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Missão Ecumênica em Dourados, Mato Grosso do Sul

Uma missão ecumênica composta por instituições religiosas do Brasil, América Latina e uma da Holanda, entre elas, o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil), além de organizações de apoio aos povos indígenas visitou Mato Grosso do Sul nos dias 7 e 8 de outubro em solidariedade aos povos Guarani-Kaiowá e em defesa da criação da CPI do Genocídio para que sejam investigados crimes e violência cometidos contra os povos indígenas no estado. Dados do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) dão conta de que, só nos últimos 12 anos foram assassinados 390 indígenas e 585 cometeram suicídio. Este cenário de violência extrema, entre outros fatores, é visto como uma política de genocídio.
 
As instituições também buscaram demonstrar solidariedade ao Cimi, que tem sido perseguido por lideranças políticas locais, e às lideranças indígenas que estão sendo investigadas por uma CPI pela Assembleia Legislativa do Estado. Essa CPI é vista como uma tentativa vergonhosa dos ruralistas no intuito de criminalizar tais lideranças indígenas, além de religiosos, e tirar do foco das atenções às graves violações dos direitos humanos no estado. A missão foi acompanhada por jornalistas internacionais.
 
“Essa missão teve como objetivo dar visibilidade para as agressões sofridas pelos povos indígenas, especialmente os Guarani-Kaiowá; expressar apoio incondicional ao Conselho Indigenista Missionário e falar da necessidade de criação da CPI do Genocídio”, afirmou a secretária-geral do CONIC, Romi Bencke.
 
O presidente do CONIC, dom Flávio Irala, destacou que as famílias indígenas estão sujeitas à violência por estarem perto da rodovia, na rota do narcotráfico. “Essa região ainda não foi identificada, estamos lutando por isso. Os Guarani Kaiowá estão sujeitos a um despejo iminente”, esclareceu.
 
Visita à comunidade Terena Futuro da Criança
 
A Missão Ecumênica visitou a comunidade Terena Futuro da Criança. O grupo formado por representantes de diversas igrejas e organizações de apoio aos povos indígenas foi recebido pelos Caciques Val Eloi e Romualdo. A comunidade começou como uma ocupação. Em 2013, decepcionados por perceberem que não haveria políticas públicas que garantissem o direito à moradia aos povos indígenas, realizaram um ato e ocuparam a área que hoje é a comunidade Terena Futuro da Criança.
 
Os indígenas terenas estão lá há um ano e seis meses. São 54 famílias em uma área de 16.500 m², que já está loteada. A maioria dos indígenas que reside na comunidade trabalha em indústrias da região.
 
O procurador chefe da matéria indígena no estado, Emerson Kalif, mostrou preocupação com a causa indígena e principalmente com o genocídio do povo Guarani-Kaiowá. Kalif também manifestou apoio ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que sofre grave processo de criminalização pelo lobby de fazendeiros. Há uma proposta de CPI contra a organização na Assembleia Legislativa do MS.
 
O procurador afirmou que sua atuação tem se baseado na efetivação dos direitos dos indígenas, independentemente de qualquer posicionamento ideológico particular. “Precisamos atuar indo às comunidades, conhecendo a realidade e não pactuando com qualquer ação criminosa, menos ainda com a violência armada, fora da lei”, observou.
 
Ao lembrar de Oziel Gabriel, terena morto, em 2013, por arma de fogo em uma reintegração de posse na terra indígena de Buriti (MS), o procurador foi às lágrimas. Ele reviveu o que chamou de cena de guerra, em que a Polícia Federal se mostrou despreparada para lidar com a situação de conflito. “Entre todas as etnias, se sabe que as condições de vilipêndio dos Guarani é extrema, mesmo comparadas as de outras etnias do MS, que também sofrem consequências das violações de direitos”, ressaltou. Mesmo assim, Kalif não perde as esperanças: “Vou e volto das aldeias e me sinto muito mais forte. Apesar de ver a falta material, sei que isso não importa tanto para eles, desde que possam dividir alguma alegria e pequenas vitórias”.
 
Saiba mais sobre a Missão Ecumênica
 
A atual conjuntura nacional tem revelado, entre outros retrocessos, a ofensiva direta contra os direitos e contra a existência dos povos indígenas. Com perplexidade e muita preocupação, acompanhamos o massacre que se instalou em Mato Grosso do Sul, promovido por latifundiários locais, defensores do agronegócio devastador. A omissão do Estado tem permitido que o conflito se agravasse, negando a indígenas e a pequenos proprietários não indígenas o direito à vida e à dignidade.
 
Conforme dados do Conselho Indigenista Missionário, só em Mato Grosso do Sul, nos últimos 12 anos, ao menos 585 indígenas cometeram suicídio e outros 390 foram assassinados. A violência instalada demonstra que se trata de uma política de genocídio. De modo especial, tem sido vítima a nação Guarani Kaiowá. Diversos Tekohá tem sido atacados (por exemplo, Ñanderu Marangatu, Guyra Kamby’i, Pyelito Kue e Potreiro Guassu). Nas últimas semanas, desde o assassinato do líder Guarani Kaiowá, Simeão Vilhalva, três indígenas foram baleados por arma de fogo, vários foram feridos por balas de borracha e dezenas de indígenas foram espancados. Em uma única ação, pistoleiros e jagunços contratados por latifundiários amarraram 26 indígenas, incluindo pessoas idosas e os deixaram, depois de espancados, à margem da rodovia.
 
A terra do Mato Grosso do Sul, tomada pelo agronegócio, está sendo regada pelo sangue indígena que reclama a demarcação das suas terras. Por outro lado, igrejas e movimentos sociais, que levantam sua voz em solidariedade aos povos indígenas, têm sido vítimas de processos de criminalização. O Conselho Indigenista Missionário tem seu histórico desconsiderado e está sendo vítima de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), aprovada pela Assembleia Estadual de Mato Grosso do Sul, da qual fazem parte inúmeros deputados latifundiários.
 
Diante desta situação alarmante, o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), a CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço) e o CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) convocaram igrejas, organismos ecumênicos e organizações que atuam na defesa de direitos para uma AÇÃO ECUMÊNICA EM APOIO AOS GUARANI-KAIOWÁ, ali representando os povos indígenas que, a cada dia, tombam em solo brasileiro.
 
 
 
 
 
 
 
CONIC com informações da CESE e do
Fórum Unitário dos Movimentos Sociais e Sindicais do Campo e da Cidade
Fotos: CESE