O padre brasileiro Airton Freire de Lima nasceu em 1955 na cidade de São José do Egito, Pernambuco, e, ainda jovem, foi estudar em Recife: desenho e arquitetura, teologia e psicologia.
 
Ordenado diácono em 8 de dezembro de 1981 – dia da Imaculada Conceição – e sacerdote em 13 de fevereiro de 1982, foi designado pároco em Arcoverde, no agreste pernambucano, onde, poucos meses depois, a convite de um grupo de jovens, veio a conhecer um local da cidade que era usado como depósito de lixo.
 
E o lixo que encontrou ali foi chocante. No meio dele, famílias inteiras não apenas catavam lixo para a subsistência como também moravam no lixão, como se elas próprias fossem “lixo humano” descartado ao léu: jogadas fora, à própria sorte, elas se “alimentavam” dos restos de comida achados no lixo e das esmolas que pediam nas ruas; elas “viviam” em barracos de papelão ou de lata, sem água, sem sanitários, sem luz elétrica, sem rua pavimentada, sem escola, sem assistência médica; elas viviam à margem da sociedade, inclusive da assim chamada sociedade cristã.
 
Estarrecido com o panorama que se estendia debaixo de seus olhos, o padre Airton celebrou uma Missa junto ao lixão – Missa durante a qual uma criança faminta, ao ver a hóstia santa, implorou para comê-la, achando que fosse uma “bolacha”.
 
A partir desse episódio, que deixou clara para o padre a relação entre o Corpo de Cristo e o pão de que a criança precisava para saciar tanto a fome da alma quanto a fome do corpo, ele tomou uma decisão que mudaria os rumos da sua vida: foi também ele morar na Rua do Lixo, passando a viver como pobre no meio dos pobres.
 
Foi do meio do lixo que brotou a Associação Terra, mais tarde transformada na Fundação Terra dos Servos de Deus. A associação foi fundada juridicamente na manhã de 8 de setembro de 1984 – dia da Natividade de Nossa Senhora.
 
No ano 2000, o padre Airton se mudou para a Malhada, povoado perto de Arcoverde, onde permanece até hoje. A mudança ocorreu porque em 29 de abril de 1999, dia de Santa Catarina de Sena, após jejuns e dias de oração, o sacerdote criou a Comunidade de Vida dos Servos de Deus e, em 31 de maio do mesmo ano, escolheu o espaço em que seria construída a capela em honra ao Padre Pio de Pietrelcina e a Nossa Senhora da Conceição. Ali nasceriam ainda o Instituto dos Servos de Deus, a Casa de Retiros Sagrada Família e uma série de grupos de oração chamados Grupos da Terra, que são apoiados pelo Instituto Padre Airton.
 
O sacerdote, que fala fluentemente português, inglês, francês e alemão, gravou 180 CDs com músicas e pregações e publicou 90 livros, além de dar retiros espirituais Brasil afora.
 
Ele ainda preside a Fundação Terra dos Servos de Deus, que atua nas áreas da saúde, educação, moradia e capacitação profissional, mediante projetos que beneficiam diretamente mais de 2.000 pessoas a cada ano, em particular nos Estados de Pernambuco e Ceará.
 
E não são iniciativas pequenas: elas incluem de creches a um hospital, passando por escolas, inserção profissional, atendimento médico e psicológico, fornecimento de cestas básicas, alfabetização de adultos, resgate de jovens mediante projetos esportivos e culturais, formação de empreendedores, concessão de microcrédito com orientação e assessoria para estruturação de atividades produtivas…
 
Todas as iniciativas são mantidas graças a doações feitas por indivíduos e empresas e contam com apoio de verba pública obtida de programas sociais do governo. É possível destinar parte do imposto de renda para a Fundação Terra.
 
Para mais informações sobre a fundação e suas obras, visite o site: www.fundacaoterra.org.br
 
Com informações da Aleteia
Imagem: Reprodução

 
 
Mulheres ordenadas da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) repudiaram, em uma declaração conjunta, a grave perseguição política contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 
 
A seguir, leia o texto completo da Declaração.
 
Nós, Mulheres Ordenadas (Diáconas, Presbíteras e Bispa Eleita), da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, registramos nossa INDIGNAÇÃO e nosso REPÚDIO, À GRAVE PERSEGUIÇÃO POLÍTICA CONTRA o ex-presidente Luis Inácio LULA da Silva.
 
Consideramos honrosa e democrática a trajetória deste trabalhador brasileiro até chegar à Presidência da República. Ao assumir a direção do país tirou 40 milhões de brasileiros e brasileiras da linha da pobreza, implementando programas sociais, empoderando as mulheres com a criação da Secretária Especial de Políticas para Mulheres. LULA pagou o FMI, combateu o desemprego, manteve as leis trabalhistas, e ainda elevou o Brasil à sexta economia mundial. Empregou os recursos do país na melhoria da condição de vida para todos.
 
Constatamos que LULA sempre respeitou a justiça brasileira em todos os trâmites do processo que sofreu, em meio à pressa assustadora dos envolvidos em julgá-lo e condená-lo por corrupção. O poder judiciário brasileiro, no entanto, não respeitou o direito de contraditório e ampla defesa reiteradas vezes, condenando-o sem a imparcialidade necessária, culminando com uma apressada sentença de prisão, qualificando GRAVE PERSEGUIÇÃO POLÍTICA.
 
Somos mulheres indignadas por vermos o ex-presidente LULA ser condenado por crimes que seus julgadores e julgadoras jamais conseguiram provar, sem direito de recorrer às últimas instâncias em liberdade, culminando com sentença de prisão, na mesma época em que sua liderança política é reconhecida internacionalmente, tendo sido indicado oficialmente para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz, pelo combate à fome no Brasil.
 
Somos mulheres inspiradas pela Ruah Divina e imitadoras do Cristo da fé, o qual fez história por assumir o compromisso com a dignidade humana, a justiça e a paz. Nós não vamos perder a esperança.
 
Somos mulheres que unimos nossas vozes na luta por um país democrático e no respeito à dignidade humana.
 
Somos ministras fiéis à nossa aliança batismal, conforme o nosso Livro de Oração Comum, na pág. 555, onde prometemos procurar transformar as estruturas injustas da sociedade, desafiando toda a sorte de violência, respeitando a dignidade de toda pessoa humana e buscando a paz e a reconciliação.
 
Assim faremos com a ajuda de Deus.
 
Subscrevemos,
 
1. Marinez Rosa dos Santos Bassotto, Bispa Eleita, Belém, PA.
2. Lilian Conceição da Silva, Presbítera, Recife, PE.
3. Inamar Corrêa de Souza, Presbítera, Rio de Janeiro, RJ.
4. Carmem Etel, Presbítera, Porto Alegre, RS.
5. Lilian Pereira da Costa Linhares, Presbítera, Caruaru, PE.
6. Lucia Dal Pont, Presbítera, Londrina, PR.
7. Jocinéia Saldanha Perpétuo, Presbítera, Rio de Janeiro, RJ.
8. Rosemary Ferreira da Cunha, Presbítera, Olinda, PE.
9. Maria das Graças Bernardino, Diácona, Cascavel, PR.
10. Bianca Daébs Seixas Almeida, Diácona, Salvador, BA.
11. Noilves Rosa da Silva, Presbítera, Concórdia, SC.
12. Volnice Maria de Almeida, Postulante, Londrina, PR.
13. Keila Bichet, Presbítera, Tubarão, SC.
14. Lúcia Borges, Presbítera, Aliança, TO.
15. Leane Rachel Kurtz de Almeida, Presbítera, Canoas, RS.
16. Meriglei B. S. Simim, Presbítera, Nova Lima, MG.
17. Selma A. Rosa, Diácona, Londrina, RS.
18. Carmem Akemi Kawano, Presbítera, São Paulo, SP.
19. Maria Isabel R. Lima, Diácona, Canguçu, RS.
20. Neusa Mara Pereira Valério, Pelotas, RS.
21. Arlinda Pereira, Presbítera, Rio de Janeiro, RJ.
22. Maytee de La Torre Diaz, Diácona, Ariquemes, RO.
23. Elaine M. Escaravajal Nascimento, Presbítera, Santo Antônio da Patrulha, RS.
24. Lidia Kistemacher, Presbítera, Florianópolis, SC.
25. Cláudia Regina Prates Batista, Presbítera, Porto Alegre, RS.
26. Taís Soares Feldens, Presbítera, Porto Alegre, RS.
27. Elineide Ferreira Oliveira, Diácona, Ariquemes, RO.
28. Tatiana Ribeiro, Presbítera, Brasília, DF.
29. Eliane Cristina Vieira, Presbítera, Caaporã, PB.
30. Tatiane Vidal dos Reis, Diácona, Novo Hamburgo, RS.

 
 
Nota da Prelazia de São Félix do Araguaia
sobre a ordem de prisão contra o ex-presidente
Luís Inácio Lula da Silva
 
A Prelazia de São Félix do Araguaia com o seu bispo Dom Adriano Ciocca Vasino, o bispo Emérito Dom Pedro Casaldáliga e agentes de pastoral (leigas e leigos, religiosas e religiosos), vem, por meio desta nota, unir-se aos clamores em defesa da Democracia, pela superação das desigualdades.
 
Em sua caminhada profética na luta pela justiça, sinal do Reino de Deus, juntamente com os atores sociais de nosso território, sobretudo os povos originários, Indígenas, Quilombolas, Posseiros, Retireiros, Agricultores Familiares que animam o sonho da convivência e permanência na sagrada Mãe Terra, manifestamos nossa indignação frente ao atual momento histórico, com a fragilização das conquistas e dos direitos sociais no campo e na cidade.
 
Desde 2013, constatamos a perseguição virulenta aos governos populares (Lula e Dilma), aos militantes e a todos os que buscam construir uma sociedade justa e digna para todos no Brasil e na América Latina se opondo à ditadura do capital internacional. Prova disto é a recente prisão do Pe. Amaro da Prelazia do Xingu, PA e a execução sumária da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro. A culminância deste processo de violência por parte da mídia, parlamentares e judiciário brasileiro é o decreto de prisão do Presidente Lula.
 
Nestes tempos temerosos, em que os servidores do sistema neoliberal buscam assombrar o povo por meio da pedagogia do MEDO, lembramos as palavras do papa Francisco: “Esta economia mata!” 
 
Seguidoras e seguidores do Ressuscitado, continuaremos lutando animados pela utopia do REINO e motivados pelas palavras de Pedro Casaldáliga: “Nossas causas valem mais que nossas vidas”. 
 
Como Prelazia de São Félix do Araguaia, reafirmamos com o papa Francisco: “Não deixem que nos roubem a ESPERANÇA!”
 
São Félix do Araguaia, 07 de abril de 2018
 
Foto: Ricardo Stuckert / Facebook @Lula
 

 
 
Em nota emitida nesta sexta-feira, 6 de abril, a Aliança de Batistas do Brasil – que integra o CONIC – manifestou perplexidade acerca do que está ocorrendo com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Um dos trechos do documento, assinado pelo pastor presidente da Aliança de Batistas, Joel Zeferino, afirma, parafraseando o monsenhor Oscar Romero, "se prenderem o Lula, ele seguirá livre em cada uma e cada um de nós que se recusa a deixar que as forças do mal e da maldade tenham a última palavra. Nesse compromisso de vida, profetizamos, que a esperança há de vencer o medo".
 
A seguir, leia a íntegra da nota da Aliança de Batistas do Brasil.
 
Carta da Aliança de Batistas do Brasil sobre a possível prisão do
Ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 
Salvador, 06 de abril de 2018. 
 
“Até quando Senhor, clamarei eu, e tu não escutarás? (...)
Por esta causa a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta;
porque o ímpio cerca o justo, de sorte que a justiça é pervertida.
Então o Senhor me respondeu, e disse:
Escreve a visão e torna-se bem legível sobre tábuas,
para que a possa ler quem passa correndo. (Habacuque 1:2-4; 2:2)
 
Perplexidade e tristeza. Esses são alguns sentimentos mais fortes entre aquelas e aqueles que tem algum senso de compaixão e noção de justiça no Brasil de hoje. Muitos outros sentimentos também estão presentes nesses mesmos corações: indignação; revolta; desejo de lutar; vontade de desistir de tudo... Sentimentos complementares e/ou contraditórios. 
 
Sentimentos complexos em tempos complexos que vivemos. Mas uma coisa é simples e certa: em 2016 nosso País foi assaltado por um Golpe Legislativo-Judiciário, em conluio com a elite nacional; dos altos comandos militares; da mídia hegemônica, e, por que não dizer, dos interesses de multinacionais e das potências centrais deste mundo dominado pelo Capitalismo, em especial, dos EUA, que joga com sua pesada máquina militar, seu aparato de espionagem e suas poderosas ferramentas de propaganda e de chantagem econômica. 
 
É do meio do Golpe – e todas as suas arbitrariedades diárias – que nos encontramos hoje. Cada dia conta, mas alguns dias fazem diferença na História do Mundo. Esse é um deles. Querem levar a prisão – usando de arbitrariedade sobre arbitrariedade – a maior liderança popular de toda América Latina. Querem mais uma vez afirmar a força das botas, das armas e do dinheiro sujo de sangue contra o sonho feito de suor e lágrimas do povo em busca de liberdade e justiça. 
 
Diante disso, com o coração tremendo de indignação diante das arbitrariedades, nos perguntamos qual o profeta: “Até quando Senhor?”. 
 
Ainda não sabemos qual a resposta final. 
 
Ao mesmo tempo, ouvimos o eco das outras palavras do profeta, que como sopro Divino, nos instiga a não desistir. Pelo contrário, qual outro poeta-profeta, insistimos em dizer que “atordoado eu permaneço atento”. Mais que atentos: tomando a História nas mãos, ousamos a escrevê-la em tábuas, com a mais forte de todas as tintas: o sangue das e dos mártires, “dos quais o mundo não era digno” (Hb. 11:38)
 
Sangue das mulheres em luta por sua dignidade ao longo de milhares de anos, muitas das quais anônimas, seguem se ouvindo falar; sangue de negras e negros que foram submetidos a escravidão, mas se rebelaram tantas vezes, criando resistência, e deixando um legado de coragem até a última gota de sangue. Sangue do Dr. Rev. Martin Luther King Jr. Sangue de Dorothy Stang. Sangue de Chico Mendes. Sangue de Marielle Franco. Sangue do profeta Nazareno, torturado e morto pelo império vigente, Jesus.
 
É com esse sangue, que hoje escrevemos, parafraseando o Monsenhor Oscar Romero: se prenderem o Lula, ele seguirá livre em cada uma e cada um de nós que se recusa a deixar que as forças do mal e da maldade tenham a última palavra.  
 
Nesse compromisso de vida, profetizamos, que a esperança há de vencer o medo!

Joel Zeferino
Presidente da Aliança de Batistas do Brasil

 
 
Uma estiagem severa afetou a região do Pampa Gaúcho no final de 2017 e inícios de 2018.
 
A situação dos agricultores é grave. A estiagem foi prolongada, mais de cinco meses, e os prejuízos são enormes.
 
As perdas nas lavouras são de quase 100% (feijão e milho) nos plantios do período recomendado, faltou água para animais causando problema na alimentação dos bichos com pastagens secas, com perdas enormes na produção de leite, perda de peso dos animais, perdas na produção de fumo e de todas as culturas.
 
Até árvores morreram, arroios, açudes e sangas secaram. Situação ambiental em estado grave.
 
Maioria dos municípios da região decretaram Situação de Emergência. As perdas calculadas passam longe de 1 bilhão de reais.
 
Diante de tamanha calamidade, governos estadual e federal parecem nem existirem. Pouco lhes importa a dor do povo. Nem os sobrevoos demagógicos nas regiões afetadas desta vez existiram. Ausência mesmo, indiferença total.
 
Os prefeitos, sim, de pires na mão de um lado para o outro conseguindo no máximo algumas cestas básicas que pouco ajudam. As prefeituras não tem como solucionar o problema. Estão em situação financeira difícil e mal conseguem manter suas atividades normais.
 
Quem há tempo se mexe e se mobiliza são os Movimentos Sociais, de modo especial, o MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores) e o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). O trabalho de base está intenso e a mobilização é grande. Uma pauta em debate e muita disposição para a luta.
 
A pauta já entregue aos supostos governos Estadual e Federal traz as seguintes reivindicações, entre as principais:
 
1 – Cartão Estiagem de 2 salários mínimos; 2- Anistia das dívidas de custeio e da parcela das dívidas de investimento de 2018; 3- Anistia do pagamento do milho troca-troca; 4 – Crédito Emergencial de R$ 5.000,00 para sementes crioulas, mudas e insumos agroecológicos, com rebate de 80% no pagamento; FEAPPER; 5 – Ração para o gado por 3 meses (milho doado da CONAB); 6 – Construção de 5 mil cisternas na região; 7 – Recursos para as prefeituras recuperarem e manterem as estradas; 8 – Retomada e Ampliação do Programa Camponês (investimento nas famílias) – R$ 15.000,00 por família, rebate de 80%.
 
Nos últimos dias choveu. Aí parece que tudo passou. É verdade que a recuperação do pasto ajuda na alimentação dos animais. Mas os plantios que se perderam não mais voltam. O leite que não se produziu não mais retorna. O sofrimento humana deixa marcas para sempre. O abandono das ditas autoridades fere profundamente. Os prejuízos provocados levam anos para serem recuperados. E sem apoio governamental, talvez nunca se recuperem totalmente.
 
Mas a estiagem secou a terra e as plantas, mas não secou a esperança camponesa e a gana de se organizar e lutar.
 
Por isto, vem aí o Levante Camponês do Bioma Pampa.
 
Sérgio Görgen é franciscano, militante do MPA
Adilson Schuch é camponês, residente em Canguçu, militante do MPA
 
Fonte: MPA Brasil
Foto: Reprodução

 
Em 4 de abril de 1968, há 50 anos atrás, era assassinado o líder do movimento dos direitos civis Martin Luther King Jr. Pastor da Igreja Batista, Luther King se notabilizou pela luta pelos direitos civis dos negros estadunidenses, que sofriam com as leis de segregação racial vigentes naquele país que sempre se orgulhou de ser “democrático”.
 
A lembrança da história deste importante líder afro-americano é fundamental em um momento em que se vê em todo o mundo o recrudescimento de discursos e práticas racistas. Em fevereiro passado, por exemplo, a vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, mulher negra, foi brutalmente assassinada. E os dados mostram que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no País. Já nos Estados Unidos, cresce assustadoramente o número de afro-americanos encarcerados. Segundo a jurista Michelle Alexander, ativista de organizações inspiradas em Martin Luther King, há mais negros encarcerados hoje nos EUA que escravizados durante o período da escravização no país.
 
Martin Luther King Jr. nasceu em Atlanta em 15 de janeiro de 1929, segundo dos três filhos do casal Martin Luther King, Sr. e de Alberta Williams King. Desde cedo frequentou a igreja Batista, onde se tornou pastor e um ativista contra a segregação racial nos EUA.
 
As leis de segregação racial existentes em vários estados dos EUA até os anos 1960 pregavam, por exemplo, a existência de lugares proibidos para negros – desde determinadas escolas até lugares no transporte público. Por isto, foi de grande importância simbólica a atitude de Rosa Parks, que, em 1º. de dezembro de 1955 recusou-se a ceder o lugar em que se sentava em um ônibus a um passageiro branco, em Montgomery, mesmo não estando em uma área definida como reservada aos brancos. Este ato deu início ao movimento de negras e negros contra esta segregação, que contou com a participação de Luther King e isto se espraiou para os EUA.
 
Martin Luther King, ao lado de Malcolm X, é considerado um dos principais líderes deste movimento antissegregacionista nos EUA nos anos 1960. Para King, um dos elementos-chave para a ocorrência desta situação era a exclusão da população negra dos seus direitos civis, em especial o direito ao voto.
 
“Não ficaremos satisfeitos enquanto um só negro do Mississipi não puder votar ou um negro de Nova York acreditar que não tem razão para votar.”
 
Acreditava ele que, à medida que negros não podiam votar, não eram cidadãos nem eleitores e, portanto, suas demandas nunca eram consideradas pelos poderes instituídos. A condição de não eleitor inclusive impedia que negras e negros pudessem participar de júris populares, fazendo com que brancos julgassem réus negros e rés negras.
 
A opção de luta feita pelas organizações dirigidas por Martin Luther King eram baseadas na tática da desobediência civil e a não violência. Para ele, as ações reativas não violentas às repressões violentas dos racistas gerariam uma opinião pública favorável às demandas dos direitos civis da população negra. As várias marchas lideradas por King pelo direito ao voto e contra as leis segregacionistas atraíram multidões, foram apoiadas por ativistas não negros simpáticos à causa e, de fato, ganharam apoio nacional.
 
Apesar dessa posição pacifista, Martin Luther King foi intensamente perseguido pelas forças de segurança dos EUA, chegando a ser considerado “comunista” pelo FBI e seu dirigente, J. Edgar Hoover. O programa idealizado por Hoover chamado COINTELPRO teve em Luther King um dos principais alvos. Por isto, as organizações das marchas pelos direitos civis eram vigiadas por espiões do FBI que, não raro, infiltrava agentes seus nas reuniões.
 
Uma das marchas mais famosas lideradas por Martin Luther King foi a ocorrida em 25 de março de 1965, no estado do Alabama, entre as cidades de Selma e Montgomery, capital do estado. A marcha ocorreu após duas tentativas, uma primeira em 7 de março, interrompida por uma intervenção violenta da polícia que não deixou os manifestantes atravessarem a ponte de Pettus, na entrada da cidade de Montgomery. Depois, nova tentativa em 9 de março, que foi interrompida pelo próprio Luther King ao perceber que havia uma coluna de policiais militares prontos para reprimir os manifestantes assim que atravessassem a ponte de Pettus. Após intensas negociações com o então presidente da República, Lindon Johnson, a marcha consegue chegar à capital. O sucesso dessa marcha inspirou o ativista Stokely Carmichael, futuro líder do Partido dos Panteras Negras, a criar a expressão Black Power (Poder Negro).
 
Havia uma nítida estratégia política em Martin Luther King: centrar nos direitos civis e no direito ao voto da população negra. Com isto argumentava que as bandeiras do movimento eram democráticas, mostrando que a sua não concessão era um absurdo em uma nação que se propugnava como a grande pátria democrática. A sua famosa frase “Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele”, sintetiza uma perspectiva liberal-democrática que, pela força das mobilizações, foi paulatinamente sendo incorporada ao ordenamento político dos EUA, particularmente após a aprovação da Lei dos Direitos Civis em 1964 e da Lei dos Direitos Eleitorais em 1965.
 
Apesar disto, Martin Luther King dizia que o direito ao voto era apenas um ponto de partida. Defendia medidas que garantissem a igualdade social e o combate à pobreza da população afro-americana. Por isto, em 1968, o líder afro-americano organizou uma campanha pela justiça socioeconômica. O aprofundamento das suas críticas à política dos EUA foi manifestado também pela sua oposição à Guerra do Vietnã. O “perigo”, representado por uma liderança carismática e popular, às estratégias do Estado norte-americano levou a que Martin Luther King fosse assassinado em 4 de abril de 1968.
 
A partir do ano de 1986, na terceira segunda-feira do mês de janeiro, é celebrado um feriado nacional nos Estados Unidos para homenagear Martin Luther King, o chamado Dia de Martin Luther King. O líder afro-americano recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 14 de outubro de 1964.
 
Artigo escrito pelo professor Dennis de Oliveira, chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP.
 
Fonte: Jornal da USP
Foto: Wikimedia Commons

 
 
Grupos e pessoas de comunidades cristãs de diversas partes do mundo, sejam de orientação protestante, anglicana, católica, ortodoxa ou evangélica pentecostal organizam-se e abrem espaços para a teologia inclusiva orientada para uma pastoral e diaconia abertas à diversidade, em especial relacionada à orientação de gênero. Essa teologia e as pastorais e práticas diaconais nem sempre são aceitas pela maioria das pessoas cristãs.
 
Alguns teólogos e algumas teólogas, no entanto, argumentam que as igrejas, comunidades inclusivas ou as pastorais da diversidade costumam ter uma interpretação heterodoxa da bíblia, flexibilizando hermenêuticas há muito consolidadas e naturalizadas em relação à orientação sexual. Do outro lado da fronteira, teólogos, teólogas, lideranças leigas identificadas com a teologia inclusiva chamam a atenção para a hermenêutica da suspeita e para a necessidade de reler os textos bíblicos que condenam a homossexualidade, considerando o contexto histórico e religioso do período bíblico. A ênfase em Deus da graça e do amor é outra referência importante para quem se identifica com a teologia inclusiva. 
 
Apesar de conviverem com o preconceito, essas igrejas, comunidades, grupos e pastorais acolhem, principalmente, quem não teve a chance de se integrar na vida comunitária de outras igrejas, seja pela orientação sexual ou pelo estilo de vida.
 
A Comunidade Athos, em Brasília, é uma igreja evangélica. Ela foi criada por pessoas rejeitadas por causa da orientação sexual. Isso ocorreu há 12 anos e, desde então, recebe cerca de 80 pessoas por semana em sua sede.
 
 
Keila Guedes (foto acima, esq.), foi criada em um lar evangélico tradicional. Ela teve que passar por um longo processo de autoconhecimento para, a partir daí, compreender que Deus a amava incondicionalmente, tal como ela era. Hoje ela vive com Luana Leite (foto acima, dir.) e ambas frequentam uma comunidade inclusiva. “Sempre oramos, entregamos nossas vidas a Deus e nada nos tem faltado. Perdi o medo de Deus, comecei a me aprofundar na Bíblia, pois antes eu apenas lia sob a ótica da igreja tradicional que eu frequentava. Eu pedia muito para Deus mudar o que estava dentro de mim, quem eu era realmente, assim como Luana também fazia. Até que perdemos o medo e resolvemos ser felizes como somos, como Deus nos ama”, conta Keila.
 
Do lado católico há também uma série de iniciativas que buscam incluir. Um dos exemplos mais visíveis é a Pastoral da Diversidade. Em atuação desde 2007, o grupo fornece subsídios teológicos e pastorais, e promove o diálogo, a reflexão, a oração e a partilha. No site da Pastoral eles explicam que se trada de “um grupo de leigos católicos que procura conciliar a fé cristã e a diversidade sexual e de gênero, promovendo o diálogo e a reflexão, a oração e a partilha, compreendendo que a salvação de Cristo e sua mensagem são para todos, sem distinção”.
 
Eliziario Siqueira é casado com Ricardo Purini há três anos. Católicos praticantes, eles são do interior de São Paulo e têm uma vivência bastante ativa na comunidade em que frequentam. “Tivemos um filhinho, que se chama Eliziario Neto. Batizamos nosso filho na igreja e foi muito lindo. Tínhamos muito medo de que o batismo fosse negado, mas, pelo contrário, fomos muito bem acolhidos; o padre fez um batismo lindo”, afirma Eliziario.
 
Ano passado, a Igreja Anglicana na Inglaterra publicou uma orientação afirmando que as “crianças deveriam poder ‘brincar com os muitos mantos de identidade’ nas escolas e não sofrer bullying ou repressão por motivos de gênero.” O pronunciamento fez parte do anúncio de um conjunto de orientações dadas às cerca de 4.700 escolas primárias que a Igreja administra no Reino Unido. O objetivo é coibir o bullying motivado por orientação sexual ou identidade de gênero. Intitulado “Valorizando todas as crianças de Deus”, o pronunciamento afirma que “todo bullying, incluindo o homofóbico, bifóbico e transfóbico, provoca danos profundos, que levam a maiores índices de desordens mentais, depressão e suicídio”.
 
A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), ligada à Igreja da Inglaterra, não pratica nenhuma discriminação para a ordenação e o exercício do ministério ordenado de pessoas homossexuais. A IEAB também se coloca como um espaço em que todas as pessoas, sem distinção, podem ficar confortáveis em um ambiente livre de discriminações. 
 
"Independentemente da polêmica que o tema gera, ele tem, a cada dia, desafiado as igrejas a refletirem sobre os desafios pastorais e diaconais que os enfoques da teologia inclusiva apresenta. Muitas famílias que vivem a experiência de um filho ou uma filha descobrir e assumir a sua orientação sexual precisam de uma palavra amorosa e acolhedora das suas lideranças religiosas. A condenação não é coerente com o evangelho", opina a secretária-geral do CONIC, Romi Bencke.
 
CONIC com informações do Portal Metrópoles e do Nexo Jornal
Foto 1: Pixabay
Foto 2: Acervo pessoal / Keila Guedes

 
 
Artigo publicado na revista Extraprensa traz as reflexões levantas por um projeto de pesquisa em andamento cujo objetivo é averiguar como acontece a participação e qual é a interpretação da mídia brasileira, e dos sujeitos nela envolvidos, sobre o trabalho escravo contemporâneo. A pesquisa se fundamenta em estudos com um grupo de agentes de entidades governamentais e não governamentais que compõem a rede de combate desse tipo de trabalho exploratório em nosso país.
 
 
Em seus depoimentos, representantes de movimentos sociais ressaltam que as informações nas mídias sobre a questão se mostram, muitas vezes, superficiais, e apontam a ausência de políticas públicas básicas como as principais causadoras do problema.
 
Redes e embates
 
Autoras do estudo, Flávia Moura e Denise da Conceição explicam que redes são espaços sociais, “arena dos embates sociais e de lutas políticas. São espaços de articulação de campos e eixos de poder. Redes possibilitam tanto a reprodução quanto a transformação das relações de poder”. Dessa rede de combate sistemático ao trabalho escravo contemporâneo, as autoras destacam três entidades governamentais e quatro não governamentais atuantes, tanto no Estado do Maranhão quanto no Brasil todo.
 
Dentre as não governamentais de abrangência nacional, realçam a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a ONG Repórter Brasil e o Movimento Humanos Direitos (MHuD). No âmbito estadual, listam o Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos Carmen Bascarán (CDVDH/CB), no município de Açailândia (MA). E, dentre as entidades governamentais, tem-se o Ministério do Trabalho (MT), que age por meio da Superintendência Regional do Trabalho no Maranhão, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT‑MA) e o Ministério Público do Trabalho (MPT‑MA).
 
Para as autoras, não há valorização dos trabalhadores e muito menos punição “dos que cometem o crime de trabalho escravo”. Os agentes da CPT e da ONG Repórter Brasil, durante as entrevistas de pesquisa, constataram que a “imprensa não aborda os fatos como eles são”, e não se promove a (re)inserção de indivíduos no mercado de trabalho.
 
Vale lembrar que, no Brasil, o trabalho escravo não é “mera irregularidade trabalhista”, mas sim “um crime de lesa‑humanidade, previsto no Código Penal Brasileiro, que viola direitos humanos fundamentais”.
 
Embora o movimento social se empenhe em divulgar a questão na mídia, Flávia Moura e Denise da Conceição declaram que “as vozes mais legitimadas para falar da temática na mídia tradicional ainda são as entidades públicas e os operadores do Direito” – as “fontes oficiais”, encarregadas de elucidar o crime e “dimensionar os dados para a sociedade, principalmente em casos de divulgação de ações de fiscalização”.
 
Como primeiros resultados, as autoras salientam que as entidades estudadas participam das análises sobre o tema e, na verdade, “disputam a constituição de uma opinião pública sobre o trabalho escravo na sociedade brasileira”. Agentes de entidades da sociedade civil mostraram que o trabalho de campo que realizam, muitas vezes veiculado pela TV, “dão visibilidade ao problema e, de alguma forma, legitimam o trabalho de denúncia realizado pelo movimento social”. Assim nos mostram os depoimentos de trabalhadores que decidem denunciar as condições de abuso sofridas em fazendas, por exemplo, encorajados pelas reportagens.
 
Leia o artigo completo neste link.
 
Flávia de Almeida Moura é jornalista, mestre em Ciências Sociais, doutora em Comunicação, pesquisadora e professora adjunta do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão.
 
Denise Araújo da Conceição é relações públicas e aluna especial do Programa de Mestrado Interdisciplinar Cultura e Sociedade da Universidade Federal do Maranhão.
 
Texto: Margareth Artur / Portal de Revistas da USP
Foto: Pixabay 

 
 
Este não é apenas um momento de brutalidade extrema no Brasil. É também um momento de potências emergindo. E começos de alianças até então impensáveis. É preciso perceber onde estão as possibilidades – e fazer frente àqueles que, diante da democracia corrompida do país, avançam sobre os corpos humanos.
 
A expectativa dos atores mais truculentos é de que a porteira foi aberta e desde então está tudo dominado. Mas acreditar que está tudo dominado é deixar de perceber que a violência se multiplica também porque não está tudo dominado. A violência da bandidagem instituída e não instituída é também uma reação a profundos avanços no interior dos Brasis. É nestes avanços que uma rede de proteção e resistência que consiga superar divergências não fundamentais precisa ser organizada. Porque a matança não para. Desde o assassinato de Marielle Franco, o medo de quem está na linha de frente aumenta e trespassa o país.
 
Neste exato momento, há pelo menos duas lideranças da floresta amazônica escondidas para não se tornarem, como Marielle, um corpo destruído à bala. Seus nomes: Francisco Firmino Silva, 68 anos, mais conhecido como Chico Caititu, e Ageu Lobo Pereira (foto abaixo), 36. Seu crime: realizarem o que o Estado é obrigado a fazer mas não faz, que é a demarcação e implantação do Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Montanha e Mangabal. E também a proteção do território de floresta.
 
 
Ao fazer o que o Estado deveria fazer mas não faz, os ribeirinhos enfrentam o crime organizado no rio Tapajós, na região de Itaituba, no Pará. Para aqueles que querem avançar sobre essa porção valorizada da Amazônia, a única barreira são os corpos dos beiradeiros que defendem o território de uma ameaça grande demais: o comércio internacional de madeiras e o ouro que acaba no mercado financeiro já lavado do sangue.
 
Chico Caititu e Ageu Lobo não são os únicos. Há homens e mulheres ameaçados de morte em toda a Amazônia brasileira e nas periferias das grandes cidades. Há lideranças na mira da bala em quilombos, terras indígenas, assentamentos, acampamentos, ocupações e favelas.
 
O medo de ser morto se alastra pelo país. Setores da classe média que apoiam essas lutas começam a temer por sua vida, um temor que se acirrou com a execução de Marielle Franco. Há os que acreditam ter a escolha de deixar de lutar. São os que têm o privilégio de um plano B ou o de simplesmente não fazer nada. Mas há os que não têm escolha porque esta é sua própria vida. Ou morte.
 
Como os dias se tornam mais graves, o momento é exigente para quem vive no Brasil. Diante do sangue das horas, como cada um vai se posicionar?
 
1) Marielle Franco e as forças emergentes
 
O assassinato de Marielle Franco apontou algumas realidades. A mais evidente é o limite superado no país sem limites. Destruir o corpo de uma vereadora no Rio de Janeiro sob intervenção federal, intervenção que esta mesma vereadora criticava, é uma declaração de pode tudo. Mas só se destrói aquilo que ameaça.
 
O fato de que uma mulher negra, lésbica, feminista, nascida na favela da Maré, tenha se tornado a quinta vereadora mais votada do Rio é um indicador de mudança. Marielle era uma bandeira de múltiplas lutas identitárias que havia conquistado um lugar nas instituições. Mas era bem mais do que isso.
 
Marielle ocupou uma posição dentro da política formal (pelo PSOL, um partido de esquerda), e tornou-se uma vereadora que trabalhava. Sua atuação era focada em políticas públicas para as mulheres, para os negros e para os LGBT – assim como por direitos humanos que se expressavam no concreto da vida cotidiana. Ela também denunciava as milícias e os abusos da Polícia Militar no Rio.
 
Marielle realizava, com o exemplo de sua própria vida, o discurso de que a política precisa se renovar no Brasil. E dava um corpo concreto, este que foi destruído, a algo transgressor nestes tempos de antipolítica: o de que a democracia ainda pode responder aos anseios de igualdade e romper com os destinos marcados.
 
Essa é a primeira realidade que a tornou uma pessoa perigosa para diferentes grupos que disputam o poder em diferentes instâncias.
 
Ao ser assassinada, Marielle revelou uma segunda realidade, esta ainda mais surpreendente: a de que os brasileiros, ora exibidos como polarizados e divididos, ora como passivos ou omissos, são capazes de se comover – e mover – por uma mulher nascida na favela, negra, lésbica e feminista.
 
Em nenhum momento se deve esquecer da força dessa ruptura simbólica. Com Marielle Franco há uma quebra de paradigma dos choráveis do Brasil. Como mulher negra e nascida na favela, Marielle Franco pertencia aos “matáveis” do Brasil, aqueles cujas mortes não causam espanto, normalizadas que são. O que seus assassinos não calcularam era que, com sua vida, ela já não era mais “matável”. O que ninguém poderia calcular é que Marielle havia se tornado também parte dos choráveis, aqueles por quem a maioria dos brasileiros faz luto e luta. Não é pouca coisa para um país como o Brasil.
 
Há ainda uma terceira realidade: as fake news foram derrotadas. A narrativa que buscava criminalizar Marielle Franco, inventando fatos sobre a vida dela que pudessem esvaziá-la como o totem que se tornou, foi vencida. As notícias falsas começaram com uma desembargadora do Rio de Janeiro, Marília de Castro Neves Vieira, que publicou uma mentira sobre Marielle no Facebook, e se espalharam através do site “Ceticismo Político”, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), milícia conhecida por propagar mentiras para desqualificar adversários próprios ou de políticos amigos.
 
Desde que as notícias falsas passaram a compor a paisagem também no Brasil, é a primeira vez que as milícias de ódio sofrem uma derrota dessa proporção. Não é pouca coisa.
 
Como o cotidiano no Brasil – e também no mundo – é brutal, e como o medo de ter o corpo destruído cresce a cada dia, há uma tendência de só enxergar uma marcha acelerada rumo ao autoritarismo. Essa marcha é um fato, mas não é o único. Há novas forças no Brasil disputando o poder e fazendo resistência.
 
A crescente influência das feministas negras em vários campos do debate nacional está entre as mais significativas. Historicamente, as mulheres negras constituem o grupo mais frágil do Brasil, um país de estrutura racista e com números alarmantes de estupros e violência doméstica. As negras chegaram ao Brasil como escravas vindas de diferentes pontos da África e, com a abolição sem abolição – ou com a abolição sem políticas públicas de inclusão –, tornaram-se o rosto das empregadas domésticas, até hoje em alguns lugares do Brasil um trabalho análogo à escravidão.
 
É interessante observar que, na tentativa de desqualificar a vida de Marielle, após o seu assassinato, e assim esvaziar os sentidos de sua morte, tentaram colar nela o rótulo de “mulher de traficante”. Afinal, se ela não era empregada doméstica, só podia ser mulher de traficante. Ou: se ela ousou sair do lugar de empregada doméstica, a negra trabalhadora, só poderia lhe restar o lugar de “vadia”, em mais uma expressão do preconceito contra todas as mulheres, mas bem mais forte contra as negras.
 
Não colou. Em grande parte porque Marielle representava em vida um conjunto cada vez mais influente de mulheres negras determinadas a mudar um destino marcado. Marielle não estava só nem é a única. Ela se tornou, com sua morte, o rosto vivo de um fenômeno coletivo cada vez mais forte, que tem denunciado o racismo com contundência também em áreas sensíveis como a cultura e a universidade. E, em alguns episódios, confrontado também as feministas brancas.
 
As feministas negras, que têm em Marielle um rosto, são uma força política com influência crescente na disputa tanto do presente quanto do futuro.
 
2) Onde as forças progressistas falham
 
As mulheres negras (e os homens negros), com atuação contra o racismo, são uma força. Mas há outras. Um dos grandes desafios deste momento é conectar forças políticas emergentes que, com exceção de umas poucas iniciativas, seguem desconectadas no Brasil. Há barragens bloqueando diferentes movimentos com lideranças ameaçadas de morte que deveriam estar juntos, disputando o agora, construindo uma rede comum de proteção e resistência – e pressionando o Estado.
 
Marielle Franco tornou-se uma voz incômoda quando atravessou uma barreira (ou várias) e ocupou um espaço de poder. E ocupou pela representação de várias minorias, que ela de fato representava ao mudar a realidade destas minorias pelo caminho das políticas públicas. Marielle era uma excelente vereadora e resgatava a dignidade de um legislativo com reputação abaixo do chão.
 
O que a feminista negra da Maré tem em comum com os ribeirinhos Chico Caititu e Ageu Lobo do Tapajós, estes que ainda não foram mortos, mas podem ser a qualquer momento? O fato de ter atravessado um muro.
 
O Brasil que enfrenta os tantos desafios desse momento histórico conta com uma geração com forte protagonismo em diversos campos, mas escassa formação política. O resultado dessa combinação aparece e cobra seu preço nos dias e nas lutas. É o ônus de ter vivido uma ditadura de mais de duas décadas e de não ter responsabilizado os assassinos e torturadores. A falta de formação política é um efeito direto da dificuldade de fazer memória do país.
 
No Tapajós, porém, realizou-se um acontecimento político – ou até uma reinvenção do que é a política em outros termos que não o dos brancos. Neste enclave amazônico, ribeirinhos e indígenas compartilham uma trajetória de conflitos. Afinal, os atuais beiradeiros dos rios amazônicos são descendentes de nordestinos pobres carregados até a floresta para cortar seringa na segunda metade do século 19 – e, em algumas regiões, também na Segunda Guerra Mundial (1939-45), como soldados da borracha. O território que ocuparam debaixo do jugo dos seringalistas era território indígena, de diferentes povos.
 
Os ataques – e as mortes – foram frequentes de lado a lado. Parte dos atuais ribeirinhos têm como avó ou bisavó uma indígena roubada de sua aldeia. Parte destas famílias se iniciaram com um estupro. Assim, por décadas, ribeirinhos e indígenas conviveram em diferentes pontos da floresta com mútua desconfiança, quando não aberta hostilidade.
 
Com o anúncio das grandes hidrelétricas, hostilidade e desconfiança começaram a ser superadas. A aliança se consolidou nesta segunda década do século, pela luta comum contra os grandes empreendimentos e também contra a omissão do Estado em prosseguir com a demarcação das terras. Ribeirinhos e indígenas perceberam que, caso não se unissem, seriam limpados do caminho para abrir espaço para megaobras do governo e para os interesses do agrobanditismo. A aliança estratégica foi decisiva para o Ibama arquivar, em 2016, o licenciamento do projeto da hidrelétrica de São Luiz do Tapajós. A usina, uma ameaça que continua assombrando a Amazônia, atingiria o território dos Munduruku e Montanha e Mangabal, entre outras comunidades ribeirinhas.
 
Chico Caititu, hoje marcado para morrer, é uma figura-chave nesta aliança. Em 2013, ele deixou sua roça na comunidade de Montanha e Mangabal, no Tapajós, para acompanhar os Munduruku na ocupação do canteiro de obras de Belo Monte, no Xingu. Estavam, o ribeirinho e os guerreiros Munduruku, a 800 quilômetros de sua terra.
 
Essa ocupação estratégica mostrou que a luta contra os grandes empreendimentos na Amazônia não poderia ser apenas local, entre os diretamente atingidos, mas do conjunto dos povos da floresta contra uma concepção de desenvolvimento e também de mundo que destruiria a eles e a floresta. Tanto que os guerreiros Munduruku, do Tapajós, se fizeram presentes no Xingu. E, com eles, estava Chico Caititu, o homem que costurou as pontes entre os Munduruku e Montanha e Mangabal, entre indígenas e ribeirinhos.
 
Em 2014, cansados de esperar por um governo que preferiria que eles não existissem, os Munduruku começaram a fazer a autodemarcação da terra indígena Sawré Muyby, a que estava no caminho dos grandes projetos hidrelétricos na bacia do Tapajós. Chico Caititu estava lá, ajudando-os. Em 2017, os ribeirinhos iniciaram a autodemarcação do Projeto de Assentamento Agroextrativista de Montanha e Mangabal. E os guerreiros Munduruku estavam presentes. Juntos, eles fizeram aquela que pode ser a aliança política mais arrojada do país para enfrentar o extermínio mútuo. Há muito a aprender com indígenas e ribeirinhos também sobre política.
 
Só não enxerga a enormidade dessa aliança, obviamente não imune a conflitos, quem não conhece a história do Brasil. É com essa aliança que a lei está sendo cumprida e as terras estão sendo autodemarcadas, confrontando governos que violaram e seguem violando a floresta amazônica e os povos da floresta. É ali que se encontra um dos principais processos de resistência contra uma ideia de Brasil que destrói a floresta e ignora o vasto conhecimento de seus habitantes, multiplicando os riscos representados pela mudança climática provocada por ação humana.
 
Aqueles que querem assassinar Chico Caititu e Ageu Lobo, o presidente da comunidade, desejam dinamitar pontes humanas. “Se eu não estivesse com os indígenas, estaria morto”, me disse Chico Caititu, já escondido. Ele deixou a comunidade com um grupo Munduruku, para alcançar Itaituba, a cidade mais próxima. E de lá foi para Brasília contar a sua história no Fórum Alternativo Mundial da Água, como estratégia de proteção.
 
Hoje, ele e Ageu estão escondidos em outra cidade, esperando a resposta ao pedido de inclusão no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. “Tou dentro de um buraco, escondido”, diz Chico. Ambos sofrem com uma gripe forte na zona urbana. E Ageu começa a demonstrar sinais de depressão, preocupado com a família que ficou e com a luta que precisa seguir.
 
Chico Caititu, Ageu Lobo e Pedro Braga, o vice-presidente da comunidade, estão no caminho da extração de ouro, madeira e palmito. Sem apoio do Estado, eles colocam o seu corpo na linha de frente, para cumprir a lei e impedir que a floresta e o rio sejam destruídos. Atrapalham os negócios que começam como crime, mas depois tornam-se legalizados. Que têm uma face local, mas se ramificam pelo país – ou a madeira não chegaria ao comércio internacional e o ouro não entraria no mercado financeiro.
 
“Nosso maior sonho é continuar defendendo não só Montanha e Mangabal, mas o Tapajós e a floresta”, diz Ageu. “É muito duro pra nós saber que a gente não é criminoso, que a gente luta pelo bem coletivo, que a gente defende a floresta e que, por causa disso, a gente está ameaçado de morte, por causa disso a gente virou fugitivo.” Eles lutam por Montanha e Mangabal há muito, mas é a primeira vez que assumem ter medo de morrer.
 
Quando ribeirinhos como eles afirmam ter medo de serem assassinados, deveriam ser escutados. Só a escuta pode impedir o horror que é o som de um corpo destruído à bala.
 
3) Sobre a urgência de juntar os pontos
 
Pouco antes de Marielle Franco ser assassinada, Paulo Sérgio Almeida Nascimento, uma das lideranças da Associação dos Caboclos, Indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama), que representa 112 comunidades tradicionais, foi assassinado em Barcarena, a 40 quilômetros de Belém, no Pará. Ele e sua associação denunciaram a contaminação dos mananciais por resíduos sólidos da produção de bauxita de uma das maiores mineradoras do mundo, a norueguesa Hydro Alunorte.
 
Em fevereiro, rios e igarapés foram contaminados por uma lama vermelha e tóxica, causada por um vazamento comprovado pelo Instituto Evandro Chagas e só assumido pelo grupo norueguês bem mais tarde. Outros três dutos irregulares da Hydro Alunorte já foram encontrados. Paulo Sérgio foi a segunda liderança assassinada em menos de três meses na região. Ainda não há conclusão sobre as razões do crime. Outras três mulheres, segundo a Agência de Jornalismo Independente Amazônia Real, também lideranças, estão ameaçadas de morte.
 
Apenas dois dias separam os assassinatos de Paulo Sérgio Nascimento e Marielle Franco, mas as mortes foram apenas timidamente conectadas. Ainda que as geografias sejam diferentes, as lideranças mortas e ameaçadas de morte hoje no Brasil têm em comum o fato de questionarem interesses hegemônicos, confrontarem o crime organizado – o institucional e o não institucional – e representarem novas forças emergentes com crescente influência na disputa do presente.
 
Há muito mais em comum entre uma mulher negra da favela da Maré eleita para a Câmara de Vereadores do Rio e uma liderança cabocla, quilombola e ribeirinha do interior da Amazônia do que qualquer um deles teria com aqueles cujos interesses e privilégios são ameaçados por suas lutas. Mas, infelizmente, os diferentes movimentos têm dificuldades para atravessar as barreiras, também geográficas, e ampliar sua potência de agir.
 
Se os Munduruku e os ribeirinhos de Montanha e Mangabal fizeram uma aliança em nome da própria sobrevivência e da proteção da Amazônia, há uma enorme dificuldade de percepção dos movimentos urbanos de que esta é também uma luta pela retomada da cidade. Há estudos científicos bastante consistentes mostrando que a destruição da floresta atinge direitos básicos, como o direito à água, em cidades como Rio e São Paulo. E é um fato que os mais pobres são os mais atingidos pela mudança climática. Desigualdade e destruição ambiental são temas intimamente ligados.
 
Quando as barreiras são rompidas, há grande impacto. Basta lembrar da reação imediata e truculenta do setor atrasado do agronegócio quando a escola de samba Imperatriz Leopoldinense escolheu o Xingu e a destruição da floresta e dos povos da floresta como tema no Carnaval de 2017. Quem está no poder sabe o quanto as conexões entre as periferias podem ameaçar poder e privilégios.
 
Aqueles que são mortos, como Marielle Franco e Paulo Sérgio Nascimento, e ameaçados de morte, como Chico Caititu e Ageu Lobo, são justamente aqueles que representam novas ideias de ser Brasil. E que confrontam as estruturas de um país racista, desigual e com alta concentração de terra e de renda. Os mortos e os ameaçados de extermínio representam essas ideias também ao conseguir colocar seu corpo em lugares em que até pouco tempo atrás tinham entrada barrada.
 
O melhor – e o mais potente – do Brasil atual são as periferias que reivindicam o lugar de centro. São as lideranças desse movimento múltiplo que estão sendo mortas à bala.
O pescador Elio Alves da Silva, que virou poeta após ser expulso por Belo Monte, alerta que não temos nenhuma força se contamos apenas como um. Mas podemos romper as barragens se formos Eu+Um.
 
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas.
 
Fonte: El País
 
Primeira foto: El País / João Luiz Guimarães
Segunda foto: El País /  Lilo Clareto

 
 
 
No dia 16 de março, em Porto Alegre (RS), foi realizada a Assembleia do CONIC Rio Grande do Sul (CONIC-RS). O momento, sediado na Fundação Luterana de Diaconia (FLD), contou diversas atividades, entre elas, leitura da última ata, apresentação e acolhida dos delegados das igrejas-membro, apresentação do relatório do biênio 2016-2017 e um momento devocional.
 
Durante a apresentação do relatório do biênio 2016-2017, entraram em destaque as ações realizadas no período: CFE 2016 (Campanha da Fraternidade Ecumênica, em 2016), SOUC (Semana de Oração pela Unidade Cristã), Participação no Fórum Ecumênico e Inter-Religioso, Celebração dos 500 anos da Reforma e apoio ao projeto Mobilização RS. 
 
Nova Diretoria
 
Ainda na Assembleia, foi eleita a nova diretoria para a gestão 2018-2019. Eis os novos membros: Edoarda S. Scherer, na presidência, pela ICAR; pastor Adélcio Kronbauer na vice-presidência, pela IECLB; dom Humberto Maiztegui, na secretaria, pela IEAB; pastora Cibele Kuss, na tesouraria, pela FLD. Assumem também, como membros fraternos, o Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), o Movimento dos Focolares e o Fórum Ecumênico no Vale do Taquari.
 
Desafios
 
Os participantes do encontro pontuaram, como desafios para o CONIC-RS, a necessidade do constante diálogo com o CONIC Nacional e com grupos ecumênicos locais que possuem vivência ecumênica e inter-religiosa, além da continuidade de apoio aos projetos em andamento. 
 
Hoje, as seguintes igrejas fazem parte do CONIC-RS: Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR). São membros fraternos: CEBI, Movimento dos Focolares, Serviço Interconfessional de Aconselhamento (SICA), FLD e Fórum Ecumênico do Vale do Taquari. 
 
Com informações do CONIC-RS
Foto: CONIC-RS / Edoarda S. Scherer