Grupos e pessoas de comunidades cristãs de diversas partes do mundo, sejam de orientação protestante, anglicana, católica, ortodoxa ou evangélica pentecostal organizam-se e abrem espaços para a teologia inclusiva orientada para uma pastoral e diaconia abertas à diversidade, em especial relacionada à orientação de gênero. Essa teologia e as pastorais e práticas diaconais nem sempre são aceitas pela maioria das pessoas cristãs.
 
Alguns teólogos e algumas teólogas, no entanto, argumentam que as igrejas, comunidades inclusivas ou as pastorais da diversidade costumam ter uma interpretação heterodoxa da bíblia, flexibilizando hermenêuticas há muito consolidadas e naturalizadas em relação à orientação sexual. Do outro lado da fronteira, teólogos, teólogas, lideranças leigas identificadas com a teologia inclusiva chamam a atenção para a hermenêutica da suspeita e para a necessidade de reler os textos bíblicos que condenam a homossexualidade, considerando o contexto histórico e religioso do período bíblico. A ênfase em Deus da graça e do amor é outra referência importante para quem se identifica com a teologia inclusiva. 
 
Apesar de conviverem com o preconceito, essas igrejas, comunidades, grupos e pastorais acolhem, principalmente, quem não teve a chance de se integrar na vida comunitária de outras igrejas, seja pela orientação sexual ou pelo estilo de vida.
 
A Comunidade Athos, em Brasília, é uma igreja evangélica. Ela foi criada por pessoas rejeitadas por causa da orientação sexual. Isso ocorreu há 12 anos e, desde então, recebe cerca de 80 pessoas por semana em sua sede.
 
 
Keila Guedes (foto acima, esq.), foi criada em um lar evangélico tradicional. Ela teve que passar por um longo processo de autoconhecimento para, a partir daí, compreender que Deus a amava incondicionalmente, tal como ela era. Hoje ela vive com Luana Leite (foto acima, dir.) e ambas frequentam uma comunidade inclusiva. “Sempre oramos, entregamos nossas vidas a Deus e nada nos tem faltado. Perdi o medo de Deus, comecei a me aprofundar na Bíblia, pois antes eu apenas lia sob a ótica da igreja tradicional que eu frequentava. Eu pedia muito para Deus mudar o que estava dentro de mim, quem eu era realmente, assim como Luana também fazia. Até que perdemos o medo e resolvemos ser felizes como somos, como Deus nos ama”, conta Keila.
 
Do lado católico há também uma série de iniciativas que buscam incluir. Um dos exemplos mais visíveis é a Pastoral da Diversidade. Em atuação desde 2007, o grupo fornece subsídios teológicos e pastorais, e promove o diálogo, a reflexão, a oração e a partilha. No site da Pastoral eles explicam que se trada de “um grupo de leigos católicos que procura conciliar a fé cristã e a diversidade sexual e de gênero, promovendo o diálogo e a reflexão, a oração e a partilha, compreendendo que a salvação de Cristo e sua mensagem são para todos, sem distinção”.
 
Eliziario Siqueira é casado com Ricardo Purini há três anos. Católicos praticantes, eles são do interior de São Paulo e têm uma vivência bastante ativa na comunidade em que frequentam. “Tivemos um filhinho, que se chama Eliziario Neto. Batizamos nosso filho na igreja e foi muito lindo. Tínhamos muito medo de que o batismo fosse negado, mas, pelo contrário, fomos muito bem acolhidos; o padre fez um batismo lindo”, afirma Eliziario.
 
Ano passado, a Igreja Anglicana na Inglaterra publicou uma orientação afirmando que as “crianças deveriam poder ‘brincar com os muitos mantos de identidade’ nas escolas e não sofrer bullying ou repressão por motivos de gênero.” O pronunciamento fez parte do anúncio de um conjunto de orientações dadas às cerca de 4.700 escolas primárias que a Igreja administra no Reino Unido. O objetivo é coibir o bullying motivado por orientação sexual ou identidade de gênero. Intitulado “Valorizando todas as crianças de Deus”, o pronunciamento afirma que “todo bullying, incluindo o homofóbico, bifóbico e transfóbico, provoca danos profundos, que levam a maiores índices de desordens mentais, depressão e suicídio”.
 
A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), ligada à Igreja da Inglaterra, não pratica nenhuma discriminação para a ordenação e o exercício do ministério ordenado de pessoas homossexuais. A IEAB também se coloca como um espaço em que todas as pessoas, sem distinção, podem ficar confortáveis em um ambiente livre de discriminações. 
 
"Independentemente da polêmica que o tema gera, ele tem, a cada dia, desafiado as igrejas a refletirem sobre os desafios pastorais e diaconais que os enfoques da teologia inclusiva apresenta. Muitas famílias que vivem a experiência de um filho ou uma filha descobrir e assumir a sua orientação sexual precisam de uma palavra amorosa e acolhedora das suas lideranças religiosas. A condenação não é coerente com o evangelho", opina a secretária-geral do CONIC, Romi Bencke.
 
CONIC com informações do Portal Metrópoles e do Nexo Jornal
Foto 1: Pixabay
Foto 2: Acervo pessoal / Keila Guedes

 
 
Artigo publicado na revista Extraprensa traz as reflexões levantas por um projeto de pesquisa em andamento cujo objetivo é averiguar como acontece a participação e qual é a interpretação da mídia brasileira, e dos sujeitos nela envolvidos, sobre o trabalho escravo contemporâneo. A pesquisa se fundamenta em estudos com um grupo de agentes de entidades governamentais e não governamentais que compõem a rede de combate desse tipo de trabalho exploratório em nosso país.
 
 
Em seus depoimentos, representantes de movimentos sociais ressaltam que as informações nas mídias sobre a questão se mostram, muitas vezes, superficiais, e apontam a ausência de políticas públicas básicas como as principais causadoras do problema.
 
Redes e embates
 
Autoras do estudo, Flávia Moura e Denise da Conceição explicam que redes são espaços sociais, “arena dos embates sociais e de lutas políticas. São espaços de articulação de campos e eixos de poder. Redes possibilitam tanto a reprodução quanto a transformação das relações de poder”. Dessa rede de combate sistemático ao trabalho escravo contemporâneo, as autoras destacam três entidades governamentais e quatro não governamentais atuantes, tanto no Estado do Maranhão quanto no Brasil todo.
 
Dentre as não governamentais de abrangência nacional, realçam a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a ONG Repórter Brasil e o Movimento Humanos Direitos (MHuD). No âmbito estadual, listam o Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos Carmen Bascarán (CDVDH/CB), no município de Açailândia (MA). E, dentre as entidades governamentais, tem-se o Ministério do Trabalho (MT), que age por meio da Superintendência Regional do Trabalho no Maranhão, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT‑MA) e o Ministério Público do Trabalho (MPT‑MA).
 
Para as autoras, não há valorização dos trabalhadores e muito menos punição “dos que cometem o crime de trabalho escravo”. Os agentes da CPT e da ONG Repórter Brasil, durante as entrevistas de pesquisa, constataram que a “imprensa não aborda os fatos como eles são”, e não se promove a (re)inserção de indivíduos no mercado de trabalho.
 
Vale lembrar que, no Brasil, o trabalho escravo não é “mera irregularidade trabalhista”, mas sim “um crime de lesa‑humanidade, previsto no Código Penal Brasileiro, que viola direitos humanos fundamentais”.
 
Embora o movimento social se empenhe em divulgar a questão na mídia, Flávia Moura e Denise da Conceição declaram que “as vozes mais legitimadas para falar da temática na mídia tradicional ainda são as entidades públicas e os operadores do Direito” – as “fontes oficiais”, encarregadas de elucidar o crime e “dimensionar os dados para a sociedade, principalmente em casos de divulgação de ações de fiscalização”.
 
Como primeiros resultados, as autoras salientam que as entidades estudadas participam das análises sobre o tema e, na verdade, “disputam a constituição de uma opinião pública sobre o trabalho escravo na sociedade brasileira”. Agentes de entidades da sociedade civil mostraram que o trabalho de campo que realizam, muitas vezes veiculado pela TV, “dão visibilidade ao problema e, de alguma forma, legitimam o trabalho de denúncia realizado pelo movimento social”. Assim nos mostram os depoimentos de trabalhadores que decidem denunciar as condições de abuso sofridas em fazendas, por exemplo, encorajados pelas reportagens.
 
Leia o artigo completo neste link.
 
Flávia de Almeida Moura é jornalista, mestre em Ciências Sociais, doutora em Comunicação, pesquisadora e professora adjunta do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão.
 
Denise Araújo da Conceição é relações públicas e aluna especial do Programa de Mestrado Interdisciplinar Cultura e Sociedade da Universidade Federal do Maranhão.
 
Texto: Margareth Artur / Portal de Revistas da USP
Foto: Pixabay 

 
 
Este não é apenas um momento de brutalidade extrema no Brasil. É também um momento de potências emergindo. E começos de alianças até então impensáveis. É preciso perceber onde estão as possibilidades – e fazer frente àqueles que, diante da democracia corrompida do país, avançam sobre os corpos humanos.
 
A expectativa dos atores mais truculentos é de que a porteira foi aberta e desde então está tudo dominado. Mas acreditar que está tudo dominado é deixar de perceber que a violência se multiplica também porque não está tudo dominado. A violência da bandidagem instituída e não instituída é também uma reação a profundos avanços no interior dos Brasis. É nestes avanços que uma rede de proteção e resistência que consiga superar divergências não fundamentais precisa ser organizada. Porque a matança não para. Desde o assassinato de Marielle Franco, o medo de quem está na linha de frente aumenta e trespassa o país.
 
Neste exato momento, há pelo menos duas lideranças da floresta amazônica escondidas para não se tornarem, como Marielle, um corpo destruído à bala. Seus nomes: Francisco Firmino Silva, 68 anos, mais conhecido como Chico Caititu, e Ageu Lobo Pereira (foto abaixo), 36. Seu crime: realizarem o que o Estado é obrigado a fazer mas não faz, que é a demarcação e implantação do Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Montanha e Mangabal. E também a proteção do território de floresta.
 
 
Ao fazer o que o Estado deveria fazer mas não faz, os ribeirinhos enfrentam o crime organizado no rio Tapajós, na região de Itaituba, no Pará. Para aqueles que querem avançar sobre essa porção valorizada da Amazônia, a única barreira são os corpos dos beiradeiros que defendem o território de uma ameaça grande demais: o comércio internacional de madeiras e o ouro que acaba no mercado financeiro já lavado do sangue.
 
Chico Caititu e Ageu Lobo não são os únicos. Há homens e mulheres ameaçados de morte em toda a Amazônia brasileira e nas periferias das grandes cidades. Há lideranças na mira da bala em quilombos, terras indígenas, assentamentos, acampamentos, ocupações e favelas.
 
O medo de ser morto se alastra pelo país. Setores da classe média que apoiam essas lutas começam a temer por sua vida, um temor que se acirrou com a execução de Marielle Franco. Há os que acreditam ter a escolha de deixar de lutar. São os que têm o privilégio de um plano B ou o de simplesmente não fazer nada. Mas há os que não têm escolha porque esta é sua própria vida. Ou morte.
 
Como os dias se tornam mais graves, o momento é exigente para quem vive no Brasil. Diante do sangue das horas, como cada um vai se posicionar?
 
1) Marielle Franco e as forças emergentes
 
O assassinato de Marielle Franco apontou algumas realidades. A mais evidente é o limite superado no país sem limites. Destruir o corpo de uma vereadora no Rio de Janeiro sob intervenção federal, intervenção que esta mesma vereadora criticava, é uma declaração de pode tudo. Mas só se destrói aquilo que ameaça.
 
O fato de que uma mulher negra, lésbica, feminista, nascida na favela da Maré, tenha se tornado a quinta vereadora mais votada do Rio é um indicador de mudança. Marielle era uma bandeira de múltiplas lutas identitárias que havia conquistado um lugar nas instituições. Mas era bem mais do que isso.
 
Marielle ocupou uma posição dentro da política formal (pelo PSOL, um partido de esquerda), e tornou-se uma vereadora que trabalhava. Sua atuação era focada em políticas públicas para as mulheres, para os negros e para os LGBT – assim como por direitos humanos que se expressavam no concreto da vida cotidiana. Ela também denunciava as milícias e os abusos da Polícia Militar no Rio.
 
Marielle realizava, com o exemplo de sua própria vida, o discurso de que a política precisa se renovar no Brasil. E dava um corpo concreto, este que foi destruído, a algo transgressor nestes tempos de antipolítica: o de que a democracia ainda pode responder aos anseios de igualdade e romper com os destinos marcados.
 
Essa é a primeira realidade que a tornou uma pessoa perigosa para diferentes grupos que disputam o poder em diferentes instâncias.
 
Ao ser assassinada, Marielle revelou uma segunda realidade, esta ainda mais surpreendente: a de que os brasileiros, ora exibidos como polarizados e divididos, ora como passivos ou omissos, são capazes de se comover – e mover – por uma mulher nascida na favela, negra, lésbica e feminista.
 
Em nenhum momento se deve esquecer da força dessa ruptura simbólica. Com Marielle Franco há uma quebra de paradigma dos choráveis do Brasil. Como mulher negra e nascida na favela, Marielle Franco pertencia aos “matáveis” do Brasil, aqueles cujas mortes não causam espanto, normalizadas que são. O que seus assassinos não calcularam era que, com sua vida, ela já não era mais “matável”. O que ninguém poderia calcular é que Marielle havia se tornado também parte dos choráveis, aqueles por quem a maioria dos brasileiros faz luto e luta. Não é pouca coisa para um país como o Brasil.
 
Há ainda uma terceira realidade: as fake news foram derrotadas. A narrativa que buscava criminalizar Marielle Franco, inventando fatos sobre a vida dela que pudessem esvaziá-la como o totem que se tornou, foi vencida. As notícias falsas começaram com uma desembargadora do Rio de Janeiro, Marília de Castro Neves Vieira, que publicou uma mentira sobre Marielle no Facebook, e se espalharam através do site “Ceticismo Político”, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), milícia conhecida por propagar mentiras para desqualificar adversários próprios ou de políticos amigos.
 
Desde que as notícias falsas passaram a compor a paisagem também no Brasil, é a primeira vez que as milícias de ódio sofrem uma derrota dessa proporção. Não é pouca coisa.
 
Como o cotidiano no Brasil – e também no mundo – é brutal, e como o medo de ter o corpo destruído cresce a cada dia, há uma tendência de só enxergar uma marcha acelerada rumo ao autoritarismo. Essa marcha é um fato, mas não é o único. Há novas forças no Brasil disputando o poder e fazendo resistência.
 
A crescente influência das feministas negras em vários campos do debate nacional está entre as mais significativas. Historicamente, as mulheres negras constituem o grupo mais frágil do Brasil, um país de estrutura racista e com números alarmantes de estupros e violência doméstica. As negras chegaram ao Brasil como escravas vindas de diferentes pontos da África e, com a abolição sem abolição – ou com a abolição sem políticas públicas de inclusão –, tornaram-se o rosto das empregadas domésticas, até hoje em alguns lugares do Brasil um trabalho análogo à escravidão.
 
É interessante observar que, na tentativa de desqualificar a vida de Marielle, após o seu assassinato, e assim esvaziar os sentidos de sua morte, tentaram colar nela o rótulo de “mulher de traficante”. Afinal, se ela não era empregada doméstica, só podia ser mulher de traficante. Ou: se ela ousou sair do lugar de empregada doméstica, a negra trabalhadora, só poderia lhe restar o lugar de “vadia”, em mais uma expressão do preconceito contra todas as mulheres, mas bem mais forte contra as negras.
 
Não colou. Em grande parte porque Marielle representava em vida um conjunto cada vez mais influente de mulheres negras determinadas a mudar um destino marcado. Marielle não estava só nem é a única. Ela se tornou, com sua morte, o rosto vivo de um fenômeno coletivo cada vez mais forte, que tem denunciado o racismo com contundência também em áreas sensíveis como a cultura e a universidade. E, em alguns episódios, confrontado também as feministas brancas.
 
As feministas negras, que têm em Marielle um rosto, são uma força política com influência crescente na disputa tanto do presente quanto do futuro.
 
2) Onde as forças progressistas falham
 
As mulheres negras (e os homens negros), com atuação contra o racismo, são uma força. Mas há outras. Um dos grandes desafios deste momento é conectar forças políticas emergentes que, com exceção de umas poucas iniciativas, seguem desconectadas no Brasil. Há barragens bloqueando diferentes movimentos com lideranças ameaçadas de morte que deveriam estar juntos, disputando o agora, construindo uma rede comum de proteção e resistência – e pressionando o Estado.
 
Marielle Franco tornou-se uma voz incômoda quando atravessou uma barreira (ou várias) e ocupou um espaço de poder. E ocupou pela representação de várias minorias, que ela de fato representava ao mudar a realidade destas minorias pelo caminho das políticas públicas. Marielle era uma excelente vereadora e resgatava a dignidade de um legislativo com reputação abaixo do chão.
 
O que a feminista negra da Maré tem em comum com os ribeirinhos Chico Caititu e Ageu Lobo do Tapajós, estes que ainda não foram mortos, mas podem ser a qualquer momento? O fato de ter atravessado um muro.
 
O Brasil que enfrenta os tantos desafios desse momento histórico conta com uma geração com forte protagonismo em diversos campos, mas escassa formação política. O resultado dessa combinação aparece e cobra seu preço nos dias e nas lutas. É o ônus de ter vivido uma ditadura de mais de duas décadas e de não ter responsabilizado os assassinos e torturadores. A falta de formação política é um efeito direto da dificuldade de fazer memória do país.
 
No Tapajós, porém, realizou-se um acontecimento político – ou até uma reinvenção do que é a política em outros termos que não o dos brancos. Neste enclave amazônico, ribeirinhos e indígenas compartilham uma trajetória de conflitos. Afinal, os atuais beiradeiros dos rios amazônicos são descendentes de nordestinos pobres carregados até a floresta para cortar seringa na segunda metade do século 19 – e, em algumas regiões, também na Segunda Guerra Mundial (1939-45), como soldados da borracha. O território que ocuparam debaixo do jugo dos seringalistas era território indígena, de diferentes povos.
 
Os ataques – e as mortes – foram frequentes de lado a lado. Parte dos atuais ribeirinhos têm como avó ou bisavó uma indígena roubada de sua aldeia. Parte destas famílias se iniciaram com um estupro. Assim, por décadas, ribeirinhos e indígenas conviveram em diferentes pontos da floresta com mútua desconfiança, quando não aberta hostilidade.
 
Com o anúncio das grandes hidrelétricas, hostilidade e desconfiança começaram a ser superadas. A aliança se consolidou nesta segunda década do século, pela luta comum contra os grandes empreendimentos e também contra a omissão do Estado em prosseguir com a demarcação das terras. Ribeirinhos e indígenas perceberam que, caso não se unissem, seriam limpados do caminho para abrir espaço para megaobras do governo e para os interesses do agrobanditismo. A aliança estratégica foi decisiva para o Ibama arquivar, em 2016, o licenciamento do projeto da hidrelétrica de São Luiz do Tapajós. A usina, uma ameaça que continua assombrando a Amazônia, atingiria o território dos Munduruku e Montanha e Mangabal, entre outras comunidades ribeirinhas.
 
Chico Caititu, hoje marcado para morrer, é uma figura-chave nesta aliança. Em 2013, ele deixou sua roça na comunidade de Montanha e Mangabal, no Tapajós, para acompanhar os Munduruku na ocupação do canteiro de obras de Belo Monte, no Xingu. Estavam, o ribeirinho e os guerreiros Munduruku, a 800 quilômetros de sua terra.
 
Essa ocupação estratégica mostrou que a luta contra os grandes empreendimentos na Amazônia não poderia ser apenas local, entre os diretamente atingidos, mas do conjunto dos povos da floresta contra uma concepção de desenvolvimento e também de mundo que destruiria a eles e a floresta. Tanto que os guerreiros Munduruku, do Tapajós, se fizeram presentes no Xingu. E, com eles, estava Chico Caititu, o homem que costurou as pontes entre os Munduruku e Montanha e Mangabal, entre indígenas e ribeirinhos.
 
Em 2014, cansados de esperar por um governo que preferiria que eles não existissem, os Munduruku começaram a fazer a autodemarcação da terra indígena Sawré Muyby, a que estava no caminho dos grandes projetos hidrelétricos na bacia do Tapajós. Chico Caititu estava lá, ajudando-os. Em 2017, os ribeirinhos iniciaram a autodemarcação do Projeto de Assentamento Agroextrativista de Montanha e Mangabal. E os guerreiros Munduruku estavam presentes. Juntos, eles fizeram aquela que pode ser a aliança política mais arrojada do país para enfrentar o extermínio mútuo. Há muito a aprender com indígenas e ribeirinhos também sobre política.
 
Só não enxerga a enormidade dessa aliança, obviamente não imune a conflitos, quem não conhece a história do Brasil. É com essa aliança que a lei está sendo cumprida e as terras estão sendo autodemarcadas, confrontando governos que violaram e seguem violando a floresta amazônica e os povos da floresta. É ali que se encontra um dos principais processos de resistência contra uma ideia de Brasil que destrói a floresta e ignora o vasto conhecimento de seus habitantes, multiplicando os riscos representados pela mudança climática provocada por ação humana.
 
Aqueles que querem assassinar Chico Caititu e Ageu Lobo, o presidente da comunidade, desejam dinamitar pontes humanas. “Se eu não estivesse com os indígenas, estaria morto”, me disse Chico Caititu, já escondido. Ele deixou a comunidade com um grupo Munduruku, para alcançar Itaituba, a cidade mais próxima. E de lá foi para Brasília contar a sua história no Fórum Alternativo Mundial da Água, como estratégia de proteção.
 
Hoje, ele e Ageu estão escondidos em outra cidade, esperando a resposta ao pedido de inclusão no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. “Tou dentro de um buraco, escondido”, diz Chico. Ambos sofrem com uma gripe forte na zona urbana. E Ageu começa a demonstrar sinais de depressão, preocupado com a família que ficou e com a luta que precisa seguir.
 
Chico Caititu, Ageu Lobo e Pedro Braga, o vice-presidente da comunidade, estão no caminho da extração de ouro, madeira e palmito. Sem apoio do Estado, eles colocam o seu corpo na linha de frente, para cumprir a lei e impedir que a floresta e o rio sejam destruídos. Atrapalham os negócios que começam como crime, mas depois tornam-se legalizados. Que têm uma face local, mas se ramificam pelo país – ou a madeira não chegaria ao comércio internacional e o ouro não entraria no mercado financeiro.
 
“Nosso maior sonho é continuar defendendo não só Montanha e Mangabal, mas o Tapajós e a floresta”, diz Ageu. “É muito duro pra nós saber que a gente não é criminoso, que a gente luta pelo bem coletivo, que a gente defende a floresta e que, por causa disso, a gente está ameaçado de morte, por causa disso a gente virou fugitivo.” Eles lutam por Montanha e Mangabal há muito, mas é a primeira vez que assumem ter medo de morrer.
 
Quando ribeirinhos como eles afirmam ter medo de serem assassinados, deveriam ser escutados. Só a escuta pode impedir o horror que é o som de um corpo destruído à bala.
 
3) Sobre a urgência de juntar os pontos
 
Pouco antes de Marielle Franco ser assassinada, Paulo Sérgio Almeida Nascimento, uma das lideranças da Associação dos Caboclos, Indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama), que representa 112 comunidades tradicionais, foi assassinado em Barcarena, a 40 quilômetros de Belém, no Pará. Ele e sua associação denunciaram a contaminação dos mananciais por resíduos sólidos da produção de bauxita de uma das maiores mineradoras do mundo, a norueguesa Hydro Alunorte.
 
Em fevereiro, rios e igarapés foram contaminados por uma lama vermelha e tóxica, causada por um vazamento comprovado pelo Instituto Evandro Chagas e só assumido pelo grupo norueguês bem mais tarde. Outros três dutos irregulares da Hydro Alunorte já foram encontrados. Paulo Sérgio foi a segunda liderança assassinada em menos de três meses na região. Ainda não há conclusão sobre as razões do crime. Outras três mulheres, segundo a Agência de Jornalismo Independente Amazônia Real, também lideranças, estão ameaçadas de morte.
 
Apenas dois dias separam os assassinatos de Paulo Sérgio Nascimento e Marielle Franco, mas as mortes foram apenas timidamente conectadas. Ainda que as geografias sejam diferentes, as lideranças mortas e ameaçadas de morte hoje no Brasil têm em comum o fato de questionarem interesses hegemônicos, confrontarem o crime organizado – o institucional e o não institucional – e representarem novas forças emergentes com crescente influência na disputa do presente.
 
Há muito mais em comum entre uma mulher negra da favela da Maré eleita para a Câmara de Vereadores do Rio e uma liderança cabocla, quilombola e ribeirinha do interior da Amazônia do que qualquer um deles teria com aqueles cujos interesses e privilégios são ameaçados por suas lutas. Mas, infelizmente, os diferentes movimentos têm dificuldades para atravessar as barreiras, também geográficas, e ampliar sua potência de agir.
 
Se os Munduruku e os ribeirinhos de Montanha e Mangabal fizeram uma aliança em nome da própria sobrevivência e da proteção da Amazônia, há uma enorme dificuldade de percepção dos movimentos urbanos de que esta é também uma luta pela retomada da cidade. Há estudos científicos bastante consistentes mostrando que a destruição da floresta atinge direitos básicos, como o direito à água, em cidades como Rio e São Paulo. E é um fato que os mais pobres são os mais atingidos pela mudança climática. Desigualdade e destruição ambiental são temas intimamente ligados.
 
Quando as barreiras são rompidas, há grande impacto. Basta lembrar da reação imediata e truculenta do setor atrasado do agronegócio quando a escola de samba Imperatriz Leopoldinense escolheu o Xingu e a destruição da floresta e dos povos da floresta como tema no Carnaval de 2017. Quem está no poder sabe o quanto as conexões entre as periferias podem ameaçar poder e privilégios.
 
Aqueles que são mortos, como Marielle Franco e Paulo Sérgio Nascimento, e ameaçados de morte, como Chico Caititu e Ageu Lobo, são justamente aqueles que representam novas ideias de ser Brasil. E que confrontam as estruturas de um país racista, desigual e com alta concentração de terra e de renda. Os mortos e os ameaçados de extermínio representam essas ideias também ao conseguir colocar seu corpo em lugares em que até pouco tempo atrás tinham entrada barrada.
 
O melhor – e o mais potente – do Brasil atual são as periferias que reivindicam o lugar de centro. São as lideranças desse movimento múltiplo que estão sendo mortas à bala.
O pescador Elio Alves da Silva, que virou poeta após ser expulso por Belo Monte, alerta que não temos nenhuma força se contamos apenas como um. Mas podemos romper as barragens se formos Eu+Um.
 
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas.
 
Fonte: El País
 
Primeira foto: El País / João Luiz Guimarães
Segunda foto: El País /  Lilo Clareto

 
 
 
No dia 16 de março, em Porto Alegre (RS), foi realizada a Assembleia do CONIC Rio Grande do Sul (CONIC-RS). O momento, sediado na Fundação Luterana de Diaconia (FLD), contou diversas atividades, entre elas, leitura da última ata, apresentação e acolhida dos delegados das igrejas-membro, apresentação do relatório do biênio 2016-2017 e um momento devocional.
 
Durante a apresentação do relatório do biênio 2016-2017, entraram em destaque as ações realizadas no período: CFE 2016 (Campanha da Fraternidade Ecumênica, em 2016), SOUC (Semana de Oração pela Unidade Cristã), Participação no Fórum Ecumênico e Inter-Religioso, Celebração dos 500 anos da Reforma e apoio ao projeto Mobilização RS. 
 
Nova Diretoria
 
Ainda na Assembleia, foi eleita a nova diretoria para a gestão 2018-2019. Eis os novos membros: Edoarda S. Scherer, na presidência, pela ICAR; pastor Adélcio Kronbauer na vice-presidência, pela IECLB; dom Humberto Maiztegui, na secretaria, pela IEAB; pastora Cibele Kuss, na tesouraria, pela FLD. Assumem também, como membros fraternos, o Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), o Movimento dos Focolares e o Fórum Ecumênico no Vale do Taquari.
 
Desafios
 
Os participantes do encontro pontuaram, como desafios para o CONIC-RS, a necessidade do constante diálogo com o CONIC Nacional e com grupos ecumênicos locais que possuem vivência ecumênica e inter-religiosa, além da continuidade de apoio aos projetos em andamento. 
 
Hoje, as seguintes igrejas fazem parte do CONIC-RS: Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR). São membros fraternos: CEBI, Movimento dos Focolares, Serviço Interconfessional de Aconselhamento (SICA), FLD e Fórum Ecumênico do Vale do Taquari. 
 
Com informações do CONIC-RS
Foto: CONIC-RS / Edoarda S. Scherer

 
 
 
Páscoa é renascimento, passagem, transformação. Para o povo hebreu significou a libertação da escravidão no Egito. Para as pessoas que afirmam sua fé em Jesus Cristo a Páscoa lembra a crucificação e a ressurreição do peregrino de Nazaré.
 
Viver a Páscoa desafia-nos a olhar para a realidade. A cruz segue entre nós através da violência, do racismo, da intolerância religiosa, do ódio às mulheres, da perseguição às pessoas que defendem os direitos humanos... A cruz está presente também no extermínio da juventude negra, na criminalização dos movimentos sociais.
 
Porém, quando Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago e Salomé foram ao túmulo para ungir o corpo violentado de Jesus, encontraram o anjo que anunciou: "Não vos espanteis, procurais Jesus de Nazaré, o Crucificado. Ressuscitou, não está aqui. Vede o lugar onde o puseram". (Mc 16.6b)
 
O que isso quer nos dizer? Que o caminho da cruz não tem um fim no sofrimento, mas irradia vida e esperança com a ressurreição de Jesus Cristo.
 
A fé no Cristo crucificado e ressuscitado impele-nos para o compromisso com a justiça, com a paz, com o respeito às diferenças e com o cuidado com a Casa Comum, de modo que nosso caminhar se torne ação e anúncio de que a violência, a opressão e as intolerâncias não permanecerão. A cruz e a ressurreição de Cristo apontam para um amor-transformação. Por isso, cantemos com júbilo! 
 
Feliz Páscoa.

 
 
ALC Notícias - O 17º encontro do Conselho Consultivo Anglicano (CCA) acontecerá em Hong Kong, a partir do dia 29 de abril de 2019. O CCA é um dos quatro “Instrumentos de Comunhão” da Comunhão Anglicana, e o único deles que inclui pessoas não-ordenadas (leigas/os) entre seus membros. Os encontros trienais servem para o CCA e a Diretoria do mesmo estabelecerem a agenda para o trabalho internacional da Comunhão Anglicana e do Escritório da Comunhão Anglicana (ACO) em Londres, Reino Unido, e contribui para coordenar as ações e programas intra-anglicanos relacionais a uma série de temas e questões.
 
O CCA terá uma duração menor do que os seus últimos encontros. Terá seu término no Domingo dia 5 de maio. O último CCA, que aconteceu em Lusaka em 2016, discutiu uma séria de assuntos e aprovou várias moções sobre assuntos diversos como o discipulado intencional, a detenção demorada de uma cristã paquistanesa chamado Asia Bibi, violência de gênero e o meio ambiente, particularmente relacionados com as mudanças climáticas e seus impactos.
 
É esperado que o discipulado intencional seja, mais uma vez, o foco do encontro, já que a Comunhão está ‘em pleno vapor’ em direção à próxima Conferencia de Lambeth das bispas e bispos anglicanos, que acontecerá em Cantuária, Reino Unido, em Julho/Agosto de 2020, com o tema “Igreja de Deus para o Mundo de Deus”. O primeiro encontro do CCA foi em 1971 em Limuru, Quênia. Desde lá o CCA encontrou-se na Irlanda, Trinidad, Canadá, Inglaterra, Nigéria, Singapura, País de Gales, África do Sul, Panamá, Escócia, Hong Kong, Jamaica, Nova Zelândia e Zâmbia.
 
Ao final do CCA-16 em Lusaka, Zâmbia, foi anunciado que o próximo encontro seria em São Paulo, Brasil. Mas, no ano passado, o Comitê Executivo do CCA decidiu adiar o Brasil como hospedeiro do encontro para uma outra oportunidade. O presidente do CCA, Arcebispo Paul Kwong, ofereceu-se para hospedar o encontro em Hong Kong, cuja confirmação da aceitação por todos os bispos chegou agora, confirmando o evento naquela província.
 
“Eu estou muito feliz que o próximo encontro do Conselho Consultivo Anglicano seja em Hong Kong”, afirmou o arcebispo para o ACNS. “Será um grande privilégio acolher os membros do CCA na nossa província. Muitos dos detalhes ainda estão por ser finalizados, mas eu estou certo de que o CCA seguirá os passos do trabalho excelente realizado no CCA-16, particularmente no que diz respeito ao discipulado intencional. Será um tempo de muita alegria”.
 
O Secretário Geral da Comunhão Anglicana, Dr. Josiah Idowu-Fearon, comentou: “Eu estou muito agradecido ao Arcebispo Paul Kwong e à Província de Hong Kong por tão prontamente oferecer-se para acolher o CCA”.
 
“Nosso encontro no próximo ano será menor do que o que aconteceu em 2016, mas eu estou ansioso pelo menos imensamente. É uma oportunidade de tomar tempo em oração e louvor juntas e juntos e de escutar-se mutuamente sobre o que tem acontecido na nossa família globalmente e aprender umas das outras, uns dos outros.
 
“Nosso tempo em Lusaka foi uma grande bênção e eu estou muito otimista que Hong Kong será também. Eu convido toda a Comunhão para unir-se a mim em oração pelo CCA, neste momento em que está sendo desenvolvido o programa.”
 
Hong Kong ainda hospedará o próximo encontro do Comitê Inter-Anglicano de Finanças e Auditoria, que acontecerá antes do CCA e a Conferência de Secretárias/os Provinciais, que será depois do CCA.
 
Membros do CCA são nomeados por suas províncias para servir por três encontros do CCA. As províncias maiores têm direito a três membros: um bispo/a, um/a clérigo/a e uma pessoa não-ordenada (leiga); as províncias de tamanho considerado mediano têm direito a dois membros: uma pessoa ordenada (diácona/no, cleriga/o, bispa/o) e uma pessoa não-ordenada (leiga); e as províncias menores têm direito a um membro, que pela constituição do CCA deveria ser preferencialmente uma pessoa não-ordenada (leiga). Além disso, cinco membros do CCA são eleitos entre os Primazes da Comunhão Anglicana; e o CCA pode indicar “até seus membros adicionais para garantir o equilíbrio de representação e para apoiar o trabalho do Conselho em atingir seus objetivos.”
 
Os/As Secretários/as Provinciais estão confirmando as pessoas que representarão suas respectivas Províncias no próximo CCA em 2019.
 
Com informações da ALC Notícias
Foto: Foto: Flickr Sam Leite (CC-BY-NC-2.0)

 
 
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) foi surpreendida ontem (27) com a notícia da prisão do Padre José Amaro Lopes de Sousa, em Anapu, Pará. 
 
Padre Amaro faz parte da equipe pastoral da Prelazia do Xingu, e da equipe da CPT, à qual pertencia a Irmã Dorothy Stang, assassinada em 2005, em Anapu, na luta pelo direito à terra para os que dela precisavam e na defesa de uma convivência harmoniosa com a natureza. Por isso, ela foi incansável e obstinada na concretização dos chamados PDS, Projetos de Desenvolvimento Sustentável. 
 
O Padre Amaro e as Irmãs de Notre Dame de Namur (Congregação a qual Irmã Dorothy pertencia) continuaram apoiando as comunidades que lutavam pela terra e o PDS, como Dorothy fazia. Durante estes 13 anos após a morte de Dorothy, sofreram vários tipos de ataques e ameaças. Desde 2001 o Centro de Documentação Dom Tomás Balduino, da CPT, registra ameaças de morte contra o Pe. Amaro, que se sucederam diversas vezes nos anos seguintes. 
 
A prisão do Pe. Amaro é uma medida que vem satisfazer a sanha dos latifundiários da região que pretendem de toda forma destruir o trabalho realizado pela CPT, e desmoralizar os que lutam ao lado dos pequenos para ver garantidos os seus direitos. E se enquadra no contexto do cenário nacional em que os ruralistas ditam os rumos da política brasileira. 
 
A ele se atribui uma série de crimes: “lidera uma associação criminosa, com o fim de cometer diversos crimes, tais como, ameaça à pessoa, esbulho possessório, extorsão, assédio sexual, importuna ofensa ao pudor, constrangimento ilegal e lavagem de dinheiro.” 
 
Até o momento não tivemos acesso ao Inquérito Policial que deu origem a este mandado de prisão, mas há suspeita de que houve uma ação bem orquestrada para juntar elementos, não se sabe de que qualidade, que pudessem sustentar uma decretação de sua prisão. A ordem de prisão se baseia não em fatos concretos, mas em depoimentos de fazendeiros e de outras pessoas que se dispuseram a atestar contra o padre. 
 
O que chama a atenção é que boa parte do inquérito, como se extrai do mandado de prisão, começou a ser elaborada após a prisão de um motorista que trabalhava com o Pe. Amaro, em janeiro último. Vários depoimentos, citados no mandado, iniciam dizendo praticamente que, ao saber da prisão do referido motorista, aí sim decidiram comparecer à delegacia para agregar algumas informações a respeito da ação do Pe. Amaro, que é apresentado como o grande líder e incentivador das ocupações de terras no município. A ele se incrimina, inclusive, ser o incentivador de assassinatos de pessoas, a fim de caracterizar a região como de conflitos agrários. A juíza sequer ouviu o Ministério Público antes de decretar a prisão do padre. 
 
O estado do Pará é historicamente conhecido pelos conflitos no campo que ameaçam, escravizam e assassinam dezenas de homens e mulheres todos os anos. Anapu não escapa desse cenário. Irmã Dorothy, padre Amaro e as irmãs de Notre Dame de Namur colocaram suas vidas a serviço das pessoas abandonadas, pelo Estado, à própria sorte. A partir de sua atuação foram criados os PDS’s, como uma alternativa de desenvolvimento sustentável, transformando terras, em sua maioria públicas e apropriadas indevidamente por poucos, em um projeto de agricultura que além de garantir a subsistência das famílias e de abastecer as mesas da cidade, buscam preservar ao máximo o meio ambiente. É uma nova forma de se conviver com a terra, uma nova proposta de sociedade, e isso incomoda aqueles que querem manter seus interesses escusos. Dorothy não foi apenas morta nesse chão, ela foi plantada nessa terra e sua luta continuou e irá continuar pelas mãos de tantas mulheres e homens da terra, de padre Amaro, pelo trabalho das organizações populares, da CPT e por todo o povo pobre que resiste bravamente e diariamente no campo. 
 
Como dizem as irmãs que com o padre trabalham: “Padre Amaro é um incansável defensor dos direitos humanos e, por isso, é odiado pelos exploradores da região e por aqueles que acobertam seus crimes. Há muito tempo que ele vem sendo ameaçado de morte pelos latifundiários, por aqueles que querem se apropriar criminosamente de terras públicas para explorá-las, às custas da expulsão do povo que precisa das terras para sobreviver”. 
 
Também fazemos nossa a preocupação das irmãs de o Padre Amaro ter sido “levado para o presídio em Altamira, uma vez que Taradão - o mandante do assassinato de Dorothy - está lá. Isso coloca a vida do padre Amaro em sério risco”. 
 
A Diretoria e a Coordenação Nacional da CPT denunciam mais este esquema de atacar os que defendem o direito dos e das camponeses de lutar pela terra e por condições de vida dignas, os que, como o Papa Francisco pede, sabem mergulhar os pés na lama para estar junto dos que são injustamente espoliados dos seus direitos e da dignidade de pessoas humanas. 
 
Goiânia, 28 de março de 2018. 
 
Direção Nacional da CPT
 
Coordenação Executiva Nacional da CPT 

 
 
A partir dos próximos domingos, as crianças que participarem dos Encontros Bíblicos Dominicais nas igrejas que mantém relações com a Diaconia, contarão com um material educativo-pedagógico especial. Foi lançada neste sábado (24) a revista infanto-juvenil “Mulheres de Coragem — Estudos EBD — Crianças”, publicação que as ajudará a entender e praticar relações justas entre meninas e meninos, tendo como base as Sagradas Escrituras — que proclamam a justiça de gênero. O lançamento aconteceu na sede da Diaconia, localizada no bairro da Ilha do Leite, no Recife (PE).
 
Estiveram presentes no lançamento educadoras e educadores das igrejas Exército da Salvação, Metodista, Batista, Congregacional, Brasil para Cristo, Menonita e Episcopal. Serão elas e eles que promoverão seis encontros propostos pela revista. Cada encontro será composto por uma metodologia diferente, onde os conteúdos serão abordados por meio de brincadeiras, descontração, mas muita informação e aprendizado. A autora da revista, a psicopedagoga Rosane Pontes, aponta que já é preciso promover essa reflexão desde cedo nas crianças. “A partir das histórias das mulheres de coragem extraídas da Bíblia, a revista pretende promover o empoderamento dessas crianças, despertando nelas o censo de justiça e paz nas relações iguais entre homens e mulheres. Vivemos num País que desde sempre exaltou a mulher, mas ao mesmo tempo é um país onde mais se mata mulheres. Temos a responsabilidade de criar nossos filhos e filhas livres desse modelo machista, preconceituoso, opressor e antidemocrático. E a Bíblia nos ensina isso através de uma leitura atualizada, contextualizada. E de uma maneira pedagógica, conseguimos trazer esses ensinamentos para o universo infanto-juvenil”.
 
A revista foi inspirada na campanha “Sou uma Mulher de Coragem”, que este ano traz o lema: Sou uma Mulher de Coragem, Eu Posso!, uma realização da Diaconia que há seis anos tem como objetivo encorajar as mulheres para a garantia e defesa dos seus direitos. Para Diaconia, a revista é uma estratégia de subsidiar as igrejas no trabalho com as crianças, para que desde a infância sejam estimuladas a crescerem em ambientes saudáveis e de relações justas entre homens e mulheres, tendo a Bíblia como um dos principais referenciais de justiça. “Estamos investindo em publicações como esta para ajudar as igrejas que comungam da nossa ideologia e que já desenvolvem ações nesse sentido. Além desta, outra revista com lições bíblicas sobre Segurança Alimentar e a Mordomia Cristã está sendo elaborada por lideranças de igrejas em parceria conosco”, disse a assessora político-pedagógica, Camila Rago.
 
Texto: Tádzio Estevam (Assessor de Comunicação da Diaconia)
Foto: Reprodução Medium

 
 
A ruptura democrática no Brasil e os graves retrocessos de direitos na atualidade colocam enormes desafios para a sociedade brasileira, especialmente para as pessoas mais empobrecidas. Diante desse cenário, os editais da Fundação Luterana de Diaconia, nas áreas de Justiça Econômica, Justiça Socioambiental e Direitos, propõem o fortalecimento de redes, fóruns, articulações e mobilizações de resistência e incidência pela retomada de direitos, apoio à promoção de processos de formação sobre a conjuntura política e na defesa e promoção da justiça de gênero e da democracia.
 
O prazo para o recebimento de projetos é 13 de abril de 2018. Os documentos estão disponíveis abaixo, para download, com informações detalhadas. Também está disponível para download o formulário em word, para a elaboração prévia do projeto.
 
Os projetos devem ser enviados via o formulário eletrônico, disponível em projetos.fld.com.br/requerente, observando-se as condições e critérios estabelecidos pelos editais. 
 
 
Fonte: FLD
Imagem: Reprodução

 
 
 
Em votação realizada na última quinta-feira, 22/3, o Brasil, mais uma vez, foi contrário à resolução que trata dos efeitos da dívida externa sobre a garantia dos direitos humanos, em especial os direitos econômicos, sociais e culturais. Os votos favoráveis, no entanto, foram maioria e o texto da resolução foi aprovado.
 
A resolução deste ano ampliou o debate ao trazer o dado de que medidas de austeridade impactam diretamente sobre programas de prevenção e tratamento de HIV/AIDS. O texto ainda fala como tais medidas deixam os Estados mais distantes de alcançar as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, como a redução da desigualdade e o combate às alterações climáticas.
 
 
“As medidas de austeridade aplicadas pelo governo Temer têm impacto direto sobre a camada mais vulnerável da população. O congelamento de gastos restringe o acesso a direitos básicos, como educação e saúde, penalizando mais intensamente aqueles que não têm condições de pagar por esses serviços”, explica Jefferson Nascimento, assessor do programa de Desenvolvimento e Direitos Socioambientais.
 
Em fevereiro, o governo brasileiro cancelou a visita do especialista independente da ONU, Juan Pablo Bohoslavsky, que avaliaria os primeiros impactos que a emenda constitucional 95 sobre direitos econômicos e sociais. Ainda não há previsão de quando a missão será realizada. “O cancelamento dessa visita foi totalmente despropositada. O especialista viria ao Brasil justamente para avaliar os impactos da EC 95 e o governo brasileiro simplesmente impediu essa missão”, completa Jefferson.
 
Fonte: Conectas
Foto: Tania Rego/Agência Brasil