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Em oração ecumênica na Catedral Luterana de Lund, na Suécia, nesta segunda-feira, 31, o Papa Francisco e o presidente da Federação Luterana Mundial, Munib Younan, assinaram uma declaração conjunta. O documento insere-se no contextos dos 500 anos da Reforma Protestante.

Confira a íntegra do documento:

DECLARAÇÃO CONJUNTA
por ocasião da comemoração conjunta católico-luterana da Reforma
Lund, 31 de outubro de 2016

«Permanecei em Mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em Mim» (Jo 15, 4).

Com coração agradecido

Com esta Declaração Conjunta, expressamos jubilosa gratidão a Deus por este momento de oração comum na Catedral de Lund, com que iniciamos o ano comemorativo do quinto centenário da Reforma. Cinquenta anos de constante e frutuoso diálogo ecumênico entre católicos e luteranos ajudaram-nos a superar muitas diferenças e aprofundaram a compreensão e confiança entre nós. Ao mesmo tempo, aproximamo-nos uns dos outros através do serviço comum ao próximo – muitas vezes em situações de sofrimento e de perseguição. Graças ao diálogo e testemunho compartilhado, já não somos desconhecidos; antes, aprendemos que aquilo que nos une é maior do que aquilo que nos separa.

Do conflito à comunhão

Ao mesmo tempo que estamos profundamente gratos pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma, também confessamos e lamentamos diante de Cristo que luteranos e católicos tenham ferido a unidade visível da Igreja. Diferenças teológicas foram acompanhadas por preconceitos e conflitos, e instrumentalizou-se a religião para fins políticos. A nossa fé comum em Jesus Cristo e o nosso Batismo exigem de nós uma conversão diária, graças à qual repelimos as divergências e conflitos históricos que dificultam o ministério da reconciliação. Enquanto o passado não se pode modificar, aquilo que se recorda e o modo como se recorda podem ser transformados. Rezamos pela cura das nossas feridas e das lembranças que turvam a nossa visão uns dos outros. Rejeitamos categoricamente todo o ódio e violência, passados e presentes, especialmente os implementados em nome da religião. Hoje, escutamos o mandamento de Deus para se pôr de parte todo o conflito. Reconhecemos que fomos libertos pela graça para nos dirigirmos para a comunhão a que Deus nos chama sem cessar.

O nosso compromisso em prol dum testemunho comum

Enquanto superamos os episódios da nossa história que gravam sobre nós, comprometemo-nos a testemunhar juntos a graça misericordiosa de Deus, que se tornou visível em Cristo crucificado e ressuscitado. Cientes de que o modo como nos relacionamos entre nós incide sobre o nosso testemunho do Evangelho, comprometemo-nos a crescer ainda mais na comunhão radicada no Batismo, procurando remover os obstáculos ainda existentes que nos impedem de alcançar a unidade plena. Cristo quer que sejamos um só, para que o mundo possa acreditar (cf. Jo 17, 21).

Muitos membros das nossas comunidades anseiam por receber a Eucaristia a uma única Mesa como expressão concreta da unidade plena. Temos experiência da dor de quantos partilham toda a sua vida, mas não podem partilhar a presença redentora de Deus na Mesa Eucarística. Reconhecemos a nossa responsabilidade pastoral comum de dar resposta à sede e fome espirituais que o nosso povo tem de ser um só em Cristo. Desejamos ardentemente que esta ferida no Corpo de Cristo seja curada. Este é o objetivo dos nossos esforços ecuménicos, que desejamos levar por diante inclusive renovando o nosso empenho no diálogo teológico.

Rezamos a Deus para que católicos e luteranos saibam testemunhar juntos o Evangelho de Jesus Cristo, convidando a humanidade a ouvir e receber a boa notícia da ação redentora de Deus. Pedimos a Deus inspiração, ânimo e força para podermos continuar juntos no serviço, defendendo a dignidade e os direitos humanos, especialmente dos pobres, trabalhando pela justiça e rejeitando todas as formas de violência. Deus chama-nos a estar perto de todos aqueles que anseiam por dignidade, justiça, paz e reconciliação. Hoje, de modo particular, levantamos as nossas vozes para pedir o fim da violência e do extremismo que ferem tantos países e comunidades, e inumeráveis irmãos e irmãs em Cristo. Exortamos luteranos e católicos a trabalharem juntos para acolher quem é estrangeiro, prestar auxílio a quantos são forçados a fugir por causa da guerra e da perseguição, e defender os direitos dos refugiados e de quantos procuram asilo.

Hoje mais do que nunca, damo-nos conta de que o nosso serviço comum no mundo deve estender-se à criação inteira, que sofre a exploração e os efeitos duma ganância insaciável. Reconhecemos o direito que têm as gerações futuras de gozar do mundo, obra de Deus, em todo o seu potencial e beleza. Rezamos por uma mudança dos corações e das mentes que leve a um cuidado amoroso e responsável da criação.

Um só em Cristo

Nesta auspiciosa ocasião, expressamos a nossa gratidão aos irmãos e irmãs das várias Comunhões e Associações cristãs mundiais que estão presentes e unidos connosco em oração. Ao renovar o nosso compromisso de passar do conflito à comunhão, fazemo-lo como membros do único Corpo de Cristo, no qual estamos incorporados pelo Batismo. Convidamos os nossos companheiros de estrada no caminho ecumênico a lembrar-nos dos nossos compromissos e a encorajar-nos. Pedimos-lhes que continuem a rezar por nós, caminhar connosco, apoiar-nos na observância dos compromissos de religião que hoje manifestamos.

Apelo aos católicos e luteranos do mundo inteiro

Apelamos a todas as paróquias e comunidades luteranas e católicas para que sejam corajosas e criativas, alegres e cheias de esperança no seu compromisso de prosseguir na grande aventura que nos espera. Mais do que os conflitos do passado, há de ser o dom divino da unidade entre nós a guiar a colaboração e a aprofundar a nossa solidariedade. Estreitando-nos a Cristo na fé, rezando juntos, ouvindo-nos mutuamente, vivendo o amor de Cristo nas nossas relações, nós, católicos e luteranos, abrimo-nos ao poder de Deus Uno e Trino. Radicados em Cristo e testemunhando-O, renovamos a nossa determinação de ser fiéis arautos do amor infinito de Deus por toda a humanidade.

CONIC com CN Notícias / ACI Digital
Foto: L'Osservatore Romano

“Do conflito à comunhão. Juntos na esperança”: este foi o lema da viagem que o Papa Francisco fez à Suécia nos dias 31 de outubro e 1° de novembro. O objetivo da visita foi iniciar a comemoração conjunta pelos 500 anos da Reforma protestante e lembrar os 50 anos do diálogo entre as duas confissões – ambas as datas serão recordadas de maneira oficial em 2017.

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No total, foram pouco mais de 24 horas em solo sueco. Depois de 2 horas e 40 minutos de voo, o Papa foi acolhido no aeroporto internacional de Malmö pelo Primeiro-Ministro sueco, Stefan Löfven. Em Lund, depois do almoço na residência papal de Igelosa, Francisco realizou a visita de cortesia à família real da Suécia. Ele foi acolhido na residência real pelo Rei Carlos XVI Gustav e a Rainha Silvia.

A oração ecumênica comum

Na parte da tarde do primeiro dia de visita foi realizada a aguardada oração ecumênica na Catedral luterana de Lund. A escolha da cidade não foi por acaso: foi ali que, em 1947, foi fundada a Federação Luterana Mundial, enquanto a data – 31 de outubro – é o dia em que, segundo a tradição, Lutero expôs as suas 95 teses sobre a porta da Igreja do castelo de Wittenberg, em 1517.

Este evento inédito – a oração ecumênica comum – é fruto de 50 anos de diálogo: com os luteranos, os católicos iniciaram os colóquios com o Concílio Vaticano II; em 1999, as duas comunidades assinaram a Declaração conjunta sobre a Justificação e, em 2013, aprovaram o documento “Do conflito à comunhão”, que se tornou o lema desta viagem.

O programa do Papa ainda neste primeiro dia de viagem ainda previu o regresso de Lund a Malmö para o evento ecumênico no ginásio da cidade e o encontro com as delegações ecumênicas – eventos com transmissão ao vivo da Rádio Vaticano e TVs suecas.

Comunidade católica sueca

Na terça-feira (1°/11), o Papa se dedicou à pequena - mas bastante ativa - comunidade católica sueca. Trata-se de pouco mais de 1% da população de cerca de 10 milhões de habitantes. O Pontífice celebrou uma missa, em latim e sueco, no estádio de Malmö, com a oração mariana do Angelus. Ao final da manhã, o Papa regressou ao Vaticano.

Opinião luterana

De acordo com o pastor luterano Walter Altmann, que já presidiu a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e foi moderador do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), “a ida do Papa Francisco à Suécia é de altíssimo significado teológico e impacto simbólico”.

 

A seguir, confira a cobertura completa:

Olhar ao nosso passado, reconhecer o erro e pedir perdão

Após almoço privado na Residência de Igelosa, onde Francisco ficou nestes dois dias de visita à Suécia, o Santo Padre se transferiu para o Palácio Real de Lund, onde realizou uma visita de cortesia à Família Real. O Papa foi recebido pelo Rei Carlos XVI Gustavo e pela Rainha Silvia. Depois do encontro com a Família Real, o Pontífice, juntos com os soberanos, se dirigiu para a Catedral da cidade, onde teve lugar a Oração Ecumênica Comum. Francisco foi acolhido pela Primaz da Igreja da Suécia, arcebispa Antje Jakelén, e pelo bispo católico de Estocolmo, dom Anders Arborelius. Tomaram parte na procissão de entrada representantes da Federação Luterana Mundial.

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O presidente da Federação Luterana Mundial, Munib Younan, agradeceu a Deus pela a proclamação do evangelho durante a Reforma e afirmou que “desde então, inúmeras pessoas têm sido encorajadas a viver uma vida de fé em Jesus Cristo”. Após os cantos, as leituras e a homilia do presidente Younan, o Papa Francisco fez a sua homilia.

Francisco afirmou que ambos os lados tinham uma vontade sincera de professar e defender a verdadeira fé, “mas estamos conscientes também de que nos fechamos em nós mesmos com medo ou preconceitos relativamente à fé que os outros professam com uma acentuação e uma linguagem diferentes”, disse.

Testemunhas credíveis da misericórdia

O Papa também recordou que Jesus intercede por nós como mediador junto do Pai, pedindo-Lhe a unidade dos seus discípulos para que «o mundo creia». “Concedei-nos o dom da unidade, para que o mundo creia na força da vossa misericórdia”. E concluiu: “Nós, luteranos e católicos, rezamos juntos nesta Catedral e estamos conscientes de que, sem Deus, nada podemos fazer; pedimos o seu auxílio para sermos membros vivos unidos a Ele, sempre carecidos da sua graça para podermos levar, juntos, a sua Palavra ao mundo, que tem necessidade da sua ternura e misericórdia”.

Declaração Conjunta

Por ocasião da comemoração conjunta católico-luterana da Reforma, durante a oração ecumênica comum na Catedral luterana de Lund, o Papa Francisco e o presidente da Federação Luterana Mundial, Rev. Mounib Younan, assinaram uma Declaração Conjunta introduzida pelas seguintes palavras: “Permanecei em Mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em Mim” (Jo 15, 4).

Com esta Declaração Conjunta, - lê-se no texto -, expressamos jubilosa gratidão a Deus por este momento de oração comum na Catedral de Lund, com que iniciamos o ano comemorativo do quinto centenário da Reforma. Cinquenta anos de constante e frutuoso diálogo ecumênico entre católicos e luteranos ajudaram-nos a superar muitas diferenças e aprofundaram a compreensão e confiança entre nós. Ao mesmo tempo, aproximamo-nos uns dos outros através do serviço comum ao próximo – muitas vezes em situações de sofrimento e de perseguição. Graças ao diálogo e testemunho compartilhado, já não somos desconhecidos; antes, aprendemos que aquilo que nos une é maior do que aquilo que nos separa.

Do conflito à comunhão

No texto se evidencia ainda que “ao mesmo tempo que estamos profundamente gratos pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma, também confessamos e lamentamos diante de Cristo que luteranos e católicos tenham ferido a unidade visível da Igreja. Diferenças teológicas foram acompanhadas por preconceitos e conflitos, e instrumentalizou-se a religião para fins políticos”.

“A nossa fé comum em Jesus Cristo - continua o texto -, e o nosso Batismo exigem de nós uma conversão diária, graças à qual repelimos as divergências e conflitos históricos que dificultam o ministério da reconciliação. Enquanto o passado não se pode modificar, aquilo que se recorda e o modo como se recorda podem ser transformados. Rezamos pela cura das nossas feridas e das lembranças que turvam a nossa visão uns dos outros. Rejeitamos categoricamente todo o ódio e violência, passados e presentes, especialmente os implementados em nome da religião. Hoje, escutamos o mandamento de Deus para se pôr de parte todo o conflito. Reconhecemos que fomos libertos pela graça para nos dirigirmos para a comunhão a que Deus nos chama sem cessar”.

O nosso compromisso em prol de um testemunho comum

A Declaração Conjunta sustenta que “enquanto superamos os episódios da nossa história que gravam sobre nós, comprometemo-nos a testemunhar juntos a graça misericordiosa de Deus, que se tornou visível em Cristo crucificado e ressuscitado. Cientes de que o modo como nos relacionamos entre nós incide sobre o nosso testemunho do Evangelho, comprometemo-nos a crescer ainda mais na comunhão radicada no Batismo, procurando remover os obstáculos ainda existentes que nos impedem de alcançar a unidade plena. Cristo quer que sejamos um só, para que o mundo possa acreditar (cf. Jo 17, 21)”.

No texto destaca-se também que muitos membros “das nossas comunidades anseiam por receber a Eucaristia a uma única Mesa como expressão concreta da unidade plena. Temos experiência da dor de quantos partilham toda a sua vida, mas não podem partilhar a presença redentora de Deus na Mesa Eucarística. Reconhecemos a nossa responsabilidade pastoral comum de dar resposta à sede e fome espirituais que o nosso povo tem de ser um só em Cristo. Desejamos ardentemente que esta ferida no Corpo de Cristo seja curada. Este é o objetivo dos nossos esforços ecumênicos, que desejamos levar por diante inclusive renovando o nosso empenho no diálogo teológico”.

Um só em Cristo

Evidencia-se no texto o pedido a Deus para que católicos e luteranos saibam testemunhar juntos o Evangelho de Jesus Cristo, convidando a humanidade a ouvir e receber a boa notícia da ação redentora de Deus. “Pedimos a Deus inspiração, ânimo e força para podermos continuar juntos no serviço, defendendo a dignidade e os direitos humanos, especialmente dos pobres, trabalhando pela justiça e rejeitando todas as formas de violência”.

Deus chama-nos a estar perto de todos aqueles que anseiam por dignidade, justiça, paz e reconciliação, acrescenta o texto. “Hoje, de modo particular, levantamos as nossas vozes para pedir o fim da violência e do extremismo que ferem tantos países e comunidades, e inumeráveis irmãos e irmãs em Cristo”. Em seguida, uma exortação a luteranos e católicos para que trabalhem juntos para acolher quem é estrangeiro, prestem auxílio a quantos são forçados a fugir por causa da guerra e da perseguição, e defendam os direitos dos refugiados e de quantos procuram asilo.

Um olhar também à criação inteira que sofre a exploração e os efeitos duma ganância insaciável. “Reconhecemos o direito que têm as gerações futuras de gozar do mundo, obra de Deus, em todo o seu potencial e beleza. Rezamos por uma mudança dos corações e das mentes que leve a um cuidado amoroso e responsável da criação”, destaca a Declaração Conjunta.

Depois de agradecer aos irmãos e irmãs das várias Comunhões e Associações Cristãs mundiais que estão presentes e unidos em oração, renova-se o compromisso de passar do conflito à comunhão, e fazendo isso “como membros do único Corpo de Cristo, no qual estamos incorporados pelo Batismo”.

Apelo aos católicos e luteranos do mundo inteiro

No fim do texto, um apelo: “apelamos a todas as paróquias e comunidades luteranas e católicas para que sejam corajosas e criativas, alegres e cheias de esperança no seu compromisso de prosseguir na grande aventura que nos espera. Mais do que os conflitos do passado, há de ser o dom divino da unidade entre nós a guiar a colaboração e a aprofundar a nossa solidariedade.

Cobertura do evento pela imprensa sueca

Os jornais suecos deram amplo destaque à presença do Papa no país. A foto de capa do principal jornal estampou o Pontífice com o casal real. O segundo em importância deu destaque ao protagonismo de Francisco nos eventos do dia 31, em Lund e em Malmö.

CONIC com The Lutheran World Federation e Rádio Vaticano
Foto 1: Magnus Aronson / Igreja da Suécia
Foto 2: Michael Campanella / GETTY

"O diálogo é um verdadeiro sinal dos tempos, mas representa uma realidade que devemos aprofundar em todos os sentidos", afirma Jesús Morán, copresidente dos Focolares.
 
A seguir, confira a integra do seu discurso na Universidade de Mumbai, durante viagem que fez pelo subcontinente indiano.
 
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"Seguindo o rastro de João Paulo II e de outros pensadores contemporâneos, Chiara Lubich descreveu a nossa época, pelo menos no Ocidente, com a categoria de “noite cultural”, não uma noite definitiva, mas uma noite que, segundo a Lubich, esconde uma luz, uma esperança.
 
Poderíamos dizer então que na noite cultural, que é também uma “noite do diálogo”, se oculta uma luz, ou seja, a possibilidade de elaborar juntos uma nova cultura do diálogo. Para fazer isto – a meu ver – a primeira coisa é redescobrir que ele está tão enraizado na natureza humana que em todas as culturas podemos encontrar o que eu chamaria “as fontes do diálogo”. Estas fontes estão reunidas nas grandes Escrituras e são fundamentalmente duas: a fonte que brota da experiência religiosa e a que nasce da busca filosófica da humanidade. Nesta linha deveríamos falar de fonte bíblica, corânica, védica, etc. Significa que em todas as Escrituras das tradições religiosas encontramos fortemente o acento sobre o diálogo. Deveríamos nos abeberar inclusive na filosofia grega, na metafísica islâmica, nos Upanishads, no pensamento budista, etc.
 
No Ocidente, no século passado se desenvolveu uma verdadeira escola de pensamento dialógico de raiz judaica e cristã. Sirvo-me, de modo particular, desta última fonte para lhes oferecer alguns princípios de uma antropologia do diálogo.
 
Primeiro: O diálogo “está inscrito na natureza do homem” a tal ponto que se pode dizer que é a própria definição do homem.
 
Segundo: No diálogo “cada homem é completado pelo dom do outro”, isto é, precisamos uns dos outros para sermos nós mesmos. No diálogo eu presenteio ao outro a minha alteridade, a minha diversidade.
 
Terceiro: Cada diálogo “é sempre um encontro pessoal”. Portanto, não se trata tanto de palavras ou de pensamento, mas de doar o nosso ser. O diálogo não é simples conversa, nem discussão, mas algo que toca no mais profundo dos interlocutores.
 
Quarto: O diálogo “exige silêncio e escuta”. Isto é decisivo, porque o silêncio é importante não só para o reto falar, mas também para o reto pensar. Como diz um provérbio: “Quando falares, faz com que as tuas palavras sejam melhores que o teu silêncio” (Dionísio, o Velho).
 
Quinto: O verdadeiro diálogo “constitui algo existencial” porque arriscamos a nós mesmos, a nossa visão das coisas, a nossa identidade. Às vezes sentimos que perdemos a nossa identidade cultural, mas é só uma passagem porque, na realidade, a identidade é enriquecida imensamente na sua abertura. Nós deveríamos ter uma “identidade aberta”. Isto significa saber quem somos; mas também estarmos convictos de que “quando entendo a mim mesmo com alguém… sei melhor, eu também, quem sou” (Fabris).
 
Outros princípios a mais. O diálogo autêntico “tem a ver com a verdade”, é um aprofundamento da verdade. Para os gregos antigos, o diálogo era o método para chegar à verdade. Isto significa que a verdade precisa sempre ser completada, ninguém possui a verdade, é ela que nos possui. Portanto, não se trata de relatividade da verdade, mas de “relacionalidade da verdade” (Baccarini).
 
“Verdade relativa” significa que cada um tem a sua verdade que é válida somente para si. Já “verdade relacional” significa que cada um participa e coloca em comum com os outros a sua participação da verdade, que é uma para todos. É diferente o modo como nós chegamos à verdade e como participamos dela. Por isso é importante dialogar: para nos enriquecermos das várias perspectivas.
 
Na relação, cada um descobre aspectos novos da verdade como se fossem próprios. Como diz Raimond Panikkar: “De uma janela se vê toda a paisagem, mas não totalmente”. É o que dizíamos antes: devemos conceber a diferença como um dom e não como um perigo. Um dos grandes paradoxos de hoje é que neste mundo globalizado temos medo da diferença, do outro.
 
O diálogo, além disso, “exige uma forte vontade”. O amor à verdade me leva a buscá-la e a desejá-la, e por isso me coloco em diálogo.
 
Dois últimos princípios. O diálogo “é possível somente entre pessoas verdadeiras”, e só o amor nos torna verdadeiros. Em outras palavras, o amor prepara as pessoas para o diálogo as tornando verdadeiras. O que torna fecundo o falar é a santidade de quem fala e a santidade de quem escuta. Eis a responsabilidade do diálogo em toda a sua dimensão: exige pessoas verdadeiras e torna as pessoas mais verdadeiras.
 
E enfim: a cultura do diálogo “conhece apenas uma lei que é a da reciprocidade”. É preciso este percurso de ida e volta para que exista verdadeiro diálogo. Em última análise, hoje se fala muito de interculturalidade. Acho que uma verdadeira interculturalidade é possível se começarmos a viver esta cultura do diálogo. Nunca ninguém disse que dialogar seja fácil. Exige-se aquilo que hoje é difícil pronunciar: sacrifício. Exige homens e mulheres “maduros para a morte” (Maria Zambrano), isto é, morrer a si mesmos para viver no outro."

Fonte: Focolares
Imagem: El diálogo, pintura de Miguel Angel Montaño (2013)

O Oriente Médio é, sem dúvidas, uma região fascinante. Berço de civilizações importantes, o local protagonizou o surgimento de movimentos religiosos que marcariam a história da humanidade. Judaísmo, cristianismo e islamismo, por exemplo, nasceram nessa região. Juntas, essas vertentes religiosas trouxeram ensinamentos de concórdia, paz e respeito, influenciando incontáveis gerações.

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Na atualidade, contudo, os países da região estão envolvidos em muitos conflitos. E há um indicativo de que essas confrontações possam se aprofundar mais, vide questões como: guerra contra minorias xiitas no Iêmen; escavações israelenses próximas à mesquita de Al-Aqsa; situação não resolvida dos curdos; disputas pelo poder na Síria; maior influência do Irã no vizinho Iraque, entre outros.

Para falar um pouco sobre a região e algumas perspectivas, o CONIC conversou, por e-mail, com o professor Reginaldo Nasser, mestre em Ciência Política (Unicamp) e doutor em Ciências Sociais (PUC-SP), atual chefe do Departamento de Relações Internacionais da PUC-SP e professor do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).

Confira:

CONIC: O Oriente Médio está, na atualidade, mergulhado em sérios conflitos: Síria, Iêmen, Iraque. É possível traçar uma causa comum para isso?

Reginaldo: Há várias causas que acabam convergindo para a ocorrência frequente de conflitos na região. Há questões específicas que envolvem cada um desses países. A guerra civil na Síria veio na sequência das revoltas populares contra a ditadura do governo Assad; no Iêmen, em decorrência da disputa pelo governo entre dois grupos políticos, um apoiado pelo Irã e outro pela Arábia Saudita; já o Iraque mergulhou num prolongado conflito armado em decorrência da ação militar dos EUA e Inglaterra. A causa comum é o intervencionismo de grandes potencias (EUA, França, Inglaterra e Rússia) e potencias regionais como Turquia, Irã e Arábia Saudita atuando diretamente ou indiretamente.

CONIC: Síria e Iraque são países importantes para a história do cristianismo, bem como do judaísmo e do islamismo. Qual o impacto dessas guerras para a perda de patrimônios históricos da humanidade?

Reginaldo: Qualquer que seja o conflito armado a perda de patrimônios históricos é sempre significativo, mas nada comparado com a perda de vidas humanas e com o deslocamento forçado de milhões de pessoas.

CONIC: Sobre a questão Palestina, que também gera conflitos de tempos em tempos, por que não se consegue um acordo de paz? A quem interessa esse constante estado bélico?

Reginaldo: Não se pode nunca perder de vista a origem concreta do conflito que foi a apropriação das terras palestinas por parte do Estado de Israel e a consequente expulsão dos palestinos. Trata-se de um processo de colonização que, de tempos em tempos, atinge picos de violência, mas a violência faz parte do cotidiano. A paz só poderá ser alcançada se houver desocupação de território. Como qualquer lugar do mundo, o povo palestino tem direito a ter seu Estado.

CONIC: Recentemente, o Brasil aprovou a Lei Antiterrorismo (13.260/2016). Acha que isso pode ter algum impacto para a comunidade árabe brasileira, sobretudo aos que professam a fé islâmica?

Reginaldo: A Lei Antiterrorismo atinge a todos nós, independentemente da origem étnica ou religiosa. Trata-se de uma lei que tem por objetivo coibir e dissuadir movimentos sociais retirando as mínimas garantias de liberdade de expressão. Claro que em tempos de islamofobia, um grupo poderá ser mais atingido do que outros. Algumas pessoas foram presas sem direito a defesa por supostamente serem simpatizantes de um grupo terrorista (ainda não há informações concretas sobre isso), durante a realização das Olimpíadas. Ao mesmo tempo, tratava-se com naturalidade ou até mesmo com certa condescendência, a atuação das milícias em territórios do Rio de Janeiro.

CONIC: Nos países de maioria islâmica, vemos crescer muitas iniciativas em prol dos direitos civis. Ao mesmo tempo, há um recrudescimento do fundamentalismo. Como fechar essa equação? Em outras palavras, qual será o horizonte para isso? Vencerá quem mais grita ou quem mais dialoga?

Reginaldo: Não é apenas o fundamentalismo islâmico que atinge os direitos humanos, mas todo e qualquer fundamentalismo que cresce em todos os lugares do mundo, como EUA, França e mesmo no Brasil. Trata-se, na verdade, de discutirmos mais os regimes políticos e menos as religiões. Veja por exemplo o caso do Egito. Após a destituição do presidente Hosni Mubarak no contexto das revoltas árabes, houve eleições e a Irmandade Mulçumana chegou ao poder. Esse, por sua vez, foi destituído por um golpe militar, sob o argumento de que o fundamentalismo islâmico estaria no poder. O atual regime militar egípcio é secular e dos que mais aviltam os direitos civis e conta com o apoio das chamadas democracias ocidentais.

CONIC: Por fim, quais alternativas você vislumbra para que, numa era tão obtusa quanto a nossa, consigamos superar conflitos e acolher o outro como irmão/ã?

Reginaldo: Creio que está mais do que demonstrado que as formas democráticas mais avançadas, isto é, que incorpore as dimensões políticas, econômicas e culturais em sua radicalidade é a meta que devemos buscar sempre.

Foto: Acervo pessoal

Num estado de saúde deplorável, aniquilados por doenças, uma miséria profunda e trabalhando como escravos para fazendeiros, povos indígenas inteiros estiveram próximos de desaparecer no final dos anos 60 e início da década de 70.

Isso é o que revelam informes confidenciais preparados pelo CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) e que estiveram guardados por quase meio século de forma sigilosa em Genebra. Alguns povos passaram a praticar abortos diante da constatação de famílias de que não teriam como garantir a sobrevivência da nova geração.

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A entidade, depois de uma intensa negociação com o governo militar brasileiro, foi a primeira organização internacional a sair ao resgate dos índios da Amazônia, num momento que jornais e especialistas estrangeiros apontavam para um "genocídio" na floresta brasileira.

A reportagem teve acesso a centenas de páginas de documentos dos arquivos do Comitê Internacional da Cruz Vermelha que, de forma inédita, apresentam detalhes do regime militar brasileiro entre 1965 e 1975. Os arquivos estavam fechados até este ano.

O que os documentos revelam é, acima de tudo, a miséria de um grupo cada vez mais pressionado por interesses econômicos e sem contar com a assistência da Funai (Fundação Nacional do Índio), considerada pelo CICV como "incapaz" de lidar com a crise.

Os alertas para a entidade começaram a chegar na primeira metade ainda dos anos 60, com especialistas europeus denunciando a crise. Os capítulos nacionais da Cruz Vermelha na Alemanha e nos países nórdicos também pressionaram e indicaram que estavam dispostos a financiar uma ação na Amazônia. Mas o CICV levaria anos para agir.

Primeiro, por alegar que jamais tomaram uma iniciativa similar. Quando optou por se lançar na operação, já em 1969, teve então de superar a resistência do governo brasileiro.

Na época, o então ministro do Interior, José Costa Cavalcanti, aceitou a missão, com o compromisso de que fosse puramente humanitária e que resultasse em uma ajuda real. Ele, porém, negava qualquer ato deliberado das autoridades em promover um massacre, tese divulgada naquele momento pela Europa.

Foi finalmente em 1970 que uma missão foi enviada ao Brasil, liderada pelos delegados Bo Akerren, Sjouke Bakker e Rolf Habersang. Em pouco mais de três meses, eles visitaram 20 povos e 30 vilarejos, tendo acesso ao que acreditam ser um terço da população indígena da Amazônia Legal naquele momento, avaliada em cerca de 70 mil.

Os delegados, em suas conclusões, disseram claramente que "não entrariam na questão se há ou não um genocídio". Mas foram taxativos: se nada for feito de forma rápida, "não haverá mais o problema indígena para resolver".
Para chegar a essa constatação, o grupo percorreu uma trajetória que se confundia com o percurso do abandono de populações inteiras pelas autoridades.

No dia 17 de maio de 1970, o diário da viagem dos delegados conta como na aldeia Santa Isabel, com 250 índios Carajás, a malária tracoma e gastroenterite dominavam o local. Mas o destaque foi o "baixo padrão de higiene, agravado pela presença de muitos cachorros que poderiam ser fonte de tuberculose". No dia seguinte, a duas horas dali em barco, uma outra aldeia foi descrita como tendo um "padrão muito baixo de higiene, pessoas e local sujos" e uma epidemia de influenza, pneumonia combinada com malária e tuberculose. "Essa aldeia Carajás deu a impressão de estar totalmente negligenciada e apática".

No dia 27, a visita a uma aldeia Kanayurá encontrou uma população "muito pobre", com a presença de bronquite, casas "muito dilapidadas" e mulheres e crianças "magras e fracas".

Alguns dias depois, entre os Bororo no Mato Grosso, a delegação deparou com uma situação de " extrema pobreza", anemia severa e com 15% da população sofrendo com tuberculose. "A tribo está rapidamente em declínio em números por conta das doenças, alimentação inadequada e completa ausência de ajuda médica", alertou. "A falta de ajuda vai logo levar à extinção dos Bororos", indicou a delegação.

No dia 1 de junho, numa visita a um ambulatório da Funai nas proximidades de Cuiabá, a delegação foi informada que o estado do Mato Grosso tinha apenas 50 camas para tratar tuberculose e com longas filas de espera. "As chances dos índios serem internados eram praticamente zero", constatou.

Abortos frequentes

Uma visita ao Seringal do Faustino, 60 km de Vilhena na direção de Porto Velho, também deu a dimensão da crise no dia 5 de junho de 1970. Numa aldeia Nambiquara, entre doenças e desnutrição, os índios apenas comiam "ocasionalmente algum arroz de um fazendeiro que queria que eles trabalhassem".

"Todos são obrigados a trabalhar para o fazendeiro, uma espécie de chefe local que os mantinha mais ou menos em um estado de completa dependência, dando algum arroz de tempos em tempos e ocasionalmente alguma roupa", disse. "As mulheres não querem engravidar, pois temem perder os filhos diante do trabalho duro que tem de fazer e do temor de não poder cuidar", apontou. O resultado eram abortos frequentes e, portanto, um estagnação na população da aldeia.

O risco de extinção ainda foi apontado na aldeia de Capitão Pedro, 50 quilômetros de Vilhena na direção de Cuiabá. Segundo o informe, um grupo de Nambiquaras estava em uma "situação verdadeiramente desesperadora e se ajuda não for dada, a aldeia provavelmente desaparecerá completamente". Não distante dali, a delegação constatou que sete pessoas de um grupo de cem índios tinham morrido de sarampo em três semanas. Outros 20 estavam doentes. Em Feijoal, duas horas de barco de Belém, os Ticuna estavam em uma situação "realmente miserável".

No posto da Funai de Mãe Maria, uma hora de Marabá, um outro grupo de 46 índios tinha apenas farinha para comer. "Esses índios estavam no estado mais deplorável que encontramos em termos de saúde", disse o informe. "Homens e mulheres estavam muito doentes", contou, apontando que eles haviam sido transferidos de suas terras diante da construção da rodovia Belém-Brasília.

Em agosto, um grupo Kayapó Xikrin, uma hora de Marabá, constatou que, alguns anos antes, uma epidemia de pólio matou um terço da aldeia, com cerca de 50 vítimas.

Risco do contato

Diante das constatações e das visitas, os delegados do CICV chegaram à conclusão de que os povos mais isolados são aqueles que estavam em melhor situação em termos de saúde. "Índios isolados em seus habitats podem ser considerados como estando melhor adaptados e em equilíbrio com o meio ambiente", indicou a missão.

Teria sido o contato com a "civilização", na maioria dos casos, que teria levado grupos inteiros a viver uma situação de risco. Como recomendação, o CICV sugere que os novos contatos fossem feitos de forma "cuidadosa". "Eles (índios) são tirados do equilíbrio em contato com outras civilizações, como a nossa", explicaram. Esse contato poderia levar a "novas infecções, novos hábitos de alimentação, estrutura social, novos sistemas de valores".

"Quanto mais rápido e sem controle (ocorrer) o contato, maior o risco de os índios sucumbirem, não apenas como membros de uma entidade tribal, mas também como seres humanos", constatou. Nos meses que se seguiram à missão, a entidade montou um amplo plano de entrega de remédios e alimentos na região, num esforço para evitar que a população indígena fosse dizimada.

Mas ela também constatou que não havia dúvidas de que, nos anos seguintes, a sociedade brasileira iria "forçar seu caminho a novas áreas e esses índios vão estar ainda mais pressionados". Quanto à Funai, seus recursos seriam "insuficientes" para lidar com a crise.

Uma avaliação que, 46 anos depois, provaria certeira ao ponto de uma recente relatora da ONU para o direito dos povos indígenas, Victoria Tauli Corpuz, adotar o mesmo tom em relação à pressão que grandes obras de infraestrutura podem gerar na demarcação de terras. "Informações apontam para uma regressão preocupante na proteção dos índios", afirmou. Ela ainda completou sua avaliação com uma constatação: "o país tem uma dívida histórica com os povos indígenas, que sofreram a marginalização desde a formação do Estado".

Dívida essa que continua sem ser quitada.

Fonte: Agência Pública
Foto: reprodução Agência Pública

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A Conferência Nacional dos Bispos dos Brasil (CNBB) criticou a aprovação da PEC 241, que congela por 20 anos as despesas do governo, indexando-as às inflação do ano anterior.

A entidade católica observa que a PEC não estabelece nenhum teto para despesas financeiras, como o pagamento dos juros da dívida pública. "A PEC 241 é injusta e seletiva. Ela elege, para pagar a conta do descontrole dos gastos, os trabalhadores e os pobres, ou seja, aqueles que mais precisam do Estado para que seus direitos constitucionais sejam garantidos. Além disso, beneficia os detentores do capital financeiro, quando não coloca teto para o pagamento de juros, não taxa grandes fortunas e não propõe auditar a dívida pública", afirma a entidade.

Segundo o texto, assinado pelo presidente da CNBB, Dom Sergio da Rocha, a PEC 241 supervaloriza o mercado em detrimento do Estado. "Diante do risco de uma idolatria do mercado, a Doutrina Social da Igreja ressalta o limite e a incapacidade do mesmo em satisfazer as necessidades humanas que, por sua natureza, não são e não podem ser simples mercadorias", afirma.

A entidade defende a mobilização da população para derrubar a PEC e lança sobre o Senado a responsabilidade de dialogar com a população. "É possível reverter o caminho de aprovação dessa PEC, que precisa ser debatida de forma ampla e democrática. A mobilização popular e a sociedade civil organizada são fundamentais para superação da crise econômica e política. Pesa, neste momento, sobre o Senado Federal, a responsabilidade de dialogar amplamente com a sociedade a respeito das consequências da PEC 241", afirma.

Confira a nota na íntegra:

“Não fazer os pobres participar dos próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida.”
(São João Crisóstomo, século IV)

O Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunido em Brasília-DF, dos dias 25 a 27 de outubro de 2016, manifesta sua posição a respeito da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241/2016, de autoria do Poder Executivo que, após ter sido aprovada na Câmara Federal, segue para tramitação no Senado Federal.

Apresentada como fórmula para alcançar o equilíbrio dos gastos públicos, a PEC 241 limita, a partir de 2017, as despesas primárias do Estado – educação, saúde, infraestrutura, segurança, funcionalismo e outros – criando um teto para essas mesmas despesas, a ser aplicado nos próximos vinte anos. Significa, na prática, que nenhum aumento real de investimento nas áreas primárias poderá ser feito durante duas décadas. No entanto, ela não menciona nenhum teto para despesas financeiras, como, por exemplo, o pagamento dos juros da dívida pública. Por que esse tratamento diferenciado?

A PEC 241 é injusta e seletiva. Ela elege, para pagar a conta do descontrole dos gastos, os trabalhadores e os pobres, ou seja, aqueles que mais precisam do Estado para que seus direitos constitucionais sejam garantidos. Além disso, beneficia os detentores do capital financeiro, quando não coloca teto para o pagamento de juros, não taxa grandes fortunas e não propõe auditar a dívida pública.

A PEC 241 supervaloriza o mercado em detrimento do Estado. “O dinheiro deve servir e não governar! ” (Evangelii Gaudium, 58). Diante do risco de uma idolatria do mercado, a Doutrina Social da Igreja ressalta o limite e a incapacidade do mesmo em satisfazer as necessidades humanas que, por sua natureza, não são e não podem ser simples mercadorias (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 349).

A PEC 241 afronta a Constituição Cidadã de 1988. Ao tratar dos artigos 198 e 212, que garantem um limite mínimo de investimento nas áreas de saúde e educação, ela desconsidera a ordem constitucional. A partir de 2018, o montante assegurado para estas áreas terá um novo critério de correção que será a inflação e não mais a receita corrente líquida, como prescreve a Constituição Federal.

É possível reverter o caminho de aprovação dessa PEC, que precisa ser debatida de forma ampla e democrática. A mobilização popular e a sociedade civil organizada são fundamentais para superação da crise econômica e política. Pesa, neste momento, sobre o Senado Federal, a responsabilidade de dialogar amplamente com a sociedade a respeito das consequências da PEC 241.

A CNBB continuará acompanhando esse processo, colocando-se à disposição para a busca de uma solução que garanta o direito de todos e não onere os mais pobres.

Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, continue intercedendo pelo povo brasileiro. Deus nos abençoe!

Dom Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília
Presidente da CNBB

Dom Murilo S. R. Krieger, SCJ
Arcebispo de São Salvador da Bahia
Vice-Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner, OFM
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário-Geral da CNBB

CONIC com agências / Brasil 247 / CNBB
Imagem: iStockphoto

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Um número crescente de refugiados muçulmanos na Europa está se convertendo ao cristianismo, escreveu o jornal britânico The Guardian, em matéria que abrangia um panorama interno e externo aos limites do Reino Unido. Os números envolvidos são eloquentes, baseados, por exemplo, nos batismos em massa que se verificam nos diversos países, frisou o jornal.

Na Áustria, a Igreja católica registrou 300 pedidos de batismo de adultos só no primeiro trimestre de 2016. A pastoral do país estima que 70% desses pedidos vieram de refugiados.

Os fiéis da igreja da Trindade em Steglitz, Berlim, aumentaram de 150, há dois anos, para 700, devido, segundo o pároco Gottfried Martens, às conversões de muçulmanos.

Em Liverpool, Inglaterra, das cerca de 100 a 140 pessoas que assistem à missa semanal em língua farsi, a maioria é imigrante do Irã e do Afeganistão. Um em cada quatro, conforme levantamento realizado pelo bispo de Bradford, dom Toby Howarth, é convertido do islã.

Na maior parte dos casos, trata-se de requerentes de asilo. A conversão é uma questão delicada e a Igreja a trata com extremo cuidado. Publicamente, fala-se pouco do assunto porque o risco de alimentar as tensões com o mundo muçulmano é alto, em especial no atual contexto histórico de crescente fundamentalismo islâmico no Oriente Próximo e Médio, bem como na África, onde a religião tem sido explorada a ponto de ser vista como o próprio pivô dos conflitos em andamento. Cada palavra sobre o tema deve ser ponderada, até porque o diálogo cuidadoso tem sido o caminho traçado há décadas.

Atração, não proselitismo

“A Igreja está crescendo, mas não por fazer proselitismo: ela não cresce por proselitismo; ela cresce por atração, pela atração do testemunho que cada um de nós dá ao povo de Deus”, declarou o papa Francisco, esclarecendo os termos da discussão.

A perspectiva, portanto, tem no centro a evangelização, essencialmente ligada ao anúncio do Evangelho a quem não conhece Jesus Cristo ou sempre o rejeitou, como comentou o papa na Evangelii Gaudium, seu documento programático de pontificado. Números oficiais não existem. Estimativas estatísticas não estão disponíveis. Ainda assim, é notório que muitos daqueles que não conhecem Jesus ou que antes o rejeitavam “estão buscando a Deus em segredo, impulsionados pela sede do seu Rosto, inclusive em países de antiga tradição cristã”, observa o pontífice. E “todos têm o direito de receber o Evangelho”. Não se trata de impor “uma nova obrigação, mas de compartilhar uma alegria, sinalizando um horizonte belo”.

Faz algumas semanas, o tema foi abordado pelo cardeal suíço Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, durante uma conferência inter-religiosa no Instituto Woolf da Universidade de Cambridge: “Nós temos missão de converter a todos os que pertencem a religiões não cristãs”, disse o cardeal, mas acrescentando que “é importante fazê-lo mediante o testemunho credível e sem qualquer proselitismo”. No entanto, bastou o uso da palavra “converter” para desencadear um grande tumulto, que acabou exigindo a intervenção do diretor do gabinete de imprensa do Vaticano para esclarecer as palavras de Koch e afirmar que os relatos dos jornais não correspondiam ao que ele realmente tinha dito. E isso que o cardeal já tinha deixado claro que o proselitismo não é a receita para voltar a preencher uma Igreja que, em certas latitudes, sofre de uma dormência generalizada que vai muito além dos bancos vazios nas missas de domingo. Koch mencionara os muçulmanos, embora a sua referência principal fossem os jihadistas, que, por trás da bandeira da crença religiosa, perseguem, na verdade, fins políticos: “Precisamos converter, acima de tudo, os que usam da violência, porque, quando uma religião usa a violência para converter os outros, estamos diante do abuso da religião”.

A conversão do iraniano Johannes

A atração cristã de que falava o Papa Francisco é clara no testemunho de Johannes, um iraniano que, na matéria do Guardian, contou como e por que se converteu. Nascido em família muçulmana, ele se chamava Sadegh. Na universidade, começou a se fazer perguntas sobre as raízes do islã. E afirma: “Descobri que a história do islã era totalmente diferente do que eu tinha aprendido na escola. Talvez, comecei a pensar, ela fosse uma religião que se estabeleceu com a violência”. Prossegue Johannes, que hoje mora em Viena: “Mas uma religião que dá os seus primeiros passos com a violência não pode levar as pessoas à liberdade e ao amor. Jesus Cristo disse que quem com espada fere, com espada perece. Isso realmente mudou a minha forma de pensar”. Johannes empreendeu o seu caminho de conversão no Irã, mas logo se viu forçado a deixar o país.

Conversões de fachada?

É claro que existe o risco de que as pessoas só procurem o batismo esperando maiores chances de conseguir asilo na Europa. Por este motivo, a Conferência Episcopal Austríaca publicou no ano passado novas orientações para os sacerdotes, alertando que muitos refugiados poderiam tentar facilitar o seu estabelecimento no país através da suposta conversão. “Admitir ao batismo pessoas identificadas como ‘não críveis’ implica perda de credibilidade para a própria Igreja”. Desde 2014, aplica-se um período de preparação em que se verifica o desejo sincero da conversão. “Não estamos interessados em ter cristãos pro forma”, explica Friederike Dostal, que coordena os cursos de preparação para o batismo de adultos na arquidiocese vienense.

Na Alemanha, o pe. Martens também só batiza muçulmanos depois de três meses de catequese: “Muitos são mesmo atraídos pela mensagem cristã, que muda a sua vida”. Os que nunca mais põem os pés na igreja depois da suposta conversão chegam a cerca de 10%, conta ele.

Conversões autênticas em países improváveis

Já os casos como o de Johannes são vários, inclusive em países onde a atração cristã pareceria impossível. Na Arábia Saudita, por exemplo, o número de cristãos está crescendo mesmo com a proibição de quaisquer cultos que não sejam o oficial: o islã. Estimativas, de novo, não há. A base para esta observação são os sinais que se percebem no cotidiano. De acordo com os raros dados disponíveis, os cristãos existentes no país wahabita seriam pouco mais de um milhão; na maioria, trabalhadores estrangeiros. A organização Open Doors (Portas Abertas), criada para defender os cristãos perseguidos em todo o mundo, revelou recentemente que também entre os sauditas estão crescendo as conversões – em segredo, é claro. O exemplo citado é o de Mohammed (nome fictício), que se converteu ao cristianismo depois de vasculhar informações na internet. Ele conheceu cristãos de fora das fronteiras do reino saudita e, pela primeira vez na vida, em outro país do Oriente Médio, entrou em uma igreja e começou a estudar a bíblia. Depois de alguns dias, perguntado sobre quem era Jesus, ele respondeu: “É meu salvador, é meu Deus”. Recebeu o batismo antes de voltar para casa, sem que ninguém soubesse.

A história não é muito diferente da do escritor Nabil Qureshi, autor do livro “Buscar Alá, encontrar Jesus”. Qureshi relatou repetidas vezes, publicamente, a sua experiência de jovem muçulmano vivendo no Ocidente, alertado continuamente contra os “riscos de contaminação” que sofreria dos cristãos. “Os primeiros versos do alcorão que memorizávamos na mesquita proclamam que Deus não é pai nem filho. Já o recitávamos aos 6 anos de idade. Também aprendemos que Maomé foi o maior mensageiro de Deus e que nunca viveu neste planeta nenhum homem mais perfeito do que ele. Não é difícil entender como eu me tornei um ferrenho opositor da Trindade”, ri ele hoje. Também no seu caso foi decisivo um encontro: seu amigo David era capaz de dialogar de modo quase teológico. Depois de um milhar de disputas, brigas e confrontos, até mesmo sobre a confiabilidade dos Evangelhos e da crucificação de Cristo, veio o ponto de viragem pelo qual passam ainda muitos outros jovens: “Eles entendem que a visão cristã de Jesus é muito mais coerente do que a visão dos muçulmanos sobre o Nazareno. Eles podem ver que o islã foi construído sobre bases muito fracas do cristianismo. E podem parar de afastar as pessoas de Jesus, passando a anunciar o Evangelho. Foi o que aconteceu comigo. É o que pode acontecer com eles”.

Evangelização indireta

Que o tema é delicado fica claro pelo sínodo sobre a evangelização, de 2012, que abordou as conversões do islamismo ao cristianismo, mas sem alarde. Um panorama da situação foi pintado por dom Bechara Boutros Raï, o patriarca de Antioquia dos Maronitas, criado cardeal no ano seguinte pelo papa Bento XVI em seu último consistório: “A evangelização nos países árabes é realizada indiretamente, dentro das escolas católicas, das universidades, dos hospitais e das instituições pertencentes a dioceses e ordens religiosas abertas tanto a cristãos quanto a muçulmanos. A evangelização indireta é praticada principalmente através dos meios de comunicação social, em especial os católicos, que transmitem as celebrações litúrgicas e vários programas religiosos. Constatamos, entre os muçulmanos, conversões secretas ao cristianismo”. Raï, no auge da agitação política e social que inflamava o Magreb e o Oriente Próximo, falou do advento de uma “primavera cristã, que levará, pela graça de Deus e graças a uma nova evangelização iluminada, a uma verdadeira primavera árabe da democracia, da liberdade, da justiça, da paz e da defesa da dignidade de todo homem, contra todas as formas de violência e de violação dos direitos”.

Basta pensar em Marrocos, onde a presença cristã triplicou em quinze anos e os neófitos pertencem principalmente às classes médias altas, que veem no cristianismo “uma religião da tolerância e do amor”, em contraste com um islã demasiado restritivo. Abdul al Halim, médico e coordenador da igreja anglicana local, explicou no ano passado que “a religião (cristã) só pode ser praticada em segredo”, já que o credo muçulmano é a religião de estado. “Somos forçados a rezar como se fôssemos uma associação secreta. Tivemos até que nos dividir em dois grupos para evitar chamar a atenção”.

Uma prova do crescimento das conversões inclusive em áreas de forte predominância islâmica vem do Patriarcado Latino de Jerusalém, que contou a história das conversões ao cristianismo no Egito, o país árabe com a maior quantidade de cristãos entre seus habitantes. Repete-se o cenário: não há números exatos, porque “quem se converte sofre o risco de processos judiciais ou mesmo de morte, caso a conversão se torne pública”.

Uma nova igreja das catacumbas

É uma “Igreja das catacumbas”, continuou o Patriarcado, “não tanto por causa do confronto com o governo, como pode ser o caso na China e em outros países asiáticos, mas para se proteger das vinganças das comunidades de origem dos novos cristãos”.

E o fator que desencadeia o processo de crescimento da Igreja é o mesmo dos princípios do cristianismo: “Na perseguição, ou seja, quando a conversão parece mais improvável e mais perigosa, a mensagem de Cristo vai abrindo o seu caminho. E é justamente nisto que pensam os cristãos: eles são perseguidos, mas, ainda mais do que isto, são encorajados a estender a sua Igreja, que cai, mas se levanta toda vez”.

Fonte: Aleteia (a partir de texto de Mateus Matzuzzi, em Il Foglio, via Il sismografo)
Foto: AIS - Ajuda à Igreja que Sofre

A presidente do Conselho Mundial de Igrejas para a América Latina, Glória Ulloa, estará presente no encontro Mulheres: Direitos e justiça - Compromisso Ecumênico, que será realizado em São Paulo, entre os dias 17 e 20 de novembro. Na oportunidade, ela falará sobre alguns dos principais desafios que o movimento ecumênico de mulheres entrenta nos dias de hoje. Outra presença já confirmada será a da secretária-geral do Conselho de Igrejas Cristãs de Angola, Deolinda Teka.

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O encontro é promovido pelo CONIC, em parceria com o Dia Mundial de Oração e o Movimento Lado a Lado. O objetivo é trabalhar a questão da violência contra mulheres, recuperar a história do protagonismo feminino no movimento ecumênico e desafiar as igrejas e a sociedade, nos dias de hoje, para o compromisso com a efetivação dos direitos e da justiça para as mulheres.

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Foto: Peter Williams/WCC

A paróquia Bom Pastor, em Brusque (SC), com apoio do Sínodo Vale do Itajaí sediou, dos dias 19 a 23 de outubro, o XXX Concílio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). Este ano, o Concílio trabalhou o seguinte tema: “Por uma Comunidade Missional: agora são outros 500”, em sintonia com a temática “Missão” e o Tema do Ano da IECLB para 2017, ano do Jubileu da Reforma.
 
No dia 21, foi realizado um culto ecumênico com a presença de diversos convidados. Entre eles estava o presidente do CONIC, dom Flávio Irala, que é bispo da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB).
 
A Pregação foi feita pelo pastor Breno Willrich, a partir do texto bíblico de Mateus 4.1-5. “A missão é de Deus. É Ele mesmo, pelo Espírito Santo, que age mediante o Evangelho, que cria e mantém a Igreja. Portanto, devemos afirmar que a missão que Deus concedeu à Igreja não está condicionada à nossa força. Não é o nosso ‘discurso a respeito de Deus’ nem a nossa incansável atividade que promove a fé. Esta compreensão nos chama à humildade e à oração para que Deus nos conceda o seu Espírito Santo. Caso contrário, não há Igreja, por mais que façamos. Também é verdade que a Missão de Deus não está condicionada aos nossos limites e fraquezas – Deus faz missão por nós apesar das nossas fraquezas. Sim, Deus faz missão por nós, IECLB, por nós, Ministros e Ministras, lideranças que aqui representamos, mulheres e homens, pessoas falhas que somos – instituição falha que somos”, afirmou.
 
Tome nota!
 
O Concílio da Igreja, órgão deliberativo máximo da IECLB, é realizado, ordinariamente, a cada dois anos, sempre em uma Comunidade diferente da IECLB.
 
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CONIC com informações da IECLB
Foto: IECLB

A Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou uma nota ao final de um encontro realizado em Brasília (DF), nos dias 18 e 19 de outubro. No texto, os membros da Comissão e os bispos referenciais das Pastorais Sociais manifestam preocupação com o cenário de retrocessos dos direitos sociais em curso no Brasil.
 
A nota refere-se às sugestões de reforma trabalhista e terceirização; reforma do Ensino Médio; reforma da Previdência Social e à Proposta de Emenda Constitucional 241/2016, que estabelece teto nos recursos públicos para as políticas sociais, por 20 anos. As proposições estão em pleno andamento na pauta política e social do Brasil com o novo governo, que tem apoio amplo no Congresso Nacional. Segundo o texto, tais medidas “colocam em risco os direitos sociais do povo brasileiro, sobretudo dos empobrecidos”.
 
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“Em sintonia com a Doutrina Social da Igreja Católica, não se pode equilibrar as contas cortando os investimentos nos serviços públicos que atendem aos mais pobres de nossa nação. Não é justo que os pobres paguem essa conta, enquanto outros setores continuam lucrando com a crise”, afirmam os bispos.
 
Ainda no texto, assinado pelo bispo de Ipameri (GO) e presidente da Comissão Episcopal para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da CNBB, dom Guilherme Antônio Werlang, há a afirmação de solidariedade com os movimentos sociais e o encorajamento para que as Pastorais Sociais manifestem-se “na defesa das conquistas sociais garantidas na Constituição Federal de 1988, na qual a CNBB tanto se empenhou no final da década de 1980”.
 
O encontro
 
Dois grandes objetivos permearam o encontro realizado no Centro Cultura de Brasília (CCB) com a presença dos membros da Comissão, dos bispos referenciais das Pastorais em âmbito nacional e regional, coordenadores e agentes. O primeiro foi abrir espaço para que os bispos partilhassem sobre a presença episcopal nas Pastorais e organismos vinculados à CNBB e os agentes indicassem as necessidades de apoio e incentivo que esperam da Comissão. O segundo ponto foi a reflexão a respeito do aprofundamento da Doutrina Social da Igreja por parte dos bispos que assumem o papel de referencial nas Pastorais.
 
Além das atividades de partilha e reflexão, foi proposto aos bispos, presbíteros, religiosos e leigos um estudo sobre “Pastoral Social: dimensão socioestrutural da caridade cristã”, assessorado pelo autor do livro que aborda a temática, o doutor em Teologia padre Francisco de Aquino Júnior.
 
Leia a nota na íntegra:
 

Nota da Comissão Episcopal Pastoral Para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz

“Nenhuma família sem casa,
Nenhum camponês sem terra,
Nenhum trabalhador sem direitos,
Nenhuma pessoa sem dignidade”.
Papa Francisco.
 
Nós, Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz, e bispos referenciais das Pastorais Sociais, da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil, reunidos em Brasília, nos dias 18 e 19 de outubro de 2016, manifestamos nossa preocupação com o cenário de retrocessos dos direitos sociais em curso no Brasil.
 
Entendemos que as propostas de reforma trabalhista e terceirização, reforma do Ensino Médio, reforma da Previdência Social e, sobretudo, a Proposta de Emenda Constitucional, PEC 241/2016, que estabelece teto nos recursos públicos para as políticas sociais, por 20 anos, colocam em risco os direitos sociais do povo brasileiro, sobretudo dos empobrecidos.
 
Em sintonia com a Doutrina Social da Igreja Católica, não se pode equilibrar as contas cortando os investimentos nos serviços públicos que atendem aos mais pobres de nossa nação. Não é justo que os pobres paguem essa conta, enquanto outros setores continuam lucrando com a crise.
 
Afirmamos nossa solidariedade com os Movimentos Sociais, principalmente de trabalhadores e trabalhadoras, e com a juventude, que manifestam seu descontentamento com as propostas do governo, bem como todas as organizações que lutam na defesa dos direitos da população.
 
Encorajamos as Pastorais Sociais a participarem, com os demais movimentos e organizações populares, na defesa das conquistas sociais garantidas na Constituição Federal de 1988, na qual a CNBB tanto se empenhou no final da década de 1980. Não desanimemos diante das dificuldades. Somos povo da esperança!
 
Com compromisso profético, denunciamos, como fez o Profeta Amós: “Eles vendem o justo por dinheiro, o indigente, por um par de sandálias; esmagam a cabeça dos fracos no pó da terra e tornam a vida dos oprimidos impossível” (Am 2,6-7).
 
O Espírito do Senhor nos anima no serviço da Caridade, da Justiça e da Paz. Com Maria cantamos a grandeza de Deus que “derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes; enche de bens os famintos e manda embora os ricos de mãos vazias” (Lc 1, 51s).
 
Brasília, 19 de Outubro de 2016.
 
Dom Guilherme Werlang
Bispo de Ipameri - GO
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para
o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz
 
Fonte: CNBB
Foto: Reprodução
Obs.: o título foi adaptado.