"Forças políticas tenebrosas exacerbam com discursos de ódio as tensões migratórias no Brasil, antes das complicadas eleições de 2018", afirma Jesús López de Bobadilla, pároco da localidade fronteiriça de Pacaraima, onde no sábado 18 ocorreram violentos ataques de brasileiros contra refugiados venezuelanos.
 
"O Brasil está em uma situação política, econômica e social muito delicada, às vésperas de eleições, e tudo é aproveitado", analisou o religioso espanhol, de 77 anos, há nove em Pacaraima.
 
Mais de mil venezuelanos que acampavam nesta pequena cidade do estado de Roraima foram expulsos no sábado por grupos de moradores que atearam fogo em suas barracas e roupas, além de persegui-los com paus e facas aos gritos de "Fora!", de acordo com relatos de várias testemunhas.
 
"O episódio desses dias foi planejado, não foi uma ação espontânea. Não tenho a menor dúvida. Existem forças políticas tenebrosas que se empenham em passar por cima das dificuldades do povo e aproveitar a xenofobia, que a cada dia é mais forte, como elemento válido para as eleições", disse, sem querer dar nomes. Bobadilla oferece de segunda a sexta-feira café da manhã a centenas de migrantes na modesta paróquia local.
 
"Precisam pedir aos políticos responsáveis que, por favor, parem. Tudo isso está muito manipulado. São muito irresponsáveis com seus discursos inflamados de ódio", advertiu. O Brasil celebrará em outubro eleições gerais.
 
A governadora de Roraima, Suely Campos, que tenta a reeleição, pediu em várias ocasiões o fechamento provisório da fronteira à entrada de venezuelanos, alegando que o estado não conta com recursos suficientes para atender tamanho fluxo de migrantes. Campos, do Partido Progressista, repudiou os incidentes e ordenou reforçar os efetivos de segurança, informou a sua assessoria.
 
Medo de represálias
   
"É vergonhoso que Pacaraima tenha escrito essa página terrível em sua história", lamenta Bobadilla, ao se referir aos incidentes de sábado. O religioso não tem muita esperança de que a situação melhore, mas acredita que para que alguma coisa mude é preciso um controle mais criterioso na fronteira, a fim de evitar a entrada de venezuelanos com perfil criminoso.
 
Também recomenda aumentar a presença policial e atender os brasileiros em situação de pobreza, para que os habitantes não se sintam em "desvantagem" frente os imigrantes.
 
"Somos de paz", afirmou um venezuelano que foi tomar café da manhã e diz viver em Pacaraima há um ano. Não quer se identificar por medo de represálias. Depois dos ataques, não se sente seguro e cruza diariamente a fronteira para dormir em um abrigo improvisado do lado venezuelano. Assegurou que seus compatriotas enfrentam uma "perseguição" por parte de alguns integrantes da comunidade, inclusive de certos policiais brasileiros.
 
Contrariando suas expectativas, o salão da paróquia recebeu nesta terça-feira cerca de mil migrantes em busca de uma porção de pão e uma xícara de café com leite. Normalmente a paróquia atendia entre 1,5 mil a 2 mil por dia. Depois das expulsões, o número caiu pela metade, mas a assistência parece estar em fase de recuperação.
 
"A fome venceu o medo", declarou Bobadilla com certo alívio.
 
Fonte: Carta Capital
Foto: Reprodução

 
O Núcleo Ecumênico de Blumenau (NEB) promoveu na manhã desta terça-feira, 21, em Pomerode/SC, no Sínodo Vale do Itajaí, um seminário com o tema “Prática Cristã para Superação das Intolerâncias”, com a pastora Romi Bencke, secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC). Participaram do encontro representantes das igrejas Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Evangélica Luterana do Brasil (IELB) e Católica Apostólica Romana.
 
O padre Raul Kestring, presidente do NEB, dirigiu a reflexão de abertura e lembrou das atitudes de Jesus Cristo que desceu à altura dos homens e mulheres e com humildade passou a mensagem de respeito, tolerância, compaixão, atenção aos pobres e excluídos e amor ao próximo.
 
A pastora Romi, em sua explanação, afirmou que a perspectiva ecumênica sempre tem como horizonte a prática do diálogo, da escuta, do encontro e do respeito. Ela lembrou que nos tempos atuais a igreja precisa construir pontes, promover reflexões que caminham para a paz. Entre os desafios está o crer e aceitar a fé das pessoas. “Como é difícil aceitar a tradição religiosa dos outros. Sempre partimos da perspectiva em trazer o outro para a nossa religião e não conseguimos coexistir em contextos multi-religiosos. Só o diálogo possibilita superar a intolerância. A fé nunca é compatível com a violência. O ecumenismo faz parte do projeto de Deus, sem esta perspectiva este projeto fica incompleto”.
 
 
História do CONIC
 
O CONIC nasceu no ano de 1982, em Porto Alegre (RS). Sua criação é fruto de um longo processo de articulação entre as igrejas Católica Apostólica Romana, Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Episcopal Anglicana do Brasil e Metodista. As primeiras conversas para a criação do Conselho ocorreram em 1975. A mensagem final da Assembleia que deu origem ao Conselho apresentou a missão de “colocar-se a serviço da unidade das igrejas, empenhando-se em acompanhar a realidade brasileira, confrontando-a com o Evangelho e as exigências do Reino de Deus”. É compromisso do CONIC, portanto, desde aquele tempo, atuar em favor da dignidade e dos direitos e deveres das pessoas, até como forma de fidelidade à mensagem evangélica.
 
Fonte: Assessoria de Comunicação NEB
Fotos: Reprodução

 
ELEIÇÕES 2018
CARTA PASTORAL
 
Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: (...)
tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar (Eclesiastes 3.1,7).
 
Ser membro na IECLB, participar e viver a paixão pela Missão de Deus nesta Igreja é, também, um exercício de cidadania a partir da vivência comunitária. A IECLB engaja-se na Missão de Deus com o firme propósito de “propagar o Evangelho de Jesus Cristo, estimulando a sua vivência pessoal na família e na comunidade, promovendo a paz, a justiça e o amor na sociedade brasileira e no mundo”. É para esse testemunho e para o exercício dessa cidadania que nos convida o Tema do Ano de 2018: Igreja, Economia, Política, sob a palavra bíblica de Êxodo 20.2a: Eu sou o SENHOR, teu Deus.
 
Na argumentação de Lutero, Igreja, Economia e Política são as três ordens da Criação. Deus as utiliza como instrumentos para efetivar sua vontade no mundo. É uma perspectiva que está na contramão do que popularmente ouvimos de forma pejorativa: “futebol, política e religião não se discute”; “política é coisa suja”. O Tema do Ano afirma o contrário! Igreja, Economia e Política são instrumentos que Deus coloca ao nosso dispor para buscarmos o bem, contra o mal (Amós 5.14).
 
A Missão de Deus abrange todos os espaços do nosso viver: a casa (indivíduo, família, trabalho, amizades), a comunidade de fé (comunidade local, sinodal, nacional e ecumênica), a sociedade civil (bairro, cidade, estado, país, governo, economia, política), a Criação inteira (meio ambiente e recursos naturais). Pelo correto desempenho em cada ordem, nós servimos (ou não!) e cooperamos (ou não!) com Deus no engrandecimento da vida. Portanto, o mesmo Deus que instituiu as ordens, chama e vocaciona, tornando-nos responsáveis pelo cuidado da Criação.
 
Vivemos em contexto brasileiro grave. A rede de sustentação da civilidade está com muitos fios rompidos. O combate à corrupção sinaliza que o pavio da justiça ainda fumega. Já o poço da corrupção parece não ter fundo. O papel da autoridade está desacreditado. Governos e parlamentos perdem a confiança em vista dos seus atos de escárnio contra o povo brasileiro.
 
Nesse ambiente, religião, política e economia lançam-nos num confronto raivoso, marcado por ódio, polarização e uma visão reducionista do “nós X eles”. As redes sociais veiculam opiniões de quem quer provar que a sua é a verdade absoluta. Por isto, cada qual se autoriza a difamar, acusar sem provar, e a desrespeitar quem pensa diferente. Para tal, até mesmo recorre a versículos bíblicos selecionados segundo critérios questionáveis. O mais fácil parece ser terceirizar a culpa. Afinal, pensar, refletir, exercitar a autocrítica e entender a complexidade da realidade exige mais e requer humildade. Odiar é mais fácil! Cabe a pergunta: o que toda essa “tagarelice virtual” edifica? Transparece aí alguma proposta evangélica, que não seja o extermínio de quem não pensa como eu?
 
Essa lógica perversa também pauta o dia a dia das Igrejas. Por isto, há quem exige que “a IECLB se manifeste com clareza”. Esta reivindicação pode ser legítima. O trágico é que, em geral, não se quer ouvir o que a Igreja (enquanto instituição) tem a dizer – e o que ela vem dizendo há décadas! Exige-se que a Igreja diga “o que eu quero ouvir”. Daí a pergunta que se impõe é outra: espera-se que a IECLB esteja de qual lado? Do lado do nosso ódio ou do lado do ódio deles? Do lado dos pecados de cá ou do lado dos pecados de lá?
 
Como não entrar nessa lógica do ódio, da intolerância, do confronto que fragiliza e coloca em rota de colisão e de fragilização crescentes a família, a comunidade de fé, a Igreja e a sociedade? Como não reprisar o preconceito, o ódio e a exclusão que as primeiras famílias luteranas vindas ao Brasil (a partir de 1824) – nossos antepassados – sentiram na própria carne? Tendo consciência disso e, em fidelidade ao Evangelho e coerentes com a história da nossa Igreja, o que fazer para que a compreensão e a perspectiva de fé, esperança e testemunho evangélico-luteranos sustentem nossa argumentação e nossa atuação responsáveis nas ordens da criação?
 
A IECLB tem definido seu projeto de Igreja! Ao lado da Missão, nossa Visão é a de sermos Igreja de comunidades atrativas, inclusivas e missionárias, fiéis ao Evangelho de Jesus Cristo, que testemunham o amor de Deus. Somos Igreja a serviço do Evangelho. Empenhamo-nos em favor da dignidade humana e do respeito à Criação. Queremos crescer na direção de comunidades que sejam espaço seguro para todos e todas, até porque carregamos na nossa memória a IECLB marcada pela pluralidade étnica, cultural, social, teológica e política. Queremos nos firmar na contramão da lógica do ódio que move nossa sociedade. Nosso projeto de Igreja carrega a marca da paixão pela missão de Deus, da justiça, da ética. Inspira-se no agir de Jesus Cristo, no seu amor incondicional em defesa da vida, que não é conivente com a servidão que desumaniza e joga irmãs e irmãos uns contra os outros.
 
Por isto, no tempo presente, a IECLB reafirma e conclama:
 
Diante de eleições, cabe lembrar que “há princípios básicos que norteiam a pessoa cristã em seu discernimento ético e na avaliação das propostas políticas em debate na nação” (www.luteranos.com.br/conteudo/eleicoes-2010-1). Recorramos a esses referenciais para jogar luzes – nos diálogos, encontros, debates – e identificar pistas que conduzam ao fortalecimento da democracia e da defesa da dignidade de toda a população brasileira! Também o Tema deste Ano ajuda nessa tarefa. Lutero, por exemplo, nos deixou critérios para avaliar quem governa:
 
“Precisamos de soberanos e autoridades que tenham olhos e ânimo para instaurar e manter a ordem em todos os negócios e transações comerciais, para que os pobres não sejam sobrecarregados e oprimidos, tendo que arcar com pecados alheios”. “Enquanto a terra existir, tem que haver autoridade, governo, poder e tronos. Mas Deus não tolera por muito tempo que abusem deles e os usem em oposição a ele, para praticar injustiça e violência. O bem-estar de muita gente depende de um príncipe tão importante, quando ele é governado pela graça de Deus. Por outro lado, dele depende a desgraça de muitos, quando ele se volta para si próprio e não é governado pela graça”.
 
“Em nosso país, cresce a confusão entre Igreja e Estado. Essa confusão aumenta em tempos de eleições. A IECLB preconiza a defesa do Estado laico, incentiva sempre a participação em partidos políticos como canais institucionais que expressam valores e ideologias presentes na sociedade brasileira” (www.luteranos.com.br/conteudo/ eleicoes-2014-o-exercicio-da-fe-cidada). Viver no Estado laico requer sabedoria para não misturar e confundir religião com política. Porém, quem é membro da IECLB assume o seu direito e o seu dever de fazer do voto um instrumento de cidadania em favor da democracia, em vista da paz e da justiça. E isso é extensivo ao quadro ministerial da IECLB, conforme está definido no EMO – Estatuto do Ministério com Ordenação, Art. 44: “Em questões político-partidárias, a Ministra ou o Ministro atuará com o devido resguardo do seu Ministério e do seu CAM, sem, entretanto, renegar a tarefa de promover o bem-estar do ser humano à luz do Evangelho. As preferências partidárias pessoais da Ministra e do Ministro não deverão prejudicar o bom relacionamento dos membros da comunidade, entre si, e a sua convivência.”
 
A fé evangélico-luterana opõe-se aos vícios nefastos presentes na cultura política brasileira e capacita para ocuparmos nosso lugar nas ordens da criação e exercitarmos responsavelmente a cidadania. Eleição é tempo oportuno para testemunhar em alto e claro tom: Meu voto não está à venda! Nossa Comunidade não troca o compromisso com o Evangelho por favores de campanha eleitoral! Nossa Igreja não se identifica com bancada X ou Y! Não me basta saber que você é candidata ou candidato cristão. Eu quero conhecer sua ficha limpa e seu compromisso histórico com a ética na política. Não quero mais ouvir promessas fantasiosas de campanha. Quero saber como você vai se engajar para que, em nosso país, governos, justiça e juízo (Amós 5.24) resultem em teto, trabalho, salário, escola, saúde, vida, dignidade.
 
Membros da comunidade cristã exercem sua cidadania. Não fazê-lo é irresponsável. Diante de uma eleição, a IECLB insiste no diálogo e no respeito à opinião divergente em favor da apresentação de propostas de governo exequíveis, promotoras da justiça e do direito, pressupostos para a paz social.
 
Igreja, Economia, Política são ordens da Criação. Nelas estamos! Ali somos cidadãos e cidadãs! Move-nos o amor de Deus por sua Criação! Exercitamos a cidadania que brota da fé! Participamos da vida política como resposta à vocação de Deus!
 
Dr. Nestor Paulo Friedrich
Pastor Presidente da IECLB-Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil

 
Apesar do desencanto, da descrença e da falta de confiança na Política no Brasil, o bispo auxiliar da arquidiocese de Belo Horizonte (MG), dom Joaquim Geovani Mol defende que é importante acompanhar o processo eleitoral pelo qual o país atravessa com as campanhas já nas ruas em plena busca de votos.
 
O reitor da pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais afirma que a política não é um mau sem si. “O mau são os políticos eleitos para trabalharem pelo bem comum e que passam a trabalhar pelos seus próprios interesses e interesses de grupos econômicos e elitistas da sociedade brasileira”, afirmou.
 
Neste processo eleitoral que o Brasil está vivendo, o religioso convoca os cristãos a ficarem atentos às falsas informações, conhecidas como “Fake News”. “Antes de acreditar, desconfie. Nunca passe adiante uma informação que você não tem certeza sobre ela”, ressaltou. Há uma outra questão crucial, de vida ou morte, em sua avaliação: “A que segmento da sociedade e segmento político o candidato está vinculado?”.  “Isso é indispensável porque, embora todos dizem que é necessário ‘mudar’ o Brasil, muitos querem mesmo é ‘continuar tirando proveito’ do Brasil”, avaliou.
 
Outra postura importante, ressalta dom Mol, é confrontar as informações que estão sendo disseminadas com a trajetória e com a vida do candidato, sempre com algumas perguntas em mente: Como ele vive? Quem são seus amigos? Com quem ele anda? O que ele faz com os pobres? Já exerceu cargos políticos? É um defensor das causas populares? Está envolvido com corrupção? Usa a religião para se promover? É democrático? Respeita as diversidades? Estimula a participação das pessoas? Pensa e trabalha por um Brasil mais justo e fraterno? É uma pessoa de paz e diálogo?
 
“Só mesmo confrontando o que ‘falam’ com o que ‘fazem’ ou fizeram até agora poderemos ter mais possibilidade de acerto na escolha”, reforça. O religioso também chama a atenção para a importância de prestar atenção às ideias dos candidatos alertando que muitas delas são pregadas em tempo de campanha eleitoral apenas para satisfazer o eleitor e fazê-lo acreditar que, o que ele deseja, está expresso naquelas ideias, mas apenas como recurso para angariar votos.
 
5 pontos que merecem atenção dos cristãos no Período Eleitoral do Brasil:
 
1. É preciso identificar candidatos/as que defendam a vida em toda em qualquer circunstância, da gestação ao seu término natural. Mas, como nos lembrou o Papa Francisco, é preciso defender a vida tanto contra o aborto quanto contra as desigualdades sociais e suas mazelas e misérias. Pois ambos matam com a mesma intensidade. O papa e a Igreja são movidos pela mesma convicção, numa postura de coerência, principalmente agora que ele declarou a pena de morte inaceitável em qualquer situação.
 
2. É preciso identificar candidatos/as que priorizem três áreas de atuação de forma clara e inequívoca e apresentem propostas concretas para a educação, a saúde e o emprego. Uma das graves causas da situação difícil de nosso País são os baixos níveis de qualidade na educação, no cuidado da saúde e na geração de empregos. Um povo educado com qualidade e consciência crítica, com boa saúde universalizada e pleno emprego consegue dar passos largos na construção dos seus destinos.
 
3. É preciso identificar candidatos/as que tenham compromisso sério com o meio ambiente, numa expressão do cuidado com a Casa Comum e neste contexto seja inserido o compromisso de respeito e forte defesa dos povos tradicionais, comunidades indígenas, ribeirinhas, negras e outras.
 
4. É preciso identificar candidatos/as que promovam a paz e a dignidade humana; trabalhem contra toda violência; restaurem a confiança e a democracia, aperfeiçoando-a com a participação popular; comprometam-se com as reformas necessárias de forma justa, sem supressão de direitos do povo trabalhador e dos segmentos excluídos da sociedade; colaborem com a necessária reforma do Judiciário e do Ministério Público do País, que a cada dia se mostram como “castas” superiores e corporativistas.
 
5. Ainda, é preciso identificar candidatos/as que respeitem a laicidade do Estado e cuidem da pacífica convivência entre as várias culturas e religiões, as regionalidades e as tradições, com espírito fraterno de tolerância e justiça.
 
Fonte: CNBB
Foto: Reprodução

 
No dia 9 de agosto deste ano, a 1ª turma do Supremo Tribunal Federal (STF) discutiu um recurso extraordinário do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPF-RS) a respeito da Lei Estadual 12.131/04-RS. A legislação de 2004 altera a Lei 11.915/03, o Código Estadual de Proteção aos Animais, adicionando um parágrafo que permite o sacrifício de animais em rituais religiosos de matriz africana.
 
Segundo o MPF gaúcho, a lei invade a competência da União no que tange à legislação penal e também aponta privilégios para as religiões de matriz africana por garantir-lhes o direito ao sacrifício de animais em rituais religiosos. Este último ponto, para o MPF, fere o caráter laico brasileiro, protegido pela Constituição Federal.
 
Já a Procuradoria do Estado do Rio Grande do Sul discorda, apontando que o texto não invade a legislação penal, pois aponta termos ao direito ambiental e à proteção da fauna, o que segundo a Constituição é permitido aos estados e municípios.
 
No STF, órgão de competência do Judiciário em temas constitucionais, a discussão parou devido ao pedido de vistas do processo por parte do ministro Alexandre de Moraes. Já haviam votado o relator Marco Aurélio Mello, parcialmente a favor, e também o ministro Luiz Edson Fachin, que se colocou contra o recurso.
 
O movimento do MPF do Rio Grande do Sul desencadeou medidas semelhantes em outros locais, como em Cotia, no estado de São Paulo. Lá, a lei 1.960/0216 chegou a proibir a prática de sacrifício ritual, mas foi julgada inconstitucional pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.
 
O que dizem os religiosos?
 
A Sputnik Brasil ouviu Roger Cipó, membro da Comissão afro-religiosa Òkàn Dimó, que organizou uma marcha contra a intolerância e o racismo no dia 8 de julho, em São Paulo.
 
Ele explica que nas religiões de matriz africana que praticam rituais com sacrifício de animais, a carne é dividida entre os praticantes como um alimento. O ritual seria uma forma de tornar a comida sagrada antes de ser partilhada entre os religiosos.
 
Outras religiões também fazem rituais parecidos para o consumo de animais. É o caso do judaísmo e também dos muçulmanos. O Brasil, inclusive, tem uma indústria de carnes com alta especialização no abate de animais de acordo com ritos religiosos [de tradição islâmica e judaica] e domina parte do mercado internacional neste âmbito.
 
"Desde o armazenamento, transporte e o trato. Esses animais são recebidos no ritual com cânticos, eles são limpos, eles são acariciados, inclusive. E o próprio rito do abate é feito de uma forma para que haja morte instantânea, como prevê, inclusive, a legislação que autoriza o abate doméstico", explica Roger Cipó, ressaltando que o abate religioso é considerado abate doméstico.
 
Ele também lembra que caso o animal demonstre sofrimento, ele não é abatido, pois os maus tratos não são permitidos pela religião. "A maioria das vertentes afro-brasileiras tem como premissa que se entenderem que o animal está com uma expressão de dor, de sofrimento, esse animal não é abatido […]. É quase como se a gente estivesse recebendo uma mensagem da divindade, uma mensagem do sagrado desautorizando esse abate. Então se há o sofrimento há a desautorização do sagrado para que esse abate aconteça", enfatiza Roger. 
 
A alimentação, neste caso, estaria sob um contexto sagrado e de uma cosmovisão específica, voltado para o espírito, por isso o processo ritualístico.
 
Intolerância religiosa?
 
Por que o ritual de matriz africana incomoda a ponto da criação de leis que o proíbam? Boa parte dessa legislação aponta que os animais nesses rituais passam por maus tratos, o que caracteriza crime segundo a legislação brasileira.
 
A discussão é ampla e envolve a delicada questão racial brasileira. Sabe-se que, no Brasil, as religiões de matriz africana têm sido alvo preferencial de ataques. Em julho, o país foi denunciado na Organização das Nações Unidas (ONU) por abusos contra os cultos religiosos afro-brasileiros. Um relatório divulgado pela organização em 2017 aponta que entre 2011 e 2015 o Brasil teve 697 denúncias de intolerância religiosa no país, com maior incidência de denúncias em relação às religiões de matriz africana.
 
No Rio de Janeiro, o Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (CEPLIR) apresentou números ainda maiores, com 1.014 denúncias do tipo, com 71,15% dessas denúncias contra religiões de matriz africana.
 
Para Roger Cipó, a desumanização ainda presente na forma como se concebe no senso comum as religiões de matriz africana está diretamente ligada ao racismo no Brasil. Para ele, a história do país imprimiu sobre o negro e sua religiosidade uma mistificação.
 
"Há um processo de demonização que precede as manifestações de intolerância religiosa, de ataque a religiosidades. É sobretudo um ataque às práticas de humanização dos povos negros no Brasil que, de alguma forma, resistem aqui desde o período de escravização", afirma.
 
Se o racismo, por definição, desumaniza, ele aponta, torna-se impossível enxergar no negro a sua religiosidade. Para Roger, esses traços estão presentes na judicialização dos rituais de religiões de matriz africana.
 
"A grande questão aqui não é o abate em si, a grande questão aqui são os protagonistas, quem está promovendo esses abates. E nesse sentido são as religiões de matriz africana", ressalta Roger, dando a entender que o problema não seriam os animais, mas sim os praticantes das religiões os verdadeiros alvos das ações judiciais.
 
"A violência contra as religiões de matriz africana traz muito mais características de um racismo religioso do que relação com as intolerâncias que existem contra outras denominações religiosas", conclui Roger.
 
Fonte: Sputnik Brasil
Foto: Reprodução / © Roger Cipó

 
No dia 31 de agosto, o Patriarca de Kirill de Moscou irá a Istambul para encontrar, no Fanar, [bairro histórico de Istambul, Turquia, onde está localizado o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla], o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I, Arcebispo de Constantinopla, para falar de questões de mútuo interesse. A confirmação do encontro foi dada na terça-feira, 7, pelos dois Patriarcados.
 
"Este encontro será um evento muito positivo, contribuindo para a melhoria das relações entre Constantinopla e o Patriarcado de Moscou e o fortalecimento dos laços inter-ortodoxos de forma geral", disse o arcipreste Nikolay Danilevich, vice-presidente do Departamento para as Relações Eclesiásticas Externas do Patriarcado de Moscou.
 
Em julho, uma delegação de Constantinopla foi recebida por Kirill , em Moscou, para preparar o encontro em Istambul.
 
O encontro anterior entre Bartolomeu e Kirill realizou-se em janeiro de 2016, durante a Synaxis dos Primazes das Igrejas Ortodoxas Locais Autocéfalas, realizada em Chambésy, na Suíça.
 
As Igrejas Ortodoxas
 
A Igreja Ortodoxa é formada pela comunhão plena de catorze jurisdições eclesiásticas autocéfalas (mais a Igreja Ortodoxa na América – OCA, apenas parcialmente reconhecida) que professam a mesma fé e, com algumas variantes culturais, praticam basicamente os mesmos ritos. O chefe espiritual das Igrejas Ortodoxas é o Patriarca de Constantinopla, embora este seja um título mais honorífico, uma vez que os patriarcas de cada uma dessas igrejas são independentes. Desta forma, diz-se que o Patriarca de Constantinopla é Primus inter pares (o primeiro entre iguais). A maior parte das Igrejas Ortodoxas usa o Rito Bizantino.
 
Para os ortodoxos, o Chefe único e Líder da Igreja, e sem intermediários, representantes ou legatários, é o próprio Jesus. A autoridade suprema na Igreja Ortodoxa é o Santo Sínodo, que se compõe de todos os Patriarcas chefes das Igrejas Autocéfalas e dos Arcebispos Primazes das Igrejas Autônomas, que se reúnem por chamada do Patriarca Ecumênico de Constantinopla.
 
A autoridade suprema regional em todos os Patriarcados Autocéfalos e Igrejas Ortodoxas Autônomas é da competência do Santo Sínodo local. Uma Igreja Autocéfala possui o direito a resolver todos os seus problemas internos com base na sua própria autoridade, tendo também o direito de remover qualquer dos seus bispos, incluindo o próprio Patriarca, Arcebispo ou Metropolita que presida esta Igreja.
 
Fonte: Vatican News
Foto: Patriarchal Press Service

 
Setembro de 2013, nordeste do Mato Grosso. A casa simples da freira Geneviève Hélène Boyé, a irmãzinha Veva, estava tomada por algumas dezenas de pessoas. No interior da residência, fora cavado um buraco retangular no chão de terra e, dentro dele, jazia seu corpo, pendurado em uma rede branca, a mesma na qual ela dormia todas as noites.
 
Ao redor, índios Apyãwa - conhecidos também como Tapirapé - batiam levemente os pés no chão, balançando sutilmente o corpo, enquanto entoavam um longo canto lamurioso. Depois de a cova ser fechada com tábuas, as mulheres, chorando, peneiraram quilos de terra por cima, conforme sua tradição. Alguns não indígenas acompanhavam o ritual e repetiam os movimentos, entre eles Odile Eglin, a irmã Odila.
 
A cerimônia aconteceu a cerca de oito mil quilômetros da terra natal das duas, a França. Integrantes da fraternidade Irmãzinhas de Jesus, as freiras viveram por décadas com - e como - os Apyãwa. Veva, que chegou com o primeiro grupo em 1952, lá ficou praticamente todo o tempo até morrer, 60 anos depois, quando foi enterrada pelo costume indígena, segundo sua escolha.
 
Odila, que se juntou a ela em 1982, retornou a Paris em janeiro, encerrando um ciclo de 65 anos na comunidade: foi a última religiosa a viver com os Tapirapé.
 
Quando Veva e mais duas freiras chegaram para estabelecer a primeira missão das Irmãzinhas nas Américas, a população Apyãwa estava reduzida a cerca de 50 pessoas e corria o risco de desaparecer. Hoje são quase mil, aproximando-se do tamanho que tinham no início do século 20.
 
Epidemias entre indígenas
 
A forte redução populacional na primeira metade do século passado foi provocada principalmente por doenças transmitidas por não indígenas, como gripe e varíola, contra as quais os Tapirapé não tinham anticorpos. A situação depois foi agravada por um ataque dos índios Kayapó, então seus inimigos.
 
O papel das freiras para a recuperação desse povo lhes rendeu a alcunha de "parteiras dos Tapirapé", criada pelo teólogo Leonardo Boff. Elas atuaram primeiro no tratamento das doenças, mas depois também no fortalecimento cultural do grupo e na recuperação de seu território tradicional.
 
Seu sucesso veio de uma fórmula nova de "evangelização": ao invés de catequizar os indígenas, elas se integraram ao seu modo de vida e buscaram elas mesmas serem Apyãwa. As religiosas viviam em casas semelhantes às dos indígenas, plantavam e comiam como eles e chegaram a participar em alguns rituais. A forma como Veva foi enterrada, na tradição tapirapé, sintetiza o espírito dessa relação, conta o cacique geral Warei Elber Tapirapé.
 
"O povo Tapirapé sabe muito bem como elas trabalharam: respeitaram nossa cultura, nossa maneira de conviver entre nós e com a natureza. E a gente também foi apoiando elas. Essa relação foi em harmonia", resumiu ele em conversa com a BBC News Brasil em abril, durante o último acampamento Terra Livre (encontro anual de povos indígenas em Brasília).
 
O estilo dessas freiras segue os ensinamentos de Charles De Foucault, missionário francês beatificado em 2005 que viveu anos entre árabes nômades no norte da África na virada do século 19 para o 20, mas sem catequizá-los. Foi ele quem inspirou Magdeleine Hutin a fundar a fraternidade Irmãzinhas de Jesus em 1939, na Argélia, com propósito de atender comunidades vulneráveis, principalmente as mais isoladas.
 
Abandono da catequese forçada
 
A atuação dessas religiosas era algo inovador no Brasil e - após séculos de catequese forçada e massacre da cultura indígena - contribuiu para o desenvolvimento de uma nova forma de a Igreja católica lidar com os povos originários no país, processo que culminou na criação do Cimi (Conselho Indigenista Missionário), em 1972, observa Gilberto dos Santos, membro do secretariado nacional da organização.
 
 
"Foi uma experiência muito forte porque eram religiosas num período em que a gente ainda não tinha essa leitura de respeito à cultura, de não catequese, que aparece no final dos anos 60", ressalta Santos.
 
A antropóloga e demógrafa Marta Maria do Amaral, ex-presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio), considera que a presença das religiosas foi "absolutamente fundamental" para a recuperação populacional dos Tapirapé. De um lado, destaca ela, o cuidado com a saúde e a segurança alimentar promovido pelas freiras permitiu que o grupo atingisse taxas de mortalidade infantil mais baixas que a de outros povos indígenas.
 
Por outro, acrescenta, a própria valorização do modo de vida Tapirapé e seu empenho para ampliar a articulação do grupo deram "ânimo" para sua multiplicação.
 
"A atuação das irmãzinhas ajudou muito o grupo a ter mais conhecimento, informação e, portanto, a se sentirem mais fortes para lutarem pelos seus direitos", resume Amaral.
 
Trabalho em prol da saúde indígena
 
No início, a principal atuação das freiras era nos cuidados de saúde. Elas tratavam os Apyãwa de doenças como gripe, sarampo, catapora e malária e acompanhavam os índios quando eles precisavam ir a unidades de atendimento, contou Odila à BBC News Brasil quando esteve em Brasília para o lançamento do livro "Parteiras de um Povo", dias antes de embarcar para a França.
 
"Íamos na cidade para eles não ficarem perdidos, assustados, e para os médicos também terem vergonha na cara e atenderem melhor. E a gente tentava que os pajés pudessem ir juntos, (para que) o respeito mútuo das ciências pudesse se realizar. Isso nem sempre era possível, porque alguns lugares não aceitavam", recorda.
 
Para além do cuidado com a saúde, porém, elas viraram confiáveis interlocutoras entre eles e o mundo fora da comunidade. As freiras atuaram na instalação de uma escola indígena na aldeia nos anos 70, reivindicação dos próprios Tapirapé, assim como participaram do longo processo de reconhecimento do seu território, homologado pelo governo federal como Terra Indígena Urubu Branco em 1998.
 
Luiz Gouvêa e Eunice Dias foram os primeiros professores da escola e desenvolveram um método de alfabetização dos indígenas na língua tapirapé a partir do trabalho feito pela freira Mayie Baptiste, que estudou profundamente o idioma, e da linguista Yonne Leite. Hoje, conta Gouvêa, todos os professores da escola e seus administradores são índios Tapirapé, com formação em licenciatura intercultural indígena (curso oferecido em algumas universidades públicas do país).
 
"Podemos dizer que é graças às Irmãzinhas de Jesus (que foi estabelecida a escola). Isso foi importante porque a escola foi também um apoio na luta pela terra, na organização indígena, na discussão das questões trazidas nas assembleias (com outros povos)", ressalta Gouvêa.
 
Apesar da conquista da demarcação, persistem as invasões do território Tapirapé por madeireiros e criadores de gado. Uma parte da terra, ocupada por uma fazenda, está em disputa na Justiça. Em abril, o cacique Warei e outras lideranças Tapirapé, com assistência jurídica do Cimi, passaram horas na Funai, em Brasília, em reunião para tratar do processo. Ele lamenta que Odila não esteja mais na aldeia para participar dessa luta.
 
"Ela mostrou alguns caminhos para nós, mas mesmo assim a gente sente um pouco de dificuldade para correr atrás das coisas, principalmente na questão do território", disse o cacique.
 
Odila não queria deixar o povo, mas, já idosa, voltou à França em respeito à decisão da fraternidade, que hoje carece de novas freiras para dar continuidade ao trabalho. Os Tapirapé, porém, ainda alimentam a esperança em seu retorno, enquanto mantêm contato por email e WhatsAapp.
 
Batismo de índios
 
Antes das chegadas das religiosas, os Apyãwa já estavam em contato havia cerca de quatro décadas com o catolicismo por meio dos frades dominicanos, que os visitavam esporadicamente e os batizavam. Após o ataque Kayapó, esses missionários persuadiram os indígenas remanescentes a se reagruparem perto do posto do Serviço de Proteção aos Índios (SPI, órgão depois substituído pela Funai), nas margens do Rio Tapirapé. Apenas nos anos 90 eles retornaram à serra do Urubu Branco, território sagrado.
 
Todo o processo de vivência e aprendizado com os indígenas foi registrado por elas em diários. O livro "Parteiras de um Povo" conta que, nos primeiros 20 anos da presença das religiosas na comunidade, as freiras tinham o desejo de "introduzir (os Tapirapé) pouco a pouco no conhecimento de Jesus", embora "sem coerção". No entanto, elas acabaram compreendendo que a força do grupo estava justamente nos seus rituais indígenas.
 
"Todos os Tapirapé eram batizados quando chegamos. Para nós aparecia a questão: o que aportamos para essas pessoas que (em tese) são católicas?", ressalta Odila.
 
"Aos poucos, as irmãzinhas perceberam que o ritual era a força vital deles. Acho que isso foi uma luz e que deu tranquilidade de dizer: 'esse povo não precisa ser católico para viver'. Mas isso não foi dito de um dia para o outro", conta.
 
A prática do batismo acabou sendo abandonada gradualmente, assim como os hábitos de freira, que elas inicialmente vestiam, foram substituídos por roupas comuns. Os rituais católicos eram praticados com discrição. O filme histórico "Veva Tapirapé", da produtora católica Verbo Filmes, mostra a capela, um pequeno puxadinho na casa onde as religiosas moravam. Em um canto da parede, havia uma pequena imagem de Maria, no outro, uma cruz de madeira simples, sem a imagem de Cristo talhada.
 
"Nosso modo de rezar, a capela, tudo isso a gente simplificou, simplificou, para pelo menos não chocar. Não ficar tão longe (dos costumes) deles", explicou Veva, em depoimento ao filme.
 
Os Apyãwa acreditam na existência de vários espíritos com os quais se relacionam por intermédio da atuação dos pajés. Ao invés de uma postura de rechaço pela religião indígena, as freiras chegaram a participar de alguns rituais, por exemplo produzindo o cauim (bebida típica fermentada) para a festa de Kawiypyparakãwa (festa da dança em torno do cauim). Devido à localização da casa de Odila, ao sul da aldeia, parte das danças e cantos dessa cerimônia, que marca o fim do Ka'o (conjunto de cantos noturnos) e dos rituais da estação chuvosa, ocorriam dentro da sua residência.
 
 
"Num primeiro momento achavam que batizar um índio seria uma coisa boa, mas depois entenderam que o Apyãwa tinha sua religião, sua cultura. Porque Takana, a casa dos homens, que fica no centro da aldeia, tem todos os segredo da vida. A questão da espiritualidade, a questão dos pajés, ter esse diálogo com as almas das florestas, as almas dos animais. Graças a elas até hoje o Apyãwa tem ainda sua cultura viva", disse à BBC Brasil Inamoreo Reginaldo Tapirapé, uma das lideranças.
 
Por outro lado, conta ele, os indígenas também tinham a sensibilidade de respeitar os rituais católicos.
 
"No Natal, as freiras faziam a missinha. Aí de manhãzinha as crianças (Tapirapé) levavam um presente para aquele menino (Jesus), tipo uma florzinha. Era uma forma de agradar também elas. Essa relação não é para destruir a cultura indígena, era uma forma de relacionamento de paz, de felicidade, de alegria", recorda.
 
Igrejas evangélicas e indígenas
 
Hoje, após a saída da fraternidade, os Tapirapé deparam-se com o assédio de outras religiões. Grupos evangélicos de cidades próximas têm tentado converter as famílias.
 
"Vemos que as outras igrejas tentam entrar, mas nós, as lideranças, estamos impedindo. Elas entram devagarzinho, mas lá na frente começam a proibir a gente de fazer ritual, falar nossa língua. Eles começam a interferir dentro da comunidade, enquanto elas (as Irmãzinhas) não traziam esses problemas", afirma o cacique geral Warei.
 
Os dados do último censo nacional realizado pelo IBGE mostram que o número de índios evangélicos cresceu 42% entre 2000 e 2010, somando 210 mil, um quarto do total. Apesar disso, Odila se mostra otimista com a continuidade da tradição Tapirapé e aponta que hoje os povos indígenas têm muito mais apoio do que décadas atrás.
 
"Eu penso que as religiões cristãs têm força mas eu não sei se nessa altura da vida do mundo elas têm o poder de acabar com esses povos. Acredito que não. Tenho essa tranquilidade dentro de mim", disse.
 
Fonte: BBC News
Fotos: Reprodução / CIMI

 
O atual contexto social, econômico, político e religioso do Brasil é extremamente complexo e desagregante. A crise, que vem acompanhada da ruptura democrática, da retirada sistemática de direitos da população brasileira, especialmente a mais empobrecida, do sucateamento dos serviços públicos, e do congelamento dos investimentos em saúde, assistência social e educação, impactam diretamente as organizações que atuam no campo da defesa de direitos.
 
As instituições diaconais inserem-se neste contexto e cotidianamente são desafiadas a implementarem serviços que efetivamente atendam às necessidades da população usuária. Ao mesmo tempo, enfrentam dificuldades no campo da sustentabilidade, tendo que, continuadamente, estar procurando identificar parcerias e apoios ao trabalho realizado; tanto em âmbito governamental como não-governamental, e em esfera local, regional ou nacional.
 
Nesse sentido, a FLD abre o Edital para Seleção de Projetos de Diaconia, para contribuir com a qualificação e o fortalecimento do trabalho das instituições diaconais. As informações completas estão no Edital, para download no site, onde também está disponível o formulário em word, para a prévia elaboração do projeto.
 
O prazo para recebimento de projetos é dia 30 de setembro de 2018
 
Os projetos devem ser enviados via o formulário eletrônico, no endereço projetos.fld.com.br/requerente, observando-se as condições e critérios estabelecidos pelo edital.
 
Clique aqui e faça download dos arquivos.
 
Fonte: FLD

 
Teve início, no dia 13 de agosto, no Instituto Bíblico de Brasília, a reunião anual do Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT). O evento, que durou três dias, encerrando no dia 15, contou com a realização do seminário “A profecia ameaçada: o Brasil das violências em um contexto das desigualdades”.
 
Dia 13
 
Na noite do primeiro dia de atividades, o pastor Altemir Labes, representante da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) compartilhou a avaliação da comemoração no Brasil dos 500 anos da Reforma Protestante. Em seguida, José Carlos Dionísio, do Centro Ecumênico de Formação e Educação Comunitária (PROFEC), apresentou os trabalhos desenvolvidos por sua organização na Baixada Fluminense, estado do Rio de Janeiro, na defesa e promoção de direitos de crianças e adolescentes.
 
Dia 14
 
Na manhã do dia 14 de agosto, foi realizado o Seminário, refletido em dois painéis.
 
No Painel 1 foram discutidos: a) os movimentos que justificam e legitimam as desigualdades e as violências, tendo como debatedor o professor doutor Rogério Diniz Junqueira, sociólogo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), que apresentou o processo de elaboração do discurso teológico/religioso anti-genêro e das estratégias de divulgação das campanhas anti-gênero em diferentes países do mundo. b) A segunda abordagem, as teologias que justificam as desigualdades e as violências no século XXI, foi apresentada pela pastora Romi Bencke, secretária-geral do CONIC. Ela destacou que, se por um lado, o discurso sobre Deus tem ocupado diferentes espaços na sociedade, por outro, isso não significa que a teologia, enquanto instrumento hermenêutico para refletir as diferentes experiências de Deus, tenha tido a capacidade de incidir nas práticas eclesiais para fortalecer e reafirmar as virtudes da fé, como esperança, igualdade, comunhão. 
 
 
No Painel 2 foi falado especificamente sobre o tema do Seminário: A profecia ameaçada... caminhos para fortalecer e afirmar os movimentos de superação das desigualdades e violências. Alessandra Farias Pereira, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, apresentou dados da violência no Brasil, chamando a atenção para o agravamento da situação desde a ruptura democrática. Ela sustentou que tem ocorrido uma criminalização dos direitos humanos e aumentado a perseguição aos seus/suas defensores/as. O momento ainda foi oportuno para apresentar o documento “O Fim do Mito do Brasil Pacífico”, de responsabilidade do Processo de Ação e Diálogo (PAD), que ilustra alguns cenários de violência. 
 
Edmilson Schinelo, que também estava no Painel 2, apresentou a abordagem bíblica sobre o tema, chamando a atenção para a necessidade de também se olhar para as margens das leituras bíblicas e dos textos sagrados. “É nas margens que descobrimos histórias de pessoas e de sua experiência com Deus que não entraram nos cânones oficiais de nossas tradições. Olhar criticamente para o texto bíblico é um desafio permanente”, provocou. Por fim, Schinelo chamou a atenção de que as profecias são sempre coletivas. “É necessário cuidarmos para não cairmos no risco de querermos um messias para resolver nossos problemas e crises. As profecias são sempre coletivas e exigem organização e participação popular”, defendeu. 
 
Dia 15
 
A reunião do seguiu até o dia 15. Além das atividades acima já citadas, contou com apresentação do relatório anual, definição dos eixos temáticos prioritários de ação para o período de agosto de 2018 até agosto de 2019, entre outros.
 
Avaliação do CONIC
 
“Os encontros anuais de FEACT são um momento de afirmação do diálogo ecumênico. Eles nos fortalecem. É quando nos encontramos. Este, em especial, foi extremamente importante porque reafirmou o quanto precisamos estar mobilizados para lidar com a questão não apenas do aumento das desigualdades e das violências, mas também para enfrentar os discursos teológicos que legitimam o ódio. Para toda violência perpetrada contra alguém, há sempre uma retórica que tenta justificar aquele ato, aquela ação. Pior ainda é quando vemos esse processo de legitimação das violências começando a surgir no ambiente teológico e eclesiástico: em nome de Deus passa a ser possível fazer de tudo, inclusive oprimir, explorar e, em última análise, matar. Por isso, mais do que nunca, precisamos afirmar diariamente, e incansavelmente, que Deus é amor, é um gesto político”, declarou Romi.

 
Seis em cada dez crianças e adolescentes brasileiros vivem na pobreza, segundo estudo divulgado nesta terça-feira, 14, pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O levantamento levou em consideração, além da situação financeira das famílias, a privação de um ou mais direitos como educação, informação, proteção contra o trabalho infantil, moradia, água e saneamento.
 
O estudo, feito com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2015, concluiu que, na última década, houve redução da chamada "pobreza monetária" na infância e na adolescência no País, mas as múltiplas privações a que crianças e adolescentes brasileiros estão submetidos não acompanharam essa diminuição.
 
De acordo com a Pnad 2015, 61% das crianças e dos adolescentes brasileiros são pobres: estão em famílias que vivem com renda insuficiente, o que caracteriza a pobreza monetária, e/ou não têm acesso a um ou mais direitos. O saneamento é a privação que afeta o maior número de crianças e adolescentes (13,3 milhões), seguido por educação (8,8 milhões) e água (7,6 milhões).
 
Na área do saneamento, o levantamento destaca que um quinto de meninas e meninos do Brasil vivem em casas com fossas rudimentares, valas ou esgotos sem tratamento. Já no campo da educação, aponta que 13,8% de crianças e adolescentes de 4 a 17 anos estão na escola, mas são analfabetos ou têm atraso escolar e 6,5% estão fora da escola, o que é considerado uma privação extrema.
 
Segundo o levantamento, 18 milhões de meninas e meninos (34,3%) são afetados pela pobreza monetária (têm menos de R$ 346 per capita por mês na zona urbana e R$ 269 na zona rural). Desses, 6 milhões (11,2%) têm apenas privação de renda - ou seja, os seis direitos analisados são garantidos. Já os outros 12 milhões têm, além da renda insuficiente, um ou mais direitos negados.
 
Disparidades
 
Há diferenças nas privações de direitos, de acordo com o grupo de crianças e adolescentes analisado. Moradores da zona rural, por exemplo, têm mais direitos negados do que os da zona urbana. Meninos e meninas negros e moradores das regiões Norte e Nordeste do Brasil também enfrentam mais privações se comparados aos brancos e moradores das regiões Sul e Sudeste, de acordo com o levantamento.
 
Foto: Yannis Behrakis / Reuters