçou estruturas geradoras de desigualdade que ainda hoje – no século XXI - se mostram ativas: capitalismo, racismo e sexismo. São estruturas persistentes que garantem privilégios e estratificação que os ordenamentos políticos posteriores tocaram de modo insuficiente, parcial e contraditório. Na América Latina em geral e no Brasil em particular a ordenação democrática é um verniz superficial que muitas vezes mais esconde do que revela, mais ornamenta do que viabiliza a circulação de poder.

A “democracia” muitas vezes significa um padrão de equivalência com sistemas ideais norte-atlânticos, mantendo o sujeito ocidental/europeu como o critério para a avaliação de processos políticos em cenários de pós-colonialidade e/ou neo-coloniais. Isto é verdade para todos os processos políticos fora do eixo norte-atlântico. Verdade é também que em nome da “democracia” as potências ocidentais norte-atlânticas interferem e interrompem processos que não se espelham no modelo “original”.

Prefiro falar de radicalização da democracia. Aprofundar a democracia que temos pode significar reforçar os impasses da democracia liberal representativa. Reconhecer que nosso projeto de sociedade sempre foi de subalternidade e, as tentativas e alternativas pós-colonial e de-colonial, sempre encontraram feroz resistência da política real – a da propriedade, patrimônio e exclusão – através de golpes e violência contra os modos de organização e participação popular.

Nas palavras de Quijano: a cidadanização, a democratização, a nacionalização não podem ser reais a não ser de modo precário no modelo eurocêntrico de Estado-nação.

A religião jogou e joga papel importante neste cenário. O cristianismo foi e é agência de colonialidade. Fomos mal evangelizados porque evangelizados à força e as relações mantidas de “religião” com o estado nunca foram reformadas ou alteradas. Foram feitas emendas. Foi usado um verniz de estado laico. Mas no Brasil o cristianismo nunca deixou de ser religião do estado e, por isso mesmo, um dos elementos de reprodução da subalternidade entre nós.

Este olhar crítico – e autocrítico - sobre o cristianismo e suas relações de poder é vital para qualquer tentativa de radicalização da democracia. Os agentes das hierarquias não aceitam este processo de crítica, o que consideram uma relativização de suas verdades absolutas. Neste sentido a grande maioria das expressões cristãs entre nós acredita que democracia demais atrapalha o absoluto da fé e seus privilégios. A disputa pelos espaços políticos de representação revelam esta voracidade das hierarquias em manter seu status, mantendo o modelo de sociedade desigual e violento. A voracidade da bancada evangélica é aquela de querer ser e ter todo o status que a igreja católica romana sempre teve.

O modo de lidar com isso é o de radicalizar a democracia, enfrentando todos os mecanismos de desigualdade. O cristianismo vai ter que aprender a ser uma religião entre outras. Entre a democracia que temos (tida como universal mas mantida pela desigualdade e subalternidade) e a democracia que queremos (pluri-versal, que garanta modelos locais de modo de vida e de participação) a religião também precisa respirar a diversidade e a pluriversalidade.

Religiões de matriz africana

As populações e as religiões afro-indígenas foram massacradas no processo de evangelização/colonização. Este passado de violência se expressa hoje em estruturas de subalternidade já normalizadas e até mesmo normatizadas na sociedade. O Brasil se considera um país cristão e cria anexos para as outras religiões. Enquanto não houver igualdade, territórios, direitos e protagonismos políticos as religiões afro-indígenas vão continuar a ser por um lado criminalizadas e por outro lado tratadas como folclore.

Teologias cristãs

As teologias cristãs se não assumirem o ponto da autocrítica continuam sendo reforço de desigualdades históricas e estruturais. Sem esta auto reflexividade crítica toda teologia e toda leitura da bíblia vai continuar sendo elemento de normalização do cristianismo como “bagagem cultural” do modelo de sociedade capitalista, sexista e racista. Entre nós o esforço da teologia da libertação foi e continua sendo expressão contemporânea desta autocrítica fundamental. As igrejas não são democráticas, continuam convivendo com esquemas de poder vincadas por privilégios, hierarquias e sem circulação de poder. As igrejas não são um espaço de democracia! Por isso a autocrítica é urgente e essencial. Para isso é preciso libertar a teologia!

Aqui também o caráter pós-colonial e de-colonial é importante. Uma libertação da teologia que já não toma as medidas dos grandes autores e seus sistemas como modelo a ser copiado, ou interlocutores indispensáveis da tarefa teológica. As teologias entre nós continuam a ser sexistas e racistas porque não desistiram de ser expressão de poder e não se abriram ao léxico das lutas populares. Continuam a ser reforço do colonialismo/imperialismo do conhecimento e da linguagem.

Relação entre religião e política e laicidade

Afirmar a presença pública da religião sem enfrentar o doloroso cenário de desigualdade entre nós é mais um verniz que mais esconde do que revela. O problema está no espaço público mesmo... que não existe, que é viciado e vincado por profundas desigualdade e profundos privilégios que se expressam num quadro de luta de classes dramático. Afirmar uma teologia pública nada mais é do que continuar mantendo um caráter reformista para a teologia. Algum clamor ético, alguma indignação social. Mas sem cortar na própria pele dos interesses das igrejas e do papel do cristianismo na manutenção da subalternidade. Reivindicar a presença pública sem “perder poder” faz da teologia reforço de desigualdades históricas e estruturantes. Aquilo do evangelho de Jesus que se fez carne e se evangelizou na vida das comunidades na luta por direitos, por territórios, por igualdade... são práticas e vivência que não se deixam confundir com os projetos de poder das elites. Estão e não estão nas igrejas. São muito mais do que ”sociedade civil”. A motivação da presença é a de estar junto aos lutadores e lutadoras e seus movimentos horizontais e igualitários: aí os temas, as hermenêuticas, a exegese e a possibilidade de deixar de ser representantes de padrões da modernidade ocidental, racional, iluminista, capitalista, heterossexual e branca.

Nancy Cardoso é pastora metodista e
agente de formação da Comissão Pastoral da Terra.

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Em reunião ocorrida entre os dias 5 e 7 de agosto, a Direção e o Conselho Nacional do CEBI emitiram nota em forma de carta a todas as coordenações estaduais, às lideranças de grupos, conclamando para a defesa da democracia, para a resistência e para o permanente trabalho de formação nas bases. De acordo com a carta, “o que está acontecendo no Brasil faz parte de um projeto que visa destruir os pequenos avanços dos últimos anos, para reconstituir o poder ‘absoluto’ do capital/mercado, que se tornou um verdadeiro deus. Para poder viver, precisa do sacrifício, do sangue e da vida de muitas vítimas humanas. É neste contexto que se insere o golpe de estado em curso no Brasil”.

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A Direção ainda informa que serão elaborados roteiros de estudo a serem disponibilizados a todas as comunidades e grupos que queiram conversar mais sobre o momento atual, à luz de uma leitura bíblica libertadora: “Sabemos pela história que cada império é destinado a ser engolido por outro mais forte. Nós, porém, podemos ser a pedrinha que bate nos pés de barro e faz ruir a grande estátua do gigante imperial (Dn 2,34-35). Por isso, também insistimos na importância de assegurarmos momentos para a análise de conjuntura em nossas atividades.”

Veja a íntegra da carta:

Brasília, 07 de agosto de 2016.

Caríssimas/os Companheiras/os de caminhada,

Nós, que fazemos parte do Conselho Nacional e da Direção do CEBI, estivemos reunidos/as em Brasília, na casa da Simone, nos dias 5 a 7 de agosto último. A reunião, que estava prevista no nosso calendário, foi muito boa e proveitosa. Conversamos sobre vários temas inerentes à condução do CEBI e à sua organização. As pessoas que representam as Regiões contaram as coisas boas e as dificuldades que acontecem nos estados. Também refletimos sobre vários aspectos do CEBI e paramos um tempo para entender melhor a situação conjuntural que o nosso país está passando.

É por causa desse último ponto que enviamos esta carta a todo o povo do CEBI, para dizer que não podemos esmorecer. A corrupção e a politicagem não são de agora e fazem parte de uma cultura que está presente na maioria dos centros de poder e que poderíamos chamar de satânica. O grande capital internacional não é estranho a este jogo de interesses. Claramente, o que está acontecendo no Brasil faz parte de um projeto que visa destruir os pequenos avanços dos últimos anos, para reconstituir o poder “absoluto” do capital/mercado, que se tornou um verdadeiro deus. Para poder viver, precisa do sacrifício, do sangue e da vida de muitas vítimas humanas. É neste contexto que se insere o golpe de estado em curso no Brasil, impondo ao povo um governo elitista, branco, rico, machista e misógino.

É a eterna luta entre o “dragão” e as forças da vida que, no livro do Apocalipse, são representadas pela mulher grávida que está para dar à luz (Ap 12).

Nesta conjuntura, como pessoas cristãs que acreditam nas forças da Vida, somos chamadas/os a testemunhar a Ressurreição. Precisamos assumir a defesa e o aperfeiçoamento da democracia. Mesmo frágil e insuficiente, ela é fruto de nossas lutas históricas. Como foco de nossa ação enquanto CEBI, usando a Palavra como dom que ilumina e marca o caminho da Vida, devemos reforçar cada vez mais o nosso trabalho de Leitura Popular da Bíblia junto aos grupos de base, nos Círculos Bíblicos. Nosso compromisso é contra todo e qualquer império que destrói a Vida, sobretudo a vida dos pobres e do meio ambiente. Não aceitaremos alianças com qualquer projeto que venha trajado de novo em suas falas, propagandas, mas que esteja a serviço do grande império capitalista (Ap 13,1-18).

Sabemos pela história que cada império é destinado a ser engolido por outro mais forte. Nós, porém, podemos ser a pedrinha que bate nos pés de barro e faz ruir a grande estátua do gigante imperial (Dn 2,34-35). Por isso, também insistimos na importância de assegurarmos momentos para a análise de conjuntura em nossas atividades.

Somos muitas/os, embora pequeno rebanho. No entanto, podemos unir as forças e funcionar como areia no motor, impedindo que o grande capital tome conta da vida de milhões de pessoas no mundo todo, destruindo a natureza, a água, e enchendo tudo de poluição, de agrotóxicos, de sujeira venenosa. Sabemos que seu objetivo é favorecer exclusivamente o lucro dos que devoram a vida do povo pobre.

Como grande família, sintamo-nos juntas/os nesta luta e nesta caminhada, longa e difícil, mas que nos faz reviver a caminhada do Êxodo, que se repete a cada geração. Estamos na travessia do deserto, CAMINHO para chegar à terra da vida solidária e justa, do “BEM VIVER”. Esta é a nossa missão: “Hoje, Moisés é a gente...”!

Um abraço fraternal e sororal, cheio de Esperança e Ressurreição, com o desejo de que possamos sempre caminhar e lutar juntas/os.

A Direção e os membros do Conselho Nacional

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OGRITO

A Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), frente à grave situação político-econômica brasileira, conclama ao diálogo e à busca de soluções democráticas que preservem as conquistas e os direitos do nosso povo.

Democracia é respeito à vontade do povo; as recentes pesquisas expressam com clareza a vontade dos brasileiros/as diante das perplexidades que afligem a nossa grande Nação.

O processo de impeachment contra a presidente democraticamente eleita foi instaurado com argumentos jurídicos que veem sendo refutados por técnicos do Senado Federal, por parecer do Ministério Público Federal (MPF) e especialistas internacionais em recente evento realizado no Rio de Janeiro (Tribunal Internacional pela Democracia no Brasil). Para onde vamos?

Estamos diante do conflito de dois projetos de sociedade: os que defendem a continuidade da Presidente eleita, superando o impeachment e os que defendem que o vice-presidente assuma de modo definitivo a direção do Brasil. O que incluem os dois projetos, para além das pessoas que se dispõem a assumi-los? Quais as prioridades na perspectiva da atenção à maioria da população, sobretudo os mais pobres?

O governo interino, assumido pelo vice e sua equipe, anuncia medidas, em várias esferas da vida da população, que apontam para o retrocesso nos direitos arduamente conquistados: educação, saúde, cultura, previdência social, direitos humanos, comunidade negra, populações indígenas, mulheres, a liberdade de expressão e de organização. Mais uma vez na história brasileira a conta da crise é depositada nos ombros dos mais necessitados, das maiorias desprotegidas.

Estamos vivendo momento de angústia e tristeza. Sentimo-nos em sintonia com o Papa Francisco que já tem manifestado preocupação com o processo político brasileiro. No entanto, a Esperança continua nos iluminando e nos levando à ação.

A Comissão Brasileira de Justiça e Paz tem se empenhado em dialogar com os movimentos sociais e os agentes públicos, principalmente os Senadores da República.

Sua conclusão é que o processo de impeachment em andamento não responde aos anseios mais profundos do povo brasileiro. No entanto, se empenha na construção de uma saída para a crise, negociada com todos os setores sociais, exigindo que sejam garantidos os direitos humanos e sociais da população, consciente do que nos diz a Palavra de Deus: "Deus ouviu os clamores do seu povo”.

Brasília, agosto de 2016

Carlos Alves Moura

Secretário Executivo

Comissão Brasileira de Justiça e Paz

Imagem: quadro 'O Grito', de Edvard Munch.

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Mais de 20 movimentos sociais divulgaram na última quinta-feira (4) uma nota em que alertam à sociedade brasileira sobre os riscos trazidos pelo Projeto de Lei (PL) 4059/2012, que pretende liberar a aquisição irrestrita de imóveis rurais pelo capital estrangeiro. A proposta tramita em regime de urgência na Câmara de Deputados e insere-se no conjunto de iniciativas prioritárias que a bancada ruralista pretende aprovar para retirar direitos de povos indígenas, quilombolas e camponeses e liberar terras para a exploração pelo agronegócio.

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Em lugar do respeito aos direitos territoriais dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, e em lugar da produção de alimentos saudáveis e sem veneno para a população em geral, uma das pautas prioritárias da bancada ruralista pretende liberar terras para o capital estrangeiro e intensificar a produção das chamadas commodities agrícolas (soja, milho, cana de açúcar, entre outras), monoculturas produzidas com grande volume de agrotóxicos e voltadas à exportação e à negociação no mercado financeiro.

Parte da pauta ruralista

Proposto há quatro anos pela Comissão de Agricultura, Pecuária e Abastecimento Rural, o PL 4059 foi inserido no conjunto de projetos e emendas expostas pela Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) em sua Pauta Positiva para o Biênio de 2016-2017. A pauta foi apresentada para o presidente interino Michel Temer e utilizada como moeda de troca pela bancada ruralista – que reúne cerca de 200 deputados financiados pelas grandes empresas do agronegócio – na votação da abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

A pauta da FPA inclui outros dispositivos que pretendem aniquilar os direitos constitucionais dos povos indígenas, como a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, que visa inviabilizar as demarcações de suas terras tradicionais e permitir a revisão e a exploração de terras já demarcadas, e o estabelecimento da tese do “marco temporal” como parâmetro para as demarcações.

Desde que Rousseff foi afastada, os ruralistas vêm cobrando a conta do governo interino, exigindo a revogação das esparsas portarias de demarcação de terras indígenas publicadas pelo governo Dilma antes do afastamento.

Na manhã de quinta, representantes do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) convocaram uma coletiva de imprensa, para falar sobre os riscos que o PL 4059/2012 apresenta à população brasileira em geral e, especialmente, à populações em situação de conflito e insegurança territorial, como no caso dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.

Na coletiva, o secretário adjunto do Cimi, Gilberto Vieira dos Santos, destacou o fato de que estes projetos são interligados e compõem uma pauta única que tem como finalidade a liberação de terras para a exploração do agronegócio.

“Além do PL 4059, estão outras propostas como a PEC 215, que abre a possibilidade não só da paralisação das demarcações de terras indígenas, de titulação de terras quilombolas e da criação de unidades de conservação, mas, na prática, também abre a possibilidade do avanço do capital para essas áreas que não foram ainda efetivamente demarcadas”, afirmou Gilberto Vieira, citando também a Portaria 611, de maio de 2016, na qual o ministro interino da Justiça, Alexandre de Moraes, congela os gastos da pasta por 90 dias e, na prática, inviabiliza a atuação da Fundação Nacional do Índio (Funai), vinculada ao Ministério da Justiça (MJ).

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Fonte: CIMI
Foto: Reprodução

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