O papa Francisco está na Suíça "como peregrino ecumênico" para "caminhar, rezar e trabalhar em conjunto": foi o que disse o diretor da Sala de Imprensa vaticana Greg Burke, apresentando um briefing da viagem do Pontífice a Genebra, por ocasião das comemorações pelos 70 anos de fundação do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), organização ecumênica que reúne 345 comunidades cristãs de mais de 110 países, incluindo ortodoxas, anglicanas, metodistas, batistas, luteranas e reformadas.
 
Primeiro discurso papal
 
"Amados irmãos e irmãs!
 
Ouvimos as palavras do apóstolo Paulo aos Gálatas, a braços com transtornos e lutas internas. De facto, havia grupos que se contrapunham e acusavam mutuamente. É neste contexto que por duas vezes, em poucos versículos, o apóstolo convida a «caminhar segundo o Espírito» (cf. Gal 5, 16.25).
 
Caminhar: o homem é um ser a caminho. Durante toda a vida, é chamado a pôr-se a caminho, saindo continuamente donde se encontra: desde quando sai do ventre da mãe e vai passando duma idade da vida a outra; desde que deixa a casa dos pais até quando sai desta existência terrena. O caminho é uma metáfora que revela o sentido da vida humana, duma vida que não se basta a si mesma, mas está sempre à procura de algo mais. O coração convida-nos a caminhar, a alcançar uma meta.
 
Mas caminhar requer disciplina, causa fadiga; é necessária paciência diária e treinamento constante. É preciso renunciar a tantas estradas, para se escolher a que conduz à meta e mantê-la viva na memória para não se extraviar dela. Caminhar requer a humildade de rever os próprios passos e a solicitude pelos companheiros de viagem, porque só se caminha bem juntos. Em suma, caminhar exige uma conversão contínua de si mesmo.
 
É por isso que muitos desistem, preferindo a tranquilidade doméstica, onde pode cuidar comodamente dos seus negócios sem se expor aos riscos da viagem. Mas, assim, prende-se a seguranças efémeras, que não dão aquela paz e aquela alegria por que aspira o coração e que se encontram apenas saindo de si próprio.
 
A isto nos chama Deus, desde os primórdios. Já pedira a Abraão para deixar a sua terra, pondo-se a caminho armado apenas de confiança em Deus (cf. Gn 12, 1). De igual modo Moisés, Pedro e Paulo, e todos os amigos do Senhor viveram caminhando. Mas foi sobretudo Jesus que nos deu o exemplo. Por nós, saiu da sua condição divina (cf. Flp 2, 6-7) e desceu para caminhar entre nós, Ele que é o Caminho (cf. Jo 14, 6). Senhor e Mestre, fez-Se peregrino e hóspede no meio de nós. Tendo regressado ao Pai, deu-nos o seu próprio Espírito, para que também nós tenhamos a força de caminhar na sua direção, de realizar o que Paulo pede: caminhar segundo o Espírito.
 
Segundo o Espírito: se todo o homem é um ser a caminho e, fechando-se em si mesmo, renega a sua vocação, muito mais o cristão. Porque a vida cristã – assinala Paulo – depara-se com uma alternativa inconciliável: caminhar no Espírito, atendo-se ao traçado inaugurado pelo Batismo, ou «realizar os apetites da carne» (cf. Gal 5, 16).
 
Que significa esta última expressão? Significa tentar realizar-se seguindo o caminho da acumulação de bens, a lógica do egoísmo, segundo a qual o homem procura, aqui e agora, agarrar tudo o que lhe apetece. Não se deixa levar docilmente para onde Deus indica, mas segue a própria rota. Temos diante dos olhos as consequências deste percurso trágico: na sua voracidade de coisas, o homem perde de vista os companheiros de viagem; em consequência, pelas estradas do mundo reina uma grande indiferença.
 
Impelido pelos seus instintos, torna-se escravo dum consumismo desenfreado; em consequência, a voz de Deus é silenciada, os outros – sobretudo se incapazes de caminhar pelo próprio pé como bebés e idosos – são descartados porque importunos, a criação serve apenas para produzir à medida das necessidades.
 
Amados irmãos e irmãs, mais do que nunca interpelam-nos hoje estas palavras do apóstolo Paulo: caminhar segundo o Espírito é rejeitar o mundanismo. É escolher a lógica do serviço e avançar no perdão. É inserir-se na história com o passo de Deus: não com o passo ribombante da prevaricação, mas com o passo cadenciado por «uma única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo» (Gal 5, 14). De facto, o caminho do Espírito está assinalado pelos marcos miliários que Paulo enumera: «amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gal 5, 22).
 
Somos chamados, juntos, a caminhar assim: a estrada passa por uma conversão contínua, pela renovação da nossa mentalidade para que se amolde ao Espírito Santo. Muitas vezes, no decurso da história, as divisões entre cristãos deram-se porque na raiz, na vida das comunidades, se infiltrou uma mentalidade mundana: primeiro cultivavam-se os próprios interesses e só depois os de Jesus Cristo. Nestas situações, o inimigo de Deus e do homem não teve dificuldade em separar-nos, porque a direção seguida era a da carne, não a do Espírito.
 
Mais, algumas tentativas do passado para acabar com tais divisões falharam miseravelmente, porque inspiradas sobretudo por lógicas mundanas. Mas o movimento ecuménico, para o qual tanto contribuiu o Conselho Ecuménico das Igrejas, surgiu por graça do Espírito Santo (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Unitatis redintegratio, 1). O ecumenismo pôs-nos em movimento segundo a vontade de Jesus e poderá avançar se, caminhando sob a guia do Espírito, recusar toda a reclusão autorreferencial.
 
Mas – poder-se-ia objetar – caminhar assim é trabalhar com prejuízo, porque não se tutelam devidamente os interesses das próprias comunidades, muitas vezes solidamente ligados a origens étnicas ou a orientações consolidadas, sejam estas de tipo mais «conservador» ou mais «progressista».
 
Sim, escolher ser de Jesus antes que de Apolo ou de Cefas (cf. 1 Cor 1, 12), antepor o ser de Cristo ao facto de ser «judeu ou grego» (cf. Gal 3, 28), ser do Senhor antes que de direita ou de esquerda, escolher em nome do Evangelho o irmão antes que a si mesmo significa frequentemente, aos olhos do mundo, trabalhar com prejuízo.
 
O ecumenismo é «um grande empreendimento com prejuízo». Mas trata-se de prejuízo evangélico, segundo o caminho traçado por Jesus: «Quem quiser salvar a sua vida, há de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há de salvá-la» (Lc 9, 24). Salvaguardar-se a si próprio é caminhar segundo a carne; perder-se seguindo Jesus é caminhar segundo o Espírito. Só assim se produz fruto na vinha do Senhor.
 
Como ensina o próprio Jesus, não quantos amealham produzem fruto na vinha do Senhor, mas os que, servindo, seguem a lógica de Deus, o Qual continua a dar e a dar-Se (cf. Mt 21, 33-42). É a lógica da Páscoa, a única que dá fruto.
 
Contemplando o nosso caminho, podemos ver espelhadas nele algumas situações das comunidades da Galácia de então: como é difícil amortecer as animosidades e cultivar a comunhão, como é duro sair de contrastes e rejeições mútuas alimentadas durante séculos! E mais árduo ainda é resistir à tentação subtil de estar junto com os outros, caminhar junto, mas com a intenção de satisfazer algum interesse de parte. Esta não é a lógica do Apóstolo; é a de Judas, que caminhava junto com Jesus, mas para proveito dos seus negócios.
 
A resposta aos nossos passos vacilantes é sempre a mesma: caminhar segundo o Espírito, purificando o coração do mal, escolhendo com santa obstinação o caminho do Evangelho e recusando os atalhos do mundo.
 
Depois de tantos anos de empenho ecuménico, neste septuagésimo aniversário do Conselho, peçamos ao Espírito que revigore o nosso passo. Este detém-se, com demasiada facilidade, à vista das divergências que persistem; muitas vezes bloqueia-se logo à partida, entorpecido pelo pessimismo. Que as distâncias não sejam desculpas! É possível, já agora, caminhar segundo o Espírito. Rezar, evangelizar, servir juntos: isto é possível e agradável a Deus. Caminhar juntos, rezar juntos, trabalhar juntos: eis a nossa estrada-mestra.
 
Esta estrada tem uma meta concreta: a unidade. A estrada oposta, a da divisão, leva a guerras e destruições. O Senhor pede-nos para embocar continuamente o caminho da comunhão, que leva à paz. De facto, a divisão «contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura» (Decr. Unitatis redintegratio, 1). O Senhor pede-nos unidade; o mundo, dilacerado por demasiadas divisões que afetam sobretudo os mais fracos, invoca unidade.
 
Amados irmãos e irmãs, desejei vir aqui, peregrino em busca de unidade e de paz. Agradeço a Deus porque aqui vos encontrei a vós, irmãos e irmãs já a caminho. Caminhar juntos, para nós cristãos, não é uma estratégia para fazer valer mais o nosso peso, mas um ato de obediência ao Senhor e de amor pelo mundo. Peçamos ao Pai para caminhar juntos, com mais vigor, nos caminhos do Espírito. Que a Cruz nos sirva de orientação no caminho, porque lá, em Jesus, foram abatidos os muros de separação e foi vencida toda a inimizade (cf. Ef 2, 14): lá compreendemos que, apesar de todas as nossas fraquezas, nada poderá jamais separar-nos do seu amor (cf. Rm 8, 35-39)."
 
Fonte: Vatican News
Foto: WCC/CMI

 
 
O papa Francisco chegou em Genebra nesta quinta-feira, 21 de junho, por ocasião das comemorações dos 70 anos de fundação do Conselho Mundial de Igrejas (CMI).
 
O organismo – que já foi visitado por Paulo VI em 1969 e por João Paulo II em 1984 – é a mais ampla e inclusiva expressão organizada do movimento ecumênico, enquanto organização mundial com o número mais alto de Igrejas membro.
 
O CMI reúne, de fato, 345 comunidades cristãs de mais de 110 países e compreende luteranos, reformados, anglicanos, metodistas, batistas, ortodoxos, além de outras denominações cristãs. No total, representa mais de 500 milhões de fiéis em todo o mundo. A Igreja Católica não é membro pleno, mas participa de dois organismos do CMI.
 
Atualmente, as ações do CMI são centradas em três áreas programáticas: unidade, missão e relações ecumênicas; testemunho público e diaconia; formação ecumênica.
 
Diversos brasileiros estão presentes em Genebra. Entre eles, o teólogo e pastor luterano Dr. Walter Altmann, que representou o CMI no Sínodo da Família, realizado em outubro de 2015. Ele falou ao Vatican News, sobre o significado desta visita:
 
“Trata-se de mais uma clara afirmação do compromisso ecumênico da Igreja Católica e do Papa Francisco e, ao mesmo tempo, um igualmente claro reconhecimento do papel histórico fundamental desempenhado pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI) no movimento ecumênico”.
 
Quais as expectativas para a visita e que frutos se pode esperar para o diálogo ecumênico?
 
“Sem dúvida, haverá um impulso significativo à cooperação ecumênica mundo afora. É de se esperar também a intensificação dos laços institucionais já existentes entre o Vaticano e o CMI. A Igreja Católica Romana, embora não seja membro pleno do CMI, exerce membresia plena na Comissão de Fé e Ordem e na Comissão de Missão Mundial e Evangelismo, organismos do CMI, mas que inclusive precederam à criação do CMI em 1948”.
 
A primeira "atividade" em Genebra no dia 21, será a Oração Ecumênica. Ou seja, a exemplo de Lund, começa-se pela Oração. Qual o significado disto?
 
“Atualmente a cada ano realiza-se em todo mundo a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. O início dessa prática se deu já no começo do século 20, portanto bem antes da constituição do CMI e da realização do Vaticano II. Isso tem também um bom sentido teológico e espiritual: a unidade almejada não provém primordialmente de esforços e projetos humanos, mas da ação do próprio Deus. Assim, da prática da oração derivam os atos concretos de cooperação. Por isso, na visita do Papa Francisco ao CMI, o primeiro será nos unirmos em oração”.
 
Quais campos mais abertos atualmente para uma ação conjunta entre o Conselho Mundial de Igrejas e a Igreja Católica?
 
“Aos 70 anos de existência, o CMI tem entendido toda sua programação como uma peregrinação na paz e na justiça. Nisso há uma perfeita sintonia com objetivos do peregrinar da Igreja Católica. Nesse campo há muitas áreas de cooperação já existente ou possível. Menciono, por exemplo, atenção a refugiados, direitos humanos, voz profética em favor da paz, cuidado da criação, denúncia de estruturas sociais e políticas discriminatórias e opressoras. Assim como Cristo no Evangelho se identificou com as pessoas que padecem necessidades, também as Igrejas são vocacionadas a se colocar ao lado das pessoas mais vulneráveis em nossas sociedade. E o Papa Francisco tem sido exemplar em dar gestos concretos desse compromisso de misericórdia”.
 
E também, onde encontram-se as maiores dificuldades, os maiores desafios...
 
“Há, naturalmente, sensíveis resistências ao ecumenismo dentro de nossas Igrejas. Isso demanda de quem assumiu o ecumenismo uma amorosa persistência. O maior sofrimento entre os fiéis das Igrejas, penso ser que até agora não tenha sido possível chegarmos a um entendimento comum que possibilite a participação conjunta na Mesa do Senhor, ou seja, na Eucaristia. Enquanto não pudermos chegar a esse compartilhamento, nossa unidade ainda será deficiente. Por isso mesmo: devemos perseverar diligentemente na prática do ecumenismo”.
 
Fonte: Vatican News
Foto: WCC/CMI

 
Neste domingo, 24 de junho, será realizado em Brasília o Ato pela Caminhada Pegadas de Ternura. A ação, que ocorrerá de 11h30 até 12h00 no Parque Ana Lídia, dentro do Parque da Cidade Sarah Kubitschek, tem como objetivo ser uma mobilização de enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes.
 
O mesmo Ato irá passar por 20 países da América Latina e Caribe, percorrendo 15 mil quilômetros durante um ano, com o objetivo de mobilizar a sociedade civil no desafio de eliminar a violência contra as crianças e adolescentes. A passeata é organizada pela ONG Visão Mundial América Latina e Cabine, em parceria com o Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), a Cáritas América Latina e Caribe e a Federação Internacional Fé e Alegria. No Brasil, a Caminhada conta ainda com a parceria da RENAS, Rede Mãos Dadas, CONIC e Igreja Metodista. 
 
Contexto brasileiro
 
Dias atrás, o assassinato bárbaro da jovem Vitória Gabrielly Guimarães Vaz, 12 anos, comoveu o país. O caso dela é apenas mais um entre centenas que ocorrem a cada dia. Muitos sem punição. De acordo com o Unicef - Fundo das Nações Unidas para a Infância -, o Brasil está entre os cinco países sem conflito armado com as piores taxas em homicídio de adolescentes.
 
Ainda segundo o Unicef, em todo o mundo, cerca de 15 milhões de adolescentes meninas, de 15 a 19 anos, foram vítimas de relações sexuais ou outros atos sexuais forçados. Dados de 28 países indicam que 90% das adolescentes vítimas disseram que o autor da primeira violação era alguém próximo ou conhecido. E apenas 1% das que sofreram violência sexual disseram que buscaram ajuda profissional.
 
Ana Lídia
 
O local que receberá esse Ato tem um nome ligado a essa triste realidade: Ana Lídia
 
A menina tinha apenas 7 anos quando a sequestraram em Brasília, no dia 11 de setembro de 1973. A menina foi torturada, morta por asfixia e estuprada, morte que, segundo os peritos que analisaram seu corpo, teria ocorrido na madrugada do dia seguinte. Seu corpo foi encontrado por policiais às 13h de 12 de setembro. Estava semienterrado numa vala, próxima à qual havia marcas de pneus de moto e 2 camisinhas. A menina estava nua, com marcas de cigarro e com os cabelos mal cortados.
 
Os suspeitos do crime foram o próprio irmão que, junto à namorada e alguns filhos de políticos e importantes membros da sociedade brasiliense. Mas os culpados nunca foram apontados, e o caso Ana Lídia tornou-se mais um símbolo da impunidade durante a ditadura militar.
 
"É muito importante que estajamos unidos na defesa dos mais vulneráveis. Não podemos conceber que um país que se vende como 'o país do futuro' trate com tanto desdém nossas crianças e adolescentes, logo eles, que são o futuro da nação. O CONIC apoia esse Ato e motiva para que nas celebrações deste domingo, 24, possamos acolher a proposta da caminhada e soltar balões brancos em memória de Vitória Gabrielly, das crianças e adolescentes separadas dos pais nas fronteiras dos EUA e das muitas outras que sofrem violência e abuso nas famílias e na sociedade", declarou a secretária-geral do Conselho, Romi Bencke.

 
 
Em 1904, o afro-americano Luther Holbert foi amarrado a uma árvore em Doddsville, no Estado americano do Mississippi, por uma multidão que o acusava de matar um fazendeiro branco. Naquela época, os Estados Unidos viviam um período de violência e segregação raciais.
 
Junto de Holbert, também presa a uma árvore, estava uma mulher - acredita-se que era sua esposa. Ambos foram obrigados a erguerem as mãos. Em seguida, seus dedos foram cortados um a um, e depois jogados para a multidão, como uma espécie de souvenir macabro. Suas orelhas também foram cortadas.
 
Além disso, os dois foram espancados. Uma espécie de saca-rolhas foi usada para fazer buracos em seus corpos e retirar pedaços de suas carnes. Finalmente, Holbert e a mulher foram jogados em uma fogueira e morreram queimados.
 
A tortura e o assassinato de Holbert e da mulher desconhecida foram assistidos por uma multidão de homens, mulheres e até crianças, todos brancos. Enquanto presenciava o linchamento, o público comia ovos recheados e bebia limonada ou uísque, com a mesma atitude tranquila de quem está fazendo um piquenique.
 
Este episódio de linchamento brutal está longe de ter sido o único nos Estados Unidos. Entre 1877 e 1950, 4,4 mil pessoas foram linchadas no país, segundo registros da Iniciativa por uma Justiça Igualitária (EJI, na sigla em inglês), uma organização não governamental. A grande maioria delas eram pessoas negras.
 
É o que os historiadores chamam de "era dos linchamentos". Não era uma forma de fazer justiça pelas próprias mãos. Tratava-se, na verdade, de crimes raciais.
 
 
Linchamentos foram anunciados nos jornais da época
 
A "era dos linchamentos" se estendeu até meados do século 20. Seu ápice foi entre 1890 e 1930, explica Stewart Tolnay, professor de Sociologia da Universidade de Washington.
 
Em alguns casos, inclusive, eram publicados anúncios nos jornais, convocando as massas para participarem. "Três mil pessoas vão queimar um negro", dizia uma notícia do New Orleans State, de 1919. "John Hartfield será linchado por uma multidão de Ellisville às 5 da tarde de hoje", falava o Daily News de Jackson, Mississipi, do mesmo período.
 
"Os casos em que os linchamentos foram anunciados nos jornais são poucos, ainda que tenham resultado em algumas das maiores multidões. Mais frequentes foram os casos em que massas pequenas detinham e linchavam alguém, a quem acusavam de ter cometido um tipo de crime. Eram eventos rotineiros e silenciosos", indica Tolnay, que publicou dois livros e diversos artigos sobre o tema.
 
O fato de estas mortes poderem ser anunciadas na imprensa, com antecedência, demonstra que não se tratava de ações impulsivas executadas por uma turba exaltada. Havia um planejamento. Some-se a isso que era muito raro que os linchadores fossem julgados.
 
A EJI destaca que as mortes não eram resultado da ação de uns poucos extremistas, mas sim atos públicos violentos que contavam com a participação de toda uma comunidade. Além disso, eram toleradas pelas autoridades e os responsáveis não enfrentavam nenhum tipo de consequência legal.
 
"Os linchamentos eram atos de violência racial que estavam no centro de uma campanha sistemática de terror que perpetuava e respaldava uma ordem social injusta. Estes linchamentos eram terrorismo", aponta a organização em seu informe.
 
De supostos crimes ao simples fato de esbarrar em brancos
 
A maior parte de vítimas de linchamentos era negra. Entre 1882 e 1889, a proporção era de 4 negros para cada branco. Posteriormente, entre 1890 e 1900, aumentou para 6 negros para cada branco. Depois disso, chegou a 17 para 1.
 
Segundo o estudo da EJI, cerca de 30% dos afro-americanos linchados foram acusados de homicídio. Outros 25% foram acusados de agressão sexual. "A definição de violação sexual de um negro a uma branca no Sul dos Estados Unidos era incrivelmente ampla. Não era necessário o uso da força, porque a maior parte dos brancos rechaçava a ideia de que uma mulher branca poderia consentir uma relação sexual com um negro", considera a organização.
 
Outras centenas de negros perderam a vida acusados de provocar incêndio, praticar roubo ou simplemente por "vadiagem".
 
Havia acusações mais banais. Segundo o estudo da EIJ, o afro-americano Jesse Thornton foi linchado em Luverne, Alabama, em 1940 por ter se referido a um policial pelo nome, e não por "senhor". Já em 1916, Jeff Brown foi linchado em Cedarbluff, Mississipi, por tropeçar acidentalmente em uma jovem branca enquanto corria para pegar o trem. O soldado Charles Lewis foi linchado em 1918, em Hickman, Kentucky, por se negar a esvaziar os bolsos enquanto estava vestindo seu uniforme militar.
 
O professor Stewart Tolnay aponta que os linchamentos não eram uma forma de justiça popular frente a um sistema de justiça oficial que não funcionava.
 
"Havia um sistema penal perfeitamente adequado que podia lidar com os delinquentes, fossem eles brancos ou negros. O linchamento dos negros tinha um objetivo diferente: deixar uma mensagem muito clara para a comunidade negra de que havia limites para sua ascenção social", afirma Tolnay.
 
Já os brancos que eram linchados costumavam fazer parte de uma camada marginalizada da sociedade, explica Tolnay. Eles "nunca eram linchados pelos motivos banais pelos quais os negros eram mortos. Além disso, não costumavam sofrer torturas", afirma Tolnay.
 
Negros foram privados de direitos
 
A "era dos linchamentos" teve seu epicentro no Sul dos Estados Unidos. Se iniciou depois do fim da guerra civil americana e da declaração formal de fim da escravidão, em 1863. Para os pesquisadores, não se trata de coincidência.
 
"Depois da guerra civil, cerca de 4 milhões de escravos negros se tornaram livres e passaram a competir com os brancos (por empregos) nas economias dos estados do Sul", explica Tolnay.
 
"Os negros foram ameaçados até que ficaram completamente privados de direitos de participação política, por volta do ano 1900, e o Sul ficou governado pelo sistema de castas raciais, no qual havia uma clara linha de separação entre a 'raça branca superior' e a 'raça negra subordinada'".
 
"Os brancos ricos eram a elite e os brancos pobres usavam o linchamento para reforçar esse sistema de castas raciais e reduzir as probabilidades de ascenção social dos negros do Sul", acrescenta.
 
Afro-americanos fugiram do Sul para o Norte
 
Os linchamentos foram uma das causas da migração massiva de cerca de 6 milhões de afro-americanos do Sul para o Norte dos Estados Unidos, entre 1915 e 1970. No Norte, se estabeleceram em guetos.
 
Essa redistribuição da população reduziu a disponibilidade de mão-de-obra barata no Sul, algo que segundo Tolnay pode ter convencido as elites do Sul sobre a necessidade de mudanças.
 
"Os linchamentos se converteram em algo vergonhoso para o Sul, à medida que a economia se desenvolvia. A elite branca tentava atrair capitais externos, então precisava mudar a imagem do Sul. Essa era uma prática brutal, espantosa e desumana, que não ajudava", assinala o professor.
 
Deste modo, o fenômeno foi se reduzindo até acabar. Mas sem que, segundo a ONG EJI, houvesse um processo de reconhecimento da brutalidade do passado e de reconciliação, como ocorreu na Alemanha com relação ao Holocausto ou na África do Sul sobre o apartheid.
 
Monumento para lembrar as vítimas
 
Apesar de ser uma parte importante da história dos Estados Unidos, a "era dos linchamentos" é pouco conhecida. Para mudar isso, em 26 de abril, foi inaugurado o Monumento Nacional pela Paz e Justiça em Montgomery, no Estado americano do Alabama.
 
"Diga o nome de um afro-americano linchado entre 1877 e 1950? A maior parte das pessoas não conhece nenhum. Milhares de pessoas morreram, mas não se pode nomear uma sequer? Por quê? Porque não temos falado sobre isso", comentou Bryan Stevenson, fundador da EJI, sobre o motivo por trás da criação do Monumento.
 
O Monumento espera apresentar para o público o contexto da história do terror racial nos Estados Unidos, com o uso de recursos artísticos. Além disso, foram criados mais de 800 memoriais de aço de cerca de 2 metros de altura, um para cada condado dos Estados Unidos onde afro-americanos foram linchados. Neles, estará grafado o nome das vítimas.
 
Cada um desses monumentos tem uma réplica, que a EJI espera entregar para as regiões correspondentes. A ideia é que as esculturas sejam expostas nos próprios locais, recordando as histórias de linchamento.
 
Para os responsáveis da EJI, o número de regiões que solicitarem o envio dessas réplicas será um indicador de quanto se avançou no caminho da verdade e da reconciliação.
 
Fonte: BBC
Fotos: Reprodução/GETTY IMAGES

 
Se considerada a produção agrícola nacional, País salta para a 5ª posição, com faturamento anual de US$ 84,6 bi.
 
Levantamento feito pelo portal Governo do Brasil mostra que a agricultura familiar tem um peso importante para a economia brasileira. Com um faturamento anual de US$ 55,2 bilhões, caso o País tivesse só a produção familiar, ainda assim estaria no top 10 do agronegócio mundial, entre os maiores produtores de alimentos.
 
Os dados fazem parte de uma comparação entre dados do Banco Mundial e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Quando se soma a agricultura familiar com toda a produção, o Brasil passa de oitavo maior para a quinta posição, com faturamento de US$ 84,6 bi por ano. “O crescimento do Brasil passa pela agricultura familiar. O agricultor familiar tem grande importância para o crescimento do Brasil”, afirma o secretário da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário, Jefferson Coriteac.
 
De acordo com o último Censo Agropecuário, a agricultura familiar é a base da economia de 90% dos municípios brasileiros com até 20 mil habitantes. Além disso, é responsável pela renda de 40% da população economicamente ativa do País e por mais de 70% dos brasileiros ocupados no campo.
 
Peso da agricultura familiar na produção
 
A agricultura familiar ainda produz 70% do feijão nacional, 34% do arroz, 87% da mandioca, 46% do milho, 38% do café e 21% do trigo. O setor também é responsável por 60% da produção de leite e por 59% do rebanho suíno, 50% das aves e 30% dos bovinos.
 
Coriteac explica que 84% dos estabelecimentos rurais são de agricultores familiares. “E pelo novo censo agropecuário que está sendo feito, a tendência é esse número crescer cada vez mais, principalmente com a procura por produtos agroecológicos”, afirma.
 
O secretário ainda relata que o governo trabalha com uma série de políticas públicas para reduzir o êxodo rural e tornar a produção dessas famílias mais eficiente. Entre elas, uma das mais importantes é da titulação da terra. Com esse título, esses trabalhadores ganham acesso a crédito rural e a programas como os de assistência técnica.
 
O que é um agricultor familiar
 
A Lei 11.326/2006 diz que agricultores familiares são aqueles que praticam atividades no meio rural, possuem área de até quatro módulos fiscais, mão de obra da própria família e renda vinculada ao próprio estabelecimento e gerenciamento do estabelecimento ou empreendimento por parentes. Também entram nessa classificação silvicultores, aquicultores, extrativistas, pescadores, indígenas, quilombolas e assentados da reforma agrária.
 
Fonte: Governo do Brasil, reproduzida por Amazônia.org
Foto: Divulgação SEAD

 
 
A família do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar em outubro de 1975, foi obrigada a conviver, por 38 anos, com uma mentira oficial humilhante que só viria a ser corrigida em 2013. Foi somente em março daquele ano que a viúva Clarice Herzog, e os filhos Ivo e André receberam a certidão de óbito corrigida com a verdadeira causa da morte do pai: lesões e maus-tratos sofridos durante interrogatório nas dependências do segundo Exército DOI-CODI, em São Paulo, onde ocorreram as principais execuções da ditadura. Na certidão anterior, a versão maquiada pelo Governo militar sugeria o suicídio, ou “enforcamento por asfixia mecânica”. Era apenas mais uma mentira diabólica que a ditadura militar (1964-1985) produziu e amarrou de modo a manter uma versão fantasiosa sobre esse período da história brasileira.
 
O caso de Herzog, no entanto, é apenas uma peça de um quebra-cabeça que parece, agora, ainda mais incompleto, diante do recente relatório da CIA que veio a público há poucos dias. O documento, revelado pelo Bureau of Public Affairs do Departamento de Estado dos Estados Unidos, revelou que o general Ernesto Geisel, o quarto presidente militar da ditadura, que assumiu em 1974, endossava a execução de “subversivos” pelo regime. Até então, a história brasileira retratava o general, que governou até 1979, como a figura decisiva para a abertura do país à democracia, e que integrava a ala ponderada do regime, um contraponto à ala radical dos militares que defendiam matar seus opositores. Os novos documentos, porém, revelam que Geisel não era tão moderado como se acreditava. Ao contrário, ele tomou a decisão, em abril de 1974, de manter essa política de execuções no seu Governo, ainda que com alguma ressalva. 
 
Segundo os documentos da inteligência dos EUA, ele orientou que apenas subversivos perigosos fossem executados no seu Governo. Vladimir Herzog, porém, não seguia esse perfil. O jornalista ocupava o cargo de diretor de jornalismo da TV Cultura à época em que foi assassinado. Por tratar-se de um canal público, a contratação de Herzog, naquele mesmo ano de 1975, precisou ser endossada pelo Serviço Nacional de Informação (SNI), centro de inteligência criado pelos militares em 1964, justamente para controlar os inimigos do Governo. Chamado para ser interrogado num momento em que jornalistas eram alvo de perseguição do regime, Herzog apresentou-se espontaneamente no dia 25 de outubro na sede do DOI-CODI. Nunca mais voltou. Foi morto ali, aos 38 anos. Tão cruel quanto a sua execução, foi a farsa montada pelos militares, que simularam um suicídio de Herzog. O jornalista foi fotografado enforcado com um cinto. A foto, toscamente montada, circulou o mundo, e expôs a perversidade que o Brasil vivia àquela altura. Ao menos 89 pessoas foram mortas a partir de abril de 1974, segundo levantou o portal G1.
 
Desde a morte de Vladimir Herzog, coube à sua família sobreviver para trazer a verdade dos fatos. O filho mais velho do jornalista, Ivo, viveu a tragédia quando tinha somente 9 anos. Hoje, aos 52, trabalhando no instituto que leva o nome do seu pai, continua pressionando pela verdadeira história da ditadura. Foi ele quem cobrou, em nome da família, que o Itamaraty solicitasse ao governo americano a divulgação completa do relatório da CIA com detalhes que ainda não vieram a público. Ivo recebeu o EL PAÍS por duas horas e meia para falar, uma vez mais, da morte de seu pai, desta vez à luz das novas revelações.
 
Pergunta. Você, como filho de um personagem icônico dessa passagem da história do Brasil, como recebeu o relatório da CIA que veio à tona?
 
Resposta. Esses documentos derrubam a tese que a gente viveu, eu pelo menos vivi, durante muitos e muitos anos. A gente achava que o Ernesto Geisel não era a pessoa a quem tínhamos de focar nossos olhos, nossas raivas. E os documentos mostram que sim, ele fazia parte de um grupo, não sei se o mais ou menos radical. Mas isso agora é irrelevante. O fato é que ele era conivente com as torturas e com os assassinatos. Ele tinha conhecimento do que estava acontecendo, e dava o aval da presidência. Esse documento sepulta esse termo “porões da ditadura”, que surgiu há 30 ou 40 anos. Não existem porões, existem os palácios da ditadura. Os processos da ditadura começam nos palácios dos governos.
 
P. Para sua família não havia, então, um papel do general Ernesto Geisel nas torturas praticadas durante a ditadura? É mesmo a partir do relatório da CIA que vocês ganham essa percepção?
 
R. No meu radar não tinha nenhuma informação sobre essa questão do Geisel. Ainda existia uma versão fantasiosa de que a ditadura teria vindo num crescente a partir do golpe civil militar [de 1964], que teria o ápice do endurecimento em 1973, e que com o início da gestão do Geisel, teria começado a diminuir a linha mais dura da ditadura com vias à redemocratização. Ou seja, Geisel teria enfrentado internamente setores do Governo que ainda eram de linha muito dura. E que as mortes e torturas do DOI-CODI eram parte de uma ala mais radical do regime. Que não chegava ao topo da linha de comando. Inclusive se criava esse clima de que havia uma disputa política, briga de poder, com se a linha mais dura quisesse ganhar espaço e sustentar a ideia de um perigo comunista. Na hora em que se sabe que o palácio tinha o poder para dar aval [às execuções de opositores], percebe-se que ele também tinha poder para proibir, cessar. A responsabilidade, em última análise, era da presidência da República.
 
P. Entre 1974 e 1975 veem-se comunicações dos EUA para o Brasil com certos questionamentos sobre desrespeito a direitos humanos e práticas de torturas no país.
 
R. Não eram bem questionamentos, era mais preocupação. Mas não vi uma condenação do governo americano. O que acontece – e por isso fiz a carta a[o ministro de Relações Exteriores] Aloysio Nunes – é que há trechos que estão censurados dos documentos, provavelmente porque envolvem mais o governo norte-americano. Liberou-se uma narrativa sobre personagens brasileiros. Mas não tem nenhuma sobre a atuação de personagens dos EUA. Quero saber o que ainda está escondido. Temos de ver o que está sob censura. Se a gente consegue recuperar a nossa história, o governo brasileiro deveria ter acesso a essas informações.
 
P. O caso do seu pai chegou à Corte Interamericana no ano passado. O relatório de agora mudaria de alguma forma o teor do que estava na corte?
 
R. Acho que não mudaria. A sentença está para sair nos próximos dias, semana que vem, talvez. Está pronta, não é pública, está sendo traduzida para o português, inclusive. Está na marca do pênalti.
 
P. Nesse processo está sendo acusado o Estado brasileiro.
 
R. O Brasil está cometendo um crime, que continua cometendo. Os crimes de lesa humanidade não são prescritíveis. Não podem deixar de ser investigados por nenhuma lei de Anistia. Se a família Herzog tenta abrir uma ação como tentamos, tribunais brasileiros devolvem dizendo que o crime prescreveu e que a lei de Anistia [de 1979] não permite que se investigue. Isso está errado. Uma parte do julgamento que está na corte diz muito respeito a isso, e sobre políticas de repetição, memória...
 
P. O que você chama de repetição?
 
R. Você comete um crime. Qual política você faz para que não se cometa no presente esse crime do passado? Você faz políticas públicas para evitar repetição, que passam pela construção de memoriais, garantir mecanismos para que os fatos estejam nos livros de história.
 
P. Mesmo com todas as evidências, muitas pessoas insistem em dizer que a ditadura e o próprio relatório não existem.
 
R. O Brasil tem essa coisa de insistir em virar a página da ditadura mas sem escrevê-la antes. Antes de virar a página a gente precisa ter o conteúdo para escrever o que a gente quer virar. Temos de andar para a frente, mas tem de levar junto o passado para entender o presente e não repetir os erros de ontem. É a maneira de construir uma nação.
 
P. O Itamaraty acatou o pedido de sua família de cobrar informações do governo americano?
 
R. A mensagem que recebemos é que instruíram a embaixada em Washington para dar andamento a nossa solicitação. Nós temos uma pessoa lá para monitorar.
 
P. E esse documento é mais um detalhamento do que já é?
 
R. Fiquei um pouco decepcionado de receber do Governo uma mensagem pelo e-mail geral do instituto para dizer isso. Acho que o próprio ministro Aloysio Nunes deveria ter vindo a público dar entrevista se posicionando a respeito, pelo que ele representa institucionalmente e pela história pessoal que ele tem [Aloysio integrou uma das organizações guerrilheiras mais importantes que lutou contra a ditadura].
 
P. É a dificuldade de tomar posição?
 
R. Não criar rupturas, não tomar partidos, pisando em casca de ovo. O maior adversário ao caso Herzog na OEA é o Estado Brasileiro. Uma barbaridade nas argumentações que eles utilizaram, construídas pela AGU e Itamaraty. Mas é um absurdo, de uma estupidez. Não é possível que um governo de Estado democrático de Direito trabalhe essa argumentação, parece do tempo da ditadura. Quando a Dilma era presidente, e esse processo estava em determinada fase, conversei com a SDH colocando as áreas que víamos como necessárias (memória do caso, reparação, não repetição e a Justiça em si). Quando teve audiência lá na Costa Risca, eles disseram a minha mãe que eu já estava negociando uma solução para o assunto. “Seu filho Herzog já disse o que queria. Para a gente nem deveria existir este caso.”
 
P. Isso durante a audiência na corte?
 
R. Sim, na audiência na corte, no ano passado, enquanto minha mãe estava sendo entrevistada. A menina da AGU. Foi uma coisa covarde, lamentável.
 
P. Mas quando falamos em Justiça, efetivamente, qual é a referência?
 
R. A ação [apresentada por Clarice Herzog pedindo que o Estado reconheça sua responsabilidade pela prisão, tortura e morte de Vladimir Herzog] em 1976, vencida pela família, ordena que o Estado investigue a morte do meu pai. Transitou em julgado e o Estado não cumpre a sentença do Juiz Márcio Moraes. Em novas ações que a família tentou, não tivemos sucesso com o Estado dizendo que está arquivada porque prescreveu e tem sobre ela a lei da Anistia. Mas pelos acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário, essa lei não pode estar acima de um entendimento jurídico internacional. Crimes de lesa humanidade não prescrevem.
 
P. Vocês já passaram por bastante coisa difícil em busca de justiça neste caso...
 
R. Quando houve o crime contra meu pai, minha mãe trabalhava na agência Ogilvy. O grupo sugeriu a minha mãe que ela fosse para qualquer outro país. Ela disse “eu tenho que ficar aqui e mostrar aos meus filhos a verdade dessa história e buscar justiça.” E sempre procurou fazer isso, e perdeu muitos amigos que diziam que ela era louca, que se afastaram, porque ela manteve a fé nos instrumentos que o Estado oferecia. Sim, aquele Estado de exceção. Herdamos isso dela. Vivemos em um Estado de Direito e há instituições, que precisam ser usadas. Se elas não funcionam, que se posicionem. Mas temos de usar as regras de jogo para mostrar a verdade. E a luta tem sido nesse caminho. Conhece-se a história, sabe-se a verdade, mas não se torna a história oficial. O mais perto que chegamos foi a certidão de óbito.
 
P. A juventude hoje não tem nem referência de quem foi seu pai. Foi filiado ao Partido Comunista, o que gera polêmica...
 
R. Sim, um partido clandestino. Mas por que ele se filiou àquele grupo? Há detalhes que as pessoas esquecem, e são esses que fazem toda a diferença. Meu pai nunca foi preso. Tanto que ele se apresenta voluntariamente para depor no DOI-CODI de São Paulo. Isso é uma diferença brutal. Quando meu pai decide participar mais ativamente em busca da democracia e da liberdade, e ele é totalmente ligado aos movimentos culturais, ele traz valores absolutamente inegociáveis. Ele sempre foi contra e ele sempre condenou qualquer formação de violência. Até por ele ter fugido do terror nazista [os pais de Vladimir Herzog chegaram ao Brasil depois de fugir da perseguição nazista aos judeus]. E haviam vários grupos que buscavam a democracia, derrubar o governo militar. Mas na sua maioria ou eram do grupo da luta armada, ou não tinham nada contra a luta armada. Haviam dois grupos apenas naquela época que condenavam a luta armada: o Partido Comunista Brasileiro e a Igreja Católica de D. Paulo [Evaristo Arns]. Mas ele era judeu. Por isso lhe restou o PCB. E as pessoas ficam falando que ia ter um regime de Cuba, essas bobagens todas. É uma ignorância absurda. E hoje a gente tem de ter menos tolerância com essa ignorância. Porque no passado você precisava consultar livros, estudar em biblioteca. Hoje dá um Google e você consegue ter acesso a essa informação, à História. Mas as pessoas ficam na sua zona de conforto e falando de maneira leviana sem ter conhecimento sobre a temática que estão falando.
 
P. Ou seja, o PCB não tinha nada a ver com o socialismo da URSS.
 
R. Não, era o PCdoB que tinha mais essa ligação com a União Soviética. O PCB acreditava no Estado com uma política de Estado social. Era mais parecido com o atual PSDB. Quando o PCB se legalizou, Alberto Goldman [ex-governador de São Paulo] se elegeu deputado federal pelo partido. Votei no Goldman, que depois foi para o PMDB e PSDB. As coisas eram próximas.
 
P. O que vocês acham que aconteceu com o seu pai dentro do DOI-CODI?
 
R. De novo, os detalhes. O que existia era uma ala mais radical do Governo querendo provar que havia um perigo comunista. E naquele momento o foco eram os jornalistas. E haviam jornalistas que eram mais ou menos ativos politicamente. Meu pai era menos ativo. E tem um outro ponto importante. Para ele ser contratado pela TV Cultura, o nome dele foi aprovado pelo SNI [Serviço Nacional de Informação], por Brasília, pelo Exército. Foi aprovado porque não havia nada contra ele. Mas naquela hora você tem outros jornalistas sendo torturados para falar nomes de membros do partido comunista. E tem o nome do meu pai. Então meu pai é chamado, na mesma linha de começar a soltar nomes. E o método para confessar era através de violência, e começa a sofrer. E num determinado momento, já bastante intenso, mandam ele redigir um bilhete, dizendo que se arrependia, fazendo mea culpa algo assim. E esse bilhete é muito importante porque é uma prova de tortura, e as palavras que estão lá não são palavras que meu pai usaria. A letra é dele, mas numa grafia perturbada. Ele escreve e quando termina, num momento de reflexão, meu pai rasga o bilhete. Quando rasga, os caras foram com tudo pra cima dele. E aí ele morre. Não acho que quando meu pai foi para lá, o objetivo do Exército era que ele não saísse de lá. Até porque tomamos algumas precauções. Ele não podia desaparecer. Quando ele foi voluntariamente, foi junto com um colega da redação. Tinha algumas medidas de precaução. A leitura que temos é que foi um momento de fúria que resultou na morte dele.
 
P. Como foi para você, criança, isso naquele momento, e crescer sem pai?
 
R. Essa parte eu já falei 200 milhões de vezes, foram pelo menos 20 entrevistas nesta semana de coisas que me mutilam. Sobre essa coisa de mudar o Brasil podemos falar até a meia-noite. Mas essa parte é... desgastante. Isso é irrelevante para construir qualquer coisa a maneira como eu vivi é irrelevante para construir alguma coisa nova.
 
P. Hoje seu foco é exatamente pensar o país.
 
R. Dia 27 de junho de 2009 é criado o instituto Vladimir Herzog. Até essa data nós falávamos do meu pai em outubro [25 de outubro de 1975], pois o tema era a morte dele. O instituto é criado no dia de nascimento dele. A pauta vira a vida, vira uma pauta construtiva. Fica muito melhor para a família. Posso falar do caso Herzog até a meia noite se necessário, mas cutucar a morte dele... até porque é algo que sempre me afastei. Aqui no instituto não há uma foto do meu pai morto. Nunca li uma matéria sobre a morte do meu pai. Não é algo que agrega. Tem cicatrizes profundas, mas que não vão construir o mundo. O importante aqui é que uma criança foi machucada de uma maneira muito séria. Sou o filho mais velho, e somos uma família muito pequena. Somos eu, minha mãe, meu irmão, meu filho e duas sobrinhas. Os únicos Herzog. Me introduzi no assunto da política aos 9 anos de idade. É um assunto sério para mim, e me incomodo quando as pessoas são levianas sobre esse tema. Sou um ator político intenso, mais do que eu deveria ser por conta de uma tragédia. Não deveria precisar de uma tragédia para isso.
 
P. Você e sua família perdoam quem cometeu esse crime contra seu pai?
 
R. Eu não desculpo, mas não vou viver amargurado para o resto da minha vida. Quando começou a questão dos escrachos há 4 ou 5 anos, minha mãe descobriu que o [Harry] Shibata [médico legista que assinou o atestado de óbito de Vladimir Herzog como se ele houvesse cometido suicídio] morava a 100 metros da casa dela. Ele se diz inocente até hoje, e ele queria falar com a minha mãe e ela não quis. Também não quero falar com ele. Acho que temos de seguir a lei. Se um militar cometeu um crime, tem de ser expulso da corporação. Para que nem eu e nem você continuemos pagando a aposentadoria dele. Tem de ter uma pena. Mas não é olho por olho, dente por dente. Alguns já morreram? Quando a gente faz alguma coisa temos de assumir responsabilidade pelo que fez e as consequências. Se isso vai envergonhar a família dele, eles que façam um trabalho de mostrar que não são mais aquilo que eles eram. Quando falamos em perdão, acho que temos agendas maiores do que as pontuais. Mostrar que a política de Estado mudou, o Estado reconhecer que o que existiu no passado é errado. Isso é uma coisa maior do que amanhã botar um ex-militar na cadeia. Pois quem diz que meu pai devia morrer vai continuar dizendo o mesmo. Precisa é o Estado dizer que houve erros que não podem mais acontecer, e criar mecanismos para que eles não aconteçam mais. Porque ainda está acontecendo. Amarildo [Souza, ajudante de pedreiro morto por policiais na Rocinha em 2013, cujo corpo nunca mais apareceu] foi torturado e assassinado. Marielle foi assassinada. Toda hora relatos de pessoas torturadas nas cadeias. Os próprios presídios são instrumentos de tortura e degradação humana. Isso que eu queria, o Estado assumindo que a população tem de ser tratada com dignidade e que não pode haver excessos. Quando um governante diz que a farda da polícia é igual à bandeira do país, e que quem desrespeitar a farda corre o risco de morrer, tem de ser rechaçado pela sociedade.
 
P. Você disse que nem pensaria no processo na corte internacional se houvesse um reconhecimento. Isso é mais importante que alguma indenização?
 
R. Sim. Tanto que minha mãe quando entra com ação em 1976 contra a União não pede indenização. As indenizações recebidas foram no governo Fernando Henrique e nessa onda dele dar um dinheiro para as vítimas. Mas nunca movemos processo por isso. Não que dinheiro não seja importante para a gente, claro. Mas tem a questão maior da não repetição. O Estado faz uma coisa errada, dá uma indenização, e depois comete outro crime e paga de novo. Não é o Governo quem paga, é você, contribuinte. É fácil para o Estado, saída indolor. Imagina se o Exército fala que sim, aconteceu, é verdade. “Houve exageros e matamos inocentes”. Como a pessoa que postou que ‘tinha que matar os filhos da puta mesmo na ditadura’ vai ficar? Vai ficar sozinho.
 
P. Você já teve a oportunidade de falar com gente das Forças Armadas?
 
R. Não. Por uns 30 anos não queria nem chegar perto desses caras. Mas se estivesse num debate público, colocaria. Sem problema algum. Uma vez fizemos um livro que foi lançado no salão nobre do Senado. Estava ao lado de Renan Calheiros, [ex-ministro da Justiça] Nelson Jobim – este, que foi um grande empecilho para a lei da Anistia. Jobim foi um dos caras que mais atrapalharam a nossa agenda. O encontro aconteceu duas semanas depois da morte de Amarildo. Peguei um dos livros. Havia saído uma reportagem sobre a execução dele em um jornal e coloquei dentro do livro. “Quero ler um trecho para vocês”, anunciei. O texto dizia algo assim “Evidências mostram que ele foi barbaramente assassinado após torturas pela polícia”. Então eu disse : "vocês podem estar achando que estou lendo sobre a morte do meu pai. Mas este é um fato noticiado hoje".
 
P. É a tal repetição que você fala.
 
R. O que aconteceu 40 anos atrás acontece agora. E pelas mesmas pessoas. Pouca coisa mudou. E isso não dá mais.
 
P. E tem quem veja nas milícias um poder paralelo similar.
 
R. Tem gente que fala que no passado os militares combatiam os adversários políticos na clandestinidade porque tinha dinheiro, uma economia informal que rodava. Quando isso acaba, qual clandestinidade existe? O tráfico. Porque o tráfico não acaba? Porque setores da polícia praticam extorsão. É uma simbiose. Um não existe sem outro. Agora, acabamos de descobrir que a cadeia do comando da ditadura ia ate o palácio do Governo. Até onde vai a cadeia de comando desse sistema que temos hoje? O que constrói esse pensamento, são coisas que pipocam. Preso liberado, helicóptero. Outro com milhões em apartamento. Pessoas sendo presas, doleiro, ramificação total. Armas? Tem de pagar. E é dólar.
 
P. Vocês, enquanto instituto, defendem a revogação da Lei da Anistia?
 
R. A lei da Anistia não precisa ser revogada. É preciso rever a interpretação do STF. Em 2010, usam conceito de crimes conexos. No mundo jurídico, crime conexo não tem nada a ver com isso. É ser assaltado, outras pessoas morreram, estão conexos com a ação do crime. Não há conexão juridicamente falando quando sou alguém contra o Governo, sou preso e sou torturado e morto. Não existe conexão dentro do conceito da natureza jurídica. Foi uma forçação de barra violentíssima. E tem outras duas questões. A soberania. Da mesma forma que eu acho uma vergonha recorrer a outra nação para escrever partes da nossa história, no caso dos documentos da CIA. É questão de soberania entender que sou um país dentro de uma comunidade internacional, da qual eu ajudei a criar conceitos. E se o Brasil for condenado ele tem de aplicar as condições a que for submetido. Eu já vi o STF no passado dizer que não segue decisão da OEA, pois somos um país soberano. E o mesmo STF tomou determinada decisão porque inclusive estaria de acordo com tratados internacionais do Brasil. Uma tristeza.
 
P. Não parece uma utopia hoje imaginar que haja um reconhecimento do que aconteceu, um consenso, sobre o que vamos escrever nos livros de história sobre o período ditatorial?
 
R. Não tem de ter um consenso mesmo. Mas tem de existir alguma coisa, e precisam existir alguns encaminhamentos.
 
P. Mas existiu ditadura no Brasil. E morreram pessoas inocentes.
 
R. Mas nem todo mundo concorda. Assim como tem gente que diz que o homem não pisou na lua. Ou que quem morreu na ditadura era bandido. Um post que eu fiz no Facebook com a petição ao governo [para solicitar detalhes do relatório da CIA] teve alcance de 130.000 pessoas e uma centena de comentários. Metade dos comentários era que ditadura tinha de ter matado mais gente. E quem morreu era bandido.
 
P. Como você se sente quando lê isso?
 
R. No começo, lá atrás, quando eu ouvia isso, ficava absolutamente indignado e com raiva. Hoje eu penso “coitado do imbecil, é um ignorante”. Leviano, fala algo sem saber, não conhece a história. É uma opinião que não tem valor para mim.
 
P. Ou quando um general da reserva diz que a ditadura só matou terrorista e seu pai não tem esse perfil?
 
R. Quando se fala em general, é algo mais complicado. Porque em tese ele tem o conhecimento. Se o Exército brasileiro pedisse perdão pelo que fez – a gente errou, havia um contexto na época, e com distanciamento vemos que fomos longe demais... erramos e não admitimos que essas práticas voltem a acontecer a partir das Forças Armadas – eu votaria para que a ação da nossa família nem existisse na Corte Interamericana. Para mim está bom, está resolvida a questão. Eu não estou preocupado em punir, estou preocupado em mudar este país. Mudar essa coisa de segurança pública na mão de militares que só piora. O problema é que eles não admitem. E quando não o fazem, estão ao mesmo tempo dizendo que o que foi feito lá atrás foi correto e que se precisar fazer de novo, vão fazer. O twitter do Villas Bôas...
 
P. Às vésperas do julgamento do habeas corpus do Lula?
 
R. Sim, ele mais ou menos disse isso. Estamos atentos e qualquer coisa, o Exército está pronto para cumprir com a sua função. É uma loucura, um ato de insubordinação. Agora a parte mais grave disso aí. Ter uns radicais no Exército, é triste mas acontece. Agora, um presidente civil, fruto de um processo democrático, com ou sem impeachment – não quero entrar nesse mérito – não dá bola para essas coisas e ainda nomeia um militar para o Ministério da Defesa. Então, de repente, ele é um militar travestido de civil. Isso é muito sério e muito grave. Sobre a polêmica frase “Brasil voltou 20 anos em dois”. Acho até que mais. Em 1998 era Fernando Henrique e havia coisas bem construídas. Voltamos 30 anos em 2 anos. Em termos de processo democrático, maturidade política, de formação de valores. Cultura do ódio. Esta então, evoluímos 50 anos.
 
P. Hoje haveria um clima favorável à criação da Comissão Nacional da Verdade (CNV)?
 
R. Mas houve clima favorável de verdade por uns três meses. Até a posse. Depois teve muita dificuldade. Eu não tinha impressão boa sobre a Dilma inicialmente, pela fama de durona, atrapalhada para falar... No discurso de posse dela, que foi para mim um dos mais significativos, em que ela põe o dedo na ferida, ao falar da ditadura, de se fazer justiça. Ela cria a CNV, a Lei de Acesso a Informação. Ela fez coisas muito importantes para nossa agenda de Direitos Humanos. Depois, a CNV capengou. E terminou de forma lacônica. Com 30 recomendações, que nunca foram colocadas em prática. Para não mentir, uma foi colocada pela gente com a memória da ditadura, com o conteúdo levantado pela Comissão. Mas estava esquecida, morrendo por inanição. Eram dois anos para fazer o trabalho. É uma tristeza. Não tinham como contratar pesquisador, não tinha espaço de trabalho... Aí correram para entregar os relatórios, e acabou. Agora mesmo, por esforços da última semana, vi alguns membros se movendo para saber onde está esse material que a CIA divulga agora. Como a CNV foi desfeita de maneira atabalhoada, ninguém sabe quem está com a guarda dos materiais.
 
P. O que a Comissão Nacional deixou?
 
R. O maior resultado da CNV é algo que não estava previsto. Ela trouxe o debate da memória para a sociedade. Passou a existir e permanece. As pessoas estão preocupadas com a memória. Mas só de existir e começar a mexer, e incentivar com centenas de comissões da verdade – da prefeitura, dos metalúrgicos, do jornalistas, da Câmara Municipal, da USP... O tema de memória virou política pública. Apesar de ser algo que não estava no escopo. É fato.
 
P. Você fala sobre o Brasil querer virar uma página que não foi escrita. Se a escrevêssemos, o que ela deveria ter? Que história é essa que você não vê escrita?
 
R. Quem matou o meu pai? O que aconteceu com [o deputado] Rubens Paiva [assassinado em 1971 pela ditadura]? O que aconteceu com Zuzu Angel [que morreu em um acidente suspeito, e que era mãe de Stuart Angel, assassinado na ditadura]? Quem estava no DOI-CODI quando meu pai estava lá... estavam o Serjão [Sergio Gomes], o [jornalista Paulo] Markun. Várias pessoas interrogaram eles daquela maneira. A quem eles obedeciam? Quem financiou essas operações? De onde veio o dinheiro para financiar essas operações? Quem pagou a conta?
 
P. Os militares daquela época estão morrendo. Vai dar tempo para esse reconhecimento, um pedido de desculpas para fechar esse quebra-cabeça da história?
 
R. Não sei. Agora, boa parte dos problemas que a gente tem é por conta desse atraso enquanto sociedade. Você tem o [Brilhante] Ustra, que morre e não foi julgado e que até o último momento disse que nunca fez nada. Entrava lá e não sabia o que acontecia. Isso é ruim.
 
P. Com a informações que eles destruíam documentos, como reconstituir se eles têm interesse em manter a caixa blindada?
 
R. De fato a gente não tem conseguido. Volto a dizer, este é um dos problemas que a gente tem. É uma cultura de violência, uma cultura de impunidade, uma cultura da busca pelo uso da violência como se fosse resolver. O Brasil é sempre a nação do futuro. Quando é que esse futuro vai chegar? Quando a gente tratar do presente a partir do passado. Se não a gente vai ser sempre a nação do futuro... Houve o Plano Real, o governo Lula, agora foi, né? E não foi porque as instituições são fragilizadas. Então você tem de vender a alma para o sistema político e fazer o que você acha que é melhor para o país. Quando você tenta fazer o que é melhor para o país, te tiram. É uma piada, é uma piada legal.
 
P. Hoje pesquisas mostram uma sociedade ponderando a ideia de um governo militar, como mostrou que 46% apoiariam em caso de... como você, com sua história, percebe esta realidade?
 
R. Há um conjunto de coisas. Falência de segurança pública, de sistema de educação. Como se define sucesso na educação? Ler escrever e fazer conta? Formação de valores? Noção da história para saber como chegamos ate aqui? A questão é tão crítica em várias áreas e você perde a noção de qual é a finalidade do que você esta fazendo.  As pessoas não param de se afastar do processo político porque os partidos estão engessados do modo que eles estão hoje. Aí, frases curtas, pragmáticas e objetivas ganham força. “Tem bandido? Mata”.
 
P. ...“Não houve ditadura”.
 
R. Tem um monte de gente que é corrupta? Tira essa gente e põe um ditador. O Congresso não funciona? Fecha o Congresso. São soluções simples. E o candidato de direita e extrema direita que está em destaque responde de maneira muito objetiva a essas demandas. Na linha: “você acha que tem de matar? Eu também acho. Vou colocar pena de morte. Bandido bom é bandido morto”. Ele está conseguindo esse processo de comunicação e se fortalece. Enquanto os pensamentos liberais estão na coisa filosófica. Jogam-se as perguntas e não têm as respostas de volta. E não são simples também. As coisas estão difusas, dispersas.
 
P. Mas o fato de ter um candidato a presidência que relativiza o peso da ditadura não é uma espécie de derrota dessa memória que deveria estar mais assimilada pela sociedade?
 
R. A grande diferença dele para os outros candidatos que já tivemos é que ele é sincero [Ivo não cita o nome de Bolsonaro]. Do ponto de vista prático, o que o governo Fernando Henrique fez em relação ao período da ditadura? Lula? Só Dilma fez algo com a Comissão da Verdade. Ok, houve a comissão de anistia [instituída no Governo de Fernando Henrique para indenizar perseguidos e familiares de vítimas do regime]. Complicado. Houve cheques. Mas é péssimo dar um cheque e pronto, então resolvemos a questão da ditadura. Nunca houve um processo de reparação. Em que o chefe das Forças Armadas, que é o presidente da República, e que o Exército fizessem um mea culpa. Nunca houve um posicionamento genuíno.
 
P. Você acha que corremos risco de apoiar um Governo autoritário?
 
R. A gente já está apoiando. A aprovação do Temer é baixíssima, mas da autoridade do governo, não.
 
Fonte: El País
Foto: RENATO PIZZUTTO

 
 
Para além da fé e da religião, o sudário que possivelmente envolveu o corpo de Jesus Cristo após a crucificação é autêntico. Tido como sagrado pela Igreja Católica, o tecido não foi produzido por um artesão ou falsificado – é uma obra viva.
 
Segundo o sociólogo e professor da Universidade de Brasília (UnB) Michelangelo Trigueiro, esse entendimento foi pacificado ainda na década de 1980.
 
"Ficou atestado que era impossível que aquilo fosse uma obra fabricada por um artista ou artesão da Idade Média."
 
Os mistérios do pano, porém, ainda precisam ser desvendados e não faltam controvérsias, especialmente no campo da ciência. Por que o tecido ficou marcado com a figura daquele homem? Se o sudário é autêntico, então, como foi produzido?
 
Estas são algumas das perguntas que o sociólogo Trigueiro apresenta no livro recém-lançado, "Santo Sudário – O que diz a ciência". Resultado de cinco anos de pesquisa, a obra traça um histórico do tecido e dos estudos desenvolvidos em torno dele e ao redor do mundo.
 
Leia entrevista do G1 com Michelangelo Trigueiro:
 
G1: O que é o Santo Sudário e quando começou a história deste tecido, considerado sagrado pela Igreja Católica?
 
Michelangelo Trigueiro: Quando Jesus Cristo morreu, ele foi envolvido em um tecido – como era hábito da cultura judaica. O pano cobria todo o corpo, dos pés à cabeça, envolvendo as costas. Dá quase o dobro do tamanho da figura. Este é o Sudário.
 
Naquela época, os mortos ficavam, normalmente, dentro de uma caverna, uma rocha cavada especialmente para isso. Isto é confirmado tanto pelos cristãos, quanto pelos cientistas. E até mesmo por quem acha que o Sudário não é autêntico, que não é a prova da ressurreição.
 
As comunidades cristãs do primeiro século já dão conta do Sudário, coisa de 500 anos depois de Cristo. Ele foi tão disputado, que houve até guerras para obter a posse, reis que fizeram de tudo para ter a guarda.
 
A história começa no próprio Evangelho, quando algumas mulheres foram ver como estava o corpo de Jesus no 3º dia após a morte e se espantaram ao encontrar a pedra que deveria fechar o túmulo aberta.
 
Conta a história que elas saíram correndo para chamar os discípulos – entre eles, Pedro e João. Foi então que viram que o corpo de Cristo não estava lá, mas o tecido estava dobrado em cima da pedra.
 
Já as controvérsias começam na tentativa de entender o porquê deste tecido. Como pesquisador, não entro no mérito de ser autêntico ou não. Quero ouvir o que a ciência diz, esse é o dado mais interessante: a controvérsia da ciência em torno disso.
 
 
G1: E quais são as principais controvérsias entre os cientistas?
 
Trigueiro: Essa é a parte mais fascinante que relato no livro. Além de envolver a área de arqueologia, quando a Igreja Católica abriu a possibilidade de que equipes de cientistas investigassem o Sudário, na década de 1970, até equipes da NASA se envolveram.
 
São pesquisas no campo da fotografia, da química, das fibras de tecido e até de pólens. Descobriu-se, com recursos de microscópios de grande precisão, a existência de pólens somente encontrados na região da Palestina. As marcas de sangue também foram encontradas assim.
 
Um dado interessante é que um estudo sofisticado de fotografia verificou que, ao contrário do que ocorre com a pintura tradicional, a marca da pessoa impressa no Sudário não percorre as camadas de linho. Fica só na primeira superfície. Isso impressiona porque a gente sabe que se pegar um pincel e passar tinta em um tecido ou papel, ela vai percorrer as camadas da fibra.
 
G1: E quando foi que conseguiram identificar as feições do rosto estampado no tecido?
 
Trigueiro: Digo no livro que o marco da chamada “história moderna do tecido” é do século 19, quando o italiano Secondo Pia registrou, naqueles aparelhos rudimentares da época, uma exposição na cidade de Turim.
 
Até então, o Sudário era um tecido venerado, mas não chamava atenção para além disso. Não havia pesquisas ainda.
 
Foi então que ele verificou no negativo que a imagem marcada na chapa era muito mais nítida do que a que estava no tecido. Conta a história que ele até deixou cair uma das chapas dos equipamentos no chão, tal a força da imagem.
 
Não foi o tecido em si que despertou o interesse, mas a figura que se percebia marcada nele. A figura de um homem que está lá, ainda hoje, exposto na cidade de Turim.
 
G1: Quando e como os cientistas descobriram que o sudário era autêntico?
 
Trigueiro: No final da década de 1980, três grandes laboratórios do mundo fizeram pesquisas com datação de carbono para ver de quando era do tecido e, a partir daí, começou uma nova controvérsia: É pintura, falsificação ou autêntico?
 
O que se verificou é que o sudário não é fruto de uma imagem artificial. Com a pesquisa de diferentes áreas – da espectrometria à química – ficou atestado que era impossível que aquilo fosse uma obra fabricada por um artista ou artesão da Idade Média.
 
O que se sabe, então, é que existe um registro autêntico. Mas, até aqui, a ciência não conseguiu explicar como e por que foi formado.
 
O grupo mais à frente neste sentido é o de Pádova, coordenado por Giulio Fanti, dos estudos ópticos. Ele conseguiu fazer a imagem em 3D deste personagem [que seria Jesus Cristo]. Ele teria 1,80 metro de altura e era bastante forte, a julgar pelo tamanho da ossatura.
 
Eu assisti a uma entrevista em que ele diz que esta marca da figura humana foi produzida por uma descarga de energia da ordem de 20 milhões de volts. O repórter perguntou, então, se isso não teria queimado o tecido e ele respondeu que não no intervalo em que ocorreu, coisa de 'nanomilissegundos'.
 
G1: Considerando o tempo transcorrido desde a morte de Jesus Cristo, o tecido não deveria ter entrado em decomposição?
 
Trigueiro: Em razão de ter sido um objeto venerado desde a descoberta, recebeu um cuidado muito especial, em caixas que evitaram a oxigenação. O fato é que ele resistiu ao longo do tempo – claro que não sem estar danificado aqui e acolá.
 
Este tecido, que hoje está sob a guarda da Igreja Católica na cidade de Turim [na Itália], veio do Oriente Médio e passou um tempo na França. Lá, ficou sob os cuidados de freiras. Um dia, a capela pegou fogo, mas elas conseguiram salvar. Talvez por isso, o tecido tenha marcas de fogo.
 
G1: O seu livro também expõe como a ciência acaba por ser influenciada por valores que extrapolam a racionalidade técnica. Quais seriam eles?
 
Trigueiro: Minha área é a sociologia, mas me interessa entender como uma narrativa histórica se estabiliza. No jargão do meio acadêmico, a ciência é formada por narrativas que são consensos bem estabelecidos. Hoje, dificilmente, alguém contesta a estrutura do DNA, por exemplo.
 
Em determinado momento do meu trabalho, me interessei por querer saber o que leva afirmações ou narrativas da ciência a serem universalmente aceitas. A resposta mais rápida é: se há uma evidência, não há por que contestar.
 
Mas, se formos fundo, vamos ver que não é suficiente. Quantas experiências são necessárias para que um grupo de pessoas concordem entre si? Isso depende de vários fatores: onde vivem, estudam, os interesses políticos e religiosos também.
 
Alguns vão afirmar "X" com base em dados, estudos, pesquisas, e o outro vai dizer que é "Y" com base, também em dados, estudos e pesquisas. E quem é que tem razão, no final das contas?
 
O livro é uma quebra da visão de que a ciência é povoada por narrativas racionais bem consolidadas. Para ser aceito como enunciado científico, é precisa ter isso, mas não é suficiente.
 
G1: Quais são os segredos ainda guardados do Santo Sudário? O que ainda não foi explicado pela ciência?
 
Trigueiro: Naquilo que cabe à minha área de pesquisa, a sociologia, os documentos que levantei mostram que a ciência não é formada pelo que, convencionalmente, chamam de evidências.
 
Existe uma crítica da sociologia à visão tradicional da ciência, formada por racionalidades estrititas. Do ponto de vista da hard science [ciências naturais], da geociência, da física, da química, minha impressão é que a ciência está diante de um enorme desafio que ainda não consegue explicar.
 
A próxima agenda de pesquisa será esta: se [o Santo Sudário] é autêntico, como explicar seu surgimento?
 
Isso nos remete a uma fronteira que tenderá a ficar entre o mundo físico – perceptível, tocado, cheirado, visto – e o da especulação, da suprarracionalidade. Essa fronteira vai precisar ser alargada, assim como as fronteiras da ciência de hoje são mais amplas que as de antes.
 
Fonte: G1
Fotos: Reprodução

 
 
A Cáritas Brasileira promoveu, entre os dias 12 a 14 de junho de 2018, em Brasília (DF), o Seminário Internacional de Migrações e Refúgio, com o tema: “Caminhos para a cultura do encontro”.
 
Participaram migrantes e refugiados que vivem no Brasil, representando cerca 50 países, o arcebispo de Manila, Filipinas, e presidente da Cáritas Internacional, cardeal Luis Antonio Tagle, agentes Cáritas, Igrejas Cristãs, denominações religiosas, agentes de pastoral, agências de cooperação e governos, no total de 200 pessoas.
 
O objetivo do Seminário foi refletir sobre a realidade das pessoas migrantes e refugiadas, na perspectiva global e local, para assim oportunizar a criação e fortalecimento de redes de organizações das Igrejas, denominações religiosas, sociedade civil e governo que atuam junto aos migrantes a refugiados. O Seminário se propôs mobilizar as forças existentes na direção do que o papa Francisco afirma como ações necessárias na garantia dos direitos e da dignidade das pessoas em situação de migração e refúgio: acolher, proteger, promover e integrar.
 
Foram parceiros na promoção do Seminário o Setor Pastoral da Mobilidade Humana (SMH) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR), o Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), o Instituto de Migrações e Direitos Humanos (IMDH), o Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM) e a Missão Paz.
 
O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cardeal Sergio da Rocha participou da mesa de abertura do seminário. O secretário-geral da entidade, dom Leonardo Ulrich Steiner, participou da coletiva de imprensa e ressaltou a importância das comunidades, famílias e cristãos colocarem-se numa atitude de abertura para acolher os migrantes e refugiados que chegam ao Brasil. “Quase todos nós somos descendentes de imigrantes, quase todos nós somos descendentes daqueles que chegaram e tiveram de começar do zero, tiveram de lutar, quantos pereceram… Somos dessa descendência. Somos todos irmãos em Cristo e queremos acolher todos”, reforçou dom Leonardo que também lembrou de sua ancestralidade alemã.
 
Experiências
 
Mayra Alejandra Figura de Ortiz, venezuelana que vive no Brasil desde 2014, já conseguiu o visto permanente no país. Emocionada, contou que a fé em Deus e o espírito de solidariedade a fortalecem. Mayra trabalha como voluntária na Pastoral do Migrante em Boa Vista (RR) ajudando seus compatriotas que chegam aos milhares no estado de Roraima. “A fé em Deus nos faz confiar, ter esperança! Por isso, eu também ajudo outras pessoas, porque sei que necessitam de uma palavra de ânimo e incentivo. Às vezes precisam somente de um cafezinho, um pão, um leite”, relatou Mayra.
 
O presidente da Associação Comunidade de Ganeses de Criciúma (SC), Salihu Larry, partilhou que uma das maiores dificuldades que encontrou ao chegar no Brasil foi o preconceito religioso e com as expressões culturais de seu país, Gana, África Ocidental. “Nós somos seres humanos, cada um de nós tem direito de pertencer a religião que escolher. Eu sou muçulmano, a forma de expressar e viver a minha fé não pode ser uma barreira que separe a gente. Temos de nos unir como família humana. A verdade é essa: temos de tratar uns aos outros como seres humanos”, enfatizou.
 
Parceria com a FBB
 
Na tarde do último dia de Seminário (14), a Cáritas Brasileira assinou convênio com a Fundação Banco do Brasil. A proposta conta também com a parceria da Cisco Networking Academy Brasil. O objetivo é desenvolver ações educativas e de capacitação para ampliar as competências e potencializar novas oportunidades para migrantes e refugiados. Ações como curso de língua portuguesa e cultura brasileira, leis trabalhistas, economia solidária, empreendedorismo e informática básica são conteúdos que estarão disponíveis em uma plataforma desenvolvida pela parceria com a Cisco. O planejamento é implantar um laboratório de tecnologia da informação, em um espaço físico que terá móveis, equipamentos de informática e livros, além de acesso à internet para apoiar os participantes durante o curso de Tecnologia da Informação que ocorrerá na plataforma.
 
Carta final
 
Com verbos que indicam o compromisso, a percepção e o horizonte de desafios a serem enfrentados, assim como a beleza das possibilidades de trocas de saberes e experiências, os participantes do Seminário Internacional de Migrações e Refúgio publicaram uma carta que traz uma síntese das experiências compartilhadas pelo grupo, bem como as inquietações e propostas para o fortalecimento da cultura do encontro.
 
Clique aqui para ler.
 
Com informações da Cáritas Brasileira
Foto: Reprodução

 
 
As informações estão no documento que é resultado da missão realizada pela Rede Eclesial Pan-Amazônica/REPAM, Front Line Defenders e Justiça Global. O relatório aponta o silenciamento  e a criminalização dos agentes que trabalham pelos direitos humanos na região do Xingu
 
As organizações REPAM e Front Line Defenders, com apoio da Justiça Global, realizaram uma missão entre os dias 29 de maio e 01 de junho, na região do Xingu, no Pará. O objetivo era conhecer e avaliar a atual situação de defensores e defensoras de direitos humanos atuantes nos municípios de Anapu e Altamira, com particular destaque para a prisão do pe. José Amaro Lopes de Sousa.
 
Participaram, como delegados da missão  Ivi Oliveira, Coordenadora de Proteção para as Américas de Front Line Defenders, e Danilo Chammas, assessor da REPAM-Brasil. Os representantes da missão encontraram-se tanto com agentes públicos de instituições de Justiça e de segurança como com defensores e defensoras de direitos humanos ligados ou não a instituições, organizações e movimentos sociais da região.
 
Motivações da missão
 
De acordo com o relatório apresentado, “a região em que se deu a missão é notoriamente conhecida por conflitos violentos que opõem, de um lado, aqueles que defendem os direitos humanos e as formas tradicionais de uso da terra e dos recursos naturais e, de outro, os que procuram impor outras formas de apropriação e de exploração do território, que vão desde a monocultura, a pecuária extensiva e a exploração ilegal de madeira a grandes projetos de geração de energia e de mineração em larga escala”.
 
O documento relembra os casos de conflito, desde 2005, como o assassinato da missionária religiosa Ir. Dorothy Stang. Recorda as ações de embate entre agricultores e latifundiários, traz informações de casos de assassinatos ocorridos nos últimos meses, fruto de conflitos violentos envolvendo defensores de direitos humanos na região, e, ainda, casos de criminalização e difamação dos agentes defensores.
 
“Todos esses fatos provocaram grande preocupação com a vida e a integridade física dos defensores e defensoras de direitos humanos e foram determinantes para que a Front Line Defenders e a REPAM-Brasil decidissem pelo envio de seus delegados à região do Xingu”, afirma o texto do documento assinado pelo assessor da REPAM, Danilo Chammas.
 
Resultados da missão
 
Para os delegados da missão, a partir das reuniões realizadas e da análise dos documentos disponibilizados durante os dias passados na região, alguns pontos merecem ser destacados e denunciados:
 
1. A insegurança jurídica sobre o direito de posse e de propriedade de determinadas áreas, potencializada pelas recentes alterações na política brasileira de reforma agrária, é uma das mais relevantes causas do conflito violento vivenciado na região.
2. A insuficiente priorização das instituições de Justiça e de segurança do estado do Pará é outro fator que contribui para a perpetuação dos conflitos.
3. A irresponsabilidade na divulgação dos fatos em meio à sua apuração é elemento que incentiva a violência.
4. O tratamento seletivo conferido pelas instituições conforme à natureza dos personagens envolvidos.
5. O silenciamento dos defensores e defensoras de direitos humanos.
6. A falta de reconhecimento do papel dos defensores e defensoras para a luta pela democracia.
7. O desconhecimento ou negação da missão da Igreja em defesa do direito à terra e para o cuidado do meio ambiente.
8. A sanha acusatória, a campanha de desprestígio e a ilegalidade da prisão preventiva do Pe. José Amaro Lopes.
 
De acordo com o relatório divulgado, as instituições continuarão monitorando e acompanhando a situação dos defensores e defensoras na região e novas missões serão realizadas. Além disso, elas irão facilitar o acesso dos defensores e defensoras da região a instituições nacionais e internacionais de proteção, para viabilizar a segurança deles.
 
“Da mesma forma, acompanharemos todos os procedimentos investigativos e ações penais referentes aos crimes mencionados nesta nota, solicitando de tempos em tempos, às autoridades competentes, o acesso às informações respectiva”, destaca o relatório.
 
Clique aqui e leia o documento na íntegra.
 
Fonte: REPAM-Brasil
Foto: REPAM-Brasil (Altamira/PA)

 
 
Teve início na última quinta, 7 de junho, a 45ª Assembleia Geral da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), que celebrou nesta edição o aniversário de 45 anos da entidade. Na ocasião, a equipe da CESE, representantes das Igrejas que a compõem e organismos ecumênicos visitaram iniciativas que já tiveram projetos apoiados em Salvador (Bahia).
 
O grupo de cerca de 60 pessoas começou o dia fazendo trilha no Parque São Bartolomeu, localizado no Subúrbio Ferroviário. Foi possível não apenas experienciar as riquezas naturais da região, repleta de matas e cachoeiras, como também dialogar sobre os desafios para a preservação do Parque e as lutas dos povos de matriz africana para expressarem sua fé na região.
 
No momento seguinte, uma roda de diálogo foi organizada para reflexão sobre as quatro políticas referenciais da CESE (Direito à Terra, Água e Território; Direito à Identidade na Diversidade; Direito a Trabalho e Renda; e Direito à Cidade), à luz das experiências de grupos populares, organizações e movimentos que atuam na região do Subúrbio. “É claro que a realidade é muito mais dinâmica, mas as políticas referenciais são um trabalhado pedagógico, uma forma de orientar o trabalho da CESE em suas diversas facetas: formação, diálogo e articulação e incidência. Ou seja, é uma forma de orientar nossa ação nesses 45 anos de atuação”, explica a assessora de projetos e formação da CESE, Olga Matos, que contribuiu na mediação da roda de diálogo.
 
Trazendo para o debate as várias vertentes de lutas por direitos na região, Mãe Val, que atua há 40 anos pela preservação ambiental, cultural e religiosa do Parque São Bartolomeu, destaca a importância do espaço para as religiões de matriz africana. Nós cultuamos os rios, as árvores, as folhas, as lagoas, a natureza”, exemplifica.  Nos campos de Direito à Cidade e Direito à Identidade na Diversidade, Naiara Soares, de koinonia, aponta como os avanços urbanos e especulação imobiliária têm afetado a dinâmica desses grupos. E a educadora Carol Lopes, ainda emendou, considerando as riquezas naturais da região. “Aqui poderia ser um ponto turístico, mas não é por que? Porque aqui e periferia de Salvador”, enfatiza, explicitando os abismos sociais da capital baiana.
 
A diretora executiva da CESE, Sônia Mota, avalia que esse momento da Assembleia Geral, em que se visitam inciativas apoiadas, é um espaço de incidência, vivência in loco e formação da equipe. “Para animar a luta também, ao ouvirmos tantas experiências e saber que nossas organizações, cada igreja também está na ponta dessas ações. É muito importante que vocês se sintam parte desse trabalho”.
 
Finalizando a tarde no Parque, cada representante das igrejas e organismos ecumênicos presentes doaram uma muda ao Parque, simbolizando o compromisso e a solidariedade com as diversas lutas que se travam na região.
 
O dia foi encerrado com cerimônia ecumênica na Igreja da Trindade. Cada pessoa presente foi convidada a acender uma vela e pensar na política referencial que mais se identifica e assumir um compromisso individual nesse campo. “Que esse brilho do trabalho dos 45 anos da CESE nunca se acabe e que atuemos ativamente para essa chama sempre se mantenha acesa”, expressa seus votos para a Coordenadoria Ecumênica de Serviço o idealizador da comunidade da Trindade, Henrique Peregrino.
 
Nova Diretoria - 2018-2020
 
Na manhã de sexta-feira, 8, a Assembleia Anual da CESE elegeu nova diretoria para os próximos três anos.
 
 
Para o triênio 2018-2020, a presidência da organização continuará dirigida por Marcus Barbosa Guimarães, da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR). Helivete Ribeiro Pinto Bezerra, da Aliança de Batistas do Brasil-ABB, ocupará o cargo da vice-presidência. José Augusto Amorim da Cunha Júnior (Igreja Presbiteriana Unida-IPU) será o Primeiro Secretário, e Eleni Rodrigues Mender Rangel (Igreja Presbiteriana Independente do Brasil) retona à direção da CESE, desta vez como Segunda Secretária.
 
Prosseguem na direção da CESE, Renato Küntzer (Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB), como Primeiro Tesoureiro, e João Cancio Peixoto Filho (Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB) como Segundo Tesoureiro.
 
Novas representantes de Igrejas Cristãs estabelecem posições na Coordenadoria Ecumênica de Serviço. Célia Gil Pereira (IECLB) e Josileide José dos Santos (ABB) atuarão no Conselho Fiscal, juntamente com Júlia Taís Campos Ribeiro de Oliveira (ICAR), reeleita para o órgão. Wertson Brasil de Souza (IPU) será o suplente do Conselho Fiscal.
 
Assembleia Geral Ordinária Eletiva da CESE – 07 a 08 de junho de 2018
 
Aliança de Batistas do Brasil – ABB
Igreja Católica Apostólica Romana – ICAR
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB
Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB
Igreja Presbiteriana Independente do Brasil – IPIB
Igreja Presbiteriana Unida do Brasil – IPU
Centro do Estudos Bíblicos – CEBI
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC
Koinonia Presença Ecumênica e Serviço
Processo de Articulação e Diálogo – PAD
Coordenadoria Ecumênica de Serviço – CESE
 
Fonte: CESE
Fotos: CESE