Democracia
 
“Democracia e direitos sob ataque - um olhar dos movimentos sociais”: o próprio nome do evento é elucidativo dos objetivos do debate público que será realizado pela CESE no próximo dia 13 de março, a partir das 18h, no Museu de Arte da Bahia. Com presenças confirmadas para a mesa de abertura de Guilherme Boulos (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto – MTST), Sônia Guajajara (Articulação de Povos Indígenas do Brasil), Valdecir Nascimento (Articulação de Mulheres Negras Brasileiras) e João Paulo Rodrigues (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST), o evento irá articular lideranças de movimentos sociais de todo o país para discutir os desdobramentos do golpe político que o Brasil atravessou e os retrocessos de direitos que a sociedade brasileira vem vivenciando.
 
O debate público é uma realização da CESE, com apoio do Museu de Arte da Bahia, Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.
 
A agenda faz parte do “CESE e Movimentos Sociais”, encontro bianual que a CESE realiza: um momento de reflexão crítica coletiva, que a permite estar em sintonia com os movimentos e, assim, cumprir a sua missão de fortalecer suas lutas por direitos e democracia com justiça.
 
Encontro bianual
 
Neste ano, a reunião entre a organização e movimentos sociais será realizada de 13 a 14 de março nas dependências da CESE. A programação inclui a reflexão dos movimentos sobre seus principais desafios, estratégias de organização, articulação e incidência política e a coleta, por parte da CESE, de subsídios para orientar o seu trabalho nos próximos anos - prioridades, novos campos ou estratégias de atuação, mudanças necessárias nas formas de atuar entre outros.
 
Dando sequência, nos dias 15 e 16 será realizada a reunião CESE-Agências, momento no qual serão compartilhadas as perspectivas e posicionamentos de agências de cooperação internacional diante do atual cenário político brasileiro.  Estão confirmadas as presenças de representantes da Action Aid, Misereor (Alemanha), Heks (Suíça), Terre des Home (Suíça),  Brot für die Welt (Alemanha) e Fastenopfer (Canadá).
 
QUEM É QUEM – MESA DE ABERTURA
 
Sônia Guajajara: Por cinco anos, foi vice-coordenadora da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia (Coiab). Atualmente é coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
 
Guilherme Boulos: filósofo e psicanalista, Boulos é ativista político e social. É membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).
 
Valdecir Nascimento: Atualmente é coordenadora-executiva do Odara – Instituto da Mulher Negra e integra a Articulação de Mulheres Negras Brasileiras.
 
João Paulo Rodrigues: integrante da direção nacional do MST, é formado em Ciências Sociais e membro do grupo de conjuntura da Fundação Perseu Abramo.
 
SOBRE A CESE
 
Ao longo de 43 anos, a CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço) já apoiou mais de 11,5 mil projetos de organizações populares de todo o Brasil, contribuindo para o fortalecimento dos direitos de mais de 10 milhões de mulheres, jovens rurais e urbanos; crianças e adolescentes; e representantes de populações tradicionais (indígenas, quilombolas, pescadores/as artesanais, entre outros).
 
SERVIÇO
 
O QUE: Debate Público “Democracia e direitos sob ataque: um olhar dos movimentos sociais”
QUANDO: 13 de março de 2017, a partir das 18h
ONDE: Museu de Arte da Bahia (Avenida Sete de Setembro, 2340, Corredor da Vitória, Salvador/BA)
 
CONTATOS PARA IMPRENSA
 
CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço): (71) 2104-5457
Patrícia Gordano: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Luana Almeida: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Thaís Ribeiro: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
 
Fonte: CESE
Imagem: Reprodução da Internet

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Precisamos ter a consciência da gravidade do momento político, social, econômico e moral que vivemos nos últimos meses. No difícil ano de 2016, o país viu-se diante de projetos e decisões congressuais – alguns já implementados – que claramente trarão em curto e médio prazos consequências graves para os trabalhadores e os pobres. O rotundo silêncio do presente contrasta, inexplicavelmente, com o rotundo barulho do ontem.
 
A conscientização e mobilização contra a chamada PEC 241 na Câmara Federal e PEC 55 no Senado, que mereceu atenção e apoio, não lograram resultado. Como compreender a lógica do corte no social e na educação e ao mesmo tempo o aumento nos ministérios, nos salários de algumas categorias já bem enriquecidas em relação à materia-pobregrande massa de assalariados e desempregados no país? Assuntos outros como a polêmica reforma do ensino médio, a redução da maioridade penal, a reforma da Previdência Social, a transferência da responsabilidade pela demarcação das terras indígenas do Poder Executivo para o Legislativo, como inapetência do Estado frente ao contínuo agravamento das condições de vida das populações indígenas, as mudanças no estatuto do desarmamento, as alterações em leis trabalhistas, o preenchimento de inúmeros cargos importantes com políticos, empresários e juristas sob suspeita ou em adiantado processo de investigação apontam, infelizmente, para sérios retrocessos em diversas conquistas que resultaram da mobilização de milhões de brasileiros desde tempos antigos como o da Constituinte, por exemplo.
 
É inegável que são propostas que, a despeito das fartas justificativas e explicações de natureza econômica e financeira, significarão ainda mais riscos, perdas e sacrifícios para os pobres. Mas não apenas estes. Famílias da chamada classe média veem rapidamente diminuir seu poder de compra, tendo que adiar sonhos como o de possuir o imóvel próprio, aumentar a família, formar os filhos na universidade ou que seja viajar e descansar da rotina de trabalho, cada vez mais massacrante e, com a pretendida reforma da previdência, com perspectivas muito longínquas de aposentadoria. A mortalidade precoce ronda cada vez mais as micro e pequenas empresas, que mal conseguem pagar os salários de seus poucos funcionários.
 
Mas a reação governamental a isso tem sido, por um lado, a defesa dos interesses do grande capital e, por outro, a exigência de sacrifícios dos mais pobres e a agudização das condições de sobrevivência da microeconomia e da própria economia doméstica. Mais do que poupado, o sistema financeiro é novamente privilegiado. Como no mundo todo, os bancos vão bem melhor que o país. Aliás, difícil lembrar no Brasil algum momento em que cidade mais pobre do maranhãobanqueiros tenham reclamado de decisões econômicas. A mais terrível síndrome brasileira da Casa Grande & Senzala arraigada no modus operandi, faciendi e vivendi sociopolítico, governamental, empresarial e, assombremo-nos todos, também do Judiciário.
 
Se a economia é que, em geral, mais impacta as pessoas, não devemos nos distrair em relação aos outros setores da vida social. Um fenômeno que parece, ao mesmo tempo, se dar também em vários países do mundo, o Brasil testemunha neste momento uma triste desaceleração e recuo em iniciativas de resgate da dignidade popular. Somada à crise econômica que, como sempre, atinge de modo mais draconiano e covarde os empobrecidos, observamos, claramente, no país, na política e nos direitos sociais, uma guinada conservadora e neoliberal.
 
Importantes conquistas em termos dos dispositivos e dinâmicas de participação democráticas nas políticas públicas e diretamente nos governos dos municípios e estados via associações de bairros, de categorias profissionais, grupos sociais e redes de apoio comunitário vão se fragilizando e desmaterializando. É lamentável observar como a cidadania no Brasil, mantida historicamente em situação anêmica e emudecida, volta a ser constrangida, na exata hora em que se reanimava e reunia forças para erguer a cabeça e caminhar.
 
Pode-se mencionar aqui as paradoxais medidas de imputar penalmente os adolescentes – pessoa adulta em formação – e permitir que os recém-adultos possam portar armas de fogo, o que certamente não significará a acampadiminuição ou maior controle da violência. Pelo contrário, tudo sugere que aumentará a verdadeira guerra civil que, anualmente, dizima dezenas de milhares de brasileiros em mortes por arma de fogo, especialmente os mais jovens e negros, muitos pelas forças que deviam proteger a população. Tragédia sobre a qual a sociedade simplesmente silencia.
 
Assim como também a mídia e a maior parte da sociedade não se pronunciam sobre o gravíssimo momento enfrentado pelas populações indígenas brasileiras. Nesses quase 30 anos de vigência da Constituição, que estabeleceu avanços importantes de proteção aos direitos indígenas e das populações tradicionais, essas comunidades estejam enfrentando hoje, talvez, os riscos mais graves do que em qualquer outro momento dessas três décadas. É a conclusão de um relatório apresentado ao Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas. O relatório chama a atenção para um aspecto que parece bem sintomático do Brasil atual, em que o Estado insiste em viver divorciado da sociedade civil. O país dispõe de uma série de disposições constitucionais exemplares em relação aos povos indígenas, mas não as aplica, e o que se percebe é a deterioração intensa das condições de vida desses povos.
 
Nenhuma nação pode realizar-se em meio a tanta desigualdade. É papel precípuo da Universidade não só expressar sua solidariedade às massas de pobres, trabalhadores empregados ou não, homens e mulheres de boa vontade e de todas as idades, como também contribuir para a formação da consciência crítica, cidadã, ecológica integral, progressista, ética, arejada, humanizada, inclusiva, justa e livre.

Fonte: POM
Texto: Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães,
reitor da PUC Minas e bispo auxiliar da arquidiocese de Belo Horizonte

Foto: Reprodução

 
A Rede Trans Brasil disponibilizou, em janeiro deste ano, um dossiê traçando um raio-x das travestis, transexuais e transgêneros no país. Batizado de “A Geografia dos Corpos das Pessoas Trans”, o relatório traz informações muito importantes sobre a transfobia e os alto índices de violência. De acordo com pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2013, a expectativa de vida desse grupo social não passa dos 35 anos, menos da metade da média nacional de 74,9 anos da população em geral.
 
Uma das revelações mais impactantes é sobre a quantidade de pessoas trans assassinadas no Brasil. Em 2016 foram 144 mortes.
 
O relatório, que não faz diferenciação entre travesti e transexual, revela ainda que entre o dia 1º de outubro de 2015 e 30 de setembro de 2016 foram 123 mortes no Brasil. Em segundo lugar está o México com 52 homicídios, 42% da média brasileira. Os Estados Unidos aparecem em terceiro lugar com 23 casos. Os dados são apresentados pela Rede Trans Brasil com dados da TGEU (Transgender Europe).
 
Em outro gráfico, o estudo revela que 1768 pessoas trans foram assassinadas na América Central e do Sul entre 1º de janeiro de 2008 a 30 de setembro de 2016. A Ásia aparece em segundo lugar com apenas 202 homicídios. O continente com menos casos registrados nestes oito anos e meio é a Oceania com apenas 5. Das mortes nas Américas, o Brasil apresenta também o maior número. Foram 900 falecimentos no período.
 
“Não é fácil a gente se deparar com esses casos e receber as fotos da vítima. Um assassinato de travesti nunca é com um tiro e pronto. É com vários tiros, com o genital queimado, com várias facadas... É um crime de ódio mesmo”, explica Euclides Cabral, um dos autores do relatório. O relatório revela que a causa de morte mais comum a pessoas trans são as armas de fogo, com 66 dos 144 casos registrados em 2016. Em segundo lugar estão as armas brancas, com 31 casos e pauladas aparecem em terceiro lugar com 9 homicídios. É importante notar que muitos casos são adotados mais de um tipo de arma ou de agressão. 74 homicídios foram registrados em via pública.
 
O estudo aponta ainda que a maioria dos casos acontece no Estado de São Paulo, com 18 assassinatos. O Rio de Janeiro aparece com 13 mortes e o Rio Grande do Sul em terceiro com 12. Três pessoas trans brasileiras foram mortas fora do país. Apesar dos altos índices em São Paulo e Rio de Janeiro, o Nordeste surge com a região mais perigosa com 46 homicídios.
 
94% das vítimas estão solteiras. 50,6 são profissionais do sexo e em 24 homicídios o assassino era cliente da pessoa trans. Dos 144 homicídios de 2016, a relação da vítima com o agressor foi ignorada 95 vezes.
 
Com informações do portal R7
Foto: Agência Brasil

 
Milhares de católicos saíram à ruas em Manila para protestar contra a política linha-dura adotada pelo presidente filipino, Rodrigo Duterte, contra o tráfico de drogas. O mandatário tenta reintroduzir a pena de morte.
 
Ao menos 10 mil pessoas aderiram à marcha "Walk For Life" ("Caminhe pela Vida", na tradução livre), que pedia o fim da pena de morte. Foi uma das maiores manifestações contra Duterte e um sinal do crescente ativismo da Igreja Católica romana contra condenações que preveem pena de morte. Duterte tomou posse em junho de 2016 com a promessa de combater o narcotráfico nas Filipinas, que é um país de maioria católica.    
 
O governo mantém uma linha de tolerância zero em crimes envolvendo drogas ilícitas e quer retomar a pena de morte, abolida em 2006 sob pressão da Igreja.    
 
No entanto, grupos de direitos humanos e representantes religiosos se opõem às medidas e alegam que a política tem levado policiais a assassinarem seus rivais ou perseguirem cidadãos inocentes alegando que são traficantes. Entidades afirmam que mais de cinco mil pessoas teriam morrido já nas operações policiais contra o tráfico.

Fonte: JB com Agência ANSA
Foto: Reuters

Situações cotidianas como ganhar uma boneca na infância, dançar quadrilha na escola ou comprar e uma meia fina sempre foram mais complicadas para Maria Lucia Archanjo. Nascida há 59 anos em Jundiaí, na grande São Paulo, Maria Lucia se recusava a participar dos festejos juninos antes mesmo de ser convidada, pois tinha medo de ser rejeitada pelos meninos devido a sua cor. Na juventude, quando ela e as irmãs queriam sair precisavam tingir a meia fina. “A gente colocava ela de molho no chá mate pra ficar da cor da nossa pele”, conta ela, que é costureira e montou uma oficina em casa. A falta de identidade num país onde a maioria das mulheres são negras a incentivou a militar no movimento negro desde a década de 1980 na região de Jundiaí. De lá para cá, muita coisa mudou, outras nem tanto.
 
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No Brasil, um homem negro ganha 40% a mais do que uma mulher negra. Se comparado a uma mulher branca, a diferença é ainda mais acentuada: uma branca recebe 70% a mais do que uma negra.
 
Apesar do quadro, Maria enfatiza que grandes vitórias para as mulheres negras foram conseguidas através da luta de dias passados. É o caso do sistema de cotas para alunos negros e de baixa renda para ingressar na universidade. “Hoje, se existem as cotas é porque começamos as discussões de reparação naquele tempo. As pessoas criticam, mas as cotas são necessárias”, lembra.
 
O direito das empregadas domésticas também é um assunto que foi tema de debates seguidos desde os anos 1990. “Num Encontro das Mulheres Negras do Interior de São Paulo, em 1995, um dos temas mais relevantes foi o trabalho de empregadas domésticas. Depois de tantos anos, elas conseguiram alguns direitos”.
 
A chamada PEC das Empregadas Domésticas foi regulamentada em 2015 e garantiu benefícios para essas trabalhadoras que até então ficavam à mercê de suas patroas. Algumas pagavam férias ou Fundo de Garantia, outras não, mantendo-as em situação vulnerável.
 
Mesmo com essa garantia recente, muitas mulheres negras já entenderam que podem ir além dessa ‘boa vontade’ das casas de famílias brancas. Joyce Fernandes, 31 anos, por exemplo, trabalhou durante boa parte da vida como empregada doméstica. Primeiro, na adolescência, ajudando a mãe. Depois, assumindo sua própria casa de família. Ela não é um caso isolado, já que a profissão de 18% de todas as brasileiras negras é essa mesma. Com menos escolaridade, fruto de um processo que traz os ecos da escravidão que durou até 1888, as mulheres encontraram no trabalho doméstico um dos poucos refúgios.
 
Preta Rara, como é conhecida na cena cultural, onde atua como rapper, decidiu então criar uma página no Facebook, o “Eu, empregada doméstica”, para contar histórias de racismo, assédio e depreciação que as domésticas enfrentam. “A minha vontade sempre foi dar visibilidade e voz para essas mulheres, para que elas pudessem falar em primeira pessoa”, conta. Ela chegou a ouvir de uma patroa que não deveria estudar, e sim ser feliz na posição onde estava, pois sua avó e sua mãe tinham sido empregadas domésticas, logo o destino dela era o mesmo. Mas ela decidiu que não seria. Se rebelou e entrou para a universidade para estudar História. Furou o bloqueio num país onde apenas 12% da população negra no Brasil tem a mesma oportunidade de cursar o ensino superior, e ainda com ajuda das cotas raciais.
 
Mas tanto no rap quanto na escola, a batalha é permanente. Uma vez, antes de assumir a sala de aula numa escola de Santos, no litoral de São Paulo, teve que dar uma “aula-teste”. Nenhum outro professor da escola tinha passado pelo mesmo processo.
 
O estudo também foi um tabu para Cassia Maria Silva, de 50 anos. Ela sempre amou estudar. Tanto que se matriculou na escola escondida da mãe quando tinha 14 anos. Ela cuidava dos irmãos de dia e ia para a aula à noite. Mas teve de parar, pois precisava trabalhar e acabou adiando a conclusão do ensino médio até os 26 anos, quando já tinha um filho. Aos 30 anos decidiu que faria faculdade. Prestou vestibular de Química, e passou na Universidade de São Paulo. “Porém meu ex-marido não tinha como bancar a casa. Eu não pude concluir”, conta lembrando que passou a trabalhar de empregada doméstica para sustentar o lar.
 
Ainda assim, três anos depois conseguiu estudar Física na Fundação Santo André (FSA) e começou a dar aula em uma escola da rede pública, em Diadema, grande São Paulo, onde mora. Lá lecionou as disciplinas de matemática, física, química, ciências e biologia. Mas em certa noite de 2003, quando voltava da faculdade, entrou para as estatísticas, que mostram que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no Brasil. O agressor só a soltou quando viu que seu peito vazava leite — ainda amamentava a filha mais nova. “Ele disse que não me mataria porque também tinha filhos. Tomei o coquetel contra AIDS por um bom tempo”, relata.
 
Não foi a única adversidade que a vida lhe impôs. Em 2006 descobriu um câncer de mama e viveu o périplo do tratamento. “Meu cabelo era enorme, cacheado e eu fiquei sem um fio de cabelo. Eu era muito vaidosa e fiquei pensando como ia sair na rua careca”, lembra. “Não estava preocupada com o câncer, mas com a falta de cabelo. Então coloquei um salto de 15 cm, uma minissaia, maquiagem perua, brinco perua. E quando as pessoas ficassem com dó de mim por causa da careca, olhariam minhas pernas. Eu me acho linda!”
 
Cássia voltou à sala de aula depois do tratamento. Até que em 2015 recebeu um novo diagnóstico de câncer que lhe dava apenas seis meses de vida. Desafiou a sentença, como tantas que precisou ao longo da vida. Hoje, continua se tratando enquanto faz um curso de gastronomia.
 
Maria Lucia também superou um câncer em 2010. Mas isso já é passado. Hoje, dedica-se a educar seus netos para enfrentarem outra doença no Brasil: o preconceito. “Como é que se diz? Empoderamento? Pois que cada vez se empoderem mais!”, diz Maria, que tem orgulho do próprio destino. “Se eu fosse branca, não seria tão feliz.”

Fonte: El País
Foto: Rapper Preta Rara / Divulgação

Francisco faz a 1ª visita de um papa a uma Igreja Anglicana
 
O papa Francisco se tornou no último domingo (26) o primeiro pontífice a visitar uma igreja anglicana em Roma, ao comparecer ao templo All Saints da capital italiana.
 
"Há mais de 200 anos aconteceu o primeiro serviço litúrgico anglicano em Roma para um grupo de residentes ingleses", recordou o papa em sua homilia.
 
"Nestes dois séculos, muitas coisas mudaram entre católicos e anglicanos que antes se olhavam com receito e hostilidade. Hoje, graças a Deus, nos reconhecemos pelo que somos realmente: irmãos e irmãs em Cristo", prosseguiu Francisco.
 
"Demos graças ao Senhor porque o desejo de uma proximidade maior entre cristãos é mais forte, como demonstra o ato de rezar juntos."
 
O papa reconheceu, no entanto, que há dificuldades no caminho da aproximação, da "plena comunhão", entre as duas igrejas cristãs.
 
"Às vezes o progresso no caminho de uma plena comunhão pode parecer lento e inseguro, mas hoje podemos nos sentir alentados por nosso encontro", declarou o pontífice.
 
Em outubro passado, o papa e o arcebispo de Canterbury, Justin Welby, celebraram juntos uma cerimônia na igreja de São Gregório de Roma para marcar os 50 anos de aproximação das duas igrejas.
 
Os dois líderes religiosos mostraram, no entanto, suas divergências em um comunicado, "em particular sobre a ordenação das mulheres e em questões relacionadas com a sexualidade".
 
Na Igreja Anglicana, as mulheres podem ser ordenadas desde 1992 e representam um terço do clero atualmente.
 
A cisão anglicana aconteceu no século 16, depois que o papa se recusou a conceder a anulação do casamento do rei Henrique 8º. Desde então, os anglicanos não reconhecem a autoridade do papa.
 
O reverendo Jonathan Boardman, sacerdote da igreja All Saints, localizada no centro de Roma, celebrou a visita do papa. "É uma alegria incrível, isto tem um significado absolutamente extraordinário", declarou.
 
O papa Francisco aproveitou a ocasião para anunciar que estuda a possibilidade de viajar ao Sudão do Sul, país de maioria cristã, com Justin Welby.
 
Ele assinalou que, caso se realize, a viagem irá durar apenas um dia, devido à "situação difícil" no Sudão do Sul, país devastado por uma guerra civil desde dezembro de 2013.
 
Fonte: Notícias UOL / AFP
Foto: Alessandro Bianchi/Reuters

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A edição de fevereiro da revista The Lancet, uma das principais publicações científicas internacionais, trouxe uma conclusão que deve ser levada em consideração tanto por profissionais da área da saúde, quanto da gestão pública. O que já se desconfiava agora está comprovado: a pobreza e a desigualdade social prejudicam seriamente a saúde, diminuindo o tempo de vida. E são ainda mais prejudiciais que outros fatores de risco convencionais, como obesidade, hipertensão e consumo excessivo de álcool.
 
De acordo com o artigo divulgado, o baixo nível socioeconômico reduz a expectativa de vida em 2,1 anos em adultos entre 40 e 85 anos. A hipertensão, por sua vez, reduz em 1,6 ano. A obesidade em 0,7 ano e o alto consumo de álcool em meio ano.
 
O estudo, liderado por Silvia Stringhini, do Hospital Universitário de Lausanne (Suíça), envolveu cerca de 30 especialistas de instituições renomadas (como a Escola de Saúde Pública de Harvard, a Universidade de Columbia, o King's College de Londres e o Imperial College de Londres) e dados sobre 1,7 milhão de pessoas – analisando as relações entre o nível socioeconômico e a mortalidade.
 
A pesquisa traz, ainda, uma crítica às políticas da Organização Mundial de Saúde (OMS), que ainda não menciona este aspecto da pobreza entre os seus objetivos e recomendações. A repercussão do estudo também apontou falhas nas estratégias dos governos, na medida em que pouco investem em soluções estruturais, concentrando as ações de prevenção em escolhas individuais, como praticar esportes e não fumar. “O baixo nível socioeconômico é um dos mais fortes indicadores de morbidade e mortalidade prematura em todo o mundo. No entanto, as estratégias de saúde global não consideram as circunstâncias socioeconômicas pobres como fatores de risco modificáveis”, expõe o artigo, de acordo com tradução do Portal da Rede de Alimentação e Nutrição do Sistema Único de Saúde.
 
 
Com informações da Pastoral da Criança
Foto: Acervo da Pastoral da Criança

Em vez de relaxar, meditação pode provocar crises mentais, diz psicólogo
 
Está sentado comodamente? Feche os olhos. Tome um minutos para se acalmar. Quando estiver pronto, preste atenção em sua respiração. Simplesmente observe como o ar viaja de fora para dentro de seu corpo, enquanto você inala e exala.
 
Na medida em que você faz isso, sua atenção foca-se no momento presente, sua mente se acalma por si só e o estresse e a ansiedade diminuem.
 
Se você faz isso periodicamente, terá mais concentração, criatividade, tranqulidade e bem-estar, além de melhores relações com os outros.
 
A prática da meditação 'mindfulness' ou atenção plena se estendeu amplamente e não apenas entre os místicos orientais, hippies ocidentais e curandeiros alternativos. Ela se tornou algo que seu médico poderia sugerir. Até há aplicativos que ajudam a praticá-la.
 
Afirmam que ela é eficaz no tratamente de doenças mentais, mas também pode beneficiar a qualquer pessoa, inclusive aquelas que estão bem. Afinal, sentar-se em silêncio e respirar não pode fazer mal. Será?
 
Foi o que Suzanne (nome fictício), uma francesa de 20 anos, pensou.
 
Há pouco mais de um ano, ela decidiu ir a um retiro de meditação em silêncio em Manchester, Reino Unido.
 
O plano de meditação era bastante intenso: dez dias seguidos; estava probido falar ou fazer contato visual com outras pessoas, inclusive quando terminavam as sessões diárias.
 
Tudo estava bem até o sétimo dia, quando Suzanne teve um ataque de pânico.
 
"Senti como se meu cérebro tivesse explodido", disse. "Senti como se estivesse completamente separada do meu próprio corpo."
 
Foi buscar a ajuda de seus professores, que a aconselharam a continuar meditando.
 
Ao fim do curso, voltou, com dificuldade, a França, onde, na casa de sua mãe, piorou.
 
"Tentei seguir adiante com a minha vida, mas foi impossível. Não podia sair da cama, não conseguia comer. Estava tendo sintomas de terror e pânico. Tinha muito medo e tive 'despersonalização' - isso é, basicamente, quando você se olha no espelho e é incapaz de reconhecer-se- e 'desrealização', que é quando o mundo parece irreal."
 
Suzanne deu entrada em um hospital psiquiátrico, onde deram a ela medicação antipsicótica. Um ano depois, ainda a toma.
 
Disse que se sente muito melhor, mas '"ainda tem um longo caminho a seguir".
 
"Nem boa nem má"
 
O caso de Suzanne é extremo, mas não tão incomum como se poderia pensar.
 
A BBC conversou com várias pessoas que aparentemente estavam em bom estado de saúde mental antes de provar a meditação, e que tiveram graves crises durante e depois de praticá-la.
 
O problema não se limita apenas a pessoas que vão fazer cursos intensivos de meditação.
 
Tim Lomas, um psicólogo de Londres, publicou recentemente um artigo acadêmico sobre homens que estavam fazendo meditação por razaões não clínicas.
 
Ainda que a maioria deles se beneficie da prática, 25% encontrou o que Tomas chama de "dificuldades substanciais" incluindo "experiências desafiantes do eu" e uma "dissolução da identidade".
 
Para alguns, a atenção plena "os fez conscientes de sua angústia, mas incapazers de lidar com ela, pelo que eles descobriram que a meditação não era apenas inútil, mas contraproducente".
 
Lomas não se diz inimigo da meditação. Segundo ele, essas experiências não eram "necessariamente boas ou ruins". Ele conta de um homem que depois da meditação se sentia aparentemente "perto da psicose" não apenas saiu dela, mas disse que a experiência foi "uma das mais transformadores de sua vida".
 
A noite escura
 
Outro fã da meditação é Daniel Ingram, médico de emergências no Alabama, nos Estados Unidos, que também dirige um fórum on-line sobre o assunto com mais de 5.000 membros.
 
Segundo Ingram, experiências fortes são produto da meditação e exatamente o que alguém deveria esperar dela, se se segue a teoria do budismo Theravada.
 
Nessa tradição, há uma fase da meditação chamada "surgir e desaparecer", depois da qual vem a "noite escura" e, para alguns, a noite escura é muito escura.
 
"Pode ser uma depressão bastante extrema, episódios micropsicóticos e depressão psicótica, e pode fazer com que a pessoa chegue à beira do suicídio, e em alguns casos inclusive se mate", diz Ingram.
 
"É realmente surpreendente que a ciência ocidental não haja notado isso. O que é lamentável, tendo em conta o grande número de pessoas que agora estão meditando em doses suficientes para cruzar o surgir e desaparecer", acrescentou.
 
"Experiências loucas"
 
"Você deveria ver os e-mails que recebo. Há muita gente sentindo-se assim. E não só pessoas que passaram muito tempo em retiros intensos de meditação. Sei de muitas pessoas que cruzaram esse território de forma espontânea, incluindo um número de membros da família. Sei de uma pessoa que teve uma crise quando voltava para casa de uma aula de yoga e destruiu seu carro."
 
"Todo tipo de gente me liga para dizer 'Acabo de fazer um cruso de redução do estresse baseado na consciência plena e, de repente, estou tendo experiências loucas."
 
Ingram acredita que isso aumentará à medida que cresce o interesse pela meditação plena: "Eu diria que é quase garantido."
 
Se uma pessoa faz parte de uma tradição religiosa que tem um componente de meditação - e muitas o tem -, então é possível aceitar essas dificuldades como parte do caminho à iluminação.
 
Mas o que é curioso é a forma pela qual a prática espiritual se converteu em um tratamento quase médico, ou uma parte de um estilo de vida.
 
A meditação tem potencial de por a vida de cabeça para baixo. Isso pode ser bom, mas também pode ser muito mais do que alguém esperava.

Fonte: BBC News Magazine
Foto: Reprodução / Thinkstock

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O drama vivenciado pelos moradores do Agreste e do Sertão de Alagoas, com a falta de chuva e a escassez de alimentos, por conta da estiagem que assola 36 municípios das duas regiões, está mobilizando a Diocese de Palmeira dos Índios, que lançou campanha para ajudar as famílias de agricultores afetados pela seca.
 
Com o apoio da Cáritas Diocesana e Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo (MTC), a Igreja Católica coordena a campanha “SOS Sertão de Alagoas”, com o propósito de arrecadar água e alimentos para as famílias que sofrem com a estiagem em Alagoas.
 
A iniciativa abrange os 36 municípios da circunscrição eclesiástica, onde vivem cerca de 300 mil pessoas.
 
“Estamos vivenciando um colapso de água, com abastecimento feito por caminhões-pipa que não conseguem amenizar totalmente o sofrimento de nossos irmãos”, afirma o bispo Dom Dulcênio de Matos, revelando que a campanha também conta com o apoio do Conselho de Leigos da Diocese.
 
Diante da situação de sofrimento das famílias, com açudes e barragens sem água, o representante da Igreja Católica revela a campanha pretende sensibilizar a população para levar água e alimentos até a paróquia ou igreja mais próxima de cada residência.
 
Dom Dulcênio aponta o trabalho social feito através das Caritas local, regional e nacional a favor das pessoas mais carentes, levando cisternas para as famílias que ainda não têm como armazenar a água, enquanto aguardam a chegada do carros-pipa.
 
“Esse é um grande desafio no campo social que depende da mobilização de toda a sociedade alagoana”, acrescenta o bispo.
 
Fonte: tribunahoje.com
Foto: tribunahoje.com

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A crise que o Brasil atravessa impactou negativamente as políticas de direitos humanos no País, denunciou a Anistia Internacional nesta terça-feira 21. Houve retrocessos em direitos fundamentais que já estavam assegurados, apontou o relatório anual da entidade: "O estado dos Direitos Humanos no Mundo 2016/2017".
 
"O que vimos em 2016 foi o desmantelamento de estruturas institucionais e programas que garantiam a proteção a direitos previamente conquistados, além da omissão do Estado em relação a temas críticos, como a segurança pública", afirmou a diretora executiva da Anistia Internacional no Brasil, Jurema Werneck. "Nenhuma crise pode ser usada como justificativa para a perda de direitos."
 
A ONG avalia que a crise – política, econômica e institucional – atravessada pelo país paralisou os debates sobre políticas públicas de promoção de direitos humanos, contribuindo para retrocessos, avanço de agendas conservadoras e aumento das violações em algumas áreas.
 
Entre os retrocessos, o relatório lista a extinção do Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos; e o anúncio de uma emenda constitucional (PEC 241/55) que limita os gastos do governo nos próximos vinte anos, em áreas cruciais como educação e saúde. A emenda já foi aprovada na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, a despeito das pesadas críticas que recebeu da Relatoria Especial da ONU para Extrema Pobreza e Direitos Humanos.
 
Tramitam ainda no Congresso várias propostas que, se aprovadas, prejudicariam direitos já adquiridos de mulheres, povos indígenas, crianças, população LGBTI. Em setembro de 2015, cita o relatório, uma comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou mudanças no Estatuto da Família para restringir a definição de família como "a união entre um homem e uma mulher".
 
Proteção a defensores
 
Outro retrocesso importante, de acordo com o relatório, foi a suspensão, em junho passado, de diversos acordos entre o governo federal e os governos estaduais para a implementação do programa de proteção aos defensores dos direitos humanos.
 
Ao menos 47 – incluindo trabalhadores rurais, indígenas, quilombolas e pescadores – foram assassinados entre janeiro e setembro do ano passado, revelando uma intensificação da violência no campo.
 
"A crise foi usada para justificar retrocessos nos direitos humanos", sustenta a relatora de Direitos Humanos da AI do Brasil, Renata Nader. "O programa de proteção aos defensores de direitos humanos foi completamente desmantelado, um decreto do Ministério da Justiça alterou as regras de demarcação e titulação de terras indígenas, houve uma limitação de gastos em saúde e educação", enumerou.
 
Violência policial
 
A falência das políticas de segurança pública é outro ponto crucial citado pelo relatório. De acordo com a Anistia Internacional, a polícia continua fazendo uso excessivo da força para conter manifestações políticas.
 
O ano de 2016 foi marcado por protestos pacíficos sobre assuntos relacionados ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, a reforma educacional, a redução dos investimentos em educação e saúde, entre outros temas. Segundo a Anistia, "com frequência a resposta da polícia era violenta, com uso excessivo e desnecessário da força".
 
A violência policial também foi citada no relatório no contexto de comunidades carentes. Jovens negros, principalmente os moradores de favelas, continuam sendo as maiores vítimas das ações policiais violentas.
 
No Rio de Janeiro, 811 pessoas foram mortas pela polícia entre janeiro e novembro de 2016, a maioria delas em favelas, aponta a ONG. O país ocupa a triste posição de campeão mundial em número absoluto de homicídios – com 58 mil assassinatos.

Texto: Roberta Jansen / Carta Capital
Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil